29 dezembro 2011

Também no Natal, Camões

Tanta, tanta coisa se diz, se canta, se reza, se escreve, se lê sobre o Natal e o que a esse acontecimento anda ligado e ainda há possibilidade de alguém dizer « o quê ? ele também ?» e o «ele» é nem mais nem menos que CAMÕES. Ora leiam :
DOS CÉUS À TERRA _ dos céus à terra desce a mor beleza,
une-se à nossa carne e fá-la nobre-
e sendo a humanidade dantes pobre
hoje subida fica à mor alteza.

Busca o Senhor mais rico a mor pobreza
que a no mundo o seu amor descobre
de palhas vis o corpo tenro cobre
e por elas o mesmo Céu despreza.

Como? Deus em pobreza à Terra desce.
O que é mais pobre tanto lhe contenta
que este somente rico lhe parece-

Pobreza este presépio representa.
Mas tanto, por ser pobre, já merece,
que quanto mais o é, mais lhe contenta...

Este nosso "príncipe" sabia do que falava no seu conhecimento da pobreza e como vemos sabia bem o que sentia neste reconhecimento da cristã preferência pelos pobres !






20 dezembro 2011

Uma semana antes do Natal

Assim como nem tudo são alegrias, também nem tudo são tristezas nesta vida que temos para viver. ! ! ! Com notícias arrasadoras a caírem-nos sobre quaisquer réstias de bonomia ou esperança em cada contacto com seja o que for que fale com ou para o POVO, era para estarmos agora encolhidos nos nossos cantos, todos murchos e cinzentos sem vontade de viver, quanto mais de festejar !...Pois não é que invertemos a marcha e cada um abriu sorrisos como janelas para o belo "jardim" que é o gostar da VIDA e de vivê-la agora e já, já que é NATAL ?Então começámos a visitar-nos uns aos outros, a ir ao encontro de coisas bonitas de se ver, a recordar sem lágrimas coisas alegres ( algumas até cómicas ) de passados envelhecidos, a arejar fatiotas bem bonitas que haviam deixado de apetecer... e tudo simples,tudo fácil, sem constrangimentos... Vieram ver-me pessoas que quase tinha esquecido, chamaram-me ao telefone pessoas que me pareceu chegarem de outro planeta, convidaram-me para almoços (terão compreendido enfim que a minha idade já não permite que aceite jantares ), almoços com ementas preparadas para mim, levaram-me a livrarias e a falar com gente de ljvros, a casas de chá e margens do Tejo e, cúmulo dos cúmulos,levaram-me a ouvir música e a revisitar Lisboa ao
sol...Tudo isto dito na primeira pessoa quase não dá para recordar quantas pessoas estavam em todos estes cenários, mas estavam sim senhor, muitas e risonhas e interessadas e interessantes, conforme os a-propósitos. Estaria realmente um gigante a gritar no deserto que a VIDA é um presente com características divinais ? Certo é que, com a alma mais leve, muitos muitos de nós decidimos entregar-nos a uma espécie de volúpia de AMAR e com o peito límpido e aberto estamos a abeirar-nos da celebração da festa milenar da chegada da ESPERANÇA...

14 dezembro 2011

CONCERTO DO CORO DE CÂMARA DE LISBOA

Dia Mundial dos COROS, 11 de Dezembro de LISBOA.Basílica dos Mártires.O Chiado como uma festa. A animação de inúmeras pessoas risonhas, leves, falando alto, encontrando-se e desencontrando-se na entrada e saída de todas as lojas que se iluminaram e abriram portas para receber visitas... Desde o Largo de Camões ao Chiado, ao São Carlos, à rua do Almada e por todas aquelas redondezas pensou-se e armou-se festa , o que me fez alegremente recordar as tardes de compras de Natal da minha juventude, com a minha Mãe e com amigas, e em que por remate nos íamos sentar estafadas em volta de uma mesa na Império ou na Garret a tomar chá ou chocolate com as respectivas torradas. Como a chamada Baixa entristeceu, na mudança de tipo de vender e comprar que se foi instalando durante todos estes anos! Porém neste domingo de agora foi uma linda recordação e um magnífico introito para o principal do dia : o concerto do CORO DE CÂMARA DE LISBOA. A escolha do magnífico palco barroco que é a Basílica dos Mártires foi muito feliz pois quanto a mim esta é uma época barroca por excelência e as peças que na primeira parte foram interpretadas creio que também coincidiam com este conceito. Um coral de "anjos" diria eu, num ambiente próprio. Prelúdio de uma quase bem-aventurança a sensação que trouxemos connosco, no ressoar daquelas vozes que eu não tenho nenhuma reserva para as qualificar de inebriantes...



13 dezembro 2011

APESAR DE... (GAUDETE !)

Dói por dentro,
na alma,
esta certeza
de ir reconhecendo
os meus pontos finais.

Perfila-se-me crua
impiedosa
esta constatação
de se estarem esboroando
os meus Natais.

Não mais presépios com Deus pequenino
e seus focos de luz
direccionais.
Não mais o aroma do pinho
recamado de bolas e festões,
nem mesmo as braçadas do azevinho
agora irrepetíveis...

Tudo ficou por aí,
disperso pelos caminhos invisíveis
do eu deixar
perder-se o gosto e o jeito de enfeitar.

Resta-me apenas,
em forma de cristais indefiníveis,
um polvilho de lágrimas que brilha
se acaso me ponho a recordar...

08 dezembro 2011

MISTÉRIO

Está quase vencida a metade do tempo de meditação especialmente votada ao MISTÉRIO religioso do NATAL. Acendemos vela a vela por semana a semana.E a nossa arte ou capacidade semiológica soube encontrar vários sinais que mais não são senão o extravasar da nossa intrínseca e nunca satisfeita necessidade de encontrarmos quem nos ame, quem nos comprenda, quem nos "mime", quem dê às nossas vidas a substãncia que valerá a pena "salvar". Afinal procuramos sempre esse enigmático MENINO JESUS que acalentamos numa avassaladora onda de ternura e chega, em cada ano, sempre quando parece que mais precisamos do calor de um amor como não há... Lembro uma passagem de GEORGES BERNANOS:O INFERNO É JÁ NÃO SE PODER AMAR.Tenho esta constatação de memória e, embora ela me ocorra muitas vezes, em circunstâncias da vida para mim sempre surpreendentes por imprevisíveis,parece-me que ,agora, ela surge com toda a propriedade, como uma verruma a perfurar todos os meus gestos íntimos de boa vontade e alguma confiança ainda...
Sendo este o dia de celebrar a espantosamente misteriosa CONCEPÇÃO que haveria de nos oferecer a fonte de todas as esperanças, não podemos deixar de reconhecer que uma das sustentações maiores de todo este maravilhoso alvorecer da nossa fé e religião, é a HUMILDADE.

Estamos num mundo e num tempo em que « é demasiado fácil falar de pobreza espiritual e encher a boca de palavras piedosas, e depois não ter falta de nada, ter uma casa segura, despensa bem fornecida e várias contas no banco.»( do Irmão CARRETTO ,com. de Jesus) e perante a dor de assistir a um tal extremar de posições à nossa volta, mais denso se nos mostra este doce mistério do NATAL mais desejamos envolvermo-nos nele, como nestes silenciosos dias de nevoeiro que quase miraculosamente nos têm sido oferecidos...

27 novembro 2011

1ºDOMINGO DE ADVENTO - 2011

Porque nos deixais, Senhor, desviar dos vossos caminhos e endurecer os corações...? todos nós caímos como folhas e as nossas faltas nos levavam como o vento... ( ISAÍAS ) Deus do universo olhai... e vede,visitai a vossa vinha, protegei-a, já que a vossa mão a plantou ! ( Salmo 79/80)... fostes enriqecidos em tudo, em toda a palavra e em todo o conhecimento ( São PauloAOS CORÍNTIOS )... Acautelai-vos pois e estai alerta .É o que vos digo a todos:VIGIAI ! ! ! (( de JESUS aos discípulos, segundo São Marcos )
Todas as leituras da liturgia de hoje nos trazem eloquentes conselhos expressos de maneira .que parecem consequentes da nossa vida de agora.
Irão eles ser o leitmotiv deste ADVENTO que começa agora ?

26 novembro 2011

Passeio Outonal

Mata da Margaraça -Arganil


Entro dentro do Outono
pela floresta
que se enrola na bruma
e, túmida de vida,
vai macerando musgos e bolores
opaca, densa,
quase adormecida...
Pelo chão, as velhas folhas desmaiadas.
E, ao passo dos meus passos silenciosos,
escuto estalidos breves
e crispados
de coisas que não esperavam ser pisadas-
Bagas vermejhas, cachos entre espinhos
flamejam, capciosas,defensivas,
a proteger nas sebes os espaços...

Mas são os cogumelos insidiosos
quem se esconde pelos cantos mais discretos.

Os tons de verde todos se matizam
sob a abóbada fulva e acobreada
dos plátanos antigos como catedrais !

Adormece a floresta a aquietar-se
pra espessas, longas, noites invernais...

Cumprem-se os ritos, místicos, secretos,
de donzela a guardar-se
para as festivas bodas estivais ! ! !...


do meu livro SINESTESIAS

20 novembro 2011

Fim do Ano Comum

Digamos que o ano litúrgico também tem as suas estações que se vão sobrepondo às estações meteorológicas, existindo aliás entre umas e outras umas relações e interdependências bastante curiosas.Hoje, este domingo, celebra-se o fim deste ano litúrgico com a costumada homenagem a Cristo-Rei, e, no domingo próximo iniciamos um novo ano com acelebração do Advento.Esta será uma fase de quatro semanas em que os católicos nos prepararemos para festejar o nascimento de Jesus com todas as inerências que lhe são próprias, seguindo-se as épocas do Natal e Epifânia . E, quando o inverno já ameaça deixar-nos, começa a Quaresma que longamente nos vai aproximando da Páscoa. Já muitas vezes cheira a verão quando celebramos o Pentecostes e logo depois começa a numerosa série de Domingos Comuns cujo termo,por este ano, foi hoje.
E em boa hora .porque o "comum" destes últimos tempos foi uma tal dureza de relações no seio do comum dos homens que os fez quase descrer da misericórdia divina...
Dizia o salmo 22 cantado hoje :O Senhor é meu pastor... ... fez-me descansar nos prados verdejantes, conduziu-me às fontes mais puras e lá restaurou as minhas forças... ... Apenas quero recolher-me na crença de que todas as orações que por mim possam ter chegado aonde me guarda o meu pastor me tivessem mesmo assim "restaurado" porque nem quero imaginar o que me estaria destinado, sem essa refrescante condução. Que poderemos todos nós neste mundo de agora mesmo, se só contarmos com a nossa tão desencorajada humana condição ?
É pois ainda com esperança que partimos para o Novo Ano que para nós começa agora.

