28 janeiro 2012

Um livro-- uma surpresa

Dos vários livros que recebi de presente entre o meu aniversário e o Natal, tendo embora feito uma combinação com todos os amigos para que acabássemos com a troca de presentes, em atenção à época em que vivemos, quero assinalar especialmente um : A MENINA É FILHA DE QUEM ? de Rita Ferro. Uma autobiografia da autora, mas também da sua época, como se uma época fosse um "corpo" que se decide despir para ser visto em todas as suas fraquezas e vícios e ridículos e manias...E cumulativamente como se fosse também ,em largos traços, uma parte da minha própria biografia, uma vez que ela é quase, quase, a minha época, com uns ligeiríssimos desfasamentos. Quero particularmente citar aqui ,com o devido respeito pela autora, um rol de"deveres" sociais de que Rita Ferro se faz eco e que foram tão meus como dela e cujo esquecimento nos dias de hoje eu acho que é só de lastimar, porque, naquele tempo, nos tornavam mais leve e doce o viver quotidiano.
Tem três dias para agradecer um jantar, no máximo.
Nunca se recebe,em casa, de tailleur,~
Não se entra em casa de ninguém sem abotoar os botões do casaco,
Quando uma senhora se aproxima... ...saltas como uma mola ( a um rapazinho sentado)
Não se tira a gravata nem o laço nem mesmo no fim da festa,
Se(as meninas) um dia forem convidadas para jantar... as suas mãos nem se aproximam da carteira...
Não se diz ele ou ela se nos referimos a alguém mais velho ou nos mereça c onsideração...
Vão sempre despedir-se da dona da casa( onde estiveram numa festa qualquer)
Não se vai à missa de manga á cava...
Não se trata um tio por"você"
Encantada por ver estes conselhos em letra redonda, tomei a liberdade de vir aqui citá-los porque há certos procedimentos a que assisto hoje que me deixam chocada mas sempre tenho que resistir à tentação de acusar o erro e nada dizer ... Talvez que esse "calar" seja um preceito do tempo de agora ! ! ! Ver por exemplo um membro do governo que NUNCA abotoa o casaco nem nas ocasiões mais solenes, ver entrar na igreja de uma cidade algarvia e assistir à missa duas raparigas em bikini, ouvir e ver um jovem tratar o PAI por você, assistir a um almoço onde aparecem avulsas pessoas de certa idade e os jovens presentes e à mesa nem fazerem ao menos o simulacro de se levantarem das suas cadeiras... Experiências que naquela hora da geração da RITA FERRO e da minha ninguém por certo terá tido!
Por isso o meu prazer ao ler este livro que me caíu nas mãos em boa hora !

22 janeiro 2012

Naufrágios e Naufragos

Como quase sempre, ao domingo, depois da missa, disponho de um razoável espaço de tempo para aqui vir dar forma de letra a algumas ideias que povoam a minha cabeça com maior ou menor preponderância, às vezes por toda uma semana, outras vezes à maneira de "assalto à fortaleza", por uns momentos, e ainda, muitas vezes, como "residentes" por quase toda a vida...como "resistentes"...
Hoje, as motivações mais próximas são tais e tantas, que as ideias regurgitam... Celebrou-se religiosamente a memória de um mártir cristão do século 3 ou 4 - São Vicente - cujo corpo atirado ao Meriterrâneo dentro de qualquer espécie de barca, veio encostar a Sagres com dois corvos negros por companheiros misteriosamente presentes e insistentes tanto ou tão pouco que até Afonso Henriques, ao trazê-los a todos para Lisboa deu azo a que tais aves tivessem lugar nas insígnias da cidade.O corpo de Vicente esteve "fora", por algum tempo e por razões algo cautelares, mas a cidade acabou por os abraçar aos três, com honras e carinhos. E de barcos á deriva, de corpos neles perdidos e achados , imediatamente se agiganta na nossa cabeça o espantoso naufrágio de um verdadeiro monstro marinho, há dias, "entalado" por negligência gritante entre costas rochosas de Itália que, segundo quem sabe, eram mais do que conhecidas por tudo quanto vive e navega por aquelas paragens... Claro que dentro do monstro não havia santos certamente, mas, de um momento para o outro todos foram transformados em mártires... E onde e qual o mistério dos míticos corvos que ali faltaram ?...

