29 dezembro 2008


E pronto ! Estamos a despedir-nos de mais um ano que já festejámos como Novo e agora já é VELHO ! ! !... Como se mais nada houvesse para nos lembrar a precaridade das coisas vivas !

Mas é bom consolarmo-nos, regalarmo-nos mesmo ( os que podemos ), com as doces lembranças do NATAL. Eu fui feliz ! Nâo é muito vulgar poder dizer isto .Mas fui.Estive longe e fora de toda aquela turbulência da Lisboa das notícias, das vaidades, das hipocrisias, das aparências...

Acordava ainda o céu estava violáceo e sobre a água e os seus vales havia espessos blocos de nuvens a esbaterem-se pelas encostas até alcançarem os cimos em transparências variáveis...

Pairava então por cima de tudo e era-me possível sonhar com um paraíso, até que o sol lentamente ia empurrando todas as cores e texturas indefiníveis para deixar tudo azul e límpido. E aí, já a minha alma lavada ia ao encontro da limpidez das amizades...

Quando, na noite de Natal, saímos perto da meia noite e o frio nos chegava aos ossos, era tão límpido o negro do céu, que as estrelas pareciam em relevo, quiçá coladas lá em cima para guarnecer, como os enfeites luminosos com que haviamos debruado e polvilhado a casa e as árvores em redor... Depois a missa, a Fé celebrada em simplicidade. Será lugar-comum mas apetece-me falar de Noite Mágica .Espera-se qualquer coisa...Só no regresso a casa, a deixarmos chegar o sono olhando a dança das labaredas e o crepitar das brasas escarlates da lareira nos foi possível voltar a sentir os pés bem assentes na Terra. Todos aqueles cânticos portugueses ou não que repetimos por esta época se condensaram no tão pacificante noite de paz...que levámos no ouvido ao irmos dormir, nessa e nas outras noites.
Estou pronta agora a deitar fora o Ano Velho. Mas nunca todos os pedaços dele em que um calor de AMIGOS me fez sentir, como agora, feliz e viva ! ! !

14 dezembro 2008

Gaudete! nos cem anos da minha professora...

Sem anos com S, sim,
ó minha amiga !...
Está pensando que esqueci
que me ensinou muito mais
que o lugar da letra S
naquela palavra, ali ?

Pois saiba que o C no Cem
me enche de orgulho também...

Só que o S vem aqui
pra dizer que a vejo agora
como há tanto tempo a vi,
minha querida Professora !

Fresca, bonita e tão jovem
que até nem nos fica bem
falar dos anos que tem...

Por isso é que decidi
passar a escrever com S
o CEM que a gente não esquece,
o SEM retrato de SI ! ! ! ...


Ontem, dia 13 de Dezembro, foi o dia de anos da minha professora dos primeiros anos do ensino secundário, a doutora Maria Luciana. E fez CEM ANOS !
Quando a conheci era tão bonita, tão alegre,tão dinâmica, tão elegante, chic em todas as formas de ser, de se apresentar, que gradualmente se foi transformando para todas as alunas no modelo que todas nós sonhámos vir um dia a copiar... Ela tinha uma pequena sociedade com mais dois ou três ex-colegas do seu curso e outros tantos amigos de outros cursos com a qual puderam criar um Colégio em Lisboa e, na Linha de Cascais, ela criou sozinha uma extensão deste Colégio, que eu frequentei com outras meninas e meninos, durante três anos e não mais porque as obrigações de carreira do meu Pai me levaram para outra terra. A doutora Maria Luciana leccionava todas as disciplinas com um fulgor, um entusiasmo, e um tal "savoir faire" que o que com ela aprendemos nunca viemos a esquecer e onde chegávamos sempre nos consideravam muito bem preparados. Nasceu com Ela e entre nós alunos uma cadeia de amizade que nunca "enferrujou. As nossas vidas seguiram os seus rumos e Ela sempre professora. Cada um de nós a fomos sempre contactando, a espaços, e ´dando notícias suas uns aos outros, quando a víamos ou estávamos com Ela. Festejámos-lhe os noventa anos num grande almoço...
E agora chegaram os 100 ! Ela sempre activa, movimentando-se, documentando-se, a recordar-se, a recordar-nos, sempre elegante, bonita na sua idade.
Nunca deixou de acompanhar o que fui fazendo: veio às apresentações de coisas minhas, comentou, estimulou, como sempre o fizera, ainda eu era menina...
É este o porquê do poeminha que lhe ofereci agora.

E já agora, foi o grande tema do meu domingo de hoje.
No período do ADVENTO, este terceiro domingo é aquele que dá pelo nome de Domingo GAUDETE. Por causa da ALEGRIA que principalmente João,no deserto, nos promete para quase já,já...
E não é parte dessa alegria tão nova o festejar-se os Cem Anos de uma pessoa tão especial ?...

11 dezembro 2008

Saramago. Os Direitos do Homem

Todo o Homem nasce livre... Todo o Homem tem direito a... Começa dentro deste espírito a mais extraordinária profissão de Fé publicada pelo Homem e que ontem perfazia 60 anos de idade. É também um belíssimo CREDO que a nossa religião nos ensinou a rezar. E nós, que rezamos e cremos, temos todas as dificuldades do mundo em, uns com os outros, fazermos deste código uma coisa viva e activa. Que fadas madrinhas teríamos tido todos para que as mais das vezes nem saibamos bem ao certo explicar a Liberdade ?
Foi também ontem, e nem tudo é por acaso, que pudemos ver a degradação que pode produzir-se em dez anos de vida de um ser humano. Para celebrar Saramago, no dia em que se perfaziam dez anos sobre aquela honorabilíssima sessão em que lhe foi entregue o prémio NOBEL da Literatura, foi apresentado na TV um programa muito bem estruturado que não teve o cariz da clássica entrevista, mas em que o autor deambulava pela sua obra estabelecendo pontes com a sua vida... Muito interessante, mas tão doloroso ! Alquebrado, hipersensível, carente e com as lágrimas a saltarem-lhe não dos olhos, mas da alma... De que somos feitos, meu Deus ? Não há sequer uma única beliscadura na sua inteligência, nos seus raciocínios, na sua coerência... Mas o corpo mostra bem todo o "uso" que à doença se não conseguiu furtar. Penso ainda que o reconhecimento tão nítido da dor como ele teve( e tem ), vai também corroendo o corpo, por misteriosas vias que ainda não conhecemos...
Quem dera fosse esta uma das Liberdades a que todos tivéssemos também direito !

06 dezembro 2008

Grupos e solistas - músicas novas

É impossível não reportar ao Natal todas as coisas em que nos vamos envolvendo por esta época, de tal maneira ela é marcante na nossa vida de cristãos. Mas infelizmente - principalmente( não, não é escorregadela gramatical, é intencional ) porque é insistentíssima a pressão exercida sobre nós pela propaganda comercial através de todo e qualquer meio de comunicação social, de todo e qualquer meio, diria mesmo. E assim acontece que façamos nós o que fizermos, comer, beber, lavar, vestir, calçar, encontrar amigos, arranjar a casa e por aí fora, sempre nos surge a sugestão de não esquecer a época, trazida pelas maneiras mais inesperadas e tentando arrastar-nos para as mais inesperadas manifestações de uma alegria que não tem nenhuma correspondência afectiva ou emocional.No meu último post deste blog eu estava até demasiado amarga, por causa disto. Mas, a verdade é que estou cá e não posso ou não sei fugir da onda. Como pensei em comprar para oferecer alguma música, lembrei-me de me actualizar ouvindo e vendo um programa na TV que me disseram fazer semanalmente a recensão das últimas novidades, apresentando um pouco do seu aspecto e relativizando o valor que umas e outras têm.
Vi e até foi uma óptima ajuda. O que fiquei foi impressionada com as espantosas formas de se apresentarem de alguns daqueles intérpretes. Pareceu-me que quanto mais célebres, mais horrorosamente trajados e pintados e penteados gostam de se mostrar... Tendo a idade que tenho, assisti ao aparecimento dos BEATLES pelos quais fui logo cativada e lembro-me bem do azedume com que as pessoas mais velhas falavam das suas cabeleiras...Que diriam se vissem agora alguns bandos de esfarrapados ou semi-nus com umas cabeças envoltas numas massas para as quais só acho bom o termo francês tignasse? Felizmente que nem todos iam por esses lados nas suas formas de afirmação ! Por exemplo: uma lindíssima Fátima Guerreiro, usando um belo vestido preto e enfeitada com aqueles famosos ouros das raparigas de Viana do Castelo.Que bonito tudo ! A sua voz, o Fado, tudo... Que nunca fui uma grande apreciadora de fados ! No entanto até verifico que o Fado que cantam agora é mais poesia cantada do que outra coisa.
É bom que a informação sirva mesmo para nos informar.