13 novembro 2011

Os talentos e a preguiça

Logo agora que não deve haver nenhum português consciente que não esteja a pôr a si próprio a vontade de resolver o problema"" o capital versus o social, ""todos com a cabeça a latejar pelo extenuante ruido das respectiva demonstrações valorizadoras que nos assediam e pretendem assustar, logo agora, dizia eu, traz-nos a liturgia uma parábola contada por São Mateus cuja "moralidade" é, nem mais, nem menos : a todo aquele que tem dar-se-á de sobejo e àquele que não tem até o que tem lhe será tirado. Ao servo inútil lançai-o às trevas...... aí haverá pranto e ranger de dentes .Uma vez mais me choca a dureza que os evangelistas colocam nas atitudes e nas falas de Jesus . Como diria alguém noutros a-propósitos, este não é o meu Jesus.Contudo foi-me feito entender que o que na verdade é aqui posto em destaque é o quanto somos obrigados a não "adormecer" sobre os talentos que nos foram atribuidos pelo Senhor nosso Deus, como qualidades inatas, capacidades úteis, não as enterrando para não se perderem, como fez o desgraçado da parábola. Entendo, mas fico-me numa atitude de discordãncia quanto ao não se cuidar zelosamente em explicar muito, em profundidade e em extensão, o que a nossa amorosa compreensão de Jesus nos permite colher desta "moralidade", pois com tanto ressentimento à flor da pele como agora a época política está estimulando, torna-se perigosíssima a não compreensão do« pranto e ranger de dentes» daqueles que não souberem fazer render as excelsas qualidades que Deus lhes deu...Será bom que todos os cristãos COMPREENDAM que não é próprio da sua fé ser preguiçoso...

07 novembro 2011

Revisão





Pode passar-se uma inteira semana mergulhada numa nuvem de recordações,receando perdê-las, deixar escapar alguma, sentindo que a sua falta seria a aridez de um deserto ou uma forma de vida a que poderia dar-se com propriedade o nome de solidão ?

01 novembro 2011

1 de Novembro




SAUDADE,
GOSTO AMARGO DE INFELIZES, DELICIOSO PUNGIR DE ACERBO ESPINHO...



( o velho romantismo que naquele tempo ainda era delicioso, embora amargo...)

30 outubro 2011

...nem vos deixeis tratar como doutores...

Estamos habituados a dizer «...como São Tomás, ouve o que ele diz e não faças o que ele faz»
Ora hoje ,São Mateus vem dizer-nos mais ou menos isso a alturas do capítulo 23 do seu Evangelho :«...não procedais segundo as suas obras,pois eles dizem e não fazem.Ligam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos homens, mas eles próprios nem com um dedo os querem deslocar... ... ...gostam do primeiro lugar nos banqu etes e dos primeiros assentos nas sinagogas, das saudações nas praças públicas e que os homens os tratem por Mestres...» relatando palavras de Jesus referidas aos fariseus e aos escribas e proferidas num incisivo apelo e conselho de humildade à multidão que o seguia. Ecoam estas palavras pelos infindos espaços de tempo e de lugar! Parecia-me ouvi~las sair da sua boca,hoje mesmo a invectivar todos esses descendentes dos fariseus de então e ,com vergonha ,teci uma oração só a pedir uma antiquíssima luz que ainda possa iluminar toda a opacidade de todos os nossos densos pecados de presunção...

28 outubro 2011

outubro

Foi-se escoando este OUTUBRO, como não me lembro de nenhum outro assim na minha vida. Enganador, disfarçado, surpreendente, traiçoeiro mesmo, ouso dizê-lo... Na minha sede da frescura que o violento verão sempre nos rouba, abri a minha janela matinal do primeiro dia deste outubro e deparei com a minha árvore, a minha rua, envolvidas naquele nevoeiro com que sonho o ano todo!... Oh como Deus é bom, como Ele é meu amigo que logo,logo assim que pôde me mandou o "meu" outubro na forma em que eu nele me delicio e me revejo ! ! ! Mas como me iludi ! Nessa mesma tarde levantou-se o véu... E, a partir daí, houve sol de novo ardente, houve calor destroçante, secura e fogos nas matas, praias onde incautos se deixaram levar sem vigilantes, um arremedo de dureza sobre homens e animais como nunca se esperaria... E os dias a passarem neste tom até que, quase no MEU dia, desabaram chuvadas súbitas a porem o povo agredido, sem telhados, sem mobílias,tudo levado por ventanias uivantes, sem ninguém entender o como e o porquê do que se estava a passar... Oh meu Deus como há-de o Homem pôr-se de acordo com um Mundo sem as doçuras do meu velho OUTUBRO ? Foi então que se abriu uma cortina a tapar toda a meteorológica confusão e decepção e ,oh meu Deus,toda a ternura de que é capaz o coração dos Homens teceu para mim um carinhoso casulo rodeando-me, envolvendo-me e fazendo pelas suas acções para comigo com que eu já não soubesse mais sequer pensar no meu fofo manto de nevoeiros ideais ! ! ! Que grande Graça ,que decerto nunca mereci, é ter AMIGOS!!!Oh meu Deus, que belo OUTUBRO!

25 outubro 2011

25 de outubro de 1147

Porque será que os bairristas fanáticos do Porto teimam em chamar MOUROS á gente de LISBOA, se os lembrados ( ou não?) mouros foram corridos da Lisboa que queriam para si, precisamente nesta data que ficou na História e até em lendas... Quem não sabe a do MARTIM MONIZ ?

22 outubro 2011

Leitura da imprensa

Está a ser cada dia mais difícil, mais dura, direi mesmo mais dolorosa, a leitura da imprensa diária de que ainda não desisti ´malgré aquele fascínio pelos noticiários televisivos ou mesmo de rádio. Culpa da minha queridíssima professora que está prestes a festejar os seus 93 anos límpidos nos seus raciocínios, memórias e projectos( ! ! !)... Culpa dela, dizia eu, porque ,professora de português, história e geografia em simultãneo no colégio de meninos e meninas que frequentei logo que saí da 4ª classe da chamada Instrução Primária,ela exigia que nos habtuássemos a ler os jornais dos nossos pais, pelo menos uma vez por semana e depois soubéssemos "contar" o que tínhamos lido... Isto, por cerca da época da Guerra de Espanha.
Adquirem- se hábitos, assim . Mas com o que se cresce, o que se vive, com o que tudo se vai formando e desformando , ler os jornais hoje é muito diferente de então. Acontece que agora me está ficando em cada dia uma sensação de boca seca, de garganta apertada e aquela insegurança de não ter a certeza de coisa nenhuma, pelo diz e contradiz quanta vez em duas páginas seguidas... Como poderia eu fazer agora um relato do que li à minha antiga professora para ela fazer dali uma aula ? ... É mesmo aí que está o mérito do "nosso tempo" dir-me -ão :a liberdade da imprensa. E lembro-me de Fernão Lopes e o seu escrúpulo...
Mas todo este "discorrer", porque hoje no meu jornal surgiu algo que adoçou a minha boca (às vezes há horas felizes, como na lotaria). Páginas ou separatas culturais todos eles acham que têm e ao lê-las as sensações não se descrevem facil ou desapaixonadamente. É uma outra história... O meu jornal , ao sábado, insere e assim lança alguns novos poetas, sem barulhos, sem alardes, sem pretensões, e eu gosto deste jeito simples de se nos oferecer...E precisamente estou aqui a chamar a nova poetisa ao convívio dos meus leitores, porque me caíu tão bem lê-la no meio de tanta"desgraceira" que me sufoca. Ora leiam :
LAPINHA -PARA LORENA
Às 21h25a ilha fecha~
o último pássaro metálico
deixando para trás os portões
encerrados das lagoas.
É um tempo de aranhas
esquecidas das teias, aves
suspensas no voo,amigos
que invocam em silêncio as estações
e recrdam ainda a Criação,
camada por camada.

Sobre os homens desce então
uma redoma de nuvens,que a estrela
única vem selar.Cada um risca
as fronteiras do sonho com as sebes
de hortênsias ou muros de basalto,
esperando depois que as três
voltas do milhafre não o surpreendam
entre as espigas altas do mundo.

E o medo torna-se subitamente
navegável, mar de minúsculas
e carnudas conchas estendido
a nossos pés, para que possamos
sempre caminhar sobre
as águas.

INÊS DIAS DO JORNAL PÚBLICO

15 outubro 2011

António Lobo Antunes

Em 1980 conheci António Lobo Antunes. Não sei se foi coincidente com a sua estreia, mas dele dizia João de Melo em 1979 « emerge num repente... ... a firme crença nos valores sensíveis da amizade, a paredes meias com outros seres sem destino certo à sua volta. ... dá-nos de estreia um dos romances mais importantes desta escrita entre nós ainda escassa do após-abril e da liberdade criadora que daí para cá se perspectivou »Era isto a propósito do Memória de elefante.Ponto de partida para a minha admiração pelo autor, de tal forma confirmada com posteriores leituras que muito me ouviram os amigos protestar pela nunca atribuição do Nobel a ele no lugar de outros...


E fomos vivendo.Tanta, tanta coisa foi acontecendo e nos surpreendendo !... Quanta vez fui à minha estante tirar o Memória de elefante só para reler, a propósito de coisas acontecidas, aquela frase com que Lobo Antunes "apadrinha" o livro e que é da sabedoria do DÉDÉ quando foge da cadeia «Há sempre uma abébia para dar o frosque, por isso aguentem-se à bronca »...A nossa forma de sermos os seres sociais dos anos 80 levou impulsos que nos arrastaram por onde nunca pensáramos ir. Mas provavelmente não nos "educámos" para uma outra era.. Todos temos algo de DÉDÉ..E algumas décadas de vida ajudam muito a arranjarmos a nossa pópria maneira de nos "aguentarmos à bronca". Lobo Antunes foi ontem entrevistado pela TV nos a-propósitos que a estação arranja e consegue.E o que vimos e ouvimos foi talvez um dos melhores e mais trabalhados personagens que o autor alguma vez construiu. Do homem polido pela vida, desapareceu a essência pura e ficou uma elaboradíssima construção, entre o "blasé" e o humilde- superior ou superior-humilde que fiquei a pensar talvez sejam a abébia para ele dar o frosque...Aquela sua cabeça é bem capaz de imaginar isto...

09 outubro 2011

Metáforas

As metáforas desconcertantes da liturgia de hoje : Deus põe à nossa disposição um maravilhoso banquete do tipo banquete nupcial para tomar parte no qual apenas nos é exigido um traje adequado à festa, e nós, criaturas ocas e inconscientes inventamos razões e pretextos para não aceitar o convite... E então ?...
Os meus alunos de Português, já no 8º ano se entendem bastante bem com a desconstrução de metáforas...

05 outubro 2011

Toda a doçura de um amor que ama..





De como me sinto roubada, enganada, agredida, com este ,único em minha vida ,início do MEU mês de Outubro com todas as fogueiras do universo a vomitarem labaredas para cima de nós, é a única conversa que actualmente consigo desenvolver... Todas as doçuras calmantes de todos os desesperos do Verão que o Outubro me costuma oferecer me foram este ano violentamente arrebatadas e suspeito de que em jeito de penitência prévia... Por isso rebusquei até agora em todos os "dias de..." na febre de encontrar premonições suaves ou consolaçõees tranquilizantes. E não é que encontrei na net em dia de São Francisco e dos seus "irmãos lobos, pássaros e todos mais" esta espantosa expressão de doçura e encantamento que aqui quero deixar...? E que eu invejo não poder também arvorar...

01 outubro 2011

Dia da Música

Deixo entrar pela casa
a grande música.
Bach, Orff, Vivaldi ,
Beethoven e Rodrigo
Dvorak ou Falla...
E Tchaikovsky !...
E Grieg !...

Entram em catadupas,
são cascatas
e despenham-se
e enrolam-se em espirais
como tornados !
Envolvem
e revolvem,
como um alagamento
ou uma convulsão...


Quando,subitamente,
se desdobram e espraiam,
e toda a cachoeira se desfaz,
são, borbulhando em espuma,
um mar manso e aberto
um remanso de rias
ou represas
ou lagos...

