02 setembro 2007

É SETEMBRO

Extracto de Enfants de Septembre
de Patrice de la Tour du Pin

....je suis un enfant de Septembre,
moi-même, par le coeur, la fièvre et l'esprit,
et la brûlante volupté de tous mes membres,
et le désir que j'ai de courir dans la nuit
sauvage, ayant quitté l'étouffement des chambres...

Mais les bois étaient recouverts de brumes basses
et le vent commençait à remonter au nord,
abandonnant tous ceux dont les ailes sont lasses,
tous ceux qui sont perdus et tous ceux qui sont morts,
qui vont par d'autres voies en de mêmes espaces...


De Salvatore Quasimodo, traduzido por Ernesto Sampaio

E DE REPENTE É NOITE

Cada um está só, sobre o coração da terra
trespassado por um raio de sol:
e de repente é noite !

28 agosto 2007

DORNES


...E quando eu já vinha toda cheia de lirismo acolchoado em todos os prazeres daquele impres-
sionismo que tem sempre as minhas preferências tanto na pintura, como na música, como nos Cesários pelos quais me apaixonei, acontece o tristíssimo episódio do falecimento do EPC que desviou do meu espírito toda a capacidade de encantamento com que Deus me dotou. E é aqui que entra algo que eu reputo de extraordinário e me é dado, assim, de bandeja, como soe dizer-se, pela net. Sento-me em frente do meu computador, completamente vazia, posso dizê-lo. E, recordando os meus passeios em férias, lembrei-me de que talvez a net me pudesse dar alguma informação histórica e sociológica sobre a vila de DORNES que, para mim fora já uma descoberta noutras férias e agora revisitara com um ainda maior enamoramento. De busca em busca, apresenta-se-me então, nem mais, nem menos do que um BLOG elaborado por apaixonados dornenses reunidos em torno de uma acesa disputa sobre a categoria autárquica da sua lindíssima terra.
E lá estava tudo e ainda mais , daquilo que eu procurava, um pouco por desfastio, naquela ocasião.Não resisti a apropriar-me de uma ou duas belas fotos sabendo como dificilmente obtemos bons angulos numa terra muito recortada como é Dornes.Vou tentar mostrá-las aqui,recomendando, no entanto, o Blog SALVEM A VILA DE DORNES.

25 agosto 2007

De vez em quando somos apanhados numa curva do caminho pacato que iamos percorrendo e desaba sobre nós, amarga, aquela imprevisibilidade, aquela instabilidade que, a toda a força, passamos a vida a querer esquecer ou disfarçar para podermos dar à nossa vida alguma alegria, algum estímulo.´Cristãos e Católicos temos o dever de não esquecer que o Filho do Homem virá na hora em que menos pensardes e que, como às jovens esposas da parábola, nos é recomendado :vigiai pois, porque não sabeis o dia nem a hora ( Evangelho de São Mateus,24 e 25). Somos porém pouco dados a estas meditações, mesmo sabendo-as tão verdadeiras como mais nada neste mundo ! Ora estava eu há uns dias bastante irritada com o que o Eduardo Prado Coelho tinha publicado na altura do centenário de Miguel Torga, apetecendo-me discutir com uma certa ironia as opiniões por ele expostas,e estava ele já tão doente, tão doente, que hoje veio a falecer...A notícia da sua morte caiu no final do meu almoço. como bomba arremessada pelo jornalista da televisão. Conheci os pais do Eduardo,foram meus colegas, assisti ao namoro, depois ao progresso rápido do Jacinto que,mais antigo e já assistente, chegou a dar-me aulas, soube do casamento e depois do nascimento do bébé...Nunca perdi de vista a carreira do Eduardo. Uma vez encontrámo-nos em Sintra, ambos na recepção de um hotel onde iamos estar uns dias.Falámos um pouco de tudo e, nessa altura, ele já estava em Paris e estava casado,claro. Era um rapaz simpático, muito gordo, a resplandecer bem-estar consigo próprio. Era,pelo menos, tão inteligente como os Pais. Viamo-nos por aí,às vezes, em eventos do nosso interesse comum: livros e Letras. Fiquei muito chocada por os meus mais próximos últimos pensamentos para ele serem da natureza que foram. Mas creio na compreensão algures...

24 agosto 2007

Regresso

Como é que, na minha idade , ainda se regressa de férias(mesmo que pequeninas) com tanto entusiasmo renovador para banir alguns hábitos, para encetar outras formas de fazer ou dizer, para começar mesmo qualquer coisa não tentada antes, para largar uma pele, qual crisálida boasinha ou serpente traiçoeira ? Lembro-me perfeitamente de voltar de São Pedro de Moel, no tempo em que férias eram enormes espaços entre anos lectivos, com a cabeça a fervilhar de projectos, com um arrebatamento mal contido para contar como fora e como iria passar a ser tudo aquilo que o estimulante ar do mar e do pinhal me tinha levado a planear...Diga-se , em abono da verdade, que as companhias, a convivência descomprometida, o deixar abrir em leque tudo o que podia dissecar sobre fosse o que fosse , com outros que não eram “os de todos os dias”, me abria as portas todas, por onde a minha jovem curiosidade desejava entrar...E parece-me que é por aí que ainda germina o que, nesta idade, me traz de volta para casa com uma vigorosa sensação de poder renovar, de ser capaz... Isto, para dizer quão feliz me torna a convivência com os meus amigos que me recebem em sua casa, como se não “recebessem”, fazendo-me sentir “de lá”. É que assim se abre um enorme hiato entre o que eu estou cansada de ser e aquilo que, com eles, me parece que sou... E então quero “ser” essa que afinal tem uma casa onde se sente tão bem, que fica só, mas não é mau porque dá para pensar, que se acolhe dentro das suas rotinas como quem retorna ao útero materno...Estranhíssima maneira de tudo mudar, deixando tudo na mesma, não é ? Espantoso efeito destas deliciosas férias ! ! !

14 agosto 2007

Férias

Chegou hoje o dia de abandonar as minhas viciantes rotinas para ir passar uns dias em casa dos meus amigos Teresa e João que fazem questão de oferecer-me ...hospitalidade na sua belíssima casa, plantada entre pinhais, numa vertente que escorre para um dos braços reentrantes em que se desmultiplica a enorme albufeira do Castelo de Bode.É uma paisagem de paz que contagia todos os habitantes da casa onde parece que é proibido inquietarmo-nos uns aos outros...Quem quer e pode, além de dormir,"retoiça" na piscina, estira-se na relva ou faz umas incursões exploratórias até à água da barragem. Sem falar no enorme prazer das longuíssimas conversas, moles, sem pressas, que podem ocorrer a qualquer momento do dia ou da noite, acontecidas a talhe de foice do que diz qualquer dos amigos presentes...Férias mesmo !E lá vou eu...

13 agosto 2007

Baptizado

Não posso, não quero, passar por cima do registo daquilo que foi a coisa mais enternecedora, mais engraçada, e, ao mesmo tempo, mais cansativa de tudo o que podia ter-me acontecido neste mês de Agosto. No dia 11, data marcada com antecedência de meses, foi a baptizar na igreja da minha paróquia do Campo Grande a primeira neta da minha empregada Valentina. Este baptizado foi projectado e programado até ao mais insignificante pormenor pelos pais da criança, emigrados no Luxemburgo, e por toda a família de cá, da parte do pai e da mãe da baptizada; e o espírito da festa foi alastrando como uma onda espraiada por toda uma família em diáspora por essa Europa fora...Claro que,para a "minha" Valentina, era impensável que eu não tomasse parte naquela que foi certamente a festa da vida dela. E eu não tinha olhos , nem sorrisos, nem emoção que bastassem para me maravilhar, naquele dia, com o que pode ser o verdadeiro amor de família, o espírito de comunidade de famílias de sete e onze filhos, todos dispersos, a acorrerem a um toque a reunir emanado de um país distante, porque um deles está feliz e quer que todos partilhem da sua felicidade!A cerimónia na igreja foi seguida com todo o respeito e cumpriram-se todos os actos tradicionais que acompanham a chegada de mais um cristão à casa do PAI.Quando, porém o senhor padre António sugeriu que se festejasse com um bonito coral de "parabéns" e muitas palmas esta chegada da ALÍCIA a mais esta enorme família cristã, foi uma explosão de alegria geral que só deixava prever como a alegria iria reinar daí para a frente. E foi. Nem quero falar na festa-banquete. Tudo o que é especialidade caboverdeana,tudo o que nos vários países onde vivem uns e outros foram aprendendo. tudo o que de Portugal já entrou nas tradições daquele povo, nada faltou.Foi uma orgia gastronómica! Num espaço amplo,cercado de jardins, cerca de trezentos parentes estiveram comendo e bebendo longamente,alegremente, e não vi um único deslize, algum abuso de bebida,alguma perda de compostura. Precisavam certamente de expandir as emoções dos encontros ? Pois foi assim que se entrou na dança e daí para a frente foi soberbo! Só quem já viu o povo caboverdeano dançar as suas próprias músicas,sabe da beleza de um tal espectáculo.A música parece que encarna naqueles corpos elegantíssimos de raparigas e rapazes e há uma mistura de movimentos e sons envolvente, inebriante... A vê-los, acabei por ficar tão cansada como se estivesse no centro daquela espécie de vórtice.Foram emoções a mais para quem, como eu, tem uma rotina serena e quase sem novidades. Mas um dia inesquecível com imensas lições que não podia supor ir ali receber.Estou mais uma vez grata à "minha" Valentina !