30 novembro 2008

Natal- preparativos

Paro aqui e agora para descansar um pouquinho da minha outra escrita mais densa e um tanto ou quanto enervante, vá-se lá saber porquê...Há talvez já uma semana que as nossas vidas, de todos, grandes e pequenos, mulheres e homens, entraram em aceleração e isto é uma coisa que me irrita e que me incomoda. Porque todos os anos digo a mim mesma que nunca mais caio nesta e afinal lá me vejo eu arrastada na enxurrada das combinações, das exigências, das datas concorrentes ou coincidentes, das coisas que é preciso fazer... A minha máquina de lavar a roupa, quando está quase a encerrar o programa, põe-se a fazer um enorme barulho surdo e a acelerar as rotações estremecendo toda ela violentamente. Não é problema nenhum, já mo disseram mais do que um técnico: é feitio dela ! ! ! Ora eu comparo- me a ela . Resmungo, canso-me, desorganizo-me tanto que, se paro ... até rio de mim mesma. Porqe me lembro da máquina...
E então é tudo isto porque aí vem a época do ano mais louca em despesismo, não despesismo só de compras, mas de convites, de encontros, de espectáculos, de visitas...Tudo, tudo o que o ser humano é capaz de inventar só para mostrar( e até acreditar) que não está e que o rumorejar do mundo à sua volta é a melhor desculpa para que se não encontre a sós com ele próprio o que seria afinal a melhor coisa que a época doNATAL poderia proporcionar a todos nós, uma vez que comemora o início de uma cultura judaico-cristã que nos veio dar a noção de que, sendo humanos, temos a maior das dignidades, por também sermos divinos... e que isso nos dá deveres de outra ordem.
Estou já a ouvir daqui os arautos da solidariedade, os amigos dos pobresinhos, sem abrigos, sem roupas, sem brinquedos, sem comida, e estou a pensar neles ,nas suas férias na Tailândia ou em Cancun mesmo que a época seja de trabalho para todos,nos queijos que só comem se forem de certo país ou nos vinhos que só bebem se, se, se... ou nas roupas que só aguentam se, se, se...
Como aguentaria ele, ser humano, perder um oportunidade destas para se mostrar e ser visto?
Não querendo entrar por aí ( que até é por onde vou tendo também amigos) volto `a minha ideia inicial sobre a acumulação de solicitações todas guardadas para esta época, porque ( é sabido desde o antigamente), ISSO tem que ver com a calculada maior abundância financeira ( os subsídios) e a maior predisposição de cada um para fazer gastos extraordinários. Claro que há lindíssimos espectáculos, os do La Feria, o Quebra Nozes,os modernos bonecos da tv transformados em personagens vivos e no gelo, os excelentes concertos das paróquias, e tantos outros de revisão e de saudade! Por exemplo, o do Carlos do Carmo...Este a provocar-me até um tão grande nó na garganta,pela recordação de certos momentos !.Éramos todos tão novos e ainda tão crentes nos poetas e nos sonhos !... É também agora a grande época das colheitas em Literatura. Multiplicam-se as "apresentações"do que foi sendo "cultivado" durante todo um ano, ou mais, qual delas com o apresentador mais "in", no momento, e com os mais originais complementos ,visando um marketing mais insinuante. E faz pena tanto acessório, porque os livros são até bons e actualmente muito bonitos, coisa que até há pouco tempo não preocupava muito autores ou editores.
Mas há, no meio de tudo isto, algumas coisas realmente novas, simples e alegres.Os anúncios televisivos , acabaram por vencer-nos e passámos a aceitá-los como um mal necessário, sendo quase todos de uma insensatês ou de um mau gosto desesperantes. Pois não é que surge agora um anúncio de telemóveis muito bem disfarçado e que, para meu gosto, é um verdadeiro achado de originalidade ? fala de meias,uma rosácea feita de peúgas coloridas, às riscas em todas as cores do arco-iris, agitadas num movimento delirante...Uma alegria para os olhos ! E, é claro, aparece com um pedido às avós para não oferecerem mais meias, neste Natal, em favor do tal telemóvel... Recordo um primo meu, hoje já avô, naturalmente, que, quando lhe perguntavam que prenda ele queria, nos seus cinco anos, ele respondia :_ " Roupinha, não; roupinha não ! " E sorrio com a recordação... Agora, ele teria de certo gostado mais desta "roupinha" do que do cinzentão e indiscreto telemóvel...Quem sabe ?...
Tantas e tão desviantes abordagens a uma época que desde sempre idealizei de simplicidade, amor discreto, esperança e confiança no " outro" como partes estruturantes da nossa dignidade ,daquela que depreendo quando leio no GÉNESIS, creio que no sexto dia da criação, façamos o Homem à nossa imagem e semelhança...E tudo então parecia que iria ser bom... Contudo, sempre, mais do que nunca, agora,temos visto o predomínio do ter e a frustração da minha, da nossa derrota no ser...
Vamos sempre cedendo à fraqueza, ao desânimo, ao cansaço ou à incapacidade... Mas seguimos.
Ainda acreditamos no Pai Natal , brincam connosco.Este senhor nórdico impôs-se e,como a muitas outras coisas, fomos tendo que aceitá-lo. Sabemos quem ele é, ele sabe quem nós somos, nada mais. Assim, à custa de tantas mixagens e de tanta mea culpa lá vamos chegando ao NATAL, ao que é muito nosso, de cada um de nós, e só cada um de nós é que sabe disso !!!

23 novembro 2008

ADVENTO 2007/2008

Tanta coisa acontece nos trezentos e tal dias de um ano e afinal nós não mudamos quase nada por causa disso ! Misterioso é como é que envelhecemos ! Quando se é mais novo, diz-se que crescemos mas, ao reconhecermos que muitas das nossas atitudes durante o ano vivido, até poderiam classificar-se de imaturas porque sempre tão iguais a outras anteriores , essa ideia de mais valia para nós fornecida pelo binómio acontecimentos / consequente aprendizagem de Vida, fica seriamente desacreditada .De Advento a Advento,o que mudou para mim?
Fiz mais um ano, graças a uma terapeuta chamada CATARINA ,tenho menos dores nuns sítios, mas vão-me aparecendo outras noutros sítios, dei as minhas lições a um mesmo número de alunos, tive o mesmo apoio logístico da "minha" Valentina, às vezes assessorada pela Natália que conheço há bem mil anos, privei com os meus amigos com as frequências habituais...Tive uma ou duas revelações surpreendentes, ´pelas quais, também surpreendentemente, ainda tive uma ou duas lágrimas para chorar ( as tais imaturidades ), Li muito, li tudo ( será que isto se pode dizer ?) , escrevi muito mas não escrevi tudo...ainda... Vi muito e sei que não se pode pensar ter visto tudo...
E também rezei muito...E nunca se reza tudo. Tudo...Mas o que será rezar tudo? Alguém o sabe? Tudo isto só para dizer que POSSO e quero repetir hoje aqui tudo, mas absolutamente tudo, o que escrevi precisamente no dia 24 de Novembro de 2007.
Apenas acrescentaria esta forma de oração de ADVENTO

Senhor ! Estás chegando ?
Dizem-me que virás
E alvoraça-me a tua espera...

Quando, quando será ?

Por agora só sei
que virás como um Rei
a transformar as Dores em alegrias
e a colocar a Paz
aonde há Guerra...

Disse-mo um ISAÍAS
que em teu nome nos diz
o que dirias
se o teu Reino de AMOR
fosse na Terra, já...

SENHOR!
Quando, quando será ?...

16 novembro 2008

...nós não somos das trevas !

Na sua carta aos de Tessalónica dizia hoje São Paulo : Nós não somos da noite nem das trevas.
E como depois, São Mateus desenvolvia no seu Evangelho, a tão conhecida parábola dos TALENTOS, parece-me ser de liminar evidência que nós, os cristãos, temos, no mínimo, a obrigação de fazer bem feito e de uma maneira transparente aquilo para que fomos dotados. E o fazer bem feito conterá sempre em si uma enorme percentagem de utilidade, rendibilidade, para ter alguma razão de existir. Se assim não for, então seremos como aquele, dos três, a quem a insegurança e o medo de falhar, levaram à opção de cruzar os braços e esperar.
Mais uma vez sou levada a reconhecer que não é fácil retirar o ensinamento correcto dos conceitos expostos nos Evangelhos. Quantas vezes a argumentação do evangelista me tem levado por caminhos de que mais tarde percebo dever retroceder ! Mas hoje foi mesmo São Paulo que me veio elucidar.
Quanto burburinho, quanta perturbação temos vindo a viver ultimamente sobre o fazer ou não fazer, bem ou mal feito, algumas coisas que só algumas ou mesmo nemhumas pessoas sabem fazer ! Como é que não se percebe que não podemos ser das trevas ?...

08 novembro 2008

Uma bela manhã

Há manhãs e manhãs. Aquela em que a primeira notícia que ouvi no meu pequeno rádio de cabeceira, foi a confirmação e os ruidos da apoteose da eleição do novo presidente da AMÉRICA, foi uma daquelas manhãs positivas em que nos apetece dizer, como aprendemos com ele, yes, we can. Não posso dizer que acompanhei as várias fases da campanha, mas sempre que ouvi e vi aquele homem, tão jovem ainda, tão exposto (sentia sempre uma espécie de arrepio porque me lembrava de Luther King ), a transmitir-nos aquela imagem de força sorridente e feliz, aquela confiança nas possibilidades suas e de todos nós, ficava bem disposta, parecia até sentir-me mais nova, mais capaz...Era assim como uma indução de energia que nos permitia voltar a ter algumas esperanças... Lembrei-me então, e já o disse a alguém, de uma frase que se gravou na minha memória, pelo 11 de Setembro, escrita no Le Monde : aujourd'hui nous sommes tous des américains. Aí unia-nos a dor, o horror, o dó, a indignação e até o medo. Pois agora une-nos, acima de tudo um extremo cansaço de todo o inesperável em que as políticas de alguns políticos transformaram este nosso mundo e esta nossa vida que é única ,sem sequer pensarem que lamentavelmente,nós , os mais velhos, não temos já tempo para "viver" outra melhor... Mas o jovem O'BHAMA , mesmo reconhecendo a realidade, ainda conseguiu fazer renascer a nossa esperança, fazer reavivar todas as forças humanistas, se calhar irmãs daquelas que once upon a time levaram os inexperientes navegadores para os mares desconhecidos...Ele veio fazer o Mundo acreditar de novo em todas as capacidades do Homem, porque mostra que ele é o primeiro a acreditar e desta vez não vai ser para o desconhecido que este novo Humanismo vai atrair os modernos desbravadores... Foi num bonito discurso de assunção da nova função que completou a sua acção de fascínio sobre nós todos. Ouvi-o na televisão já pela hora do almoço... Decididamente esta fora uma bela manhã ! ! !...

02 novembro 2008

Datas



As datas ! As datas e a sua pressão sobre a nossa memória...sobre as nossas recordações ! E a nossa subserviência... Porquê ainda ?


Afectos, gratidões, afinidades, encontros e desencontros, dias felizes, dias sofridos, perdas, achados ...e o amor, os amores ... saudade sempre ! ! !


E foi o 31 de Outubro , e foi o 1 de Novembro, e é o 2 de Novembro... Cada um, sua borbulhante preia-mar a esparzir-se sobre a secura de tantos, tantos, areais que se julgam desertos...


Reza-se, claro. Que seria de nós sem aquela certeza de que algures... ... Um dia... ou hoje, hoje mesmo , a nossa recordação encontra eco onde talvez «memória desta vida se consente »...


Com uma enorme braçada de crisântemos vamos sem bem saber a quais, aonde, porque as lágrimas que procuramos reter nos não deixam ver bem. preferenciar caminhos...

26 outubro 2008

26 de Outubro


Era preciso que eu fosse
múltipla, imensa
e pudesse
viver mais completamenie
cada hora recebida!

Era preciso que houvesse
mais vida pra ser vivida...

Mais surpresas
mais promessas
mais tentações
e mais luz...

... e que, inteira, eu me perdesse
na magia dos instantes
sempre plenos e diversos...

Era preciso que eu desse
mais de mim mesma
e ficasse
mais sossegada em seguida...

... mais saciada de Vida!...

Do meu livro OFERTA

25 outubro 2008

25deOutubro de 1147

LISBOA TEJO E TUDO...



Lisboa cravo e maresia
Lisboa meu nevoeiro,
crista da onda onde um dia
meu coração foi veleiro ! ...



Lisboa à beira da barra,
Lisboa à beira de mim.
Meu rio, barco e amarra...
Ida e volta, meu sem-fim...





Do meu livro SINESTESIAS

21 outubro 2008

Os grandes eventos

Já passaram dois dias sobre aquele tempestuoso sábado em que dois acontecimentos interessantes solicitavam a minha presença e entre os quais teria forçosamente que fazer escolhas, mas quero registá-los porque, curiosamente, um pouco de mim estava intimamente ligado a eles.

Primeiro : Encerramento da exposição Maria Callas.

Esta exposição abrira, se não me engano, em Junho e comemorava os 50 anos sobre a apresentação, no São Carlos, da Traviata, cantada pela grande Callas.
E aconteceu que, 50 anos atrás, eu ainda não era viúva e o meu marido, por inerência da sua profissão, esteve sempre em contacto com o senhor Meneghini, marido da cantora, nessa época, e com os outros acompanhantes dela, durante os dias da sua estada em Lisboa. Pensando a empresa que devia ser gentil, em termos femininos, com uma tão importante personagem e não tendo nos seus quadros ninguém que o fizesse como queriam, vieram pedir-me que fosse eu a fazer o que se chama as honras da casa à Callas, caso isso não me desagradasse muito... Naquela minha idade de então, como é que poderia desagradar-me tal missão ? Ela era uma ESTRELA mundial e eu ia ter a sorte de privar com tal "monstro" do grande espectáculo que aliás eu frequentava, sendo associada de um clube juvenil de música clássica. Foi portanto no ocorrer desse agradabilíssimo convívio que fomos vistas por muitos jornalistas, não tão "febris" e excitados como os de agora, mas presentes. Passados 50 anos, mostra-se a Lisboa a memória da bela mulher que ela era, dos seus lindos vestidos e adereços, do seu brilho, tão apaixonado e tão apaixonante na Lisboa dessa época. E não é que ali aparece uma jovem senhora junto dela que só eu sei que sou eu mesma ? Para mim, foi, maior que a surpresa, a emoção. Guardo agora com carinho a fotografia que estava à venda na Exposição e de cuja existência eu nem podia suspeitar.