E o que fica no ar
é parecido co'a paz
que vem depois
dos prazeres saciados...


Do meu livro Sinestesias

25 setembro 2011

...às vezes, só orando !

SALMO 24

Fazei- me, Senhor conhecer os vossos mandamentos´
ensinai-me os vossos caminhos
dirigi-me na vossa verdade.
Vós sois o meu Deus e salvador,
eu vos espero.

Recordai, Senhor, a vossa ternura
e a vossa bondade que são eternas.
Não vos lembreis dos meus pecados,
do mal da minha juventude.
Recordai-vos de mim com misericórdia
porque vós sois bom.

Sois bom, Senhor, e justo,
reconduzi ao caminho os pecadores,
orientai os humildes na justiça
e ensinai aos pobres o caminho a seguir...


Palavras da liturgia de hoje, as mesmas que andaram nos meus cuidados e nas minhas orações de toda esta semana tão densa de cuidados...

17 setembro 2011

Fonte de vida

Éramos todos jovens, a começar vidas de gente crescida. O meu marido e o meu cunhado tinham nos genes os sonhos de voar e com eles modularam as suas vidas. A minha cunhada e eu éramos meninas cultas, eu pela Universidade, ela por algumas "mademoiselles" e "frauleins" que lhe deram para completar o que aprendera nas "freiras". Vestíamos bem, "recebíamos" bem, fizeramos cursos de culinária especiais e também de Decoração Floral. Tinhamos casas bonitas e, cada uma, suas amizades e as dos nossos maridos. A minha cunhada foi mãe e foi sendo uma alegria para a qual eu não estava destinada. Quando nasceram os gémeos, eram uns bébés grandes, loiros e carequinhas e já vieram encontrar duas manas. Nunca vi uma barriga de grávida tão grande como a que gerara os gémeos! Pois se eles eram enormes e perfeitos... E mais tarde ainda veio outra mana... E cresceram e a Vida foi vida... Houve casamentos, houve diferentes acontecimentos e os rapazes lá foram chamados para a Guerra que era daquele tempo, em África. Um deles nunca chegou a ir.Teve um brutal acidente de moto nas vésperas da partida e seguiram-se três meses em coma profundo com a Mãe à cabeceira. Com a Mãe à cabeceira, houve viagens, houve peregrinações (Lourdes e a sua piscina !), houve toda a espécie
de tratamentos possíveis na época. Um dia a Mãe deu conta de que havia um dedo de um dos pés que mexia... Pronto ! Veio o renascer... E uma fé inabalável deu forças a toda a família para acreditar. Foi possível, sim, uma nova vida. Com tantos cuidados, medos, paciências, desculpas e perdões, mas houve de novo um par de gémeos ,que a vida tornara agora tão diferentes, mas em que sempre o mais forte procurou proteger o outro... Meio século de vida. De novo o transporte veloz que pode matar... Uma ravina, umsalto para a morte ! ! ! A MÃE... Dolorosa fonte de Vida... E a Vida que nós vivemos, como começou radiosa, promissora, fútil... Como imaginar, então, que "isto" ia ter que ser assim ?...

11 setembro 2011

11de Setembro

Pois é ! Fui ver.
Faz hoje um ano, neste meu modestíssimo repositório de pensamentos que se chama blog, havia umas lindíssimas fotos que obtive a tentar guardar para mim, como é costume, uma paisagem adorável da Quinta dasTorres em Azeitão,tomadas numa tarde setembrina como este ano, por enquanto, ainda não houve nenhuma. E,quase colado a esse post, lá está aquele que foi escrito já noutro mundo, num mundo virado do avesso, ali mesmo, juntinho àquele em que eu gostava de poder sempre viver... Dera-se há tanto ano aquele inacreditável 11 de Setembro e ainda nos fazia tanta dor !!! E ainda nos vai doendo este ano e eu creio que vai ficar assim esta chaga sem cura, para um sempre que não somos capazes de tirar das nossas vidas... Estranho,não é ? Nem tenho americanos como amigos especiais, nem deles conheço mais que o que me tem mostrado o cinema e a literatura, regozijei-me com o advento do Obama e com o regresso a Portugal de uma pseudo-prima que pelas Américas se fez gente e gira mesmo...Mas o que me dói vai mais fundo e não tem nacionalidade... Como somos realmente nós HOMENS ? capazes de quê, de quanto ? É tudo ódio cá dentro de nós ? E este MUNDO lindo que por aí está á nossa disposição, que faremos com ele de degrau em degrau até um último que poderemos encontrar sem esperar, sem nunca podermos acreditar se será ou não possível parar ? ...

02 setembro 2011

ma "chanson" de Septembre

VERS UN SEPTEMBRE
GRIS
QUE PERSONNE N'ATTENDAIT
OUVRE GRAND LES VOLETS.
LAISSE, LAISSE
GLISSER
TON REGARD FATIGUÉ
DES EXCÈS
DE LUMIÈRE
ET DE TOUS LES EXCÈS-
SI TON REGARD SE BRISE
CONTRE UN NUAGE ÉPAIS,
LA DOUCEUR DE LA PLUIE
DONT TON ÂME AVAIT SOIF
LAISSE-LA T'EMBRASSER.
QUE TON ÂME
ET TON CORPS
TOUS LES DEUX ILS SE GRISENT...

31 agosto 2011

...túnica flutuante de sombras

O MEDO, QUANDO NOS EMPECE, VEM DE LONGE, TRAZ UMA POEIRA DA VIA LÁCTEA,NA TÚNICA FLUTUANTE DE SOMBRAS... - Teixeira de Pascoais.

29 agosto 2011

um jogo?

Não gosto de AGOSTO. Ainda bem que estamos a vermo-nos livres dele pelo menos por um ano.
Para mim não é um mês A gosto. Quando ele se aproxima, já há na minha alma umANTEgosto de coisas que me não são agradáveis. E se me falarem na 5ª feira proxima,verão abrir-se na minha face os risonhos sinais do Após AGOSTO que perdurarão Até Agosto do ano que vem. Com gosto receberei todas as maldades meteorológicas que os outros meses me impuserem, mas sempre foi e há-de ser a Contragosto que receberei este mês petulante e impositivo que, além de nos obrigar a deixar a nossa casa, a nossa cama e o bem-bom que nos conforta, nos dá De(s)gosto(s) de ordem estética ( oh! as gorduras e as magrezas!), de ordem gastronómica( os petiscos e as enterites!), e até intelectuais ( as presunções das leituras !)...Desde agostos,EM gosto eEntregostos vários, Paragostos muito meus reservados ePerantagostos que às vezes até tiveram do bom e do melhor, Semagosto dessorado ou mesmo azedo, Sobragostos me tentei tanta vez encontrar Sobagosto, Trásagostos, que outros fizeram para mim...!
...e dizia um meu aluno, há anos, que "isto das preposições" só se "aproveitavam" duas ou três !

24 agosto 2011

O diabo à solta ?



Aprendi com a gente do mar da praia da minha juventude que, sendo habitualmente este dia exageradamente ventoso, isto era porque em DIA de SÃO BARTOLOMEU anda o diabo á solta. E hoje é dia de São Bartolomeu. Porém, pelo menos em Lisboa, não há o mínimo vento. Apetece-nos pois pensar nesta relação diabo - SãoBartolomeu, e pôr "preto no branco" o que sabemos ou julgamos que sabemos sobre esta estranha associação.
Na História de França, esta relação é um dos seus capítulos negros, uma vez que foi neste dia a grande matança de São Bartolomeu ou matança dos huguenotes.Nada mais, nada menos do que o resultado de pequenas e incessantes desavenças de origem religiosa mas em que nunca deixaram de estar interligados os imensos casos de intriga política que tiveram na sua génese uma Catarina de Médicis, raínha fria e calculista, mãe de dez filhos, principes fracos na saúde e na governação, que se foram sucedendo criados no ódio de sua vigorosa MÃE aos protestantes ( era a plena REFORMA, com Calvino, iniciada por Lutero na Alemanha) . Com o conseguido consentimento do filho Carlos IX, foi dada ordem para um dos mais espantosos e cruéis massacres de toda a História na noite de São Bartolomeu, com vista a exterminar os protestantes franceses. A uma selvajaria destas só podia seguir-se uma série de guerras civis e tanta crueldade marcou fundo o coração do mundo de seiscentos. Daí nasceria a ideia do tal diabo à solta que chega ainda até nós ?
Refrescante é a verdadeira campanha que BentoXVI vem desenvolvendo ( lembro o en contro de Madrid, agora mesmo ) em prol da convivência, da generosa e alegre procura do que pode unir a humanidade e torná-la capaz e digna de olhar o outro se não com complacência, pelo menos com respeito e aceitação...

20 agosto 2011

As mudanças e o verão

Parece que se nos foi embora o verão azul, brilhante e soalheiro com que todos sonham, porque, rodando o vento a sudeste, se atiraram sobre a nossa abóboda ,aos montões, rolos de vários tons e espessuras de cinzento e ,tropeçando uns nos outros ,fizeram uma barulheira infernal, antes de,aqui e além, se desmoronarem em chuva grossa, granizada mesmo em alguns lugares. Mas não! Sem marcar a posição hierárquica que lhe é devida, o verão não saía assim, só por umas mudanças de aragens a cheirar a desertos e a orientes... Ele resolveu que agora sim, agora é que era de afogar-nos no tal calor que é tão seu e este ano parecia não haver de vir ! E cá estamos nós, bichos da Terra tão pequenos, sujeitos aos caprichos dos deuses meteorológicos que andam completamente desatinados com as escandalosas sacudidelas a que estão sujeitos eles também pelas intromissões da ciência e das tecnologias todas novas. Mas não dizia já Camões lá da sua cátedra em grande parte empírica que todo o mundo é composto de mudança ?
Bem sei, bem sei que ele tinha aí na sua cabeça outra espécie de mudança. E nós, não temos também a esquentar-nos o verão e sabe-se lá quantas mais estações, motivos da ordem semelhante ou pior àqueles de que Camões dizia que se "perde a confiança"? O verão meteorológico dos portugueses foi realmente para a gente da sociedade comum composto de mudanças,de várias ordens de influências e alguns houve para os quais a mudamça de vida foi real. Lembro ás vezes o Sermão de Padre António Vieira em que ele constatava as mudanças acontecidas no modo de vida da sociedade portuguesa que se instalara no Brasil e naquele seu jeito adagiário de dizer lembrava quem quer mais do que lhe convém. perde o que quer e o que tem, e então eu pergunto a mim mesma se a ganância economicista que tem estado na base deste nosso verão( e não só) terá alguma vez um bom retorno, depois de ter causado tanto mal...

14 agosto 2011

A Cananeia

Hoje, domingo, Evangelho de São Mateus : a mulher cananeia. Ela suplica, gritando a sua aflição e persegue o grupo que rodeia Jesus, sem parar de implorar.Mas Jesus não acha que deva valer-lhe, ouvi-la, sequer... Não é da sua gente, daquele povo que Ele tem por missão salvar. Foi precisa a intervenção dos discípulos para que Jesus acedesse a ouvi-la. E depois acontece aquele diálogo em que mais uma vez a dureza de Jesus nos é mostrada nos evangelhos. Aquela mulher é comparada a um cão ! ! ! Como é possível aceitarmos esta metáfora ?! Quero crer que o evangelista procura de uma forma violenta fazer-nos ver não só o «a tua fé te salvou», como quão grande pode ser o poder da oração. Temos variadíssimos episódios deste género ao longo de todos os evangelhos e como também aprendemos que o cristão não faz "opção de pessoas" e Jesus não a faria, ficamos hoje, uma vez mais, com a convicção de que vale a pena gritar como "o cego à beira da estrada", implorar como a "cananeia", mesmo que as conveniências circundantes nos mandem calar, porque será pela nossa fé que certamente seremos atendidos.

