28 maio 2011

Que bonito!

Às vezes tenho saudades daquele tempo em que ainda não me tinham ensinado a razão das coisas em si mesmas e a razão pela qual elas vinham até mim daquela forma e não de outra.
Saudades de ser criança, será? De gostar de uma musiquinha e cantá-la (que eu sempre fui muito afinada,diziam-me), de ouvir uma jovem tia dizer versos e chorar se a toada era triste, de ter medo do mar e correr para ele mal chegava à praia, de achar linda a minha professora, e... e...e até começar a ler romances e chorar ás escondidas com as infelicidades das heroínas...
Tudo perdeu esse encanto à medida que estudei e me ensinaram a LER, a ouvir música e a OLHAR para a Natureza, para os Pintores, para os Poetas. Coube-me depois ter de ensinar e jurei a mim mesma não roubar a ninguém aquela inicial pureza de "gostar porque sim" ou "não gostar porque não", antes de escolas, regras, leis...( ou até pretensiosismos de moda) . Ser-se corpo com a emoção é bom Deixemos lá os filósofos e os mestres, e os" que até sabem falar inglês", e os campeões da erudição... Pega-se num jornal e bum!

LÍRIOS

um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada

outras mãos que não as minhas haverá para o recolher

outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar depois a ausência.

Depois nem isso.

Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos

como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos.Esse dia virá.

Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento.

Ou quase assim.


Dispo agora toda esta roupa e escrevo

sem frio nem perda nem desastre.

A partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

lírios crescem no acaso vivo da relva

uma leve poeira se acrescenta ao ar que não respiro.


Chama-se Rosa Maria Martelo e eu não a conhecia!

27 maio 2011

27 de maio

Li em jornais e ouvi na rádio que hoje é o DIA DOS VIZINHOS. Alguém se lembrou ?
Vou fazer uma revisão por outros meus posts de anos anteriores para me certificar se tinha ou não obrigação de lembrar-me disto, eu com a minha teoria da vicinidade...

09 maio 2011

9 DE MAIO

Como foi bonito e aliciante o sonho da EUROPA !
Robert Schuman e Jean Monet, se voltassem a este mundo certamente chorariam os seus trabalhos hoje a desmoronarem-se...
E como eu e outros da minha geração gostámos tanto da "nossa" EUROPA !
Hoje, quando tiver uma hora livre vou ouvir a 9ª de Bethoven,ali naquela passagem. Talvez não consiga evitar uma lágrimasita...

07 maio 2011

Acordo ortográfico aliciador

230 milhões de pessoas a falarem uma mesma língua não é coisa de menosprezar. E assim é a massa humana que dá dinamismo a uma língua que até , di-lo Camões ,no Olimpo foi referida pela «Vénus Bela» nos extraordinários tempos em que os deuses discutiam a sorte dos Portugueses e ela defendia que até a língua por eles falada os tornava dignos do seu respeito pois, ao ouvi-la, «com pouca corrupção crê que é a Latina». Com um tal certificado de origem, com a evolução genealógica que vai acontecendo a todos os seres vivos, com as provas incontáveis da honradez não só de quantos a estudaram e certificaram, como do próprio comportamento dela no seu acompanhar dos tempos, ou da História, como é possível que hoje se permita o esfrangalhar de tanto património ?
Vem tudo isto à tona do meu amor que anda a tentar entender e refazer-se do enorme assalto que foi o Acordo assinado com o Brasil,tão marcado já por esta atmosfera economicista em que vivemos e, no dia de anteontem , mais um dos tais "dias de ", faltou-me o gosto, o apetite, para até com os meus alunos tentar celebrar o Dia da Língua Portuguesa.
E não é que, quase caído do céu, vem ter comigo uma certa editora Construir com um livrinho feito a pensar nas crianças, com lindinhas e apropriadas ilustrações chamadoNOVO ACORDO ORTOGRÁFICO! ?...

04 maio 2011

Comícios

Saturada,
mordaz,
penso em morder-lhes
e zás!!!

Escapa-se-lhes o sentido
do discurso loquaz...
Eles já sabem tudo,
eles sempre souberam
de tudo, tudo...
Mesmo,sendo preciso,
até mudar o Mundo...
...zás !!

Cai-lhes, redonda, aos pés,
a postura doutoral.
A máscara caída
é hedionda,sem sinais de vida...

Bonitos mesmo,os voos dos pardais
a desenharem curvas e espirais
em liberdade...

Bonito mesmo
é o tempo sem idade
na isenta paisagem de uma vida...

01 maio 2011

1 de MAIO

Decididamente já não vão chegando os 365 dias do ano para cada um ser votivo a uma intenção, uma ideia, uma pessoa... A ONU desmultiplica-se a motivar-nos para melhor tratarmos um sem número de coisas muito válidas, mas às vezes acontece que outros já tinham chegado primeiro àquele mesmo dia que ela escolhe para uma sua celebração e então lá ficamos com duas ou três intenções a "acotovelarem-se" num só dia, porque há que contar com os dias santos e com os dias nacionais, pelo menos...
Assim acontece hoje. É o 1º de Maio, dia do Trabalhador. É o 1º domingo de Maio, dia da Mãe. É o 1ºde Maio dia de São José Operário. É o 1º de Maio dia da beatificação de João Paulo II. Isto sou eu a contar só aquilo que sei, que me toca,que vem ter comigo, ou porque sempre soube, ou porque fui aprendendo. Habituei-me com dificuldade a mudar a data de festejar a Mãe,do dia 8 de Dezembro para o 1º de Maio, dia em que já aprendera, havia muitos anos, a festejar aquela faceta de São José, não como o Pai do dia 19 de Março, mas também como aquele que ensinara a Jesus e aos Homens a santidade do trabalho. Pela via,toda outra, das desigualdades entre os homens,introduzi o Dia do Trabalhador no meu calendário de há muito, e, a partir de hoje, ainda emocionada pelo que me foi dado ver através da televisão da grandiosidade de uma beatificação, passa também este a ser um dos marcos do meu 1ºdeMaio.
Karol Wojtyla é beato,para mim é santo! E não é que imagino São José a abraçá-lo com o carinho daquele pai que espera por um seu filho que já devia ter chegado e não é que vislumbro, entre névoas, lá ao fundo, minha Mãe a sorrir...?

25 abril 2011

25 de ABRIL




A soma dos dias 24 e 25 de Abril é para mim uma das piores operações de toda a matemática que, a partir de certa altura, passou a ser estruturante da minha vida. Misto de dores e alegrias, lágrimas e recordação de gritos de alegria pela primeira vez ousados, em plena rua, há uma espécie de cansaço que por demais me vai inibindo, agora. É como se os sentimentos doessem...Como se só o pensamento chegasse para viver, ou a memória... e o silêncio das coisas...

Bem , só ganhei hoje coragem para reler coisas que já escrevi, nos meus livros, nos meus blogs..

Por exemplo, há quatro anos deixei num post coisas do Sementes e Frutos, com fotografias feitas pelo meu marido no 25 de 74. Soube-me bem ir reencontrar-me lá...E para hoje, apenas mais um sinal :um grande, simbólico e radioso presente que me trouxeram logo de manhã, muito cedo, refrescante , a explodir de alegria ali e agora a encher-me a casa, partindo de uma grande jarra bem no centro da sala...

24 abril 2011

24 de Abril e também Domingo de Páscoa


DO AFAGO


Do afago, a memória, o arrepio, a mistura da pele e o sentimento. Sempre, lá bem no fundo, o ser carente ! Sempre, seja animal ou seja gente, fica aquele cordão umbilical...Um milagre da mão que tocou docemente, modificando, só pelo tocar, toda a deriva de uma certa história...

22 abril 2011

Sexta-feira santa

De ALEXANDRE HERCULANO: amo-te ó cruz... ... ... quando junto ao cipreste alvejas...

Fotografia tirada por mim em Fátima, no Calvário dos Húngaros

21 abril 2011

Quinta-feira da Semana Maior

Era uma devoção, não sei se um preceito, mas surgiu hoje na minha memória com uma doce e triste sensação de saudade : neste dia de quinta-feira santa costumava ir com a minha Mãe fazer o que se chamava "visita" a sete igrejas que, embora já prontas para a celebração da ÚLTIMA CEIA, estavam de portas abertas para receber estas visitas dos fiéis. Cresci e não me apercebi de quando é que essa prática começou a ser abandonada. Nunca mais ouvi que isso se fizesse em alguma parte. E, perdida a recordação, também foi perdido o interesse por procurar saber a razão daquele costume. Era também um acto social em que as pessoas se encontravam e lembro-me das pequenas conversas já fora da igreja, claro, tal como hoje à saída das missas.
Passado que foi o tempo da introdução nos actos de culto, pela mão dos pais, sucederam-se-me tantos anos de altos e baixos na minha relação com o DEUS da minha iniciação cristã !
Mas uma Fé mais adulta, posso dizê-lo, foi-se sedimentando, graças a muitíssimos e de várias naturezas , os tipos de"ingredientes" de onde também não ficou de fora o estudo e o querer saber...Por tudo isto, estando atenta, acabo muitas vezes por encontrar, quando menos espero, mais um tijolo para este meu edifício sempre em construção...
Hoje, no jornal que leio habitualmente, um jurista ( Pedro Lomba ) falou-nos de forma quase técnica sobre o "processo" de Jesus, pondo o enfoque principal nos esforços feitos por todos os que nele entraram para incriminar aquele que na verdade apenas queria que compreendessem que o "mundo" dele era outro, não tendo conseguido nunca ser compreendido. E de tal maneira essa dificuldade é a pedra base de todo este drama revivido agora por nós cristãos, que o jurista só pode concluir ( e nós com ele ) que «a nossa relação com o processo de Jesus é e continua a ser, em grande medida, a relação de quem não compreende» E nesta perplexidade cada vez desejamos mais esse outro Mundo, desencantados com o que temos e entendemos...

17 abril 2011

Domingo de Ramos


Quando em Jerusalém o povo, na rua, cantava louvores, dansava, gritava e agitava ramos de palmeira para festejar a chegada de Jesus que assumidamente subira à cidade montado num burrico e rodeado de discípulos, a alegria geral era tão esfusiante que irritou os fariseus e aqueles que o podiam fazer ordenaram a Jesus que fizesse parar e calar todo aquele alvoroço. E qual foi a resposta de Jesus? Se eu os mandasse calar, estas pedras falariam por eles...

