02 novembro 2008

Datas



As datas ! As datas e a sua pressão sobre a nossa memória...sobre as nossas recordações ! E a nossa subserviência... Porquê ainda ?


Afectos, gratidões, afinidades, encontros e desencontros, dias felizes, dias sofridos, perdas, achados ...e o amor, os amores ... saudade sempre ! ! !


E foi o 31 de Outubro , e foi o 1 de Novembro, e é o 2 de Novembro... Cada um, sua borbulhante preia-mar a esparzir-se sobre a secura de tantos, tantos, areais que se julgam desertos...


Reza-se, claro. Que seria de nós sem aquela certeza de que algures... ... Um dia... ou hoje, hoje mesmo , a nossa recordação encontra eco onde talvez «memória desta vida se consente »...


Com uma enorme braçada de crisântemos vamos sem bem saber a quais, aonde, porque as lágrimas que procuramos reter nos não deixam ver bem. preferenciar caminhos...

26 outubro 2008

26 de Outubro


Era preciso que eu fosse
múltipla, imensa
e pudesse
viver mais completamenie
cada hora recebida!

Era preciso que houvesse
mais vida pra ser vivida...

Mais surpresas
mais promessas
mais tentações
e mais luz...

... e que, inteira, eu me perdesse
na magia dos instantes
sempre plenos e diversos...

Era preciso que eu desse
mais de mim mesma
e ficasse
mais sossegada em seguida...

... mais saciada de Vida!...

Do meu livro OFERTA

25 outubro 2008

25deOutubro de 1147

LISBOA TEJO E TUDO...



Lisboa cravo e maresia
Lisboa meu nevoeiro,
crista da onda onde um dia
meu coração foi veleiro ! ...



Lisboa à beira da barra,
Lisboa à beira de mim.
Meu rio, barco e amarra...
Ida e volta, meu sem-fim...





Do meu livro SINESTESIAS

21 outubro 2008

Os grandes eventos

Já passaram dois dias sobre aquele tempestuoso sábado em que dois acontecimentos interessantes solicitavam a minha presença e entre os quais teria forçosamente que fazer escolhas, mas quero registá-los porque, curiosamente, um pouco de mim estava intimamente ligado a eles.

Primeiro : Encerramento da exposição Maria Callas.

Esta exposição abrira, se não me engano, em Junho e comemorava os 50 anos sobre a apresentação, no São Carlos, da Traviata, cantada pela grande Callas.
E aconteceu que, 50 anos atrás, eu ainda não era viúva e o meu marido, por inerência da sua profissão, esteve sempre em contacto com o senhor Meneghini, marido da cantora, nessa época, e com os outros acompanhantes dela, durante os dias da sua estada em Lisboa. Pensando a empresa que devia ser gentil, em termos femininos, com uma tão importante personagem e não tendo nos seus quadros ninguém que o fizesse como queriam, vieram pedir-me que fosse eu a fazer o que se chama as honras da casa à Callas, caso isso não me desagradasse muito... Naquela minha idade de então, como é que poderia desagradar-me tal missão ? Ela era uma ESTRELA mundial e eu ia ter a sorte de privar com tal "monstro" do grande espectáculo que aliás eu frequentava, sendo associada de um clube juvenil de música clássica. Foi portanto no ocorrer desse agradabilíssimo convívio que fomos vistas por muitos jornalistas, não tão "febris" e excitados como os de agora, mas presentes. Passados 50 anos, mostra-se a Lisboa a memória da bela mulher que ela era, dos seus lindos vestidos e adereços, do seu brilho, tão apaixonado e tão apaixonante na Lisboa dessa época. E não é que ali aparece uma jovem senhora junto dela que só eu sei que sou eu mesma ? Para mim, foi, maior que a surpresa, a emoção. Guardo agora com carinho a fotografia que estava à venda na Exposição e de cuja existência eu nem podia suspeitar.

Segundo: Concerto do grupo PEREGRINAÇÃO em São Roque

A minha aluna Margarida cujo amor pela música a não deixa desanimar nunca das suas aulas e ensaios no Conservatório, apesar da carga horária enorme a que isto a obriga junto com o seu 12.º ano, está fazendo uma verdadeira peregrinação de concertos, uns de fim de tarde, outros de noite, concertos que a maestrina criadora deste grupo coral vai programando. Trabalham com afinco as peças corais de música antiga, de música religiosa e de música tradicional e têm feito apresentações no estrangeiro, sendo que, para o presente ano lectivo, existe uma não confirmada e muito desejada deslocação à Rússia. Verifico que, com o seu tão grande brio profissional, para a Margarida, cada novo concerto tem o cariz de mais um teste através do qual ela se avalia a si própria. Por isso mesmo lhe interessa também ouvir opiniões de pessoas em cuja isenção ela confia. E São Roque parece ter sido uma boa prova, apesar da tempestade cá fora poder ter tido um efeito desmotivador, o que não aconteceu.

