30 dezembro 2009

O dia seguinte

Lembro-me de uma frase muito usada pelo Astérix que era mais ou menos: pourvu que le ciel ne nous tombe pas sur la tête...Cheguei a dizer o mesmo de mim para mim neste dia de Natal e principalmente nos dois dias seguintes. O que tem chovido, meu Deus ! E Lisboa que não gosta de chuva, direi mesmo o País, não nasceram para que neles chovesse. Nem nós, ao que parece !
E eu que,sob os insuportáveis Agostos,costumo andar a "suplicar a minha gota de água" como as árvores alentejanas da Florbela Espanca, agora já estou a dificilmente a suportar,porquetemos as paredes decasa húmidas,porque receamos obras nos telhados,porque irrompem borbotos de água pelos caixilhos das janelas que julgávamos completamente estanques e se molham as cortinas, a pingar aqui e ali, porque os livros e os nossos papéis ficam com uma textura mole, porque o jornal pela manhã me chega a dismiluinguir-se, como dizem os brasileiros, e não permite uma separação normal das folhas, e porque, se eu saio, em Lisboa não há onde pôr os pés fora de uma espessura de água inferior a cerca de centímetro e meio, mesmo em avenidas alcatroadas ou passeios de calçada à portuguesa, o que significa que só de botas ou galochas se pode tentar vencer esta ausência de escoamento de águas, coisa por mim deconhecida quando palmilhava com as minhas companheiras da Faculdade,ou com o meu namorado , o longo e multiforme percurso desde São Bento até ao Campo Pequeno sob qualquer condição atmosférica.
Tenho tido, ao longo da minha vida sempre com vizinhos, complicados problemas de relação,por causa das entradas de água da chuva na casa deles(por cima da minha) e a sequente deriva dessa água na minha casa.É também uma razão que me leva a pensar como o Astérix...
E como, até agora, nada ainda caiu na minha cabeça ( em casa) posso dizer que estou comodamente junto da lareira, a ouvir as bátegas a bater nas vidraças e com aquela sensação de quase bem-aventurança a "digerir" o meu Natal.
Aquele Natal social dos jantares e almoços, das visitas mais de carinho ou mais de circunstância, das prendas e dos presentes, dos trabalhos domésticos, dos cozinhados, e do coração a transbordar de exaltação e o corpo a transbordar de cansaço.Passo então a agradecer a Deus o ter-me realmente criado para ser
feliz porque conseguir a alegria ainda, depois de tanta, tanta amargura, tanta desilusão, tanta inquietação, medo e aflição, acumulados numa vida longa como a minha, só pode mesmo ser marca daquilo para que me destinou algomuito maior que tudo isso, certamente ainda no ventre de minha Mãe...

27 dezembro 2009

Sobre a Família

...acumula um tesouro aquele que honra sua Mãe...quem honra seu Pai terá longa vida...e obterá o perdão dos pecados. Lemos estas coisas do livro de Ben-Sirá, numa das leituras da liturgia deste dia consagrado à Família e, mais do que isto, somos levados a meditar como parece ter-se pensado no sem nùmero de dramas de famílias que, nos dias em que vivemos, se desestruturaram porque se deu lugar a que se estás na força da vida,aconteça cada vez mais que se faça o contrário do que a seguir é aconselhado ainda que ele( teu pai ) perca a razão,sê indulgente e não o desprezes. Creio que não há ninguém que não conheça pelo menos uma história de dramas destes.Por isso na época tão bela que acabamos de viver,em adoração àquele Presépio tão simbólico, ouvimos o ruido ensurdecedor, como nunca ,dos apelos a todas as imagináveis e inimagináveis acções de solidariedade organizadas ou não em grupos, campanhas, missões, correspondendo cada um desses apelos sabe-se lá a quantas faltas de indulgência ou a quantos desprezos...
Foi um tema que nos tocou na época própria. Como continuamos sendo aqueles mesmos seres pelos quais nem mesmo o sacrifício de Jesus conseguiu que circulasse só e apenas o Amor ! ! !

25 dezembro 2009

Dia de Natal

Dizia Isaías: como são graciosos, nas montanhas, os pés do mensageiro da paz! Anuncia boas-novas...Assim foi neste advento em que adivinhámos,aqui e ali, o aproximar destes pés e, nestes últimos dias, sentimos que caminharam avassaladoramente, por entre montes e vales, estradas francas e veredas sombrias...Chegaram certamente mais perto de uns do que de outros, trazendo consigo tudo o que nos ia pondo à prova, desde a má notícia que dói, até à consoladora alegria da visita carinhosa e já não esperada ou da palavra que era a única eficaz naquela hora! O Mensageiro da paz chegou uma vez mais ás nossas vidas. E nós a querê-lo, a abrirmos-lhe as nossas portas, as nossa almas, como sempre...talvez mais ansiosas, mais sequiosas do que de outras vezes, mas com os mesmos propósitos... De melhorar, de emendar, de O imitar...
Por hoje, estamos como Isaías :ainda só sabemos admirá-LO e esperar...

20 dezembro 2009

E afinal que Advento?

E chegámos ao último domingo do Advento... Voaram estas quatro semanas !
E eu, tão empenhada em fazer uma longa e serena meditação, encontro-me hoje bastante insatisfeita com o que consegui. Quisera enterrar-me bem no fundo das minhas dúvidas, das minhas imperfeições, das minhas quebras de Fé, e sentir-me lavada, como nova, por tê-las exorcizado, com o meu firme desejo de parar, de não voltar a pisar os mesmos caminhos e de apenas poder,sem vergonha, ficar ali muito tempo parada a olhar bem nos olhos aquela figurinha deitada nas palhinhas, muito menos ingénua( já !) do que a sua própria MÃE cujo olhar eu até agora sempre evitei... Mas não foi bem assim, como eu queria. É demasiado ruidosa e envolvente a vaga que nos apanha, mesmo já numamaré baixa da vida como é esta minha agora. E o pior é que foi bom e eu gostei ! ! !
Foi bom organizar uma como festinha de família para uns quantos, para celebrar o quanto os amo tal como o Senhor meu Deus os fez e os colocou na minha vida, foi bom reconhecer progressos resultantes do meu trabalho com os mais jovens e também com uma Senhora Irmã da Ordem de São João de Deus( Hospitaleira), e com uma doutoranda polaca, ainda tão jovem ( e bonita ) e tão responsável na sua inteligência, foi bom ver expostos, in memoriam, os trabalhos plásticos realizados por ex-alunos numa época conturbada deste país ,entre revoltas e cravos, foi bom ter aquele inefável prazer de reconhecer a vozinha de afinadíssimo soprano de uma ex-aluna fazendo parte de um importante CORAL DE CÃMARA que do Conservatório partiu para a Música Antiga...Foi bom ver Lisboa acender luzes de festa e o povo na rua a Ver as Luzes... Precisávamos de tudo isto, nós todos,embora seja de evitar o crer que o montar-se um presépio e o entregarmo-nos às Festas possa sequer parecer-se apenas com uma recriação teatral. Na Idade Média faziam-se representações teatrais sobre vidas de santos, nos adros fronteiros ás igrejas, para que o povo se familiarizasse com esses exemplos edificantes, e se sentisse solicitado para as boas práticas... Se o que fazemos hoje conseguir melhorar-nos a todos, como povo, porque não ? As boas tentativas como a que trouxe para este Advento terão talvez que ser menos individualistas... Ou não, apesar de tudo...

13 dezembro 2009

Merecer a Alegria

Hoje os senhores padres vestiram os seus paramentos cor-de-rosa. E as palavras dominantes em todos os textos da liturgia são rejubila, exulta, alegrai-vos, júbilo e tudo o que com alegres manifestações possa estar conectado. É porém num outro tom que, no seu Evangelho, São Lucas nos conta que João Baptista, muito interrogado por muitas pessoas e maneiras, acaba por, com as suas respostas, criar uma espécie de código de regras de como agir para, podendo aceder ao Amor de Deus, ter naturalmente também ânimo para essas alegrias.
E são estas as regras:
1ª-Quem tem duas túnicas reparta com aquele que não tem e quem tem mantimentos proceda da mesma forma.
2ª-Não exijais nada além do que vos está fixado
3ª-Não useis violência com ninguém , nem denuncieis injustamente e contentai-vos com o vosso soldo.
Diz-nos o Evangelista que estas eram exortações que João Baptista dirigia àquelas pessoas que o procuravam para que as "introduzisse" na anunciada Graça de serem baptizadas.
Digo eu agora: e nós ? Até somos baptizados. Chegarão sempre até nós estas exortações entusiasticamente clamadas no deserto para ajudar Jesus a limpar a sua eira e a recolher o trigo no seu celeiro ?...

08 dezembro 2009

Conceição, concepção


Conceição, concepção, podemos dizer que é o justo início da geração de um ser vivo e assim é com Nossa Senhora "da Conceição" e "imaculada",quando, não sendo possível precisar o momento em que São Joaquim e Santa Ana geraram Maria, a Igreja teve plena consciência de que Maria apareceu antes de Jesus, na história da nossa religião.Consequentemente entendeu dever estar fora de questão que, desde a eternidade, aquela que deveria ser a MÃE do filho de Deus já estaria escolhida desde o início dos tempos. E, como O precedeu, esta sua precedência teria que colocar o seu nascimento dentro do período do ADVENTO.Tudo isto e muito mais sobre Nossa Senhora explicou a dedicadíssima devoção de João Paulo II na Carta Encíclica Redenptoris Mater de 1987. Desta maneira aqui estamos nós então a ter dia santificado e mais um feriado nacional, que era o que mais faltava que não fosse, uma vez que até o nosso rei D.João IV pôs a coroa de Portugal sobre a fronte de Nossa Senhora...
Confesso que estas misturas de Reis com Santos à bela maneira pagã, nunca foram muito do meu agrado e tenho uma enorme saudade daquele gostinho especial que, quando eu era menina, tinha este dia a que chamávamos com toda a propriedade DIA DA MÃE. Eu sempre dava uma prendinha à minha Mãe, comprada com dinheiro que meu Pai me dava antes de sairmos as duas a fazer compras já para o Natal, eu em feriado de colégio, as lojas lindas de brilhos e cores, muitos encontros «...viva! estás mais alta e os estudos?...» e depois o máximo prazer de, numa Casa de Chá confortável ( às vezes fazia frio ou chovia fininho) tomar um chocolate quente, bem à senhora, quando calhava, com uma ou outra amiga dos meus pais por acaso encontrada naquele brouhaha de uma BAIXA de antes dos tempos dos shopings... Isso era o remate em glória daquele Dia da Mãe em que houvera farófias à sobremesa do almoço e passávamos pela Igreja a deixar umas flores( das que o meu Pai dera pela manhã à minha Mãe), antes de irmos para a Baixa,,,Nossa Senhora da Conceição era nesse tempo também mais nossa Mãe ...

06 dezembro 2009

«endireitai-lhe as veredas...»