Precipitou-se depois deste dia toda a quase inacreditável tragédia que levou Jesus à morte sem julgamento e por imposição dos testemunhos daquela mesma multidão que antes o havia gloriado. Não se ouviu mais falar em cantos e danças durante muito tempo, mas creio bem que as tais pedras guardaram em si sonoridades daqueles laudes de um dia e, logo que foi possível ,repercutiram em música esses antiquíssimos ecos. Desde imemoráveis épocas monacais os cãnticos acompanharam a liturgia e estimularam as sensibilidades dos fiéis. Por isso eu descubro encantada que um programa religioso da net dos nossos dia-a-dias pensou em convidar uma maestrina portuguesa para nos trazer Bach, Haendel e Stravinsky como fundos musicais das nossas orações de agora e que, coincidência ou não, se cria `na cidade, neste tempo de particular meditação religiosa cristã, um laico e popular conjunto de concertos a que se dá o nome de Dias da Música, onde, numa didática de difusão de géneros, se dá possibilidade a todas as associações de sensibilidades conformes ou não com a espiritualidade de cada um de nós. Portanto, eu creio firmemente que as pedras ficaram mesmo a desempenhar a incumbência que lhes atribuiu Jesus naquele Dia de Ramos e falam-nos á sua maneira, numa linguagem espiritual ,principalmente quando há quem deseje que nos calemos...

16 abril 2011

Uma das muitas coisas que não vieram a acontecer como eu esperava ( leia-se imaginava ) quando me reformei, e aliás deixei bem vincada essa esperança na introdução - quase justificação - do meu livro VIVER, foi a transformação da durabilidade do decorrer dos dias. Agora, como dantes, o tempo voa, as unidades métricas deste sistema pós-laboral são afinal tão curtas e voláteis como as anteriores e, sem muito bem percebermos como, damos conosco a ter vivido mais mês sobre mês, mais ano sobre ano. Isto para dizer que, num abrir e fechar de olhos, vejo outra vez chegado o Domingo de Ramos. De como vivi toda esta Quaresma não entendo que seja matéria para aqui e agora. Mas vivi-a. Não voou com o tempo. E é até por isso que hoje, que não é nada mais que o sábado anterior ao dia dos RAMOS, eu senti necessidade de registar um facto que ficou a martelar na minha cabeça como em outras quaresmas não ficara nunca. É que, diz São João-cap.Xl- após a "enormidade" da ressurreição de Lázaro, a figura, os gestos, a presença de Jesus se agigantaram de tal maneira que os pontífices e os fariseus compreenderam o "perigo" que aquele homem representava para o seu mundo e « desde aquele dia tomaram a resolução de o matar ». Nasceu pois ali aquela brutal torrente de acontecimentos que galgou por cima de todos os actos de amor, devoção ,humildade,e honestidade arrastando no seu caudal toda a brutalidade que veio a abater-se sobre aquele a quem também chamamos cordeiro pela fórma como foi por fim .imolado. Repetir tudo o que me veio à cabeça sobre como se tecem destinos a partir de um quaquer critério e como daí podem advir julgamentos farisaicos, sem se cuidar do que eles podem trazer ao mundo, não é também para ser feito aqui e agora. Amanhá é o dia em que a espontaneidade do povo vai ovacionar Jesus. Com esse povo vamos também estar...

08 abril 2011

Marta e Maria , as novas vizinhas

Já é conhecida por todos os meus amigos a teoria que defendo sobre o que eu própria classifiquei de vicinidade.Não se pode negar que os vizinhos que habitam sob o mesmo telhado que eu, que entram pela mesma porta principal no acesso a suas casas como eu, que usam as mesmas escadas e patamares que eu, e tudo isto ao longo de algumas dezenas de anos, constituem comigo,dentro da nossa cidade, do nosso bairro, da nossa avenida ou rua, uma célula social bem definida, para começar, sendo depois de entrar em linha de conta com todos os factores sentimentais e de sociabilidade que acabam sempre por uni-los mais ou menos uns aos outros conforme as suas regras educacionais, culturais ou pura e simplesmente convivenciais e de carácter. É assim que vivendo eu num prédio (a alturas tantas transformado em condomínio) há mais de cinquenta anos, não posso, num mínimo de humanidade, alhear-me das pequenas alegrias ou grandes tristezas que têm perpassado ao longo das vidas das famílias cujos corações quase oiço bater ao meu lado... Já morreram alguns. Entretanto vieram outros para os espaços que esses deixaram abertos. Houve obras, modernizações,mas os mais velhos foram ficando sempre iguais a si mesmos, acolhendo os mais novos recém-vindos com prazer e curiosidade pela novidade...Jovens casais a tornarem até o prédio mais alegre, mais vivo... Tão vivo que acaba um deles de dar a este mundo a beleza maior que é uma nova vida. E não uma, mas duas ! Pois é : agora temos duas novas vizinhinhas, uma chamada Marta e outra de nome Maria. Uma alegria ! Um refrescamento ! Um credo na Vida ! Uma Primavera a brotar de facto, muito mais eloquente do que milhares de rodriguinhos literários...Teve Jesus duas amigas, irmãs de Lázaro, que também se chamavam assim. E Ele as acompanhou e deu provas públicas de quanto as estimou sempre, com o seu Amor que náo era como qualquer outro. Oxalá seja também um Amor assim que acompanhe estas duas minhas novas vizinhas que ,para já ,são símbolo das alegrias quase pascais de que todos estávamos a precisar...

02 abril 2011

...da alegria

Há mesmo uma atmosfera de ausência de alegria ou sou apenas eu que a cultivo e a deixo envolver o meu mundo ? Mas sou capaz de jurar que ando à procura do que pode parecer-se com aquilo que me trazia sempre pronta a um "bon mot", um bom sorriso ou mesmo uma boa gargalhada. Nos jornais, nas revistas, nos programas de televisão que anunciam humor... E nada ! Olho-os através das minhas lentes, será por isso ? A notícia, o comentário, o improviso que nos chegam começaram entretanto a ser por mim classificados dentro da respectiva capacidade de ou me ralarem muito, ou me assustarem apenas ou de terem em si mesmos uma certa carga de tristezas antigas que até se transformam em memórias carinhosas ... E mais não posso fazer para aguentar-me à tona desta maré invasiva de desencanto que, qual tsunami, arrasta comsigo TUDO o que era alegre e/ou nos dava a alegria de viver q.b Sei que há alguns que não conseguem sequer o esforço da tentativa... Que nos salve a esperança que nos vem pela Fé! Hoje, lembrei João Paulo II que morreu num 2 de Abril, e o seu exemplo de vida, rememorado ,proporcionou-me um dos tais momentos carinhosos que ajudam dulcificar muito do que nos amargura...

25 março 2011

Romeu e Julieta

Como me foi surpreendente, no meio deste ramerrão diário da minha vida actual, ver-me quase por magia sentada numa plateia, a meio da tarde, em dia nem feriado,nem domingo, a assistir quase de novo comovida como aos dezoito anos, ao dramático desenrolar daquele amor paradigmático de Julieta e Romeu ! Desta vez foi em forma de bailado ( Companhia Nacional de Bailado ), um recital especialmente organizado para fins culturais, sendo a bailarina - Julieta uma perfeita imagem da pureza, da delicadeza, da frescura e ingenuidade exigíveis `a sua representação. Todos os bailarinos, aliás,eram de um nível muito bom, mas ela excedia-os isso é inegável. Também esplêndido, perfeito, era o guarda-roupa de todos os intervenientes (séc.XVI)
Dos meus contactos com as traduções deste drama de Shakespeare em peças musicais, creio que de uma ópera de Gounot a fantásticas sinfonias com corais excelentes, de Tchaikowsky e também, segundo julgo lembrar-me de Berlioz, até este bailado de Prokofief, tenho guardado sempre recordações plenas de encanto, pois às peças associo locais,e pessoas, para além do envolvimento sempre poderoso da história. Tive mesmo oportunidade de ir a Verona e imaginar in loco aquele namoro exaltado... Pois esta minha surpresa de agora agitou memórias e ofereceu-me uma actualidade que me fizeram feliz ! Tudo porque um simples gesto de amizade vem até nós,ás vezes mesmo no momento em que mais precisamos dele...

21 março 2011

Poema

silenciosamente aproximo-me do poema
circundo-o duma palavra faço nela
uma incisão deliberada

e exponho a ferida ao ar sem protegê-la
para que infecte e frutifique

de resina ainda com gosto a papel húmido
o poema cresce ramifica-se
comovidamente do cerne para a casca
inteiro liso adstringente sinuoso

mas
todo o poema é perfeitamente impuro



No Dia da Poesia, um POEMA de Vasco Graça Moura

19 março 2011

Em nome do PAI

Em nome do Pai..
E era o horizonte o fim da linha !
Partidas de chegadas,
rotas perdidas por um triz,
subitamente abertas portas antes fechadas
e ainda e sempre longe o fim da linha...
Em nome do Pai,voltar atrás por onde dantes vinha ?
Quisera , mas não sei mais fazer agora
todas as coisas que antes não fiz,,,

13 março 2011

Reconciliação - Alberto Caeiro

Sendo hoje o primeiro domingo da quaresma deste ano, procurando nós durante este período reabilitarmo-nos,já não digo perante o nosso Deus, mas mesmo perante nós próprios, todos os princípios da nossa catequese de uma vida inteira são agora particularmente revisitados, não apenas recordados, mas de tal maneira revistos, que alguns nos aparecem iluminados com uma nova luz nunca percebida antes... Foi assim que me aconteceu agora posicionar-me de outras maneiras, dentro daquele difícil capítulo de " amar os nossos inimigos", que para mim se traduz em amar TODOS, porque,embora haja pessoas de quem não gosto muito, inimigos não tenho. E então, espantosamente sem razão aparente, fui ler pela enésima vez alguns heterónimos de Fernando Pessoa dos quais geralmente não gosto, como pode não se gostar de Paula Rego por exemplo( sendo, no entanto, apaixonada pela Mensagem)- Comecei por aquele a que o Pessoa chama O Mestre :ALBERTO CAEIRO. E li algo que me fez duvidar se não estava a fazê-lo pela primeira vez, encantando-me de tal maneira que li e reli tantas vezes, como que a penitenciar-me do desprezo antigo...Foi uma reconciliação de tal forma que decidi fazer um pequeno excerto do poema motriz da "reconciliação" e trazê-lo aqui ao registo no meu post para que ,se tiver leitores, eles partilhem comigo o prazer do gozo das qualidades da expressão do sentimento do poeta, tanto na sua formatação literária como na da sensibilidade toda humana e humilde que ele aqui assume sem disfarce. Do poema VIII de O Guardador de Rebanhos « Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. Ele é o humano que é natural, Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda a certeza Que ele é o Menino Jesus verdadeiro. E a criança tão humana que é divina E esta minha quotidiana vida de poeta, E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre, E que o meu mínimo olhar Me enche de sensação E o mais pequeno som, seja do que for, Parece falar comigo. A Criança Nova que habita onde vivo Dá-me uma mão a mim E a outra a tudo o que existe E assim vamos os três pelo caminho que houver, Saltando e cantando e rindo E gozando o nosso segredo comum Que é o de saber por toda a parte Que não há mistério no mmundo E que tudo vale a pena. A Criança Eterna acompanha-me sempre. Adirecção do meu olhae é o seu dedo apontando. Omeu ouvido alegremente atento a todos os sons São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas. Damo-nos tão bem um com o outro Na companhia de tudo Que nunca pensamos um no outro. Mas vivemos juntos e dois Com um acordo íntimo Como a mão direita e a esquerda. Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas No degrau da porta de casa Graves, como convém a um deus e a um poeta, E como se cada pedra Fosse todo o universo E fosse por isso um grande perigo para ela Deixá-la caír no chão. Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens E ele sorri, porque tudo é incrível. Ri dos reis e dos que não são reis, E tem pena de ouvir falar das guerras, E dos comércios, e dos navios Que ficam,fumo no ar dos altos mares. Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade Que uma flor tem ao florescer E que anda com a luz do sol A variar os montes e os vales E a fazer doer aos olhos os muros caiados. Depois ele adormece e eu deito-o, Levo-o ao colo para dentro de casa E deito-o, despindo-o lentamente E como seguindo um ritual muito limpo E todo materno até ele estar nu. Ele dorme dentro da minha alma E às vezes acorda de noite E brinca com os meus sonhos. Vira uns de pernas para o ar, Põe uns em cima dos outros E bate as palmas sozinho Sorrindo para o meu sono. Quando eu morrer, filhinho, Seja eu a criança, o mais pequeno, Pega-me tu ao colo E leva-me para dentro da tua casa. Despe o meu ser cansado e humano E deita-me na tua cama E conta-me histórias, caso eu acorde, Para eu tornar a adormecer. E dá-me sonhos teus para eu brincar Até que nasça qualquer dia Que tu sabes qual é... Esta é a história so meu Menino Jesus. Por que razão que se perceba Não há-de ser ela mais verdadeira Que tudo quanto os filósofos pensam E tudo quanto as religiões ensinam ?