12 agosto 2011

Regresso



Tempo para partir e tempo para regressar...Parafraseando quem, dos tempos de que dispomos, reuniu pontos e contrapontos, qual metrónomo a marcar os compassos desta sinfonia das nossas vidas, o meu tempo de regressar foi este agora.E sempre regresso com prazer, com tal prazer ,que chego a perguntar-me se terá valido a pena partir...
Claro que sim, que ideia !!! Estou a adivinhar o coro dos meus amigos que sempre me acham exageradamente claustromaníaca. Pois ! Estive nada menos do que 18 dias rodeada de "multidões" de seres que desdobraram à minha frente a mais variada e desconcertante panorâmica humana que eu nunca tinha pensado vir a poder observar, em tão curtos espaços de tempo e de localização. Hospedada onde desde há muitos anos sou confortavelmente recebida em épocas de procura de descanso mais espiritual que físico , percebi agora, passado algum tempo de não frequência, que as potentes agências de viagem deste mundo global que habitamos devem ter descoberto aquele ideal centro de repouso , ou não fosse ele obra final apuradíssima de religiosas atentas e delicadíssimas, e então trazem para ali dezenas, centenas de gentes do mundo, desde o Japão ao Brasil, Colômbia e México, passando pelas Ilhas Maurícias, as da Reunião e Canárias e escoando-se pela Galiza, a deslisar em todo oPortugal nortenho, transmontano ou beirão. Como vêm e permanecem alguns dias, são na sua maioria jovens e alegres e acima de tudo se mostram felizes, facilmente se estabelecem contactos atrás de trocas de sorrisos, nas várias salas de encontros, e de cerimoniosas mesuras da parte dos japoneses que sempre as fazem às pessoas mais velhas, mesmo num rápido cruzamento de corredor. Foi pois um mundo repleto de informações aquilo em que se transformaram o que eu esperava serem as minhas calmas e piedosas férias, e isso fez-me regressar desejando agora poder parar para pôr tudo isto em ordem no meu arquivo de memórias .E que bom vir reencontrar a minha paz tendo agora como acessório o tranquilizante pousar do olhar no sono de total relaxamento do meu gato que, desde que regressei ,não me deixa sózinha nem por um momento!

28 julho 2011

As férias por aí...

E então, pronto , estamos em férias ! Porque falo no plural ? É que isto de férias ( feria romana, feira medieval ) adquiriu um tal valor social, um tal valor simbólico, um tal chic, que é mesmo quase uma camuflagem falar-se em merecido descanso,quando ele só o é para uma mínima parcela daqueles que realmente se dão ao luxo de as desfrutarem...E então, como expressão social que as férias são ( especialmente estas de verão ), mal ficaria que não fosse todo o agregado familiar mostrar-se«ó pra nós em férias», parafraseando aquele cómico que tão bem apanha os ridículos todos de todos... Pois no meu micro-agregado familiar até o gato foi de férias e não foi lá qualquer Punta Cana ou Ibiza, não senhor, que o acolheu.Posso dizer que voou mais alto e foi-lhe dado abeirar-se das mais altas figuras da governação , enquanto que a sua humilde dona teve que contentar-se com modestos ambientes de meditação espiritual, longe das tentações de patuscadas ou compras...Assim vai o mundo, esta feira de vaidades que até ,daquilo que pode ser um são retempero de forças ou ânimos exaustos ,faz uma exposição de exibicionismos que,na dura época em que vivemos, não abona muito quem se exibe...

20 julho 2011

Hoje e a Lua



Quem dos meus amigos pensou em mim hoje,DIA DO AMIGO ?
Em 1969, num 20 de Julho assim, foi a minha maior madrugada, como nunca fizera alguma, nem voltei mais a fazer... Apenas e só para ter aquela emoção, às lágrimas ( acredite quem ler) de ver a espantosa primeira pégada, e a segunda, e a terceira, e por aí fora... ...do ser humano na LUA !Todos vestidos de branco, a saltitarem , leves de Gravidade, e auréolados por uma poeirinha branca ou muito clara, aqueles homens poderiam ser os anjos da nossa modernidade, dos sonhos da nossa universalidade, das imaginadas hipóteses de uma aproximação ao Deus da nossa fé... Tão lindo ! ! ! Mais tarde, como sempre acontece, sei-o agora, desmoronam-se os sonhos, ou melhor, as hipóteses dos sonhos... Alguém se lembrou, talvez para que se não perca tudo, de marcar este dia duma certa cor de humanidade e assim se criou o DIA DO AMIGO. Sabiam ?
É HOJE !

10 julho 2011

LIXO

Tenho um velho vício e dele não me envergonho! Quem, dos meus amigos, sabe da sua existência chama-lhe "chucha para os ouvidos"...Como já se percebeu, durmo com uma pequena telefonia sempre ligada, junto à almofada de cabeceira. Por isso, oiço coisas interessantíssimas a qualquer hora da noite e acordo de manhã a ouvir as vozes habituais e as músicas habituais, antes ou depois ou de mistura com notícias fresquinhas, conselhos de bem-viver, coisas da minha fé e religião e meteorologia para utilizar no dia que começa. Eu disse oiço mas às vezes já apenas adivinho pelos sons iniciais aquela música que fica a repercutir-se na minha cadeça e muitas vezes a dar-me uma espécie de incentivo para o dia, muito conforme as coordenadas do meu acordar... Hoje lá apareceu pela enésima vez o Louis Armstrong com o maravilhoso What a beautiful world... Estava ainda um lusco-fusco muito das minhas deshoras matinais e eu fui até à janela que a essas horas tem o concerto privado de uma boa dezena de melros irrequietos por entre a ramaria do álamo que ali vive comigo há cerca de cinquenta anos... What a beautiful world ! ! ! Porque seria que, quando voltei para a cama ,estava irritada, e a congeminar mil maneiras de obrigar certas pessoas a explicarem-se sobre a irresponsabilidade de colocarem no LIXO deles, feito das mais repugnantes imundicies materiais, o nome de um pequeno país onde na Grande Cidade ainda cantam pássaros e se pode ouvir o Armstrong achando que ele tem razão ?
What a beautiful Portugal ! ! !

03 julho 2011

Fim de festas

Há uma cantiguinha muito popular SANTO ANTÓNIO já se acabou/ e o SÃO PEDRO vai-se acabar/ SÃO JOÃO,SÃO JOÃO, SÃOJOÃO, dá cá um balão para eu brincar...E assim a cantar ou a acompanhar em pensamento os que cantavam lá atravessámos aquela maré cheia de festividades de todo o país, pois nem o respeitabilíssimo São Pedro, quase sempre acompanhado do seu incansável amigo São Paulo, deixa de ser festejado, com menores exuberâncias é certo, mas em demonstrações de devoção igualmente populares. Agora que se acabaram as festas, reencontramo-nos todos de novo mais ou menos cabisbaixos a ser levados pelas exigências pagãs de incensar aquela que se arvorou na nossa deusa universal, a ECONOMIA !
Quem diria que nós, o povo português, crente e devoto aDeus, ao Deus das nossas origens e tradições, iria um dia afligir-se tanto por uma questão que ele nunca se havia lembrado de considerar primordial para a sua vida ?
Imersa então nestes pensamentos e seus correlativos inevitáveis, encontrei-me hoje no Evangelho de São Mateus ( 11, 25-30) com esta frase de Jesus «vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, que eu, que sou manso e humilde de coração, vos aliviarei»

Já esta frase me estava a "convidar" quando o celebrante da missa entra na sua homilía e ás tantas nos diz mais ou menos isto : Todos nós, quando chegamos a um ponto de extremo cansaço, desgosto ou aflição ,temos tendência ou para procurar um divertimento, uma distração,ou um repouso físico e a verdade é que aquilo que deu origem ao nosso mal-estar acaba por sempre ficar ,embora abafado,soterrado, e, na primeira oportunidade, volta a "atacar".Quantos de nós, no entanto, não sentimos um enorme alívio quando desabafamos com um amigo que nos ouve com atenção e carinho ?Não é uma sensação repousante e às vezes até proporcionadora do encontro de uma solução ? É nisto que devemos pensar ao ler esta frase de Jesus que aqui se nos oferece como o melhor dos amigos .Foi mesmo o que guardei para mim no dia de hoje.E o que ponho em prática e sei de como é absolutamente verdadeiro.Por isso aqui registo este "pormenor" deste meu dia, com um enorme desejo de que haja quem me leia e siga este conselho.Agora, que há tanta aflição por aí...


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25 junho 2011

Serão na noite de São João

Na passada segunda-feira respirei, ao serão, finalmente, o ar livre daquelas inquietações que nunca consigo deixar de sentir quando os meus meninos vão fazer os seus exames finais. Agora os exames estão feitos e eu ...em férias. Tive este ano pela primeira vez na minha história de professora uma aluna classificada com 20 valores na minha Literatura ! Isto não é vulgar e merece ser explicado. Ela foi,desde sempre, uma aluna brilhante do Colégio Alemão. Nunca precisou de explicações, mas estudou segundo os programas daquele Colégio que, segundo agora soube, não integram Literatura portuguesa. Mas, ao chegarem ao final dos finais, têm que fazer uma prova ORAL dessa matéria, o que no meu entendimento será como uma conexão ao país onde o curso foi desenvolvido. E assim ela veio pedir-me a ajuda necessária para, nesse finalizar de um brilhante percurso, não fazer má figura. Trabalhámos muito,sendo ela realmente alguém com quem dá prazer trabalhar, pela aplicação, pelo afinco, pelo discernimento, pela curiosidade, pelo interesse...Enfim, os JURADOS entenderam dar-lhe 20 valores e eu sei bem que ela os mereceu. Em final de história, vale a pena notar que o Colégio a classificou depois no total do 12º ano também com vinte valores e ainda lhe ofereceu como prémio uma bolsa de estudo que a vai levar agora por um ano para a Alemanha.

E todo este registo aqui surgiu quando eu me abeirei deste teclado na disposição única de falar de São João, por ter visto no principio do meu serão uns delirantes festejos em honra do santo, transmitidos do Porto pela televisão. Como é realmente verdade que a escrita toma conta de nõs e nos dá o rumo, quando menos esperamos ! Mas assalta-me uma espécie de "vergonha" por me ter acontecido tal coisa logo com São João que gritava no deserto que deviamos abandonar as nossas fraquezas, concentrar-nos na certeza de que Deus estava a chegar,sendo humildes e devotos... Vejo-o um quase gigante, imbuído daquilo que profetizava e realmente tão pouco ouvido então . Como agora em tais festanças ! Que derivas se têm dado nas nossas cabeças para não pensarmos nos gafanhotos que ele comia no deserto, quando abancamos a beber vinho e a comer sardinhas em sua honra ?