Como o dia hoje está feio, mal disposto ! E nem chove, nem está nevoeiro, nem há um grande vento...Ontem andaram por aí com aqueles estrepitosos aspiradores das ruas e as placas relvadas ficaram um brilho de asseio. Pois o pequeno frou-frou das folhas dos olmeiros atirou-as aos punhados para os chãos e hoje está todo o verde de ontem coberto de amarelo... Não poderá a Câmara de agora fazer muito mais para, preparar o caminho do Senhor e endireitarlhe as veredas como reclamava no deserto em altos gritos, João, filho de Zacarias, ou como conta o profeta Baruc que Deus decidiu abater todo o alto monte e encher os vales,tornando a terra plana para Israel caminhar em segurança...até sob a sombra dos bosques e de toda a árvore de aroma...
Tal foi a emoção de um regresso à pátria após o cativeiro, para Baruc e tal era a indignação pelo que via para João Baptista !
Como somos seres sociais, aos tratos entre nós não podemos deixar de chamar política e assim, mantidas as devidas proporções, vemo-nos por aí, no deserto a gritar como João, com tantas veredas para endireitar e compreendemos Baruc
ainda há poucos dias quando festejámos com um feriado nacional a nossa libertação do nosso cativeiro em nossa própria pátria...
Uma sombra se projecta em tão bonitos e paralelos preparativos que gostaríamos de emparceirar com os bíblicos hoje lidos.Baruc diz Ergue-te Jerusalém,sobe ao alto ! E temos dificuldades em entender este jerusalém. Os nossos desejos não conferem agora com esse estímulo, justamente por razões políticas, um jerusalém que é agora o opressor, quando então era o oprimido.
Mas é verdade também que temos que nos transportar ao tempo de Baruc e também temos que lembrar que existe um ornato de estilo a -sinédoque -que sempre nos permitiu usar uma só palavra com um muito amplo valor semântico, podendo portanto o nome de uma só cidade ou de um só país ser apenas o representante de todo um povo que o habite. E bom será esquecermos hoje uma conotação política que nada tinha nem tem que ver com os CAMINHOS DO SENHOR que o ADVENTO nos convoca a procurar.

05 dezembro 2009

Um filme : O Leitor de Stephen Daldry

Há muito tempo que deixei de ver cinema. Que deixei de ir ao cinema. Como a muitas outras coisas.Tudo aquilo que me ponha num limitado ambiente de alienação me afugenta. Pela dificuldade que tenho depois em entrar de chofre numa outra realidade.Com os livros, às vezes quase acontece o mesmo, se são muito absorventes, mas consigo manter sempre um certo controlo sobre pausas e interrupções, que no cinema não posso fazer.Li ultimamente alguns romances, do Dan Brown e Mia Couto a José Rodrigues dos Santos e António Lobo Antunes, um pouco em sessões contínuas porque os tinha recebido ao mesmo tempo e todos me mereciam a mesma curiosidade, cada um por suas razões especiais, mas sempre consegui, depois de cada momento de leitura, centrar-me rapidamente nos meus onde, como, quando, porquê e para quê que me haviam levado a lê-los dessa forma.
Agora, porém, uma amiga trouxe-me, em vez de um livro, um filme.Como um ingrediente de peso a juntar ao que se leria, há que contar com a interpretação, o tratamento que o actor dá ao personagem e que pode ajudar ou desajudar completamente a mensagem que o autor quis passar ao criar o seu "pinóquio"... Neste filme a actriz principal é já uma ganhadora de um Óscar pelo seu talento e o seu partenaire é quanto a mim perfeito, especialmente nos seus silêncios regorgitantes de intencionalidades. O autor do livro - Bernhard Schlink - recebeu inclusivamente o prémio de Literatura do Die Welt em 1999.E assim se juntaram uns tantos ingredientes para que o filme fosse bom e premiado.
Quando eu julgo que já nada mais se poderá contar ( e me poderá ainda amarfanhar ) sobre os horrores dos campos de concentração alemães, lá aparece sempre mais uma outra perspectiva,( até o analfabetismo numa Alemanha dos anos 40! ), mais uma chaga que ainda não fechou no coração de alguém. Juntar a tanta dor, a tanta baixeza, a amostragem do erotismo que nem sob a chuva de bombas na mais desesperada miséria humana deixou de existir e fazer disso o polo comercial da história a contar ( e a vender...) isso é que serviu para que a minha alienação não fosse tão longe, mesmo ao fim de uma hora e quarenta a conviver com tudo isso.
É salutar deixar que as feridas sarem mesmo que as cicatrizes fiquem sempre a
arrepanhar um bocadinho. Fazê-las render, porquê, para quê ?...

29 novembro 2009

1ºDOMINGO DE ADVENTO

Creio que quem acaso usar vir por estas bandas, ler o que vou escrevendo, já tem como certo que eu só me dedico a esta ocupação ao domingo e quase exclusivamente para meditar por escrito sobre os textos litúrgicos desse mesmo domingo.Mas esta é apenas uma meia verdade,que hoje, primeiro domingo do ADVENTO deste ano, me pareceu ser tempo de explicar. Na verdade, o meu grande gosto é mesmo escrever sobre as leituras bíblicas por me parecer que é sempre necessário e pertinente, trazê-las para os dias de hoje e pensá-las à luz que ilumina a nossa vida de todos os dias, porque evangelhos, cartas, salmos, profecias e actos me aparecem com pessoas como nós a vivenciá-los, apenas com a diferença de que nós temos connosco a carga de 2000 a 3000 anos de mudanças civilizacionais, muita HISTÓRIA,muito mais MUNDO, muita ocidentalização, tudo em muito maiores números, sendo nós sempre a mesma matéria de quando Deus viu que tudo era BOM..Tão longe esse Génesis e como nós ficámos, por dentro, sempre tão frágeis perante todas as serpentes que cercam a ÃRVORE DA VIDA ! É pois sempre nesse espírito que me parece quase obrigatório escrever aos domingos, o que escrevo.
Porém, o meu "diário" é múltiplo, como o de todas as pessoas, só que nem sempre o meu tempo livre de obrigações me permite este luxo de sentar-me a contar o que aconteceu no meu em redor mais próximo.
Até estive doente e me tratei graças à assistência que veio dar-me uma médica da AMI a que recorro sempre que preciso, e a uma amiga que chamei para me sentir acompanhada nos meus medos, e à minha Valentina que reza rezas que só ela sabe, enquanto me serve a canja e os seus estimulantes "já vai ficar boa ".
Passado esse "cabo Bojador", como o Pessoa diz que se passa "além da dor", eu lá passei... E senti que merecia mais mimos, exactamente como quando ,em menina, convalescia de um qualquer sarampo ou bronquite...E porquê? Porque,
se partira a perna da antiquíssima mesinha baixa que eu sobrecarregava com pilhas de livros, todos "em actividade de serviço", e a minha amiga saíu, sem me dizer ao que ia , e foi pelas lojas a encontrar-me algo que era sonho antigo nunca concretizado: achar-me um fogão eléctrico à justa medida da boca da minha lareira, daqueles que simulam labaredas, lenha e tudo, para, funcionando ali, além de me aquecer, fazer esquecer a ausência da velha mesinha que ocupava o espaço demasiado próximo à lareira. Se isto não é mimo é o quê ? Mas aconteceu também que o meu professor de computador me "mimou" trazendo-me prontos uns pequnos desdobráveis com passagens de vários posts sobre o ADVENTO que tinha espalhados pelo blog e que preparara para agora partilhar com os meus amigos.E foi óptimo poder fazê-lo.
E agora aqui estou eu, após ter acendido a primeira das quatro velas que hão de alumiar-me nestas quatro semanas até ao Natal, declamando como o SALMO, fazei-me, Senhor, caminhar os vossos caminhos, ensinai-me o vosso rumo, econduzi ao caminho os pecadores, orientai os humildes na justiça e aos pobres guiai os seus passos. Dias virão...dizia hoje Jeremias.

22 novembro 2009

...o Vosso Reino

É verdadeiramente fascinante como nos envolve uma atmosfera rescendendo á grandiosidade com que Sâo João visionava as suas apoteóticas cenas do Apocalipse, através de todas as leituras deste dia que encerra um ano litúrgico a render preito à realeza de Jesus, enquanto Filho de Deus nosso Pai!
Imaginamos Daniel nas suas visões da noite a presenciar, entre as nuvens do céu, aquela entroni- zação da figura de Homem ,mal definida, junto do divino Ancião. Ecoam aos nossos ouvidos, do Apocalipse, a ELE a glória e o poder pelos tempos sem fim, enquanto todos os olhos, mesmo os que o trespassaram, O vêem caminhar entre nuvens, clamando com a sua voz poderosa Eu sou o Alfa e o Ómega, aquele que é, que era e que há-de vir...A melodia do Salmo ofusca-nos o olhar perante O Senhor vestido de majestade, REI num trono de luz.. E,por fim, com que dignidade se passa aquela conversa entre Jesus e Pilatos, sabendo bem como seriam interpretadas as palavras que dissesse É como dizes, sou Rei! Dói-nos pensar que Pilatos sabia muito bem que aquele rei não era deste Mundo, mas mesmo assim foi preciso Jesus lembrar-lhe que só o ouviriam aqueles que fossem amigos da Verdade...
É razão para termos orgulho na nossa pertença a uma religião com uma FÉ nascida nas mais luminosas e espirituais crenças e nas mais puras convicções feitas certezas...

15 novembro 2009

...às nossas portas...

A grande notícia do Evangelho de hoje vai integrar-se naquela frase que recordamos sempre de João Paulo II não tenhais medo ! Jesus afirma aos discípulos : ficai sabendo que o Filho do Homem está perto, mesmo às vossas portas, quando acontecerem todas as calamidades que associamos a um fim de mundo e de que Ele falou como tão inevitáveis quanto de data imprevisível. Portanto, temos a sua promessa de que estará a velar por nós, mesmo às nossas portas. E, ao longo das nossas vidas, não temos nós todos tido já provas de que Ele estava lá, mesmo não se tratando de nenhum fim de mundo?...

14 novembro 2009

Gerontologia

Depois de uma semana com alguma agitação, chamemos-lhe social, em que fui festejada por amigos com um dîner en ville, com direito a bolo de velas e pessoas a cantarem o "parabéns a você", e em que eu pópria recebi amigas para matar saudades conversando em redor da mesa de um almocinho gostoso, e em que ainda me vi enredada no completar de um prolongado tratamento no dentista, tudo isto concertado com o cumprimento dos horários das minhas lições, eis que chega o fim de semana que eu destinara para repouso físico e silêncio propiciadores da minha atenta dedicação à correcção de umas cinquenta e tal páginas da tese que a minha amiga Irmã Conceição está a elaborar para o seu mestrado em Saúde/ Gerontologia e me vai trazendo aos bocadinhos. Se alguém lê este post, não vai certamente pensar que eu corrijo alguma coisa de matéria tal. Eu sou apenas professora de português... Mas o que eu tenho aprendido como geronte !... Hoje travei conhecimento com dois autores,Matheus Papeleo Netto e Ferreira Novo que, para além de alguma coisa que conhecia do doutor Daniel Serrão, me deixaram cheia de conhecimentos sobre mim mesma no campo da psicologia das pessoas de idade. "Coisas que o meu coração estava a pensar" como diria o poeta, mas que não sabia que podiam ser mesmo tomadas como coisas sérias. Dos autores que referi, atrevo-me a citar algumas passagens que a minha amiga recolheu e reformulou :No seu contexto social, o idoso sente-se senhor da sua vida e das suas decisões, semdo este aspecto fundamental para a recuperação do seu equilíbrio emocional... Ou então :Pelo conteúdo das suas emoções e sentimentos percebe-se que os idosos interiorizarão o envelhecimento como algo negativo e em consequência disso deixam de lutar por uma vida mais saudável...é que, além da perda do vínculo profissional e do papel social que desfrutavam, há sempre uma baixa considerável no seu rendimento como pessoas físicas e intelectuais acrescida por vezes com a dos seus rendimentos financeiros...Bem. É de facto uma análise muito certeira dos problemas próprios dos gerontes e fico feliz por ver que há quem se preocupe com isso e, como esta religiosa da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, procure os meios científicos para lhes tornar o caminho menos duro e sofrido... Bom seria que todo este mundo globalizado no culto do que é jovem, esbelto, esperto e desportivo, percebesse que...as pessoas idosas, graças às experiências já feitas, podem dar à sociedade qualidade de vida, estabelecendo relações significativas que podem ajudar os mais novos a construir uma verdadeira sociedade de justiça e bem-estar e até de liberdade para todos.
Bom foi mesmo este dia de cinza e humidade em que me foi possível enrolar-me em silêncio e conforto para pensar em paz, tal como eu gosto !

