02 maio 2010

...que vos ameis uns aos outros.

Dou-vos um mandamento novo: amai-vos uns aos outros.Sim, como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. O sinal por que todos vos hão-de reconhecer como meus discípulos é terdes amor uns aos outros. Assim falou Jesus aos apóstolos no fim da ceia, já depois de Judas ter saído, segundo conta São João hoje.
E, a propósito, veio-me à memória o que contou o Guia que conduziu a visita que fiz ,com um grupo de professores, às Catacumbas em Roma. Nos fins do Império Romano, quando os Cristãos viviam como clandestinos, eram dadas ordens para as forças do Imperador atacarem violentamente qualquer reconhecido cristão que encontrassem sózinho em qualquer local, porque era certo e sabido que logo surgiriam de todas as sombras, de todos os cantos, vários outros para ajudá-lo, protegê-lo, mesmo com o risco de todos serem presos e torturados e este seria um bom processo para conseguir apanhar muitos cristãos de uma só vez. Porque todos se amavam uns aos outros até darem a vida uns pelos outros como lhes ensinara Jesus.
Já sabemos isto tudo há dois mil anos, mas gestos assim, neste decorrer do tempo, são os que podemos historiar, como gestos de heroicidade, que às vezes acontecem, mas tão extraordinariamente !...
No entanto, da grandiosa visão de São João, no Apocalipse, fica-nos hoje a ecoar:
O que havia anteriormente desapareceu: Vou renovar todas as coisas.
É com esta confiança que adquirimos força para persistir na nossa Fé.

01 maio 2010

As Maias

Quando eu era menina, era uso da minha Terra, da minha província, da minha gente, sair em grupos pela madrugada deste dia e ir "apanhar" o nascer do sol lá para os campos longe e não cultivados mas povoados de tufos de um arbustinho a que chamávamos maias, de pequenas flores amarelinhas, mas sem perfume. Era a celebração da chegada do mês de Maio : colher delas um bonito ramo e trazê-lo, todo flor, para dentro das nossas casas. E acreditava-se que quem não cumprisse este ritual ficaria amarelinho, pálido, todo o ano.
Tudo isto se prestava para toda a espécie de brincadeiras, namoricos incluidos, e o maior divertimento era ir atar um ramo às portas dos que tinham faltado, pressagiando-lhes assim um ano de fealdade..
Era um mundo onde ainda se não tinha perdido a inocência e onde as coisas mais simples, mais modestas, divertiam as pessoas só poque também elas eram mais simples e mais modestas.
Quanta complicação arranjámos depois, a pensar quanto somos ,quanto achamos que devemos ser importantes !
Se eu até fico agora envergonhada por não saber qual o nome e a família botânica
das belas maias que há por esses campos, coisa que, naquela época, nem sequer
molestava de longe a nossa fruição...

29 abril 2010

Sobre o Domingo do Bom Pastor

Criado que foi o hábito de deixar em post as minhas meditações sobre todas as Leituras próprias de cada Domingo, qual não é a minha perplexidade quando, falhando uma vez, me chegam reclamações pela falha...
Ora no último domingo, que era precisamente devotado ao Bom Pastor, aconteceu que fiquei sem ligação à net e consequentemente não me foi possível cumprir com esta já quase obrigação.
Escusado será dizer que não fiz texto algum nesse dia, mas ,entre muita leitura que fui buscar nesse a-propósito, reli um pequeno poema que ofereci ao meu Prior para, junto com outros textos de outros paroquianos, celebrarmos os seus ciquenta anos de sacerdócio , de Bom Pastor a exemplo de Jesus. De lá retiro uma passagem , esperando que me seja perdoado este pequeno roubo.
...E havia o rebanho. E há as suas ovelhas..
Pastor, como se diz de Jesus, no Evangelho,
dá, por sua vontade, a sua Vida
pela Vida delas, e as salvará.
E o Amor que lhes dá
é o que elas seguem.
Porque o reconhecem
por algo bem maior que a sua Voz !

Bom será recordar-se o Evangelho de São João, 10

28 abril 2010

Abril

Depois de ter-me visto privada do acesso`a internet durante todo um fim de semana alargado,é agora com uma certa volúpia (só conhecida pelos que dela se servem) que retomo a minha posição de bloguista (blogueira ? ). Empregando uma figura um tanto desairosa, direi que, à maneira de um pacífico ruminante, degluti uma substancial massa de assuntos que precisam absolutamente de ser regurgitados para adquirirem o real valor nutricional de que carece o equilíbrio das minhas sinestesias.
Este meteorologicamente extraordinário mês de Abril foi, como todos os outros, no capítulo das efemérides:todos os meus amigos fazem anos neste mês, e familiares mais próximos ou mais afastados, já falecidos uns, outros não. Sendo que o falecimento do meu marido foi neste mês, é a sua recordação de cada dia comum, avivada e elevada à máxima potência nesta época, por alguma razão que já desisti de encontrar. Instala-se uma mágoa que não é igual a mais nenhuma, e pronto!, todo o mês de Abril anda pelas margens desta fundura. Assim, é-me preciso fazer um esforço enorme para não me distrair de todo o resto.1, 4,7,8, 10, 12, 17,19, 21, 22, 23,27..., datas com pessoas que não posso, nem quero deixar de celebrar,umas porque estão vivas, outras porque já partiram e delas nos ficaram as saudades.
E pelos interstícios de tanta data surgiram os acontecimentos ocasionais que vão sempre quebrando as rotinas das maneiras mais inesperadas. Apareceu-me, por exemplo um novo membro daquela família artificial que eu tive, por via da minha madrasta que foi minha Mãe, desde os meus cinco anos. Uma jovem artista, desde há muito radicada em Nova York e que vem expondo as suas instalações em muitos mundos, mesmo orientais, preocupados com a Terra e com o que misteriosamente nós, humanos, herdamos dela enquanto nos fragmentamos em mil partes, na procura da sobrevivência talvez demasiado erradicados e urbanos. Foi um enorme prazer este encontro tão simples e descomprometido com alguém que tão bem sabe interpretar a nossa realidade tão complexa e comprometida...
Comprometida sim com as coisas grandes como a vinda do Papa e com as coisas ridículas como a guerra das nossas empregadas domésticas que consegue abalar a nossa estabilidade e exige um esforço suplementar no recurso às habituais doses
de bom senso para cada coisa, cada dia...Da vinda do Papa, por enquanto, este Abril-hall de entrada da nossa preparação receosa, mostrou-nos sobejos motivos de preocupação que ainda não me deixaram sentir o coração grande dentro do peito, como aconteceu aquando da visita de João Paulo II. Veremos depois se algo encaixa nas fragmentações de que se ocupa a minha nova Prima...
E houve a Música ! A Grande e a outra. Dizer que estive ao pé dela, a ver a gente que a ia ouvir e que eu me fiquei pelo estar perto daquilo que me encanta enquanto fui imaginando aquilo que ainda não conhecia...Explica-se mas, por agora, basta-me dizer que foi a Música assim como foi o 25 de Abril.
Estive. Em corpo e espírito. Mais em espírito. E acho que foi como eu queria que fosse.Porque fui EU que estive inteira com todas as forças que ainda vou tendo para amar, por cima de amar, por cima de amar, por cima de amar, assim mesmo,em camadas de Vida sempre nova e agradecendo-A a Deus em cada novo ABRIL.

17 abril 2010

Pela terceira vez...

Pela terceira vez Jesus está junto daqueles que tanto conviveram e partilharam com Ele e pela terceira vez eles não reconhecem aquela aparência física... Apenas um pequeno gesto, um pequeno tom, um quase nada a que um deles é mais sensível que os outros, lhes vai abrir o caminho da revelação...Homens simples,ainda não pescadores de almas como fora prometido a Pedro, eles já iam sendo temidos por muito falarem publicamente da sua confiança, mais que confiança : crença, admiração, fé, naquele que havia sido crucificado tão cruelmente e já começavam a ser açoitados e escorraçados para não incomodarem tanto... Era o princípio.

Eram pois aqueles encontros que podiam fortalecê-los. O seu Amigo, o seu Irmão, não os deixava sós, como aliás prometera. Apenas era preciso que o reconhecessem, que o soubessem encontrar. Ele sempre estava por perto...

Isto não terá nada a ver comigo ? Conosco ?
Quando aquele Companheiro da refeição comida na praia pergunta por três vezes a Pedro uma confirmação do seu amor, era enorme a sua preocupação sobre se poderia confiar-nos a nós,ovelhas do seu rebanho, a quem fosse capaz de fazer por nós o que Ele tinha feito. Receava a humana fraqueza, até a que vem pelo cansaço do envelhecimento... Humanos, nós, andaremos conscientes de quanto cuidado amoroso nos continua envolvendo ?

14 abril 2010

CAFÉ

É bem verdade que se aprende durante toda a vida.
Acabo de saber que hoje é nem mais nem menos do que o DIA INTERNACIONAL DO CAFÉ.Oh pasmo ! Oh imaginação criadora de todas as globalidades ! Oh divindade protectora de todas as artes de vender !... Então eu, que sou a grande amiga do cafézinho , vivi todos estes anos da minha vida sem saber de tão glorioso dia comemorativo ? Mas como é possível?
E onde e como e porquê teria nascido esta ideia? No Brasil, em Timor, em São Tomé? Numa esplanada de Paris ao aroma do velho café-filtre ? Na Holanda, na Turquia ? Mil e uma possibilidades para uma HISTÓRIA que eu quererei conhecer.
Apenas,pelo há muito que o amo, e pelo conforto e aconchego que ele já me proporcionou tantas vezes, me inspirei, em tempos, fazendo para ele este poeminha que hoje acho que posso, que devo, dedicar-lhe como homenagem em dia próprio :

Da cháven pequena, torneada,
evola-se o perfume...
...um quase nada
a deixar-nos na boca
um travo quente-amargo,
um azedume
um pouco adstringente
que ao culto iniciático
nos prende.

Devagarinho, muito devagar,
vai-se bebericando,
entre a volúpia do saborear
e a sedução do que se está cheirando.

E quer-se companhia.
E apetece falar
tão molemente
como o deixar escoar
co'o tempo a fantasia
e nem se aperceber
que, aos poucos, arrefece...

Mas se acontece
beber-se de um só trago,
em correria,
porque se é distraído
e é pressa que se tem,
pode reconfortar,
pode mesmo aquecer...

O que porém
não vai deixar de ser,
é uma imperdoável
heresia !...

11 abril 2010

Ver para crer...ou já não?