15 janeiro 2012

O nosso corpo

«NÃO SABEIS QUE O VOSSO CORPO É TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO ?» da 1ª carta de São Paulo aos Coríntios que fez parte da liturgia deste primeito domingo do Tempo Comum
São Paulo entendeu, no seu apostolado junto dos "pagãos", não só catequisar ,falando da grandeza do amor de Deus como lhe fora revelada na sua conversão, mas também "educar", para erradicar comportamentos que por si só obstruiam ou destruiam a integração dos catequisados na prática da nova doutrina.É pois assim que explica que quem pratica a imoralidade contra o seu ´próprio corpo , procede contra aquilo que o SENHOR criou e "animou "amorosamente com o SEU próprio Espírito.
É este, quanto a mim, um dos vectores mais apaixonantes da minha religião e da minha Fé. E leva-me a meditações de ãmbito alargadíssimo. A saúde e a doença, a vaidade e o desleixo, a sexualidade e o amor. o pudor e a ostentação tudo cabe dentro dos cuidados de tratamento e conservação a que nos obriga esta espantosa realidade de sermos a"residência" escolhida para a divina presença neste mundo que não é apenas um conjunto de valências físicas. E temos disso provas cada dia das nossas vidas...

12 janeiro 2012

O feio e a beleza

Preciso de perguntar às minhas eis-alunas que vão sendo umas senhoras e se transformaram em amigas jovens e também a alguns dos rapazes ("doutores" ou "engenheiros" em formação ) que me mandam e-mails e boas-festas e coisas assim, que coisa é mesmo ,hoje e agora ,ser "moderno".Não estou a pensar em "escolas"que flutuam entre o artístico e o sociológico, entre o ideológico e o político-social, entre o científico e o empírico. Estou muito simplesmente e muito terra-a-terra a PRECISAR de compreender que praga ou que mau agoiro caiu sobre a BELEZA para que todas as escolhas recaiam sobre o feio ou horrível. desde os brinquedos de criança até às produções dos que reconhecemos artistas em diversíssimos ramos, passando pelas roupas, os cabelos, as atitudes e... as palavras ! ?Será realmente preciso escrever com todas as letras os mais indecentes palavrões ao descrever ou contar uma estória como muitas outras, só que a borbulhar como um esgoto entupido graças à baixeza dos vocábulos escolhidos para contá-la ? Será que um grupo de rapazes ou raparigas sãos e escorreitos que resolveram fazer música em conjunto se sentem mais felizes com a produção de uns sons entrechocados sem vislumbres de qualquer melodia, do que se todo aquele "barulho" fosse algo mais do que isso mesmo, ritmado e alegremente são e escorreito como eles próprios não querem sentir que o são ?
Tenho há alguns anos um interessantíssimo "tratado" do UMBERTO ECCO sobre a História do Feio que me levou a compreender porque quase é necessário adaptarmo-nos à existência da fealdade do mundo e como e quais e quantas têm sido ao longo da História as adesões e as reacções do Homem às suas expressões artísticas ou não.«Porém estas e estes meus futuros doutores, músicos, cientistas, economistas, professores, não fazem já parte daquilo que o ECCO investigou.E depois vem alnda a pergunta : é "moderno" ser feio ? Porquê ?
E para grande consolação da minha alma, tenho de MIA COUTO esta afirmaçâo:A Beleza tem qualqer coisa de religioso : é ela que nos religa às coisas.