08 novembro 2009

As VIÚVAS

Não, eu ainda não sou a viúva de Sarepta, nem tão pouco aquela outra viúva a quem Jesus distinguiu do meio da multidão de pagantes que Ele observava junto da Sala do Tesouro.O que me interpelou nas leituras do dia de hoje foi o facto de, tanto o profeta Elias, como São Marcos, terem escolhido viúvas para suas propostas de modelo a seguir, e viúvas como sinónimos de pobreza extrema, mas também de abnegação e conformação extremas... Mas também de extremo abandono, visto que, pelo facto de não terem o apoio do marido falecido se vê que o não teriam de mais ninguém... Não cabe aqui sequer falar de estado social, mas da solidariedade e consequente partilha que Jesus incentivava nos que O seguiam. Claro que estávamos ainda nos alvores de tudo isso em Sarepta com Elias, mas com Jesus, lá estava já então a resplandecer o valor do que se dá, parte de nós, comparado com o valor do que se dá porque não nos faz falta nenhuma...E é tão grande o fosso que separa uma coisa da outra que aí Jesus achou mesmo necessário chamar a atenção para os fingimentos daqueles que, com aparências importantes e luxuosas, consomem os bens das viúvas, por entre simulacros de longas rezas. Como já tenho dito mais vezes, Jesus sabe mesmo ser duro,quando lhe parece ser preciso.
Não posso deixar de imaginá-LO hoje, ali sentado à porta de uma tesouraria de Finanças, a dizer estas coisas e a olhar piedosamente por quantas viúvas cada dia mais vão ficando mesmo sem as tais duas moedas...
Teriam mesmo passado dois mil e dez anos...?

07 novembro 2009

O Ocidente e a sua filosofia

Estando,como estou, contente com a minha posição de reformada, pela liberdade( libertação) e outras coisas, às vezes tenho saudades daqueles areópagos internacionais em que tomava parte por obrigação profissional que me permitiam contactar, à margem dos trabalhos, com pessoas de outros mundos, já nessa altura a darem passos bem mais largos do que a minha perna, em formas de estar na vida que me deixavam perceber estarem a começar a envelhecer não só os Sartres, como os Jakobson, pela força de circunstâncias de uma Europa que me embalara, jovem ratinho de biblioteca, tanto neles como em estimulantes Barthes, mesmo sem os ter compreendido muito bem. Posso dizer que nesses encontros aprendi mais de Sociologia e Antropologia do que me tinha sido posível fazê-lo no meio das minhas literaturices.O certo é que tenho agora a certeza de que ,nessa época, me não enganava e esta Europa está mesmo a aculturar-se a olhos vistos...E nós, os daqueles tempos, seguramos com todas as forças as memórias possíveis( com que sonoridade se teceram despedidas a C. Lévi-Strauss há dias falecido ), porque sentimos que é uma parte do que nós somos que está a periclitar... Se falo nisto agora, é porque ontem um meu aluno que por sinal fez no ano passado, com êxito, a cadeira de Filosofia, me perguntou à queima-roupa «afinal, professora, o que é bem ao certo a FILOSOFIA ?» Falávamos de dois dos heterónimos de Pessoa. E não é que eu fiquei ali embarçada ao tentar dar-lhe de forma sucinta e quimicamente pura uma definição de algo que para mim está a ficar cada vez mais híbrido, mas também mais descaracterizado ?Pensei apelar a uma reconfortante inspiração grega mas duvido se não será antes e apenas que seja só uma pontinha de ummundo todo outro que esteja chegando até mim e por isso sinto que me fará falta ir por aí vê-lo mais de perto? Não será mesmo ?

02 novembro 2009

...repousem lá no Céu eternamente


Parafraseando o meu Camões, ele também com todos relembrado, ...se lá do assento etéreo onde subiram, memória desta vida se consente...


...e se virem que pode merecer-vos alguma coisa a dor que me ficou...saibam quanto, em várias medidas ,me faltais e me dói a saudade para sempre...


01 novembro 2009

Dia de todos os Santos

Habituados como estamos a que quase tudo o que é muito, ou grande ,nos seja apresentado em MILHÕES, é com um certo sorriso que lemos nos textos bíblicos aqueles setenta vezes sete, ou o desmultiplicar dos cidadãos de Sodoma e parece-me que, com a sua pretensão de grandiosidade, no APOCALIPSE,.
São João, ao usar o número cento e quarenta e quatro mil, estava mesmo a querer transmitir-nos a noção de um muitíssimo grande número dos que já estariam marcados por Deus, tendo-lhe parecido ser possuidor de termos de avaliação insuficientes para calcular sequer a grande multidão que ninguém podia contar que surgiu depois, proveniente de todas as nações, povos e línguas... Com uma extraordinária noção da espectacularidade dos ambientes visionados, São João põe ali perante o majestático senhor DEUS todos os que vinham da grande tribulação...E o ambiente era de festa, de louvor e de paz ali conseguida enfim...
Estávamos ainda a saborear esta ideia de uma possibilidade de virmos a engrossar a fila dos cento e quarenta e quatro mil, quando o Evangelho nos transporta para aquela maravilha de, com o Lago Tiberíades aos pés, nos sentarmos por ali sob as árvores e flores que as envolvem, ouvindo a pausada e doce voz de Jesus ensinar-nos como poderemos ser bem-aventurados...
Penso que se fosse possível eu ter lá estado,talvez tivesse tido a ousadia de agradecer-lhe a VIDA que é ainda o meu quinhão de santidade, daquela que nos deu o Senhor DEUS, pela força do Espírito Santo...

31 outubro 2009

31 de Outubro


Ardeu
como uma dor
o sol,
de todo o dia...
quem diria
que dói
com tanto ardor,
quando somente foi
parte da nossa vida
que partia ?...

28 outubro 2009

26 de Outubro


Não era justo que deixasse de registar as alegrias. Sós. Simples e estremes. Pois elas existem e inundam-nos a alma surpreendentemente, assim como um clarão de relâmpago,mas duradouro, não fugidío...
Lusco-fusco de primeiras horas do dia de aniversário. Abro a janela de par em par, porque não faz frio e ainda não há barulho. E eis que me vejo, que me sinto, envolvida por uma nuvem que descera suavemente sobre a minha casa. a minha rua, a minha cidade.afofando, envolvendo devagar, como eu já uma vez contei que experimentara,há anos à beira-mar. Foi tão reconfortante este abraço, que chorei de felicidade. Por vezes tem-se direito a ser místico ou talvez só poeta...Senti-me abraçada pelas lembranças, senti aquelas manifestações de carinhos de que fiquei privada há tantos anos... Pareceu-me, sim, que se
debruçavam sobre mim de dentro daquele nevoeiro todas as ternuras terrenas já perdidas, vindas não sei de onde...
...Não conseguirei explicar-me melhor...
Entretanto, cresceu a manhã.Como nos contos de fadas, quebrou-se o encanto.
A verdade é que passei um dia feliz, acompanhada de boas amizades e com a alma muito mais leve do que o meu corpo que os anos todos vividos vão carregando mais e mais...E quando acabei ficando de novo só, lembrei-me de um daqueles encantadores poetas japoneses cuja simbologia e poder de síntese eu tanto aprecio, que reza assim:
Le papillon est vieux
mais son âme sur les chrysanthèmes
folâtre...
tradução de G.Renondeau

25 outubro 2009

O cego,`a beira da estrada

É claro que quem escreve e publica tem que ter a noção de que está a usar uma arma que atira para um alvo não necessariamente previsto por si. Por isso eu não acredito em quem diz que escreve para seu próprio e único gosto ou apenas para desabafar... Se fosse só isso, então para quê PUBLICAR?
Isto vem-me ainda trazido à minha indignação pelos impropérios que a raiva do velho Saramago o levou a publicar. Porque ao debruçar-me sobre as leituras da liturgia de hoje, não consegui libertar o meu pensamento daquela incómoda memória e me entristeceu pensar por quanto tempo isto perdurará...
O cego que à beira da estrada gritou quanto podia e contra toda a conveniência que o mandava calar,pedindo a misericórdia de Deus através da amorosa comiseração de Jesus, é, para mim, das figuras mais pungentes de toda a imagética dos evangelhos . Sou eu, são os que só por um acaso destes podem encontrar-se com Deus e falar~lhe não só do que sofrem, mas de como O esperam , confiadamente, longamente...É o nosso grito, por aí a ecoar nas beiras de estrada deste nosso mundo AGORA...
Para os que não entendem isto, espero bem que haja outras estradas.

25deOutubro de 1147

Não posso deixar passar o aniversário desta LISBOA que eu amo sem lhe vir dar parabéns ! Foi tempo, não me lembro quanto de menina eu era, ou mesmo já de rapariga, neste dia era feriado na cidade. Como ela cresceu e como se manteve bonita ! Há por aí algumas rugas de obras a fazer-se ou de obras a deverem ser feitas... mas o TEJO e ela, ELA e o Tejo, constroem todos os dias a maravilha das cores, das luzes, dos perfumes e das requebradas curvas de compridíssima beira-de-água... Esta LISBOA que sempre amarei, enquanto puder amar...

22 outubro 2009

Que pena !Saramago.

Aconteceu-me que fui educada numa família onde era pedra basilar o respeito de um por cada um dos outros. Apesar de ainda se estar no início de uma curva ascendente no que dizia respeito à educação das meninas e à sua preparação para seres independentes e autónomos, eu tive a sorte de ter sido apanhada pela total adesão dos meus Pais a essa moderna forma de educar. E assim aprendi muito nova a real, verdadeira e respeitável forma de ser do outro, sabendo também, no formato regras de boa educação ,que não se agrediam verbalmente as pessoas, pois, ofendendo-as, coartaria a sua´própria liberdade de serem como eram.NUNCA se mostrou oportuno aos meus Pais, por exemplo, trocarem comigo comentários sobre a bondade profissional dos meus professores. No entanto eles iam aos meus colégios amiudadas vezes, justamente para falarem com os professores. Nesse tempo ainda nem se sonhava com comissões de Pais...E, no seguimento de uma tal formação, cresci, trabalhei, relacionei-me com todo o tipo de seres humanos e procurei cultivar-me, na consequência lógica das minhas profissões cívicas e de Fé. Examinando com cuidado, (e indo tão fundo quanto a minha auto-crítica permite) ,os meus relacionamentos ao longo da vida, sei com absoluta segurança que nunca invectivei ninguém, nem tão pouco procurei captivar pessoas, sobre e para as minhas convicções,sejam elas políticas ou religiosas.Também é verdade que nunca permiti, até hoje, que alguém o fizesse em frente a frente com a minha pessoa.
Mas estou a dizer "em frente a frente", porque só o acto de vivermos no meio dos Homens e do Mundo nos coloca na posição de alvos mais ou menos fáceis das agressões ideológicas, morais e religiosas daquelas pessoas que não foram educadas como eu fui.Quer pela ironia mais ou menos elegante, quer pela grosseria mascarada de "franquesa", quer pela inveja que em tudo vê hipocrisia, somos atacados quando e como menos esperamos, enquanto pertenças de um determinado grupo social que o "atacante" tenha escolhido. Claro que nem ele sabe de mim e quase sempre eu sei dele, porque estas atitudes que ás vezes são de um certo proselitismo vêm quase sempre até nós, humildes anónimos, da parte de quem, de dentro de uma galeria de nomes tornados públicos, se considera, por isso mesmo , com direito de o fazer.
Aconteceu tudo isto com o velho Saramago. Que pena ! Sofre por muitas vias ,tendo uma delas que ver com a Fé dos outros que ele não tem.
Na nossa literatura,há exemplos de grandes ateus, anti-clericais eagnósticos que se arrependeram tarde, de assim terem sido. e o disseram das formas mais sinceras.. Guerra Junqueiro chegou a pedir, na hora da morte ,que lhe trouxessem o Padre Cruz...
Que virá a acontecer com Saramago ?