E uma curiosa coincidência que, tendo este meu blog o nome de Sinestesias ( que tem tudo a ver com os sentidos humanos ), seja a liturgia do dia de hoje tão marcada pela relevância que a estes mesmos sentidos vem dar o evangelista São João. Em primeiro lugar, há o tão espantoso ouvir e depois ver que ele nos conta na sua Carta e pode ter sido a razão/origem da existência dos seus testemunhos..e OUVI atrás de mim uma voz potente, uma voz semelhante à da trombeta, que dizia : o que estás a VER, escreve-o num livro e manda-o às sete igrejas . Voltei-me então para OLHAR em direcção à VOZ que me falava. ... ... VI... ... e DISSE-ME: não tenhas receio,... ... escreve pois o que VIRES: os factos presentes e os que hão-de acontecer depois deles. Tudo isto claramente amalgamado no caldo de cultura da época em que era normal a VISÃO de grandiosidades e luxos decorativos próprios dessas regiões orientais e que encontramos no Livro do Apocalipse e, em última análise ,têm também tudo a ver com os sentidos. Mas é no Evangelho deste Domingo in Albis que, pela incredulidade de Tomé, vemos quanto nós, pobres, simples seres humanos, temos necessidade dos SENTIDOS, para nos situarmos até na nossa Fé. ... chega aqui o teu dedo e VÊ as minhas mãos, aproxima a tua mão e Mete-a no meu Lado... E só então Tomé acreditou.

Foram precisas a simplicidade de criança, a confiança de fieis seguidores, a aprendizagem da convivência com o Espírito, a não entendida experiência dos êxtases, para que ,como disse então Jesus ressuscitado, fossemos dos que são felizes por acreditarem mesmo sem terem VISTO.

Não posso deixar de pensar em Saint-Exupéry quando diz que o essencial é aquilo que se nãoVÊ. Em toda a liturgia de hoje adivinhei o segredo de ter a vida em nome de Deus,por via exclusivamente da minha Fé, se bem que insuspeitadas SINESTESIAS tivessem preparado o meu caminho.



08 abril 2010

Pesadelo e realidade

Alguém sabe o que é viver-se numa grande cidade que até é apelidada de caótica pelos jornalistas da pequena crónica urbana e por aqueles que nela suam "suor e lágrimas" em horas de ponta, e nessa mesma cidade descobrir-se único e só habitante do seu prédio, rodeado de prédios vazios na totalidade, no coração de uma avenida deserta, com um ou outro carro a passar a espaços largos e sem cão, nem gato e principalmente sem pessoas a pisarem passeios ou asfalto ? Alguém viveu alguma vez uma experiência semelhante ? VIVEU, insisto. Não se trata de nenhum pesadelo, daqueles em que sentimos os pés colados a um chão sinistro, numa rua negra... Não : isto de que falo vivi-o eu em pleno Domingo de Páscoa nesta cidade de Lisboa onde pode acontecer esta coisa espantosa de toda a gente do mesmo prédio sair, sair mesmo da cidade, sendo esta migração geral num bairro, num quarteirão, numa freguesia... Assomar a uma janela, de tarde como de noite ,e ver tudo fechado, olhar as bordas dos passeios para os quais, quando dá jeito, até sobem os carros, e não ver lá nem um só estacionado, e ver de vez em quando passar um autocarro dos transportes públicos, a uma velocidade vertiginosa porque não há "clientes" nas paragens, isto adquire foros de pesadelo mesmo.
Não quero, não devo, especular sobre as várias realidades que subjazem neste acontecimento.Afora os medos reais que isto suscita, atropelam-se as conjecturas sociológicas e até políticas.Que se diz, que se explica e como, àquele ÚNICO que ficou, naturalmente só porque não PODIA ir ? Repare-se que este não poder engloba TODAS as circunstâncias impeditivas...
A pensar, quando se fala em solidariedade.

04 abril 2010

Domingo de Páscoa

...a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo e o ESPÍRITO DE DEUS movia-se sobre a superfície das águas...
Foi a partir daqui que tudo começou para nós, porque sucessivamente Deus foi vendo que tudo era bom.
Até que o Homem entrando na deriva desta sucessão, foi ocupando os seus lugares, ora tentando guiar-se a si próprio, ora deixando-se guiar, nem sempre talvez como Deus havia visto que era bom...
E chegámos à extraordinária, à espantosa, à misteriosa história de Jesus.
Que celebramos há milhares de anos, arranjando conotações com esse Universo criado - ...dois grandes luzeiros, o maior para presidir ao dia e o menor para presidir á noite...e colocou-os no firmamento dos céus. Seguindo o luzeiro menor, e tendo a terra deixado de ser informe e vazia, festejamos a Passagem, a PÁSCOA desse Jesus como nós o entendemos
Vem marcada a lilás
a Primavera !
Talvez a roxo, dos passos, dos lírios,
dos PASSOS,
dos círios,
dos Compassos
de uma interminável Procissão
de uma densa Paixão
que despenha pelos muros as glicínias
lágrimas grossas a escorrer lilás...

Pietá ainda
pelo drama da SEMENTE
que morreu,
toda a terra se alinda
pela glória dessa flor que RENASCEU !...

02 abril 2010

Sexta - feira Santa


Alexandre Herculano

A CRUZ MUTILADA

Amo-te,ó cruz,no vértice firmada
de esplêndidas igrejas;
amo-te quando, à noite,sobre a campa,
junto ao cipreste alvejas;
amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
as preces te rodeiam;
amo-te quando, em préstito festivo,
as multidões te hasteiam;
amo-te erguida no cruzeiro antigo,
no adro do presbitério,
ou quando o morto, impressa no ataúde,
guias ao cemitério;
amo-te, ó cruz, até quando, no vale,
negrejas, triste e só,
núncia do crime a que deveu a terra
do assassinado,o pó.

Porém quando mais te amo
ó cruz do meu Senhor,
é se te encontro à tarde,
antes de o sol se põr,

na clareira da serra,
que o arvoredo assombra
quando à luz que fenece
se estira a tua sombra

e o dia últimos raios
com o luar mistura,
e o seu hino da tarde
o pinheiral murmura...

28 março 2010

Quaresma 6 - Ramos


Do Evangelho de São Lucas: Jesus,à frente dos discípulos, sobe a Jerusalém... ...
e toda a multidão dos discípulos começou a louvar alegremente a Deus... ...
Não é difícil de perceber todo o reboliço e movimentação que esta subida provocava pelo caminho, para mais com a guarnição das numerosas grandes folhas de palmeira que cada um agitava, numa glória, enquanto elevava os seus louvores. Foi pois tudo isto um motivo de irritação para os fariseus e para os escribas que tentaram impor a sua indignação exigindo a Jesus que fizesse calar todo aquele aparato. E que lhes responde ELE ? Se eles se calarem, gritarão as pedras.
Quero muito guardar esta resposta de Jesus bem gravada na minha memória, no meu coração, em todo o meu potencial comunicativo, persuasivo mesmo, ser talvez até uma dessas tais pedras em quem Jesus confiava...
A subida é íngreme e vamos subindo, rodeados de fariseus e fariseísmos, não com a mesma voluntariedade de Jesus, mas tentando, tentando sempre... Bom é, por isso, que sejamos pedras e saibamos gritar... Será, como se diz, "meio caminho andado"

21 março 2010

Dia da POESIA

Os poemas antigos que fizemos,
sem sabermos porquê são sempre iguais.
Só repetimos coisas que dissemos,
a pensar que são novas e são mais...

Cheiramos outros cheiros mas sabemos
que perfumes assim são sempre iguais.
E sentimo-nos novos com o que temos
como se novos fossemos jamais !

De onde vem e porquê este sentido
de que após cada noite há outro dia ?
De o que foi ter-se-nos já perdido ?

Viver é crer na secreta magia
de poder-se passar além do permitido.
.Quem nos leva pela mão é a POESIA.

Quaresma 5

Manhã, muito cedinho, ainda enublado o céu de Jerusalém, ainda no ar aquele perfume misto de plantinhas humildes e árvores sequiosas, sai Jesus do Monte das Oliveiras aonde mais uma vez se retirara para orar pelo silêncio da noite de estrelas, e dirige-se ao Templo. Não seria sua intenção ficar cá fora, mas vê-se subitamente cercado de uma tal quantidade de gente que resolve parar por ali e sentar-se mesmo no chão para conversar com tamanho auditório... Vejo-o humilde ali, naquela posição, quase abafado pelo povo, e eu, cá atrás, espreito por entre escribas e fariseus e entrevejo-o calmo, talvez um pouco cansado, sem erguer a voz cadenciada, doce e forte em simultãneo, envolvente, a ensinar... Consigo ouvi-lo pois todos o escutam em silêncio... E,quando menos se esperava, um enorme reboliço ali atrás, uma mulher acossada por um grupo ululante,furando,furando em clamor de ameaças e insultos até tudo estacar frente a Jesus...Naquele código de justiça vigente, a mulher iria ser lapidada por acusação de adultério. E eu a olhá-la, miserável, assustada, ali de pé, frente àquele Jesus de quem certamente já ouvira a fama, suspensos todos com ela do castigo que lhe iria atribuir Aquele que só pregava justiça a todo o tempo... Escribas e fariseus não queriam senão colocar Jesus em situação difícil ali,publicamente, trazendo-lhe um "caso" difícil para se poder verificar da Sua coerência... Temi por ELE, confesso.
E aconteceu que vendo Jesus quase imóvel, e sendo agora a vozearia enorme, não consegui ouvir o que Ele falou, mas vi toda a gente começar a debandar, aos poucos, agora dois, logo um só, depois uns três e sempre assim até que só ficou a Pecadora, sempre de pé, frente a Jesus... Atrás de mim, outro curioso como eu disse-me: - ninguém se sentiu em condições de lhe atirar a primeira pedra, como ELE lhes disse... Ouvi então nitidamente aquela voz serena e doce que não se esquece, quando se tem a graça de a ouvir : ... não te condeno.Vai, e doravante não voltes a pecar !...
Nesta hora, Jerusalém já resplandecia para mim, sob um sol aberto e reconfortante que me iluminava os caminhos, mesmo por aquelas ruazinhas mais estreitas e sombrias por onde viera, antes daquele encontro junto ao Templo.

19 março 2010

No Dia do Pai

Primeiro, a mão pequenina
aprende os gestos em cruz
e a boquita já murmura
Em nome do Pai...que era
Pai do Menino Jesus...

Junto à cama, pela manhã
e à noite, à cabeceira,
aprendeu a ajoelhar
pra falar com o Pai do Céu.

Mas ao da Terra, esse Pai
que pousa em sua cabeça
a mão quente a abençoar
e o acolhe nos braços
sempre que o fazem chorar,
também aprendeu a amar
mas de uma outra maneira
com outros,diferentes laços...

Crescer...é viver partindo!
Muitas coisas aprendendo,
mas tantas não entendendo...
Ó Pais da Terra e do Céu
ainda nos estais ouvindo?

14 março 2010

Quaresma 4


GAUDETE ! ! !