Nota - O verbo latino religare é que está na origem da palavra religião.
ao

03 janeiro 2012

Alvorada

Há muitos, muitos anos, escrevia eu um poeminha inspirado no iniciar de um novo ano: do Ano Novo espero as alvoradas de manhãs que até hoje esperei em vão...Pois bem. Fico admirada, mas ainda hoje me apetece dizer a mesma coisa, embora as "alvoradas", as "manhãs" e a minha "espera" tenham agora a circunscrevê-las um muito outro caldo de cultura. Mas cá estou, de frente para o que aí vier. Ouvi há dias alguém dizer que, ao percorrermos um caminho, só lhe conheceremos a beleza se olharmos em frente ou para os planos que o ladeiam, porque se pusermos os olhos só onde pomos os pés, nenhum encanto terá a caminhada -só pedras ou buracos... Que bela perspectiva ! Pese embora todo o medo de cair com que a idade das minhas pernas me assedia constantemente, quero mesmo fazer esse exercício de olhar em frente ; só com essa atitude valerá a pena a VIDA ,agora que aqui cheguei.
Muitas coisas fazem parte dessa prática e creio não me enganar se, amando cada dia mais este país onde nasci e me fiz gente, amar cada dia mais a "gente" que se foi também fazendo "gente" noutros compassos, bem sei, mas foi podendo ser tão "bonita"...Falo de jovens e não jovens, falo dos que foram valentes e dos que sofrem e dos que não sofrem, dos que continuam sendo valentes e sorriem, e cantam e escrevem...
Tenho neste momento cinco jovens autores, já premiados,alguns, a fazerem parte da paisagem do meu caminho a percorrer agora. Vieram como prendas de Natal, que bom !
São algumas das alvoradas de manhãs que sempre continuo esperando...Também neste Novo Ano 2012.

29 dezembro 2011

Também no Natal, Camões

Tanta, tanta coisa se diz, se canta, se reza, se escreve, se lê sobre o Natal e o que a esse acontecimento anda ligado e ainda há possibilidade de alguém dizer « o quê ? ele também ?» e o «ele» é nem mais nem menos que CAMÕES. Ora leiam :
DOS CÉUS À TERRA _ dos céus à terra desce a mor beleza,
une-se à nossa carne e fá-la nobre-
e sendo a humanidade dantes pobre
hoje subida fica à mor alteza.

Busca o Senhor mais rico a mor pobreza
que a no mundo o seu amor descobre
de palhas vis o corpo tenro cobre
e por elas o mesmo Céu despreza.

Como? Deus em pobreza à Terra desce.
O que é mais pobre tanto lhe contenta
que este somente rico lhe parece-

Pobreza este presépio representa.
Mas tanto, por ser pobre, já merece,
que quanto mais o é, mais lhe contenta...

Este nosso "príncipe" sabia do que falava no seu conhecimento da pobreza e como vemos sabia bem o que sentia neste reconhecimento da cristã preferência pelos pobres !






20 dezembro 2011

Uma semana antes do Natal

Assim como nem tudo são alegrias, também nem tudo são tristezas nesta vida que temos para viver. ! ! ! Com notícias arrasadoras a caírem-nos sobre quaisquer réstias de bonomia ou esperança em cada contacto com seja o que for que fale com ou para o POVO, era para estarmos agora encolhidos nos nossos cantos, todos murchos e cinzentos sem vontade de viver, quanto mais de festejar !...Pois não é que invertemos a marcha e cada um abriu sorrisos como janelas para o belo "jardim" que é o gostar da VIDA e de vivê-la agora e já, já que é NATAL ?Então começámos a visitar-nos uns aos outros, a ir ao encontro de coisas bonitas de se ver, a recordar sem lágrimas coisas alegres ( algumas até cómicas ) de passados envelhecidos, a arejar fatiotas bem bonitas que haviam deixado de apetecer... e tudo simples,tudo fácil, sem constrangimentos... Vieram ver-me pessoas que quase tinha esquecido, chamaram-me ao telefone pessoas que me pareceu chegarem de outro planeta, convidaram-me para almoços (terão compreendido enfim que a minha idade já não permite que aceite jantares ), almoços com ementas preparadas para mim, levaram-me a livrarias e a falar com gente de ljvros, a casas de chá e margens do Tejo e, cúmulo dos cúmulos,levaram-me a ouvir música e a revisitar Lisboa ao
sol...Tudo isto dito na primeira pessoa quase não dá para recordar quantas pessoas estavam em todos estes cenários, mas estavam sim senhor, muitas e risonhas e interessadas e interessantes, conforme os a-propósitos. Estaria realmente um gigante a gritar no deserto que a VIDA é um presente com características divinais ? Certo é que, com a alma mais leve, muitos muitos de nós decidimos entregar-nos a uma espécie de volúpia de AMAR e com o peito límpido e aberto estamos a abeirar-nos da celebração da festa milenar da chegada da ESPERANÇA...