12 agosto 2007

Miguel Torga__100 anos

A minha ligação familiar com Joaquim Guilherme Gomes Coelho(Júlio Dinis) nunca me fez experimentar uma proximidade tão afectiva como a que sempre me prendeu a Miguel Torga a quem apenas me ligaram umas dúzias de palavras escritas e trocadas numa sempre cerimoniosa cordialidade.Foi ele quem indicou a meu PAI,numa conversa de amigos comuns dos dois, em COIMBRA, uma editora que ele acreditava que aceitaria de bom grado publicar a minha primeira meia dúzia de sonetos que eu ensopara da influência de Florbela e achava bons para mostrar.Foi ele quem, uma vez publicados os tais sonetos, teve a paciência de me escrever umas palavras de estímulo e alguns conselhos sobre as vicissitudes a que fica sujeito quem alguma vez decide editar. Tantos anos passados,tenho verificado que,nos compêndios dos meus alunos, Torga é sempre atirado para um muito recôndito plano, como se não valesse muito a pena sequer lê-lo, quanto mais estudá-lo. E qual não é o meu espanto quando há dias leio um artiguinho de Eduardo Prado C oelho no qual, aliviando a consciência a dizer bonitas coisas sobre o cidadão irrepreensível,corajoso , intransigente, e digno,se permite dizer que"por motivos que não serão fáceis de explicar, a obra poética de Torga nada tem a ver com a poesia que hoje se escreve em Portugal". .Diz mais "os seus versos deixam-me quase sempre num estado de indiferemça e nunca me dão o prazer da leitura..."Como assinante do Jornal de Letras, fiquei feliz ao verificar que este jornal dedicou a Torga e ao seu centenário quase todo o número de 1 de Agosto,mas Prado Coelho,sob a diplomática capa de achar isto justo em termos de história literária, não resiste a dizer que"num contexto intelectual não muito estimulante, o aparecimento das obras de Torga e até de Régio foram uma novidade tão retumbante que .em termos só de história literária ,valia a pena o relevo dado pelo Jornal de Letras.E pronto ! Fiquei então agora mesmo a saber que a intelectualidade estimulada não gosta de Torga e o considera um poeta( ? ) de 2ª que ficou a dever alguma notoriedade principalmente à época política em que apareceu tão corajoso e digno a dizer algumas coisas que mais ninguém dizia. Bem, isto daria para armarmos uma interessante polémica, se , em vez do filho se tratasse do pai Prado Coelho de quem fui aluna e que recordo com respeito. Por agora quero apenas afirmar com toda a força que amo oTorga a ponto de ter a ousadia de sonhar seguir o seu modelo. Realmente a poesia que hoje se faz em Portugal,marca uma época nova, mas não vamos desgostar-nos de Camões só porque tivemos a graça de encontrar Sophia... E, do tempo dos sonetos, quero mesmo deixar aqui o que se segue:
A MIGUEL TORGA

Homem inteiro és.Na tua fé
a mesma seiva pura que há na terra.
Quando, junto de ti, a Vida erra,
sofres por ela ser tal como é.

Sofres.Descrês.E blasfemas até.
É o não poderes nada que te aterra.
Mas na crença no Mundo que te encerra
é que tu, naufragado, encontras pé.

Irmão de homens e plantas e animais,
podes ,nos teus penhascos ver ainda
promessas novas de que esperas mais...

E todas as verdades principais
hão-de vir-te ao caminho.E a sua vinda
é que te abre os caminhos por onde vais.

08 agosto 2007

Uma data,uma memória

Dos amigos que fomos perdendo ficaram-nos sempre alguns instantes,quase sempre fugazes, que temos a sensação de ter roubado da esteira das suas vidas e que adquiriram para nós o valor de um pequeno tesouro que, de maneira quase avarenta, vamos revisitando, recontando, para nos certificarmos de que não nos estará faltando alguma peça. Na bolsa das recordações, a morte é sempre uma mais valia ! Como me surpreendo hoje a compreender tão bem e até a corroborar opinões, conceitos e exigências daqueles que, em sua vida, julguei com dureza( ás vezes com raiva) e até combati !... Saudade,gosto amargo de infelizes... como diz o poeta.Não há datas marcadas na nossa forma de ser amigo, ou filho ,ou viuvo, mas as datas,recorrentes, quando vêm ao nosso encontro, põem-nos esse tal gosto amargo,não na boca, mas na alma. É por isso que´são bons os tais instantes roubados, flashes que dão uma luminosidade única à nossa mais tímida recordação...

04 agosto 2007

Crepúsculo

Afinal há mais abordagens e outras juventudes...E eu nunca deixo de ter novas coisas a aprender!...




1-Do poeta grego AGELLOS SIKELLIANÓS



E eu tinha os olhos cheios
mas tão cheios de luz,
que,se fechasse as pálpebras,
ela jorraria como pranto,
como pranto- abrindo-se
em flores orvalhadas.
A luz cavava sulcos
em meu cérebro,aligeirando-o
como à árvore o vento
que lhe atira os frutos
ao chão,e aí,
libertas,as folhas
frondejam nas alturas
com um novo frémito.
A luz cavava sulcos
em meu cérebro e corria-me
pelas veias,lenta,calma...

2-DO POETA JAPONÊS FUJIWARA TEIKA

Por cobertura,
quando o vento do outono entardece
na noite que espera,
a dama da Ponte da Saudade
estende o luar...



Tradutores: 1-José Paulo Paes
2-Stephen Reckert

29 julho 2007

Reflexões sobre as leituras da liturgia de hoje

Os três textos encerram lições que sempre têm “mexido” comigo de uma maneira muito peculiar, cada um por uma razão distinta. O problema da justiça nas repreensões ou mesmo punições a dar àqueles que prevaricam, podendo essa punição vir a projectar-se no todo de que o prevaricador é parte, é de facto um grande embaraço para quem se vê na contingência de ter que castigar. Na verdade, assalta-me a grande dúvida sobre apenas um conceito: a Justiça. A preocupação de Abraão quando se atreve a insistir, e insistir, e insistir, junto de Deus, sobre as hipóteses possíveis nas cidades do pecado, não é outra senão a preocupação sobre a justiça, mesmo sendo Deus a entender aplicá-la. E afinal o que aprendemos nós com a atitude de Deus? Que o que prevalece são os critérios de misericórdia e de perdão, visionando nós, como pano de fundo, os méritos da solidariedade. A possibilidade da nova oportunidade não é sequer aflorada neste episódio do Génesis mas Jesus permite-a mais tarde . “ Vai e não voltes a pecar”, além de ser uma enorme caridade é uma extraordinária prova de confiança que eu creio que ninguém teria jamais coragem de trair...E é dentro desse espírito de perdão e confiança que São Paulo vem depois dizer que nós somos todos já” ressuscitados”, considerando metaforicamente que os nossos pecados, pelos quais Jesus se deixou morrer, eram a nossa morte, antes de tão espantosa purificação. Aprendemos pois a contar com todas as benevolências divinas de tal modo que perdemos todo o pudor face ao nosso Deus e quase deixámos de saber falar-lhe porque em permanência e quase exclusivamente temos coisas a “PEDIR”.São Lucas reporta que JESUS terá estimulado os discípulos a pedir “Pedi e dar-se-vos-á” mas antes ensinou-lhes como e O que pedir, Aqui nasce a nossa oração de acesso ao Pai que nós já banalizámos tanto que quase já nos sai mais dos lábios do que do coração. Pensar, de vez em quando, em cada uma das frases do PAI-NOSSO é pois necessário ...e urgente. Porque seremos ouvidos; mas irá junta alguma parcela também do nosso Amor...

25 julho 2007

Fátima 3

Não foi nenhuma peregrinação de data, comemoração ou comunidade instituidas. Fui ontem a Fátima, primeiro porque sentia saudades de respirar o que lá se respira, depois porque me pareceu particularmente apropriado levar lá, convidadas por mim, umas pessoas especiais. Individualizando :uma amiga que me cumula de "miminhos" quase diários, formatados em bolos, bolinhos e doces e cuja viuvez recente ainda não lhe ensinou tanto quanto a minha; uma jovem mãe com a sua filha de onze anos, residentes no Rio de Janeiro há muitos anos, mas de nacionalidade portuguesa, e agora de visita à família e seus amigos, em clima de matar saudades , a mais velha, e de afivelar laços a este país tão seu quanto desconhecido, a mais nova.Para melhor dizer, esta nasceu mesmo no Rio e, tendo mantido a nacionalidade portuguesa, só agora começa a aperceber-se do que é ter uma pátria do outro lado do mar e tem curiosidades inerentes a essa realidade.Sou( o que se pode dizer com propriedade) uma velha amiga desta família, amizade que nasceu nas aulas que dei à sua terceira geração, contando desta brasileirinha para trás. Por isso, sei o quanto e o como da irreliogiosidade dos que viveram sempre aqui e maravilho-me perante a Graça de Deus que fez cristãs, crentes e praticantes, as que espiritualmente se fizeram pessoas no Brasil. E porque esta diferença existe, nunca haveria alguém da família que pensasse em avivar ou revelar locais, usos e tradições religiosos tão nossos, a estas duas portuguesinhas em visita que, por ser curta, já tinha uma programação repleta de lindas coisas,preparadas com muito amor mas onde ninguém se lembra de que a Fé é também cordão umbilical. E lá fomos nós a Fátima. O dia esteve glorioso, sem frio nem calor,sem vento e duma limpidez transparente como eu só conheço naquelas serras. Por isso mesmo, pudemos ir visitar o Calvário dos Hungaros que é o meu local preferido, fora do Santuário. Será escusado pormenorizar todo aquele dia de isto é porque... ali diz-se que...imagina que...aqui costuma ser...Percebi um enorme impacto provocado pelo conjunto de factos presenciados com o ambiente, a luz, o reboar dos sinos, a atitude das pessoas também em visita...Algo de novo surgiu aos olhos da menina e gravou naquele coraçãozinho o que a levou a dizer-me em certo momento:"Estou tão feliz !"com aquele adocicado do falar brasileiro.Nunca esteve nos meus planos fazer qualquer espécie de proselitismo de trazer por casa mas quem ficou muito feliz fui mesmo eu, porque, ao regressarmos a Lisboa, todas traziam no rosto um brilho feliz que é mais eloquente do que muitas palavras. Até a minha amiga mais velha vinha descontraída e leve. Como eu !... E para o Brasil vão voar, daqui a dias, uma, duas ou três dezenas de fotografias que mãe e filha tiraram para mostrar ao pai que não veio e não viu, ele sim brasileiro, católico, praticante, na Fé que é também Amor...

21 julho 2007

Rosalia de Castro







Que es soledad ?
Para llenar el mundo
basta a veces un solo pensamiento...

10 julho 2007

LISBOA

Lisboa à beira da barra,
Lisboa à beira de mim,
Meu rio, barco e amarra,
Ida e volta, meu sem-fim...

Minha Lisboa ! Nunca assim falei da cidade que é minha mesmo, como é convencional dizer.se da terra onde se nasceu. A minha terra é Leiria.Esta é uma realidade que endossei mas que não sinto correr.me nas veias. Pelo afecto essencial, pela aderência física, pela génese das memórias, pela imanência espiritual, pelas cumplicidades culturais, eu tenho aquela terra que me tem, plena e despreconceituosamente, e essa terra é Lisboa. Nela fui menina e mulher, nela amei, nela sofri, com ela aprendi códigos e tradições, Nela FUI.Nela ESTOU SENDO. E estou tentando acompanhá-la nas vicissitudes do seu desenvolvimento, ou, melhor dizendo, do seu crescimento. Porque Lisboa mais tem crescido,em comprimento, largura e altura, não sendo bem a isto que se chama desenvolvimento. Passando por muitas mãos executoras das ideias, opiniões, credos políticos, ou mesmo convicções de muitas cabeças pensantes, Lisboa arruinou-se, remendou-se, engalanou-se, endividou-se e continua linda a seduzir-nos com as suas claridades e os seus lusco-fuscos, com os seus altos e baixos, praças largas ou recantos esconsos, modernices ou antiguidades... Suponho que é por estas razões todas que se encarniçam os políticos quando,democraticamente, vai a votos a governação desta linda cidade-mulher( como diz aquele fado ) . Desta vez há nada menos do que doze candidatos pretendendo governá-la, cada qual acreditando que conhece o segredo de a tornar melhor, mais europeia, mais rica...diferente. Estive a ouvi-los e ficou.me um travo na garganta, uma inquietação mal definida... Que Lisboa, senhores, que LISBOA será essa, senhores, que nos querem dar, a nós que amamos esta tanto ?...