Segundo: Concerto do grupo PEREGRINAÇÃO em São Roque

A minha aluna Margarida cujo amor pela música a não deixa desanimar nunca das suas aulas e ensaios no Conservatório, apesar da carga horária enorme a que isto a obriga junto com o seu 12.º ano, está fazendo uma verdadeira peregrinação de concertos, uns de fim de tarde, outros de noite, concertos que a maestrina criadora deste grupo coral vai programando. Trabalham com afinco as peças corais de música antiga, de música religiosa e de música tradicional e têm feito apresentações no estrangeiro, sendo que, para o presente ano lectivo, existe uma não confirmada e muito desejada deslocação à Rússia. Verifico que, com o seu tão grande brio profissional, para a Margarida, cada novo concerto tem o cariz de mais um teste através do qual ela se avalia a si própria. Por isso mesmo lhe interessa também ouvir opiniões de pessoas em cuja isenção ela confia. E São Roque parece ter sido uma boa prova, apesar da tempestade cá fora poder ter tido um efeito desmotivador, o que não aconteceu.

Quero ainda registar aqui um acontecimento ocorrido, não nesse tempestuoso sábado, mas no lindíssimo dia de domingo com que a natureza entendeu presentear-nos para compensar os estragos do dia anterior. E, sem muito ter que ver com a Natureza, mas sim com a disposição alegre que ela nos deu, foi o lançamento do primeiro livro do meu amigo Padre Lázaro Messias – Para uma Teologia Africana. A apresentação foi feita pelo ilustre professor da Universidade Católica e da Faculdade de Letras de Lisboa, Dr. José Eduardo Franco e creio que podemos dizer que terá tido as bençãos do Prior da nossa Paróquia, Monsenhor Victor Feytor Pinto, dado que foi ele quem falou sobre o Padre Lázaro da maneira como só ele o sabe fazer. Esta apresentação deixa-me feliz porque a considero mais um degrau vencido na trabalhosa caminhada do Padre Lázaro, a qual tenho acompanhado com muito interesse e admiração. E como é bom ver os amigos compensados da sua enorme entrega aos seus trabalhos !

18 outubro 2008

Tempestade

É uma perfeitíssima onomatopeia a palavra ribombar !
Pouco depois de termos almoçado, um acastelado de nuvens de vários tons de cinzento atirou-se a outros mais que andavam um pouco desnorteados por estes céus e, oh deuses das tempestades !, ribombou estrondosamente sobre as nossas cabeças, desfazendo-se imediatamente e sem aviso numa chuva de granizo, a maior que já me foi dado ver... Eram pequenos ovinhos de codorniz a despenhar-se furiosamente contra as nossas vidraças e a cobrir, num abrir e fechar de olhos, o asfalto da avenida, os capots dos automóveis, os toldos e carreiros dos jardins, os vasos das varandas... Tudo rápido e violentíssimo. Quando finalmente só ficou a chuva, havia um rio a correr nas bermas da avenida, depósitos de neve, muito alvos e impolutos, por todas as superfícies mais côncavas e milhares de folhas, folhinhas e raminhos a juncarem tudo quanto era chão. Pobres plantinhas mais frágeis parecem agora feridos de guerra !
Admirável Natureza que em momentos apenas pode destruir... talvez o Universo ! ! !
Sem que o Homem tenha tempo nem para dizer ai...
Perceberemos quanta inutilidade em toda a nossa vaidade ?

12 outubro 2008

A Crise

Passei, passámos todos uma semana de graves preocupações com o torrencial desabar de notícias em que todos os agentes noticiosos pareciam desafiar-se uns aos outros sobre a maneira mais dura de nos transmitirem que estamos, nós,pessoas, e país, a chegar à beira da penúria, porque uma complicada engrenagem bancária, envolvente de todo este nosso Mundo tinha de repente deixado que se soubesse que não havia mais dinheiro em parte alguma. Viver sem dinheiro foi coisa que ninguém nos ensinou e por isso ficámos todos a pensar que seria urgente desenvolvermos o primitivo sistema de trocas , coisa que também não se pode montar sem haver QUE trocar e o Mundo já está quase exaurido em dádivas generosas de produtos seus com os quais nós,homens, iamos fazendo dinheiro... Então, prometem-nos os apavorados governos, vamos ter que nos safar, que se me desculpe a expressão, mas é o que na realidade nos é dito . E é cada um por si, não há cá solidariedades para ninguém, porque, se isso foi o que resolveram para si mesmos os Governantes que já conversaram uns com os outros, isso é o que os governos vão ter que dizer aos governados.Suponho que ningém estava à espera de que houvesse governos-fadas, mas o de que ninguém estava à espera certamente era de que, por uso e abuso de políticas mal conduzidas e mal aplicadas, por uso e abuso da permissividade nos consumos das diferentes classes sociais, se atingisse um fundo tão fundo que agora ninguém sabe se se pode emergir ou como se pode emergir...
Espantosamente àqueles que temos a Graça de ter FÉ, as Escrituras vêm tanta vez lembrar-nos que somos povo de Deus e que dessa realidade emana sempre uma razão de Esperança !...
Neste ano dedicado a meditar S.Paulo, são lidas em cada missa passagens das suas cartas cheias daquele fervor que é apanágio dos convertidos. Pois na missa de hoje, na sua Carta aos Filipenses, dizia SÃO PAULO:
Sei viver modestamente e sei viver na abundância.Em todo o tempo e em todas as estações.Estou preparado para comer com fartura e para passar fome, para viver na abundância ou viver na penúria. Tudo posso por Cristo, que me dá força. ...o meu Deus há-de plenamente prover a todas as vossas necessidades, segundo a Sua riqueza, de maneira maravilhosa, em Cristo Jesus...
É assim com o respaldo das minhas convicções, com o conforto de coincidências como a desta Carta, (logo hoje) que eu consigo encontrar razões de esperança e sou capaz de tentar entrar nesse jogo político do cada um por si... Infelizmente não apenas político !

01 outubro 2008

1 de Outubro- Dia Mundial da Música

Deixo entrar pela casa
a grande música !
Bach, Orff, Vivaldi,
Beethoven e Rodrigo...
Dvorak ou Falla...
E Tchaikowsky !
E Grieg !...
Entram em catadupas,
Em cascatas,
e despenham-se
e enrolam-se em espirais
como tornados.
E envolvem
e revolvem,
como um alagamento
ou uma convulsão...


Quando subitamente
se desdobram e espraiam,
e toda a cachoeira se desfaz,
são, borbulhando em espuma,
um mar manso e aberto,
um remanso de rias
ou represas,
ou lagos... ...

E o que fica no ar
é parecido com a paz
dos prazeres
saciados ! ! ! ...

Do meu livro Sinestesias

28 setembro 2008

Brutalidade

Isto aconteceu e a notícia voou por sobre mares e terras e veio embater no nosso conhecimento e na nossa emotividade tal qual como aqueles insectos grandes que em Cabo Verde vinham de encontro às lâmpadas acesas e se esmagavam no embate, com um estalido especial enquanto a sua massa corporal se espalhava, causando repugnância a todas as pessoas presentes... Assim a notìcia.Foi um ruido, uma repugnância... Uma tragédia, se usarmos agora outro tipo de registo.À morte que não nos aparece pela doença chamamo-la sempre de brutal... Brutalidade é isto de ser possível um amigo matar outro no logro de um desprevenido manuseio de uma arma.
Em presença de tanta calamidade, de tão irremediáveis desgraças, resultantes de tanto desentendimento humano por esse mundo, quantas vezes eu tenho gritado no mais fundo da minha estupefacção "mas porque há armas ? que só estimulam vinganças, desafios,soluções de morte ?"... Agora, depois do que aconteceu, entre amigos, e em paz, creio que perdi as forças para gritar mais e mais alto, como era preciso "porquê armas, para quê ? "Haverá quem o faça alguma vez, no mundo?
O que temos por certo é que nunca vai deixar de haver o desespero com lágrimas ou com olhos enxutos, secos de tanto chorar, daqueles que ficam,depois de tudo passado, com tudo à sua volta agressivamente igual a sempre,
apenas com uma falta. à qual, com o tempo, se irão habituar, como lhes é dito até à exaustão pela massa mais ou menos informe que aparece para a celebração dos cerimoniais de despedida.
Duríssima prova que o viver-se em sociedade exige,são os cerimoniais , em que cada um ,de forma antiquissimamente pré-estabelecida , tem o seu papel a cumprir sob o olhar condoído mas nunca acrítico de cada acompanhante.Claro que são,que eram amigos...Esses todos são, serão reconhecíveis. Mas, na dor dos que ficam, como entendo a ansiosa necessidade de reorganizar as mínimas memórias em solidão ! ! !
É um pouco isso que eu própria estou fazendo aqui e agora. Afinal este foi também, haverá duas dezenas de anos, um daqueles que me habituei a chamar e a sentir como "os meus meninos "...

22 setembro 2008

22 de Setembro - outono

.......o sol,vindo, desdobra
as sombras e já pinta de amarelo
as folhas junto à sebe.
................................................................
hoje ficou mais frio, acendo o lume,
ao fim da tarde, escura, a biblioteca,
aqui o meu rebanho
se algumas reses tenho,
tem fechada a janela,cheira a estrume
e a adubos orgânicos lá fora.
nas lombadas andei por ceca e meca
em devaneio e à hora
de trabalhar um pouco, me adormeço.
só depois é que escrevo
e assim é que me atrevo
a lembrar inventando quanto esqueço,
e do que mal recordo pago preço.

de aves que migram vejo inda os vaivéns.
passam rasantes junto do telheiro
e escuto o seu gorgeio
que me traz pelo meio
alguma agitação : ladram os cães...

Excertos de uma canção de outono de VASCO GRAÇA MOURA
Fotografias feitas por mim na Quinta das Torres em Azeitão

21 setembro 2008

Isaías, hoje

Quantas mais vezes precisamos nós de que isto nos seja repetido, para deixarmos de ser presunçosos e julgadores avaliando tudo e todos com as medidas dos sistemas avaliadores que nós mesmos criámos ?E que teimamos em acreditar que são os únicos válidos...
Tanto quanto os Céus estão acima da Terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos, e acima dos vossos estão os Meus pensamentos.

20 setembro 2008

Intraduzível


Apenas quero não deixar confundir-se com outras memórias esta que não tem nada a ver com mais coisa alguma : a Maria João Pires, muito pequenina, sentada ao piano, quase não-corpo, só ALMA ! ! ! e Beethoven íntimo sussurrado,romântico soluçado, dolorido, revoltado... Ela, só lmaterialidade, poderei dizer corpo da essência ? Parece realmente que não há mesmo palavras ..