Hoje os senhores Padres paramentam-se de cor- de -rosa. É, no meio da contristação da quaresma, um parêntesis de alegria. Porque se fala com muita força e bons exemplos de como nós podemos sempre contar com a infinita misericórdia de Deus. E mais : São Paulo fala-nos em reconciliação depois de nos ter dito que o que era antigo passou; tudo foi renovado, porque Deus, por Cristo, reconciliou o mundo consigo, não levando em conta as faltas dos homens por ter identificado Cristo com elas, Ele que delas nos remiu, como sabemos.

E é assim que São Lucas traz o Filho Pródigo de volta à casa do pai que o recebe em festa ( o perdão, está claro ). Só temos que pensar bem na nossa reconciliação partindo de um antigo que merece ( ou não ? ) ser renovado...Gaudete !
Nota: reprodução do quadro de REMBRANDT, O REGRESSO DO FILHO PRÓDIGO

12 março 2010

Professores e Alunos

Foi há dois dias : a última aula do Professor José Gil. Foi lá tanta gente que se tornou necessário passar o som para os corredores por onde se teve que espalhar o auditório. O meu interesse pelo tema desta aula - A formação da linguagem artística e a Filosofia - e a minha admiração pela contribuição que este filósofo tem dado para se estudar Pessoa, além de muitas outras coisas, não vêm hoje aqui à colação. O que me traz ao desabafo, à meditação, é o facto de verificar que, quase em coincidência de datas, há um professor que se aposenta entre aplausos e há outro que se suicida, por não conseguir fazer-se respeitar pelos alunos que troçavam da sua figura e desrespeitavam de toda a maneira as suas aulas de...MÚSICA !
Entretanto, tomando conhecimento desta notícia, não foi possível deixar de associar a esta tragédia a do pequeno transmontano que primeiro diziam ter-se suicidado e agora já afirmam a sua não intenção de matar-se, naquele desespero de atirar-se à tumultuosa corrente do rio.Também este rapaz terá desistido,( mesmo que não fosse em definitivo) , de encontrar o respeito pela sua humanidade da parte dos outros com quem se via obrigado a conviver diariamente.
Então pergunto-me : que mundo é este das escolas, agora ?
Conheci por dentro, primeiro como aluna, depois como professora, escolas públicas e escolas privadas. Era outro tempo, bem sei. Mas porque há-de haver uma tão grande diferença entre os "tempos" como a que vai do viver para o morrer por causa de uma destroçante sensação de incapacidade de reagir contra, de fazer valer os seus valores, de proporcionar o discernimento em uns e outros ?
Dizem os sociólogos que os naturais instintos têm que ser sujeitos a educação para o social, dizem as religiões que o outro pode até ser uma projecção do divino, dizemos nós que por alguma razoabilidade se criou um código de Direitos do Homem. E não há quem pense e faça o MUNDO pensar em tudo isto ? Os jovens, as crianças que hoje se mandam às Escolas em que é que são diferentes daqueles que já gostaram de as frequentar? E o conceito escola - professor - crescimento - aprendizagem, deixou de ter dignidade ? E PRATICABILIDADE ?
Ou bater, falar grosserias, ignorar patamares é mesmo o que as famílias praticam e os jovens apenas reproduzem ?
Diz o Proessor José Gil :No meio da grande perturbação actual.......agarramo-nos... não já ao familiarismo que explodiu como meio envolvente, mas à família desfeita ainda pertinente como ideal imaginário que se remenda todos os dias com a ajuda de psiquiatras, psicólogos e psicanalistas.
Ideal imaginário !... Que pena !

11 março 2010

Viver -quando,como,onde,porquê

Faz precisamente hoje um mês que tive a alegria de me ter sido comunicada a publicação do meu novo livro VIVER - quando,como,onde, porquê. Parecendo talvez que sou espontânea e extrovertida, há certas emoções ( grandes ou extra - ordinárias ) que me estupidificam( do verbo stupeo latino) e é mesmo preciso tempo, espaço, para eu " entrar na real" como dizem os brasileiros.
E agora que já descongelei, posso falar do que foi escrevê-lo e "fazê-lo" e publicá-lo; depois, do que foi comunicar aos amigos a sua existência e por fim do que foi aguardar os comentários ou pelo menos aquelas mostras de regozijo pela realização de um amigo, que são expectáveis.
Antes de tudo, há que explicar que não fui eu que fiz este livro.Nem nunca o teria talvez publicado se não tivesse tido quem o fizesse, como tive.
Ignorava em absoluto que existisse uma empresa editorial a que se acedia pela Net que editava sob nossa encomenda e em condições financeiras completamente originais e atractivas, e ainda sem mais nenhum incómodo para o autor para além do descarregamento do seu texto no mail da editora. Tudo isso foi uma porta que me foi aberta por aquele que conheci como o "Professor para o uso do computador" e que pouco a pouco se foi tornando amigo, conselheiro, auxiliador, sempre atento e pronto tanto a "adivinhar" o auxilio de que estou precisando no momento, como a não se furtar aos incómodos que o prestar esse auxílio lhe possa trazer. Assim, foi ele que chamou a si todas as tarefas da construção do livro, em diálogo com a Editora, ficando para mim apenas os cuidados com os textos. E eis que nos surge algo em que não pensáramos antes : a CAPA.Sem dotes de designer mas com ideias sobre o que queríamos, lembrei então uma oferta que há anos me fora feita pela minha sobrinha VERA, especialista em ilustração de livros... Na troca de dois ou três e-mails transbordantes de simplicidade e boa - vontade, ficou esboçada a capa para cuja simbologia houve troca de opiniões, tendo vencido a do Professor: a força da Vida que sempre vai vencendo os obstáculos e contratempos.
E assim ficou feito o livro.
E assim nasceu a enorme carga de gratidão que eu quero que transpareça ,antes de todo o resto, daquele objecto-livro, quando qualquer pessoa lhe pegar para o ler. Qualquer pessoa... Daqui virão, e já vieram, algumas revelações...
É a tal situação em que o símbolo da capa é afinal válido, como insistiu o Carlos, o Professor. .

09 março 2010

Dia da Mulher

...e eu que não gosto lá muito dos dias de, não é que ontem me vi comovidamente a entrar nesse dia pelas mãos de quem certamente imaginou uma Maria de Lourdes que eu não pessoalizo ?!
Podia ter-se-me enchido o peito de vaidade. Mas ao que me levaram aqueles queridos tão queridos, foi a fazer uma minuciosa revisão de vida, lenta, `a lupa, e a ficar cheia de interrogações e muito mais preocupada com aquilo de que serei capaz na progressão do meu envelhecer...

06 março 2010

Quaresma 3

Hoje, quando menos esperávamos, no meio do frio da nossa invernia persistente, sai-nos ao caminho o reconfortante calor daquela sarça ardente que encheu Moisés de espanto e de responsabilidade... EU SOU !...Tinha agora sobre os seus ombros o peso daquelas palavras saídas do fogo, com a força do fogo !Protectoras, condutoras, mas tão estranhamente misteriosas !...
Do que depois foi,nem Moisés o podia prever naquela hora, naquele espanto...Tanta coisa aconteceu ! Se aquele povo tivesse procedido como o projecto de Deus concebera para o situar na vasta terra onde corria leite e mel, nada teria sido como foi.Nem Jesus teria convivido com a injustiça, a prepotência e as suas vítimas;não teriamcertamente morrido pessoas sob o desabamento da Torre de Siloé, nem tão pouco haveria figueiras estéreis na beira dos caminhos .
O que comprendi hoje foi que me é necessária uma serena mas férrea vontade de não cair,porque, como diz São Paulo, "os desejos perversos" de todos nos arrastam uns com os outros, mesmo os que pensamos que vamos estar sempre de pé, quando o Senhor Deus nos avisa com exemplos dolorosos de quão errado é o caminho que o seu povo está a seguir...
Em presença das trágicas calamidades que esta enorme invernia tem provocado
quantos soterrariam mesmo estas Torres de Siloé ?...

28 fevereiro 2010

Quaresma 2


No alto de montanhas embrumadas
sonhei erguer também a minha tenda,
mas de nuvem nenhuma ouvi falar-me
aquela voz que eu queria a consolar-me.

De Tiago, de Pedro ou de João
o silêncio também que Jesus queria...
Gritei, interpelei, nos meus desertos
e apenas encontrei pra mim abertos

os submissos caminhos de Abraão,
e a conturbada estrada que subia...

24 fevereiro 2010

As flores que merecemos...


Completar-se-ão em Abril ciquenta e nove anos que vivo como condómina num prédio integrante de um bairro construido na época do Estado Novo com finalidades sociais. E, como tal, penso eu, foi atribuida a cada habitação uma minúscula fatia de terreno, nas trazeiras do prédio, chamando-se-lhe civicamente logradouro. Pouco mais ou menos três palmos por quatro de terreno, não é que permitem que demos asas a algumas fantasias botânicas e até bucólicas ? Logradouro é também para alguns a miniatura de uma lavoura de batatas, alfaces, favas e ainda por cima de árvores de fruto... Em suma uma pequena via de evasão muito bem pensada por quem concebeu o projecto que de certo tinha tanto de psicólogo quanto de arquitecto...
Pois bem. Agora que o Fevereiro se aproxima do fim com um curriculum de invernias desmesuradas e trágicas ( estou a falar do meu Funchal ), quando era costume estarmos já a pressentir a Primavera, olhei cá de cima o meu logradouro hoje de manhã, aproveitando uma pequena "aberta" na ventania e na chuva e_ ninguém me vai acreditar, paciência_ vieram lágrimas aos meus olhos e uma palavra de louvado seja Deus ! aos meus lábios : todos os alvíssimos jarros estão em flor, a cameleira, alvo de todos os meus orgulhos botânicos, coberta de rubras camélias e múltiplos botões, a alfazema transformada num tufo enorme e o abacateiro já criando a sua larga copa, meio verde, meio rosada, com porte já de arvoresinha que está começando a ser !... Quer dizer que a natureza cumpre. Apesar das granizadas, das geadas, das ventanias, do nosso abandono, porque durante estas intempéries nem nos aproximámos delas, as plantinhas cá estão, presentes, todas catitas, coloridas, garbosas, agora algumas a enfeitarem as minhas jarras e darem um ar de festa à minha casa, cumprindo rigorosamente o calendário.
Que lição tirar de tudo isto ? Quando eu tenho andado a pensar, desde o tsunami, passando pelos nevões mortíferos, pelas praias tragadas pelo mar, pelo terramoto do Haiti e por esta avassaladora derrocada da Madeira, tenho andado a pensar,repito, que a Natureza nos está a enviar algum recado, algum aviso, brotam-me "em casa" as flores,`a hora certa, nos dias certos, e mesmo quando eu mais preciso delas... e,talvez, quando menos as mereço ...