08 julho 2007

7-07-2007

É curioso como nós sentimos que, quanto mais vamos avançando na idade, menos os outros nos vão conhecendo, mas também menos nós vamos tendo necessidade de nos darmos a conhecer.
Confesso que é até um certo prazerzinho perverso o apercebermo-nos de quanto se estão a enganar a nosso respeito ao atribuirem-nos gostos, qualidades, defeitos, manias, que já poderão ter-nos qualificado alguma vez, numa vida que ficou para trás, mas que, no momento actual, tiveram a sua deriva natural e são já outros... É que se vai perdendo tanta coisa com o andar da vida, que é com uma espécie de avareza que nos resguardamos e guardamos só para nós este tesouro de, afinal, não sermos bem aquilo que eles pensam saber de nós...
Tudo isto me ocorreu agora, justamente pela contrária! Houve quem se lembrasse do meu fascínio pelos veleiros que é de sempre e, este, perdura. Levaram-me pois a vê-los, agora que se está a realizar o Campeonato do Mundo dos barcos que irão depois às Olimpíadas. Naquele mais mar que rio e ainda rio a encontrar o mar, de Cascais para o Guincho, é deslumbrante a presença das velas, a sua leveza e a sua capacidade de tornear os ventos, uns ventos ferozes, desabridos que podem ser desafio mas que também lhes podem ser indispensáveis... Todo este encantamento puramente estético da minha parte tem que ver com uma nunca satisfeia ambição de espaço aberto, de liberdade que não significa isso de que se fala e que eu creio que só quem anda no mar é que conhece.
E porque o vento era um excesso, e porque tivemos que estar sempre dentro e por detrás de vidros embaciados de sal, regressámos a outros confortos.
Tinhamos todos na cabeça a data de 7-7-2007. Uma incessante campanha produziu os seus efeitos e ninguém podia deixar de estar curioso pelo resultado de duas auscultações, uma só aos portugueses, outra a todos, de todo o Mundo, para que, sob um colossal consenso, o Mundo e o nosso país passassem a ter os seus Colossos de Rodes ou os seus Jardins suspensos de Babilónia... Uma estação de televisão fez a festa estrondosa e conheceu-se resultados no meio de muita música, muita luz, muita cor... Por acaso(seria?) uma outra estação de televisão fazia-se eco das enormes preocupações ambientais que, ameaçadoras, nos aconselham comedimento e engenho para poupar. POUPAR tudo, senão... Assim, encantada com o que me pareceu um bom prenúncio de possibilidades de entendimentos mundiais, desde que o que suscita esse entendimento seja reconhecidamente uma mais-valia para a Humanidade, não consegui contudo libertar-me da angústia de compreender que o ESPAÇO de cada um de nós está, minuto a minuto, a ficar mais restrito, sem que muitos de nós nos apercebamos disso...

30 junho 2007

Concerto nos Claustros


Uma noite de lua redonda e céu brilhante,um ventinho rasante a cheirar a mares largos e o intermitente revoar de gaivotas piando,tão perto de nós era o rio,já quase mar!... E subia na noite a estridência metálica de Gershwin e Stravinsky a enrolar-se na renda de pedra dos claustros iluminados a luz e contra-luz em tons de águas-marinhas ou esmeraldas...E quando se desdobrou o coral de vozes múltiplas,frescas,plenas,vibrantes ou simplesmente murmurantes,a complementar frases da orquestra, levando a emoção ao climax imprevisto, foram realmente momentos de puro encantamento ! Faz precisamente um ano, ouviramos ,na Sé, um lindíssimo concerto dos alunos que finalizavam o ano lectivo da Escola de Música do Conservatório Nacional e foi já um enorme prazer sensorial. Este ano, nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos,todo o enquadramento sublimou ainda mais o inefável prazer de nos deixarmos "embeber" pelas maravilhosas interpretações e pelo interesse na coerência das peças escolhidas. Mais uma vez fico devendo todo este prazer à minha aluna Margarida que , de uma maneira muito inteligente ,está tendo uma excelente formação artística.

26 junho 2007

EXERCÍCIO DE GEOMETRIA

Está perdido por aí
Roto e cansado
O amor confiado
Que eu tinha a toda a gente
E queria ter
Só por acreditar
Num Homem linear
De que eram para crer
As formas que podíamos olhar.

Com o andar da Vida descobri
O poliedro multifacetado
Que pode ser o Homem quando olhado
Através de outros prismas diferentes
E o meu amor passou a refractar-se,
Procurando sofismas
Para dar-se...

O que porém tudo mais complicou
Foi entender, mais tarde,
Que, das três dimensões,
Grande disparidade
Havia entre o volume e a profundidade,
Entre o perímetro e a real estatura
E entre a área ocupada e a sua projecção...

Aí, meu coração peric litou.
Porque, em perplexidade,
Não sabia
Se escolhia o melhor
Quando optava
Por aquela dimensão
Que algo mais lhe dizia...
E o Amor que é cego, como se sabia,
Nas buscas e ajustes se rasgava
Ganhando ele também novas medidas,
Outras designações mais condizentes
Co’a refractada luz das ilusões perdidas
E a forma poliédrica das gentes...

24 junho 2007

Da AMIZADE( nº 2 )


Tenho ouvido muitas vezes a referência à maior ou menor capacidade de fazer amigos e até já encontrei este item em fichas de avaliação de desempenho de certos funcionários mas nunca me identifiquei com a pesquisa deste tipo de informação porque não consigo compreender a correlação de fazer com amigos ou amizade. FAZER pressupõe construir, fabricar, edificar, manufacturar e por aí fora.Também pressupõe um plano, um projecto, e não se compadece com improvisação se não enveredar pelo método das tentativas, das étapas ou das fases. Ora não é com nenhuma espécie de planificação que a minha amizade por alguém existe. Ela nasce como consequência de muitas consequências e depois desabrocha lentamente como aquelas corolas que são fotografadas por um processo especial que as acompanha no desdobrar de cada pétala muito suavemente, muito lentamente, até que a flor aparece em todo o seu esplendor...E depois vai-se cultivando, acarinhando...e é-se AMIGO, sem que tenha sido preciso fabricar nada.
Mas, porque se é amigo, é que sempre temos que fazer muitas e muitas coisas com graus de dificuldade variáveis, sempre com graus de exigência elevados.
E porque creio neste brotar da amizade, sem pretender grandes explorações metafísicas, sei que
ela é geneticamente ( ! ! !) um dom da minha alma, das nossas almas...
Já não digo um dom que Deus me deu...Mas não é que, em dia de SÃO JOÃO ( joão= dom de Deus), acabou de se abrir toda uma corola que, aos poucos andava a desdobrar as suas múltiplas pétalas ?

20 junho 2007

Exames e Férias

Saramago,Camões,Stau Monteiro,Pessoa,Gil Vicente e um cortejo de recomendações, uma inquietação de dúvidas,um sobressalto de diz-se,diz-se,amontoaram-se todos neste último fim de semana ,constituindo uma montanha que aqueles a quem eu vou chamando os meus meninos,durante mais ou menos oito meses,queriam escalar afanosamente em algumas horas.Porque o exame estava aí,porque a sua juventude só então lhes permitiu compreender a seriedade da situação,porque só então se deixaram convencer pela realidade de que um exame é sempre uma étapa nas nossas vidas( e uma étapa que permite crescer,se for vencida) . Por tudo isto e por amor a eles foi a minha tarefa mais a de tranquilizá-los do que de a de entrar com eles naquela lufa-lufa de "não sei se me lembro ", " e se fossemos ver...", "aquilo que o professor disse naquela aula...". Foram mesmo uns dias de merecermos todos alguma boa recompensa. E afinal todos saíram contentes das provas. Este ano lectivo que começara com toda aquela turbulência da célebre TLEBS, acabou por trazer umas provas acessíveis para todos, sendo que até a comunicação social se fez eco das vozes de alguns professores que acharam que a prova do 12º ano era demasiado fácil. Quanto a mim, esta facilidade é ainda uma consequência da tal turbulência do início...É bem certo que VIVER é sempre fazer política !
Mas,agora, de repente, sou eu que realizo que entrei em férias... Quem me conhece sabe que não é uma das coisas de que mais gosto...

13 junho 2007

Santo ANTÓNIO

Aqueles santos e santas cujos historiais nos são presentes e onde tão edificantes exemplos poderiamos recolher para procurar imitar, sempre representaram para mim qualquer coisa de profundamente misterioso por me ser impossível imaginar em alguém, alguma vez, um estado de perfeita pureza. Mas, admirando-os e considerando-os sem nenhuma espécie de reserva, fico sempre aquém e por fora, mais espectadora do que discípula, tomando-os como referência em tantas circunstâncias da minha vida, embora incapaz de me ver na pele deles a tomar as iniciativas que eles tomaram de despojamento, de humildade, de coragem, de abnegação... E tem-me sido dito por quem sabe que nenhum santo decidiu que o iria ser e que, de nós, entre nós, podemos alguns estar já a percorrer o caminho da santidade porque a génese dessas vrtudes radica tão somente na nossa real capacidade de amar o outro e que só nessa especialíssima forma de amar pode estar a origem de todas as virtudes que algum dia poderão ser reconhecidas.
Seja-me pois permitido confessar que me sinto especialmente enternecida perante este SANTO ANTÓNIO que Lisboa festeja com uma exuberância perfeitamente pagã,pensando nele como um rapazinho da Lisboa do século XII que, esquecido de si, fugindo ao fácil, ao confortável, ao bom para si , amou sem medida, aproximando-se dos simples, sem nunca se furtar ao cumprimento das exigências mais duras. Foi certamente por tudo isso que ele foiadoptado pelo povo que o foi sentindo sempre mais um dos seus , aqui em Portugal ou em Itália, para lhe valer em situações difíceis, fossem elas males de amor ou perdas de qualquer espécie... Até o rei D. João V mandou erigir em sua honra o espantoso Convento de Mafra, porque a ele recorrera, pedindo um filho que tardava em vir ! E não é que o alistaram no exército agradecendo a sua intercessão nas vitórias alcançadas aquando da Restauração da Independência, sendo-lhe até atribuido salário e progresso na carreira militar , o que o levou até ao posto de tenente-coronel, por ordem de mais do que um dos nossos reis ?!
E é a esse inefável místico de cujo quarto irradiou uma noite, já perto da sua morte, uma luminosidade deslumbrante( dito por quem espreitou e viu) porque ele tinha nos braços , vivo, o pequenino Menino Jesus, é a ele que o povo reza o RESPONSO quando perde e quer achar um objecto qualquer e escreve quadras brejeiras por causa dos namorados, e ergue tronos de papelão com manjericos...Quão misteriosa, a santidade ! Se até os peixes alinharam à beirinha da praia para ouvir da sua boca aquilo que os homens não queriam ouvir, como será possível não amá-lo de uma forma diferente e não dizê-lo bem alto, cantando ou mesmo dançando, se nos ultrapassa o mistério que tudo isto encerra ?...