18 outubro 2009

Os filhos de Zebedeu

Hoje saí da missa a pensar nos filhos de Zebedeu. Tiago e João entenderam fazer aquilo a que nós hoje chamamos meter uma cunha para conseguirem uma posição de privilégio quando Jesus estivesse enfim aureolado de glória.Este "ataque" directo aparece no entanto no Evangelho de São Mateus ainda mais empenhado, porque ,enquanto São Marcos põe os dois rapazes a fazerem o seu próprio pedido directo e com o peito aberto ,em São Mateus é a mãe deles que vem prostrar-se em frente de Jesus e com isto reforçar a pressão com que pretende interpelá-lo para conseguir a satisfação da sua ambição.Porque de ambição se trata, obviamente, esta ansiedade para conseguir privilégios em desfavor de outros, tanto de pais por filhos, como de cada indivíduo por si próprio. Como mais de mil vezes tenho dito, acho simplesmente admirável que a passagem de todas as vicissitudes de mais de dois mil anos não tenha modificado nada na idiossincrasia do ser humano. A cada passo. na leitura dos vários livros da Bíblia, nos estamos a encontrar ou com nós mesmos ou com os nossos vizinhos, amigos ou conhecidos.E com situações sociais, familiares ou políticas que vivemos ou a que assistimos. E no entanto, quanta luta, quanto esforço...e quanta presunção no nosso devir, desde que perdemos o Paraíso !
Que relação então devemos considerar entre o nosso actual e esse incomensurável déjà vu ?

17 outubro 2009

Tanta vida !

Neste mesmo dia, em 1978,saía do fumo branco um novo papa de nome Karol Wojtyla, polaco e sofredor e perseverante, com uma história de vida deveras impressionante, por causa da crueza da 2ª Guerra Mundial e da força estoica com que suportou todos os sofrimentos morais e físicos e ainda conseguiu trazer para nós todos, mensagens de esperança e alegrias possíveis...Se não é desta massa que se fazem os Santos, será só porque alguma coisa se perdeu da receita...

Porém como o nosso mundo está vivendo cada vez de mais celebrações de datas do que de obras que o vinculem a essas datas na actualidade. hoje falou-se mais do que é costume na Erradicação da Pobreza, frisando-se que é hoje o DIA de o fazer. E há festas e palestras e programas a mostrar os desesperadamente pobres àqueles que são ainda só pobres, sem desepero( ainda) Conheço alguém que está preparando uma tese de doutoramento sobre este tema... Contribuo com donativos sempre ridículos para organizações que conseguem dar um casaco ou um pão a alguns pobresinhos que protegem... E que mais? Onde estão Madres Teresas de Calcutá agora ? E os governos dos povos que percebam que esta pode ser a subterrânea ruina do mundo que nós tanto queremos considerar civilizado, onde estão? ASSOBIANDO PARA O LADO,como usa dizer~se, depois deste belo DIA DE...,como é costume.

Mas também hoje foi dia de acontecer uma coisa muito bonita : festejaram-se os 100 ANOS do Liceu Camões. Ainda está escrito lá na fachada LYCEU.
Esta designação daqela escola que daria uma instrução e educação integradas aos alunos juvenis. foi substituida pela simples ESCOLA ,creio que com preocupações de mais democraticidade, mas quando, como eu, se foi criado a achar que passar da escola para o Liceu era como quando os primeiros astronautas disseram ao pisar a LUA « um grande passo para...» sermos mais "crescidos", a ideia de não usarmos hoje o nome Liceu traz-nos uma certa saudade. E assim foi uma alegria deste dia ver festejar o idoso Liceu. Eu nunca o frequentei, porque havia então a separação "meninas" para uns liceus,"rapazes" para outros, mas fiz lá exames, mais tarde, e vários colegas professores, tantos, tantos amigos, lá se formaram para a Faculdade e dali para a vida ! Haverá certamente algumas gerações de portugueses, de bons portugueses ,a caberem dentro destes cem anos e com muitas deliciosas recordações do que ali foi por elas vivido... E transbordou para uma MEMÓRIA nacional de que nos orgulhamos.

14 outubro 2009

o outono roubado

Numa altura da escala das Estações em que já todos praguejamos contra este verão que nos está a roubar o outono, em que os imediatistas dão entrevistas na praia a dizer que agora é que é bom, pela quentura das ondas, pelo despovoado das areias, pela ardência do sol ainda, fica-se a pensar se somos nós que somos mal-dispostos e razinzas, ou se alguma coisa ou alguém andou mesmo mexendo no nosso clima, parafraseando aquele cómico brasileiro que, ao sentir-se roubado, desconfiava de que alguém teria mexido no seu bolso. Mas estamos secos,como os campos, trazemos a alma engelhada, o corpo lento. cansado...
E suportámos as tensões de todas as picuinhas de duas campanhas eleitorais quase pegadas que não tiveram alegria nem força para nos alegrarem, quaisquer que tenham sido os prazeres dos resultados... E eu, azeda com tudo isto, sou convidada para ir ver um Pirandello que veio mesmo para a cena lisboeta numa época assim ! Ainda se usa a tragédia (digo eu ) do absurdo. Secos, como já disse, só nos faltava sermos outra vez chamados a sofrer o abandono do nosso autor, a nossa incapacidade de assumirmos os defeitos de fabrico que nos calharam em sorte, a nossa pre-condenação a aguentarmo-nos com eles...
Contudo, sei com toda a certeza que, se àmanhã acordar e estiver a chover, a minha vida ainda tem recursos para me deixar embriagar de novo...

11 outubro 2009

Reflexões sobre as leituras da liturgia de ontem

Para mim, a leitura mais marcante das três da liturgia deste domingo, foi a extraída do Livro da Sabedoria que, depois do do Génesis, é o que mais me apaixona.Que tenha sido ou não obra do grande Salomão, o que se me torna relevante é que é obra de um enorme bom senso e de alguém que hoje poderia ser Mestre dos Mestres em qualquer Faculdade de Psicologia. É que, verdadeiramente a palavra sabedoria não tem aqui o valor semântico que nos habituámos a atribuir-lhe. Não é uma acumulação de saber, mas antes uma espécie de arte de ser sensato, uma receita para entender aVERDADE da Vida, o que dela vale a pena. Acumulação. só talvez a da EXPERIÊNCIA.E assim, quando São Paulo diz na sua carta aos hebreus que a palavra de Deus é capaz de penetrar "onde se dividem o corpo e o espírito" e de "distinguir as intenções , dos pensamentos do coração" não é de outra coisa que fala, senão da Sabedoria divina de que Salomão terá recebido a inspiração. Mas depois de tanta sabedoria e bom senso, surge-nos no Evangelho de São MARCOS,aquela frase extraordinária de Jesus, que tanto tem dado que pensar a tanta gente, sobre como é difícil passar um camelo pelo buraco de uma agulha. Felizmente para mim, já me foi explicada mais esta metáfora:nem o camelo é o animal que conhecemos, nem o buraco da agulha é aquilo que pensamos. Certo,certo é não se poder forçar a entrada de qualquer coisa desproporcionadamente grande

num espaço desproporcionadamente pequeno, o que seria uma insensatez...E Jesus queria mesmo que todos entendêssemos que, carregados de supérfluidades estaríamos desproporcionadamente grandes para caber no despojamento do reino de Deus...

A propósito de tudo isto, enviei ontem mesmo a alguns amigos o seguinte tema de meditação

Eu pedi forças...
e Deus deu-me dificuldades para me fazer forte.
Eu pedi sabedoria...
e Deus deu-me problemas para resolver.

Eu pedi prosperidade...
E Deus deu-me cérebro e músculos para trabalhar.

Eu pedi coragem...
E Deus deu-me obstáculos para superar.
Eu pedi amor...
e Deus deu-me pessoas com problemas para ajudar.

Eu pedi favores...
E Deus deu-me oportunidades.
Eu não recebi nada do que pedira ,
Mas recebi tudo de que precisava...

Sem que o tivesse percebido antes...

05 outubro 2009

Comemorar o Dia do Professor no dia da República

Estou sempre a admirar-me com as minhas ignorâncias de factos que, de repente, me surgem como do domínio público e eu, cá enleada nas minhas coisas, nem dei por eles, nunca. Com que então, o dia 5 de Outubro que toda a minha vida conheci votado a celebrar o desaguar de toda aquela torrente política que tumultuou por todo o começo do nosso século XX e se chamou REPÚBLICA precisamente a partir deste dia, aparece-me agora nada mais, nada menos, do que Dia do Professor !?! O MEU dia ! ! !O DIA de todos os meus queridos professores ( não sei ao certo quantos ), dos quais só de muito poucos deixei que se esfumasse a memória, não porque não tivesse gostado deles, mas porque naturalmente as grandes afinidades com uns e as grandes amizades com outros foram gravando-se sempre mais nítidas na minha saudosa recordação,empalidecendo a daqueles outros que aliás nunca esqueci. Ainda O DIA de todos os meus colegas e companheiros que, como eu, se devem ter afeiçoado tanto ao que fizeram por tantas e tantas gerações de miúdos que hoje só devem ter coração no lugar da lembrança deles... O NOSSO DIA, pois. Há por aí agora uma enorme carga política porque se intrometeu na nossa maravilhosa missão de FORMAR a arreliadora necessidade de lutar pela vida, uma luta que os tempos foram tornando tão exigente como a outra, de formar gente grande.O mundo de hoje do professor tornou-se cheio de curvas, esquinas e derivas. Até concebe a palavra perigo. Bem diferente daquele em que tinhamos tempo e matéria para podermos ter sonhos, sem estremecimentos que não incorporassem o ensino ou a aprendizagem.
Por isso quero muito celebrar este dia de. Posso garantir que é, que será sempre uma glória, a nossa galeria de recordações !

04 outubro 2009

No Génesis, a Família

Sendo óbvio que a leitura e releitura dos textos bíblicos, repetidos um sem número de vezes ao longo das nossas vidas,nos traz coisas novas em cada uma delas, aí residindo o mistério da sua credibilidade como palavra de Deus, é também evidente que o nosso estado de espírito ou as circunstãncias de momento nos levam a sermos mais ou menos sensíveis a um ou outro aspecto que nelas reside e se nos torna, de cada vez, com maior ou menor peso proposto á nossa meditação. O belíssimo LIVRO DO GÉNESIS de que hoje foi retirada uma leitura, ao ser acompanhado com o SALMO127(128) e com a conhecida passagem do Evangelho de São Marcos em que os fariseus, conhecedores da posição tomada por Moisés,quiseram mais uma vez "experimentar" Jesus sobre a possibilidade do divórcio no casal, foi, na missa de hoje, direccionado para a exaltação da FAMÍLIA e recordo de como já olhei neste mesmo livro o aspecto da Solidão- disse o Senhor Deus:não convém que o Homem esteja só...
Mas hoje, que as tensões e intenções sociais estão cada vez mais desprestigiando esta complementaridade - osso do meu osso e carne da minha carne - vejo mais nitidamente aquele quadro do Salmo que vê a Mulher como "vinha fecunda" no seio da "casa" e "os filhos como rebentos de oliveira em redor da...mesa" e creio que o Senhor Deus não falaria à toa quando afirmou: o Homem deixará pai e mãe para se unir à sua Mulher e os dois passarão a ser um só.
Visões paradisíacas, ser-me-á apontado por alguns que eu sei... Estamos na época do liberal, do individual, e o núcleo família quanto mais desmultiplicado mais interesses ocasiona. E paradoxalmente nunca se falou tanto em solidariedade...