20 fevereiro 2010

Quaresma 1

Diz São Paulo hoje que está perto de nós a palavra, nos nossos lábios e nos nossos corações, veículo da Fé que nós "passamos" a quem está comnosco. Assim ficou comigo a palavra que li de Nicolas Malebranche :
Senhor, não te esqueças de mim!
Senhor, não te esqueças dos meus problemas, quando eu trato dos teus.
Não te esqueças mesmo quando eu não atendia nem os meus, nem os teus, mesmo quando eu arruinava os meus interesses e adiava os teus.
Quantas vezes derrubei o que tinhas edificado !
Quantas vezes profanei o que tinhas santificado !
Muitas vezes adiei a conclusão da tua obra !
Eis-me perante Ti consciente dos males que causei.
Ponho-me na tua presença como um instrumento pronto a seguir todos os teus movimentos.Ensina-me a reparar as desordens e dá-me a honra de me empregares nos teus serviços. Anima-me com o teu espírito, ilumina-me, fortalece-me.

É com palavras como estas que eu quero colmatar o que me falta para viver em plenitude a presente quaresma. Assim Deus me ajude !

18 fevereiro 2010


Férias ! Aquela primeira sílaba muito aberta, aquele F muito esguio, fazem daquela palavra uma espécie de explosão, rebentamento e ascenção,e lá vamos nós ,todos empolgados naquela direcção do que ascende, do que nos leva para cima,do que, ainda por cima, estraleja, brilha, sugere festa, alegria...
E como pode ser tudo isso em tradução baça ?
O céu carregou e adquiriu em definitivo aquela cor cinza sem manchas nem rasgões que, noutras latitudes, é prenúncio de nevão. Só que, por onde andei, o nevão não aconteceu. Veio sim um frio perto do zero e do negativo da escala ,naquele local , mas muito abaixo no negativo lá para Trás-os-Montes , Beiras e Alentejo Perdeu-se então a vontade de andar ao tempo e voltámo-nos para dentro dos quentinhos das casas com as suas labaredas de boa lenha de azinho a crepitar nas lareiras. O estralejar festivo da palavra FÉRIAS, passou a residir no estalar das grossas cavacas.
E todos os prazeres , desde a leitura partilhada e discutida, até à escolha da música mais apetecida, com as problemáticas situações a resolver em jogos de sala ingleses, e excelentes petiscos a intervalar, foram sendo adicionados ao mágico deixar correr o tempo a ver chover, através das portadas de vidro.

Perguntar-se-á se a esta espécie de pacífico torpor se poderá associar a ideia de que estas são, foram, as férias dos bailes até de manhã, dos corsos e batalhas de flores, dos concursos de trajes de mascarados, das partidas com bolos feitos de algodão,
inocentíssimos gozos e marotices de que depois ainda nos penitenciávamos na Quaresma a chegar. Poderá ser que estejamos a falar apenas de recordações que aqui e ali neste nosso país ainda muito esporadicamente se fazem lembrar?

Pois pode ser, pode! Prova disso mesmo estas pequenas férias de quatro dias apanhando esse tãoestafado Carnaval que nos tempos que passam já pouca gente atura. Os portugueses estamos menos amigos de brincar daquela maneira meio infantil que antigamente recebia o nome de entrudo e que era atrevida, galhofeira, um tanto grosseira às vezes, um tanto lasciva mas com alegria sã. Os carnavais eróticos e teatrais importáveis de outros países vieram alterar aquilo que antes poderia ter sido uma forma de purga de alguns desgostos sofridos em silêncio.

Por isso então o Carnaval passou a ser uma época para pequenas viagens, para a NEVE quase sempre... E, em matéria de neve , este Carnaval foi excelente na nossa terra! Em frio, como já
disse, excederam-se as previsões. Por detrás das grandes portadas de vidro recordáva-se a luminosa paisagem de verão e isso era já parte dos doces calorsinhos que nos envolveram estes dias... Como dizia Santa Teresa só isso basta ( bastou, digo eu...)

11 fevereiro 2010


Um dia pleno ! Isto é tão raro que até apetece registar : haver um dia em que só acontecem coisas boas, positivas,que dão alegria . A notícia da saída do meu LIVRO, tão esperada, logo à hora do pequeno almoço. Um alvoroço daqueles que se não podem suportar a´sós e vá de telefonar, comunicar, ouvir... E, dia da minha Nossa Senhora padroeira, Nossa Senhora de Lourdes ! Logo hoje ! Tive a estranha sensação de SER ! ÚNICA. ISOLADA. EU. Pronto, é vaidade.Começa-se logo a ficar IMENSA! E, subitamente,felizmente, rasga-se esta nuvem, porque alguém vem falar-nos de qualquer coisa real e comesinha, como por exemplo está na sala a administradora do condomínio...E lá retomo eu o meu tamanho real. Recebo a senhora ainda um pouco alvoroçada mas só eu o sei. Os assuntos a tratar eram simpáticos e a Senhora é-o também.A seguir, a Paróquia, na pessoa da senhora Voluntária que me assiste :" vou buscá-la espere-me às duas.Está um dia lindo.! " E esteve. Na minha Igreja, tanta gente a mimar-me e depois os cãnticos, lindos, suaves, propícios ao recolhimento, á tomada de consciência de quanto vale mesmo este tesouro que é VIVER, apesar de termos ainda no peito aquele amargo de termos perdido mais aquela amiga que partiu no domingo... Ontem, por causa disso, uma aluna trazia-me uns bolinhos feitos por ela , com o seu carinho jovem, generoso, que torna só por si a Vida bela É mesmo misterioso tudo isto que se passa em redor de estarmos vivos e gostarmos, sempre e apesar de tanta coisa que dói... A nossa Fé com os seus ritos adoça tanto as desesperanças que julgamos não poder vencer !
Foi realmente um dia feliz ,este de hoje.

07 fevereiro 2010

....ao Largo !

FAZ-TE AO LARGO ! - em São Lucas, hoje.
Devemos ler : Ultrapassa os teus limites , na nossa vida, especialmente AGORA !

05 fevereiro 2010

Ensinar Português hoje

É um fim de dia, acabadas as aulas, e posso dizer que preciso de um descanso, como um guerreiro depois da batalha. Porque é uma verdadeira luta prender o interesse e o gosto pela literatura em geral e particularmente pela poesia a rapazes de dezasseis e dezoito anos, praticantes de todos os desportos, alguns até federados, e entusiastas de toda a espécie de youtubes e ipods e ipads que há. Toda a capacidade criativa de qualquer professor de Português de hoje, tenho a certeza que esbarra com as modernas barreiras de transmissão de conhecimentos, a começar até pela própria Língua, visto que é o inglês que predomina e acontece por vezes que, para" entrarem" melhor no sentido de algumas palavras ou frases eles me perguntam mas quer dizer isto?, sendo o isto dito em inglês !
Mas a verdade é que, quanto mais avançam no cumprimento dos Programas dos respectivos anos, mais as coisas se complicam porque os autores a estudar se lhes vão revelando cada vez mais hereméticos, quase inacessíveis. O primeiro embate vem com o Fernando Pessoa e a questão dos heterónimos. Não acredito que o imenso número de estudantes dos últimos três ou cinco anos que "passou" nos exames em que os textos fossem de Pessoa seja hoje e agora conhecedor de alguma coisa que reste do que meteu na cabeça à força, para o exame apenas, não para SABER. Claro que estou a não contar com as excepçõrs que, quando aparecem são as delícias da alma de qualquer professor. Posso gabar-me de já ter tido essa experiência algumas vezes. Amarem o autor, perceberem a elegância, a ironia, a metáfora, o non-sense, a desconstrução, e o sabor das palavras...Quando isso acontece, é certo que gostam, perguntam, querem saber mais...
Todo este meu desabafo é apenas e só porque creio que o estudo do Português tem que ser conduzido noutro sentido,ou noutros sentidos, porque há demasiada variedade de interesses nos alunos de hoje e não se lhes pode exigir que amem o que nada,fora da aula, os prepara para entenderem. E acresce que os novíssimos autores se deliciam cada vez mais numa forma heremética e cabalística de se exprimirem e que a Língua portuguesa está a ser cada vez mais sacudida por enormes abanões que a diminuem em todo o terreno.
A Língua Portuguesa será ainda a nossa Pátria?

03 fevereiro 2010

...estará "o inverno fora" ?

...E não é que se confirma? Desde que sou gente que oiço " se chora, está o inverno fora, se rir está para vir" Isto quanto ao cariz meteorológico do dia. Pois ontem esteve um dia lindo ! Só um pouquinho de frio, mas até já apetecia abrir as janelas e deixar entrar a Primavera. Era o dia da Senhora das Candeias.
Hoje, que é do sol ? Chove miudinho e o céu é outra vez uma pasta de chumbo...
Grande é a sabedoria do povo !

31 janeiro 2010

AMOR

O Amor é paciente
O Amor é amável, não é invejoso.
O Amor não é vaidoso, nem soberbo, nem inconveniente.
Não é interesseiro, nem irritável, nem rancoroso.
Não se alegra com a injustiça, mas sim com o triunfo da verdade.
Tudo desculpa.
Tudo acredita.
Tudo espera.
Tudo suporta.
O Amor nunca desaparece.
São Paulo
Se eu tudo fizer sem AMOR, não serei mais do que um bronze que ressoa ou um metal que tange.

29 janeiro 2010

Quando a palavra não é de prata

Um dos provérbios que aprendi na Escola foi ... o slêncio é de ouro e a palavra é prata...Creio que me ensinaram isto, porque eu era uma tagarela muito dificilmente controlável, mas esse gosto de comunicar faz parte da minha constituição e só com o advir da maturidade me apercebi do enorme potencial do silêncio e da perigosidade da palavra...
Aconteceu-me há dias um convite encantador de uns amigos para ir com eles fazer um passeio ~por uma região que muito aprecio, de campos amplos, cultivados, aqui e ali irrigados por boas manchas de água, vizinhas ainda do Tejo, zona de boas e antigas propriedades rurais hoje conhecidas ou pela sua produção de vinho ou pela sua criação de cavalos, um país "limpo", genuino, em cujas vilas cheira a pão quente e a adegas frescas de vinhos bem perfumados...
Este convite era também para justamente almoçar , claro está que um almoço a condizer com o ambiente ... E então, com o restaurante já previamente escolhido por informação que o meu amigo procurara, vimo-nos recebidos num ambiente atraente, cavacas a arder na lareira, mesas postas com toalhas de bordadinhos simples, da região, fotos nas paredes de motivos tradicionais
do local, enfim, mesmo apetitoso para satisfazer as fomes e os frios que levávamos. E é-nos apresentada a "lista" das comidas típicas e características da terra de uma forma original pois foi feito oralmente e com explicação minuciosa da composição de cada prato, pelo dono do restaurante.Até aí, engraçado, fora do comum... Só que daí por diante nunca mais parou a catadupa de palavras com que aquele anfitrião achou por bem mimosear-nos, na ânsia de tudo contar, tudo explicar, tudo mostrar do que se fazia na casa, na terra, nos arredores, no país...
Não nos deixou um só instante e estava feliz, rejubilava, nós só podendo ir dando a menor réplica possível, já a medo, porque cada palavra nossa suscitava a tumultuosa continuação de novas explicações, apresentações etc. Aquele homem conhcia literatura, arte, história, política e tudo e tudo, para além da comida ( que aliás era excelente ) que nos punha na mesa ! ! ! Saímos bem almoçados, sim, mas sem vontade de voltar... Que pena ! O restaurante não tinha outros clientes senão nós. Seria já por isso ? Aquele homem está afogado em solidão certamente...
Mas para ele é que o silêncio seria de ouro, se tivessemos tido oportunidade de lho dizer...