Estou a lembrar-me da Natália Correia quando resolveu dizer que a poesia é para se comer...

Que dizer então desta música ? Nunca para se comer, mas para se entranhar no mais intraduzível da nossa capacidade de sentir ? ! ! !

18 setembro 2008

O recobro...

Tem sido, ao longo desta semana, na minha casa, assim como um arremedo da chegada da Primavera. Como as andorinhas, eles vão chegando: primeiro, só um, muito mais cedo que os outros, depois vêm dois de uma vez, depois um outro...Até que se me enchem as tardes com as sua idas e vindas, muito irregulares, na procura dos acertos nos horários... É realmente uma alegria ! Porque todos vêm contentes, com imensas histórias a saltarem daquelas cabeças ainda borbulhantes das férias, ansiosos por contar... Só os que vêm de novo e quase não me conhecem é que, com um certo embaraço, se apresentam contidos, talvez até um pouco receosos... Todos eles são o que eu chamo "os meus meninos" e, nesta fase da minha vida, uma das minhas razões de viver. É bom vê-los chegar, mais altos, mais magros ou mais gordos, bronzeados, a irradiar liberdade, ares novos, frescura ! ... E muitas vezes trazem ideias novas. Porque há alguns que
"amadurecem" neste espaço sem aulas e com outras motivações,nascidas em consequência de contactos mais prolongados e até mais íntimos com os pais e com pessoas diferentes daquelas que compactam todas as horas dos seus dias na parte maior de cada ano que eles vivem, nesta época da sua formação. É pois, para mim, um recobro, este recomeço das aulas...
Além de que já voltaram a encher a minha mesa de trabalho os Saramagos, Eças, Vieiras, Cesários, todos os Pessoas e por aí fora, cujo convívio nunca me farta e até ainda consegue trazer-me coisas novas de cada vez que os vou libertar do remanso das estantes,,,
Repetindo-me nesta citação de Madre Teresa de Calcutá , o ontem é passado, o amanhã é incerto.Resta-nos o hoje : vamos começar !...

13 setembro 2008

...como se pode, como se quer ou como se deve....

As múltiplas situações para as quais algumas vezes me atiraram as funções que desempenhei, permitiram-me, além de muitas outras coisas, conviver temporariamente com pessoas interessantes que vim a perder de vista para sempre, com as quais perdi todos os contactos, mas das quais me não esqueci, justamente porque eram interessantes. E até mesmo guardei delas memórias muito concretas, por um qualquer gesto, ou por uma qualquer expressão de ideias que, na altura, me cativaram. Foi o caso de alguém que, há cerca de trinta anos, numa reunião de várias pessoas interessadas em resolver certos problemas de ordem social, afirmou que só conhecia três formas de se viver : ou como se pode, ou como se quer, ou como se deve. E recordo ainda a longa discussão que esta afirmação suscitou em seguida... Porque a todos os presentes se mostrou desde logo urgente definir qual o alcance do como se pode e o do como se quer, porque do como se deve, todos pareciam saber...
Ora hoje, fazendo uma curta leitura no Evangelho de São Mateus fixei-me numa pequena passagem em que Jesus pergunta"porventura podem-se colher uvas dos espinhos ou figos dos abrolhos ? Toda a árvore boa dá bons frutos e toda a árvore má dá maus frutos".Creio que por esta mesma convicção Jesus amaldiçoa uma triste figueira numa beira de estrada, quando a vê desprovida de frutos... Esta não vivia como se deve e os espinhos e os abrolhos limitavam-se a viver como se pode ... Portanto a noção do dever é algo que trazemos connosco ligada precisamente à ideia de fazer bem feito aquilo para que somos( ou nos tornámos) dotados. Será sair da "norma", viver como se quer ou viver como se pode ,sempre que isso colida com o que a sociedade espera de nós-pessoas-com-as-nossas-cicunstâncias. Em São Mateus, Jesus explicava linearmente ao seu auditório uma coisa tão simples quanto isto : se tens todas as condições para dar bons frutos, é isso que de ti se espera. Não seria porventura ali oportuno reportar-se à infinita misericórdia de Deus que nos dá a margem suficiente para tentarmos fazer coincidir o querer, o poder e o dever , nisto das nossas vidas...
Mas, tal como se estão a apresentar hoje os conceitos de vida, onde reconhecemos cada vez mais espinhos e abrolhos e já vamos desesperando de encontrar os tais bons frutos e,pior que tudo ainda, chegamos a recear pela nossa própria "contaminação", parece compreensível que a atitude de Jesus fosse ríspida, como só ele as sabia tomar, por vezes...

07 setembro 2008

Da Profecia de Ezequiel, hoje

...Quando ouvires uma palavra da minha boca, hás-de avisá-los da minha parte...Se não lhes falares para os afastares dos seus (maus)caminhos...EU pedir-te-ei contas...

31 agosto 2008

São Paulo

Da Epístola de São Paulo aos Romanos, hoje :

Não vos conformeis com Este mundo ! Transformai-vos pela renovação da vossa própria mente !...

28 agosto 2008

Chuva de Verão sob um olhar antigo


Houve um único dia durante as minhas férias no campo que,depois de sempre com sol e quase sempre com vento, amanheceu sombrio e calmo,nuvens baixas sem descontinuidades, todas as cores da paisagem ensombradas por uma espécie de patine poeirenta,ficando o lençol de água do lago com a aparência gelatinosa e grossa de uma qualquer água de valeta... Da beleza que a luz acrescenta às coisas, se dúvidas tinha, ali tinha uma prova que mas tirava. Não tive porém nenhuma dúvida sobre a altíssima tensão a que a Natureza fica sujeita sob uma prolongada sequência de dias não só soalheiros, mas de calores muito intensos. Apesar de descolorida e baça, a vegetação parecia em repouso e no ar espalhou-se mais forte uma mistura de aromas frescos e identificáveis separadamente...Quando, quase a medo,caíram as primeiras gotas muito grossas de uma chuva que viria a tornar-se copiosa, pareceu-me que estava consumado algo como um encontro desejado de longa data...
A ver chover lá fora e com todas estas "impressões" gravadas, não demorou muito que não traduzisse tudo assim :


Hoje, sem ninguém esperar, cobriu-se o céu
e uma poeira ténue, acinzentada,
veio cobrir de manso, como um véu,
a paisagem que há muito era dourada.

Voluptuosa, a Terra estremeceu
sob a carícia meiga e inesperada.
Cheia de sede, sôfrega, bebeu
ébria,fora de si, transfigurada.

Foi distendendo os ramos, saciada,
cada árvore, cada planta, cada flor...
E à noite veio a calma perfumada,

húmida, densa, a recordar calor.
No ar, o aroma da terra molhada
será que entoava uma canção de amor ?...

25 agosto 2008

Jogos Olímpicos na China

Como certamente alguns milhares de portugueses, ontem, porque foi domingo, fim de férias e até fim de muitas outras coisas, sentei-me frente ao televisor SÓ para ver televisão. É muito raro fazer isto. Faz-se sempre qualquer outra coisa, enquanto no televisor escorre também qualquer coisa. Não ! Não pertenço àquele grupo de pessoas que não gostam que os outros saibam que elas vêem televisão. Eu vejo televisão. Quando sei que há para ser vista alguma coisa que me interessa ou me apetece ver. Sem complexos de culpa, sem medos de que me classifiquem de qualquer coisa menos honrosa para as minhas qualificações intelectuais, sociais ou até morais. Mas, como disse atrás, raramente estou sem me ocupar de alguma maneira física, isto também dependendo do valor que atribuo ao que surge para ser visto.
Assim, então, ontem quis ver o encerramento dos Jogos Olímpicos . Porque tinha visto as cerimónias da respectiva abertura, e ficara boquiaberta com tanto dourado, tanto prateado, tantos jogos de luzes, tantos vermelhos, tantos amarelos, tantas pessoas, tantas,tantas... Que cantavam em sons guturais agudíssimos, que dançavam em ritmos envolventes e inesperados ... Tantos, tantos, tantos...E ENTRETANTO tinha-se gerado um verdadeiro mundo quase surreal de vivências desconhecidas para mim, como para tanta outra gente, em que aos personagens se exigia apenas esta simples coisa : que fossem heróis. Ou talvez semi-deuses...Vi-os, espalhados por vários noticiários, a rir ou a chorar, tensos, gloriosos ou desiludidos e não me foi possível esquecer alguns daqueles esgares, durante muitos dias. O MEU mundo estava realmente a ser confrontado com algo que o abalava !E se eu já tinha convivido com notícias de Olimpíadas ! Com a minha idade...Porém, tinha posto na balança das minhas expectativas aquele meu gostinho curioso pelas coisas orientais, por aquela poesia tão capaz de sintetizar os mais complexos sentimentos em cinco ou seis sílabas das quais nós, ocidentais, ainda não sabemos se entendemos tudo...Pensava na leveza dos desenhos, na frescura dos temas... e tudo me saiu pesado e denso para uma forma agora tão dura e tão nova de se estar em qualquer forma de vida !
Foi por isso pois que quis, ontem, ver uma outra cerimónia.Para me certificar.
Hoje reli alguns dos meus poetas chineses.
Agora só tenho que procurar esquecer o drama que adivinhei através de algumas lágrimas difundidas pelos telejornais. E porque não lembrar mais vezes o sorriso bonito daquele português que nasceu longe e voltou da China, feliz ?
É tudo uma questão de equilíbrio de valores. Ou não?

20 agosto 2008

Regresso


Voltei ! Após quinze dias passados em casa de amigos, onde me sinto tão bem, aqui estou de novo no meu canto que não é mais do que, como dizia RÉGIO, ... aquela casa singela à qual quis ( e quero) como se fora feita pra eu morar nela... Terei muito que contar, do muito que vi e meditei, mas hoje apenas quero marcar presença . E mostrar um pouco do ambiente natural que me envolveu e no qual me apeteceu tantas vezes poder diluir-me...

03 agosto 2008

Do Livro de ISAÍAS, hoje

Porque dais dinheiro por aquilo que não é pão
e o produto das vossas canseiras por aquilo que não sacia ?