01 outubro 2009

Outubro e a Música

De la musique avant toute chose ! Chamar a música, música...Um grande poeta simbolista da 2ª metade do século XIX, um poema/letra de canção, da autoria de uma poetisa portuguesa, e eu sem palavras que me cheguem para dizer de quanto alcança o meu amor pela música, de quão fundo ela ecoa na minha sensibilidade, de como ela enche a minha taça, quando aparece a infiltrar-se nos interstícios das maiores amarguras, de com que novas cores ela consegue amenizar as minhas paisagens mais sombrias...a MINHA música...
E é também este mês de Outubro que começa hoje...pelas aveludadas tardes que nos traz ,pelas suas manhãs, como foi a de hoje, baças, quase nevoeirentas, ainda mornas, pelo amarelado das folhas que espalha já pelos chãos, por todas estas coisas mansas, é ele assim , suave e pleno, a música, a sinfonia que eu componho dia a dia, hora a hora, desde que sou gente.Todo ele é o meu DIA da MÚSICA...avant toute chose.

27 setembro 2009

...naqueles dias o Senhor desceu numa nuvem...

Creio ter já mostrado de muitas maneiras e feitios omeu encanto pelo Antigo Testamento pela quantidade e qualidade da informação que dele retiro para situar-me no tempo e no modo em que, da pureza dos princípios de tudo, à cáustica caracterização dos caracteres humanos, se fez possível e até necessário o aparecimento dos Profetas cuja voz consegue ecoar através e por cima de tantos séculos chegando até nós com a clarividência e actualidade que sempre me deixam fascinada.Mas é da voz grandíloqua de Moisés que ouvimos na primeira leitura da missa de hoje a transmissão da vontade do Senhor, nosso Deus, de que não há que afastar ou pré-condenar aqueles que, não sendo ou nem mesmo sabendo como se é um cristão confesso, pelas suas acções e pelas suas palavras, se colocam, na prática de vida, ao lado dos mais convictos seguidores da Lei de Deus. O mesmo nos repete São Marcos no Evangelho, completando aliás este seu"recado" com aquelas sugestões de amputações, castigo verdadeiro dos que, na prática de vida, ofendam pessoas nas referidas condições. Há uma particular dureza, também revelada na Carta de São Tiago, nestas noções de castigos ou ausência de complacências que me parecem um tanto por fora da misericórdia divina, e por isso é que eu gosto de conhecer os tempos e os modos, como já disse, porque dessa forma fico-me apenas pela enorme gravidade atribuida então aos desvios emergentes, coisa que,na nossa actualidade está a ser cada dia mais subvertida.

Não queria mesmo pensar nestas subversões que todos os dias estamos a ser convidados a aceitar como boas, porque hoje foi politicamente aquele dia de ter fé cívica e acreditar no melhor de cada homem : tiveram lugar as ELEIÇÕES para um novo Governo e eu votei a acreditar que votava para tudo o que pudesse ser melhor para este povo e este país,agora tão sofridos...

20 setembro 2009

No nosso dia-a-dia, a Fé

Porque estamos a dois dias do começo do Outono, a estação do ano minha preferida, acordei, como sempre ,ao lusco-fusco e também como sempre, pousei os olhos no meu velho, velhíssimo, crucifixo que àquela hora só os meus olhos vêem, porque sabem que está ali e pensei claríssimo, como se tivesse estado toda a noite a meditar : é mesmo necessária a morte que o outono nos traz, para que possa haver o renascer na primavera...a verdadeira Ressurreição !
Parti para a minha manhã a pensar na densidade desta evidência, de repente para mim tão "evidente" e foi neste espírito que ouvi e li o que a liturgia de hoje nos trazia. Além de Jesus a ensinar aqueles homens seus discípulos que ,de tão simples, às vezes procedem como crianças, surge-nos uma leitura um tanto cruel do Livro da Sabedoria e depois uma Carta de São Tiago que, caída nesta época de efervescência política em que estamos, a uma semana de eleições, me deixou completamente fascinada por várias razões, mas principalmente pelo seu carácter premonitório : A justiça é um fruto produzido na paz, para aqueles que praticam a paz. De onde vêm as guerras? De onde procedem os conflitos entre vós? Não é precisamente das vossas paixões? Cobiçais e nada conseguis : então assassinais. Sois invejosos e não conseguis obter nada: então entrais em conflitos ou guerras. Não tendes nada porque ... pedis mal, visto que o que pedis é apenas para satisfazer as vossas paixões. Ora isto vem a ter um eco reconhecível na lição de Jesus aos apóstolos quando lhes diz Quem quiser ser o primeiro será o último e será o que for "servo de todos".Que mais revelações me trará este domingo sobre como a minha fé pode abrir-me os olhos para a minha vida comigo e para a minha vida socio-política?

18 setembro 2009

por causa de GUNTER GRASS

Quando, há alguns anos, tomei conhecimento da existência do Centro Cultural de São Lourenço, em Almansil e o visitei demorada e encantadamente, tomei também conhecimento com um artista alemão de quem nunca tinha ouvido falar e que, residindo então naquele Algarve interior que acolhia a cada prega de terreno cidadãos de todo o mundo que por ali se sentiam em verdadeiros retornos às origens, viera expor naquele sítio acolhedor umas lindíssimas aguarelas, desenhos e esboços preparatórios de uma obra que viria a publicar mais tarde. Era Gunter Grass, um homem indubitavelmente controverso, não só pelas suas opções políticas e sociais, como até pelos seus percursos artísticos, da pintura e escultura para a literatura, sempre nas bermas de um certo humor, a escorregar depois para uma maior convicção surrealista, mas de tal forma inteligente que acabou por vir a merecer um Nobel da literatura, em 1999. Porque me lembro de tudo isto agora? Porque, tendo sido sempre uma leitora-admiradora de Augusto Abelaira, li, nos anos 60, uma tradução de O Tambor de Grass feita por Abelaira, de que gostei tanto que fiquei com aquele autor no meu registo de preferências e acabo de saber que, por se completarem agora cinquenta anos sobre a sua publicação primeira, se achou interessante lançar uma nova tradução. A este livro se seguiram outros dos quais um tem o título bizarro e sugestivo de Descascando a Cebola. Acho-o sugestivo porque, podendo dizer-se que tudo o que escreveu Grass é autobiográfico, é verdadeiramente o descascar de uma cebola o acto de ir contando as sucessivas camadas que vão constituindo as nossas vidas... Hoje e aqui, acabo de descascar uma nova camada da minha vida, não foi?

13 setembro 2009

São Marcos, 8

E vós quem dizeis que eu sou ? Todos sabemos quanto eram transparentes para Jesus aqueles homens que o seguiam. Tinha-os escolhido. No entanto tinha ainda tanto que lhes ensinar ! E era tão extraordinário o que pacientemente lhes explicou que não podia esperar deles que aceitassem com naturalidade o que entrava no âmbito do sobrenatural. Foi preciso dizer-lhes de uma maneira chocante que nada do que podiam ser interresses humanos poderia cimentar o tipo de relação a existir entre eles, o que deixou Pedro muito vexado, não só pela reprimenda de Jesus, como por não ter sido, capaz de compreender sozinho que era toda uma Vida Nova , com valores diferentes, aquela que era no mínimo exigível a quem se dispusesse a seguir o que aquele Homem Novo e diferente vinha ensinando. Vinha exigindo. Não é doce ouvir-se dizer que se perde a vida porque não se percebeu como é que ela devia ser vivida...
Não é mesmo nada fácil. E então realizar que,pelo contrário, ela pode ser ganha
se levada pelo caminho daquele humilde aniquilamento das vaidades, das exibições, das emulações,das pesporrências...Jesus sabia bem que tinha em seu redor ainda muito de tudo isto que tolda até o olhar que olha para os outros e os mede nas suas próprias medidas. Por isso teve que ser exemplarmente duro com Pedro que, na altura, ainda não aprendera o dom salvífico da humildade...
Se eu fizer a algum daqueles com quem vivo dia a dia a mesma pergunta que Jesus fez então, quantas vivências diferentes vou descobrir através da respostas que me derem ? E como irá o meu ego reagir a elas ?s

10 setembro 2009

...à defesa


Seriam umas cinco da manhã e os deuses zangaram-se todos de tal maneira que rolavam mobílias nas suas moradas de nuvens,atiravam-se uns de encontro aos outros a rosnar longamente, sucessivamente, progressivamente. E vieram-se chegando, cada vez para mais perto de nós, num crescendo de estilhaços de luz e de urros abafados, a reboar, a reboar, por cima, por baixo, por todos os lados daquela camada negra de nuvens que os sustentava... A briga arrastou-se até um climax estrepitoso, cerca das oito horas, em que todos podiamos pensar que os deuses estavam despejando sobre os pobres de nós , todos os seus carros de lenha, ou tábuas grossas...Só então houve uns que choraram raivosos, umas lágrimas que pareciam chicotes, fustigantes e rápidas. E nós já todos a pensar que as lágrimas acabariam com tamanho desacato... Mas não. Diminuiram os decibéis e o tumulto foi rolando aos poucos para mais longe, como um eco, a escoar-se, a escoar-se até para lá das nove horas !
Isto foi uma daquelas trovoadas que só acontecem a espaços de anos, em Lisboa. Dentro de uma moldura de dias de calor sem pausas, sem alívios nem de noite...Mau mesmo !
Bichos da Terra, percebemos que temos toda esta carga eléctrica a agitar-nos.porque dormimos mal , porque estamos irritadiços, porque sentimos de repente que se nos solta a língua para dizermos coisas que antes não ousávamos, talvez mesmo pensar, quanto mais dizer alto e bom som, porque,ao mesmo tempo, estamos com medos vários... Anda no ar esta revoada da política dos políticos a desinquietar-nos e também rolam as tempestades dos humanos.
Viver todos os dias também cansa é o título de um livro que li há anos. De Pedro Paixão que não conheço. Se ele soubesse quanto tenho pensado nele, pela sua escolha de tal título ! É que é mesmo o que este tempo, esta época, este clima, nos estão fazendo pensar. Cansa, sim , gostarmos de sorrir, de ser amáveis, de ter esperança, de gostar... E tudo ter que ser tão `a defesa...
A foto não é de minha autoria. Apenas me foi oferecida sem identificação de autor.

30 agosto 2009

Lavar as mãos

Agora que, por causa da prevenção da Gripe A , somos constante e insistentemente lembrados de que é preciso lavar as mãos a cada momento, surge-nos, no Evangelho deste domingo, uma pequena altercação entre Jesus e os Fariseus por causa da lavagem das mãos que estes verificaram não ser prática dos discípulos, quando para eles era obrigatória, antes das refeições. Ora, sabendo Jesus que essa prática, como muitas outras, era, da parte dos Fariseus ,uma mera atitude exterior que não correspondia a nada de profundo, a nenhum ritual sequer, respondeu-lhes, na sua forma incisiva como sabia fazer, quando era preciso, que é no interior do Homem que existem todas as formas de impureza que seria bom lavar . Claro que estas impurezas pertencem a todo um outro registo que nada tem a ver com o asseio e a desinfecção que um procedimento cívico exige e nós percebemos que, para sermos puros de coração, não é necessária a exibição farisaica e antes a ela devemos voltar as costas. Lembremos outro local das escrituras que nos recomenda que nos resguardemos para rezar, sem dar nas vistas, e ainda outro que nos diz que uma mão não precisa de saber aquilo que a outra dá..Que não se descuidem os cuidados contra a pandemia que aflige o mundo ! Trata-se de coisas muito outras...