10 junho 2007

Camões e Eu

Eis aqui, quase cume da cabeça
de Europa toda, o Reino Lusitano,
onde a terra se acaba e o mar começa
e onde Febo repousa no Oceano.

ESTA É A DITOSA PÁTRIA MINHA AMADA
à qual, se o Céu me dá que eu, sem perigo,
torne, com esta empresa já acabada,
acabe-se esta luz ali comigo.

06 junho 2007

CRIANÇAS


Creio que já afirmei com muita clareza o quanto aborreço esta cércea que se tornou sintoma de globalidade e que dá pelo nome de "o dia de ". Sem podermos ígnorá-lo, porque a poderosa máquina comercial agita a comunicação social nesse sentido, aí somos nós arrastados na onda das comemorações maiores ou menores, conforme o grau de intensidade desse tsu-nami... Chego a pensar que já ninguém prescinde desses lembretes porque dá outro sossego não ter que carregar com mais aquela preocupação :" não me posso esquecer do dia da Mãe", p. e. . E porque lá passou mais um Dia da Criança que agora, segundo creio, também acumula com mais uma ou duas dedicatórias (Já não vão chegando os dias para serem de dedicação exclusiva!), aconteceu que me afundei em comiseração por aquelas mães que agora, agora mesmo, estão a sofrer daquela espécie de amputação que é volatilizar-se-lhes, como por magia ,aquele filho que elas tinham ali agora mesmo, aquele filho que elas nem sequer puderam ver morrer, se é que morreu( será? )... E multiplicaram- se de repente casos com crianças, todos dolorosíssimos, e reavivaram-se casos de mistérios tão antigos, nunca esclarecidos, e subitamente o Mundo apareceu cheio de crianças que ...Era mesmo oportuno celebrar este tal dia? Em nome de quê ? Da esperança? Ou da desesperança ? Da dor dos pais ou do sofrimento das crianças? Porque , nunca tendo tido a Graça de ser mãe, dei em passar muito tempo a observar, a escalpelizar os procedimentos dos filhos dos outros, daqueles pequenos seres que eu achava mesmo intrigantes, misteriosos até.Percebi que, desde que nascem, as crianças vão adquirindo "humanidade"( não descobri uma palavra melhor), por aquisição de hábitos. Tal como se habituam às horas das mamadas ou das papas, habituam-se a um horário de dormidas ou dos banhinhos e também se habituam às caras, às vozes, aos braços que as envolvem, aos beijos e carinhos dos que lhes são próximos. E nós, adultos, achamos que esse habituar-se é já afecto. Mas quando será que realmente nascem os afectos ? Os afectos puros, aqueles que não advêm do físico, que não podem relacionar-se com qualquer tipo de proveito, poderão acontecer ainda antes daquelas idades em que choram, no silêncio dos seus quartinhos, quando sonham ou imaginam que se separam do Pai ou da Mãe ? O mundo infantil, da pureza sempre ingénua, afectiva, límpida e generosa é pura ficção dos adultos. A única diferença entre, por exemplo, os ressentimentos e aversões infantis e os dos adultos reside no facto de, nas crianças, tudo ser deveras pouco duradouro. No entanto, se solicitadas por causas idênticas, sempre podem repetir-se com igual ou superior intensidade e requinte as suas manifestações negativas. Parece-me que a criança não odeia, não tem capacidade de elaborar uma pulsão de ódio, mas é capaz de persistir numa qualquer rejeição com violenta persistência. E é também capaz de criar e utilizar métodos para imposição da sua vontade, perfeitamente por si mesma catalogados, desde cenas de gritos e lágrimas escandalosas, em público, às manifestações de histeria com repercussões desastrosas para todos os envolvidos. Embora as suas reacções sejam espontâneas, do seu íntimo podem brotar manifestações de um ego interesseiro e calculista que ela sabe manejar com uma mestria insuspeitável . Exibe uns ademanes naturais, uns olhares oblíquos ou velados, uns sorrisos aliciadores, em espantosos joguinhos de sedução que a nós, adultos, ou divertem ou enternecem, levando-nos a pensar mas quem lhe ensinaria isto? Também nos "a propósito" de certas conversas embora saibamos que são puramente imitativos, denunciam as crianças uma espantosa capacidade de associação, muito mais precoce do que nós imaginamos. E , ao vê-las actuar nos primeiríssimos tempos das suas relações em sociedade, damos connosco a pensar como ela é esperta e inteligente! E entramos gostosamente nos seus esquemas carregados de charme mas, misteriosamente, quão cheios já de duplas intenções ! É claro que, pela vida fora, tudo se vai aprimorando pela educação, pelos exemplos próximos , sendo que aquele ronronar que sabem fazer, como os gatinhos satisfeitos, se vai transformando em palavras, e se vai moldando até pelo habitat.
Cabe aos adultos estar atentos, ser hábeis junto das crianças, nunca se permitindo certo tipo de manipulações que as adulterariam e, de genuinas que são, passariam a ser apenas crueis arremedos de gente grande.
Por isto tudo, nesta efeméride deste ano, com os acontecimentos que nos têm horrorizado, eu não poderia deixar de partilhar a amargura sem remédio das pobres mães, mas dos meus pensamentos não consigo afastar a perspectiva de sofrimentos de tantas crianças, por me parecer que sei adivinhar nelas mais essa misteriosa capacidade de sofrer, na sua forma tão peculiar, sendo infantil... Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor ?

04 junho 2007

De Eugénio de Andrade

Apenas um rumor

E no teu rosto aberto sobre o mar
Cada palavra era apenas o rumor
De um bando de gaivotas a passar...


Despedida

Colhe
Todo o oiro do dia
Na haste mais alta
Da melancolia...


Sobre a casa

Não há senão a casa viva do olhar
À beira do crepúsculo.
Não há senão
A vereda quase triste das palavras..


Palavras

Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
De um azul tão apaziguado?

E das consoantes, que lhes dirás,
Ardendo entre o fulgor
Das laranjas e o sol dos cavalos?

Que lhes dirás, quando
Te perguntarem pelas minúsculas
Sementes que te confiaram?

02 junho 2007

Seriam sessenta anos

Há sessenta anos contados hora a hora, era também, como hoje, uma bela manhã de sol. Em casa, todos nos levantámos cedo
A nossa casa, Avenidas Novas, fins dos anos trinta, era grande,com quartos e salas espaçosos acompanhados pelo longo corredor,cozinha ao fundo, casa de jantar à direita, guarda- vento
de vidro craquelé com batentes de mola a resguardar a zona da entrada e das salas"de receber".
Mas existia apenas uma única casa de banho. Havia quarto de "criadas" mas não era hábito fazer-se mais do que uma casa de banho...
Dizia eu que, naquele dia ,todos em casa começámos a movimentarmo-nos cedo, segundo um horário fixado no sentido de a casa de banho ficar absolutamente livre a partir das onze horas.
E porquê? Porque era essa a hora em que alguém viria armar sobre os meus fartos cabelos o
vaporoso e simbólico véu de noiva cingido pelo seu diadema de flores e botões de laranjeira...
Sim ! Era o dia do meu casamento !
Um pouco antes das onze horas, já vestira a saia do meu lindíssimo vestido, composto de duas peças em seda moirée,quase branca, quase pérola. A saia, direita à frente, abria atrás,sobre a cintura, aquilo que, em linguagem de costura, se chama um "macho"e que depois ia abrindo em
múltiplas pregas que davam roda à saia e formavam,por fim, a cauda.Sobre isto, havia o casaquinho, muito justo,todo ele abotoado,até ao remate do pescoço, desde a cintura, por dezenas de pequeníssimos botões, tal como as mangas, com botõesinhos desde a mão até ao cotovelo.Foi um trabalhão para abotoar tanto botão, mas era uma coisa muito vieux-style que
eu adorava,tal como o enorme laço que ,na aba do casaquinho,atrás, dava a ideia de que as pregas que iam formar a cauda se despenhavam dali, como se de uma cascata se tratasse...
Mas ,a estas horas, já a casa começara a encher-se de amigos e pessoas de família, uns que nos acompanhariam à Igreja, outros que vinham só para ver "a menina",tais como todas as vendedeiras "freguesas"( naquele tempo iam vender-nos tudo a casa, desde o peixe à fruta), as criadas já reformadas e as empregaditas das lojinhas próximas. Havia entretanto um crescendo de enormes arranjos de flores,por todos os cantos.Como era moda da época,fazia-se a exposição dos presentes recebidos: eram as "corbeilles".Para isso se destinava uma das salas devidamente decorada e fora preciso estudar e criar espaços de circulação tal como também na sala de jantar,porque os chamados "copos de água"nessa época, eram servidos e feitos em casa.Essa também uma razão para a mistura de cheiros e perfumes que se esgueirava por todos os cantos da casa, juntamente com pessoas em corridinhas que abriam e fechavam portas...
Estava programado que eu sairia para a Igreja ao meio dia e quarenta e cinco e,ao meio dia certo, chegou o meu ramo de noiva, um bouquet de açucenas fresquíssimas que pareciam acabadas de colher. A minha Mãe apareceu deslumbrante num vestido preto,longo e muito drapeado, e com uma capeline preta guarnecida de plumas de vários tons de verde-água,muito esvoaçantes. E lá veio o meu Pai, lindo na sua farda de gala,com espada e tudo...
Como não se sabia sequer que um dia viria a existir uma coisa chamada telemóvel, não houve comunicações nervosas entre famílias de noiva e noivo .Tudo havia sido combinado, programado e rigorosamente cumprido.Alguém me disse a certa altura que o CARLOS ´já chegara à Igreja. .As nossas casas,de ambos, eram a meia dúzia de metros da Igreja de Nossa Senhora de Fátima.
Cheguei e,ao sair do carro, apercebi-me de que fazia um vento desalmado;segurei o toucado com a mão disponível, porque a outra ia agarrada ao braço do meu Pai.E, frente às escadas que tinham sido cobertas por uma passadeira vermelha,tivemos a surpresa de que o vento,incidindo de lado, enfunava cada degrau como se fosse um pequeno balão.Rapidamente a espada do meu Pai deixou de ser apenas decorativa e os dois,de braço dado ,fomos subindo degrau a degrau , tendo o meu Pai previamente aplanado com a espada cada espaço onde eu devia poisar o pé... Lá dentro, ninguém percebia porque levávamos tanto tempo a subir uma talvez dezena de degraus
O meu NOIVO ! Esguio,elegante,a envolver-me toda com o olhar e o sorriso que só eu lhe conhecia...O altar, os genufluxórios, NÓS. À nossa frente o senhor padre Augusto, franciscanonosso conselheiro,confessor e amigo;à minha esquerda os meus Pais e agora Padrinhos;à direita do noivo, o seu irmão e aVera sua mulher, seus Padrinhos.Recebemo-nos nas bençãos de Deus,no amor de Jesus,"até que a morte nos separe"...Olho,por acaso,para a esquerda e vejo escorrerem pelas faces do meuPai lágrimas grossas,silenciosas,que caíam sobre as medalhas e o azul da sua linda farda...Foi como um sinal de partida para o meu choro,soluçado, nada silencioso,que pôs o meu noivo na mais dilacerante aflição:" não estás feliz?"perguntava. E eu estava,sim,muitíssimo feliz, mas com uma nova realidade para o resto da vida:o peito manchado de lágrimas de um Pai ,elas só memória e presença de quanta pequena ou enorme coisa só por nós dois vivida na outra vida que tiveramos com AQUELA que fora o seu primeiro amor e minha MÃE,tão nova nos deixando sendo eu quase ainda bébé!Eram lágrimas só nossas, de um amor que ali mais ninguém recordaria.
Terminada a cerimónia,foi a festa,os votos dos amigos,as brincadeiras,as fotos...Sei que nada comi embora me aparecessem nas mãos vários pratos com coisas moito apetitosas que várias pessoas vinham generosamente trazer-me. Tinha sim aquilo a que se chama um nó na garganta, de felicidade, de emoção,de coração a transbordar de amores diversos...
Saímos,por fim.Ia começar finalmente a "nossa" vida !
Do "Ficarmos sós", claro que não se conta, porque é o secreto património de encantamento a que na vida todos temos direito.