Quero ainda registar aqui um acontecimento ocorrido, não nesse tempestuoso sábado, mas no lindíssimo dia de domingo com que a natureza entendeu presentear-nos para compensar os estragos do dia anterior. E, sem muito ter que ver com a Natureza, mas sim com a disposição alegre que ela nos deu, foi o lançamento do primeiro livro do meu amigo Padre Lázaro Messias – Para uma Teologia Africana. A apresentação foi feita pelo ilustre professor da Universidade Católica e da Faculdade de Letras de Lisboa, Dr. José Eduardo Franco e creio que podemos dizer que terá tido as bençãos do Prior da nossa Paróquia, Monsenhor Victor Feytor Pinto, dado que foi ele quem falou sobre o Padre Lázaro da maneira como só ele o sabe fazer. Esta apresentação deixa-me feliz porque a considero mais um degrau vencido na trabalhosa caminhada do Padre Lázaro, a qual tenho acompanhado com muito interesse e admiração. E como é bom ver os amigos compensados da sua enorme entrega aos seus trabalhos !

18 outubro 2008

Tempestade

É uma perfeitíssima onomatopeia a palavra ribombar !
Pouco depois de termos almoçado, um acastelado de nuvens de vários tons de cinzento atirou-se a outros mais que andavam um pouco desnorteados por estes céus e, oh deuses das tempestades !, ribombou estrondosamente sobre as nossas cabeças, desfazendo-se imediatamente e sem aviso numa chuva de granizo, a maior que já me foi dado ver... Eram pequenos ovinhos de codorniz a despenhar-se furiosamente contra as nossas vidraças e a cobrir, num abrir e fechar de olhos, o asfalto da avenida, os capots dos automóveis, os toldos e carreiros dos jardins, os vasos das varandas... Tudo rápido e violentíssimo. Quando finalmente só ficou a chuva, havia um rio a correr nas bermas da avenida, depósitos de neve, muito alvos e impolutos, por todas as superfícies mais côncavas e milhares de folhas, folhinhas e raminhos a juncarem tudo quanto era chão. Pobres plantinhas mais frágeis parecem agora feridos de guerra !
Admirável Natureza que em momentos apenas pode destruir... talvez o Universo ! ! !
Sem que o Homem tenha tempo nem para dizer ai...
Perceberemos quanta inutilidade em toda a nossa vaidade ?

12 outubro 2008

A Crise

Passei, passámos todos uma semana de graves preocupações com o torrencial desabar de notícias em que todos os agentes noticiosos pareciam desafiar-se uns aos outros sobre a maneira mais dura de nos transmitirem que estamos, nós,pessoas, e país, a chegar à beira da penúria, porque uma complicada engrenagem bancária, envolvente de todo este nosso Mundo tinha de repente deixado que se soubesse que não havia mais dinheiro em parte alguma. Viver sem dinheiro foi coisa que ninguém nos ensinou e por isso ficámos todos a pensar que seria urgente desenvolvermos o primitivo sistema de trocas , coisa que também não se pode montar sem haver QUE trocar e o Mundo já está quase exaurido em dádivas generosas de produtos seus com os quais nós,homens, iamos fazendo dinheiro... Então, prometem-nos os apavorados governos, vamos ter que nos safar, que se me desculpe a expressão, mas é o que na realidade nos é dito . E é cada um por si, não há cá solidariedades para ninguém, porque, se isso foi o que resolveram para si mesmos os Governantes que já conversaram uns com os outros, isso é o que os governos vão ter que dizer aos governados.Suponho que ningém estava à espera de que houvesse governos-fadas, mas o de que ninguém estava à espera certamente era de que, por uso e abuso de políticas mal conduzidas e mal aplicadas, por uso e abuso da permissividade nos consumos das diferentes classes sociais, se atingisse um fundo tão fundo que agora ninguém sabe se se pode emergir ou como se pode emergir...
Espantosamente àqueles que temos a Graça de ter FÉ, as Escrituras vêm tanta vez lembrar-nos que somos povo de Deus e que dessa realidade emana sempre uma razão de Esperança !...
Neste ano dedicado a meditar S.Paulo, são lidas em cada missa passagens das suas cartas cheias daquele fervor que é apanágio dos convertidos. Pois na missa de hoje, na sua Carta aos Filipenses, dizia SÃO PAULO:
Sei viver modestamente e sei viver na abundância.Em todo o tempo e em todas as estações.Estou preparado para comer com fartura e para passar fome, para viver na abundância ou viver na penúria. Tudo posso por Cristo, que me dá força. ...o meu Deus há-de plenamente prover a todas as vossas necessidades, segundo a Sua riqueza, de maneira maravilhosa, em Cristo Jesus...
É assim com o respaldo das minhas convicções, com o conforto de coincidências como a desta Carta, (logo hoje) que eu consigo encontrar razões de esperança e sou capaz de tentar entrar nesse jogo político do cada um por si... Infelizmente não apenas político !