02 agosto 2008

Fait-divers

Pela manhã, cedinho, entre o segundo ou terceiro golo de café e a primeira dentada no pãosinho fresco, a bomba : acabam de assaltar o primeiro andar, aqui por baixo de nós...agora, agora mesmo...entraram por esta janela que estava aberta, levaram uma mochila que estava em cima da mesa e o telemóvel que lá estava perto...
Não é fácil de descrever o que se sente numa situação destas. Mas...agora? Aqui, mesmo por baixo da mesma janela que eu também tinha acabado de abrir...Mas como, se estas salas são viradas para os quintais dos prédios que, aqui são mais fundos do que o nível da rua que passa ao lado, se todo o perímetro de quintais está marcado por vedação de redes novas, sem rupturas?... Então só podia ser um ladrão ágil, jovem, leve, porque,`além de pular de alto teve ainda que trepar pelo gradeamento que protege as janelas do rés-do-chão, o que lhe forneceu a base do salto para cima,com que alcançaria a janela aberta do primeiro andar...Atropelam-se as conjunturas, uns vizinhos vêm à escada, fala-se tudo, mas...e os assaltados ? Um jovem casal. Primeiro chamaram a polícia que veio logo,porque a esquadra é pertíssimo, e foi a presença dos polícias na escada que levantou o burburinho... Depois, muito à pressa,já de saída para declarações na esquadra, falaram com alguns de nós enquanto desciam... E ficou a pairar para mim : mas como saíu o ladrão ? Viram-no ? ... Ninguém soube mais nada. E todos ficámos amedrontados, cada qual a pensar nas suas melhores soluções de defesa.
Durante todo o resto do dia se ficou a congeminar no como e quando e porquê e ...e...e...
Era noite quando o casal regressou e, por respeito, ninguém mais os procurou. Sabia-se que eles não tinham outro telefone senão o móvel que lhes fora roubado, por isso, nem telefonar era possível. Não sei também explicar como é que só no terceiro dia depois do assalto conseguimos falar com os assaltados.Já haviam recuperado os seus cartões que iam na mochila e que foram encontrados pela polícia, já tinham conseguido um novo telemóvel ao qual foi atribuido o número do anterior e com imensa calma, mas revelando muita apreensão, explicaram que haviam deixado as janelas abertas, durante a noite,por causa do calor, que dormiam e só foram acordados pelo bater da porta para a escada, por onde afinal o assaltante saíu sem ninguém dar por isso. E ficámos sabendo que o tal "agora", "agora" de cerca das nove da manhã do burburinho, fora provavelmente aí por entre as seis e meia e as sete horas da manhã...
Todos os vizinhos ficaram com esta realidade bem presente: janelas abertas são uma sedução para quem veja que pode entrar por elas, sair de nossas casas sem ninguém se intrometer é também sempre possível mesmo sendo-se ladrão. Vamos acautelar-nos mais. Foi uma grande lição !

31 julho 2008

Tempo de revisões

Tempo de férias, além de dar umas boas oportunidades a uma certa preguiça, dá espaços alargados para conversas inesperadas com pessoas que, noutra época, vemos pouco. E não é que nos sabem tão bem estes reencontros ? Fala-se de coisas novas e diferentes às quais não nos permitimos aceder quando andamos "programados" para o mais urgente dos nossos trabalhos...
Aconteceu-me agora, ao recordar com uma amiga da minha geração as nossas respectivas professoras e escolas que se chamavam primárias nessa época, relembrarmos como era prática habitual termos que debitar em determinadas aulas, poemas de autores consagrados ao tempo, os quais decorámos tão eficazmente que ainda agora, nestas nossa idades, os conseguimos declamar com muito poucas omissões. De recordação em recordação, fizemos reviver não só A BALADA da NEVE, mas também O PASSEIO de SANTO ANTÓNIO e o extraordinário NOIVADO do SEPULCRO . Mas as nossas memórias perderam-se com ...minha velha ama que me estás escutando canta-me cantigas para me embalar e também com o Amo-te ó cruz no vértice firmada de esplêndidas igrejas e ainda aquela dolorosa Venda dos Bois-:com que então você quer livrar o seu rapaz? e descascava um fruto... Perdemos autores( do que muito me envergonho, devo dizê-lo ) mas não imaginávamos sequer o enorme prazer que nos trouxe aquilo de que nos fomos lembrando ! Até nos vieram à memória alguns fragmentos de músicas com que alguns destes poemas foram mesmo musicados. Usou-se durante muito tempo cantar os bons poetas ao piano, em serões familiares, e aí também as meninas da família recitavam... Constatamos a "espessura", o "peso" dos temas ultra-românticos postos sem nenhum problema na boca das crianças que fomos , e comparamo-los com as infantilidades que se proporcionam às gerações de hoje , mesmo muito para a frente daquilo a que até se deixou de chamar primária.Afinal, tempo de férias pode ser por muitas vias tempo de revisões, de interrogações, de opções e também de decisões...

20 julho 2008

Ser REFORMADO, hoje

Quando, em 93, pedi a minha passagem à situação de reformada, embora não tivesse ainda cumprido todo o tempo que institucionalmente era considerado tempo exigível a qualquer funcionário público, nunca se equacionou nos meus planos de vida e nos daqueles que então apoiaram a minha decisão que, anos mais tarde, a existência desta categoria de pessoas pudesse vir a transformar-se num dos maiores,se não o maior problema dentro da situação económica do país. Creio que se esperava que, muito naturalmente, os que se reformavam fossem ordeiramente morrendo para permitirem "espaço" para outros que iam chegando... Creio também que nunca se pensou que o número dos que iam trabalhando não iria crescer na proporção suficiente para garantir o fundo financeiro necessário para assegurar a manutenção económica daquele grupo de pessoas que teimava em não morrer... E assim, enquanto eu e os meus complicativos processos osteoporóticos vivemos alguns anos numa beatífica paz de consciência, sem uma única sombra a perturbar as minhas mais ou menos regulares confissões quaresmais, e enquanto até me sentia um pouco orgulhosa por ter conseguido aprender a governar um bem apertado orçamento mensal e uma certa descida no padrão de vida, enquanto isto, repito, vejo-me de repente transformada na pior das oportunistas, a viver à custa de tanta gente sacrificada, ralada, persistindo em estar aqui, em estar sempre mais carente de cuidados e não produzindo senão mais um algarismo para as estatísticas mal agoiradas do senhor Ministro... Não se pode dizer que seja esta uma forma de viver, já não digo feliz, mas pelo menos desassombrada ! É que não é só a má consciência : há também aquela sombra permanente de uma "espada de Damócles" sobre a minha cabeça...
E como apetece começar a alardear o trabalho que se "deu" !
Mas, não entrando por aí, acontece que, tendo recebido agora de presente um pequeno livrinho de poemas do autor japonês Issa Kobayashi , constituido por um género tradicional do Japão de pequenos tercetos com apenas cinco e sete sílabas,sem rima (haikus), onde um poeta já idoso se não envergonha da sua velhice encantada com a Vida, eu recordei todas aquelas homenagens que me prestaram e são tão habituais a quem "parte" para a Reforma : os jantares, as flores, a placa de prata gravada a elogios, os presentes com assinaturas de toda a gente, directores incluidos, mas com discursos... E, no meu encantamento pelos poetas orientais, o meu próprio discurso foi a leitura de uma adaptação feita por António Cardoso Pinto sobre um poema chinês:

Porque é preciso partir,
a cada momento.Sempre.
Para qualquer lado.
Ir ! Um gesto, um olhar...
Viajantes somos, das coisas,
dos sonhos,
das estrelas,
do tempo !
Ícaros que ensaiam o voo inverso,
agitando a golpes de asas
as paisagens interiores
do nosso imenso universo...
Avalon, Xangri-la,ou Ilha dos Amores,
Viajantes sempre,
e de uma História sem limite
que continuará...

De 93 para cá, eu creio que este vai continuando a ser o meu discurso... Apesar de tudo...

13 julho 2008

QUEM TEM OUVIDOS PARA OUVIR...

Estamos em meio do mês de Julho, acabaram-se aulas e exames, as inscrições nas Universidades já passaram aquela fase tormentosa e, sendo assim, muitas famílias puderam ir para férias ,uma vez que os mais velhos haviam preparado os planos de férias nos seus trabalhos de maneira a que coincidissem as liberdades de todos para, juntos, poderem sair, viajar, mudar de clima.
Quando eu fui estudante e ainda não existia a paixão ( e a possibilidade ) das viagens, todos iam para a praia e muito poucos, primeiro para a praia e a seguir para o campo, como diziam os médicos que era perfeito para a saúde. Agora a praia frequenta-se durante quase todo o ano e não admira pois que, nesta altura, configure o escape mais fácil e rápido de obter, ainda que mais lá para a frente possam surgir outras saídas mais sofisticadas... Este é então o fim de semana em que os areais portugueses vão regurgitar... Pela moda, pelo bronze...pela urgência !
Não será não aquela sedução do grande espaço aberto e estranhamente silencioso dos azuis que se confundem na distância e nos levam a sonhar com o infinito.
Curiosamente,São Mateus diz-nos no Evangelho de hoje que Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira-mar. E também uma enorme multidão o rodeou... Sabemos como Jesus sempre procurava zonas solitárias e silenciosas para meditar e estar com Deus, por isso podemos imaginar o que ele desejava, quando se foi sentar á beira-mar... No entanto, os seus pensamentos não deixaram que perdesse esta oportunidade de comunicar, tal era a apetência que via no auditório e provavelmente de tal forma era propícia a beira-mar... E assim, subiu para um barco ali varado, dando-lhe a dignidade do melhor púlpito, e começou a dizer... Como sempre a sua palavra ia direita a uma audiência ávida e seca de expectativas, e era doce e misterioso o que dizia... Foi pois ali, junto do imenso e misterioso mar que disse, não só àquela multidão, mas a todos nós: QUEM TEM OUVIDOS PARA OUVIR, QUE OIÇA !... ...

08 julho 2008

A Cidade e os Vizinhos

As primeiras notícias que ouvi, consciente, já totalmente fora daquele limbo dos momentos iniciais de cada acordar, foram as de que um devastador incêndio estava ainda a acabar de devorar dois prédios na Avenida da Liberdade, mesmo ali já perto dos Restauradores. Um deles há anos devoluto. Oco. Tanto quanto me lembro, sem grandes sinais exteriores de deterioração, como tantos outros cuja aparência nos confrange, espalhados um pouco por quase todos os bairros mais antigos de Lisboa. E assim foi que todo aquele caudal habitual debitado por todos os fazedores de notícias da manhã de ontem, mesmo não havendo felizmente vítimas ,veio até nós impregnado dos medos, das extrapolações, dos " choradinhos", dos "o que é que sentiu quando..." a que já vamos estando habituados, o que é pena, porque acaba por já quase nos imunizar contra coisas que, na sua genuina tipicidade, são deveras dramáticas e merecedoras de uma nossa muito maior atenção. E até de desgosto, pela verificação da nossa impotência enquanto cidadãos que, amando a nossa cidade, gostariamos de ver nela, sempre, a nossa bonita terra, mais bonita que qualquer outra, isto é, melhor para si e para os que a povoam, velhos, novos, pobres, menos pobres, solitários, filósofos ou poetas... Porque afinal é da sua gente que acaba por também resultar o cariz de uma cidade. Dos desgraçados que acabaram por escolher para morada uma bela casa abandonada que irá diluir-se em chamas ao surgimento da mais ou menos próxima fatalidade, a cidade não pode, não deve alhear-se, mas fica com eles mais triste, menos propícia a uma felicidade que todos merecemos... Por isso a desejava eu fora das parangonas destes noticiários e limpa e livre das ruinas mal disfarçadas, das catástrofes mais ou menos prováveis e das imprevidências mais ou menos impugnáveis...