30 maio 2007

50 anos de Televisão

A nossa televisão oficial fez,a seu tempo, uma enorme comemoração pelos seus cinquenta anos de existência e, quase de forma institiva, nós, os que a vimos nascer, os que esperámos por ela com um certo entusiasmo e muita expectativa, comemorámos com ela muita coisa que, nas nossas vidas, começou logo, logo, a estar-lhe relacionado, quer por coincidência de datas, quer por aquisição de novos hábitos, quer por, preto no branco, nos aparecerem ali visíveis, quase palpáveis, coisas por nós sonhadas, imaginadas, ambicionadas e, pensávamos nós ,ínalcançáveis.
Mas alegrava-nos, em todas as suas revelações, às vezes trazia-nos mesmo coisas para fazer rir, muito ingénuas , óbvias, simplórias até, algumas vezes brejeiras, sem grandes pretensões, segundo creio.Era a televisão das famílias simples. E tinha publicidade, pois tinha, com slogans musicais que mais ou menos todos iamos cantarolando de cor : "candeeiros bem bonitos, cheios de cor e de brilho, só os vendem com certeza os Duartes pai e filho". Até ouvi uma vez o meu Pai a trautear isto, ele que nunca cantava ! "O senhor está constipado e ficou mal de repente, porque não teve cuidado, porque foi imprevidente..." e anunciava-se uma coisa simples, para a garganta, creio eu... Ora aí é que começa o que me leva hoje a só abrir a televisão para programas que escolho de antemão, para ver noticiários em épocas que os justificam ou para ver primeiras apresentações de novelas portuguesas para "sopesar" o seu valor ou interesse que possam justificar o continuar a vê-las ou não.A nossa televisão dos dias de hoje, ATERRORIZA-NOS .vive a meter-nos medo de quase tudo. Do conhecido e do desconhecido, do suspeitado, do provável e do improvável.No que se come, no que se bebe, no sol,na chuva, no calor e no frio, no que se anda e no que não se anda, no que se ouve, no que se olha, em tudo isto se vão descobrir perigos de aquisição de terríveis doenças, de epidemias, de alterações de ADN ,de desmultiplicações moleculares, de morte mais ou menos anunciada à la longue...No nosso país ou no fim do mundo, se alguém tiver dor de cabeça, é porque já aí vem uma endemia, uma pandemia, e vão moorrer os velhos, logo à cabeça, e os bébés talvez...E depois isto é dito e redito a todas as horas e a todos os propósitos e despropósitos, assim como uma lavagem ao cérebro...Tiram-nos a alegria de VIVER,com tais e tantas previsões e prevenções, com constantes deambulações por HOSPITAIS, com câmaras e microfones em cima de doentes vários e a escutar médicos mais ou menos insignes que só nos aconselham a ir a outros tantos médicos para ver se... Isto é um verdadeiro cerco, um ataque à nossa paz de espírito, um aliciamento à insegurança e ao medo. Que saudades daquela televisão que nos permitia chegar a casa, caír no maple preferido,`as vezes tirar os sapatos e fazer uns grunhidinhos de satisfação, esticando o corpo, alargando o sorriso e ver no écran falar da chuva ou do bom tempo, sem dramas, porque cansados de dramas já a vida de cada dia nos traz e de que maneira !
Creio que há uma ideia de que a cabeça de cada um de nós ficará leve se nos derem um binómio
de assuntos que vai desde palhaçadas sem classificação a casos de justiça puros e duros,aparentemente sem solução.E nessa convicção entram então,em vez dos hospitais, os tribunais.E lá vêm os dramas contados e recontados, e lá vem a frase "tenho comigo o sr. X que
assistiu..." E o encavacado sr.X a dizer que não era bem assim...e por aí fora. Creio que esta incidência nos casos de tribunal será para nos obrigarem a fazer exercícios de lógica, como acontecia nuns antigos programas do INSPECTOR VARATOJO...
Não há mesmo dúvida nenhuma de que estes cinquenta anos nos mudaram muito.Nós, o Mundo, a Vida... Mas, se há também coisas boas, o que me parece é que, mesmo essas, são um bocadinho menos doces...direi mesmo, mais amargas...

28 maio 2007

Se se atender às datas verificar-se-á que fiz aqui um intervalo maior do que o que é habitual nas minhas" considerações registadas".E embora os intervalos nem sempre signifiquem mudanças. este corresponde mesmo a mudanças. Decidira não continuar a pertencer àquela geração a que certa publicidade se refere dizendo que está ou quer "assapar" até por me parecer que isso não é coisa para a minha idade, e mudei para uma empresa que alia o telefone fixo de casa ao nosso computador e me parece ser uma coisa mais "à séria", como também agora se diz. E, mais económica também, o que náo é despiciendo. Só que as alterações cumpriram certas fases e depois a minha saúde resolveu também fazer pausa e pôs-me a pouco mais que pão e água por alguns dias. E, num regime desses, nem sei se se pensa, quanto mais se se escreve...
Que dá para deitar contas à vida, isso dá. E acendem-se projectores mais ou menos potentes sobre zonas também mais ou menos escuras que, no nosso ritmo diário normal de "passar por", não chegamos a encarar. É bom. Fica muita coisa muito evidente. E uma certa irritação por não termos sidos atentos, na hora certa...

19 maio 2007

Superstição?

Serei mesmo supersticiosa ? Não devo sê-lo. Não quero sê-lo. Mas ... suspeito que, mascarada com aquele apego ao que é tradicional, está mesmo a superstição,em práticas inocentes que, se as não concretizo, me deixam, no mínimo, incomodada.
Aconteceu agora, na quinta feira da Ascensão.
Todos os meus amigos conhecem já a Valentina. É mais do que aquela pessoa a quem chamamos uma empregada. É uma amiga.Toma conta de tudo aquilo que eu, a pouco e pouco, vou deixando de poder fazer e também de tudo aquilo que ela entende que me é útil, agradável, consolador, e por aí fora. É alegre, disponível, sempre atenta,porque, quando não está na minha casa, telefona, quer saber se "já não me dói", se "não quero que venha cá" etc.,etc.. Ora no Dia da Espiga,durante a manhã em que ela esteve cá em casa, nem eu, nem ela nos lembrámos desse velhíssimo "hábito" de adquirirmos um bonito ramo cheio de simbolismos, nesse dia. Quando eu mais tarde me apercebi da falta, fiquei incomodada. Mas já não podia fazer nada. Os tais raminhos, vendem-se pela manhã nas paragens de autocarro e pouco mais. Uma estranha
sensação de perda não me largava...
E não é que, às oito e tal da noite me aparece a Valentina, toda risos e divertimento, empunhando um belo ramo de Espiga e brincando comigo, como faz muitas vezes ,"desta vez a Senhora esqueceu-se mesmo !..."
Deste tão encantador gesto e da minha tão reconhecida alegria naquele momento, nasceram vastíssimos planos de interrogações que se estão ainda prolongando e me fazem reconhecer quanta coisa há para destrinçar nos nossos comportamentos afinal tão misteriosos...

15 maio 2007

Para não esquecer o meu latim

CREDO
Credo in Deum, patrem omnipotentem,creatorem caeli et terra. Et in Jesum Christum filium ejus unicum,Dominum nostrum, qui conceptus est de Spirito Sancto, natus ex Maria Virginis, passus sub Pontio Pilato,crucifixus,mortus et sepultus est; descendit ad inferos,tertia die ressurrexit a mortuis, ascendit ad caelos, sedet ad dexteram Dei Patris omnipotentis, inde venturus est judicare vivos et mortuos. Credo in Spiritum Sanctum,sanctam ecclesiam catholicam, sanctorum communionem, remissionem peccatorum, carnis ressurrectionem, vitam aeternam.Amen

13 maio 2007

Fátima

Milhares de luzes. Milhares de lenços brancos.
Cada um não podia aperceber-se da grandiosidade do conjunto.Era UM, no meio de muitos mil...
Por isso o culto da nossa religião se presta em comunidade. Por isso o nosso aprendizado fundamental é o da humildade. Por isso o nosso comportamento social é o da solidariedade.
Porque em cada UM, quanta dignidade!...

09 maio 2007

Robert Schuman e Jean Monnet

Seria uma coisa de estranhar que, havendo actualmente dias votivos para tudo, não houvesse um para celebrar esta realidade chamada EUROPA e cuja definição me parece tão difícil de elaborar. Pois é hoje, o tal DIA da EUROPA. Ouvi no noticiário da Rádio.Nunca me esqueci, nem esquecerei daquela figura carismática,sempre vestida de escuro,esguia,calva e de nariz agudo que anunciou a constituição da Comunidade do Carvão e do Aço em 1950, o senhor Robert Schuman. A Guerra ainda nos estava tão próxima, eu tinha acabado de vir de Londres onde ainda havia tantos daqueles tapumes que cercavam a enorme cratera que fora um bairro inteiro, e uns senhores chamados Schuman e Jean Monnet estavam a preocupar-se em arranjar mecanismos para fortalecimento de uma Europa onde não voltasse a ser possível acontecer tamanha calamidade.Jean Monnet congeminou mesmo a ideia de uns Estados Unidos da Europa, sendo Schuman partidário de uma política inspirada na Doutrina Social da Igreja, e Monnet o economista por excelência. Dos trabalhos de ambos foram nascendo esboços e aparecendo projectos que entusiasmaram muitos europeus. Parecia-nos que a tal realidade Europa seria a garantia da concretização de muitos sonhos. Caberá aqui falar em UTOPIA?.
Foi então no dia 9 de Maio que Schuman nos apresentou um primeiro modelo de UNIÃO,cujo texto inicial havia sido redigido por Monnet. E esta Europa que hoje temos começou por aí.
De 1950 a 2007, seria exequível manter os pressupostos de então ?