08 março 2011

Dizer de ser Mulher

Dizer de ser Mulher
será preciso?
Umas das outras nós sabemos tudo.
E a forma como damos a saber
a força imensa
da nossa fraqueza
é sendo mães, amando,
fazendo do trabalho uma alegria,
e dando tanto a todos em ternura
quanto lhes dá o pão de cada dia
por mais que seja dura
a fome sobre a mesa...
Dizer de ser Mulher
é dizer companheira
se ter um companheiro for destino.
Dizer de ser Mulher
é dizer ser presença. ser esteio,
sendo a parte mais frágil do cristal
num mundo já tão pouco cristalino...
Dizer de ser Mulher, será preciso ?

Arriscámos um dia o Paraíso
por uma convicção bem definida :
Ser Mulher afinal
já então era só
ser a fonte da VIDA ! ! !

07 março 2011

Carnaval

Domingo de CARNAVAL
Estamos em pleno período de Carnaval .Lisboa está a disfrutar os seus dias de pacatez e certamente isso acontece por esse país além, em todas as cidades e vilas e lugares que não se sentiram vocacionados para o gozo e divertimento públicos em data e hora marcadas pelos calendários internacionalizados.Se olharmos esta época como uma boa oportunidade de pausa para tarefas que mais ou menos a justifiquem,ela é pura e simplesmente deliciosa...Recordo as minhas fériasinhas em Saint Cergue e no Tirol, aquelas escapadelas de um só dia às concorridíssimas pistas de neve cujos nomes só recordo quando há transmissões de corridas pela TV...Mas isso não é aquilo a que vulgarmente se chama CARNAVAL. Esta festividade,como quase todas as que entraram na tradição popular, com mais ou menos legitimidade, vai radicar~se em tão antigas como deturpadas origens.A degradação social e moral que veio acontecendo progressivamente antes da chegada de CÉSAR ao poder,em ROMA, acrescida da quase total aceitação pelos Romanos dos nomes dos deuses gregos em substituição dos dos seus próprios deuses, tornou como que mais liberal e depois mesmo libertina a relação dos homens com os deuses, visto que os deuses gregos tinham características menos míticas e qualidades mais humanas do que os deuses romanos. E assim as inúmeras festas que eram feitas em suas homenagens foram adquirindo configurações especialíssimas consoante fosse a "esfera de acção" do deus celebrado. Foi assim que, em 186 AC, as Bacanais levaram à prisão e execução inúmeras pessoas que tomavam parte nas festas.Baco era o nome que os Romanos haviam retirado de uns gritos de euforia produzidos pelos gregos nas festas de DIONISOS, deus do vinho e dos prazeres.A isto e muito mais se deve o CARNE(M)( VALE que apareceu não logo, logo,como a medieval tradução literal do"adeus à carne", mas ainda como aquela festa em que nada parece mal, como ficou registada no adagiário português.Ignoro como o Mundo girou para que o grande Carnaval das loucuras fosse acontecer noBRASIL,ou como, no séculoXVIII, em Veneza, requintadas damas e viciosos Casanovas criaram a sua lindíssima tradição carnavalesca. Porém intuo que os rebolados nus brasileiros devem ter muito que ver com o clima e quedo-me perplexa ao ver em Portugal, agora , despirem-se com estes frios, ao sabor da imitação mais descabida...A tradição portuguesa nunca foi de nus. Estou a pensar em como se estragava a roupa, nos anos trinta ( séc.XX), quando grupos de foliões, ao virar de uma esquina, nos esborrachavam ovos e pastéis e outras coisas pastosas, sobre os fatos e os cabelos. O que eu própria sofri sendo atacada à saída do colégio , com bisnagas esguichando líquidos de que eu tinha verdadeiro terror.E as pancadas secas de uns certos saquinhos jogados com mestria para se esvaziarem de areia sobre as nossas cabeças e roupas. Mas, agora mesmo, os executantes da Dança dos Cuzes, em Cabanas de Viriato, estão vestidos da cabeça aos pés e também os coloridos Caretos são uns peludos e totais disfarces...Tudo isto nos fala de um carnaval de rua. Mas as mais lindas versões de Carnavais de Salão, bem portugueses ,de princípios do século XX,são as que me foram contadas _vividas_ pelos meus Pais.No Porto e em Beja.No Porto,uma das noites de Carnaval era de ida a um dos teatros da cidade, todos vestidos rigorosamente de gala,senhoras e senhores. E então,"jogava-se" ,em troca das serpentinas das actrizes, atirando para o palco caixas com joias verdadeiras...Em Beja, havia, no Clube, três bailes de gala ( um por cada noite), onde as ceias eram volantes.Na hora própria, entravam no salão de baile pequenos carrinhos puxados por carneiros de pêlo alvíssimo decorado com laços de fitas de cores,carrinhos esses que vinham "carregados" com as mais variadas iguarias armadas artística e tentadoramente.Os carrinhos iam circulando e todos se iam locupletando a gosto...A que distância de tudo isto fica a actual passagem de cortejos onde se mostra uma preferência nítida pela perversão na confusão dos sexos ou pelas piadas pesadas sobre política ou sobre factos sociais,tudo muito nu e...ao frioAproxima-se então de novo a época em que todos vamos saber porque dizemos CARNE(M) VALE...

01 março 2011

Tudo o que eu sei, tudo o que eu faço...

Dizia-me há dias alguém que o que deixo escrito neste SINESTESIAS enveredou definitivamente pelo caminho religioso,quase místico, e que estou assim perdendo leitores, uns porque não estão dispostos a ir por aí , outros porque deixaram de achar estimulantes quaisquer observações ou interpretações que eu expusesse por virem sempre iluminadas por uma certa monotonia de conceitos subjacentes. Pelo menos fiquei contente por falarem em "conceitos" e não em "preconceitos", porque na verdade a minha forma de ver o Mundo e os mundos não é mesmo preconceituosa. E não escolhi nenhum trilho para a ele me limitar. Reconheço que houve uma deriva no caminho que aqui encetei há cerca de cinco anos mas isso é apenas uma consequência e não uma escolha. Consequência da progressão do meu "estar na Vida", consequência da natural cada vez maior tendência para a interiorização, por sua vez também consequência da cada vez menor socialização, das cada vez mais extensas horas de solidão. Porque todos sabemos que uma coisa é pensar a VIDA e outra coisa é vivê-la.
Acredito que poucos terão entendimento para, em teoria, reconhecerem como se vive aquela a que se convencionou chamar "a terceira idade", e por isso não entendam os prazeres do silêncio, do sossego, daquilo a que podemos chamar o nosso canto, com alguns inerentes confortos que quase apenas o são para essa idade, ambientes tão propícios a olhar- se de uma maneira que vai mais ao fundo das coisas e nos eleva a nós para mais alto ( atrevo-me a dizer mais espiritual ).
´É então nessa época que entendemos a FÉ, essa mesmo, que sempre professámos e praticámos, mas que , neste novo modo de estar, como que se nos revela com outra nitidez.
Creio bem que foi esta a explicação que dei a quem me interpelou por causa da natureza dos meus posts, e também,( fazendo-se eco de julgamentos mal informados)por causa da carinhosa presença da minha paróquia em minha casa, por intermédio de senhoras voluntárias e até mesmo, menos a miúde, de alguns padres,já amigos, de cujos trabalhos universitários até vou sendo posta ao corrente. É agora e por tudo isto que rezo com profunda convicção uma pequena oração que me foi oferecida por um aluno especial de Português, um sacerdote de SCHOENSTADT, de nacionalidade peruana que fora colocado no nosso país, isto, há cerca de uns já dez anos.
Oração

O meu lar é o teu Santuário
onde Tu actuas para a glória do Pai.
Aí Ele transforma todo o meu ser
em sacrário predilecto da Trindade
onde arde sempre a luz do Santíssimo
e a chama do Amor nunca se extingue.
Tudo o que eu sou, tudo o que eu tenho,
tudo o que eu sei, tudo o que eu faço,
eu o deposito a teus pés
para fonte santa da tua glória!
Amen

20 fevereiro 2011

Ser Perfeito

...Haveis pois de ser perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito __ palavras que Jesus dirige aos discípulos, segundo São Mateus 5 - 38/48.

E torna-se-nos presente toda aquela catequese do perdão, da caridade, do amar quem não nos ama, do dar a outra face, de tudo o que nos é tão difícil, senhor Deus, porque somos SÓ humanos e raríssimas vezes nos compenetramos de que, como recorda São Paulo aos Coríntios ( 1ª-3, 16-23), Somos templo de Deus e que o Espírito Santo HABITA em nós ! ...e de que o templo de Deus é santo, e esse templo somos NÓS ! ! !
SÓ humanos, senhor Deus! às vezes acontece olharmos para trás e descobrirmos que afinal o Espírito Santo tinha estado lá, só que, na altura, não O reconhecemos ... Apenas humanos, Senhor !