27 agosto 2009

As modernizações

No último domigo, veio buscar-me uma amiga para irmos até à beira-rio, aproveitar um não excessivo calor e alegrar a vista, porque o dia estava lindo e pensámos que o Tejo também devia estar, o que se verificou.Fomos mesmo naquele cálculo de horas em que apanhássemos o fim de tarde e o quase início da noite, tão repousante. Percebe-se, quanto se pode conversar com um belo gelado à frente, numa hora e num ambiente assim. O relato do que se passou em férias, não podia faltar. Somos amigas de muitos anos, de muita coisa vivida por uma e sofrida pela outra, a par com ela. Mas vieram mais à tona as minhas pequenas viagens nos pontos do país que ela e eu já conhecemos há anos e no como tudo está mudado agora, para mais, para maior,talvez para melhor... Daí surgiu a sugestão de irmos, a partir de ali mesmo, conhecer a Lisboa nova. Na linha do à beira-Tejo, foi um espanto para mim. Desde Algés a Xabregas, o que eu vi de novo, de mudado, de diferente ! Muitas obras ainda vivas mas a já deixarem perceber o que ali vem... E o que está pronto é bonito.
Voltámos para casa, já escurecia. E eu tive um serão para pôr tudo, tudo a direito na minha cabeça.É que,das férias, eu já viera a pensar até que ponto é realmente bom voltar aos lugares que conheceramos algumas dezenas de anos antes. Fica-nos uma sensação de estranheza muito especial, porque a nossa memória, na qual depositávamos toda a confiança, fica subitamente anulada, soterrada, como se um desmoronamento tivesse lançado um milhão de pedras (!) sobre algo de que ainda tentamos vislumbrar umas pontas, umas orlas emergentes. "Isto" já lá não está, "aquilo" mudou para outras instalações, "o outro" mudou de sítio, "agora já não se passa por aí",ou fechou,abriu , nasceu, diminuiu...enfim ,muito pouco está agora como a minha memória fixara . Então? Ficamos como um baú vazio ou vamos agarrar-nos à "segurança" das recordações ? Quando é que deixamos de ser "antigos" e ficamos apenas "velhos" como aquele album de recordações que alguém um dia deitará fora ?

23 agosto 2009

Vigésimo primeiro domingo

Não há dúvida ! Jesus terá dito que não vinha para curar os sãos, mas para salvar os doentes, por isso, àqueles que não quiseram entender a sua parábola sobre a verdadeira comida e lhe voltaram costas, ele deixou-os ir, não estariam necessitados de esclarecer-se, mas aos que quiseram ficar com ele ( para quem iremos nós? ) explicou que o espírito é que dá a vida, a carne não vale nada sem o espírito. E estes. seguiram-no.

Era uma sociedade em formação. Um grupo de pessoas que conseguira fugir do Egipto e ainda procurava estabilizar emoções, mesmo sem disso se aperceber, criar elos de vários géneros, encontrar-se, constituir núcleos afectivos, provavelmente adorar outros deuses...
É por isso que a carta de São Paulo lida hoje e que trata de aconselhar os Efésios quanto às relações marido-mulher, nos parece a nós, homens e mulheres do seculo XXI, exageradanente preconceituosa, mas talvez não fosse demasiado severa para aqueles que ainda desconheciam a reciprocidade do amor e do respeito . Creio que foi neste espírito que se achou por bem incluir esta carta na liturgia de hoje. Chamar a atenção para a verdadeira união exemplar, base de uma sociedade em que espírito e carne têm os seus lugares que certamente os foragidos do Egipto não saberiam ainda distinguir .

21 agosto 2009

Alexandre O'Neill e Jorge de Sena

Hoje é dia de lembrar ALEXANDRE O'NEILL . Conheci-o, como dizia Bocage, magro, de olhos azuis( ?), carão moreno, um homem inteligentíssimo, de sorriso um pouco enviezado, espirituosamente trocista e às vezes tão cáustico quanto lúcido.Mas,de educação esmeradíssima, era capaz das maiores delicadezas de coração, embora gostasse de arvorar-se em irreverente surrealista ( há mar e mar, há ir e voltar); enquanto produzia se uma gaivota viesse trazer-me os céus de Lisboa...letra de fado inspirada num sentimento muito carinhoso, era duro a dizer por exemplo mais podre que um sentimento que pudesse apodrecer ao sol - o tempo de ficar só...
Ou perfilados de medo...irónicos fantasmas à procura do que não fomos, do que não seremos. O'Neill era "uma pessoa". De corpo inteiro e de quem se gostava.

É espantoso! Quando estava aqui a lembrar alguém cuja memória se liga ,para mim , a uma época, cai-me nas mãos o jornal de hoje a trazer-me notícia de alguém que trago no meu novelo de saudades muito perto de O'Neill. Alguém que escreveu isto: Não hei-de morrer sem saber
qual acor da liberdade
Eu não hei-de senão ser
desta Terra onde nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença
qual será ser livre aqui.
Não hei-de morrer sem saber.
Trocaram tudo em maldade
É quase um crime viver.
mas embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade...

.


Trata-se de Jorge de Sena. A notícia diz que o seu corpo vem finalmente para Lisboa, depois de incontáveis démarches da sua incansável mulher, mãe dos seus nove filhos, que nunca se conformou com toda a incompreensão de que foi vítima o grande poeta, romancista, historiador e professor que se viu levado a radicar-se nos Estados Unidos onde leccionou e dirigiu departamentos na Universidade da Califórnia, vindo a morrer lá, em 1978 . Desde essa data, estava enterrado no cemitério da cidade onde viveu- Santa Bárbara, e, ao conseguir-se agora que o que pode restar do seu corpo venha encontrar por fim a "terra" da sua raiz, podemos pensar que algures ele poderá enfim saber qual a cor da liberdade.
Não é estranhíssimo, vário e tonificante o despenhar da cascata das recordações ?


18 agosto 2009

A Viagem

Quando ainda se não é Reformado e quando os empenamentos do corpo ainda não têm oitenta anos, viaja-se bastante e quase sempre férias são sinónimo de viagem.E a maior parte das vezes a viagem é pelo estrangeiro. Viagem pelo prazer de conhecer, viagem pelo gosto da aventura, viagem...porque,já agora, não é caro e todos vão, viagem porque "isto aqui" é uma pepineira, viagem porque dá imenso status no regresso,para contar aos outros que ou não vão ou também foram...Há ainda um outro pretexto ao qual a existência da União Europeia veio roubar muito da sua sedução :as compras.Ir algures lá fora para comprar alguma coisa porque cá não se encontra nada de jeito,é ainda uma boa razão porque afinal a União é apenas europeia...


Parando por aqui esta acidez toda do meu pretenso humor crítico, o que eu mais quero é fazer o louvor máximo ao poquê da alegria que me é dada quando amigos me levam a viajar pelo nosso país que está a ficar cada vez mais bonito, graças a obras de restauro e obras novas, graças a mimos de bom gosto em urbanização,graças a novas noções de urbanismo, civismo e cidadania.


Percebe-se que tem havido novas noções da parte das autarquias aplicadas não só à visão turística, mas muito a levar os habitantes a amar a sua terra, sentindo-se bem nela. Visitei e passeei em duas vilas: Vila de Rei e Vila Nova de Ourém. Que mimosas, cheias de avenidas e pracinhas floridas, arborizadas, onde as casas são vivendas rodeadas de jardins e muito bem cuidadas já sem aquele cunho de que, dantes, nos ríamos chamando-lhes maisons, e onde há pequenos cafés com esplanadas coloridas e quiosques a vender jornais. Não sei porquê ,alguns edifícios de andares com alturas proporcionadas às cotas envolventes,ficam bem encaixados ali e não encontramos sobresaltos ambientais, o que me parece extremamente tranquilizante para quem ali vive.


Por outro lado,descobri cidades das quais conhecera há muitos, muitos anos, os locais, posso dizer agora, os embriões. Torres Novas, mas principalmente, o Entroncamento ! Como é que, de um entroncamento de linhas férreas com a sua gare respectiva, mas sem mais nada que se pudesse considerar, em redor, dos anos 40 do século XX, brotou uma grande cidade, de grandes prédios, de muitas ruas, jardins e avenidas e lojas e restaurantes e cafés... e todas as características de uma cidade dormitório de Lisboa, graças à frequência de comboios cada vez maior , com horários úteis e rapidez desejável ?


Entra certamente na quase magia de tudo isto uma realidade dos nossos dias que me não encanta por muitíssimas razões mas com a qual parece termos mesmo que nos habituar : os grandes hipermercados internacionais ou nacionais que vieram instalar-se espampanantemente nestas localidades, antes deles apenas habituadas a escassas lojinhas de família onde o negócio, a conversa e bom entendimento iam mantendo a satisfação da clientela. Pelo que vi, o próprio hipermercado cria instalações para o seu pessoal, por vezes autênticos bairros, e assim se foram espraiando casas e se formaram núcleos urbanos inerentes àquela potente força comercial. E lá estão óptimas cidades com grande vitalidade, jovens, activas, modernas...Mas também pude aperceber-me de que a abertura aos bons e completos novos centros de estudo contribuiu imenso para engrandecer as velhas cidades onde se fixaram. Em Tomar há um enorme complexo de nível universitário como que a fazer frente aos monstros comerciais que lhe são vizinhos. É um Instituto Politécnico de grandes dimensões que me fez recordar o antiquíssimo e muito bom Colégio NunÁlvares de nívelsecundário e para onde iam estudar tantos rapazes que hoje são alguém por este país.Tomar está uma grande cidade e alindou-se com novas pontes, novos acessos junto às calmíssimas curvas do Nabão, e restauros de muito bom gosto. A igreja de Santa Maria dos Olivais tanto tempo quase soterrada e meio desmoronada, está agora desafrontada,elegante e à noite muito bem iluminada. No Convento de Cristo então os arranjos chegaram mesmo até à repintura da Charola! E a saída do hospital militar ali antigamente instalado permitiu a abertura de espaços agora usados unicamente com fins culturais e museológicos . Abriram-se esplanadas e restaurantes nas varandas do convento abertas sobre a mata particularmente perfumada. Houve o cuidado de promover espectáculos a aproveitar tanto cenário. E com tudo isto se aproximou tamanha antiguidade e tradição da modernidade de tanta gente que por ali vai.
Esta foi a minha enorme Viagem de férias. Há ainda um outro viajar que fiz e que cabe noutro contexto. Da ALMA.
Talvez porque lo que pasó no fué, está siendo como diz Octávio Paz.

16 agosto 2009

Vigésimo domingo comum

Por coincidência, nos últimos três domingos, não tendo comigo o meu computador e tendo tido oportunidade de assistir a missas diversificadas, não registei, como tanta vez o faço, as considerações que as Leituras de cada liturgia me sugerem. Hoje, retomada a rotina, e justamente vindo "apanhar" o último dos quatro evangelhos de S.João que são introduzidos na sequência dos de S.Marcos próprios deste ano litúrgico, deixei-me maravilhar com a capacidade metafórica do discurso de Jesus, na procura de fazer compreender ao povo inculto e primário coisas que só uma grande elevação espiritual, uma real propensão para a elevação dos pensamentos, poderia fazer perceber.Falar em quem comer a minha carne e beber o meu sangue é algo de perigoso, por susceptível de criar a maior das perplexidades nas pessoas simples.E hoje como há dois mil anos.Mas hoje o pendor para o útil e consumível que é quase regra geral, talvez torne mais difícil a compreensão da metáfora do que no tempo de Jesus, em que a linguagem era mais florida, mesmo entre as tais pessoas simples . A carne e o sangue em que se tornou a palavra de Deus, no corpo de Jesus ( no princípio era o Verbo) estão tão longe dos seus reais significados para nós, homens do século XXI, quanto a irreflexão e a insensatês dos Efésios os poderia levar se não ouvissem a chamada de atenção de São Paulo, ele que melhor que ninguém conhecia a vontade de Deus.
Nós, aqueles que nos habituámos a estudar as palavras, no dito e no escrito, que grande exercício por vezes nos dá a leitura dos textos litúrgicos e como nos apercebemos de quanto é sério o filtro da palavra para a Fé !