06 maio 2007

Dia da Mãe

Mãe de todas as Mães,
Nossa Senhora !

Não que para falar~te
haja um dia, uma hora,
mas hoje apenas vim para acolher-me
ás dobras do teu manto,
na dor de recordar
as Mães que não perdemos
pela saudade,
e As outras, As de agora,
deste inquietante mundo
de filhos tão dispersos
tão diversos,
( tantos cuidados, dor,
inquietações ou lágrimas de glória )
mas Filhos muito amados
teus, também...

Só por laços de amor
vim suplicar-te agora,
Mãe de todas as Mães,
Nossa Senhora !...

01 maio 2007

1º de MAIO

Veio o primeiro 1º de Maio, depois da revolução.
Uma mole imensa de povo veio para a rua, nesse dia !

Todos se falavam, muitos se abraçavam, mesmo sem nunca se terem conhecido
E riam alto, e cantavam, formando rapidamente grupos espontâneos . Surgiam de todas as direcções, sendo, no entanto, o estádio da avenida Rio de Janeiro o grande polo de atracção porque era aí que estava programada a enorme concentração, em que os dirigentes dos partidos dos “trabalhadores” iriam aparecer juntos e em pessoa para falarem àqueles cujo DIA se festejava...No entanto, era tal a multidão que, às tantas, já se não conseguia entrar sequer no estádio. E então, como lava escorrente de qualquer cratera, deslizava pelas ruas...Atravessou Lisboa, em cortejo, uma faixa da largura das avenidas, apenas com a palavra LIBERDADE preenchendo toda a sua área. Era de tal forma majestática e conduzida com tal andamento de pompa, que não havia quem não experimentasse uma certa forma de emoção, vendo-a passar.
Não houve uma briga, um desacordo, em todo aquele dia. Lágrimas sim ! Viam-se muitas em rostos de pele seca com olhos pisados e expressões tensas ; deslizavam sem controlo possível, tal como aquela LIBERDADE que parecia escorrer e ia vindo ao encontro de todos nós...

Era uma enorme emoção colectiva !
Por isso se gritavam slogans copiados de revoluções estrangeiras, na convicção de que o povo seria quem iria passar a ordenar.
O certo é que, nesse dia, ninguém pensava que, conquistada a possibilidade de se viver em democracia, os homens da Revolução , e os outros, iriam mostrar quão difícil é aprendê-la.

25 abril 2007

25 de ABRIL

...um dia, Portugal não mais aguentou e amanheceu num Abril como nunca ninguém tinha visto antes.
Quanto a mim, foi realmente uma coisa feliz, o facto de a chamada REVOLUÇÃO dos CRAVOS ter eclodido numa manhã, quando o grosso dos lisboetas se preparava já para sair de casa, para iniciar mais um dia de trabalho. Não sei como, em que altura do dia, aconteceram tantas outras revoluções no nosso país ou nos países estrangeiros, mas parece-me singularmente acertado que esta, deste nosso Abril, nos entrasse pelos quartos e pelas casas de banho, graças àquele Radio Clube Português mais uma vez metido nestas coisas de actuar sobre o acordar de uma população meio adormecida...É que, por esta circunstância, ficámos para sempre a poder falar de Abril em lindíssimas metáforas todas reportadas a esse acordar, alvorecer, nascer, começar e todos os seus sinónimos que expressassem a vontade de “partir para outra”, porque o regime já exaurira todas as capacidades de entusiasmo que, mesmo que tentássemos, já não conseguíamos de modo nenhum reactivar.

Houve então um turbilhão de coisas bonitas, a seguir a estas horas de acordar! Lisboa, a medo, apesar dos pedidos emitidos pelo Rádio Clube, foi saindo para a rua...Sabia-se que lá para a Baixa é que estava a “tropa”. Os dos bairros mais populares mais próximos pensaram logo que os soldados (“coitadinhos”!) deviam ter fome, ou não tivessem eles passado a noite em viagens...E lá foram prontamente aparecendo braços estendidos com púcaros de café a fumegar, em direcção aos soldados acastelados nos seus “chaimites”. De quem seria a ideia do que veio logo a seguir ? Teria mesmo sido a da pragmática Celeste Caeiro que, no Rossio, deu um cravo vermelho a um dos soldados que lhe pedira um cigarro que ela não tinha ?
Um cravo mais para aquele outro soldado, “ outro para si, senhor alferes!”, outro para o marinheiro, no Chiado ... e foi um mar de cravos encarnados, uma onda crescente e multiplicadora, que viria a dar um nome a esta revolução!
Iamos já nas margens do meio dia e já era por todo o lado o alarido –
Afinal era no Carmo, o centro de tudo. Lá é que estava o Salgueiro Maia (alguém também lhe dera um cravo) a confirmar-se como esteio da nossa confiança. Equilibrando-se em cima de uma árvore, o velho Sousa Tavares descobria o ponto estratégico para captar a sua reportagem tal como dezenas de outros mais novos infiltrando-se por todos os lados. Depois, a televisão veio a mostrar-nos tudo...Mas quem lá podia estar via primeiro, estava LÁ. !

Olha, olha, o Spínola entrou agora no Carmo !!!
Foi chocante, quando saiu Marcelo Caetano. Mas aí já se cantava em toda a Lisboa “Grândola vila morena, o povo é quem mais ordena " As movimentações no Terreiro do Paço e suas redondezas já chegavam ao resto da cidade como um ecoar de trovoada que se afasta...O dia foi chegando à acalmia da noite. Mas o que nunca ninguém vai poder roubar-nos é a beleza daquela manhã de sorrisos e cravos, de emoções tão novas e estimulantes. E " depois do adeus ", cantado como senha, primeiro, e depois como romântica lembrança pelo tão jovem Paulo de Carvalho, depois de "ficarmos sós", cada um em suas casas com a sua memória da Revolução, realizámos quanto agora teríamos que dar denós a este jovem país.

24 abril 2007

SAUDADE

...e quando foi manhã
tinhas partido.
Eu era
o destroço
sobrado
de uma luta sem glória...

Quantas manhãs depois
vieram recordar-me
as investidas feitas,
sempre, por nós os dois !


Contra a vileza
e a subtil maldade,
contra a hipocrisia
e a mediocridade,
contra o lugar-comum,
a dença e a má sorte
e contra o déjá-vu
e os assédios da morte...


A recordar-te assim,
foi-me o tempo passando
e esqueci-me de mim...
Só quando fui capaz
de, um dia, separar
o meu do teu viver,
reparei no que andara,
...e estava a entardecer !

20 abril 2007

MIA COUTO

"Instantaneando" a minha reacção quando soube da atribuição do PRÉMIO UNIÃO LATINA DE LITERATURAS ROMÂNICAS ao meu apreciadíssimo MIA COUTO,aqui estou, a apetecer-me imenso ser capaz do seu "FALINVENTAR" para dizer do enorme prazer que experimento ao lê-lo.Será mesmo lê-lo? É que ,pelas suas páginas, parece que reboa uma sonoridade toda nova e pode ouvir-se "nhenhenhar" o motor do velho automóvel,"cambalhotar" o mar,"bazarinhar" a "gentania"...E depois há como que uma certa mestiçagem da idade da inocência com os "satanhocos" de "carantonheação" que faz "minguar o coração" e esta mistura traz uma tal pureza que nos refresca como uma boa sombra, quando há muito calor.MIA COUTO diz que tem uma paixão por gatos e por isso mesmo adoptou aquele nome que o seu irmão pequeno lhe chamava.Será essa uma afinidade entre nós de que só tenho que orgulhar-me porque não é "um quem" qualquer que entende de gatos...Nem tão pouco é um qualquer que recebe este prémio atribuido por um júri representativo de trinta e tal países e que já premiou José Cardoso Pires, Agustina Bessa Luis e António Lobo Antunes.