13 fevereiro 2011

O Dia do Doente

Hoje, sexto domingo comum, o Cardeal Patriarca de Lisboa celebrou missa na capela de um hospital ( o de Sta Maria ), na única intenção de enfatizar o Dia do Doente, sendo que a sua homilia foi das mais bonitas e carinhosas que em iguais circunstãncias já me foi dado ouvir. O seu vocabulário foi simples e certeiro e todas as palavras pareciam vir repassadas de uma infinita ternura que era ao mesmo tempo estimulante e apelativa como convinha, tratando-se de chamar a atenção para tudo o que já se faz e o muito que ainda se pode fazer por aqueles a quem a saúde não permite serem iguais a todos os que vivem a seu lado.
Naturalmente, na sequência de uma celebração destas, o Sacramento que agora os doentes podem tomar sem aquela imagem fúnebre que durante tantos anos lhe foi atribuida,foi também concedido a alguns dos presentes que desejaram tomá-lo. E foi repetida a confirmação do que as paróquias podem ( e devem ?) fazer neste sentido de "adoçar"o amargo dos que sofrem, mesmo que seja apenas da doença da solidão.
Desta maneira, quão feliz eu me senti por ouvir como que "oficializado" o quinhão de carinho que a minha paróquia do Campo Grande me está já agora dando e do qual, confesso, nunca me senti convictamente merecedora. As senhoras visitadoras que me procuram sabem bem do embaraço com que recebo o seu "cuidar"... Tive agora mesmo, há três dias, a alegria de receber mais uma vez o Sacramento que hoje foi concedido nesta missa, em minha casa (que enfeitei de flores para o receber). E não sei explicar muito bem o que esta presença sob o meu tecto e todo este acto deixam ficar na minha vida depois...
Cito uma tradução de Lamartine que talvez seja o bom remate do que eu gostaria de dizer e não sei :
De onde me vem, meu Deus, esta paz que me inunda ? De onde me vem esta fé que transborda, em mim que muitas vezes ,indecisa e agitada, nas ondas da dúvida procurava... ...

12 fevereiro 2011

Como reconquistar a esperança?

Não posso deixar de reconhecer que, se sempre existiram os chamados "fazedores" de opinião desde os mais remotos tempos da História, actuantes com processos dos mais variados em temas, tempos, áreas de cobertura, públicos-alvo, e alvos propriamente ditos, o que se passa agora com a comunicação social , nas suas múltiplas vertentes, é verdadeiramente prodigioso.
Actuando com uma sincronia e velocidade vertiginosas, somos todos enredados na sua teia em poucos minutos e, depois, pelo espaço de tempo que essa enredadora entender que lhe é conveniente. Consegue-se assim pôr um país inteiro a preocupar-se, incomodar-se ou assustar-se com uma só coisa dominante, mas a verdade é que ,`às vezes também surgem, muito excepcionalmente, obcecações benévolas. E que até conseguem estimular quem pode, ou deve ,
para a correcção de alguma coisa.
Nos últimos tempos tão conturbados por uma decorrência económica geral, somos subitamente lançados sobre os problemas das crianças ( maltratadas, abusadas, mal educadas, mal nascidas, abandonadas e até assassinadas !) e sobre a deshumanidade com que se tratam os velhos que o país deixa morrer sozinhos depois de os ter ostracizado das mais aviltantes maneiras.
E então acontece que só estes dois polos dão para se criar todo um mundo de notícias e informações que nos preenchem páginas e horas que poderiam ser de um pouco de pausa nos nossos medos e nas nossas dores de cada dia, que desejaríamos adoçar de esperanças, mas que vão corroendo sempre mais o que deveria ser o nosso prazer de viver, talvez a nossa capacidade de optimismo, malgré tout...
Todos nós fomos e temos crianças na nossa esfera de conhecimentos as quais nos enternecem e para as quais só queremos pensar coisas boas e alegrias. Todos nós ou já somos ou estamo-nos aproximando de ser velhos , e aquele fim de vida poeticamente sonhado na doçura das nossas recordações e da ternura dos outros, está a esfumar-se nas nossas perspectivas.
Como reconquistar a esperança, hoje, esquecendo os crimes e as vilezas que, a cada hora vêm ecoar no nosso conhecimento ?

11 fevereiro 2011

A Nossa Senhora de Lourdes


A NOSSA SENHORA


O Cristovam de Pavia
trazia flores e ficava, em silêncio,
a contemplar-te.

Também te trago flores, às braçadas,
rosas bravas, brancas, encarnadas, papoilas,
malmequeres, lírios silvestres e junquilhos;
também prego os olhos no teu rosto
e, posto o meu cuidar em tuas mãos,
abismado o pensamento no teu ser,
entrego-te o coração e abandono-me.

Trago-te, Mãe, flores às braçadas,
e fico em silêncio a contemplar-te.

este poema é um dos muitos que a minha amiga e companheira de estudos MARIA DE LOURDES BELCHIOR dedicou a Nossa Senhora, sempre, enquanto viveu.






02 fevereiro 2011

Dia da Senhora das Candeias

...SE CHORA ESTÁ O INVERNO FORA, SE RIR ESTÁ PARA VIR...
Hoje está um dia glorioso,em Lisboa.
Vamos ver se, como em tantas outras coisas, funciona a sabedoria popular.

31 janeiro 2011

Monte das Bem-Aventuranças (Israel)



Se se clicar sobre a foto pode perceber-se melhor a posição relativa entre o Monte e o Mar, que é o que nos dá ali uma forma particular de embriaguês ( ou volúpia ?) de bem- aventurança...

29 janeiro 2011

Antes de janeiro acabar

Que sorte ,no decorrer de uma semana em que uma área do meu computador resolveu negar-me a sua colaboração, ter tido quem me possibilitasse fazer bonitos "embrulhos"( para mim foram como presentes de Natal ) com revisitas a Sophia de Melo Breyner, tão minha contemporânea, e a um distante São Tomás de Aquino ( século Xlll), mas qual deles para mim um pilar da cultura e da concepção que tenho dos deveres sociológicos de cada um de nós !
Se tempos houve em que muito mais se cultivava a "casa" ou melhor, o estar nela, o viver nela,isso foi uma das coisas que acabou talvez quando as mulheres começaram a trabalhar profissionalmente. Hoje ninguém pensa em visitar amigos. Só se vai à casa deles por convite para uma qualquer refeição. Se não houver esse convite pode bem acontecer que amigos, conhecidos ou até familiares passem mais de um ano sem se verem (vivendo todos na mesma cidade ). E chega a dar-se a triste circunstância de alguns só se reencontrarem, quando um deles parte do mundo e o outro lá se apresenta no velório por dever social... Bem ;deixemos esta crua realidade e lembremos, nos tempos do Eça ,a visitinha em que se entregava á empregada que abria a porta o cartão de visita ( até este nome era por essa razão) para que o levasse a anunciar quem vinha... Que era surpresa e não convidada para nenhuma refeição. Puro interesse de amizade...
Isto surgiu na sequência do meu pensamento em que verifico que em qualquer "buraquinho" de tempo livre de obrigações de trabalho, todo o mundo começa logo a pensar em...SAIR... e nunca em gozar o conforto de uma casa que hoje em dia muitos desejariam ter sem poderem.
Pois, graças a essa fixação no SAIR, as estações de rádio adquiriram o feliz hábito de, mesmo de manhã muitíssimo cedo, nos lembrarem datas ,exposições e toda a espécie de eventos comemorativos das mesmas e assim podemos nós, os mais distraídos, fazer as nossas escolhas ou planos de participação, conforme os nossos gostos ou interesses e de forma a preencher fora de casa umas horas livres de trabalho. De tal modo isto de se ter que sair se tornou imperativo, que até para as crianças os pais têm como obrigatório desandar com elas para fora de casa, levando-as seja lá para onde seja...E também estão começando a surgir espectáculos e organizações curiosíssimas só para crianças ( concertos para bébés a partir dos dois anos, por exemplo). Creio que, para uma nova forma de se estar na vida, em mobilidade, como agora se usa pensar, estamos de facto em presença de muita e engraçada criatividade. Para uma boa conversa há as tertúlias, os encontros no café ou no bar;para uma boa música há concertos mais ou menos tranquilizantes ou electrizantes e tumultuosos, conforme o tipo de estímulo que se procura, nada disto hoje se faz de portas adentro e pronto. A casa é para pouco mais do que para dormir ! ! ! Ou então vivê-la em solidão... Um eremitério !E haverá( concluo eu) poucos que conheçam então o gosto dos eremitas. Como disse ao começar este post, saborear Sophia em plena abertura para admiração e até com uns salpicos de fugitivas recordações de encontros pessoais e depois entregar em paz o espírito à meditação de um lucidíssimo santo, é, pode ser, a melhor evasão de momentos muito, muito esgotantes e até dolorosos...
Porque não descubro realmente em toda a actual ansiedade para sair senão uma tremenda necessidade de EVASÃO...
Que quase sempre decorre do "não querer" cada um encontrar-se cara a cara comsigo mesmo...

22 janeiro 2011

Campanha eleitoral

Da minha natural preferência pelas leituras do Antigo Testamento destaco ainda , depois de ISAÍAS, o livro do profeta EZEQUIEL. Encanta-me a simplicidade daqueles homens que imagino grandes e fortes , quase gigantes, e no entanto dóceis ao chamamento de Deus, o Senhor DEUS que escutavam com respeito e cujos preceitos procuravam absorver, adivinhando neles as bases da construção desta hoje já nossa sociedade de homens tão distantes daquele mundo quase rupestre quanto a Terra está do Céu... leio agora muitas vezes na net páginas ou frases que alguém cuidadosamente escolhe para nos dar a nós leitores matéria de meditação sempre adequada ao dia, à época, ao desenrolar das nossas vidas no dia a dia da nossa prática de Fé.
Passada que foi agora mesmo a conturbadíssima preparação para eleições presidenciais, hoje, dia de meditação para esse fim, "encontrei-me" com o profeta EZEQUIEL, através desta frase:Portanto livrarei as minhas ovelhas para que não sirvam mais de rapina e julgarei entre ovelhas e ovelhas.O Senhor Deus tinha constatado que a pastorícia daquelas metafóricas ovelhas vinha a ser conduzida em proveito dos pastores e não no do fortalecimento das mesmas e então clamou :ai dos pastores que se apascentarem a si mesmos !...
Após as extraordinárias queixas, acusações, insinuações e desrespeitos que nos foram presentes no decorrer desta campanha eleitoral, após esta deseducação de uma sociedade que cada vez mais crê que tudo lhe é permitido e desculpado mesmo que seja"apascentar-se a si mesma" só e apenas, pareceu-me ouvir como EZEQUIEL "LIVRAREI AS MINHAS OVELHAS E JULGAREI... ..."
Mas quando, Senhor Deus, quando ?