19 junho 2011

CASAMENTO

Naqueles dias Moisés levantou-se muito cedo e, conforme o Senhor lhe ordenara, subiu ao monte SINAI levando nas mãos duas placas de pedra...( Livro do Êxodo) Estou a ver-me, amiga das madrugadas cedinho, sem barulhos e ainda pardacentas, subrepticiamente a esgueirar-me atrás de Moisés,«o que iria ele fazer ?» e depois aquela nuvem, aquela conversa... Estou a ver-me,... Quem dera ! Subi sim já tão dentro da protecção da Santíssima Trindade, tão grata ao "meu" Espírito Santo, subi ontem a longa nave central do Mosteiro dos Jerónimos engalanada de flores brancas e frescas, e assisti, testemunhei, a união pelo casamento de dois jovens que do seu amor quiseram isso mesmo: que muitos amigos testemunhassem e com eles invocassem as bençãos da Santíssima Trindade para a sua vida a dois, a partir dali... Quão felizes todos ! Mães, Pais, Avós, Amigos... E a vaga dos cânticos soleníssimos a envolver-nos numa espécie de mágica que brotava das gargantas do Choir Voces Celestes transportava-nos por vezes aos tais altos montes - quem sabe? - dos que subia Moisés naquela mesma manhãsinha, ficando ao cuidado dos altos sacerdotes celebrantes o recordar-nos de quanto teremos que subir ainda e mesmo sempre...

13 junho 2011





Santo António de Lisboa
Era um grande pregador,
Mas é por ser SANTO ANTÓNIO
que as moças lhe têm amor.

De FERNANDO PESSOA



Imagem digitalizada retirada do Album comemorativo do 750º aniversário da morte do Santo,publicado em 1982.

12 junho 2011

Pentecostes

«Partos, Medos, Elamitas, habitantes da Mesopotâmia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto...»(Actos 2,1). A minha língua é a minha pátria...(FPessoa) O silêncio é de ouro mas a palavra é de prata - provérbio chinês.
Desde que o mundo é mundo, é oferecida ao Homem a espantosa capacidade de comunicar o que lhe vai na alma, desde os quatro cantos do mundo, em todas as latitudes, desçam-lhe ou não sobre a cabeça umas invisíveis línguas de fogo. O espírito de Deus pairava sobre as águas como nos lembramos, do Génesis, e depois tudo foi tomando forma de irmos sendo criaturas a sabermos coabitar... Pois no que diz respeito à mais completa capacidade de coabitação que é a expressão sonora do que em nós é imaterial, viu Deus que isso teria que ser uma vez mais obra do seu Espírito e o fez pairar sobre nossas cabeças com os atributos que a cada um ajudariam de forma adequada. Para mim tenho que não é só uma a descida do Espírito Santo para este fim e que vai havendo um Pentecostes para cada um de nós... Por isso é que procurei pôr os meus "talentos" a funcionar nesta área dos entendimentos com o meu semelhante...

10 junho 2011

10 de Junho

Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de PORTUGAL !...
Não, não vou por aí...

O PORTUGAL futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos `a raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e a avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas no relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

De RUY BELO - O Portugal futuro

08 junho 2011

Diário versus Blog ?

Foto retirada da Revista brasileira Manchete que publicou em vasta reportagem as primeiras eleições realizadas em Portugal depois do 25 de Abril, para a eleição da Assembleia Constituinte, em Maio de 1975.



Quando era rapariga, daquela idade em que certos romances e filmes mostram ou deixam supôr meninas sentadas, provavelmente a horas certas de cada dia, a escrever «meu querido diário...», eu tive sempre a desconfiança de que esses pontos de partida ou mananciais de "emocionantes acontecimentos", correspondessem a uma qualquer realidade. É verdade que uma adolescente tem naturalmente uma intensa chama deVida sempre a crepitar dentro de si, ateada pelas novidades, as surpresas, os sonhos e as respectivas decepções ou materializações, e quantas vezes tudo isto é caldeado em descobertas inconfessáveis a exigirem um ou uma confidente... sendo então o«meu querido diário...»o único possível. Mas não é menos verdade que o tempo, o recato, a tranquilidade, que certamente eram o que eram, na vida de uma menina dos séculos das minhas avós e dos romancistas em que estou a pensar, não foram mais da mesma forma desde o alvorecer do século XX. Eu desconfiava, como disse, porque, na minha organizção de vida, nunca me vi com espaço (tempo?) para me dedicar a esse exercício sentimento-mental-digestivo-depurativo. Talvez por causa disso virei, nesta idade terceira, em sõfrega degustadora dos silêncios e dos papéis...
Quando, eis senão quando, explode, na minha própria casa, mesmo na minha mesa de trabalho,esta coisa espantosa e absorvente chamada COMPUTADOR ! Com todo o seu séquito de coisas novas com nomes novos, com uma cartilha nova, até com uma ética nova...
Curiosamente,começamos com ele e relativamente à função social do Diário que era intimista e secreto, a inverter todo esse tipo de qualidades, pois o computador como que nos atira para o meio da multidão e o que nele escrevermos pode chegar a todo o Mundo.Mas há a enorme sedução de que, por ele, todo o Mundo passou a poder entrar na nossa intimidade e por ele podemos saber muito mais de tudo, de tudo mesmo, e então ganhamos a apetência de crescer, de ir tão longe quanto possível, de correr atrás do possível leitor, porque começamos a perceber, por comparação, quanto temos para dizer, pessoas do Mundo, já não só eu, esta aqui, no cantinho destas coordenadas...
E falo de mim ou do meu país ou do meu Deus. Falo sim. E às vezes é mesmo um Diário Que eu sei estar a ser lido algures onde eu-pessoa nunca chegarei...
Aquele lindo casamento de amigos ,numa igreja de fulgurante Barroco,a abrir-se, numa tarde doirada, sobre uma panorãmica Lisboa a escorrer para o Tejo, quem iria falar dele senão eu que era certamente a pessoa com menos tarefas a cumprir naquelas ocasiões? E há uma tia no Brasil e um irmão na Polónia que vão poder ler isto que fala dos seus, tão longe !
Haverá muitas vezes um ecoar distante de coisas repetidas, como por exemplo o que se pode dizer de umas renhidas eleições que fazem mudar completamente o cariz das regras que nos vão conduzir e que tão gravosas se nos apresentam, desde o último domingo em que fomos todos marcar com um pequeno signo aquilo que gostaríamos talvez de não ter que marcar.Se faço esta observação é apenas porque o ter que nos dá uma marca de obrigação a que ,tantos anos passados sobre as primeiras eleições por mim vividas quase em festa, não desejaría ninguém ver-se compelido .
Isto tudo faz parte desta nova maneira de ter um «meu querido diário...» Só que estamos no Mundo e é século XXI ... Alguém reconheceria na foto de 1975 (cabelos tornados pretos pela idade do papel da Revista recortada) a cabeça que, desde então, continua sonhando sonhos do tempo dessa iniciação cívico-política, se não existisse este moderno repositório de memórias?

05 junho 2011

Ascenção

... elevou-se à vista deles e uma nuvem escondeu-O a seus olhos.( Actos dos Apóstolos)
Tão simples quanto isto !
E cá ficámos nós a imaginar pela enésima vez a situação. o acontecimento, tentando sem sucesso entender, porque não é alcançável pelo nosso entendimento, pelo menos enquanto estivermos aqui, fora da tal nuvem ...
Dos mistérios da minha religião, este é um dos mais belos, o mais artisticamente depurado, o mais suave, o que nos abre caminhos para Cima, para uma outra Luz.. Talvez o que torna mais autêntico tudo o que quer dizer a palavra ESPERANÇA...
(excerto do meu livro como não tendes Fé?)

03 junho 2011

ONTEM

Foi ontem o Dia da Espiga. Da alegria pagã sobre a fertilidade dos campos até à colagem cristã pela alegria com a maturação da crença na presença de Deus entre os homens, na pessoa de Jesus, porque neste dia os discípulos bem O viram elevar-se e desaparecer no céu, como fruto já suficientemente amadurecido neste território, destas alegrias se gerou a alegria da ASCENÇÃO. O povo entronizou a espiga como simbolo da sua sustentação em pão, mas não deixou de reconhecer em cada oferta da Terra, mesmo nas mais humildes florinhas, um valor simbólico desta alegria de estar vivo, sendo povo desse Deus que com ele até conviveu...
E assim na 5ª feira da Ascenção ia-se dantes colher no campo o raminho de símbolos coloridos e alegres; e como predominavam as espigas, aí nasceu o nome comum dado a este dia.
Se se chegaria a estas colheitas com grandes canseiras,( hoje, nas cidades, compra-se tudo já pronto), se era com sacrificio físico que se encontrava cada símbolo, não sei de história que o conte e não o sei de experiência. Mas não sei e não soube responder a alguém que me perguntou« porque é que "espiga" é sinónimo de coisa enfadonha ou difícil de suportar ?»
Não encontrei documentação que explique esta deriva semântica, mas vou continuar procurando e também deduzindo... Por agora, mantendo a tradição tenho na minha frente o colorido raminho.Também simbolicamente desejo para o povo de Deus, nesta situação tão preocupante deste ano, a verdadeira, sólida, espiga que aqui deixo...

02 junho 2011

2-6-1947



Era ! Era de açucenas brancas o meu ramo de casar. Dezenas delas.

Recordo os riscos amarelos que os seus estames traçavam nas roupas de quem quer que viesse abraçar-me... E um perfumesinho irrepetível...

Ficaram lá, aos pés da imagem de Nossa Senhora. Uma fé, uma acção de graças, uma promessa,tantas esperanças !

Ficaram.

Foi há 64 anos .

28 maio 2011

Que bonito!

Às vezes tenho saudades daquele tempo em que ainda não me tinham ensinado a razão das coisas em si mesmas e a razão pela qual elas vinham até mim daquela forma e não de outra.
Saudades de ser criança, será? De gostar de uma musiquinha e cantá-la (que eu sempre fui muito afinada,diziam-me), de ouvir uma jovem tia dizer versos e chorar se a toada era triste, de ter medo do mar e correr para ele mal chegava à praia, de achar linda a minha professora, e... e...e até começar a ler romances e chorar ás escondidas com as infelicidades das heroínas...
Tudo perdeu esse encanto à medida que estudei e me ensinaram a LER, a ouvir música e a OLHAR para a Natureza, para os Pintores, para os Poetas. Coube-me depois ter de ensinar e jurei a mim mesma não roubar a ninguém aquela inicial pureza de "gostar porque sim" ou "não gostar porque não", antes de escolas, regras, leis...( ou até pretensiosismos de moda) . Ser-se corpo com a emoção é bom Deixemos lá os filósofos e os mestres, e os" que até sabem falar inglês", e os campeões da erudição... Pega-se num jornal e bum!

LÍRIOS

um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada

outras mãos que não as minhas haverá para o recolher

outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar depois a ausência.

Depois nem isso.

Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos

como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos.Esse dia virá.

Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento.

Ou quase assim.


Dispo agora toda esta roupa e escrevo

sem frio nem perda nem desastre.

A partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

lírios crescem no acaso vivo da relva

uma leve poeira se acrescenta ao ar que não respiro.


Chama-se Rosa Maria Martelo e eu não a conhecia!

27 maio 2011

27 de maio

Li em jornais e ouvi na rádio que hoje é o DIA DOS VIZINHOS. Alguém se lembrou ?
Vou fazer uma revisão por outros meus posts de anos anteriores para me certificar se tinha ou não obrigação de lembrar-me disto, eu com a minha teoria da vicinidade...

