28 maio 2011

Que bonito!

Às vezes tenho saudades daquele tempo em que ainda não me tinham ensinado a razão das coisas em si mesmas e a razão pela qual elas vinham até mim daquela forma e não de outra.
Saudades de ser criança, será? De gostar de uma musiquinha e cantá-la (que eu sempre fui muito afinada,diziam-me), de ouvir uma jovem tia dizer versos e chorar se a toada era triste, de ter medo do mar e correr para ele mal chegava à praia, de achar linda a minha professora, e... e...e até começar a ler romances e chorar ás escondidas com as infelicidades das heroínas...
Tudo perdeu esse encanto à medida que estudei e me ensinaram a LER, a ouvir música e a OLHAR para a Natureza, para os Pintores, para os Poetas. Coube-me depois ter de ensinar e jurei a mim mesma não roubar a ninguém aquela inicial pureza de "gostar porque sim" ou "não gostar porque não", antes de escolas, regras, leis...( ou até pretensiosismos de moda) . Ser-se corpo com a emoção é bom Deixemos lá os filósofos e os mestres, e os" que até sabem falar inglês", e os campeões da erudição... Pega-se num jornal e bum!

LÍRIOS

um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada

outras mãos que não as minhas haverá para o recolher

outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar depois a ausência.

Depois nem isso.

Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos

como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos.Esse dia virá.

Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento.

Ou quase assim.


Dispo agora toda esta roupa e escrevo

sem frio nem perda nem desastre.

A partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

lírios crescem no acaso vivo da relva

uma leve poeira se acrescenta ao ar que não respiro.


Chama-se Rosa Maria Martelo e eu não a conhecia!

3 comentários:

Pedra do Sertão disse...

Olá,

Gostei de passear por aqui. Insira uma caminho para seguidores!
abraço

lmq disse...

Cara Maria de Lourdes
Muito mais do que “divulgar a poesia”, ou outros propósitos igualmente recomendáveis, o que me levou a aceitar organizar, no Público, esta página semanal foi a secreta esperança de que um dia um leitor desprevenido apanhasse de chofre com um deste poemas e… bum!. Fico muito contente de que tenha mesmo acontecido. Essa leitora chama-se Maria de Lourdes Beja e eu não a conhecia.
Luís Miguel

lmq disse...

Cara Maria de Lourdes
Muito mais do que “divulgar a poesia”, ou outros propósitos igualmente recomendáveis, o que me levou a organizar, no Público, esta página semanal foi a secreta esperança de que um dia um leitor desprevenido apanhasse de chofre com um deste poemas e… bum!. Fico muito contente de que tenha mesmo acontecido. Essa leitora chama-se Maria de Lourdes Beja e eu não a conhecia.
Luís Miguel