13 agosto 2009

Regresso de férias

Que prazer ter um livro para ler...e lê-lo ( lá estou eu a desacordar com o Pessoa) !
Que prazer ter um livro para escrever ...e escrevê-lo ! Bem, isto são projecções de férias. Andei por lá, sem computador. Ali, caderno de capa dura e a minha Parker amiga ! E aquilo é que foi escrever ! Dir-se-ia que tinha fome de papel...
Mas não deixarei de dizer que também senti a falta destas embirrações que às vezes tenho que aturar à irritantesinha da minha complementar tecnológica...Tive ocasião de ver quanto se sofre por esse país fora por causa de não coberturas de certas regiões pelos necessários sinais que permitem a comunicação dos humanos que usam a net... E como então me senti feliz pelo meu papel e lápis ! Feliz e filósofa... Porque as férias acabam sempre por me atirar para as etimológicas feiras .E são verdadeiras feiras/mostras de gentes, terras, costumes, faunas, floras, rios e rias, lagos e mares, tudo muito sui generis, para boas confrontações e aprendizagens minhas. Daí a escrita. Muitas notas úteis ou simplesmente a comprovar mais tarde, algumas já por si sós comprovativas. E depois há ainda aquele balão que o coração sopra a encher o nosso peito, em certas manhãs de criação do mundo, e que nos faz acreditar em tudo da felicidade, desde o termo-la, até o sermos ainda capazes de acrescentá-la...Porque vai haver mais manhãs de criação do mundo,certamente.
È assim que se volta diferente do que se foi...
É assim que, por agora, só me apetece que os meus braços ainda saibam o jeito de abraçar um Mundo, o MUNDO...

12 julho 2009

...sacudi o pó dos vossos pés...

Já vai sendo hábito eu vir lançar aqui as ideias que me assaltam durante ou a seguir às leituras de cada missa de Domingo. Às vezes acabam de nascer, outras vezes já as trago comigo há muito tempo,de outros Domingos, pois, como sabemos, há um repetir cíclico destas leituras, de acordo com uma definida sistematização. Ora hoje chegou a altura de, no Evangelho de São Marcos, aparecer um daqueles episódios que me vêm à cabeça muitas e muitas vezes, porque lhe acho graça e como não sei até que ponto aquela acção era um uso simbólico entre o povo ou teria sido criado por Jesus, na hora, para servir de símbolo dali para a frente, apetece-me tomá-lo para meu uso, algumas vezes,sempre com um sorriso, pensando quão espirituoso foi Jesus ao recomendar a sua prática aos Apóstolos que estava a enviar para o meio das gentes :«...e se algum lugar vos não receber, nem aí vos escutarem, ao sairdes de lá, sacudi o pó dos vossos pés, como testemunho contra eles.» Não esqueçamos que os Apóstolos não levavam nem sandálias, nem nada de bens materiais. Talvez, também por isso, até aquela espécie de não devesse maculá-los com o seu peso.Como já tínhamos visto na Profecia de Ezequiel, era perfeitamente expectável que a aceitação às prédicas de profetas e de apóstolos não fosse lá das maiores, mas verdadeiramente importante era que elas fossem feitas e sem choques ou imposições de prença activa...
No linguajar de hoje, dir-se-ia talvez que Jesus gostaria de falar soft e só em casos extremos saíria dessa postura.
E eu não deixo de recordar, água mole em pedra dura...dizemos nós,da sabedoria popular, mas que o povo foi buscar onde ? Ao sacudir de muito pó de muitos pés, de muitos outros apóstolos ?

08 julho 2009

Que progresso?

Li, num dos múltiplos cadernos em que se desdobram os jornais de fim de semana,um curioso artigo cujo título me chamou logo a atenção por um defeito de coerência gramatical o futuro vai ser tão bom, não foi ?.Com alguma graça o seu autor recorda quanto,pela magia do cinema, nós, os mais velhos, talvez ainda na primeira metade do século XX, nos entusiasmávamos a pensar que no século XXI ( o futuro) já poderíamos ter robots a arrumar-nos a casa, engolir pastilhas como refeição, andar na Lua como em nossa casa,etc.,etc. e o que afinal verificamos é que no FUTURO é que já estamos a viver e não temos nada disso que imaginávamos... Temos outras coisas, é certo, mas aquelas ficaram a fazer parte do nosso passado, não foi ?

E uma coisa enorme,quanto a progresso, é de facto a televisão. Janela aberta para o mundo, longe ou perto, dentro das nossas casas.Se a internet nos possibilita a COMUNICAÇÃO com o mundo, a televisão possibilita-nos VÊ-LO

E ver o mundo sentada no meu sofá é uma comodíssima forma de me sentir viva dentro dele.

A verdade é que se nos abrem horizontes, mas também matéria para dúvidas, crenças, alegrias, indignações, divertimentos, descobertas, um sem- fim de propostas com que vamos podendo preencher variadíssimos espaços de carência de companhias ou de interlocutores válidos.

Como veria eu, velha senhora, a festa de apresentação de um rapaz do foot-ball cujo preço de compra foi de tantos milhões que não cabem na minha tabuada ?
Como veria eu,portuguesa antiga, a celebração de espampanantes exéquias de um ídolo do rock-and-roll americano ?
Pois vi tudo isso, até certos limites que o meu bom senso aguenta,e fiquei a pensar se lá atrás, naquele seculo XX dos tais sonhos de progressos, as pessoas alguma vez sonhariam que o FUTURO delas seria esta necessidade de encontrar ídolos para idolatrar sem nenhum avanço de nenhuma grandeza ?

05 julho 2009

Do Profeta EZEQUIEL

Hoje Ezequiel fala-me de uma coisa que vem ao encontro do que tem sucedido algumas vezes comigo ,ao falar de mim para mim, em situações semelhantes. Ele estava prevenido : vais lá, falas, e eles,como são rebeldes, não vão prestar nenhuma atenção ao que lhes disseres, mas tu vais sempre falando...PELO MENOS SABERÃO QUE HÁ UM PROFETA NO MEIO DELES...
Eu sei que,pelo menos,posso ser A presença.Existo. Lá, como Ezequiel. E insisto.

04 julho 2009

Sophia de Melo Breyner Andresen

Feliz,feliz, é uma pessoa que tem amigos. Amigos que pensam nela, sem ela se fazer lembrada. Amigos que pensam em proporcionar-lhe alegria sem ela se queixar de tristeza.Amigos que se alegram porque a alegraram.Amigos que param para pensar o que é que lhe daria prazer? Assim só, gratuitamente, sem pensar em trocas nem compensações, mas em simples partilha do BOM que eles têm com o amigo que o não tem.
Tudo isto para dizer que uns amigos desses me levaram ao Miradouro da Graça porque lhes palpitou que me daria prazer ir ver o busto que inauguraram em homenagem à SOPHIA .E foi mesmo uma imensa alegria ! Nesta fase da minha vida, nunca poderia ir lá se me não levassem...Oh! quanto estou grata...!
Mas falemos das manhãs claras, das tardes transparentes, que, daquele lugar, o seu olhar de estátua vai fingir que vê, mas que foram com ela, infinito fora, e andarão para sempre a pairar para nós ,por causa dela, sobre aquele Tejo lá adiante...Não era longe dali a sua casa, onde Lisboa a deixava envolver-se em Mundo e depois oferecer-no-lo envolto sempre em luz, na luz que dela irradiava... Sophia ! Ainda bem que vim ver-te...Quem dera nos encontremos por aí !...Um dia...

Um dia...não a pensar futuro, mas presente, bem presente, e agora já tão passado,( !)escrevi isto por causa do que me vinha de ti:

Era límpida a luz
derramada, sem mancha,
sobre as vagas inquietas
a espumar e a escorrer sobre a areia.

Era princípio ainda.
Do dia impuro nada se sabia.
Havia apenas, amplo, iniciático,
o lugar para os sonhos de partida...

Se chegava a ouvir-se o canto da sereia,
ou se apenas o som
cavo e enigmático
das grutas onde nasce a maresia,
quem podia saber ?quem poderia?

Misteriosamente
abriam-se horizontes
entre reminiscências de passado...

E o ar repercutia
um murmúrio salgado e insistente
a confirmar que afinal existia
o areal, o vento, o Mundo de SOPHIA...

Do meu livro Sinestesias

03 julho 2009

Linguagem gestual

Em nove de Junho houve eleições para o Parlamento Europeu e recordo como me desconsolou verificar quanto está a murchar o interesse das pessoas por aquilo que tanto me empolgou quando eu, jovem, universitária e optimista,sonhava para um meu futuro. Não sei se era por causa do estudo dos Gregos ou se era por causa das tertúlias de corredor com os colegas das Filosofias, nós amávamos a DEMOCRACIA.
Foi preciso que désse tempo ao tempo de crescer para conhecer como era realmente o objecto desse amor.
E agora,que até temos um Parlamento e tudo, que passámos todos por tantas vicissitudes, uma bela manhã acordamos com vontade de ir lá, à matrix da nossa democracia para assistir de perto, (porque temos direito a fazê -lo), àquela coisa tão digna como é gerar as leis para as quais nós todos contribuimos um poucochinho (para isso elegemos deputados) , e acontece estar lá, na bancada ministerial ,um senhor que, estando as leis já todas feitas, se zanga porque o seu ouvido captou um àparte de que não gostou,e, como um miúdo da rua, exterioriza em gestos indecorosos o que não teve fôlego( ou honorabilidade?) para verbalizar.Oh! Um Oh! geral...
Então como é que fica este nosso sonho dos vinte anos?
Só se o elanguescer desta planta tão delicada quando há eleições?
E até onde é que isso pode levar um país? que até poderá ter ainda mais sonhadores que os da minha geração...e que não usem linguagem gestual de tão baixa categoria...

30 junho 2009

Saint Exupéry

Foi por e para recordar Saint Exupéry que hoje vim marcar mais um dia do meu calendário pessoal...Nasceu, como se dizia antigamente, bem nascido, num vinte e nove de Junho do ano em que nascera o meu Pai, em Maio. Mas morreu matado por bombas alemãs, na segunda Guerra Mundial, ao fazer um voo de reconhecimento sobre o Mediterrâneo, que nunca devolveu o seu corpo. Do Petit Prince todos sabem imensas coisas e pensam assim conhecê-lo. Da sua forma de estar na vida e de como a amou, creio que preferem não saber.É que , como ele disse, aqueles que se aproximam de nós sempre nos deixam alguma coisa de si próprios, mas levam consigo uma boa parte de nós mesmos...