09 maio 2011

9 DE MAIO

Como foi bonito e aliciante o sonho da EUROPA !
Robert Schuman e Jean Monet, se voltassem a este mundo certamente chorariam os seus trabalhos hoje a desmoronarem-se...
E como eu e outros da minha geração gostámos tanto da "nossa" EUROPA !
Hoje, quando tiver uma hora livre vou ouvir a 9ª de Bethoven,ali naquela passagem. Talvez não consiga evitar uma lágrimasita...

07 maio 2011

Acordo ortográfico aliciador

230 milhões de pessoas a falarem uma mesma língua não é coisa de menosprezar. E assim é a massa humana que dá dinamismo a uma língua que até , di-lo Camões ,no Olimpo foi referida pela «Vénus Bela» nos extraordinários tempos em que os deuses discutiam a sorte dos Portugueses e ela defendia que até a língua por eles falada os tornava dignos do seu respeito pois, ao ouvi-la, «com pouca corrupção crê que é a Latina». Com um tal certificado de origem, com a evolução genealógica que vai acontecendo a todos os seres vivos, com as provas incontáveis da honradez não só de quantos a estudaram e certificaram, como do próprio comportamento dela no seu acompanhar dos tempos, ou da História, como é possível que hoje se permita o esfrangalhar de tanto património ?
Vem tudo isto à tona do meu amor que anda a tentar entender e refazer-se do enorme assalto que foi o Acordo assinado com o Brasil,tão marcado já por esta atmosfera economicista em que vivemos e, no dia de anteontem , mais um dos tais "dias de ", faltou-me o gosto, o apetite, para até com os meus alunos tentar celebrar o Dia da Língua Portuguesa.
E não é que, quase caído do céu, vem ter comigo uma certa editora Construir com um livrinho feito a pensar nas crianças, com lindinhas e apropriadas ilustrações chamadoNOVO ACORDO ORTOGRÁFICO! ?...

04 maio 2011

Comícios

Saturada,
mordaz,
penso em morder-lhes
e zás!!!

Escapa-se-lhes o sentido
do discurso loquaz...
Eles já sabem tudo,
eles sempre souberam
de tudo, tudo...
Mesmo,sendo preciso,
até mudar o Mundo...
...zás !!

Cai-lhes, redonda, aos pés,
a postura doutoral.
A máscara caída
é hedionda,sem sinais de vida...

Bonitos mesmo,os voos dos pardais
a desenharem curvas e espirais
em liberdade...

Bonito mesmo
é o tempo sem idade
na isenta paisagem de uma vida...

01 maio 2011

1 de MAIO

Decididamente já não vão chegando os 365 dias do ano para cada um ser votivo a uma intenção, uma ideia, uma pessoa... A ONU desmultiplica-se a motivar-nos para melhor tratarmos um sem número de coisas muito válidas, mas às vezes acontece que outros já tinham chegado primeiro àquele mesmo dia que ela escolhe para uma sua celebração e então lá ficamos com duas ou três intenções a "acotovelarem-se" num só dia, porque há que contar com os dias santos e com os dias nacionais, pelo menos...
Assim acontece hoje. É o 1º de Maio, dia do Trabalhador. É o 1º domingo de Maio, dia da Mãe. É o 1ºde Maio dia de São José Operário. É o 1º de Maio dia da beatificação de João Paulo II. Isto sou eu a contar só aquilo que sei, que me toca,que vem ter comigo, ou porque sempre soube, ou porque fui aprendendo. Habituei-me com dificuldade a mudar a data de festejar a Mãe,do dia 8 de Dezembro para o 1º de Maio, dia em que já aprendera, havia muitos anos, a festejar aquela faceta de São José, não como o Pai do dia 19 de Março, mas também como aquele que ensinara a Jesus e aos Homens a santidade do trabalho. Pela via,toda outra, das desigualdades entre os homens,introduzi o Dia do Trabalhador no meu calendário de há muito, e, a partir de hoje, ainda emocionada pelo que me foi dado ver através da televisão da grandiosidade de uma beatificação, passa também este a ser um dos marcos do meu 1ºdeMaio.
Karol Wojtyla é beato,para mim é santo! E não é que imagino São José a abraçá-lo com o carinho daquele pai que espera por um seu filho que já devia ter chegado e não é que vislumbro, entre névoas, lá ao fundo, minha Mãe a sorrir...?

25 abril 2011

25 de ABRIL




A soma dos dias 24 e 25 de Abril é para mim uma das piores operações de toda a matemática que, a partir de certa altura, passou a ser estruturante da minha vida. Misto de dores e alegrias, lágrimas e recordação de gritos de alegria pela primeira vez ousados, em plena rua, há uma espécie de cansaço que por demais me vai inibindo, agora. É como se os sentimentos doessem...Como se só o pensamento chegasse para viver, ou a memória... e o silêncio das coisas...

Bem , só ganhei hoje coragem para reler coisas que já escrevi, nos meus livros, nos meus blogs..

Por exemplo, há quatro anos deixei num post coisas do Sementes e Frutos, com fotografias feitas pelo meu marido no 25 de 74. Soube-me bem ir reencontrar-me lá...E para hoje, apenas mais um sinal :um grande, simbólico e radioso presente que me trouxeram logo de manhã, muito cedo, refrescante , a explodir de alegria ali e agora a encher-me a casa, partindo de uma grande jarra bem no centro da sala...

24 abril 2011

24 de Abril e também Domingo de Páscoa


DO AFAGO


Do afago, a memória, o arrepio, a mistura da pele e o sentimento. Sempre, lá bem no fundo, o ser carente ! Sempre, seja animal ou seja gente, fica aquele cordão umbilical...Um milagre da mão que tocou docemente, modificando, só pelo tocar, toda a deriva de uma certa história...

22 abril 2011

Sexta-feira santa

De ALEXANDRE HERCULANO: amo-te ó cruz... ... ... quando junto ao cipreste alvejas...

Fotografia tirada por mim em Fátima, no Calvário dos Húngaros

21 abril 2011

Quinta-feira da Semana Maior

Era uma devoção, não sei se um preceito, mas surgiu hoje na minha memória com uma doce e triste sensação de saudade : neste dia de quinta-feira santa costumava ir com a minha Mãe fazer o que se chamava "visita" a sete igrejas que, embora já prontas para a celebração da ÚLTIMA CEIA, estavam de portas abertas para receber estas visitas dos fiéis. Cresci e não me apercebi de quando é que essa prática começou a ser abandonada. Nunca mais ouvi que isso se fizesse em alguma parte. E, perdida a recordação, também foi perdido o interesse por procurar saber a razão daquele costume. Era também um acto social em que as pessoas se encontravam e lembro-me das pequenas conversas já fora da igreja, claro, tal como hoje à saída das missas.
Passado que foi o tempo da introdução nos actos de culto, pela mão dos pais, sucederam-se-me tantos anos de altos e baixos na minha relação com o DEUS da minha iniciação cristã !
Mas uma Fé mais adulta, posso dizê-lo, foi-se sedimentando, graças a muitíssimos e de várias naturezas , os tipos de"ingredientes" de onde também não ficou de fora o estudo e o querer saber...Por tudo isto, estando atenta, acabo muitas vezes por encontrar, quando menos espero, mais um tijolo para este meu edifício sempre em construção...
Hoje, no jornal que leio habitualmente, um jurista ( Pedro Lomba ) falou-nos de forma quase técnica sobre o "processo" de Jesus, pondo o enfoque principal nos esforços feitos por todos os que nele entraram para incriminar aquele que na verdade apenas queria que compreendessem que o "mundo" dele era outro, não tendo conseguido nunca ser compreendido. E de tal maneira essa dificuldade é a pedra base de todo este drama revivido agora por nós cristãos, que o jurista só pode concluir ( e nós com ele ) que «a nossa relação com o processo de Jesus é e continua a ser, em grande medida, a relação de quem não compreende» E nesta perplexidade cada vez desejamos mais esse outro Mundo, desencantados com o que temos e entendemos...

17 abril 2011

Domingo de Ramos


Quando em Jerusalém o povo, na rua, cantava louvores, dansava, gritava e agitava ramos de palmeira para festejar a chegada de Jesus que assumidamente subira à cidade montado num burrico e rodeado de discípulos, a alegria geral era tão esfusiante que irritou os fariseus e aqueles que o podiam fazer ordenaram a Jesus que fizesse parar e calar todo aquele alvoroço. E qual foi a resposta de Jesus? Se eu os mandasse calar, estas pedras falariam por eles...

Precipitou-se depois deste dia toda a quase inacreditável tragédia que levou Jesus à morte sem julgamento e por imposição dos testemunhos daquela mesma multidão que antes o havia gloriado. Não se ouviu mais falar em cantos e danças durante muito tempo, mas creio bem que as tais pedras guardaram em si sonoridades daqueles laudes de um dia e, logo que foi possível ,repercutiram em música esses antiquíssimos ecos. Desde imemoráveis épocas monacais os cãnticos acompanharam a liturgia e estimularam as sensibilidades dos fiéis. Por isso eu descubro encantada que um programa religioso da net dos nossos dia-a-dias pensou em convidar uma maestrina portuguesa para nos trazer Bach, Haendel e Stravinsky como fundos musicais das nossas orações de agora e que, coincidência ou não, se cria `na cidade, neste tempo de particular meditação religiosa cristã, um laico e popular conjunto de concertos a que se dá o nome de Dias da Música, onde, numa didática de difusão de géneros, se dá possibilidade a todas as associações de sensibilidades conformes ou não com a espiritualidade de cada um de nós. Portanto, eu creio firmemente que as pedras ficaram mesmo a desempenhar a incumbência que lhes atribuiu Jesus naquele Dia de Ramos e falam-nos á sua maneira, numa linguagem espiritual ,principalmente quando há quem deseje que nos calemos...

16 abril 2011

Uma das muitas coisas que não vieram a acontecer como eu esperava ( leia-se imaginava ) quando me reformei, e aliás deixei bem vincada essa esperança na introdução - quase justificação - do meu livro VIVER, foi a transformação da durabilidade do decorrer dos dias. Agora, como dantes, o tempo voa, as unidades métricas deste sistema pós-laboral são afinal tão curtas e voláteis como as anteriores e, sem muito bem percebermos como, damos conosco a ter vivido mais mês sobre mês, mais ano sobre ano. Isto para dizer que, num abrir e fechar de olhos, vejo outra vez chegado o Domingo de Ramos. De como vivi toda esta Quaresma não entendo que seja matéria para aqui e agora. Mas vivi-a. Não voou com o tempo. E é até por isso que hoje, que não é nada mais que o sábado anterior ao dia dos RAMOS, eu senti necessidade de registar um facto que ficou a martelar na minha cabeça como em outras quaresmas não ficara nunca. É que, diz São João-cap.Xl- após a "enormidade" da ressurreição de Lázaro, a figura, os gestos, a presença de Jesus se agigantaram de tal maneira que os pontífices e os fariseus compreenderam o "perigo" que aquele homem representava para o seu mundo e « desde aquele dia tomaram a resolução de o matar ». Nasceu pois ali aquela brutal torrente de acontecimentos que galgou por cima de todos os actos de amor, devoção ,humildade,e honestidade arrastando no seu caudal toda a brutalidade que veio a abater-se sobre aquele a quem também chamamos cordeiro pela fórma como foi por fim .imolado. Repetir tudo o que me veio à cabeça sobre como se tecem destinos a partir de um quaquer critério e como daí podem advir julgamentos farisaicos, sem se cuidar do que eles podem trazer ao mundo, não é também para ser feito aqui e agora. Amanhá é o dia em que a espontaneidade do povo vai ovacionar Jesus. Com esse povo vamos também estar...