17 abril 2007

EVIDÊNCIAS

EVIDÊNCIAS


Perdida um pouco a noção do tempo em que tive a sorte de ir contando com ela, hoje calculo em mais de vinte e cinco anos o período da minha vida durante o qual, regularmente, às quintas feiras, ela vinha passar o dia em minha casa unicamente para fazer costura.
Baixinha, muito magra, feições regulares, cabelo cuidadosamente lavado e curto, ela falava num tom suave, ligeiramente marcado pela toada alentejana, musicalidade que guardara da sua origem e de uma meninice vivida no seu Alentejo, servindo em casas senhoriais, ainda quase menina. Dizia que dessa época da sua vida trouxera o saber lidar com as coisas bonitas e boas das boas casas, o saber cuidá-las, o dar-lhes valor. E também o saber conviver com as “senhoras”, o estimá-las, o compreender quando e quanto a estimavam também.
E das costuras saltava muita vez, por gosto, para as compotas e marmeladas, no outono, para as filhós e as rabanadas, no Natal. E, muitas vezes, passava à tábua de engomar, para contornar com a ponta do ferro, com enorme mestria, os bordados difíceis e as rendas delicadas. Toalhas, naperons, lençois do meu enxoval à moda antiga, saíam das suas mãos mais tesos e com mais relevo do que em novos!
Mas a sua verdadeira opção profissional era a costura. Aprendera apenas os rudimentos. No resto era autodidacta.
Se acaso no seu percurso de costureira “ a dias” encontrava senhoras que sabiam e aplicavam técnicas da “arte”, ela aprendia com elas tudo o que achasse que valorizaria o seu trabalho.
E foi assim que se fez uma excelente executante de qualquer modelo que se lhe mostrasse, em figurino ou do qual simplesmente se lhe desse uma descrição. Porém, com a simplicidade que era sua natureza, nunca arvorou pretenciosismos de nenhuma espécie. E isso o provava, sendo igualmente aplicada e diligente a passajar um rasgão em qualquer pano de cozinha, como a fazer aproveitamento de retalhos com alguma criatividade em sacas ou pegas para tachos ou a pregar molas e botões onde fossem precisos. Daí passava, com a maior naturalidade, ao corte de um brocado ou de um veludo, para uma toilette minha.
Em tantos anos de convívio, pudemos falar das nossas vidas uma à outra. Éramos amigas!
E houve pormenores de profunda e dolorosa intimidade criada nem sequer através de confidências: apenas na presença de evidências!
Um dia, chegou a minha casa alquebrada, lívida e tarde, o que não era sua prática habitual. Acerquei-me dela um pouco mais e vi manchas vermelhas e arranhões profundos no seu pescoço, nos braços e nas pernas.
Chorou nos meus braços.
Acarinhei-a como foi possível. Limpei-lhe as feridas, untei-a com pomadas balsâmicas, a minha empregada preparou-lhe um chá calmante.
Ninguém fez perguntas. Apenas lhe pedi que não trabalhasse. E deixámo-la em silêncio.
Eu sabia (já ela mo havia contado) que o marido – um carpinteiro bêbado, jogador e pouco amigo de trabalhar – tinha saído de casa havia algum tempo, após vários e violentos desacatos em casa, quase sempre por não se querer levantar manhã, à hora a que se levanta quem trabalha. Choravam os filhos por um lado, desesperava a mulher por outro; todos eram maltratados .
Pois, neste dia, esperara-a, e ali mesmo, na paragem do autocarro, sovara-a até que alguns transeuntes lhe acudiram. E assim a tivemos em casa, sofrendo física e moralmente, na mais profunda das profundas humilhações que pode sofrer uma mulher, ainda por cima amiga do que é belo, organizado e pacífico... Dizia-se (na terra dela, e também na minha, havia esse conceito) uma “mulher de vergonha”, o que encerra uma enorme abrangência psicológica e moral, mas nem por isso separada do físico.
Quantas mais situações dolorosas e ofensivas deste seu conceito ela não teve que suportar!
Depois, foi o criar os filhos, sozinha.
O vê-los revelarem-se à medida que cresciam... O filho, cada ano com mais semelhanças com o caracter do pai. Das filhas só uma foi ficando empreendedora, diligente, perfeccionista, como a mãe. A outra herdou, do pai, a preguiça, mas desenvolveu sozinha uma imensa ambição que a levou a um casamento e depois a algumas relações reveladoras da sua voracidade pelo “ter” e da sua impreparação para “manter”. De tudo isto, trouxe dois filhos, de dois pais. Para a avó, vencidos os desgostos, foram estes as suas alegrias que até já nem ousava esperar.
E passou a trazer-nos retratos dos netos, a contar as suas graças, primeiro, os seus êxitos, depois.
Andava um pouco mais feliz quando o filho, feito o serviço militar, resolveu casar-se e ir viver a sua vida. Em boa hora, porque de novo, em casa, começara a haver alguém que não queria levantar-se, de manhã...
Veio então uma nora sui-generis, “mulher de cafés”, no dizer da sogra.
De trabalho, na casa do filho, falava-se com uma noção diferente, com conotações diferentes das que eram suas conhecidas. Eram folgas, turnos, serões, compensações, o “desemprego”...
Que fazia a nora? Fumava. Fumava muito. E bebia cervejas. Saía de casa só para ir beber uma “cervejinha”...
E o filho, que fazia? Andava de emprego em emprego. Era serralheiro.
Aprendera na “tropa”, mas, no seu entender, ninguém lhe pagava quanto merecia.
Destes dois nasceu um filho. Outro neto. Outra alegria para a avó.
E os cafés da mãe ? E os empregos do pai? Disse-lhe alguém que o neto-bébé ficava horas e horas sozinho em casa.
Novos sofrimentos. Novas confrontações. Mas agora com uma nora. Das difíceis lutas de mulheres, por um homem, por uma criança, que sabia esta avó, mansa e doce, tão sofrida e tão pouco “urbana”, por comparação com esta nora, assim diferente?
Foi nisto tudo que se foi fazendo velha.
Mais velha do que a própria idade.
Chorou tanto, coseu tanto que os seus olhos começaram a dar sinais de cansaço.
O que ela mais receava era não poder continuar a coser.
Da sua casa, onde acabara por ficar sozinha, onde conhecia de cor as esquinas, os cantos, as pregas dos tapetes, a altura dos degraus, vieram dizer-lhe, um dia, que iria ser demolida, como as outras por ali perto, porque iria ser construída naquele local uma nova e espampanante urbanização.
Não quis acreditar. Esperou.
Mas não deixou de chorar.
Até que a operaram aos dois olhos.
Já entretanto tivera que deixar as casas onde sempre trabalhara, porque não via para coser.
Tornou-se evidente que, em casa, não poderia mais bastar-se a si mesma. E foi nessa altura que reapareceu a questão da casa, do bairro, da demolição. Era agora, sim, que a Câmara se propunha a realojar as famílias, desafectar as casa.
Foi o golpe da misericórdia!
Encontraram-lhe um Lar!
Felizmente um bom Lar. Criado e mantido por uma organização religiosa católica. Ela aí se instalou, perfeitamente compreensiva da situação, conformada, quase contente por ir passar a sentir-se como que protegida.
Como se movimenta bem, como sempre esteve no hábito de contar só consigo, no lar, ao seu jeito educado, quase cerimonioso, procura não incomodar ninguém, basta-se a si mesma, em tudo o que é possível. Às vezes sai, desde que seja para fazer percursos que já conheça muito bem. Faz umas pequenas compras pessoais, umas visitas...
È que a operação aos olhos não foi muito bem sucedida. Surgiram complicações que nunca permitiram que recuperasse completamente a visão.
Como a minha casa é relativamente próxima do lar e ela conhece de cor estas redondezas, assim me vem visitar, nunca esquecendo datas de aniversários ou de outros quaisquer acontecimentos que marcaram a minha vida.
Traz-me sempre uma flor, um presente.
Hoje, quis demorar-se. Almoçar.
Percebi que precisava de que a ouvissem e facilitei a conversa.
Falou muito do lar.
E de súbito brotou da sua boca catadupa de palavras, de queixas.
Não do lar. Não das religiosas. Não das actividades: - “imagine a senhora que até me puseram a representar teatro!...” – e ria, maravilhada com o que conseguira fazer.
O que a desespera, o que a põe fora de si é a convivência com as outras habitantes do lar. Falsidades, invejas, ciúmes mesquinhos, maldadesinhas industriosas, implicações miudinhas, desconfianças, intrigas...
A narração das pequenas histórias exemplificativas de tudo isto, histórias que se desenvolvem no dia-a-dia, na hora-a-hora daquela convivência não desejada, mal suportada, durou uma tarde inteira, com avanços e recuos, com repetições enfatizantes, pormenores rebuscados...
Quando, por fim, se despediu, agradeceu, agradeceu. E porquê? Se eu, desta vez, entontecida pelas histórias, até me esqueci dos habituais presentinhos de marmelada, um bolinho, uma compota...
Penso que o tê-la ouvido, o tê-la deixado aliviar-se daquele saco de mágoas, o tê-la deixado sentir-se mais próxima do seu antigo clima de confiança, do seu antigo mundo de relações, o tê-la deixado reviver a sua mais-valia individual, fora daquele mundo de comunidade forçada onde agora se move, penso que, neste dia, foi o melhor presente que podia ter-lhe dado.
Saiu, sabendo eu e ela, que iria voltar de outras vezes, sabendo que aqui poderia, uma vez mais, encontrar o alívio para uma nova espécie de mágoas...

E foi então que se me instalou um nó na garganta, porque acabara de se me tornar evidente a inevitabilidade de uma espécie de divisória que, a certa altura de todas as vidas, se ergue, barrando um percurso, obrigando a outro.
Basta, para isso, que qualquer parte do nosso mecanismo físico claudique, umas vezes apenas porque simplesmente envelheceu, outras vezes, porque os insidiosos disparos das doenças podem colher-nos à queima-roupa ou, tendo corroído de mansinho, resolveu eclodir num certo dia, como a lava de um vulcão adormecido...
De repente, para todos nós, num certo dia, tornar-se-á evidente que é forçoso passar para o outro lado da divisória.
Adeus independência, adeus escolhas próprias, mesmo até: adeus solidão!
Doce e reconfortante solidão que nos permite sermos donos de nós mesmos, das nossas memórias até às nossas manias.
Doce e reconfortante solidão!
Doces sinais de vida, ainda!...

09 abril 2007

07 abril 2007

Tríduo Pascal

Como eu gostava de que todos os meus amigos que, quase orgulhosamente, se dizem ateus compreendessem que a FÉ não é uma coisa que se aprenda, que se estude, que se imite, que se deduza... Tenho suportado alguns afrontamentos mais ou menos subtis, não directamente por causa da minha FÉ, mas por causa da prática do culto que a ela corresponde. Chegaram já a questionar-me pela incoerência,(quanto a eles) entre as minhas práticas de culto e a minha inteligência. Supor, calcular, depreender sobre exigências ou reacções da sensibildade do "outro" é sempre falível e os meus amigos ainda não entenderam isso. Até porque, com um conhecimento superficial e primário da História da religião que professo,é claro que não podem compreender o que significa, por exemplo, ouvirem-se determinadas partes das LEITURAS e da própria MISSA, umas vezes de pé, outras não. Este seria um tema que me faria alongar muito, o de explicar o que já desisti de explicar-lhes, quando o que eu queria era mesmo falar destas celebrações do TRÍDUO PASCAL nas quais venho tomando parte ao longo da minha vida, sempre com igual sensação de pobríssimo acto de contrição e simultânea declaração pública da minha indefectível dedicação a esse JESUS que, esse sim, me foi "APRESENTADO", logo que nasci, por uns PAIS que eu fui vendo adorarem-no enquanto eu fui crescendo e aprendendo o Mundo... Quanto a actos de culto, tenho presenciado como é fácil aos Homens praticarem-nos por causas que nada têm que ver com aquela fundíssima dignidade que pode fazer de um de nós uma criatura sublime... E que eu creio que é a nossa parcela DIVINA!
Estivemos pois a rememorar aquela extraordinária ceia da qual emanaram todas as lições de humildade, de comunidade, de amor total, de paciência, de comprensão e,depois, estivemos postos em presença da CRUZ. Foi notável, como nos é tão preciso o silêncio para melhor "ver". No dia seguinte ao do movimentado Lava-Pés, foi uma longa e silenciosa fila de adoradores da CRUZ que nos permitiu pensar como CAMIILO PESSANHA "Oh quem pudesse deslizar sem ruido//no chão sumir-se como faz um verme..." Perfilou-se perante nós e a nossa pequenez a imensa solidão daquele CRISTO injustiçado, injuriado, torturado, só porque acreditou que nós o mereciamos...
E revivemos as grandes figurações das procissões que nessas horas o povo acompanha pelas ruas

O CRISTO, AO ALTO, ALONGA OS MAGROS BRAÇOS NUS
[...]
PENDENTE DA CRUZ NEGRA, ENVOLTO EM LUAR FRIO
[...]
E O CRISTO AVANÇA, Á LUA, ESPLÊNDIDO E CHAGADO

(José Régio)

A fortíssima marca que nos encharca a alma irá, como é costume, aligeirar-se com o festivo tilintar dos sinos da noite da nunca compreendida RESSURREIÇÃO...
É matéria de alma e disso os meus amigos nunca saberão nada !

29 março 2007

SOLIDÃO

De JOSÉ GOMES FERREIRA
Nunca mais
deixes sangrar no coração
esse violino de punhais
a que chamam solidão.
Transforma-o noutro violino de astro fundo
para que a tua canção
chegue à nossa pele
e aqueça o mundo
( embora te gele )...