01 outubro 2008

1 de Outubro- Dia Mundial da Música

Deixo entrar pela casa
a grande música !
Bach, Orff, Vivaldi,
Beethoven e Rodrigo...
Dvorak ou Falla...
E Tchaikowsky !
E Grieg !...
Entram em catadupas,
Em cascatas,
e despenham-se
e enrolam-se em espirais
como tornados.
E envolvem
e revolvem,
como um alagamento
ou uma convulsão...


Quando subitamente
se desdobram e espraiam,
e toda a cachoeira se desfaz,
são, borbulhando em espuma,
um mar manso e aberto,
um remanso de rias
ou represas,
ou lagos... ...

E o que fica no ar
é parecido com a paz
dos prazeres
saciados ! ! ! ...

Do meu livro Sinestesias

28 setembro 2008

Brutalidade

Isto aconteceu e a notícia voou por sobre mares e terras e veio embater no nosso conhecimento e na nossa emotividade tal qual como aqueles insectos grandes que em Cabo Verde vinham de encontro às lâmpadas acesas e se esmagavam no embate, com um estalido especial enquanto a sua massa corporal se espalhava, causando repugnância a todas as pessoas presentes... Assim a notìcia.Foi um ruido, uma repugnância... Uma tragédia, se usarmos agora outro tipo de registo.À morte que não nos aparece pela doença chamamo-la sempre de brutal... Brutalidade é isto de ser possível um amigo matar outro no logro de um desprevenido manuseio de uma arma.
Em presença de tanta calamidade, de tão irremediáveis desgraças, resultantes de tanto desentendimento humano por esse mundo, quantas vezes eu tenho gritado no mais fundo da minha estupefacção "mas porque há armas ? que só estimulam vinganças, desafios,soluções de morte ?"... Agora, depois do que aconteceu, entre amigos, e em paz, creio que perdi as forças para gritar mais e mais alto, como era preciso "porquê armas, para quê ? "Haverá quem o faça alguma vez, no mundo?
O que temos por certo é que nunca vai deixar de haver o desespero com lágrimas ou com olhos enxutos, secos de tanto chorar, daqueles que ficam,depois de tudo passado, com tudo à sua volta agressivamente igual a sempre,
apenas com uma falta. à qual, com o tempo, se irão habituar, como lhes é dito até à exaustão pela massa mais ou menos informe que aparece para a celebração dos cerimoniais de despedida.
Duríssima prova que o viver-se em sociedade exige,são os cerimoniais , em que cada um ,de forma antiquissimamente pré-estabelecida , tem o seu papel a cumprir sob o olhar condoído mas nunca acrítico de cada acompanhante.Claro que são,que eram amigos...Esses todos são, serão reconhecíveis. Mas, na dor dos que ficam, como entendo a ansiosa necessidade de reorganizar as mínimas memórias em solidão ! ! !
É um pouco isso que eu própria estou fazendo aqui e agora. Afinal este foi também, haverá duas dezenas de anos, um daqueles que me habituei a chamar e a sentir como "os meus meninos "...

22 setembro 2008

22 de Setembro - outono

.......o sol,vindo, desdobra
as sombras e já pinta de amarelo
as folhas junto à sebe.
................................................................
hoje ficou mais frio, acendo o lume,
ao fim da tarde, escura, a biblioteca,
aqui o meu rebanho
se algumas reses tenho,
tem fechada a janela,cheira a estrume
e a adubos orgânicos lá fora.
nas lombadas andei por ceca e meca
em devaneio e à hora
de trabalhar um pouco, me adormeço.
só depois é que escrevo
e assim é que me atrevo
a lembrar inventando quanto esqueço,
e do que mal recordo pago preço.

de aves que migram vejo inda os vaivéns.
passam rasantes junto do telheiro
e escuto o seu gorgeio
que me traz pelo meio
alguma agitação : ladram os cães...