No turbilhão de pensamentos como estes, em que a minha solidão me leva a desejar tanto sentir-me "parte" de algum "todo", volta a reformular-se-me o problema daqueles que, na nossa cidade, não sendo da nossa família, não sendo amigos de infância ou de desempenho profissional, não sendo nossos companheiros de estudos, são no entanto as pessoas que vivem mais perto de nós, que acompanham voluntária ou involuntariamente cada passo de cada dia das vidas que temos, que vão sabendo das nossas fraquezas e das nossas forças, que se apropriam com ou sem maldade, com ou sem solidariedade, de algumas preocupações e algumas alegrias nossas,que conhecem intimidades , desde hábitos de vida, manias ou manhas, até ao mais secreto das nossas saúdes... Os VIZINHOS... Vivo no mesmo prédio há cinquenta e sete anos. E,durante todo este tempo, só em dois dos andares houve mudança de habitantes. Sendo um prédio de apenas três andares, com direito e esquerdo, somos tão poucos que seria impossível vivermos paredes- meias durante tanto tempo sem que entre nós não tivesse crescido uma relação especial. Mas ( e para mim a pergunta é recorrente )que relação é essa ? Se me reportar a alguns conhecimentos históricos, recordo que nos primordios ainda de uma pré-civilização, o instinto de sobrevivência e de consequente defesa levou os primeiros grupos de seres humanos a juntarem-se, constituindo pequenas células que os sociólogos já consideram com muito interesse enquanto esboços de uma socialização mais ou menos tendente a consolidar-se. Com o progresso da HISTÓRIA assistimos ao nascimento de cidades, onde ,por exemplo, os Romanos já contavam com o aproveitamento do espírito gregário dos vizinhos para formarem as suas civitates. E daí ao aparecimento dos MUNICÍPIOS, nunca o elo de ligação entre vizinhos deixou de constituir uma força socializante. Portanto, não me parece descabido considerar a sério a relação de todos nós, moradores do mesmo prédio, como uma relação sui-generis mas efectiva, real. E nunca de pretender ignorar ou desvalorizar.
Quando existam trinta ou quarenta vizinhos dentro de um só prédio, como nos grandes imóveis destaLisboa séculos XX - XXI, para além de termos que contar com uma maior mobilidade deles ,inerente a muitos novos factores próprios da moderna vida social e económica, percebemos quanto seria difícil uma relação de proximidade entre tanta gente e como é até natural que muitos nem tenham oportunidades para conhecer-se. Aliás,persiste uma espécie de "regra de ouro ", que sempre foi respaldo de gente a viver em proximidade, e que já vigorava nos meus tempos de menina : não devemos intrometer-nos com vizinhos, nem tão pouco permitir que os vizinhos se intrometam connosco.Isto tão só porque pode haver perigos morais ou mesmo materiais numa relação de intimidade com alguém que só se conhece superficialmente. E não será pelo facto de ser vizinho que alguém de mau carácter irá modificar-se... Além de que a"imposição" de uma presença nunca será agradável e será de pequenos contactos atempados e oportunos que se irá tecendo uma boa relação de vizinhança. Mas, em nome de tal precaução ,será possível não se sentir algo de especial por aquelas pessoas que conhecemos jovens, que depois casaram e tiveram filhos, os quais cresceram sob os nossos olhos e vieram a casar também , pessoas que, mais tarde, começaram a ter doenças e vieram a perder maridos, filhos ou pais, e ficaram em solidão, envelheceram, precisando de amparo moral ou físico, mesmo quase debaixo do nosso tecto, só porque entre o nosso e o evoluir das suas vidas há um patamar ou um lanço de escadas ? Sei que sofreria de facto se alguma destas pessoas desaparecesse de ao pé de mim.E sofreria como? Como iria colocá-las dentro da relação daqueles que já perdi? Como simplesmente VIZINHOS !... Não se trata de um parentesco e nem sei se poderá ser sempre uma amizade.
A simples ideia de partilha em situações de mera conjuntura acabou por fazer nascer laços. Como na Pré-História ! ... Dir-me -ão que se tem visto "brotar" e desenvolver ódios ou desamores entre vizinhos quase sem razões .Mas isso mesmo é prova da especificidade deste tipo de relacionamento. Para mim, olhando os noticiários das tragédias urbanas que trazem para a rua , em noites e madrugadas de pavor, todos aqueles vizinhos sofridos, aterrados e irmanados no sofrimento do susto e do medo, fica-me sempre mais intensa a convicção de que é preciso para exprimir tudo isto criar mais do que a palavra que me faltava : vicinidade... um espírito, um sentimento novo, uma vivência à qual não podemos negar um importante lugar nas nossas vidas,Esta casa, este bairro, esta rua, esta CIDADE, teriam sido os mesmos para mim se não tivesse tido estes meus VIZINHOS ?...

25 junho 2008

Lisboa à espera


Lisboa, eu e o seu pequeno-grande mundo de agentes de manutenção temos muitas vezes grandes desaguisados que nunca saem felizmente da minha rebarbativa mas pouco operante capacidade de indignação ou de diversão, muito conforme à gravosidade das ocorrências e ao prisma crítico através do qual eu as olho.Quantas boas gargalhadas tenho rido no silêncio das minhas observaçôes !!! Aconteceu ontem. Estava só, como quase sempre .Amo a avenida onde moro há já mais de meio século. É ampla de tal maneira que, agora que começo a ver pior ao longe, não distingo as feições de quem passa ou vive no outro lado da avenida. E os seus larguíssimos passeios têm abundante vegetação em placas centrais cobertas de relva ( só quem não a tem ou teve ,sabe da dificuldade que é mantê-la) onde estão implantados frondosos arbustos que dão flor em épocas e cores desencontradas e, mais maravilhosos que todo o resto, enormes,majestosos e quase perenes de verdura uns olmeiros que vi crescer e hoje atingem ( ultrapassam? ) a altura dos prédios laterais .Há um deles mesmo em frente da janela do meu quarto que me serve de cortina nas madrugadas de verão e onde vivem famílias de melros cantores que me acordam no lusco-fusco das primeiras horas do dia. Soube sem muita certeza que toda esta parte da avemida terá um meio quilómetro de extensão. E é contra este meio quilómetro que se encarniçam os modernos paisagistas citadinos, sendo sonho e projecto de pequenos autarcas nas várias eleições que aqui vivi,dar uma volta aos passeios,à relva e aos olmeiros para melhoria da vida dos moradores.São precisos espaços para estacionamento dos carros, sim senhor.Pois vai-se aos passeios grandes e...zás ! É verdade que as grossíssimas raízes dos olmeiros chegam a levantar o empedrado dos passeios e até a imiscuir-se em algumas canalizações de esgotos...Vamos aos olmeiros e...zás ! Para mais, alguns envelheceram e deixaram-se já cair, sacudidos por algumas fortes ventanias invernosas. Pior,pior, foi que caíram sobre uns dos tais carros que ali não deveriam estar...Só prejuizos, complicações, que não se compadecem com florsinhas,relvas e passarinhos... Eu entendo,só que tenho pena... Mas o Mundo é perverso e, com eleições ou sem elas, os sonhos ficam engavetados há anos pela falta da chave que os desengavetaria : o dinheiro. E a força da Natureza é de tal forma poderosa que os olmeiros crescem, crescem, em todas as direcções parecendo mesmo um desafio à ira dos prejudicados : começaram a entrar-lhes pelas janelas, pelas varandas, a tapar-lhes o sol, numa pujança linda de ver mas já a tornar-se mesm perigosa . Àlem de tudo o mais, até para a segurança de bens e pessoas aquelas ramadas dentro das varandas começaram a ser ameaça em vez de fruição.
Foi assim que o autarca desta freguesia pensou a solução rápida e possível e, se bem o pensou , melhor o fez. Uma equipa, umas serras e serrotes, um bom desbaste nas partes baixas dos olmeiros. Boa ideia dissemos nós,os fregueses que percebemos o que iria acontecer.
Começou a operação, com respaldo da Polícia Municipal, aí pelas oito horas da manhã. O povo ia passando e olhando de lado para umas fitas demarcadoras de áreas e uns polícias por ali passeando. Nada mais. O POVO mostrava-se agastado por não o deixarem passar pelos trilhos que estava habituado a percorrer todos os dias; não lhe ocorria que se estava a começar a cuidar de algo que só iria reverter em seu favor. O POVO sempre desconfia, se lhe tocam na rotina... Velhas memórias ? Preguiça ?... Seriam umas nove e tal, chegou a "equipa" : um senhor de calça cinzenta e camisa branca, impecáveis, começou a tentar pôr em acção uma pequena serra mecânica daquelas em que é preciso puxar com energia um fio que lhe"estimula" o movimento. Havia um outro homem de camisola larga e coçada e um rapaz,talvez caboverdiano. A serra não pegava e todos se mostravam pesarosos, parados, olhando sem esperança para o insucesso da operação. Até que o homem mais bem vestido usou o telemóvel. Entretanto apareceu ainda uma outra pessoa de cor, vestida de azul vivo. A EQUIPA parecia completa.Aparentemente em socorro da serra que não pegava,veio uma bela carrinha que trazia ainda uma escada de alumínio parecida com uma que eu tive mas esta era de aumentar, quase como as dos bombeiros. Muito mais tarde no dia, voltei a pensar nos bombeiros. Não seria esta uma tarefa que eles fariam rápida e profissionalmente ? Claro que nós os urbanos não sabemos nada das profundidades políticas desta coisa, mas a operação deu para que durante todo o dia, os homens da equipa fossem atirando por terra os grandes ramos incómodos, encarrapitados uns na escada mais ou menos extendida, outros em baixo a ampará-la, usando serrotes e, muito esporadicamente, a tal serra caprichosa que só pegava às vezes. Andei de janela em janela a assistir ao mais flagrante desconhecimento de como se trabalha em equipa, de como se programa e distribue qualquer tarefa e de como se pode depois alardear que se fez um trabalho importante, quando tudo aquilo era tão ridiculamente simples, como, por exemplo o acomodar da enorme ramagem caída sem usar o processo de um só homem a transportar às costas ,ramo a ramo, para um contentor previamente colocado na esquina da rua diametralmente oposta ao local da operação.Houve situações assim tão cómicas que não foi possível deixar de me rir. Para o não fazer sózinha, telefonei a uma amiga que mora na"outra margem" da avenida e a quem "pertence" a árvore intervencionada. Como eu, ela estava perplexa com o que via...Em conclusão : foi todo um dia de trabalho de talvez técnicos e ajudantes mas a casa da minha amiga ficou de janelas iluminadas pelo sol de um fim de dia de verão, coisa que ela já nem sabia o que era. O olmeiro está lá, despido das ramagens indesejadas, em perfeito traje de verão... A equipa desapareceu á hora própria... Lisboa continuará deste modo... à espera de muita coisa ! E o "meu" olmeiro,esguio e bem comportado continuará a albergar a família de melros cantores,meus companheiros...

22 junho 2008

Os cento e vinte anos de Pessoa

...e então não é que, no fascínio das férias, me encontrei, como em pequena, a situar-me tão longe daquilo que considero trabalho que até perdi o conto aos anos do Fernando Pessoa embora o recordasse no dia de Santo António, nem eu sei bem porquê... Isto que vou escrever é mesmo um mea culpa de professora ( nem sei se de portuguesa ou se de pessoa de LETRAS ) , mas nunca fui admiradora senão da Mensagem de PESSOA. Trabalhei sempre muito cada heterónimo, desde os de sempre até cada um dos que nos têm vindo a aparecer abundantemente...E digo trabalhei porque àquilo a que não me entrego com entusiasmo e até paixão, se acaso tem a forma de um dever ou de uma necessidade, procuro sempre compensá-lo com trabalho, já que não posso abordá-lo de outra forma. Isto explica então que os cento e vinte anos do poeta se tivessem diluido na minha euforia do "não pensar, não lembrar,não rebuscar".
Viessem falar-me sim da revigorante "juventude" do meu CAMÕES de que felizmente se não alhearam os construtores das provas de exame deste final de ano lectivo ! Foi sempre da sua transbordante capacidade de amar o país, as terras, os deuses, as gentes,os mares e as mulheres que recolhi uma lição de resistência, como parte que eu sei que sou neste Mundo.Neste Mundo que ainda não me deu motivos para o tédio desmultiplicador e sempre mais entorpecente de Pessoa...

