14 fevereiro 2007

Dia dos Namorados

E não é que hoje é outra vez "dia de" ?
Dia dos Namorados. De São Valentim. Um São Valentim que até pode ser um de dois visto que , do século lll até hoje, não se adquiriu a certeza sobre qual deles era o que, bondoso e apiedado, casava às escondidas os soldados romanos aos quais uma disciplina rigorosa proibia o casamento.
Mas em Portugal sempre tivemos um único querido e popular santo casamenteiro que foi o nosso Santo António. Sabemos bem que nas primeiras idades do Cristianismo houve muita vez um aproveitamento de festividades ainda pagãs, ligadas quase sempre aos ciclos da Natureza, adaptando-as habilmente a celebrações novas que o povo continuaria a memorizar, ainda que fosse por outras causas. Assim estes São Valentins, que viajaram por outras paragens sem se tornarem necessários a Portugal porque os nossos NAMORADOS, sempre que precisaram de ajuda, tiveram o seu SANTO ANTÓNIO. Ligados a ele,quantas trovas populares, mais ou menos citadinas, mais ou menos de ambiente rural, quantos manjericos lisboetas, quantos bailaricos, quantas fogueiras para saltar e quantas lendas ! Não resisto à tentação de deixar aqui registado este "mimoso" poema de AUGUSTO GIL onde a candura da história não deixa de aflorar pontos-chave da vida do Santo.

O PASSEIO DE SANTO ANTÓNIO
Saíra Santo António do convento
a dar o seu passeio costumado
e a decorar num tom rezado e lento
um cândido sermão sobre o pecado.
Andando,andando sempre, repetia
o divino sermão piedoso e brando
e nem notou que a tarde esmorecia,
que vinha a noite plácida baixando...
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O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
o Menino Jesus baixou do céu,
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Perto, uma bica de água murmurante
juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.
De braço dado para a fonte vinha
um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
ele trazia o coração no peito !
Sem suspeitarem de que alguém os visse,
trocaram beijos, ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
_ Ó Frei António, o que foi aquilo?
O Santo, erguendo a manga do burel
para tapar o noivo e a namorada,
mentiu com a voz doce como omel:
_ Não sei que fosse.Eu cá não ouvi nada...
Uma risada límpida e sonora
vibrou, em notas de oiro pelo caminho.
_ Ouviste ,Frei António ? Ouviste agora?
_Ouvi,Senhor,ouvi.É um passarinho...
_ Tu não estás com a cabeça boa!
Um passarinho a cantar assim?
E o pobre Santo António de Lisboa
calou~se, embaraçado, mas por fim.
corado, como as vestes dos cardeais,
achou esta saída redentora :
Se o Menino Jesus pergunta mais,
queixo-me a sua Mãe, Nossa Senhora !
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Pegou-lhe ao colo e acrescentou: _Jesus,
são horas. E abalaram pró convento.
´
Foi nestes namorados que hoje me apeteceu pensar.Sem presentes do estilo shoping-center, sem jantares com menus afrodisíacos, sem ramos de muitas dezenas de rosas... Apenas com beijos ,se possível, ao luar, com alegria transbordante e... com um suavíssimo Santo António a
pactuar com a beleza de um amor assim...

1 comentário:

jj disse...

Não conhecia este poema de Augusto Gil. Absolutamente encantadores, estes namorados!... E inspirador, o seu último parágrafo (nem calcula o quanto me revejo nele).

Jinhos.