11 janeiro 2011

...das notícias, o crime

Aonde ir buscar todas as palavras simples e despretenciosas que fui deixando cair por não sei onde e que me bastavam para eu dizer tudo o que era o meu mundo despretencioso e simples ?
Cresce o Mundo ao mesmo tempo que nós e perdemos juntos a idade da ínocência ? E por aí se vão perdendo coisas...
Na filosofice deste nosso viver assim mais ou menos acomodado, zás !, uma chicotada !!! Agiganta-se à nossa frente a figuração do horror, desta vez não da guerra, não da calamidade meteorológica, não dos brutais estremeções da natureza, mas de tudo isto amalgamado na medonha e repugnante capacidade humana de matar o seu semelhante...
Será um fait divers talvez, daqui a um tempo, e isso é que me dói. Apurámo-nos todos tanto para chegarmos a «isto» ? Quem dera poder pegar numa borracha e apagar esta dolorosa vergonha da página actual da nossa vida !
Ocorre-me limpar os meus pensamentos com um soneto de RUY BELO
Na minha juventude antes de ter saído
da casa dos meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebenter do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de maio e era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela tivesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não sei dizer
Só sei que tinha o poder de uma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só Querer

07 janeiro 2011

Começar 2011

...e uma vez aqui chegados, vemo-nos de novo inelutavelmente arrastados pela onda do habitual, do quotidiano ( mais ou menos rotineiro ), do conformismo social, do antes assim que pior.Claro que esta generalização já está a ser verdade para apenas um grupo dos chamados sortudos aos quais ainda é possível retomar qualquer coisa interrompida, nem que seja o não fazer nada voluntário, porque é desoladoramente presente aos nossos olhos a mole imensa que cresce todos os dias daqueles que se vêem sem nada para retomar, repetir ou continuar.
Que pena constatar tudo isto no dealbar de um Ano Novo, época que fui formatada a relacionar com a Esperança de só "coisas boas" e "novas" !
É ainda por isso e em consequência do que disse a começar, que de novo me vejo sentada "no meu canto",sem a inquietação dos actos sociais para os quais nos empurra a solenidade das celebrações e, ao mesmo tempo, o apelo do reencontro com amigos ou parentes que só nestas datas se torna possível. Que datas ? Pois o Natal e as suas envolvências.
Como me lembro do tempo em que não havia esta forma de pressão porque é tradicional e "deve ser agora ou então não é mais, em todo o ano" ! Havia às terças-feiras o chásinho em casa da Tia X, às quintas jantava-se com os Avós, aos domingos, depois da missa ia-se almoçar com os XY, amigos desde a escola dos Pais, e por aí fora, iamo-nos vendo, acompanhávamo-nos e sabíamos coisas uns dos outros... Arranjar-se-ão já umas quantas desculpas para passarmos um ano inteiro sem nos vermos e consequentemente sem sabermos do fundo da alma dos outros...Tudo se remedeia com meia dúzia de telefonemas, e-mails ou sms's, porque se trabalha todo o dia, porque se mora longe, porque os transportes... ... E não se vêem os olhos pisados, os ombros descaídos, o tornozelo inchado ou um clarão no olhar de uma alegria que se não diz ,às vezes só porque se transformou o arrumo dum quarto, se adquiriu uma planta nova...Não se sabe da nossa casa, como não se sabe de nós, porque não nos frequentamos.
Mas, retomando o meu fio inicial, não foi mais uma vez sem emoção que fechei a última gaveta com a última caixa dos ouropéis que deram tanto brilho à árvore, ao presépio, aos recantos e às mesas com que festejei os meus amigos que vieram. Nada disto parece ter muito que ver com
aquele recomeçar, no meu canto, mas faltou aí o regresso da alegria nas presenças dos alunos.Faltava aí falar nessa onda que me arrebata para um renovo que já não espero, mas lá desponta tímido e feliz...
Faltaria sempre falar daquela Esperança que ultrapassa costumes, usos e desusos,e até a insofrida política desgastante. Faltaria sempre falar daquela Esperança que começámos a ter com ISAÍAS...

01 janeiro 2011

Ano novo 2011

Ao ano que se despeça
vem um Novo suceder...
Assim lhe usamos chamar...
Mas porque novo há-de ser ?
Por tudo recomeçar ?
Há anos que eu recomeço
e sempre é a envelhecer...

25 dezembro 2010

Dia de Natal 2010

Ad veni !
Cheguei ! Não certamente com os "graciosos " pés do mensageiro da paz, a atravessar montanhas, de que nos fala Isaías, mas como o Senhor permitiu que eu fizesse esta travessia-
Mais cansada, mais esforçada, mais carente... Apenas creio que mais confiante, Não nos Homens .
A eles devo o cansaço, o esforço sempre desproporcionado quanto à sua eficácia...
No entanto, se cada dia mais confiante, foi na misericórdia divina.
No entanto também, começando a "sentir" com maior definição este NATAL de um Deus para nós, carinhoso e exigente ... Oh! Quanto!
Quão revigorante !

19 dezembro 2010

Presépio antigo

Almofadinha de veludo.
É vermelha.
Barrinha de galões de ouro
e pingos,
lantejoulas
quais estrelas
a brilhar.
Medirá uns centímetros quadrados.
E eu,
toda gestos delicados,
fiz dela a base de um sonho,
um esplendoroso lugar...
Onde
um Menino Jesus
há anos abençoado,
parece nascer ali...
Sem manjedoura ,sem nada...
(que me perdoe MARIA,
que se não zangue José)
mas ESTE
da almofadinha
é todo
por mim criado...
Metáfora simplesinha
do calor da minha fé.

14 dezembro 2010

Os meus nevoeiros


Como, do amargo por dentro

sai ainda

e voa,

com0 pena de ave

a diluir-se

no esfumado que baixa

sobre as ruas

e as esquinas

de madrugadas

leves, tão leves,

ainda nuas ?...


Como, o amargo por dentro

neste aquário sem ruído.

só cinzento ?

11 dezembro 2010

Os meninos

Hoje vieram os meninos e meninas da minha paróquia ,com algumas mamãs e algumas das suas catequistas, uma das quais trouxe a sua viola e todos juntos cantaram para mim cançõesinhas de natal,daquelas que todos sabemos cantar... Foi uma festa, uma chilreada nos velhos ramos secos da minha solidão ! E um deles trazia triunfante uma caixa com um enorme pão-de-ló !O serviço meteorológico arranjou qualquer feitiço e, depois de todos os negrões dos dias até ontem, a manhã de hoje esplendia de sol. Que linda, que linda toda esta alegria ! ! !
Cantámos, falámos, rimos e, como desejavam as jovens mais velhas, contei-lhes de mim coisas que os meninos podiam entender, e mostrei porque tinha a esperá-los um presépio ainda sem o Menino Jesus, umas "grandes" páginas de "grandes" livros com "grandes "fotos dos principais presépios monumentais de Igrejas portuguesas, e ainda o grupo de velas acesas do Advento...Tudo,tudo que aqueles maravilhosos olhinhos pareciam querer registar, guardar...
Não houve muitos porquês? e para quês? , mas eles também já sabem muito, entendem tudo, na maturidade dos seus dez/onze anos. Percebi-o eu na envolvência dos beijinhos e dos braços em redor do meu pescoço, nas despedidas, nos Natal feliz! nos até pró Ano ! e nos imensos muito obrigada...quando era o meu coração que estava a dizer-lhes em silêncio isso tudo .
Vão chegar os tradicionais encontros de Natal, com jantares ou ceias a servirem de pontes de ligação entre pessoas que mais ou menos crêem amar-se muito, pouco ou só um pouco...
Nada disso terá a carga de pureza, de frescura, desta visita que recebi hoje. E aqui nasceu o meu
Natal, do qual social e sentimentalmente esperava quase nada...

07 dezembro 2010

Descobre-te...

Da minha procura de temas para meditação neste Advento resultou que fui reencontrar os antigos dossiers , apontamentos e pequenas notas que compilei em alguns dos cursos e retiros que consegui frequentar e realizar há bem mais de vinte anos.Quanta coisa útil ! Quanto de mim por ali se formou, a partir de quanto se informou!
Não resisto à sedução deste pequeno texto que me aparece isolado e anónimo no meio desse meu thesaurus e aqui o registo como tema de abundantes sugestões para o dia de hoje.
Descobre-te no Evangelho :
És João Baptista quando fores capaz de fazer o deserto em ti e viveres para os outros
És a mulher adúltera quando no chão da tua miséria conseguires ver Deus escrever misericórdia
És Cireneu quando fizeres tua a cruz dos outros
És publicano quando fechando os olhos para o "fora", te vires melhor por dentro
És Nicodemus quando fores capaz de morrer todas as tardes para poderes "renascer" todas as manhãs
És a Samaritana quando nem a água, nem o poço, nem o cântaro te importarem porque só é importante ter essa sede
És o cego quando não chamares desgraçado a alguém só porque não tem olhos, porque percebas que desgraça é não ter "aquela" LUZ.

05 dezembro 2010

Advento - João Baptista


Raça de víboras ... Preparai o caminho do Senhor,endireitai as suas veredas ! ( São Mateus 3,1-12)

30 novembro 2010

Fernando Pessoa

T0da a alma digna de si própria deseja viver a vida em Extremo.Contentar-se com o que lhe dão é próprio dos escravos. Pedir mais é próprio das crianças. Conquistar mais é próprio dos loucos...( Desassossego)
Se hoje a comunicação social toda não tivesse vindo lembrar-nos Pessoa no dia da sua morte, talvez eu não me tivesse demorado particularmente a recordá-lo, porque ,avessa a datas e para mais obituárias, estaria a pensar em coisas muito mais próximas de mim, agora.
Mas, dos meus amores com Pessoa, todos aos altos e baixos, uma coisa sempre me suscitou piedade ( o que ele decerto abominaria):que as suas últimas palavras tivessem sido,primeiro de insegurança e logo seguidamente de pedir os seus óculos...A crermos n a permanência da sua capacidade de raciocinar até ao último momento e conhecendo o seu pensamento que citei, teria ele partido para uma louca conquista que vislumbrava mal naquele transe do seu caminho ?...
Que podemos nós saber dISSO ?

28 novembro 2010

Advento 2010

Vigiai... ...esiai preparados porque à hora em que men0s pensais é que vem o Filho do Homem !
Ponhamos de parte as obras das trevas e passemos a usar as armas da luz !
Vinde pois ! Subamos ao monte do Senhor... que Ele nos ensine os Seus caminhos e nós sigamos pelas Suas veredas.... ...Nem mais se há-de aprender a fazer guerra-
Com que sedutores conselhos estamos a iniciar hoje um novo ano litúrgico, respectivamente pela mão de Jesus( SãoMateus,24, 37-44), São Paulo e Isaías ! Estamos a entrar de novo numa época de expectativa , de um renovar de esperanças, que só a grande força da nossa Fé pode sustentar. Sempre. E agora que, nesta nesga de Terra a que chamamos "nossa", quase desaprendemos quais os caminhos, quais as veredas que nos conduzam para o mais alto, o menos rasteiro com as lamas das virtudes esquecidas, precisamos tanto das "armas da luz" de que fala São Paulo ! Que o Senhor Deus nos ajude a vigiar neste Advento, mais,muito mais do que temos sido capazes de o fazer até agora ! Subiremos ao monte do Senhor com Isaías ?