24 janeiro 2010

As Palavras

São como um cristal
as palavras.
Algumas,um punhal.
um incêndio.
Outras, orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves,
tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as ouve? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
em suas conchas puras ?
EUGÉNIO DE ANDRADE - As Palavras

Hoje é realmente o dia de meditarmos sobre a força, o poder, o alcance das palavras. A LITURGIA trouxe-nos a reconstituição do primeiro dia em que o povo ouve "as palavras da Lei" lidas em grande pompa e ouvidas com lágrimas em Jerusalém reconstruida e é também o dia em que São Lucas narra a primeira apresentação de si mesmo feita por Jesus como emissário comunicador da "palavra" de Deus,na sinagoga de Nazaré.
Há ainda a lembrar que hoje é para os jornalistas em particular e até para os escritores em geral, o dia de parar um pouco a pensar em São Francisco de Sales, um seu patrono tão simpático, tão sabedor, tão amigo de escrever e ensinar cuja memória é guardada nos Colégios Salesianos...
Todas juntas andam pelo dia de hoje AS PALAVRAS, como dizia o poeta, desamparadas, inocentes, leves, mas a lembrar-nos a força suficiente que têm para vencer séculos de mensagens que, como sabemos, tanta vez chegam para abalar todo o Mundo !...

20 janeiro 2010

Haiti

Eu até nem queria escrever . Porque me ultrapassa em muito: em grandeza, em crueza, em espanto...O Haiti ! O Mundo. O Ser Humano. A Terra.
Que é tudo isto? Vejo-os, como vermes a rastejarem sobre escombros, a esgueirarem-se entre frinchas, buracos, lixos,valetas...Farejados por cães ou por malandros...Inertes mas ainda vivos... Vivos mas soterrados até nos próprios gritos...E os olhos enormes das crianças, imensos, águas paradas, glaucas, sem entenderem...Uns olhos como nunca vi, a olharem como nunca olharam...
E pairam, sobrevoam, ávidas, todas as camaras de todos os que não são dali, mas querem ver, saber de longe como se estivessem lá... Como se estivessem lá... E o que será estar lá? Com o corpo e tudo a doer, pelo calor, pelo cheiro de náusea, pela ausência de TUDO menos do quase escândalo de se sentir corpo vivo ? É generoso ESTAR ali ? Será ? Será mesmo com o que nos resta de AMOR pelo OUTRO ,neste planeta que nos cospe, nos repele, será mesmo amor ou será apenas CUMPRIR ? Tudo tão estremado agora, com a Terra a tremer mais e ainda, como ver claro entre o que é de fazer fé e o que é esvaír-se tudo para um futuro que,a haver, será estropiado de corpo e alma?

17 janeiro 2010

...não têm vinho...

Mulher, o que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora...
Sempre foi uma coisa que me chocou, desde os princípios da catequese, ouvir Jesus dirigir-se a sua Mãe dizendo "mulher". Eu nunca me dirigiria assim à minha Mãe, nem tão pouco qualquer outra pessoa que eu conheça ou tenha conhecido.Esta situação surgida no Evangelho de hoje,sobre"As bodas de Caná " veio dar-me pretexto para mais uma vez destacar a razoabilidade de muitas das nossas estranhezas perante determinados sucessos , palavras e frases que, no mínimo, nos espantam, quando não nos chocam ou até nos desnorteiam. Dizia eu, destacar a razoabilidade... Pois !É que estamos constantemente a esquecer a distância de quase 3000 anos que separa a nossa "apurada" civilização e sua civilidade daquela que nós fomos "fabricando" até agora.Como seriam
antipodamente diferentes as relações marido/mulher, pais/filhos, crentes/não crentes, etc., etc.! Mas hoje Jesus fala a sua Mãe daquela maneira como iniciei esta meditação, porque,no cumprimento da sua vida pública, é com ela convidado para uma festa de casamento e nessa festa dá.se a falha de faltar o vinho e é Maria que vem até ele como a pedir-lhe que dê remédio á situação ( Ela lá sabia porque o fazia...) , Vejamos agora os símbolos e deixemos o estilo elocutório. Ensinaram-me uma coisa junto com o enorme respeito por Jesus : é que Jesus não era um prestidigitador. Por isso nunca iria transformar a água das velhas bilhas em vinho nenhum.Simbolizavam as velhas talhas "vazias" a ausência de FÉ, a ausência de DEUS e, depois de alguns escolhidos terem feito como lhes disse Maria fazei o que ELE vos disser,começaram então aqueles que eram convidados a poder saborear "o melhor vinho", o Amor de Deus, o carinho do Espírito Santo, a presença de Jesus real mente a seu lado. Ainda hoje somos "convidados" em muitas Bodas de Caná que há por aí sem VINHO ... Em cada vez mais bodas, cada vez com mais talhas velhas e vazias...

12 janeiro 2010

Fair - play

Porque hoje tive tempo livre de outras obrigações, resolvi, dar uma volta pelo meu blog, digamos que em jeito de vamos lá ver se isto vai correspondendo ao que eu quero... E então vi "claramente visto" o nunca premeditado pendor religioso a que sou levada creio que por quase só escrever aos domingos e depois da missa. Já uma amiga me procurou carregada de teorias, teses e premonições, pensando ter descoberto razões para tal facto, mas só conseguiu com isso preocupar-me e encher-me de dúvidas... É certo que não tenho passado uma das melhores possíveis fases de saúde física e psicológica ( qual delas é consequência de qual ?), é certo que as habituais tarefas natalícias este ano me cansaram mais, mostrando a mim própria que já não chego onde chegava, é certo que a intempérie e a cor do céu não ajudaram nada a rasgos de alegria, é certo, parece-me, que perdi um bocadinho o fair-play para este jogo com o envelhecer... Talvez seja tudo isto que acaba por ir tecendo uma certa carência de espiritualidade e uma consequente menor tolerância para as banalidades quotidianas.Somos nós que escolhemos a direcção a seguir ou é uma deriva perfeitamente espontânea e natural ? Foi para recolher melhor informação que hoje vim fazer este reconhecimento . Acabara de sair uma aluna que recebe duas horas seguidas de lição sem uma quebra de alegria ou mostra de cansaço. É tão bem disposta e enche-me a casa de uma tal quantidade de valores positivos que me senti encorajada a vir ao encontro do tal vamos lá a ver...Uma pequena recuperação do fair-play necessário também para isto de escrever ainda que seja um simples blog.

10 janeiro 2010

Tirar da "prisão" os cativos...

Estamos no tal período em que Lisboa bate o dente com frio, se se levanta cedo, se anda na rua depois das cinco e tal da tarde e se em casa não tem fontes de aquecimento.Já até tem acontecido cairem uns farrapinhos de neve ! Quando eu era aluna da Faculdade, caiu mesmo um bom nevão que permitiu a alunos e alguns Mestres irmos "brincar" com a neve para o Parque Eduardo VII !
Hoje, acabada a missa das dez, começou a organizar-se um temporal com chuva gelada, nuvens pesadas e vento de rajadas e assobios, coisa que ninguém esperava depois da grande manhã primaveril do dia de ontem...É esta a despedida do tempo de Natal. Definitiva, para este 2009/2010.
Todos os textos da liturgia são hoje dedicados ao baptismo de Jesus nas águas do Jordão. Quantos de nós não vimos já em filmes óptimos a cena majestosa na sua humildade,daquele quase gigante João Baptista a fazer entrar na água a dócil figura de Jesus perante o olhar meio espantado, meio temeroso de uma pequena multidão de recém ou pré baptisados também ? E aqueles sinais de divindade e Amor de Deus, traduzidos conforme a sensibilidade do cineasta ?
Pois é aí , é nesse justo momento que podemos dizer que se apresenta "oficialmente" Jesus. É o início do que se chama a sua vida pública.
Figura humilde e obscura na sociedade em que estava inserido pela sua pertença familiar, se exceptuarmos uns pequenos episódios como a simbólica visita dos magos ou a convivência do menino com os doutores, no templo, nada, na quotidiana vida simples de Jesus o tornava sobresaliente no meio em que foi vivendo e crescendo, como Homem. Pois é então pelo Baptismo que celebramos hoje que ELE é investido na sua extraordinária Missão de abrir os olhos aos cegos e libertar...os que habitam nas trevas...
Vai começar um período pré- Pascal que corresponderá aos três anos em que se deu o desenvolvimento galopante dessa tarefa única de Alguém que teve de Deus e Homem a bondade e os sonhos...

03 janeiro 2010

Epifania

Passaram as "festas", isto é, pararam ! O que ainda não parou foi a chuva.

Hoje, Domingo da Epifania, as leituras de Isaías, de S.Paulo ou de São Mateus levam-nos para uma atmosfera de júbilo por causa da mundialização daquele Menino,digamos que oficializada pela visita dos representantes do mundo conhecido então. Os três Reis Magos, cada um sua parcela desse mundo, não são hoje particularmente celebrados, mas sim o reconhecimento oficial de que era aquele o alvo das suas homenagens,àquele a quem vinham oferecer,de joelhos, as riquezas simbólicas das suas regiões, porque como Rei o reconheciam e aceitavam. Tão bonito ! Enche-me de admiração esta vertente meia oriental de ser possível, através de símbolos e metáforas riquíssimos, construir uma História quase ingénua de acontecimentos tão extraordinariamente importantes e difíceis de explicar... E assim me encontrei beatificamente em paz, respirando fundo pela libertação das "festas" que, na sua tradução social acabam por tanto nos cansarem e, como Baltazar, Melchior e Gaspar, voltei por um outro caminho para não abrir mão da beleza do MEU Natal...

01 janeiro 2010

Primeiro dia de 2010

...do Ano-Novo espero as alvoradas
de manhãs que até hoje esperei em vão...

De um poema que escrevi há mais de cinquenta anos retiro ainda esta realidade que não seria de esperar pudesse revivê-la.A verdade porém é que podem ser outras as manhãs, mas eu continuo a ser a mesma !