08 abril 2011

Marta e Maria , as novas vizinhas

Já é conhecida por todos os meus amigos a teoria que defendo sobre o que eu própria classifiquei de vicinidade.Não se pode negar que os vizinhos que habitam sob o mesmo telhado que eu, que entram pela mesma porta principal no acesso a suas casas como eu, que usam as mesmas escadas e patamares que eu, e tudo isto ao longo de algumas dezenas de anos, constituem comigo,dentro da nossa cidade, do nosso bairro, da nossa avenida ou rua, uma célula social bem definida, para começar, sendo depois de entrar em linha de conta com todos os factores sentimentais e de sociabilidade que acabam sempre por uni-los mais ou menos uns aos outros conforme as suas regras educacionais, culturais ou pura e simplesmente convivenciais e de carácter. É assim que vivendo eu num prédio (a alturas tantas transformado em condomínio) há mais de cinquenta anos, não posso, num mínimo de humanidade, alhear-me das pequenas alegrias ou grandes tristezas que têm perpassado ao longo das vidas das famílias cujos corações quase oiço bater ao meu lado... Já morreram alguns. Entretanto vieram outros para os espaços que esses deixaram abertos. Houve obras, modernizações,mas os mais velhos foram ficando sempre iguais a si mesmos, acolhendo os mais novos recém-vindos com prazer e curiosidade pela novidade...Jovens casais a tornarem até o prédio mais alegre, mais vivo... Tão vivo que acaba um deles de dar a este mundo a beleza maior que é uma nova vida. E não uma, mas duas ! Pois é : agora temos duas novas vizinhinhas, uma chamada Marta e outra de nome Maria. Uma alegria ! Um refrescamento ! Um credo na Vida ! Uma Primavera a brotar de facto, muito mais eloquente do que milhares de rodriguinhos literários...Teve Jesus duas amigas, irmãs de Lázaro, que também se chamavam assim. E Ele as acompanhou e deu provas públicas de quanto as estimou sempre, com o seu Amor que náo era como qualquer outro. Oxalá seja também um Amor assim que acompanhe estas duas minhas novas vizinhas que ,para já ,são símbolo das alegrias quase pascais de que todos estávamos a precisar...

02 abril 2011

...da alegria

Há mesmo uma atmosfera de ausência de alegria ou sou apenas eu que a cultivo e a deixo envolver o meu mundo ? Mas sou capaz de jurar que ando à procura do que pode parecer-se com aquilo que me trazia sempre pronta a um "bon mot", um bom sorriso ou mesmo uma boa gargalhada. Nos jornais, nas revistas, nos programas de televisão que anunciam humor... E nada ! Olho-os através das minhas lentes, será por isso ? A notícia, o comentário, o improviso que nos chegam começaram entretanto a ser por mim classificados dentro da respectiva capacidade de ou me ralarem muito, ou me assustarem apenas ou de terem em si mesmos uma certa carga de tristezas antigas que até se transformam em memórias carinhosas ... E mais não posso fazer para aguentar-me à tona desta maré invasiva de desencanto que, qual tsunami, arrasta comsigo TUDO o que era alegre e/ou nos dava a alegria de viver q.b Sei que há alguns que não conseguem sequer o esforço da tentativa... Que nos salve a esperança que nos vem pela Fé! Hoje, lembrei João Paulo II que morreu num 2 de Abril, e o seu exemplo de vida, rememorado ,proporcionou-me um dos tais momentos carinhosos que ajudam dulcificar muito do que nos amargura...

25 março 2011

Romeu e Julieta

Como me foi surpreendente, no meio deste ramerrão diário da minha vida actual, ver-me quase por magia sentada numa plateia, a meio da tarde, em dia nem feriado,nem domingo, a assistir quase de novo comovida como aos dezoito anos, ao dramático desenrolar daquele amor paradigmático de Julieta e Romeu ! Desta vez foi em forma de bailado ( Companhia Nacional de Bailado ), um recital especialmente organizado para fins culturais, sendo a bailarina - Julieta uma perfeita imagem da pureza, da delicadeza, da frescura e ingenuidade exigíveis `a sua representação. Todos os bailarinos, aliás,eram de um nível muito bom, mas ela excedia-os isso é inegável. Também esplêndido, perfeito, era o guarda-roupa de todos os intervenientes (séc.XVI)
Dos meus contactos com as traduções deste drama de Shakespeare em peças musicais, creio que de uma ópera de Gounot a fantásticas sinfonias com corais excelentes, de Tchaikowsky e também, segundo julgo lembrar-me de Berlioz, até este bailado de Prokofief, tenho guardado sempre recordações plenas de encanto, pois às peças associo locais,e pessoas, para além do envolvimento sempre poderoso da história. Tive mesmo oportunidade de ir a Verona e imaginar in loco aquele namoro exaltado... Pois esta minha surpresa de agora agitou memórias e ofereceu-me uma actualidade que me fizeram feliz ! Tudo porque um simples gesto de amizade vem até nós,ás vezes mesmo no momento em que mais precisamos dele...

21 março 2011

Poema

silenciosamente aproximo-me do poema
circundo-o duma palavra faço nela
uma incisão deliberada

e exponho a ferida ao ar sem protegê-la
para que infecte e frutifique

de resina ainda com gosto a papel húmido
o poema cresce ramifica-se
comovidamente do cerne para a casca
inteiro liso adstringente sinuoso

mas
todo o poema é perfeitamente impuro



No Dia da Poesia, um POEMA de Vasco Graça Moura

19 março 2011

Em nome do PAI

Em nome do Pai..
E era o horizonte o fim da linha !
Partidas de chegadas,
rotas perdidas por um triz,
subitamente abertas portas antes fechadas
e ainda e sempre longe o fim da linha...
Em nome do Pai,voltar atrás por onde dantes vinha ?
Quisera , mas não sei mais fazer agora
todas as coisas que antes não fiz,,,

13 março 2011

Reconciliação - Alberto Caeiro

Sendo hoje o primeiro domingo da quaresma deste ano, procurando nós durante este período reabilitarmo-nos,já não digo perante o nosso Deus, mas mesmo perante nós próprios, todos os princípios da nossa catequese de uma vida inteira são agora particularmente revisitados, não apenas recordados, mas de tal maneira revistos, que alguns nos aparecem iluminados com uma nova luz nunca percebida antes... Foi assim que me aconteceu agora posicionar-me de outras maneiras, dentro daquele difícil capítulo de " amar os nossos inimigos", que para mim se traduz em amar TODOS, porque,embora haja pessoas de quem não gosto muito, inimigos não tenho. E então, espantosamente sem razão aparente, fui ler pela enésima vez alguns heterónimos de Fernando Pessoa dos quais geralmente não gosto, como pode não se gostar de Paula Rego por exemplo( sendo, no entanto, apaixonada pela Mensagem)- Comecei por aquele a que o Pessoa chama O Mestre :ALBERTO CAEIRO. E li algo que me fez duvidar se não estava a fazê-lo pela primeira vez, encantando-me de tal maneira que li e reli tantas vezes, como que a penitenciar-me do desprezo antigo...Foi uma reconciliação de tal forma que decidi fazer um pequeno excerto do poema motriz da "reconciliação" e trazê-lo aqui ao registo no meu post para que ,se tiver leitores, eles partilhem comigo o prazer do gozo das qualidades da expressão do sentimento do poeta, tanto na sua formatação literária como na da sensibilidade toda humana e humilde que ele aqui assume sem disfarce. Do poema VIII de O Guardador de Rebanhos « Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. Ele é o humano que é natural, Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda a certeza Que ele é o Menino Jesus verdadeiro. E a criança tão humana que é divina E esta minha quotidiana vida de poeta, E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre, E que o meu mínimo olhar Me enche de sensação E o mais pequeno som, seja do que for, Parece falar comigo. A Criança Nova que habita onde vivo Dá-me uma mão a mim E a outra a tudo o que existe E assim vamos os três pelo caminho que houver, Saltando e cantando e rindo E gozando o nosso segredo comum Que é o de saber por toda a parte Que não há mistério no mmundo E que tudo vale a pena. A Criança Eterna acompanha-me sempre. Adirecção do meu olhae é o seu dedo apontando. Omeu ouvido alegremente atento a todos os sons São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas. Damo-nos tão bem um com o outro Na companhia de tudo Que nunca pensamos um no outro. Mas vivemos juntos e dois Com um acordo íntimo Como a mão direita e a esquerda. Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas No degrau da porta de casa Graves, como convém a um deus e a um poeta, E como se cada pedra Fosse todo o universo E fosse por isso um grande perigo para ela Deixá-la caír no chão. Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens E ele sorri, porque tudo é incrível. Ri dos reis e dos que não são reis, E tem pena de ouvir falar das guerras, E dos comércios, e dos navios Que ficam,fumo no ar dos altos mares. Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade Que uma flor tem ao florescer E que anda com a luz do sol A variar os montes e os vales E a fazer doer aos olhos os muros caiados. Depois ele adormece e eu deito-o, Levo-o ao colo para dentro de casa E deito-o, despindo-o lentamente E como seguindo um ritual muito limpo E todo materno até ele estar nu. Ele dorme dentro da minha alma E às vezes acorda de noite E brinca com os meus sonhos. Vira uns de pernas para o ar, Põe uns em cima dos outros E bate as palmas sozinho Sorrindo para o meu sono. Quando eu morrer, filhinho, Seja eu a criança, o mais pequeno, Pega-me tu ao colo E leva-me para dentro da tua casa. Despe o meu ser cansado e humano E deita-me na tua cama E conta-me histórias, caso eu acorde, Para eu tornar a adormecer. E dá-me sonhos teus para eu brincar Até que nasça qualquer dia Que tu sabes qual é... Esta é a história so meu Menino Jesus. Por que razão que se perceba Não há-de ser ela mais verdadeira Que tudo quanto os filósofos pensam E tudo quanto as religiões ensinam ?

08 março 2011

Dizer de ser Mulher

Dizer de ser Mulher
será preciso?
Umas das outras nós sabemos tudo.
E a forma como damos a saber
a força imensa
da nossa fraqueza
é sendo mães, amando,
fazendo do trabalho uma alegria,
e dando tanto a todos em ternura
quanto lhes dá o pão de cada dia
por mais que seja dura
a fome sobre a mesa...
Dizer de ser Mulher
é dizer companheira
se ter um companheiro for destino.
Dizer de ser Mulher
é dizer ser presença. ser esteio,
sendo a parte mais frágil do cristal
num mundo já tão pouco cristalino...
Dizer de ser Mulher, será preciso ?

Arriscámos um dia o Paraíso
por uma convicção bem definida :
Ser Mulher afinal
já então era
ser a fonte da VIDA ! ! !