Excertos de uma canção de outono de VASCO GRAÇA MOURA
Fotografias feitas por mim na Quinta das Torres em Azeitão

21 setembro 2008

Isaías, hoje

Quantas mais vezes precisamos nós de que isto nos seja repetido, para deixarmos de ser presunçosos e julgadores avaliando tudo e todos com as medidas dos sistemas avaliadores que nós mesmos criámos ?E que teimamos em acreditar que são os únicos válidos...
Tanto quanto os Céus estão acima da Terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos, e acima dos vossos estão os Meus pensamentos.

20 setembro 2008

Intraduzível


Apenas quero não deixar confundir-se com outras memórias esta que não tem nada a ver com mais coisa alguma : a Maria João Pires, muito pequenina, sentada ao piano, quase não-corpo, só ALMA ! ! ! e Beethoven íntimo sussurrado,romântico soluçado, dolorido, revoltado... Ela, só lmaterialidade, poderei dizer corpo da essência ? Parece realmente que não há mesmo palavras ..

Estou a lembrar-me da Natália Correia quando resolveu dizer que a poesia é para se comer...

Que dizer então desta música ? Nunca para se comer, mas para se entranhar no mais intraduzível da nossa capacidade de sentir ? ! ! !

18 setembro 2008

O recobro...

Tem sido, ao longo desta semana, na minha casa, assim como um arremedo da chegada da Primavera. Como as andorinhas, eles vão chegando: primeiro, só um, muito mais cedo que os outros, depois vêm dois de uma vez, depois um outro...Até que se me enchem as tardes com as sua idas e vindas, muito irregulares, na procura dos acertos nos horários... É realmente uma alegria ! Porque todos vêm contentes, com imensas histórias a saltarem daquelas cabeças ainda borbulhantes das férias, ansiosos por contar... Só os que vêm de novo e quase não me conhecem é que, com um certo embaraço, se apresentam contidos, talvez até um pouco receosos... Todos eles são o que eu chamo "os meus meninos" e, nesta fase da minha vida, uma das minhas razões de viver. É bom vê-los chegar, mais altos, mais magros ou mais gordos, bronzeados, a irradiar liberdade, ares novos, frescura ! ... E muitas vezes trazem ideias novas. Porque há alguns que
"amadurecem" neste espaço sem aulas e com outras motivações,nascidas em consequência de contactos mais prolongados e até mais íntimos com os pais e com pessoas diferentes daquelas que compactam todas as horas dos seus dias na parte maior de cada ano que eles vivem, nesta época da sua formação. É pois, para mim, um recobro, este recomeço das aulas...
Além de que já voltaram a encher a minha mesa de trabalho os Saramagos, Eças, Vieiras, Cesários, todos os Pessoas e por aí fora, cujo convívio nunca me farta e até ainda consegue trazer-me coisas novas de cada vez que os vou libertar do remanso das estantes,,,
Repetindo-me nesta citação de Madre Teresa de Calcutá , o ontem é passado, o amanhã é incerto.Resta-nos o hoje : vamos começar !...

13 setembro 2008

...como se pode, como se quer ou como se deve....

As múltiplas situações para as quais algumas vezes me atiraram as funções que desempenhei, permitiram-me, além de muitas outras coisas, conviver temporariamente com pessoas interessantes que vim a perder de vista para sempre, com as quais perdi todos os contactos, mas das quais me não esqueci, justamente porque eram interessantes. E até mesmo guardei delas memórias muito concretas, por um qualquer gesto, ou por uma qualquer expressão de ideias que, na altura, me cativaram. Foi o caso de alguém que, há cerca de trinta anos, numa reunião de várias pessoas interessadas em resolver certos problemas de ordem social, afirmou que só conhecia três formas de se viver : ou como se pode, ou como se quer, ou como se deve. E recordo ainda a longa discussão que esta afirmação suscitou em seguida... Porque a todos os presentes se mostrou desde logo urgente definir qual o alcance do como se pode e o do como se quer, porque do como se deve, todos pareciam saber...
Ora hoje, fazendo uma curta leitura no Evangelho de São Mateus fixei-me numa pequena passagem em que Jesus pergunta"porventura podem-se colher uvas dos espinhos ou figos dos abrolhos ? Toda a árvore boa dá bons frutos e toda a árvore má dá maus frutos".Creio que por esta mesma convicção Jesus amaldiçoa uma triste figueira numa beira de estrada, quando a vê desprovida de frutos... Esta não vivia como se deve e os espinhos e os abrolhos limitavam-se a viver como se pode ... Portanto a noção do dever é algo que trazemos connosco ligada precisamente à ideia de fazer bem feito aquilo para que somos( ou nos tornámos) dotados. Será sair da "norma", viver como se quer ou viver como se pode ,sempre que isso colida com o que a sociedade espera de nós-pessoas-com-as-nossas-cicunstâncias. Em São Mateus, Jesus explicava linearmente ao seu auditório uma coisa tão simples quanto isto : se tens todas as condições para dar bons frutos, é isso que de ti se espera. Não seria porventura ali oportuno reportar-se à infinita misericórdia de Deus que nos dá a margem suficiente para tentarmos fazer coincidir o querer, o poder e o dever , nisto das nossas vidas...
Mas, tal como se estão a apresentar hoje os conceitos de vida, onde reconhecemos cada vez mais espinhos e abrolhos e já vamos desesperando de encontrar os tais bons frutos e,pior que tudo ainda, chegamos a recear pela nossa própria "contaminação", parece compreensível que a atitude de Jesus fosse ríspida, como só ele as sabia tomar, por vezes...