30 dezembro 2009

O dia seguinte

Lembro-me de uma frase muito usada pelo Astérix que era mais ou menos: pourvu que le ciel ne nous tombe pas sur la tête...Cheguei a dizer o mesmo de mim para mim neste dia de Natal e principalmente nos dois dias seguintes. O que tem chovido, meu Deus ! E Lisboa que não gosta de chuva, direi mesmo o País, não nasceram para que neles chovesse. Nem nós, ao que parece !
E eu que,sob os insuportáveis Agostos,costumo andar a "suplicar a minha gota de água" como as árvores alentejanas da Florbela Espanca, agora já estou a dificilmente a suportar,porquetemos as paredes decasa húmidas,porque receamos obras nos telhados,porque irrompem borbotos de água pelos caixilhos das janelas que julgávamos completamente estanques e se molham as cortinas, a pingar aqui e ali, porque os livros e os nossos papéis ficam com uma textura mole, porque o jornal pela manhã me chega a dismiluinguir-se, como dizem os brasileiros, e não permite uma separação normal das folhas, e porque, se eu saio, em Lisboa não há onde pôr os pés fora de uma espessura de água inferior a cerca de centímetro e meio, mesmo em avenidas alcatroadas ou passeios de calçada à portuguesa, o que significa que só de botas ou galochas se pode tentar vencer esta ausência de escoamento de águas, coisa por mim deconhecida quando palmilhava com as minhas companheiras da Faculdade,ou com o meu namorado , o longo e multiforme percurso desde São Bento até ao Campo Pequeno sob qualquer condição atmosférica.
Tenho tido, ao longo da minha vida sempre com vizinhos, complicados problemas de relação,por causa das entradas de água da chuva na casa deles(por cima da minha) e a sequente deriva dessa água na minha casa.É também uma razão que me leva a pensar como o Astérix...
E como, até agora, nada ainda caiu na minha cabeça ( em casa) posso dizer que estou comodamente junto da lareira, a ouvir as bátegas a bater nas vidraças e com aquela sensação de quase bem-aventurança a "digerir" o meu Natal.
Aquele Natal social dos jantares e almoços, das visitas mais de carinho ou mais de circunstância, das prendas e dos presentes, dos trabalhos domésticos, dos cozinhados, e do coração a transbordar de exaltação e o corpo a transbordar de cansaço.Passo então a agradecer a Deus o ter-me realmente criado para ser
feliz porque conseguir a alegria ainda, depois de tanta, tanta amargura, tanta desilusão, tanta inquietação, medo e aflição, acumulados numa vida longa como a minha, só pode mesmo ser marca daquilo para que me destinou algomuito maior que tudo isso, certamente ainda no ventre de minha Mãe...

27 dezembro 2009

Sobre a Família

...acumula um tesouro aquele que honra sua Mãe...quem honra seu Pai terá longa vida...e obterá o perdão dos pecados. Lemos estas coisas do livro de Ben-Sirá, numa das leituras da liturgia deste dia consagrado à Família e, mais do que isto, somos levados a meditar como parece ter-se pensado no sem nùmero de dramas de famílias que, nos dias em que vivemos, se desestruturaram porque se deu lugar a que se estás na força da vida,aconteça cada vez mais que se faça o contrário do que a seguir é aconselhado ainda que ele( teu pai ) perca a razão,sê indulgente e não o desprezes. Creio que não há ninguém que não conheça pelo menos uma história de dramas destes.Por isso na época tão bela que acabamos de viver,em adoração àquele Presépio tão simbólico, ouvimos o ruido ensurdecedor, como nunca ,dos apelos a todas as imagináveis e inimagináveis acções de solidariedade organizadas ou não em grupos, campanhas, missões, correspondendo cada um desses apelos sabe-se lá a quantas faltas de indulgência ou a quantos desprezos...
Foi um tema que nos tocou na época própria. Como continuamos sendo aqueles mesmos seres pelos quais nem mesmo o sacrifício de Jesus conseguiu que circulasse só e apenas o Amor ! ! !

25 dezembro 2009

Dia de Natal

Dizia Isaías: como são graciosos, nas montanhas, os pés do mensageiro da paz! Anuncia boas-novas...Assim foi neste advento em que adivinhámos,aqui e ali, o aproximar destes pés e, nestes últimos dias, sentimos que caminharam avassaladoramente, por entre montes e vales, estradas francas e veredas sombrias...Chegaram certamente mais perto de uns do que de outros, trazendo consigo tudo o que nos ia pondo à prova, desde a má notícia que dói, até à consoladora alegria da visita carinhosa e já não esperada ou da palavra que era a única eficaz naquela hora! O Mensageiro da paz chegou uma vez mais ás nossas vidas. E nós a querê-lo, a abrirmos-lhe as nossas portas, as nossa almas, como sempre...talvez mais ansiosas, mais sequiosas do que de outras vezes, mas com os mesmos propósitos... De melhorar, de emendar, de O imitar...
Por hoje, estamos como Isaías :ainda só sabemos admirá-LO e esperar...

20 dezembro 2009

E afinal que Advento?

E chegámos ao último domingo do Advento... Voaram estas quatro semanas !
E eu, tão empenhada em fazer uma longa e serena meditação, encontro-me hoje bastante insatisfeita com o que consegui. Quisera enterrar-me bem no fundo das minhas dúvidas, das minhas imperfeições, das minhas quebras de Fé, e sentir-me lavada, como nova, por tê-las exorcizado, com o meu firme desejo de parar, de não voltar a pisar os mesmos caminhos e de apenas poder,sem vergonha, ficar ali muito tempo parada a olhar bem nos olhos aquela figurinha deitada nas palhinhas, muito menos ingénua( já !) do que a sua própria MÃE cujo olhar eu até agora sempre evitei... Mas não foi bem assim, como eu queria. É demasiado ruidosa e envolvente a vaga que nos apanha, mesmo já numamaré baixa da vida como é esta minha agora. E o pior é que foi bom e eu gostei ! ! !
Foi bom organizar uma como festinha de família para uns quantos, para celebrar o quanto os amo tal como o Senhor meu Deus os fez e os colocou na minha vida, foi bom reconhecer progressos resultantes do meu trabalho com os mais jovens e também com uma Senhora Irmã da Ordem de São João de Deus( Hospitaleira), e com uma doutoranda polaca, ainda tão jovem ( e bonita ) e tão responsável na sua inteligência, foi bom ver expostos, in memoriam, os trabalhos plásticos realizados por ex-alunos numa época conturbada deste país ,entre revoltas e cravos, foi bom ter aquele inefável prazer de reconhecer a vozinha de afinadíssimo soprano de uma ex-aluna fazendo parte de um importante CORAL DE CÃMARA que do Conservatório partiu para a Música Antiga...Foi bom ver Lisboa acender luzes de festa e o povo na rua a Ver as Luzes... Precisávamos de tudo isto, nós todos,embora seja de evitar o crer que o montar-se um presépio e o entregarmo-nos às Festas possa sequer parecer-se apenas com uma recriação teatral. Na Idade Média faziam-se representações teatrais sobre vidas de santos, nos adros fronteiros ás igrejas, para que o povo se familiarizasse com esses exemplos edificantes, e se sentisse solicitado para as boas práticas... Se o que fazemos hoje conseguir melhorar-nos a todos, como povo, porque não ? As boas tentativas como a que trouxe para este Advento terão talvez que ser menos individualistas... Ou não, apesar de tudo...

13 dezembro 2009

Merecer a Alegria

Hoje os senhores padres vestiram os seus paramentos cor-de-rosa. E as palavras dominantes em todos os textos da liturgia são rejubila, exulta, alegrai-vos, júbilo e tudo o que com alegres manifestações possa estar conectado. É porém num outro tom que, no seu Evangelho, São Lucas nos conta que João Baptista, muito interrogado por muitas pessoas e maneiras, acaba por, com as suas respostas, criar uma espécie de código de regras de como agir para, podendo aceder ao Amor de Deus, ter naturalmente também ânimo para essas alegrias.
E são estas as regras:
1ª-Quem tem duas túnicas reparta com aquele que não tem e quem tem mantimentos proceda da mesma forma.
2ª-Não exijais nada além do que vos está fixado
3ª-Não useis violência com ninguém , nem denuncieis injustamente e contentai-vos com o vosso soldo.
Diz-nos o Evangelista que estas eram exortações que João Baptista dirigia àquelas pessoas que o procuravam para que as "introduzisse" na anunciada Graça de serem baptizadas.
Digo eu agora: e nós ? Até somos baptizados. Chegarão sempre até nós estas exortações entusiasticamente clamadas no deserto para ajudar Jesus a limpar a sua eira e a recolher o trigo no seu celeiro ?...

08 dezembro 2009

Conceição, concepção


Conceição, concepção, podemos dizer que é o justo início da geração de um ser vivo e assim é com Nossa Senhora "da Conceição" e "imaculada",quando, não sendo possível precisar o momento em que São Joaquim e Santa Ana geraram Maria, a Igreja teve plena consciência de que Maria apareceu antes de Jesus, na história da nossa religião.Consequentemente entendeu dever estar fora de questão que, desde a eternidade, aquela que deveria ser a MÃE do filho de Deus já estaria escolhida desde o início dos tempos. E, como O precedeu, esta sua precedência teria que colocar o seu nascimento dentro do período do ADVENTO.Tudo isto e muito mais sobre Nossa Senhora explicou a dedicadíssima devoção de João Paulo II na Carta Encíclica Redenptoris Mater de 1987. Desta maneira aqui estamos nós então a ter dia santificado e mais um feriado nacional, que era o que mais faltava que não fosse, uma vez que até o nosso rei D.João IV pôs a coroa de Portugal sobre a fronte de Nossa Senhora...
Confesso que estas misturas de Reis com Santos à bela maneira pagã, nunca foram muito do meu agrado e tenho uma enorme saudade daquele gostinho especial que, quando eu era menina, tinha este dia a que chamávamos com toda a propriedade DIA DA MÃE. Eu sempre dava uma prendinha à minha Mãe, comprada com dinheiro que meu Pai me dava antes de sairmos as duas a fazer compras já para o Natal, eu em feriado de colégio, as lojas lindas de brilhos e cores, muitos encontros «...viva! estás mais alta e os estudos?...» e depois o máximo prazer de, numa Casa de Chá confortável ( às vezes fazia frio ou chovia fininho) tomar um chocolate quente, bem à senhora, quando calhava, com uma ou outra amiga dos meus pais por acaso encontrada naquele brouhaha de uma BAIXA de antes dos tempos dos shopings... Isso era o remate em glória daquele Dia da Mãe em que houvera farófias à sobremesa do almoço e passávamos pela Igreja a deixar umas flores( das que o meu Pai dera pela manhã à minha Mãe), antes de irmos para a Baixa,,,Nossa Senhora da Conceição era nesse tempo também mais nossa Mãe ...

06 dezembro 2009

«endireitai-lhe as veredas...»

