24 janeiro 2009

Recordar apenas

Éramos todos jovens, bonitos ( ! ! ! ) e sonhadores. Havia os "mais velhos", cheios de conhecimentos e de algumas experiências, que os "mais novos" admiravam, ouviam e...invejavam ! Quando estes chegaram às universidades os outros já por lá tinham passado a fazer o que eu hoje chamaria o básico mas ainda andavam por lá ou apareciam quando podiam...
E acrescia que, a alguns, nós conhecíamos cá "de fora" porque até as famílias eram amigas...Parece até que o país era mais pequeno, mais provinciano; quase todos se conheciam e mantinham-se relações de sociedade que hoje não vejo cultivarem-se, pelo menos da mesma maneira. Sempre vi em casa de meus Pais haver uns dias certos em que vinham amigos e se jogava o bridge e o mah-jong...
Pois essas "pessoas grandes" tinham filhos dos quais muitos iam cruzar os meus caminhos de estudante e assim se ia tecendo a teia das relações que, de uma maneira ou de outra, passavam a ser as nossas, as dos jovens do meu tempo.
Assim conheci a Stela. Os Pais amigos lá de casa.Aquela filha, muito bonita,mas muito especial... Naquelas idades a nossa diferença parecia muito maior... Dizia-se, dizia-se... e eu já a admirava .
Ela casa pela segunda vez no ano seguinte ao do meu casamento e tinha um filho afilhado de Álvaro Cunhal. Era filho de António Fiadeiro, seu primeiro marido. E uma filha afilhada de Piteira Santos, com quem casou em segundas núpcias e com quem partilhou toda a vida aventurosa dos políticos profundos com os quais sempre se entrosou... Era o" diz-se, diz-se "da sociedade em que nascera e fora criada. Chegámos a falar-nos em ocasiões muito especiais e eu tive oportunidade de dizer-lhe como já a havia invejado e como depois a estimei, a admirei.
No jornal de há dois dias leio a notícia da sua morte . Tinha agora 91 anos . Ambas velhas, só que eu alguma coisa menos.
E indubitavelmente muito menos Vida vivida, muito menos empenho, muito menos coragem...
Stela Correia Ribeiro... Algumas vezes, lá naqueles incríveis claustros da Faculdade, lembras-te ?

2 comentários:

jj disse...

No Público de Sábado, na penúltima página, havia dois artigos acerca dela.

Confesso que os li apenas por causa deste seu post. E fiquei, de resto como fico muitas vezes, com a impressão que não somos, actualmente, feitos da mesma massa, fibra, que essa vossa geração. É pena.

Jinhos.

Úrsula Avner disse...

Querida escritora, dizem que recordar é viver, por isso continue relembrando estórias, escrevendo-as, vivendo... Amei sua visita ao meu blog. Certamente tenho muito a aprender contigo. Obrigada pelo carinho de sua visita. Bjs.