25 novembro 2010

Thanksgiving day

Creio que foi o presidente Lincoln que, ainda durando a guerra civil americana , decidiu criar este dia votado ao agradecimento a Deus. Do que tenho lido, deduzo que há muitas hipóteses sobre a data de origem desta vontade de agradecer, tanto no que à cidade ou região se refere, como no que na verdade se agradece, mas o certo, certo ,é que na base sempre aparece a ligação à Terra, às colheitas, aos bons resultados de um ano de trabalho. Surgiram as refeições festivas com a família reunida na mesma alegria e lá apareceu o belo perú que foi alimentado dos produtos da terra e que, naturalmente grande, fazia o "prato forte" da festa...E para os americanos , canadianos e até por ligaçóes que desconheço, para os holandeses, nunca mais deixou de se ligar o mais belo perú da quinta á alegria gourmet destas celebrações de perto de um final de.ano maisou menos feliz e bem sucedido.
Por tudo isto, foi com um enorme sorriso e com um verdadeiro encantamento que vi hoje,num noticiário televisivo, um lindíssimo exemplar de perú deslumbrantemente branco e de penas entufadas como uma borla de pó de arroz dos velhos tempos, ser oferecido ao presidente Obhama e ser por ele aceite em cerimónia pública e com direito a um pequeno discurso brincalhão...
Hoje sou eu que faço aqui no meu canto o meu pequeno thanksgiving por ainda haver neste mundo corroído de pesados sentimentos, intrincadamente mal-pensantes, um presidente que aceita entrar publicamente numa das mais inocentes e significativas brincadeiras que ajudam a alegrar e congregar o "seu" povo,,,

21 novembro 2010

« Viver todos os dias cansa »

Um jovem escritor de nome Pedro Paixão tem um seu livro a que deu o título Viver todos os dias cansa e , desde que o li, não saberei dizer quantas vezes me encontro a pensar ou a dizer para mim mesma essa frase, assim à maneira de suspiro fundo,daqueles que nos ajudam a aliviar da demasiada pressão que a vida exerce sobre nós em tantas ocasiões !
E,se aqui estou agora mesmo a"suspirar", é porque, não tendo nenhumas obrigações de rua nos últimos dois dias e tendo alunos meus que sujeitar-se a tolerâncias de ponto dos professores de mistura com cortes de transportes a horas chamadas úteis para eles, fiquei eu serenamente livre para poder encharcar-me da televisão que bisbilhotou para mim em cima do acontecimento toda a insistentemente "badalada" Cimeira Nato em Lisboa. Para quê adoptar aquela atitude blasée dos que dizem« o quê ? ver isso? Nem pensar...» impantes da sua superioridade à vulgaridade de se interessarem,1-pela televisão em si mesma, 2- pela ideologia política que de todo o conjunto irradia...? Claro que vi,ouvi, tornei a ver, tornei a ouvir, tanto quanto me deram e por vezes ainda quanto procurei, para comparar pontos de vista dos relatores. Não vem aqui ao teor deste meu blog falar, de minha justiça, sobre a Nato, organização dentro da qual aliás já estive credenciada durante o desempenho das minhas funções profissionais, por alguns anos.Do que sim quero falar é do que chegou até aos nossos écrans de coordenação de acções diversificadíssimas, de horários cumpridos,de trabalho na sombra, nos bastidores, de presenças onde devia havê-las, bem como de ausências onde assim devia ser. Ver a "vera efígie" dos homens da grande política já não nos surpreende, mas vê-los sorrir ou carregar o sobrolho dá-nos muita informação sobre muita coisa, surpreender um pequeno esgar, um subreptício gesto,quando não sentem o peso das cameras, isso sim pode ser interessante.Então, ao fim de dois dias dessa concentração em muitas coisas e todas intrinsecamente diferentes, a par com a obrigatória gestão doméstica nem sempre fácil ou leve, lá me brotou da alma a frase do Pedro Paixão... E o que costuma acontecer-me quando os dias são assim carregados de um viver que me cansa, é deixar para trás, como o barco atira carga ao mar se quer vencer mais algumas ondas tempestuosas, deixar para trás coisas até bonitas de contar...Coisas que arrecado para um dia...
Hoje porém, sendo domingo e dia de CRISTO-REI,último domingo deste Ano C, que nos proporcionou tão edificantes Leituras, especialmente de São Lucas , meu evangelista preferido, não posso deixar para trás toda a carga que me traz ( e o que me cansa,Senhor, pensar nessa carga !) aquela frase do Pai-Nosso : venha a nós o Vosso Reino...

14 novembro 2010

33º domingo

Hoje é o penúltimo domingo do ano litúrgico que correspondeu ao ano civil de 2010.
Ainda não tive disponibilidade para olhar para trás e fazer o levantamento das coisas boas e positivas deste ano que finda, na sua multiplicidade de aspectos. E, quando digo disponibilidade quero talvez dizer também imparcialidade, objectividade, porque, se nunca consigo deixar de ver, entender, sentir e escolher com as características muito minhas, muito pessoais, só me separarei da subjectividade a poder de algum esforço cívico que advem de aprendizagens várias e isso é um exercício que exige tempo, muito e quase asséptico tempo.
O que sei é que, ao ler o Evangelho deste domingo( São Lucas,21,5-19 ) me não pude furtar a perguntar-me se esta fala de Jesus seria só premonitória...«Quando ouvirdes falar em guerras e tumultos não fiqueis aterrados: assim tem de acontecer primeiro, mas não será logo o fim.
Há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá coisas pavorosas e do céu virão grandes sinais...
E tereis ocasião de dar testemunho...»
Que testemunho daremos? Dizia São Paulo aos tessalonicenses que trabalhassem e não vivessem na ociosidade, sem fazerem trabalho nenhum mas ocupados em actividades inúteis e que se alguém não quisesse trabalhar, não deveria comer de graça o pão de ninguém.
O nosso tempo é pois um cúmulo de situações que têm origem em situações e hipóteses com mais de dois mil anos. Acabaremos assim mais um ano sem termos melhorado nada. «Pela nossa constância é que havemos de salvar as nossas almas »,dizia Jesus há dois mil anos. Será que,com tais práticas de vida neste mundo envolvente, conseguiremos, pelo menos, salvar a nossa constância ?

09 novembro 2010

Neste São Martinho(dia 11)

Entrou Outubro e saiu sem me ter permitido aqueles arrobos de voluptuosidade a que por muitos anos me habituou. Anda nas bocas do mundo aquela espécie de refrão-conclusão das meditações sobre os temas mais díspares da nossa actualidade ... isto já não é o que era... Pois não ! Nem mesmo a entrada do Outono. Tivemos um Outubro às vezes doce, ás vezes chuvoso e frio, sem alternâncias previsíveis, e sem aquela doçura de temperatura, brisas e aromas a que nos habituara quando era o que era... E começámos Novembro com os esplendores de um Verão de São Martinho precoce que, tendo deslisado inesperadamente para invernias já até de neves na Serra, nos leva a pensar ,que não virá a ser possivel recordar no dia 11 aquela amenidade que permitiu o longo cortejo fúnebre que acompanhou Martinho, Bispo de Tours, à sua última morada, já sendo rigorosa lá a invernia e acontecendo um tal súbito verão que até desabrocharam rosas nos jardins que o cortejo foi bordejando...Antes o frio nos faz pensar na partilha da capa do vigoroso militar Martinho com o pobre quase nu encontrado na estrada.
É nesta volta do caminho que o nosso pensamento deriva para quantos milagres de bondade, de piedade até, nos seriam bem-vindos, homens e mulheres deste nosso país tão sofredor agora !Por muito que nos queiramos alegrar com a repetição dos provérbios relativos à época que em qualquer país falam do porco, das castanhas e do vinho, tudo são hinos a uma abundância que a nossa realidade actual não consegue entoar...Deles só se aproveita o anúncio do frio que está na hora de chegar. É por causa de tantas incertezas e incumprimentos meteorológicos que eu, « bicho da terra, tão pequeno » me tenho encontrado, não direi insegura, mas como que flutuante ao sabor do quotidiano e dos momentos, tão sem espaço para aquelas meditações longas que ajudam a nivelar os desgostos e as alegrias e a ir guardando-os todos dentro do nosso coração como nos ensinou Nossa Senhora, nas suas secretíssimas tribulações por causa de ter um Filho chamado Jesus. É um aprendizado doloroso. Mas não deixei de rir quando todos esperavam que risse e de chorar quando eu própria não podia impedir-me de o fazer.
E aqui estou acompanhando o meu mundo não desistindo nunca de acertar pelo dele o meu calendário sentimental...

02 novembro 2010

2 de Novembro




" As datas ! As datas e a sua pressão sobre a nossa memória...sobre as nossas recordações ! E a nossa subserviência... Porquê ainda ?
Afectos, gratidões, afinidades, encontros e desencontros, dias felizes, dias sofridos, perdas, achados ...e o amor, os amores ... saudade sempre ! ! !
E foi o 31 de Outubro , e foi o 1 de Novembro, e é o 2 de Novembro... Cada um, sua borbulhante preia-mar a esparzir-se sobre a secura de tantos, tantos, areais que se julgam desertos...
Reza-se, claro. Que seria de nós sem aquela certeza de que algures... ... Um dia... ou hoje, hoje mesmo , a nossa recordação encontra eco onde talvez «memória desta vida se consente »...
Com uma enorme braçada de crisântemos vamos sem bem saber a quais, aonde, porque as lágrimas que procuramos reter nos não deixam ver bem. preferenciar caminhos...

01 novembro 2010

Dia de Todos-os-Santos

Quem poderá subir à montanha do Senhor?
Quem habitará no seu santuário?
_O que tem as mãos inocentes e o coração puro,
o que não invocou o seu nome em vão.

Este será abençoado pelo Senhor
e recompensado por Deus, seu salvador.

Esta é a geração dos que O procuram.
Salmo 23




Todos Santos? todos mesmo, os que ouviram Jesus ,na sua voz pausada e cativante, lá no alto da montanha, dizer-nos como seremos felizes e como de nós será o Reino dos Céus... Como serão bem-aventurados todos os que souberem multiplicar pelos séculos dos séculos as práticas ali recomendadas... (São Mateus,5, 1-12)

31 outubro 2010

31 de Outubro

Como braçadas de flores vivazes,
As Memórias e a Saudade, sempre.