14 dezembro 2011

CONCERTO DO CORO DE CÂMARA DE LISBOA

Dia Mundial dos COROS, 11 de Dezembro de LISBOA.Basílica dos Mártires.O Chiado como uma festa. A animação de inúmeras pessoas risonhas, leves, falando alto, encontrando-se e desencontrando-se na entrada e saída de todas as lojas que se iluminaram e abriram portas para receber visitas... Desde o Largo de Camões ao Chiado, ao São Carlos, à rua do Almada e por todas aquelas redondezas pensou-se e armou-se festa , o que me fez alegremente recordar as tardes de compras de Natal da minha juventude, com a minha Mãe e com amigas, e em que por remate nos íamos sentar estafadas em volta de uma mesa na Império ou na Garret a tomar chá ou chocolate com as respectivas torradas. Como a chamada Baixa entristeceu, na mudança de tipo de vender e comprar que se foi instalando durante todos estes anos! Porém neste domingo de agora foi uma linda recordação e um magnífico introito para o principal do dia : o concerto do CORO DE CÂMARA DE LISBOA. A escolha do magnífico palco barroco que é a Basílica dos Mártires foi muito feliz pois quanto a mim esta é uma época barroca por excelência e as peças que na primeira parte foram interpretadas creio que também coincidiam com este conceito. Um coral de "anjos" diria eu, num ambiente próprio. Prelúdio de uma quase bem-aventurança a sensação que trouxemos connosco, no ressoar daquelas vozes que eu não tenho nenhuma reserva para as qualificar de inebriantes...



13 dezembro 2011

APESAR DE... (GAUDETE !)

Dói por dentro,
na alma,
esta certeza
de ir reconhecendo
os meus pontos finais.

Perfila-se-me crua
impiedosa
esta constatação
de se estarem esboroando
os meus Natais.

Não mais presépios com Deus pequenino
e seus focos de luz
direccionais.
Não mais o aroma do pinho
recamado de bolas e festões,
nem mesmo as braçadas do azevinho
agora irrepetíveis...

Tudo ficou por aí,
disperso pelos caminhos invisíveis
do eu deixar
perder-se o gosto e o jeito de enfeitar.

Resta-me apenas,
em forma de cristais indefiníveis,
um polvilho de lágrimas que brilha
se acaso me ponho a recordar...

08 dezembro 2011

MISTÉRIO

Está quase vencida a metade do tempo de meditação especialmente votada ao MISTÉRIO religioso do NATAL. Acendemos vela a vela por semana a semana.E a nossa arte ou capacidade semiológica soube encontrar vários sinais que mais não são senão o extravasar da nossa intrínseca e nunca satisfeita necessidade de encontrarmos quem nos ame, quem nos comprenda, quem nos "mime", quem dê às nossas vidas a substãncia que valerá a pena "salvar". Afinal procuramos sempre esse enigmático MENINO JESUS que acalentamos numa avassaladora onda de ternura e chega, em cada ano, sempre quando parece que mais precisamos do calor de um amor como não há... Lembro uma passagem de GEORGES BERNANOS:O INFERNO É JÁ NÃO SE PODER AMAR.Tenho esta constatação de memória e, embora ela me ocorra muitas vezes, em circunstâncias da vida para mim sempre surpreendentes por imprevisíveis,parece-me que ,agora, ela surge com toda a propriedade, como uma verruma a perfurar todos os meus gestos íntimos de boa vontade e alguma confiança ainda...
Sendo este o dia de celebrar a espantosamente misteriosa CONCEPÇÃO que haveria de nos oferecer a fonte de todas as esperanças, não podemos deixar de reconhecer que uma das sustentações maiores de todo este maravilhoso alvorecer da nossa fé e religião, é a HUMILDADE.