27 março 2007

Luxo Asiático









Uma pessoa amiga enviou-me um e-mail com um verdadeiramente admirável documentário sobre esta deslumbrante obra no DUBAI. Trata-se do único ( ? ) hotel de 7 estrelas do mundo e se acaso por lá "passarmos", só para o visitar, teremos que pagar 60 euros... O resto é o chamado luxo oriental.As salas, salões e salinhas, os quartos, as suites, os bares ,as piscinas... É tudo para os gostos de pessoas que certamente condizem com aquilo, em género e número.
E, nem eu sei porquê, veio-me à memória uma pequena mas atribulada viagem das que fiz ,em serviço, ao LUXEMBURGO. O meu voo ia a FRANKFURT e lá apanhava a ligação para o Luxemburgo. Tudo estava calculado ao minuto para que chegasse ao hotel à hora certa de,arranjada e perfumada, me incluir no grupo que acompanharia o nosso ministro, que chegara de manhã ao hotel, para irmos a um importante jantar na nossa embaixada. Aconteceu que, de pequenos atrasos em pequenos atrasos, cheguei a Frankfurt quando o meu avião para o Luxemburgo, estando ainda na pista, já tinha fechado as portas e se preperava para começar a rolar ...Originou-se um espantoso movimento em todos aqueles serviços, porque era uma pessoa e a sua bagagem que era forçoso meter naquele avião.Tudo em movimento, de mim só se exigia que corresse desde o balcão da chegada, até à porta daquela saída...Era uma lonjura ! E eu corri. Creio que corri ali tudo o que tinha que correr para o resto da minha vida ! Mas ( e aqui me surge o Hotel do DUBAI ) o que vou encontrar numa zona daquela minha pista de corrida ? Talvez umas duas dezenas de cidadãos árabes, alguns agarrados às suas contas de rezar, com as suas características roupas claras e turbantes,dormindo profundamente,espalhados por todo aquele chão !!! Era, para quem queria passar, um verdadeiro campo de obstáculos, só se podendo avançar saltando por cima de um e outro e outro corpo...E foi o que eu fiz, meu Deus, tão aflita ! Convém que diga que cheguei ao jantar importante já sózinha porque,é claro, o senhor ministro não iria chegar atrasado por causa de um dos seus elementos de équipe, que não fui lá muito perfumada, que não usei o vestido que levara para aquele fim, mas que ainda cheguei a tempo de tomar um qualquer aperitivo antes de irmos todos para a mesa...! Sonhei depois que o ministro e o embaixador estavam a dormir no chão da embaixada e todos à volta, vestidos de árabes, falavam baixinho uns com os outros...Penso que ,no meu sonho , eu já nem existia...







25 março 2007

UNIÃO EUROPEIA

Muitas coisas verdadeiramente grandes da História foram acontecendo ao longo da minha vida e em algumas até tive uma fímbria de intervenção. Mas que a existência da União Europeia ,que nós começámos por baptisar de CEE, já tenha 50 anos, isto até me parece mentira ! Um dia em que tive a sorte (digo-o porque ele sempre foi alguém interessante, não por fascínio de colecção de vips) de tomar café com o senhor DELORS, no tranquilo salão do Hotel Ritz, ele disse-me: Não se esqueça !Virá tempo em que vamos pensar em tudo "isto" como tendo sempre feito parte das nossas vidas! ISTO era precisamente, durante outra presidência portuguesa, em que os trabalhos a decorrer, às vezes causavam alguns sobresaltos momentâneos. E lá foram 50 anos em que o Mundo virou os pés pela cabeça e eu para aqui a envelhecer e a transformar-me num baú de recordações !Mas oiço o Hino à Alegria com um certo frisson...Sempre é verdade que já está fazendo parte da minha vida. E o corpo é uma harpa de repente.Animal de Deus, eu.Uma ferida.(Herberto Helder)

22 março 2007

MIGUEL TORGA

Hoje é preciso ler Torga !

INVENTÁRIO

E,apesar de tudo, sou ainda o Homem!

Um bípede com fala e sentimentos,

ao cabo de misérias e tormentos,

continua

a ser a minha imagem que flutua

na podridão dos charcos luarentos.

Sou eu ainda a grande maravilha

que se mostra no mundo.

O negro abismo que tem lá no fundo

um regato a correr,

uma risca de céu e de frescura

que murmura

a ver se alguma boca a quer beber

!

19 março 2007

DIA DO PAI — DIA de S.JOSÉ


Ao meu Pai que se chamava José.


Primeiro, a mão pequenina
aprende os gestos em cruz
e a boquita já murmura
"Em nome do Pai...", que era
Pai do Menino Jesus...

Junto à cama, pela manhã,
e à noite, à cabeceira,
aprende-se a ajoelhar
pra falar com o Pai do Céu...

Mas ao da Terra, esse Pai
que pousa em nossas cabeças
a mão quente, a abençoar,
e nos acolhe nos braços
quando nos fazem chorar,
aprendemos a amar....
Era uma outra maneira...
Ligavam-nos outros laços...

Crescemos, vamos partindo
e muita coisa aprendendo
mas tanta não entendendo,
que os Pais ( da Terra e do Céu)
nos parecem estar fugindo...

Difícil, esse ABRAÃO que o seu filho mataria!...
E mesmo o Pai de DAVID, que do Senhor o escondia...

Juntámos, sempe com dor,
às imagens mais sofridas
a aprendizagem cristã
de pecar, mas ser amado
por esse Pai que de nós
em caso algum desistia...

E foi que então descobrimos
que éramos nós, de joelhos,
e o nosso Pai que acolhia,
nessa tela de REMBRANDT...

17 março 2007

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Desde que, em 1979 , me deparei com a MEMÓRIA DE ELEFANTE, nunca mais deixei de estar atenta ao que iria sair da pena daquele "construtor" novo na literatura portuguesa. À medida que foi produzindo, o fui eu apreciando mais e mais, não já tanto pelos temas que desenvolvia, mas pela originalidade formal, pelo gozo que lhe adivinhava na experimentação de certas construções, na novíssima adequação de certas palavras, no "labor" da execução. De tal forma isto era para mim fascinante que adquiri um hábito de o ler à maneira do que dizia Napoleão d'abord je m'engage, puis j'y pense . Não que a forma prejudique o conteudo ! De modo nenhum; antes lhe dá uma certa "efervescência"( como eu receio ser aqui mal interpretada!) que eu acho muito inovadora na textura da prosa portuguesa. E assim foi que me senti premiada quando agora foi atribuido um prémio dos maiores a este meu sempre "escolhido" Lobo Antunes...Li algures que este prémio pretende consagrar quem tenha contribuido para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa. De todos os que até agora receberam o PRÉMIO CAMÕES para a Literatura, haverá algum que mais o tenha merecido ? E não terá ele merecido mesmo outros reconhecimentos oficiais das suas tão específicas qualidades ?

08 março 2007

Dia da Mulher / 8 de Março

Dizer de ser Mulher
será preciso?
Umas das outras, nós sabemos tudo.
E a forma como damos a saber
a força imensa
da nossa fraqueza
é sendo mães, amando,
fazendo do trabalho uma alegria
e dando tanto a todos, em beleza,
quanto nos dá o pão de cada dia...
Dizer de ser Mulher
é dizer companheira,
se ter um companheiro for destino...
Dizer de ser Mulher
é dizer ser presença, ser esteio,
sendo a parte mais frágil do cristal
num mundo muito pouco cristalino...
Dizer de ser Mulher, será preciso ?
Arriscámos um dia o Paraíso
por uma convicção bem definida:
ser MULHER
era só , afinal,
ser a fonte da VIDA !...

06 março 2007

É possível"conversar"ou só "falar"?

O sábio fala para dizer "ALGUMA COISA".
O néscio diz "QUALQUER COISA " só para falar.
Platão

01 março 2007

KAROL-um homem que se tornou Papa

Escrevo hoje ainda sob a fortíssima emoção que me provocou o visionamento de um DVD que me foi oferecido por uma amiga "porque sabia que eu ia gostar".
Trata-se de um conjunto de dois discos realizado por Giacomo Battiano, com banda sonora da autoria de Ennio Morricone, e com o título KAROL_ O homem que se tornou Papa.
Claro que, como a minha amiga previra, gostei.Gostei muito. Mas sofri muito. Posso dizê-lo, mesmo correndo o risco de que quem acaso ler estas notas possa achar o emprego aqui do verbo sofrer,não só um exagero, mas também um lugar-comum.
A verdade é que eu não esperava ser assim subitamente posta em presença viva, real, do drama, da tragédia, que se abateu sobre a Europa da minha juventude e da qual nós, em Portugal , mal tacteámos apenas as franjas, mal nos démos conta de dores remanescentes de cada dor maior que se ia sucedendo a outra, e a outra,e a outra...
Na pátria de KAROL WOJTYLA ,aquele desprezo pelo ser humano, que foi manifestado desde o tirar a vida, até, em gradação regressiva, tirar as casas, as escolas,as igrejas, as cidades, e os alimentos, e os hospitais, e tudo, tudo, foi a manifestação mais repugnante que eu já esquecera de quanto o ser humano é também capaz de descer tão demoníacamente fundo...
Porque eu conheci gente "da guerra". Estudei com alguns que chegaram até à minha Faculdade, então ali a SÃO BENTO.Vi,passadas por baixo das mesas, as primeiras fotografias dos campos de concentração, tão inimagináveis que parecia que nos queimavam as mãos. Fui despedir-me de alguns que partiram para alistar-se nos seus países depois de deixarem aqui a família a salvo.
Logo que foi possível, já casada, fui a PARIS conhecer uma irmã da minha sogra que não arredara pé da sua casa em Montmartre, com ocupação, sem ocupação, agarrada àquele então lendário desamor de franceses por alemães.Levámo-la a jantar fora. Ainda não estavam reabertos muitos restaurantes, mas queriamos mimá-la, passeá-la...E no primeiro jantar surpreendi-a a,surrateiramente, meter na sua carteira os pedaços de pão que restavam na mesa. Como era possível ?...Depois de uma conversa carinhosa percebemos o seu " terror" doentio de ficar sem pão... E já não havia guerra! E havia muito mais terrores de que, como graça de DEUS ,nos fomos esquecendo...Isto é : pensamos que nos fomos esquecendo. O "meu"Saint Exupéry dizia depois de uma passagem por Lisboa, nessa época, que "Lisbonne en fête défiait l'Europe".Fazíamos a Exposição do Mundo Português e era mesmo uma festa. Mas não foi suficiente para apagarmos as nossas memórias dolorosas. Veja-se : basta que nos salte ao caminho um DVD e eis que tudo reaparece a parecer-nos que foi um mau sonho !
Pobre,sofredor, perseverante,não seria mesmo este o caminho da santidade de KAROL WOJTYLA ?