Como o dia hoje está feio, mal disposto ! E nem chove, nem está nevoeiro, nem há um grande vento...Ontem andaram por aí com aqueles estrepitosos aspiradores das ruas e as placas relvadas ficaram um brilho de asseio. Pois o pequeno frou-frou das folhas dos olmeiros atirou-as aos punhados para os chãos e hoje está todo o verde de ontem coberto de amarelo... Não poderá a Câmara de agora fazer muito mais para, preparar o caminho do Senhor e endireitarlhe as veredas como reclamava no deserto em altos gritos, João, filho de Zacarias, ou como conta o profeta Baruc que Deus decidiu abater todo o alto monte e encher os vales,tornando a terra plana para Israel caminhar em segurança...até sob a sombra dos bosques e de toda a árvore de aroma...
Tal foi a emoção de um regresso à pátria após o cativeiro, para Baruc e tal era a indignação pelo que via para João Baptista !
Como somos seres sociais, aos tratos entre nós não podemos deixar de chamar política e assim, mantidas as devidas proporções, vemo-nos por aí, no deserto a gritar como João, com tantas veredas para endireitar e compreendemos Baruc
ainda há poucos dias quando festejámos com um feriado nacional a nossa libertação do nosso cativeiro em nossa própria pátria...
Uma sombra se projecta em tão bonitos e paralelos preparativos que gostaríamos de emparceirar com os bíblicos hoje lidos.Baruc diz Ergue-te Jerusalém,sobe ao alto ! E temos dificuldades em entender este jerusalém. Os nossos desejos não conferem agora com esse estímulo, justamente por razões políticas, um jerusalém que é agora o opressor, quando então era o oprimido.
Mas é verdade também que temos que nos transportar ao tempo de Baruc e também temos que lembrar que existe um ornato de estilo a -sinédoque -que sempre nos permitiu usar uma só palavra com um muito amplo valor semântico, podendo portanto o nome de uma só cidade ou de um só país ser apenas o representante de todo um povo que o habite. E bom será esquecermos hoje uma conotação política que nada tinha nem tem que ver com os CAMINHOS DO SENHOR que o ADVENTO nos convoca a procurar.

05 dezembro 2009

Um filme : O Leitor de Stephen Daldry

Há muito tempo que deixei de ver cinema. Que deixei de ir ao cinema. Como a muitas outras coisas.Tudo aquilo que me ponha num limitado ambiente de alienação me afugenta. Pela dificuldade que tenho depois em entrar de chofre numa outra realidade.Com os livros, às vezes quase acontece o mesmo, se são muito absorventes, mas consigo manter sempre um certo controlo sobre pausas e interrupções, que no cinema não posso fazer.Li ultimamente alguns romances, do Dan Brown e Mia Couto a José Rodrigues dos Santos e António Lobo Antunes, um pouco em sessões contínuas porque os tinha recebido ao mesmo tempo e todos me mereciam a mesma curiosidade, cada um por suas razões especiais, mas sempre consegui, depois de cada momento de leitura, centrar-me rapidamente nos meus onde, como, quando, porquê e para quê que me haviam levado a lê-los dessa forma.
Agora, porém, uma amiga trouxe-me, em vez de um livro, um filme.Como um ingrediente de peso a juntar ao que se leria, há que contar com a interpretação, o tratamento que o actor dá ao personagem e que pode ajudar ou desajudar completamente a mensagem que o autor quis passar ao criar o seu "pinóquio"... Neste filme a actriz principal é já uma ganhadora de um Óscar pelo seu talento e o seu partenaire é quanto a mim perfeito, especialmente nos seus silêncios regorgitantes de intencionalidades. O autor do livro - Bernhard Schlink - recebeu inclusivamente o prémio de Literatura do Die Welt em 1999.E assim se juntaram uns tantos ingredientes para que o filme fosse bom e premiado.
Quando eu julgo que já nada mais se poderá contar ( e me poderá ainda amarfanhar ) sobre os horrores dos campos de concentração alemães, lá aparece sempre mais uma outra perspectiva,( até o analfabetismo numa Alemanha dos anos 40! ), mais uma chaga que ainda não fechou no coração de alguém. Juntar a tanta dor, a tanta baixeza, a amostragem do erotismo que nem sob a chuva de bombas na mais desesperada miséria humana deixou de existir e fazer disso o polo comercial da história a contar ( e a vender...) isso é que serviu para que a minha alienação não fosse tão longe, mesmo ao fim de uma hora e quarenta a conviver com tudo isso.
É salutar deixar que as feridas sarem mesmo que as cicatrizes fiquem sempre a
arrepanhar um bocadinho. Fazê-las render, porquê, para quê ?...

29 novembro 2009

1ºDOMINGO DE ADVENTO

Creio que quem acaso usar vir por estas bandas, ler o que vou escrevendo, já tem como certo que eu só me dedico a esta ocupação ao domingo e quase exclusivamente para meditar por escrito sobre os textos litúrgicos desse mesmo domingo.Mas esta é apenas uma meia verdade,que hoje, primeiro domingo do ADVENTO deste ano, me pareceu ser tempo de explicar. Na verdade, o meu grande gosto é mesmo escrever sobre as leituras bíblicas por me parecer que é sempre necessário e pertinente, trazê-las para os dias de hoje e pensá-las à luz que ilumina a nossa vida de todos os dias, porque evangelhos, cartas, salmos, profecias e actos me aparecem com pessoas como nós a vivenciá-los, apenas com a diferença de que nós temos connosco a carga de 2000 a 3000 anos de mudanças civilizacionais, muita HISTÓRIA,muito mais MUNDO, muita ocidentalização, tudo em muito maiores números, sendo nós sempre a mesma matéria de quando Deus viu que tudo era BOM..Tão longe esse Génesis e como nós ficámos, por dentro, sempre tão frágeis perante todas as serpentes que cercam a ÃRVORE DA VIDA ! É pois sempre nesse espírito que me parece quase obrigatório escrever aos domingos, o que escrevo.
Porém, o meu "diário" é múltiplo, como o de todas as pessoas, só que nem sempre o meu tempo livre de obrigações me permite este luxo de sentar-me a contar o que aconteceu no meu em redor mais próximo.
Até estive doente e me tratei graças à assistência que veio dar-me uma médica da AMI a que recorro sempre que preciso, e a uma amiga que chamei para me sentir acompanhada nos meus medos, e à minha Valentina que reza rezas que só ela sabe, enquanto me serve a canja e os seus estimulantes "já vai ficar boa ".
Passado esse "cabo Bojador", como o Pessoa diz que se passa "além da dor", eu lá passei... E senti que merecia mais mimos, exactamente como quando ,em menina, convalescia de um qualquer sarampo ou bronquite...E porquê? Porque,
se partira a perna da antiquíssima mesinha baixa que eu sobrecarregava com pilhas de livros, todos "em actividade de serviço", e a minha amiga saíu, sem me dizer ao que ia , e foi pelas lojas a encontrar-me algo que era sonho antigo nunca concretizado: achar-me um fogão eléctrico à justa medida da boca da minha lareira, daqueles que simulam labaredas, lenha e tudo, para, funcionando ali, além de me aquecer, fazer esquecer a ausência da velha mesinha que ocupava o espaço demasiado próximo à lareira. Se isto não é mimo é o quê ? Mas aconteceu também que o meu professor de computador me "mimou" trazendo-me prontos uns pequnos desdobráveis com passagens de vários posts sobre o ADVENTO que tinha espalhados pelo blog e que preparara para agora partilhar com os meus amigos.E foi óptimo poder fazê-lo.
E agora aqui estou eu, após ter acendido a primeira das quatro velas que hão de alumiar-me nestas quatro semanas até ao Natal, declamando como o SALMO, fazei-me, Senhor, caminhar os vossos caminhos, ensinai-me o vosso rumo, econduzi ao caminho os pecadores, orientai os humildes na justiça e aos pobres guiai os seus passos. Dias virão...dizia hoje Jeremias.

22 novembro 2009

...o Vosso Reino

É verdadeiramente fascinante como nos envolve uma atmosfera rescendendo á grandiosidade com que Sâo João visionava as suas apoteóticas cenas do Apocalipse, através de todas as leituras deste dia que encerra um ano litúrgico a render preito à realeza de Jesus, enquanto Filho de Deus nosso Pai!
Imaginamos Daniel nas suas visões da noite a presenciar, entre as nuvens do céu, aquela entroni- zação da figura de Homem ,mal definida, junto do divino Ancião. Ecoam aos nossos ouvidos, do Apocalipse, a ELE a glória e o poder pelos tempos sem fim, enquanto todos os olhos, mesmo os que o trespassaram, O vêem caminhar entre nuvens, clamando com a sua voz poderosa Eu sou o Alfa e o Ómega, aquele que é, que era e que há-de vir...A melodia do Salmo ofusca-nos o olhar perante O Senhor vestido de majestade, REI num trono de luz.. E,por fim, com que dignidade se passa aquela conversa entre Jesus e Pilatos, sabendo bem como seriam interpretadas as palavras que dissesse É como dizes, sou Rei! Dói-nos pensar que Pilatos sabia muito bem que aquele rei não era deste Mundo, mas mesmo assim foi preciso Jesus lembrar-lhe que só o ouviriam aqueles que fossem amigos da Verdade...
É razão para termos orgulho na nossa pertença a uma religião com uma FÉ nascida nas mais luminosas e espirituais crenças e nas mais puras convicções feitas certezas...

15 novembro 2009

...às nossas portas...

A grande notícia do Evangelho de hoje vai integrar-se naquela frase que recordamos sempre de João Paulo II não tenhais medo ! Jesus afirma aos discípulos : ficai sabendo que o Filho do Homem está perto, mesmo às vossas portas, quando acontecerem todas as calamidades que associamos a um fim de mundo e de que Ele falou como tão inevitáveis quanto de data imprevisível. Portanto, temos a sua promessa de que estará a velar por nós, mesmo às nossas portas. E, ao longo das nossas vidas, não temos nós todos tido já provas de que Ele estava lá, mesmo não se tratando de nenhum fim de mundo?...