Estamos num mundo e num tempo em que « é demasiado fácil falar de pobreza espiritual e encher a boca de palavras piedosas, e depois não ter falta de nada, ter uma casa segura, despensa bem fornecida e várias contas no banco.»( do Irmão CARRETTO ,com. de Jesus) e perante a dor de assistir a um tal extremar de posições à nossa volta, mais denso se nos mostra este doce mistério do NATAL mais desejamos envolvermo-nos nele, como nestes silenciosos dias de nevoeiro que quase miraculosamente nos têm sido oferecidos...

27 novembro 2011

1ºDOMINGO DE ADVENTO - 2011

Porque nos deixais, Senhor, desviar dos vossos caminhos e endurecer os corações...? todos nós caímos como folhas e as nossas faltas nos levavam como o vento... ( ISAÍAS ) Deus do universo olhai... e vede,visitai a vossa vinha, protegei-a, já que a vossa mão a plantou ! ( Salmo 79/80)... fostes enriqecidos em tudo, em toda a palavra e em todo o conhecimento ( São PauloAOS CORÍNTIOS )... Acautelai-vos pois e estai alerta .É o que vos digo a todos:VIGIAI ! ! ! (( de JESUS aos discípulos, segundo São Marcos )
Todas as leituras da liturgia de hoje nos trazem eloquentes conselhos expressos de maneira .que parecem consequentes da nossa vida de agora.
Irão eles ser o leitmotiv deste ADVENTO que começa agora ?

26 novembro 2011

Passeio Outonal

Mata da Margaraça -Arganil


Entro dentro do Outono
pela floresta
que se enrola na bruma
e, túmida de vida,
vai macerando musgos e bolores
opaca, densa,
quase adormecida...
Pelo chão, as velhas folhas desmaiadas.
E, ao passo dos meus passos silenciosos,
escuto estalidos breves
e crispados
de coisas que não esperavam ser pisadas-
Bagas vermejhas, cachos entre espinhos
flamejam, capciosas,defensivas,
a proteger nas sebes os espaços...

Mas são os cogumelos insidiosos
quem se esconde pelos cantos mais discretos.

Os tons de verde todos se matizam
sob a abóbada fulva e acobreada
dos plátanos antigos como catedrais !

Adormece a floresta a aquietar-se
pra espessas, longas, noites invernais...

Cumprem-se os ritos, místicos, secretos,
de donzela a guardar-se
para as festivas bodas estivais ! ! !...


do meu livro SINESTESIAS

20 novembro 2011

Fim do Ano Comum

Digamos que o ano litúrgico também tem as suas estações que se vão sobrepondo às estações meteorológicas, existindo aliás entre umas e outras umas relações e interdependências bastante curiosas.Hoje, este domingo, celebra-se o fim deste ano litúrgico com a costumada homenagem a Cristo-Rei, e, no domingo próximo iniciamos um novo ano com acelebração do Advento.Esta será uma fase de quatro semanas em que os católicos nos prepararemos para festejar o nascimento de Jesus com todas as inerências que lhe são próprias, seguindo-se as épocas do Natal e Epifânia . E, quando o inverno já ameaça deixar-nos, começa a Quaresma que longamente nos vai aproximando da Páscoa. Já muitas vezes cheira a verão quando celebramos o Pentecostes e logo depois começa a numerosa série de Domingos Comuns cujo termo,por este ano, foi hoje.
E em boa hora .porque o "comum" destes últimos tempos foi uma tal dureza de relações no seio do comum dos homens que os fez quase descrer da misericórdia divina...
Dizia o salmo 22 cantado hoje :O Senhor é meu pastor... ... fez-me descansar nos prados verdejantes, conduziu-me às fontes mais puras e lá restaurou as minhas forças... ... Apenas quero recolher-me na crença de que todas as orações que por mim possam ter chegado aonde me guarda o meu pastor me tivessem mesmo assim "restaurado" porque nem quero imaginar o que me estaria destinado, sem essa refrescante condução. Que poderemos todos nós neste mundo de agora mesmo, se só contarmos com a nossa tão desencorajada humana condição ?
É pois ainda com esperança que partimos para o Novo Ano que para nós começa agora.