07 março 2011

Carnaval

Domingo de CARNAVAL
Estamos em pleno período de Carnaval .Lisboa está a disfrutar os seus dias de pacatez e certamente isso acontece por esse país além, em todas as cidades e vilas e lugares que não se sentiram vocacionados para o gozo e divertimento públicos em data e hora marcadas pelos calendários internacionalizados.Se olharmos esta época como uma boa oportunidade de pausa para tarefas que mais ou menos a justifiquem,ela é pura e simplesmente deliciosa...Recordo as minhas fériasinhas em Saint Cergue e no Tirol, aquelas escapadelas de um só dia às concorridíssimas pistas de neve cujos nomes só recordo quando há transmissões de corridas pela TV...Mas isso não é aquilo a que vulgarmente se chama CARNAVAL. Esta festividade,como quase todas as que entraram na tradição popular, com mais ou menos legitimidade, vai radicar~se em tão antigas como deturpadas origens.A degradação social e moral que veio acontecendo progressivamente antes da chegada de CÉSAR ao poder,em ROMA, acrescida da quase total aceitação pelos Romanos dos nomes dos deuses gregos em substituição dos dos seus próprios deuses, tornou como que mais liberal e depois mesmo libertina a relação dos homens com os deuses, visto que os deuses gregos tinham características menos míticas e qualidades mais humanas do que os deuses romanos. E assim as inúmeras festas que eram feitas em suas homenagens foram adquirindo configurações especialíssimas consoante fosse a "esfera de acção" do deus celebrado. Foi assim que, em 186 AC, as Bacanais levaram à prisão e execução inúmeras pessoas que tomavam parte nas festas.Baco era o nome que os Romanos haviam retirado de uns gritos de euforia produzidos pelos gregos nas festas de DIONISOS, deus do vinho e dos prazeres.A isto e muito mais se deve o CARNE(M)( VALE que apareceu não logo, logo,como a medieval tradução literal do"adeus à carne", mas ainda como aquela festa em que nada parece mal, como ficou registada no adagiário português.Ignoro como o Mundo girou para que o grande Carnaval das loucuras fosse acontecer noBRASIL,ou como, no séculoXVIII, em Veneza, requintadas damas e viciosos Casanovas criaram a sua lindíssima tradição carnavalesca. Porém intuo que os rebolados nus brasileiros devem ter muito que ver com o clima e quedo-me perplexa ao ver em Portugal, agora , despirem-se com estes frios, ao sabor da imitação mais descabida...A tradição portuguesa nunca foi de nus. Estou a pensar em como se estragava a roupa, nos anos trinta ( séc.XX), quando grupos de foliões, ao virar de uma esquina, nos esborrachavam ovos e pastéis e outras coisas pastosas, sobre os fatos e os cabelos. O que eu própria sofri sendo atacada à saída do colégio , com bisnagas esguichando líquidos de que eu tinha verdadeiro terror.E as pancadas secas de uns certos saquinhos jogados com mestria para se esvaziarem de areia sobre as nossas cabeças e roupas. Mas, agora mesmo, os executantes da Dança dos Cuzes, em Cabanas de Viriato, estão vestidos da cabeça aos pés e também os coloridos Caretos são uns peludos e totais disfarces...Tudo isto nos fala de um carnaval de rua. Mas as mais lindas versões de Carnavais de Salão, bem portugueses ,de princípios do século XX,são as que me foram contadas _vividas_ pelos meus Pais.No Porto e em Beja.No Porto,uma das noites de Carnaval era de ida a um dos teatros da cidade, todos vestidos rigorosamente de gala,senhoras e senhores. E então,"jogava-se" ,em troca das serpentinas das actrizes, atirando para o palco caixas com joias verdadeiras...Em Beja, havia, no Clube, três bailes de gala ( um por cada noite), onde as ceias eram volantes.Na hora própria, entravam no salão de baile pequenos carrinhos puxados por carneiros de pêlo alvíssimo decorado com laços de fitas de cores,carrinhos esses que vinham "carregados" com as mais variadas iguarias armadas artística e tentadoramente.Os carrinhos iam circulando e todos se iam locupletando a gosto...A que distância de tudo isto fica a actual passagem de cortejos onde se mostra uma preferência nítida pela perversão na confusão dos sexos ou pelas piadas pesadas sobre política ou sobre factos sociais,tudo muito nu e...ao frioAproxima-se então de novo a época em que todos vamos saber porque dizemos CARNE(M) VALE...

01 março 2011

Tudo o que eu sei, tudo o que eu faço...

Dizia-me há dias alguém que o que deixo escrito neste SINESTESIAS enveredou definitivamente pelo caminho religioso,quase místico, e que estou assim perdendo leitores, uns porque não estão dispostos a ir por aí , outros porque deixaram de achar estimulantes quaisquer observações ou interpretações que eu expusesse por virem sempre iluminadas por uma certa monotonia de conceitos subjacentes. Pelo menos fiquei contente por falarem em "conceitos" e não em "preconceitos", porque na verdade a minha forma de ver o Mundo e os mundos não é mesmo preconceituosa. E não escolhi nenhum trilho para a ele me limitar. Reconheço que houve uma deriva no caminho que aqui encetei há cerca de cinco anos mas isso é apenas uma consequência e não uma escolha. Consequência da progressão do meu "estar na Vida", consequência da natural cada vez maior tendência para a interiorização, por sua vez também consequência da cada vez menor socialização, das cada vez mais extensas horas de solidão. Porque todos sabemos que uma coisa é pensar a VIDA e outra coisa é vivê-la.
Acredito que poucos terão entendimento para, em teoria, reconhecerem como se vive aquela a que se convencionou chamar "a terceira idade", e por isso não entendam os prazeres do silêncio, do sossego, daquilo a que podemos chamar o nosso canto, com alguns inerentes confortos que quase apenas o são para essa idade, ambientes tão propícios a olhar- se de uma maneira que vai mais ao fundo das coisas e nos eleva a nós para mais alto ( atrevo-me a dizer mais espiritual ).
´É então nessa época que entendemos a FÉ, essa mesmo, que sempre professámos e praticámos, mas que , neste novo modo de estar, como que se nos revela com outra nitidez.
Creio bem que foi esta a explicação que dei a quem me interpelou por causa da natureza dos meus posts, e também,( fazendo-se eco de julgamentos mal informados)por causa da carinhosa presença da minha paróquia em minha casa, por intermédio de senhoras voluntárias e até mesmo, menos a miúde, de alguns padres,já amigos, de cujos trabalhos universitários até vou sendo posta ao corrente. É agora e por tudo isto que rezo com profunda convicção uma pequena oração que me foi oferecida por um aluno especial de Português, um sacerdote de SCHOENSTADT, de nacionalidade peruana que fora colocado no nosso país, isto, há cerca de uns já dez anos.
Oração

O meu lar é o teu Santuário
onde Tu actuas para a glória do Pai.
Aí Ele transforma todo o meu ser
em sacrário predilecto da Trindade
onde arde sempre a luz do Santíssimo
e a chama do Amor nunca se extingue.
Tudo o que eu sou, tudo o que eu tenho,
tudo o que eu sei, tudo o que eu faço,
eu o deposito a teus pés
para fonte santa da tua glória!
Amen

20 fevereiro 2011

Ser Perfeito

...Haveis pois de ser perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito __ palavras que Jesus dirige aos discípulos, segundo São Mateus 5 - 38/48.

E torna-se-nos presente toda aquela catequese do perdão, da caridade, do amar quem não nos ama, do dar a outra face, de tudo o que nos é tão difícil, senhor Deus, porque somos SÓ humanos e raríssimas vezes nos compenetramos de que, como recorda São Paulo aos Coríntios ( 1ª-3, 16-23), Somos templo de Deus e que o Espírito Santo HABITA em nós ! ...e de que o templo de Deus é santo, e esse templo somos NÓS ! ! !
SÓ humanos, senhor Deus! às vezes acontece olharmos para trás e descobrirmos que afinal o Espírito Santo tinha estado lá, só que, na altura, não O reconhecemos ... Apenas humanos, Senhor !

13 fevereiro 2011

O Dia do Doente

Hoje, sexto domingo comum, o Cardeal Patriarca de Lisboa celebrou missa na capela de um hospital ( o de Sta Maria ), na única intenção de enfatizar o Dia do Doente, sendo que a sua homilia foi das mais bonitas e carinhosas que em iguais circunstãncias já me foi dado ouvir. O seu vocabulário foi simples e certeiro e todas as palavras pareciam vir repassadas de uma infinita ternura que era ao mesmo tempo estimulante e apelativa como convinha, tratando-se de chamar a atenção para tudo o que já se faz e o muito que ainda se pode fazer por aqueles a quem a saúde não permite serem iguais a todos os que vivem a seu lado.
Naturalmente, na sequência de uma celebração destas, o Sacramento que agora os doentes podem tomar sem aquela imagem fúnebre que durante tantos anos lhe foi atribuida,foi também concedido a alguns dos presentes que desejaram tomá-lo. E foi repetida a confirmação do que as paróquias podem ( e devem ?) fazer neste sentido de "adoçar"o amargo dos que sofrem, mesmo que seja apenas da doença da solidão.
Desta maneira, quão feliz eu me senti por ouvir como que "oficializado" o quinhão de carinho que a minha paróquia do Campo Grande me está já agora dando e do qual, confesso, nunca me senti convictamente merecedora. As senhoras visitadoras que me procuram sabem bem do embaraço com que recebo o seu "cuidar"... Tive agora mesmo, há três dias, a alegria de receber mais uma vez o Sacramento que hoje foi concedido nesta missa, em minha casa (que enfeitei de flores para o receber). E não sei explicar muito bem o que esta presença sob o meu tecto e todo este acto deixam ficar na minha vida depois...
Cito uma tradução de Lamartine que talvez seja o bom remate do que eu gostaria de dizer e não sei :
De onde me vem, meu Deus, esta paz que me inunda ? De onde me vem esta fé que transborda, em mim que muitas vezes ,indecisa e agitada, nas ondas da dúvida procurava... ...

12 fevereiro 2011

Como reconquistar a esperança?

Não posso deixar de reconhecer que, se sempre existiram os chamados "fazedores" de opinião desde os mais remotos tempos da História, actuantes com processos dos mais variados em temas, tempos, áreas de cobertura, públicos-alvo, e alvos propriamente ditos, o que se passa agora com a comunicação social , nas suas múltiplas vertentes, é verdadeiramente prodigioso.
Actuando com uma sincronia e velocidade vertiginosas, somos todos enredados na sua teia em poucos minutos e, depois, pelo espaço de tempo que essa enredadora entender que lhe é conveniente. Consegue-se assim pôr um país inteiro a preocupar-se, incomodar-se ou assustar-se com uma só coisa dominante, mas a verdade é que ,`às vezes também surgem, muito excepcionalmente, obcecações benévolas. E que até conseguem estimular quem pode, ou deve ,
para a correcção de alguma coisa.
Nos últimos tempos tão conturbados por uma decorrência económica geral, somos subitamente lançados sobre os problemas das crianças ( maltratadas, abusadas, mal educadas, mal nascidas, abandonadas e até assassinadas !) e sobre a deshumanidade com que se tratam os velhos que o país deixa morrer sozinhos depois de os ter ostracizado das mais aviltantes maneiras.
E então acontece que só estes dois polos dão para se criar todo um mundo de notícias e informações que nos preenchem páginas e horas que poderiam ser de um pouco de pausa nos nossos medos e nas nossas dores de cada dia, que desejaríamos adoçar de esperanças, mas que vão corroendo sempre mais o que deveria ser o nosso prazer de viver, talvez a nossa capacidade de optimismo, malgré tout...
Todos nós fomos e temos crianças na nossa esfera de conhecimentos as quais nos enternecem e para as quais só queremos pensar coisas boas e alegrias. Todos nós ou já somos ou estamo-nos aproximando de ser velhos , e aquele fim de vida poeticamente sonhado na doçura das nossas recordações e da ternura dos outros, está a esfumar-se nas nossas perspectivas.
Como reconquistar a esperança, hoje, esquecendo os crimes e as vilezas que, a cada hora vêm ecoar no nosso conhecimento ?