14 novembro 2009

Gerontologia

Depois de uma semana com alguma agitação, chamemos-lhe social, em que fui festejada por amigos com um dîner en ville, com direito a bolo de velas e pessoas a cantarem o "parabéns a você", e em que eu pópria recebi amigas para matar saudades conversando em redor da mesa de um almocinho gostoso, e em que ainda me vi enredada no completar de um prolongado tratamento no dentista, tudo isto concertado com o cumprimento dos horários das minhas lições, eis que chega o fim de semana que eu destinara para repouso físico e silêncio propiciadores da minha atenta dedicação à correcção de umas cinquenta e tal páginas da tese que a minha amiga Irmã Conceição está a elaborar para o seu mestrado em Saúde/ Gerontologia e me vai trazendo aos bocadinhos. Se alguém lê este post, não vai certamente pensar que eu corrijo alguma coisa de matéria tal. Eu sou apenas professora de português... Mas o que eu tenho aprendido como geronte !... Hoje travei conhecimento com dois autores,Matheus Papeleo Netto e Ferreira Novo que, para além de alguma coisa que conhecia do doutor Daniel Serrão, me deixaram cheia de conhecimentos sobre mim mesma no campo da psicologia das pessoas de idade. "Coisas que o meu coração estava a pensar" como diria o poeta, mas que não sabia que podiam ser mesmo tomadas como coisas sérias. Dos autores que referi, atrevo-me a citar algumas passagens que a minha amiga recolheu e reformulou :No seu contexto social, o idoso sente-se senhor da sua vida e das suas decisões, semdo este aspecto fundamental para a recuperação do seu equilíbrio emocional... Ou então :Pelo conteúdo das suas emoções e sentimentos percebe-se que os idosos interiorizarão o envelhecimento como algo negativo e em consequência disso deixam de lutar por uma vida mais saudável...é que, além da perda do vínculo profissional e do papel social que desfrutavam, há sempre uma baixa considerável no seu rendimento como pessoas físicas e intelectuais acrescida por vezes com a dos seus rendimentos financeiros...Bem. É de facto uma análise muito certeira dos problemas próprios dos gerontes e fico feliz por ver que há quem se preocupe com isso e, como esta religiosa da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, procure os meios científicos para lhes tornar o caminho menos duro e sofrido... Bom seria que todo este mundo globalizado no culto do que é jovem, esbelto, esperto e desportivo, percebesse que...as pessoas idosas, graças às experiências já feitas, podem dar à sociedade qualidade de vida, estabelecendo relações significativas que podem ajudar os mais novos a construir uma verdadeira sociedade de justiça e bem-estar e até de liberdade para todos.
Bom foi mesmo este dia de cinza e humidade em que me foi possível enrolar-me em silêncio e conforto para pensar em paz, tal como eu gosto !

08 novembro 2009

As VIÚVAS

Não, eu ainda não sou a viúva de Sarepta, nem tão pouco aquela outra viúva a quem Jesus distinguiu do meio da multidão de pagantes que Ele observava junto da Sala do Tesouro.O que me interpelou nas leituras do dia de hoje foi o facto de, tanto o profeta Elias, como São Marcos, terem escolhido viúvas para suas propostas de modelo a seguir, e viúvas como sinónimos de pobreza extrema, mas também de abnegação e conformação extremas... Mas também de extremo abandono, visto que, pelo facto de não terem o apoio do marido falecido se vê que o não teriam de mais ninguém... Não cabe aqui sequer falar de estado social, mas da solidariedade e consequente partilha que Jesus incentivava nos que O seguiam. Claro que estávamos ainda nos alvores de tudo isso em Sarepta com Elias, mas com Jesus, lá estava já então a resplandecer o valor do que se dá, parte de nós, comparado com o valor do que se dá porque não nos faz falta nenhuma...E é tão grande o fosso que separa uma coisa da outra que aí Jesus achou mesmo necessário chamar a atenção para os fingimentos daqueles que, com aparências importantes e luxuosas, consomem os bens das viúvas, por entre simulacros de longas rezas. Como já tenho dito mais vezes, Jesus sabe mesmo ser duro,quando lhe parece ser preciso.
Não posso deixar de imaginá-LO hoje, ali sentado à porta de uma tesouraria de Finanças, a dizer estas coisas e a olhar piedosamente por quantas viúvas cada dia mais vão ficando mesmo sem as tais duas moedas...
Teriam mesmo passado dois mil e dez anos...?

07 novembro 2009

O Ocidente e a sua filosofia

Estando,como estou, contente com a minha posição de reformada, pela liberdade( libertação) e outras coisas, às vezes tenho saudades daqueles areópagos internacionais em que tomava parte por obrigação profissional que me permitiam contactar, à margem dos trabalhos, com pessoas de outros mundos, já nessa altura a darem passos bem mais largos do que a minha perna, em formas de estar na vida que me deixavam perceber estarem a começar a envelhecer não só os Sartres, como os Jakobson, pela força de circunstâncias de uma Europa que me embalara, jovem ratinho de biblioteca, tanto neles como em estimulantes Barthes, mesmo sem os ter compreendido muito bem. Posso dizer que nesses encontros aprendi mais de Sociologia e Antropologia do que me tinha sido posível fazê-lo no meio das minhas literaturices.O certo é que tenho agora a certeza de que ,nessa época, me não enganava e esta Europa está mesmo a aculturar-se a olhos vistos...E nós, os daqueles tempos, seguramos com todas as forças as memórias possíveis( com que sonoridade se teceram despedidas a C. Lévi-Strauss há dias falecido ), porque sentimos que é uma parte do que nós somos que está a periclitar... Se falo nisto agora, é porque ontem um meu aluno que por sinal fez no ano passado, com êxito, a cadeira de Filosofia, me perguntou à queima-roupa «afinal, professora, o que é bem ao certo a FILOSOFIA ?» Falávamos de dois dos heterónimos de Pessoa. E não é que eu fiquei ali embarçada ao tentar dar-lhe de forma sucinta e quimicamente pura uma definição de algo que para mim está a ficar cada vez mais híbrido, mas também mais descaracterizado ?Pensei apelar a uma reconfortante inspiração grega mas duvido se não será antes e apenas que seja só uma pontinha de ummundo todo outro que esteja chegando até mim e por isso sinto que me fará falta ir por aí vê-lo mais de perto? Não será mesmo ?

02 novembro 2009

...repousem lá no Céu eternamente


Parafraseando o meu Camões, ele também com todos relembrado, ...se lá do assento etéreo onde subiram, memória desta vida se consente...


...e se virem que pode merecer-vos alguma coisa a dor que me ficou...saibam quanto, em várias medidas ,me faltais e me dói a saudade para sempre...


01 novembro 2009

Dia de todos os Santos

Habituados como estamos a que quase tudo o que é muito, ou grande ,nos seja apresentado em MILHÕES, é com um certo sorriso que lemos nos textos bíblicos aqueles setenta vezes sete, ou o desmultiplicar dos cidadãos de Sodoma e parece-me que, com a sua pretensão de grandiosidade, no APOCALIPSE,.
São João, ao usar o número cento e quarenta e quatro mil, estava mesmo a querer transmitir-nos a noção de um muitíssimo grande número dos que já estariam marcados por Deus, tendo-lhe parecido ser possuidor de termos de avaliação insuficientes para calcular sequer a grande multidão que ninguém podia contar que surgiu depois, proveniente de todas as nações, povos e línguas... Com uma extraordinária noção da espectacularidade dos ambientes visionados, São João põe ali perante o majestático senhor DEUS todos os que vinham da grande tribulação...E o ambiente era de festa, de louvor e de paz ali conseguida enfim...
Estávamos ainda a saborear esta ideia de uma possibilidade de virmos a engrossar a fila dos cento e quarenta e quatro mil, quando o Evangelho nos transporta para aquela maravilha de, com o Lago Tiberíades aos pés, nos sentarmos por ali sob as árvores e flores que as envolvem, ouvindo a pausada e doce voz de Jesus ensinar-nos como poderemos ser bem-aventurados...
Penso que se fosse possível eu ter lá estado,talvez tivesse tido a ousadia de agradecer-lhe a VIDA que é ainda o meu quinhão de santidade, daquela que nos deu o Senhor DEUS, pela força do Espírito Santo...

31 outubro 2009

31 de Outubro


Ardeu
como uma dor
o sol,
de todo o dia...
quem diria
que dói
com tanto ardor,
quando somente foi
parte da nossa vida
que partia ?...

28 outubro 2009

26 de Outubro


Não era justo que deixasse de registar as alegrias. Sós. Simples e estremes. Pois elas existem e inundam-nos a alma surpreendentemente, assim como um clarão de relâmpago,mas duradouro, não fugidío...
Lusco-fusco de primeiras horas do dia de aniversário. Abro a janela de par em par, porque não faz frio e ainda não há barulho. E eis que me vejo, que me sinto, envolvida por uma nuvem que descera suavemente sobre a minha casa. a minha rua, a minha cidade.afofando, envolvendo devagar, como eu já uma vez contei que experimentara,há anos à beira-mar. Foi tão reconfortante este abraço, que chorei de felicidade. Por vezes tem-se direito a ser místico ou talvez só poeta...Senti-me abraçada pelas lembranças, senti aquelas manifestações de carinhos de que fiquei privada há tantos anos... Pareceu-me, sim, que se
debruçavam sobre mim de dentro daquele nevoeiro todas as ternuras terrenas já perdidas, vindas não sei de onde...
...Não conseguirei explicar-me melhor...
Entretanto, cresceu a manhã.Como nos contos de fadas, quebrou-se o encanto.
A verdade é que passei um dia feliz, acompanhada de boas amizades e com a alma muito mais leve do que o meu corpo que os anos todos vividos vão carregando mais e mais...E quando acabei ficando de novo só, lembrei-me de um daqueles encantadores poetas japoneses cuja simbologia e poder de síntese eu tanto aprecio, que reza assim:
Le papillon est vieux
mais son âme sur les chrysanthèmes
folâtre...
tradução de G.Renondeau

25 outubro 2009

O cego,`a beira da estrada

É claro que quem escreve e publica tem que ter a noção de que está a usar uma arma que atira para um alvo não necessariamente previsto por si. Por isso eu não acredito em quem diz que escreve para seu próprio e único gosto ou apenas para desabafar... Se fosse só isso, então para quê PUBLICAR?
Isto vem-me ainda trazido à minha indignação pelos impropérios que a raiva do velho Saramago o levou a publicar. Porque ao debruçar-me sobre as leituras da liturgia de hoje, não consegui libertar o meu pensamento daquela incómoda memória e me entristeceu pensar por quanto tempo isto perdurará...
O cego que à beira da estrada gritou quanto podia e contra toda a conveniência que o mandava calar,pedindo a misericórdia de Deus através da amorosa comiseração de Jesus, é, para mim, das figuras mais pungentes de toda a imagética dos evangelhos . Sou eu, são os que só por um acaso destes podem encontrar-se com Deus e falar~lhe não só do que sofrem, mas de como O esperam , confiadamente, longamente...É o nosso grito, por aí a ecoar nas beiras de estrada deste nosso mundo AGORA...
Para os que não entendem isto, espero bem que haja outras estradas.

25deOutubro de 1147

Não posso deixar passar o aniversário desta LISBOA que eu amo sem lhe vir dar parabéns ! Foi tempo, não me lembro quanto de menina eu era, ou mesmo já de rapariga, neste dia era feriado na cidade. Como ela cresceu e como se manteve bonita ! Há por aí algumas rugas de obras a fazer-se ou de obras a deverem ser feitas... mas o TEJO e ela, ELA e o Tejo, constroem todos os dias a maravilha das cores, das luzes, dos perfumes e das requebradas curvas de compridíssima beira-de-água... Esta LISBOA que sempre amarei, enquanto puder amar...