21 junho 2009

O Verão, o Mar e a Fé


Pelo decorrer do calendário, é mesmo hoje que começa o Verão. Temos andado há uma semana a suportar a agressividade dos mais de trinta graus, anúncio vigoroso da canícula a chegar e agora há por aí locais onde se instalaram os quarenta graus.E o Portugal inteiro só pensa numa coisa :a PRAIA. Coitados daqueles que àmanhã pela manhâ se vão sentar nas salas de exame a prestar as sempre temidas provas de matemática do 9º ano e outras provas do 12º ano ! Este ambiente tórrido não é propício a grandes concentrações da atenção e eles precisam muito dessa concentração, tanto nas vésperas que não devem ser excitanies, como na hora da prova em que a tranquilidade ambiente é indispensável. Que Deus os ajude.
E como Deus está no meio de nós, curiosamente, a liturgia de hoje traz-nos lindíssimos trechos mesmo adequados a esta ânsia de MAR que os portugueses estão a viver hoje....« O Senhor disse a Job:Quem foi que fechou o Mar no meio de portas, quando ele irrompeu do seio do abismo, quando eu o vesti de neblina e o envolvi de uma nuvem sombria,quando lhe fixei os limites e coloquei portas e ferrolhos? Fui eu que lhe disse «virás até aqui e não irás mais além, aqui virá quebrar-se a altivez das tuas vagas...» Ficamos maravilhados com a beleza das imagens e a demonstração de sensibilidade que surge a cada passo no Antigo Testamento, mas o próprio Salmo (106/107) é uma tão poética " pintura" das maravilhas do Senhor no mar imenso que pouco falta para que o perfume da maresia chegue até nós. É ainda o Evangelho de São Marcos que nos coloca numa barca com Jesus ressuscitado e os seus discípulos a atravessarmos o Lago Tiberíades como que propositadamente para termos a certeza de que Jesus nos irá defender de quaisquer tempestades de mares alterosos, como a que ali se levantou... E nós a vermos Jesus dormir na popa da barca e já a pensarmos que Ele não nos ia valer...
Como é que não tendes fé? Foi a pergunta que Ele fez, depois de fazer calmar a tempestade.Para todos os da barca, passado o medo, foi assim como um soco no estomago, que Homem é este a quem o MAR obedece e as tempestades?
Como é que não temos fé ? ? ?

20 junho 2009

Santos Populares

« ...Se o Menino Jesus pergunta mais, queixo-me a sua Mãe, Nossa Senhora » e assim se remata uma conversa entre Santo António e o Menino, embaraçosa, segundo parece, por causa da cusquice daquele Menino que queria informar-se sobre um tal par de namorados que descobrira junto à fonte. Isto, segundo conta Augusto Gil, numa época em que se escreviam e se liam doces ingenuidades como esta Hoje gosta-se mais de um Santo António mais maroto, pouco ou nada asceta nas suas convivências populares, de mistura com manjericos, balões, patuscadas a deshoras, fados, marchas e festões coloridos e rebrilhantes. Lisboa faz com ELE a sua festa. E naquela emulação que sempre houve e haverá entre Lisboa e o Porto, esta cidade faz uma festa ainda mais fogosa com o seu São João. Sei muito pouco das razões destes paralelismos festivos e ouvi, no Porto, uma quadra popular que diz:
São João pra ver as moças
ai fez uma fonte de prata.´
As moças não vão a ela.
ai São João todo se mata.
Isto lá vai chegar à mesma marotice de convivência entre o santo e os seus devotos.E, no Norte parece-me que há a considerar a expansão territorial da Festa visto que a cidade de Braga e alguns outros lugares, fazem da homenagem a São João a grande oportunidade de o povo dar largas à sua vontade de brincar e se divertir.
Eis que, ao pensar tudo isto imaginando que a proximidade dos dias votivos de cada um destes santos levou a que, na visão popular, apareçam tão paralelos ,me pergunto : e São Pedro ? Sempre se falou nos três santos populares e eu sei que há na margem sul do Tejo alguns locais onde este santo é festejado, mas não oiço as fanfarras da fama visarem da mesma forma este seriíssimo São Pedro a quem talvez por ter sido crucificado de cabeça para baixo, o povo considere menos bom para companheiro de folguedos...
Certo é que 13, 24 e 29são datas do mesmo mês e tão próximas que até convidam a que, sendo todos Santos, apóstolos ou doutores da Igreja, os recordemos juntos e com igual alegria, porque, embora em situações e ocasiões tão diversas, foram dos nossos, como o povo diz vulgarmente, e como quer que continuem a ser.

14 junho 2009

11º Domingo Comum

Nesta sistematização dos objectos de cada missa votiva ao longo do ano litúrgico, recomeçaram hoje os chamados Domingos Comuns que tinham sido interrompidos na Quarta Feira de Cinzas. Os textos das nossas leituras vão levar-nos agora a encontrar Jesus a agir no mundo por intermédio da acção da sua Igreja, cuja missão é precisamente garantir a presença entre nós de Jesus ressuscitado. E os evangelistas vão contar-nos aquelas coisas que ouviremos pela enésima vez mas onde sempre descobrimos um novo conselho, estímulo ou aviso que parece mesmo que Jesus disse "para mim", naquele seu modo misterioso e grave de nos falar, naquela sua tão estranha parábola de que sempre se serve, não vá traí-lo o nosso pobre entendimento... Nós, aquele grãosinho de mostarda...

10 junho 2009

Paráfrases de Camões no dez de Junho

Que de uma Pátria antiga
se tratava
foi-me herança
encontrada
quando vim
Que de uma Pátria antiga
eram a língua, os livros
e os poetas
aprendi, decorei
e, apaixonada,
os segui e adorei
como a profetas
Que deuma Pátria antiga
sou pertença,.
terreno, erva daninha,
ortiga ou flor,
é o meu património
fé e crença
Ditosa Pátria minha
e de meus Pais,
das chuvas e das dores,
dos sóis, da primavera,
de todos os que já
não voltam mais,
das glórias dos amores,
das lágrimas caladas...
...à qual se o Céu me der
que um dia entregue
este corpo
cansado de viver
darei feliz
tudo o que soube ser...

09 junho 2009

Eleições

E houve eleições, no domingo.Para eleger deputados para o Parlamento Europeu. Depois de uma campanha turbulenta em que houve desmandos vocabulares, ironias de baixo nível,ditos e desditos assaz desconcertantes, todos esperávamos por uma grande abstenção e ela veio...Pena ? Sim, pena por se perceber o enorme fosso que o povo português tem ainda que vencer para se entrosar no verdadeiro espírito democrático. Estou triste por perceber que é ainda mais longo o caminho a percorrer do que aquilo que eu esperava em 74 e agora começo a pressentir que já não haverá tempo para mim para ver desabrochar essa flor de civilidade,de respeito,de tolerãncia, de convicção sem bravata, de afirmação sem insolência, com que eu sonhei sempre tanto.
Quando, nos meus tempos activos, fiz alguns serviços em Estrasburgo, Luxemburgo e Bruxelas tudo me pareceu tão bem pensado que cheguei a crer em novas utopias. Mas´lá mesmo, nesses areópagos cuja esfera de acção já me parecia dificultosa, comecei a recear que viesse a ressurgir aquele sonho de sempre, de se construir a torre que há-de chegar ao céu...
Por enquanto, vamos olhando o céu cá de baixo. E sabemos onde ele está...

02 junho 2009

2 de Junho






Saudades não venhais juntas
vinde pouquinhas a poucas,
vinde mais compassadinhas,
dai lugar umas às outras !
quadra popular

31 maio 2009

Pentecostes

«Partos, Medos, Elamitas, habitantes da Mesopotâmia,da Judeia e da Capadócia,do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e dos lados da Líbia vizinha de Cirene, colonos de Roma, tanto judeus como prosélitos, Cretenses e Árabes», em resumo: todo o mundo conhecido,feito de povos diferentes em usos, estatutos e línguas, subitamente ouve que falam para todos, mas para cada um, porque cada um ouve o que é dito mas na sua própria língua... Isto aconteceu no dia 50º depois da Ressurreição de Jesus e 10º depois da sua ascenção à vista dos discípulos. Lembramo-nos bem de que Jesus havia dito«« não vos deixarei orfãos »» .E também nos lembramos bem de que, no princípio de tudo, quando ainda ««as trevas cobriam o abismo, o ESPÍRITO de Deus movia-se sobre a superfície das águas »» e foi a partir desta inefável presença que Deus iniciou a sua atenta e carinhosa obra de criação. Este Espírito de Deus liga-nos pois a ELE através de tudo o que ELE foi vendo «que era bom» para nós, inclusive através daquele presente sem medida e sem humana qualificação possível que foi o seu Filho Jesus... Quis Deus um Mundo de homens em paz e cabia ao seu ESPÍRITO harmonizá-los, torná-los capazes de se entenderem ,ainda na memória de um Jesus cuja missão aquele Mundo não conseguiu compreender... Se era de sinais visíveis que precisavam, então aí estavam esses pequenos fogos purificantes primeiro, estimulantes depois... Mas, com sinais ou sem eles, aqui estamos nós,dois mil anos depois, Partos ou Capadócios, Egípcios ou Romanos, sem termos aprendido aquela língua que o ESPÍRITO de Deus vem ensinar-nos no dia de hoje e nós sabemos que se chamaria AMOR...

28 maio 2009

Um grande dia de maio

Lembrei-me de ir procurar informação na net, sobre o aparecimento do dia dos vizinhos e fiquei então sabendo que o seu nascimento se deu em Paris em 2004 tendo depois a ONU aproveitado a ideia e marcado a última terça feira de cada mês de maio para essa celebração.
Obtida esta informação,já me senti apetrechada para, ontem, dia 27, invocar de maneira fundanentada, a minha teoria da vicinidade na reunião de condóminos que iriamos ter pela primeira vez com administração nova ( um gabinete de gestão de condomínios conduzido por duas advogadas jovens das quais tivemos referências de bom profissionalismo). Fez-se a dita reunião que decorreu com as características habituais, não se mostrando as novas gestoras minimamente perturbadas com as velhas tricas subjacentes a certas intervenções, póprias de quem já condominiza há muitos anos..
.
Aconteceu,apenas a mim e em conversa lateral, ter que lembrar ao único condómino jovem presente, que, ao contráriodo que eles pensam,todos precisamos uns dos outros, sejamos novos ou velhos, cada um dentro das suas capacidades...Um pormenor, mas de peso, dentro daquele contexto
Porém, este dia 27 de Maio foi um tal cúmulo de datas a celebrar,umas, e outras anterioríssimamente marcadas e desmarcadas por contingências várias, que foi,desde manhã até à noite um cumprir ou faltar a compromissos por impossibilidade de conexão, e por sobreposição até. Foi o aniversário da minha amiga-sobrinha Rita, foi a memória religiosa dos que teriam sido os 109 anos de meu Pai, foi um almoço na cidade preparado para e por velhos amigos do mesmo antigo Trabalho, foi a reunião em minha casa com as Senhoras visitadoras da Paróquia,por fim foi a reunião dos condóminos.Vi-me forçada a prescindir da minha sessão de fisioterapia e,depois, às seis da tarde, a não estar presente na apresentação do livro do meu amigo Padre Lázaro, na Embaixada de Moçambique.
Este foi o livro em que se transformou a sua tese de doutoramento em Teologia e cujo título nos indica a originalidade do tema e nos estimula a curiosidade, por isso que os sete arguentes da sua prova foram unânimes em classificá-lo com 18 valores cum laude... DOENÇA E CURA EM ÁFRICA introduz-nos em toda uma desconhecida filosofia de pensar a doença quando olhada com olhos africanos e participada pelos prcedimentos cristãos.
O nosso novo Doutor vai regressar para junto do seu povo chuabo com todos os conhecimentos e experiências que adquiriu em 6 trabalhosos anos de convívio europeu ocidental. Com muita saudade vamos, vou, ficar orfã da sua amizade e dos seu apoio.
Na oração da noite deste enorme dia, agradeci a DEUS os amigos, lembrei os vizinhos e encomendei~lhe particularmente o futuro do meu amigo Lázaro.
E adormeci em paz ! .