20 junho 2008

Férias

É muito interessante saber-se que férias e feira são palavras filhas da mesma mãe latina e que, por conseguinte, nas duas subjaz a mesma ideia de pausa e liberdade e festa, que é como quem diz o soltar-se, o descobrir~se, o expor-se, o mostrar um outro lado de si mesmo que tantos imponderáveis obrigam a fechar por vezes "a sete chaves" dentro de nós mesmos. E é realmente uma alegria, uma festa, quando a "feira" dos nossos sentimentos, dos nossos gostos, dos nossos pensamentos e opiniões encontra o espaço para abrir-se e mostrar( ou propor ) o que tem de mais genuino "em stock"... Foi assim agora. E porque feira é troca, trouxe comigo um sem-fim de coisas novas, montes e vales a reverdecer,onde há poucos anos foram brasa ou labareda, pequenos rios represados a espaços criando praiínhas onde retoiçam crianças e jovens, cidades que conheci vilas e hoje se envaidecem de avenidas, rotundas, parques de estacionamento cronometrados e despropositados gigantes ,já não só super, mas hiper, locais de tudo vender... Um país novo a crescer sobre a raíz já exangue do outro que eu conhecera !
Mas há também as pessoas e as coisas novas que elas fazem, e as libertam para podermos falar de coisas boas e novas... E como é possível rodear-se a gente de uma tecnologia sem a qual já não se pode viver, já ninguém sabe viver...Rega-se a horta ou enche-se a piscina a horas impecavelmente certas sem ser preciso ir lá,estar por perto...As flores abrem na mesma mas maiores,mais coloridas, os morangais desdobram-se a dar frutos óptimos e rescendem por todo o lado os cheirinhos de cozinhar sempre húmidos e frescos...Aprendi a, pela noite, pelas longas conversas sob as estrelas, ouvir subitamente um eclodir de águas, sem ver chuva...Era uma espécie de "fantasma" zelador de hortas e jardins que chega sempre a horas e traz consigo o perfume da terra a envolver esta nova noção de liberdade...
PORÉM, numa outra latitude ,sem retornos mas interesses, sem o abraço da TERRA, sem o carinho de AMIGOS , coincidiu haver FEIRA, mas sem FESTA em liberdade, como é devido .As gentes da nossa Terra desejavam e mereciam trocar com " os rapazes da bola" as suas vis tristezas agora habituais, pelo voo libertador de uma límpida vitória que eles não puderam dar-lhes. Também trouxe "isto" das férias.Também isto é o Mundo Novo ! Continuaremos a ter que O aprender...

02 junho 2008

Canção do tempo fugaz/ 2-6

A água corre,jamais regressa
à nascente da montanha.
A flor cai,jamais regressa
ao ramo que a sustentou.
Fugidio relâmpago a Vida !
Apenas o sentir do seu passar...
Imutáveis Céu e Terra.
Tão rápida a mudança no meu rosto !

Li Bai, poeta chinês ( anos 701-762)

01 junho 2008

Pobreza

Nesta época terrível que já estamos a viver, coisa que em toda a minha vida nunca me foi dado ver, nem mesmo durante os ,grandes racionamentos do tempo da segunda Guerra Mundial, há pessoas de um estrato social ao qual nunca atribuiramos a qualificação de pobres-pobresinhos de pedir, que estão agora a recorrer a práticas de sobrevivência que eu julgaria impensáveis para qualquer pessoa, mesmo sabendo que para os tais pobresinhos elas existiam e me confrangiam dolorosamente. Na fase inicial do grande afluxo de imigrantes provenientes do leste europeu, foi-nos mostrado nos noticiários televisivos o degradante espectáculo de filas mais ou menos ordeiras à espera, pela noite, dos caixotes de lixo postos na rua junto às portas traseiras dos grandes supermercados, para neles recolherem tudo o que pudesse servir-lhes para matar a sua fome ou a das suas famílias. Mas eu própria os vi remexendo os pequenos receptáculos para lixo suspensos nos candeeiros de rua e nos caixotes de lixo doméstico . Foram criadas várias instituições de caridade originárias, algumas, de igrejas de religiões não católicas, e outras de simples associações de solidariedade e começou-se a falar muito abertamente dos sem abrigo para os quais estas instituições criaram uma forma de assistência por meio de carrinhas que, pelas noites e madrugadas, se espalham pelas cidades fornecendo comida e há mesmo algumas que funcionam como posto médico rudimentar.E nós, os que não sabiamos como acudir àquelas pessoas, passámos a ter uma forma de o fazer,por interpostas associações. Mas, resultado do nosso cada vez maior conhecimento dos hábitos de outros países da Europa, da nossa cada vez maior europeização, começámos a usar aquele processo de nos vermos livres dos grandes"monos", lixos incómodos, colocando-os em certas zonas da rua demarcadas para esse fim. E é para lá que vão mobiliário, electrodomésticos, plantas secas retiradas de jardins, livros e tapetes velhos ou inúteis e roupas,domésticas ou de vestir. Há entretanto uns dias certos em que a Câmara manda proceder à recolha de tudo isto mas, nos espaços entre estas recolhas, aparece quem venha procurar aqui o que pode aproveitar para si. Já me aconteceu perder algum tempo a observar da minha varanda as aproximações de pessoas a esta livre oferta que se lhes depara inesperadamente quando passam por um destes depósitos de inutilidades. Quando, há poucos anos, esta prática começou a existir, a atitude primeira de incredulidade juntava-se aos olhares perscrutadores em redor e depois a uma avançada rápida e uma retirada ainda mais rápida com qualquer coisa arrebatada do monte,parecia-me, quase sem escolha. Contudo a habituação tem permitido aos aproveitadores um à-vontade sempre crescente nos seus abastecimentos deste tipo. Quando vi que ,vendo o que há, se parte e volta mais tarde com um carro para poder carregar o que se escolheu, deixou de divertir-me como sempre, esta observação, até ao dia,há pouco mais de dois a três meses, em que tive a certeza de que já não era o mesmo "tipo" de pessoas que andava por ali a tentar guardar em sacos que trazia, roupas de criança, malhas e sapatos e até uma ampla toalha que me pareceu de banho...Dizem-me que isto pode ser indicador de mais coisas que não da pobreza envergonhada, mas, quanto a mim, será sempre indicador de uma certa pobreza( talvez moral? ) para acudir à qual eu ainda não sei de nenhuma associação de caridade...

25 maio 2008

Nós e os lírios do campo

Nós, seres humanos, somos tão astutos que, se quisermos, podemos sim senhor "servir a dois senhores" e até a mais que dois, se isso se proporcionar. O único impedimento para tal reside muito simplesmente no carácter, na formação moral, na educação de cada um.
Hoje penso em quantos senhores servirá aquela Junta Militar que manda em Myanmar. Não tem ela servido as suas espantosas ambições políticas e privadas, fingindo que ajuda e serve aquele seu povo sofredor que afinal vem morrendo aos poucos, de abandono, por crueza e desumanidade de quem devia, pelo menos, consentir na ajuda oferecida pelo resto do Mundo ?
Fingir foi o verbo que usei, pois será ele sempre a imiscuir-se nas atitudes dos que sabem como servir a dois senhores sendo que, de um lado, está sempre o mesmo tirano ( ou sedutor )-o dinheiro, que sabe apresentar-se com múltiplos disfarces, e do outro lado está sempre também a fragilidade do Homem que tem todas as dificuldades em apenas se pautar por olhar os lírios do campo...

24 maio 2008

As Amigas

Esta semana, como acontece em muitas outras, sem convites, sem olhar a alternâncias, partindo da iniciativa que a amizade dita e permite, elas vieram.Cada uma, é assim: A primeira,
entra, tira o casaco, larga sobre os sofás da sala o que traz nas mãos e vai dizendo desculpas se chega mais tarde do que o previsto ou contando peripécias da arrumação do carro ou do percurso até cá e,logo a seguir, vai à casa de banho refrescar-se...está em casa ! Irradia energia ,optimismo, companheirismo... A minha casa fica logo cheia mal ela entra.

Diferente, é a que vem tarde, muito tarde, quase hora de jantar, explicando suavemente porque queria não deixar de vir, dizendo que vai estar só uns minutos, sentando-se quase à beira da cadeira e quase sussurrando saudades, lembranças, porque agora vive longe e já não podem ter lugar aquelas intermináveis conversas...Com o passar dos tais minutos, vai-se acomodando, conta, sublinha quase tudo com um sorriso ou mesmo uma risada feliz...Afinal passam horas. Estamos tão em sintonia que não queremos quebrar este circulo de relatos e confidências que, de uma para a outra, se não interrompe mais...Quando sai deixa-me a casa impregnada de solidariedade.

Mal contenho a sensação de plenitude que se expande no meu peito, por tê-las como amigas,tão sólidas, tão dentro da minha vida, tão sabendo de mim tanto! Isto chamo eu de alegria.

Era mais velha do que eu, julgava eu que mesmo bastante mais. Soube agora que não era tanta a diferença quanto parecia. Vieram dizer-me que morrera pouco tempo antes da notícia que me traziam.Serenamente, no meio dos seus arranjos matinais. Era alegre e quando aqui chegava sempre tinha uma forma engraçada de maldizer a minha escada.Sentava-se fundo no sofá, tomava o fôlego que perdera a subir a escada e tratava-me por um diminutivo que ela própria criara, " e a tua vida, como vai?"...Assim começava uma lenta tarde de conversa, porque ela não tinha pressa, nem eu tão pouco. Interessava-a saber fosse o que fosse que a deixasse "avaliar", "perceber" qual era realmente o meu estado físico e espiritual... Não vou aqui falar, não quero, da
falta, do vazio, a seguir ao choque da notícia dada à queima-roupa...Não presença.Ausência.
Experiência já vivida com vários graus de angústia e desamparo, pareceria que podia estar imunizada... Mas não. Não se está nunca, para grau nenhum.

Três amigas.E esta classificação está gasta e não me é suficiente.A tristeza que me deixa a que já partiu, sei bem que as duas outras tão mais novas vão ajudar a dulcificar...

Costumo rezar uma oração que diz " meu Deus, faz do meu lar o teu santuário". E tomo como resposta a este pedido cada vinda inesperada destas pessoas que têm parte comigo como dizia Jesus...

17 maio 2008

Família

Não sei como, não me lembro de, em outros anos, se ter comemorado o Dia da Família. Para mim, o dia da Família foi sempre um dos complementos bonitos do dia de Natal. Mas, entendendo bem o alcance político - social de governos actuais, face ao envelhecimento das populações e entendendo ainda melhor a acção da Igreja face à ignorância propositada de valores que hoje é incutida nas práticas sociais, resolvi fixar-me um pouco sobre tudo isto. E aconteceu que dei comigo a recordar quem? Pois a minha sogra. Francesa de Paris, inteligente e trocista, espirituosa e mordaz, tinha aquele jeito parisiense que era capaz ou de nos cativar ou de nos gelar, com a mesma graça de um sorriso sempre a propósito. Foi ela que um dia me ensinou este provérbio francês que eu não sei se tem um português correspondente:
Les amis on les choisit; la famille on la subit.
E ficaram por aqui as minhas meditações sobre esse tal dia...
Não sobre a família !