13 novembro 2011

Os talentos e a preguiça

Logo agora que não deve haver nenhum português consciente que não esteja a pôr a si próprio a vontade de resolver o problema"" o capital versus o social, ""todos com a cabeça a latejar pelo extenuante ruido das respectiva demonstrações valorizadoras que nos assediam e pretendem assustar, logo agora, dizia eu, traz-nos a liturgia uma parábola contada por São Mateus cuja "moralidade" é, nem mais, nem menos : a todo aquele que tem dar-se-á de sobejo e àquele que não tem até o que tem lhe será tirado. Ao servo inútil lançai-o às trevas...... aí haverá pranto e ranger de dentes .Uma vez mais me choca a dureza que os evangelistas colocam nas atitudes e nas falas de Jesus . Como diria alguém noutros a-propósitos, este não é o meu Jesus.Contudo foi-me feito entender que o que na verdade é aqui posto em destaque é o quanto somos obrigados a não "adormecer" sobre os talentos que nos foram atribuidos pelo Senhor nosso Deus, como qualidades inatas, capacidades úteis, não as enterrando para não se perderem, como fez o desgraçado da parábola. Entendo, mas fico-me numa atitude de discordãncia quanto ao não se cuidar zelosamente em explicar muito, em profundidade e em extensão, o que a nossa amorosa compreensão de Jesus nos permite colher desta "moralidade", pois com tanto ressentimento à flor da pele como agora a época política está estimulando, torna-se perigosíssima a não compreensão do« pranto e ranger de dentes» daqueles que não souberem fazer render as excelsas qualidades que Deus lhes deu...Será bom que todos os cristãos COMPREENDAM que não é próprio da sua fé ser preguiçoso...

07 novembro 2011

Revisão





Pode passar-se uma inteira semana mergulhada numa nuvem de recordações,receando perdê-las, deixar escapar alguma, sentindo que a sua falta seria a aridez de um deserto ou uma forma de vida a que poderia dar-se com propriedade o nome de solidão ?

01 novembro 2011

1 de Novembro




SAUDADE,
GOSTO AMARGO DE INFELIZES, DELICIOSO PUNGIR DE ACERBO ESPINHO...



( o velho romantismo que naquele tempo ainda era delicioso, embora amargo...)

30 outubro 2011

...nem vos deixeis tratar como doutores...

Estamos habituados a dizer «...como São Tomás, ouve o que ele diz e não faças o que ele faz»
Ora hoje ,São Mateus vem dizer-nos mais ou menos isso a alturas do capítulo 23 do seu Evangelho :«...não procedais segundo as suas obras,pois eles dizem e não fazem.Ligam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos homens, mas eles próprios nem com um dedo os querem deslocar... ... ...gostam do primeiro lugar nos banqu etes e dos primeiros assentos nas sinagogas, das saudações nas praças públicas e que os homens os tratem por Mestres...» relatando palavras de Jesus referidas aos fariseus e aos escribas e proferidas num incisivo apelo e conselho de humildade à multidão que o seguia. Ecoam estas palavras pelos infindos espaços de tempo e de lugar! Parecia-me ouvi~las sair da sua boca,hoje mesmo a invectivar todos esses descendentes dos fariseus de então e ,com vergonha ,teci uma oração só a pedir uma antiquíssima luz que ainda possa iluminar toda a opacidade de todos os nossos densos pecados de presunção...

28 outubro 2011

outubro

Foi-se escoando este OUTUBRO, como não me lembro de nenhum outro assim na minha vida. Enganador, disfarçado, surpreendente, traiçoeiro mesmo, ouso dizê-lo... Na minha sede da frescura que o violento verão sempre nos rouba, abri a minha janela matinal do primeiro dia deste outubro e deparei com a minha árvore, a minha rua, envolvidas naquele nevoeiro com que sonho o ano todo!... Oh como Deus é bom, como Ele é meu amigo que logo,logo assim que pôde me mandou o "meu" outubro na forma em que eu nele me delicio e me revejo ! ! ! Mas como me iludi ! Nessa mesma tarde levantou-se o véu... E, a partir daí, houve sol de novo ardente, houve calor destroçante, secura e fogos nas matas, praias onde incautos se deixaram levar sem vigilantes, um arremedo de dureza sobre homens e animais como nunca se esperaria... E os dias a passarem neste tom até que, quase no MEU dia, desabaram chuvadas súbitas a porem o povo agredido, sem telhados, sem mobílias,tudo levado por ventanias uivantes, sem ninguém entender o como e o porquê do que se estava a passar... Oh meu Deus como há-de o Homem pôr-se de acordo com um Mundo sem as doçuras do meu velho OUTUBRO ? Foi então que se abriu uma cortina a tapar toda a meteorológica confusão e decepção e ,oh meu Deus,toda a ternura de que é capaz o coração dos Homens teceu para mim um carinhoso casulo rodeando-me, envolvendo-me e fazendo pelas suas acções para comigo com que eu já não soubesse mais sequer pensar no meu fofo manto de nevoeiros ideais ! ! ! Que grande Graça ,que decerto nunca mereci, é ter AMIGOS!!!Oh meu Deus, que belo OUTUBRO!

