14 outubro 2012

SEM DESEPERAR...

Este é o meu habitual post de domingo. Acontece que estou a fazê-lo pela primeira vez no meu computador chamado Samsung que veio ocupar o lugar do envelhecido e fraquinho Asus. E, como todas as coisas que vão fazendo parte da minha vida, isto deu-me muito que pensar...Primeiro, enquanto ser humano, muito marcado por estas coisa do"ir ficando velhinho e fraquinho", segundo, enquanto ser religioso que não saberei viver sem sentir, como digo num verso de um dos meus poemas "foi Deus quem pensou em mim?", e terceiro, como ser político, cidadão,patriota,que se sente magoado, magoado na real acepção desta palavra que significa com  mágoa.
Talvez seja agora ocasião de deitar para trás uma  olhada e recordar como me fiz cidadã deste país pelo qual hoje sofro, com uma dor fininha que não é parecida com nenhuma das muitas e grandes dores que a situação de ir vivendo me tem proporcionado. Nasci  numa cidade envolvida em vários véus de tradição , medieval acastelada, burguesa, à maneira do século XIX,salpicada de ruralidade, caldo de literatura para naturais e estranhos nela acantonados, militar, na galhardia do cumprimento das missões que iam para lá desempenhar os militares naturais de muitas outras terras,aldeias e cidades. Uma mistura de substratos a nenhum dos quais eram alheios os meus pais que a tudo isso ainda acrescentaram os verões numa praia atlãntica encastoaada em pinhais e cujas memórias ainda hoje são para mim talvez os melhores momentos de recordação, e uns outros verões de total ruralidade, trepada em carros de bois repletos de palha ou abóboras,  encarrapitada aos figos, nos ramos de uma figueira que pendiam sobre um riosinho cujo nome embora venha no mapa, nunca passou de um magrito afluente...Sucederam- se cidades aonde me levavam os desempenhos profissionais do meu pai, do Alentejo ao Minho, e que foram correspondendo sucessivamente aos meus progressos de aprendizagem por indução e intuição e ao avanço nos estudos. Até que era "uma mulherzinha" quando já na Linha de Cascais primeiro e em Lisboa depois, ouvi pela primeira vez falar em Salazar, em Franco, na Guerra de Espanha, em POLÍTICA, em suma. E em "direitas" e "esquerdas",estratégias, refugiados, países, e tanta outra coisa a isto tudo ligada e que para mim era o "abrir" do mundo ao qual não sabia até aí que também pertencia. Meu pai tinha a sua "estratégia" para fazer de mim uma mulher. A minha Mãe fora a primeira rapariga a frequentar o liceu da nossa cidade, sózinha no meio dos comentários de toda uma sociedade. Isto diz qualquer coisa sobre a teoria da educação e desempenho da Mulher que foi seguido na minha própria formação. Por exemplo, fiquei pesadona e pouco ágil (quanto,meu Deus"!) porque na altura de fazer ginástica nos meus colégios era obrigatório para isso o uso do fardamento da Mocidade Portuguesa e isso o meu pai nunca consentiu que eu vestisse... Na sequência sempre coerente do meu entendimento, por mim já elaborado, do que era ter uma pátria, atravessei o período da segunda Guerra,fiz o meu curso,aprendi com os refugiados e  os meus olhos já sabiam ver o Mundo para lá de muitos muros de angústias e ansiedades que em vagas de marés chegavam até nós. Um dos últimos conselhos do meu pai foi:"sejas o que fores,na vida nunca esqueças de que ,antes de mais nada, és um ser humano irmão de outros como tu e que é com eles e por eles que sempre deves levar a tua batalha "
Por todo este trilho que se vai deixando no caminho, ao procurar revê-lo, se percebe que ,como a cobra, foi uma pele de nós de onde fomos saindo mas tão nossa ficou sendo !E temos aqui e agora  de nós, do "miolo" de nós, tudo intacto e liberto,apenas com o exterior desgastado...
Perante o que  está a acontecer,o ser humano, o ser religioso e o ser que ama tanto o seu país não podem deixar de estar unos e coerentes a acreditar sofrendo,mas não desesperando...

1 comentário:

Literarte Letras ! disse...

Uma bela demosntração de saudade.Uma saudade que embeleza a história da vida da gente.Parabéns!