11 maio 2008

Pentecostes/ Espírito Santo

· FORTALEZA · CIÊNCIA · PIEDADE · CONSELHO · SABEDORIA · HUMILDADE · ALEGRIA ·
Tivesse eu sido dotada com estes sete dons essenciais, que ser humano não seria !!!

10 maio 2008

Reparo que o meu blog se vem mostrando cada vez mais como um memorial de datas memorializáveis o que o está transformando num ramal para onde se esgueirou a minha ideia- tronco inicial, que seria a de um registar das minhas "circunstâncias"( Gasset ), meditando sobre elas e o que delas advem, sempre que isso me fosse possível.E, corolário indispensável quanto a mim, seduzir leitores que eu queria interlocutores. Quantas vezes tenho lido a afirmação de alguns escritores de ficção de que, estando a escrever um romance, o personagem começa a ganhar vida própria e o primitivo corpus da história entra numa deriva que o autor não procurara !
Pois bem! A superabundância de dias votivos tanto ao amor,como à água, como à fome, como à família, como a todas as doenças( uma de cada vez), ou a todos os padroeiros de qualquer coisa( santos ou não), ou à mulher (mas não ao homem),ou à música, ou `a poesia...Às coisas mais contraditórias, desde que possam ilusoriamente sobrelevar a ideia de uma união global dos sentimentos do Homem sobre qualquer tema escolhido, esta falsíssima aposta numa pseudo-união de vontades celebrativas, acabou por me enrodilhar os meus dias de celebrar realidades ou memórias com os outros, os globais( quando não aconteceu a sorte da coincidência ). Entretanto passaram por mim e eu vivi coisas mais ou menos interessantes, admiráveis, repugnantes, esperançosas, decepcionantes, das quais não ficou no meu blog o mais ligeiro rasto. E, no entanto, todas elas foram deixando marcas nesta cera moldável que é a cave onde repousam as várias castas-reserva especial das memórias da minha vida.
Ninguém espera certamente que uma mulher de mais de oitenta anos tenha actualmente uma dinâmica de vida recheada de actividades em que predomine a motricidade física, mas espero que quem não sabe acredite que a motricidade espiritual, sentimental e até intelectual mais se apura quanto mais se degrada a agilidade do corpo. Pode assim acontecer que, como nos bons velhos vinhos-reserva, as qualidades se sublimem e de repente (?) os nossos olhos passem a ver o que antes não viam, o nosso entendimento se torne mais perspicaz... Por vezes eu chego a ter medo do que estou sendo capaz de compreender agora em situações, pessoas ou coisas que acreditava já conhecer há muito...
Mas afinal seria mesmo daquilo que não está cá que deveria ter sido feito, até agora, este blog?
É, sem dúvida, um caso a repensar. E os prós ? E os contras ?

01 maio 2008

Dia da Espiga

Um ramo de símbolos, uma tradição:a papoila é a alusão a uma saúde vibrante que permitirá receber todos os estímulos, a espiga não poderia ser senão o PÃO nosso de cada dia. o raminho de oliveira é o precioso oiro líquido,talvez relacionado com os sagrados óleos que ungem os homens nos grandes momentos da vida-a entrada e a saída-princípio e fim, o malmequer amarelo, na sua simplicidade, está conotado com o oiro/dinheiro e talvez seja uma mensagem para que compreendamos o seu quanto baste sem ostentações, e por fim uma alusão ao vinho, tido religiosamente como o sangue que nos corre nas veias enquanto garante de vida.
Uma aliança entre a pujança da natureza e os grandes trabalhos do Homem, e assim, uma síntese a lembrar-nos que, pelas coisas simples, manteremos a nossa dignidade de seres humanos.

25 abril 2008

25 de Abril

Sempre com a mesma emoção, a amálgama de recordações. A espaços, uma ou outra lágrima...
Tudo o que escrevi há um ano, tornaria a escrevê-lo hoje. Esta Lisboa que parece gente, às vezes, põs-se bonita de sol, de azul, de luz, para que as pessoas possam "ir para a rua gritar"não de raiva, mas ou de esperanças ou de memórias, o que as torna diferentes do cinzentismo de todos os dias... Vamos reler este blog, no meu post do ano passado?
Por todo o serão deste dia e entrando pela madrugada, a nossa televisão ofereceu-nos um completíssimo rememorar das Canções de ABRIL... "Uma gaivota voava, voava..." "pergunto ao vento que passa, notícias do meu país", "venham mais cinco..." e muitas, desde "Grândola vila morena", um nunca acabar ! E a "Pedra Filosofal" ? Vieram cantá-las todos os seus intérpretes de há trinta e muitos anos, alguns cantautores, todos os que estão vivos e com saúde... Claro que, no remanso do meu solitário serão, cantei com eles, tendo embora esquecido muitos pedaços das letras que quase todas eram poemas de autores consagrados. Foi tão bonito ! O público maciço que fazia regurgitar o Coliseu, cantava também e quase se podia palpar uma nuvem de emoção a pairar por cima de todas aquelas cabeças... Os temas, as toadas e principalmente os cantores ! Comovia-nos a todos, o vê-los assim, naturalmente envelhecidos e a tornarem-nos tão presentes, com o seu fogo, com o seu entusiasmo, aqueles tempos em que todos sonhávamos, podendo ou não dizê-lo, mas vendo os nossos sonhos materializarem-se pelas bocas deles... Emoções, emoções, umas sobre outras , e saudades de tanta, tanta coisa, na hora de encerrar este dia tão "grávido" de esperanças, como os olhos da "Amélia dos olhos doces"...

24 abril 2008

24 de ABRIL


De Miguel Torga :


Falta a luz dos teus olhos na paisagem:
O oiro dos restolhos não fulgura.
Os caminhos tropeçam à procura
Da recta claridade dos teus passos.
Os horizontes, baços,
Muram a tua ausência.
Sem transparência,
O mesmo rio que te reflectiu
Afoga, agora, o teu perfil perdido.
Por te não ver, a vida anoiteceu
À hora em que teria amanhecido...

13 abril 2008

Dia do Bom Pastor


SALMO 22

O Senhor é meu pastor: nada me faltará

O Senhor é meu pastor, nada me falta.
Fez-me descansar nos prados verdejantes,
conduziu-me às fontes mais puras
e lá restaurou as minhas forças.


Ele me guia pelo caminho mais seguro
para glória do seu nome.
Passarei ravinas tenebrosas e não temerei:
Vós estais comigo, o vosso cajado me tranquiliza.

Aos olhos dos meus inimigos
me preparastes a mesa da abundância
e corre sobre a minha cabeça o perfume da unção.
Está repleta a minha taça !

A vossa bondade e misericórdia me acompanham
no caminhar da minha vida.
Habitarei na casa do Senhor
ao longo de todos os meus dias...


Eu sou o Bom Pastor. Conheço as minhas ovelhas e elas conhecem-me.
Escutam a minha voz e seguem-me porque a reconhecem...
Evs. de S. João

06 abril 2008

Recordações versus Mobilidade

Estamos a atravessar uma época da vida do nosso país em que, por causa da implementação de várias reformas promovidas pelo governo em praticamente todas as áreas das nossas actividades cívicas ou sociais, somos levados a estabelecer comparações, a formular processos de aceitação ou de recusa muito pessoais, e a, quase sem darmos por isso, sermos inflamados pelas mais ou menos ruidosas manifestações de rua de que tomamos conhecimento pela comunicação social e que já se vão tornando habituais, visto que de todas as áreas surgem os que queriam outra coisa e não a que lhes é dada.A verdade é que o viver neste nosso país deixou de ser igual àquele a que estávamos habituados. Por muitas e muitas razões que não caberia aqui dissecar.E que dizer então das diferenças que vêm ao encontro das pessoas da minha geração? Nós, aqueles que vivemos a segunda Guerra Mundial, estremecemos com a novidade do poder atómico, conhecemos o fazer e depois o desfazer do Muro de Berlim, e que das guerras desconcertantes já haviamos conhecido a Civil de Espanha e viemos a suportar em nova angústia a Guerra do Ultramar, nós os que ,cansados de quase tudo, nos deslumbrámos com a Revolução dos Cravos e começámos a sonhar com o tal país que sabíamos ser possível, nós os que haviamos trazido para este país novo uma pequena trouxa com os tesouros que achávamos que devíamos guardar (tradições, educação, memórias, crenças, verdades, História, solidariedades...), nós os que, amando todos com amor-verdade a velha Europa, ainda não tinhamos percebido( e creio que ainda não percebemos)como seria difícil acertar o passo com ela,para uma vida em comum, com um dinheiro em comum... ... Sim, somos nós os que nos sentimos agora mais estranhos no meio de estranhos ...
E há dias soube que só mesmo no fim deste ano de 2008 poderá aceder a uma nova consulta alguém que anda a coxear há meio ano porque há meio ano lhe foi diagnosticado um pequeno quisto por detrás de uma rótula, com o aviso de que seria bom que o seu volume não aumentasse para não prejudicar o andar e de que,se isso se desse,deveria ser operado como é óbvio.
Comecei então a recordar aquele tempo em que não havia o hábito de se ir aos hospitais senão quando era recomendado por aquele médico já nosso amigo que nos tratava os sarampos, as "bexigas" e as diarreias e nos auscultava, carregava na barriga e dizia de que estávamos padecendo.E vinha a nossa casa sempre que era preciso.Hoje,ninguém vive sem frequentar um qualquer hospital.As pessoas queixam-se, mas, sem esse ponto de convergência dos sofrimentos, ninguém se sente gente. É também por isso que deixou de se nascer em casa e praticamente também deixou de se morrer em casa. Parece até que a casa não é mais do que um usufruto a que se tem acesso mas não é já um local de raíz, um vínculo a uma terra, a um "clã", a uma qualquer associação de bairro...É um local efémero para onde entramos ao colo de alguém,visto termos nascido na maternidade,e de onde sairemos um dia levados pelos gatos-pingados ou pelos bombeiros ou maqueiros,no caso de nela morrermos ou de sairmos para ir morrer no tal hospital... Pujantes, em pleno gozo de todas as nossas faculdades,tornámo-nos pouco afeiçoados á casa.Também é verdade que as tais reformas governamentais parecem induzir-nos a essa forma de vida, uma vez que predomina pela Europa uma moda que eu reputo de trovadoresca :a da mobilidade.Mas ,consumistas como se espera de nós, vamos enchendo a casa, marcando-a, impregnando-a de coisas que muito falam de nós, de como somos família, de como nos entrecruzamos dentro dela, até que um dia ela regurgita de sombras, de silêncios, de ecos, qual película impressionada por flashes mais ou menos rápidos, projectados sobre as nossas presenças, mesmo fugazes. É assim que eu descubro uma razão para a existência de "casas assombradas"... Quantas vezes nos parece possível termos ouvido a voz de alguém que já partiu?
E vermos a sombra de alguém que já é apenas sombra? E ouvirmos o abrir da porta como só alguém fazia? E cheirarmos um cigarro há muito apagado para sempre?E até o guizinho da coleira do gato que também partiu... Sei que da efemeridade das presenças,resta a perenidade de todas as "marcas".Contra isto não há "mobilidade" que tenha poder.
Nada tem poder contra o charme indelével das nossas recordações !...