30 outubro 2010

dia de anos

Dizia João de Deus :com que então caiu na asneira de fazer ........anos Que tolo ! Ainda se os desfizesse !...Mas fazê-los não parece de quem tem muito miolo...
Na verdade é mesmo leviandade, falta de senso talvez, marcar o dia de aniversário de uma forma diferente da de qualquer outro dia da nossa vida.porque, se celebramos o que já vivemos, isso não deixa de ser dar mais um passo em frente no encurtar da vida que ainda temos para viver. Mas não pensamos no que desconhecemos e preferimos celebrar o conhecido.
E assim, lá passei eu o dia dos vasos e ramos de flores qual deles o mais carregado de simbologias mais ou menos explícitas;das mensagens tão simpáticas de pessoas que só aparecem nestas ocasiões para nos dizerem que continuam a gostar de nós e das memórias do que há muito tivéramos em comum; dos convites mais aliciantes com que tantas vezes sonhamos para dias que não são coisa nenhuma de especial; das visitas absolutamente inesperadas e surpreendentes... Enfim um dia de anos próprio de uma senhora da minha idade. Jã não há chocolates, bolos e caramelos, mas há pacotes de chá de boas marcas; não há colares,écharpes ou malas da última moda, mas há chailes fofinhos e sapatinhos de dormir em lás suaves... O que felizmente é de sempre, são os livros, ultimamente substituidos ou acompanhados por aquilo a que já não se usa chamar discos mas apenas DVDs.E tudo isto faz parte da "festa da Vida" junto com as notícias alegres de bébés que vêm a caminho, de sobrinhas que se tornam MESTRES-cientistas, com altas classificações, de livros meus que acabam de sair do prelo, de amigas artistas com uma exposição pronta a apresentar daqui a dias...
Quando o poeta troça e nos leva a troçar dos nossos aniversários em soma de anos, terá pensado na enorme Graça que Deus nos concede em "vivê-los ?

25 outubro 2010

25 de Outubro


Quando eu era aluna, não me lembro de que grau de ensino, mas creio que de todos, neste dia era feriado municipal... Foi mesmo definitivamente libertada da posse mourisca esta Lisboa que eu amo...
Lisboa menina e moça, Lisboa...
E mesmo que faça frio... e os barcos fiquem no rio, parados,sem navegar, passa por mim no Rossio e leva-lhe o meu olhar...
Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa...
Quero cantar-lhe todos estes poemas de poetas cantados e, como eu, "encantados" neste feitiço de amar Lisboa. Porque, para mim, hoje continua sempre sendo o seu dia de anos !

24 outubro 2010

...do humilde publicano

Do Livro de Ben-Sirá,hoje :a oração do humilde atravessa as nuvens... ...e ele não desiste até que o Altíssimo intervenha para estabelecer o direito dos justos e fazer justiça. Assim ,o publicano da parábola que o próprio Jesus conta,que, quase escondido no seu canto, não foi vangloriar-se como fazia o fariseu, achando-se o mais perfeito cristão dos filhos de Deus (segundo o Evangelho de São Lucas 18,9-14) O Senhor é juiz .e atende a prece do oprimido que se reconhece pecador.
Posso esperar, pois, que as minhas orações atravessem as nuvens... Talvez por isso eu me sinta tão reconfortada quando elas vêm aconchegar o meu céu...

12 outubro 2010

Nel mezzo del camin

Nel mezzo del camin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvggia e aspera e forte
che nel pensier rinova la paura !
Tant'é amara che poco è più morte;
ma per trattar del bien ch'i vi trovai,
diró de l'altre cose ch'i v'ho scorte.
Io non so ben ridir com'i v'intrai,
tant'era pien di sonno a quel punto
che la verace via abbandonai.
Assim se "entra" no INFERNO de Dante. Quem esperaria, nesta nossa selva selvaggia , que fosse escolhida a DIVINA COMÉDIA como leitura recomendada a alunos do Secundário ? E que eles gostassem ? Naturalmente que transmitir a raparigas e rapazes actuais esta tão especial atmosfera que, nos dias deles, nos dias de hoje, me apetece chamar de "virtual", é francamente motivador e por isso me sinto "de parabéns" e estou a dá-los a quem teve esta ideia que bem melhor é do que a de trazer até eles algumas más traduções de modernos autores de romanceadas vivências que pouco ou nada têm a ver com a nossa europeia tradição greco-latina. Por mil e uma razões, é bom que não abandonemos la verace via...

08 outubro 2010

Recomeço

Este meu Outubro cuja chegada representa sempre para mim aquilo que para quase toda a gente representa a Primavera, lá veio com o seu bornal de inigualáveis dias doirados, mansos e pacificantes ,alternando com aqueles primeiros cinzentos, entre pretos e pardos, dos primeiros chuveiros ou trovões destemperados que obrigam as pessoas a correrem aos roupeiros a retirar capas e chapéus impermeáveis que lá descansavam havia alguns meses,meses demais, em minha opinião.
O que não há dúvida é que este cariz de recomeço existe e me aguça o apetite de fazer coisas novas, de limpar gavetas, de deitar fora coisas estafadas tornadas inúteis agora, e de renovar (em casa, nas roupas, em algumas rotinas )... E subitamente, no meio desta ambiência, nasce uma criança ! ! ! É ou não é para ser tomada como a personificação de todos os renovos ? Uma menina, sobrinha bisneta, que me anunciam linda como uma flor, pois nasceu gordinha, quase sem esforço, e por isso sem aquelas ruguinhas e vermelhidões que trazem os bébés cujo parto não foi fácil... E depois de digerida com alguma comoção esta novidade, soltam-se no meu peito as cordas que tangem os tons felizes, obscurecendo tanta sonoridade depressiva que me andava a ensurdecer, mesmo apesar das pretendidas alegrias das comemorações republicanas... O meu jovem gatinho fez ingénuas tolices que me fizeram rir, a atribuição do Nobel ao Vargas LLosa deu por mim uma enorme mão-cheia de créditos àqueles senhores suecos, uma visita de pura amizade, tão inesperada quanto carinhosa, deixou-me o coração maior... E até uma aula sobre poesia trovadoresca, de que nunca fui muito apreciadora, me fez sentir realizada como poucas vezes...
Parece haver de facto razões ainda para um renascer da ESPERANÇA ,neste "meu" outono. É -me concedido pela FÉ. Nada mais o poderia explicar...

02 outubro 2010

Uma sexta feira para recordar

O dia de ontem foi um desses dias que acontecem às vezes e aos quais podemos chamar memoráveis. Não por uma valia grandiosa no nosso registo de memórias, mas por razões a oscilar entre o sentimental e a doce capacidade suavizadora do preciso momento em que se deixou viver,saborear...
Espantosamente o ontem marcava 25 anos sobre o início da actividade em Portugal de uma Organização humanitária internacional à qual me vira ligada logo nas suas primeiras horas de vida portuguesa. Sempre foi de poucos aparatos , o que muito me agradou, mas ,por isso mesmo talvez, não se terá tornado conhecida. Quem ouviu falar nas SOROPTIMISTAS ?
Para quem as ignorava até hoje direi que é uma Organização internacional de MULHERES profissionais e de negócios, voluntárias no trabalho de melhorar a VIDA DAS MULHERES NO MUNDO. O nome da organização foi escolhido por permitir a ligação das palavras soror e optimiste, sendo que a este adjectivo não se pretende tomá-lo como atitude, mas como promotor de uma OPTIMIZAÇÃO.
Das relações que fomos estabelecendo ao longo da vida e que eu costumo dizer que vamos deixando para trás neste caminho que fazemos caminhando, não porque tivéssemos decidido deixá-las, mas porque nos foram escorrendo entre as horas, os dias e os anos como areia entre os nossos dedos, nessas relações tinham há muito caído para mim as Soroptimistes. E eis que agora me aparece sua Presidente uma querida amiga bem mais nova, empenhada numa bela celebração dos JÁ 25 anos ! Com a sua natureza internaciomal e com a seriedade e perfeccionismo desta sua actual presidente portuguesa, rapidamente se tornou óbvio que esta celebração tomaria a forma e o cariz de um congresso, "congregador" de todas e todos os internacionais Soroptimistes. E então aí nascem quatro ou cinco dias de acontecimentos, festivos uns, de estudo outros, de apuramentos ,constatações e resoluções,ainda outros. A minha amiga presidente soube rodear-se de uma boa equipa de trabalho e prepararam um excelente programa em que as tipicidades portuguesas não deixariam de ser destacadas.
Foi então assim que, como "clássico" neste género de realizações, teve lugar um jantar- espectáculo inaugural dos trabalhos. Pensaram que seria interessante precisamente na ordem de começar por mostrar as portuguesas peculiaridades ( e porque conheciam o espectáculo) realizar esse evento no Casino Estoril, onde se está a teatralizar O FADO__ A origem de um Povo. E eu, que sorte !, convidada, eu agora um bicho de toca que não saio nunca à noite...
Esta é a segunda parte deste meu dia memorável.
Um espectáculo LA FÉRIA com todas as suas características de bom gosto, bons actores, ousadias de encenação, palcos sem espaços vazios, momentos surpreendentes, tudo isto tecendo uma teia inteligentemente elaborada para justamente demonstrar como, desde o big-bang, o Fado se entrosou geneticamente no ser-se português.Não sei quem escreveu os textos que procuram acompanhar o evoluir da História até aos nossos dias introduzindo por vezes e muito acertadamente passagens dos nossos poetas, mas é perfeito o trabalho de síntese e as correspondentes vivências encenadas, com boa música, bons cantores , bons bailarinos e até acrobatas.A espctacularidade em que o La Féria é mestre, faz com toda a gente saia no fim com uma excelente disposição de optimismo.
Por isso a escolha das SOROPTIMISTAS...

01 outubro 2010

A Música, a Água e nós à entrada de Outubro

DE LA MUSIQUE AVANT TOUTE CHOSE...
Concerto de Aranjuez de RODRIGO
Adagio de ALBINONI
Concerto nº 21 -2º andamento de MOZART
A NONA de BEETHOVEN
Os corais da AIDA e do NABUCCO de VERDI
Bem, isto para fazer um pequeno concerto de preferidos neste meu Dia da Música.
Mas, ligando o rádio, o que é que eu oiço ? Que hoje é também o Dia da Água ! Essa mágica e in dispensável maravilha que amamos, usamos e admiramos em todas as suas multiplas figurações... Então lembrei-me de Debussy que tão bem soube musicar o deslizar das águas...
Que grande,neste dia, a agitação das minhas sinestesias !...