25 outubro 2011

25 de outubro de 1147

Porque será que os bairristas fanáticos do Porto teimam em chamar MOUROS á gente de LISBOA, se os lembrados ( ou não?) mouros foram corridos da Lisboa que queriam para si, precisamente nesta data que ficou na História e até em lendas... Quem não sabe a do MARTIM MONIZ ?

22 outubro 2011

Leitura da imprensa

Está a ser cada dia mais difícil, mais dura, direi mesmo mais dolorosa, a leitura da imprensa diária de que ainda não desisti ´malgré aquele fascínio pelos noticiários televisivos ou mesmo de rádio. Culpa da minha queridíssima professora que está prestes a festejar os seus 93 anos límpidos nos seus raciocínios, memórias e projectos( ! ! !)... Culpa dela, dizia eu, porque ,professora de português, história e geografia em simultãneo no colégio de meninos e meninas que frequentei logo que saí da 4ª classe da chamada Instrução Primária,ela exigia que nos habtuássemos a ler os jornais dos nossos pais, pelo menos uma vez por semana e depois soubéssemos "contar" o que tínhamos lido... Isto, por cerca da época da Guerra de Espanha.
Adquirem- se hábitos, assim . Mas com o que se cresce, o que se vive, com o que tudo se vai formando e desformando , ler os jornais hoje é muito diferente de então. Acontece que agora me está ficando em cada dia uma sensação de boca seca, de garganta apertada e aquela insegurança de não ter a certeza de coisa nenhuma, pelo diz e contradiz quanta vez em duas páginas seguidas... Como poderia eu fazer agora um relato do que li à minha antiga professora para ela fazer dali uma aula ? ... É mesmo aí que está o mérito do "nosso tempo" dir-me -ão :a liberdade da imprensa. E lembro-me de Fernão Lopes e o seu escrúpulo...
Mas todo este "discorrer", porque hoje no meu jornal surgiu algo que adoçou a minha boca (às vezes há horas felizes, como na lotaria). Páginas ou separatas culturais todos eles acham que têm e ao lê-las as sensações não se descrevem facil ou desapaixonadamente. É uma outra história... O meu jornal , ao sábado, insere e assim lança alguns novos poetas, sem barulhos, sem alardes, sem pretensões, e eu gosto deste jeito simples de se nos oferecer...E precisamente estou aqui a chamar a nova poetisa ao convívio dos meus leitores, porque me caíu tão bem lê-la no meio de tanta"desgraceira" que me sufoca. Ora leiam :
LAPINHA -PARA LORENA
Às 21h25a ilha fecha~
o último pássaro metálico
deixando para trás os portões
encerrados das lagoas.
É um tempo de aranhas
esquecidas das teias, aves
suspensas no voo,amigos
que invocam em silêncio as estações
e recrdam ainda a Criação,
camada por camada.

Sobre os homens desce então
uma redoma de nuvens,que a estrela
única vem selar.Cada um risca
as fronteiras do sonho com as sebes
de hortênsias ou muros de basalto,
esperando depois que as três
voltas do milhafre não o surpreendam
entre as espigas altas do mundo.

E o medo torna-se subitamente
navegável, mar de minúsculas
e carnudas conchas estendido
a nossos pés, para que possamos
sempre caminhar sobre
as águas.

INÊS DIAS DO JORNAL PÚBLICO