25 setembro 2010

vaidade das vaidades

É assim como uma tradição, a calma leitura de jornais de sábado, daqueles que se multiplicam em anexos e títulos chamativos e nos podem proporcionar leitura da mais variada para o dia todo se assim o quisermos. Nesta fase excitada e excitante da vida política do país é então uma verdadeira orgia de opiniões e contra- opiniões, de deduções, de comentários, de ironias, de insultos, de alinhamentos, de quem?eu não!, de eu sempre disse, e tanto, tanto que hoje,subitamente, me vieram á memória aquelas palavras do ECLESIASTES : vaidade das vaidades,tudo é vaidade ! - Aconselhava aí o Pregador que seria de pensar "antes que o pó volte para a terra donde saiu, e o espírito para Deus que o deu"mas sem os atropelos de uma precipitação ansiosa por causa de emulações inúteis. Tudo tem a sua HORA, debaixo dos céus:
Há tempo para nascer e tempo para morrer , tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou, tempo para matar e tempo para dar a Vida, tempo para chorar e tempo para rir, tempo para espalhar pedras e tempo para as ajuntar, tempo para dar abraços e tempo para se afastar deles, tempo para adquirir e tempo para vender, tempo para guardar e tempo para deitar fora, tempo para AMAR, e tempo para odiar, tempo para a guerra e tempo para a PAZ, tempo para FALAR ,e tempo para CALAR...
E neste salto do "diz que disse" dos jornais para o inesperado aconselhamento da extraordinária visão bíblica, pacifiquei o crescendo de sobressaltos em que a minha leitura de sábado me estava a induzir... ( tempo para calar...)

21 setembro 2010

21 setembro


Assim se abre para mim o caminho do OUTONO, a minha estação.
(fotografia feita por mim na Quinta das Torres )

11 setembro 2010

11 de Setembro

Faz hoje nove anos e, pela hora de almoçar, via um noticiário na televisão. Uma apresentadora que, se não me engano, se chamava Andreia, introduz-nos umas imagens e uma notícia de um terrível acidente...Um avião a entrar pordentro de um arranha-céus ! ! ! ? ? ? E nós : isto só na América !... E a apresentadora : parece não ser acidente, aliás... e vemos uma segunda imagem, uma "perfuração" de outro arranha-céus quase encostado ao primeiro... Sucederam-se imagens e notícias, explicações, repetições, mais notícias... sobressaltos... E nós sem fala! Não conhecíamos palavras para AQUILO ! Começaram os telefonemas : tu viste ? que é aquilo? Mas pode ser?...Valha-nos Deus !... E foi então que eu comecei a pensar e a dizer não pode ser, não é verdade, não é verdade, não pode ser verdade...
Claro que a brutal verdade se foi desdobrando aos nossos olhos e ouvidos durante todo o resto do dia, pela noite e pelos dias e noites que se mostraram necessárias para que o Mundo entranhasse esta verdade.
Nove anos passados, admiro-me de já não insistir com toda a veemência de então na recusa de todas as violências que se têem produzido, de tantas e tão grandes maldades que o Homem tem vindo a fazer a si mesmo e ao seu Mundo. Admiro-me.
Mas concluo que"entranhei" realmente o que ao longo destes nove anos me foi tão brutalmente revelado.Teria sido possível resistir ?

07 setembro 2010

Os ázimos dos nossos conceitos

Na leitura ocasional da primeira Carta de São Paulo aos Coríntios leio hoje algo que me faria pensar em coincidências, se não acreditasse em algo mais. ..
Não vos associeis com os devassos deste mundo, avarentos, roubadores,idólatras ou maldizentes, nem comais com o que se diz irmão...
Limpai-vos,pois, do fermento velho da maldade e da malícia e façamos a festa com os ázimos da sinceridade e da verdade...
Preocupa-se São Paulo com os julgamentos avulsos e com os de Deus. Quão difícil tudo isto, hoje como então !

04 setembro 2010

Justiça

No dia de ontem falou-se muito de JUSTIÇA. Foi aliás o tema dominante dos grandes e pequenos noticiários da Comunicação Social, mas também o de muitas conversas de café, de escritórios e até de donas de casa... Houve um sensacional julgamento de muitos arguidos em crimes repugnantes de ordem moral, social, cívica e até religiosa, ao fim de longos seis anos de arrastamento do caso por instâncias variadas. Foi lamentável, terrivelmente humilhante assistir no fim do dia ao esbracejar daquelas pessoas que, condenadas, se acharam injustiçadas e vieram dizê-lo a nós, entre soluços contidos, esgares de sofrimento, e palavras a espumarem ódios e raivas e ameaças, sugerindo ou dizendo abertamente que as condenações eram consequentes dos preconceitos de todos nós...
Espectadora de tudo isto, como a grande maioria dos portugueses ouvintes , ficou-me um gosto amargo na boca, tão amargo que só tinha vontade de falar com o milhão, os milhões de pessoas boas e bonitas que não conheço"de falar" mas que sei que existem ( não descarto a hipótese que estes gritam de serem realmente injustiçados) e lembrei-me de ir aos meus poetas... E li, do japonês ISSA KKOBAYASHI :
1 - NESTE MUNDO,
POR CIMA DO INFERNO
CONTEMPLO AS FLORES...


2 - CEREJEIRAS EM FLOR ,
E NO ENTANTO
SOFRIMENTO E CORRUPÇÂO...

28 agosto 2010

Registo

Este meu post toma hoje a forma de registo de uma certidão de nascimento.
Dia 26 de Agosto de 201o, pelas 8 horas da manhã, "nasceu"na minha casa um GATINHO, sexo masculino, pelagem tigrada, um escasso palmo de comprimento do pescoço para baixo, longa cauda, nariz cor de tijolo, longos traços negros a prolongarem os olhinhos vivíssimamente curiosos e duas orelhas sempre em riste a captarem o mínimo ruido...
Uma graça, uma gracinha mesmo !
Como acontece isto na casa de alguém que há trinta e tal anos garantia e jurava que não queria repetir as experiências adquiridas com dois anteriores gato e gata cujas companhias totalizaram nada menos de vinte e oito anos ?
Pois bem: 1º- foi um acto de caridade para o gatinho abandonado pela mãe,transformado num presente que me foi feito. 2º-foi a minha esperançosa expectativa de que agora uma companhia a abrir para a dedicação e carinho me faria guarda contra uma promessa depressiva que me assustava. E como é carente este pequenino ser que se vê de repente a viver em casa, com portas. mobílias, almofadas, obrigações a aprender e comida que ainda nem bem pode mastigar, mas que o entusiasma !
Para as minhas memórias já desbotadas, todas as suas atitudes são graciosas, cómicas ou elegantes... É uma sequência de pequenas maravilhas a que vou assistindo e de novo tenho que ir orientando no caminho de um mínimo civilizado.
Para dormirmos à noite, eu na minha cama e ele na sua, é uma empresa complicada.
Mas com muitos mimos, lá vamos, ao som dos seus já sonoros rom-rons...
Por isso - e era o que faltava dizer - ele chama-se Rom-Rom.
E vai seguir-se uma história que terá o seu fim que este gatinho um dia saberá contar...

20 agosto 2010

Livros e releituras

Seria já uma obrigação, se não fosse uma coisa tão prazeirosa ( a tentar escrever a palavra brasileira, será assim ? ), isto de nos fornecermos de leitura para férias. Às vezes aproveitamos o lazer para conhecer novos autores, outras vezes pomos "em dia" o que os autores conhecidos foram publicando e pode também acontecer termos vontade de reler algo que há muito ficou lá entalado na estante, a amarelecer, a descolorir-se na lombada e apenas a recordar-nos um prazer que tivéramos há muito... Nestas férias, porém, eu decidi- me por uma qualidade mais do livro que do autor, como critério de escolha. A propósito, quero recordar aquela história que se conta como anedota de novos-ricos pretendendo a ilustrados e que passou de verdade com alguns pormenores bem ridículos, por um marceneiro que fez alguns trabalhos para mim.Alguém precisa de ornamentar o novo escritório ou a nova biblioteca da novíssima casa vai à livraria comprar certinhos n metros de livros, exactamente quanto medem as prateleiras das estantes que acaba de adquirir; o meu marceneiro teve que fazer uns ajustes nas estantes novas daquele seu cliente. Pois bem : a minha escolha da leitura de férias não foi pelos metros, mas pelos gramas. Procurei dos livros que queria reler por motivos muito variados, os mais pequeninos e mais leves, que não sobrecarregassem a minha bagagem. Devo dizer que tenho uma pequena paixão por livros pequenos, pequeninos, mesmo.Seria despropositado contar aqui as edições pequenas de grandes livros que tenho adquirido, quando as encontro.
Curiosamente, não sendo assim por serem edições especiais, encontram-se maravilhosas edições pequenas de traduções francesas de poetas japoneses. Mas deixando mais ou menos clara a razão do meu critério de escolha das leituras de verão, reli : um pequeno PAPALAGUI, que adoro,um obcessivo Desprezo de MORAVIA, um divertido Marmequer de MIA COUTO, as apaixonantes Nourritures Terrestres deANDRÉ GIDE, um colectivo curioso de primeiros autores de e sobre a CIDADE DE BRAGA , e dois encantadores japoneses Primeira Neve de ISSA KOBAYASHI e uma Anthologie de la Poésie Japonaise Classique. Todos juntos, os meus escolhidos,não deveriam ter ultrapassado o peso de um quilo. Não os pesei, claro está. Mas( usando agora um banalíssimo lugar comum) o que deles ficou de ensinamentos, de constatações, de "material" que vai ajudar-me a reencarar o MUNDO, pesa pelo menos tanto quanto a minha imensa necessidade de o fazer talvez de uma nova maneira...

11 agosto 2010

Férias de fogo

Aconteceram pois uns dias de férias. Se chamarmos sempre férias a uma interrupção temporal e local ou geográfica das nossas vivências habituais... Muda-se de terra, de casa, de horas, de comidas,de ocupações, de companhias, e com este mudar dizemos que fizemos férias. Até agora, eu nunca me tinha lembrado de que há efectivamente a possibilidade de surgirem factores intervenientes que podem corromper totalmente a realização das expectativas que nor malmente adicionamos àquelas perspectivas de mudança,tais como respirar ar novo, dormir sonos repousantes, distender os nervos mais ou menos crispados pelas contrariedadesinhas do dia-a-dia comum, sentir a liberdade, soltar-se, enfim... Pois é. Pois foi ! Veio o tórrido calor dos 40 graus, noite e dia, veio o obcecante odor a madeiras queimadas, veio a total e absoluta ausência de brisas matinais ou noturnas, veio o acinzentado dos verdes circundantes e o abaixamento nunca visto da água do lago à nossa frente... E a nossa roupa a mudar mais de uma vez por dia, por encharcada de suor, e a nossa preocupação pela ingestão de água e a não exposição ao que chamáramos antes ar livre ... Bom, só bom, as noites de veludo, convidando a dormir na relva, no chão...
Parece-me que era a informação que me faltava sobre a minha situação de velha senhora e senhora velha : não tendo trazido de nova o hábito de me despir e banhar em mar, rio ou piscina, não me é possível agora atenuar o sofrimento do calor, passando as piores horas, quase despida e a entrar na piscina a cada momento. Isso o faziam os meus amigos com quem estava e para eles eu percebi que toda aquela agressão da Natureza era bastante mais suportável.
Regressada ao conforto do ar condicionado da minha casa, aqui estou resistindo a esta infernal canícula com que este Verão nos tem presenteado. Lisboa está seca e poeirenta, mas mesmo assim pode ajudar-nos melhor do que esse martirizado país interior que tiranizou as minhas férias...