07 setembro 2008

Da Profecia de Ezequiel, hoje

...Quando ouvires uma palavra da minha boca, hás-de avisá-los da minha parte...Se não lhes falares para os afastares dos seus (maus)caminhos...EU pedir-te-ei contas...

31 agosto 2008

São Paulo

Da Epístola de São Paulo aos Romanos, hoje :

Não vos conformeis com Este mundo ! Transformai-vos pela renovação da vossa própria mente !...

28 agosto 2008

Chuva de Verão sob um olhar antigo


Houve um único dia durante as minhas férias no campo que,depois de sempre com sol e quase sempre com vento, amanheceu sombrio e calmo,nuvens baixas sem descontinuidades, todas as cores da paisagem ensombradas por uma espécie de patine poeirenta,ficando o lençol de água do lago com a aparência gelatinosa e grossa de uma qualquer água de valeta... Da beleza que a luz acrescenta às coisas, se dúvidas tinha, ali tinha uma prova que mas tirava. Não tive porém nenhuma dúvida sobre a altíssima tensão a que a Natureza fica sujeita sob uma prolongada sequência de dias não só soalheiros, mas de calores muito intensos. Apesar de descolorida e baça, a vegetação parecia em repouso e no ar espalhou-se mais forte uma mistura de aromas frescos e identificáveis separadamente...Quando, quase a medo,caíram as primeiras gotas muito grossas de uma chuva que viria a tornar-se copiosa, pareceu-me que estava consumado algo como um encontro desejado de longa data...
A ver chover lá fora e com todas estas "impressões" gravadas, não demorou muito que não traduzisse tudo assim :


Hoje, sem ninguém esperar, cobriu-se o céu
e uma poeira ténue, acinzentada,
veio cobrir de manso, como um véu,
a paisagem que há muito era dourada.

Voluptuosa, a Terra estremeceu
sob a carícia meiga e inesperada.
Cheia de sede, sôfrega, bebeu
ébria,fora de si, transfigurada.

Foi distendendo os ramos, saciada,
cada árvore, cada planta, cada flor...
E à noite veio a calma perfumada,

húmida, densa, a recordar calor.
No ar, o aroma da terra molhada
será que entoava uma canção de amor ?...

25 agosto 2008

Jogos Olímpicos na China

Como certamente alguns milhares de portugueses, ontem, porque foi domingo, fim de férias e até fim de muitas outras coisas, sentei-me frente ao televisor SÓ para ver televisão. É muito raro fazer isto. Faz-se sempre qualquer outra coisa, enquanto no televisor escorre também qualquer coisa. Não ! Não pertenço àquele grupo de pessoas que não gostam que os outros saibam que elas vêem televisão. Eu vejo televisão. Quando sei que há para ser vista alguma coisa que me interessa ou me apetece ver. Sem complexos de culpa, sem medos de que me classifiquem de qualquer coisa menos honrosa para as minhas qualificações intelectuais, sociais ou até morais. Mas, como disse atrás, raramente estou sem me ocupar de alguma maneira física, isto também dependendo do valor que atribuo ao que surge para ser visto.
Assim, então, ontem quis ver o encerramento dos Jogos Olímpicos . Porque tinha visto as cerimónias da respectiva abertura, e ficara boquiaberta com tanto dourado, tanto prateado, tantos jogos de luzes, tantos vermelhos, tantos amarelos, tantas pessoas, tantas,tantas... Que cantavam em sons guturais agudíssimos, que dançavam em ritmos envolventes e inesperados ... Tantos, tantos, tantos...E ENTRETANTO tinha-se gerado um verdadeiro mundo quase surreal de vivências desconhecidas para mim, como para tanta outra gente, em que aos personagens se exigia apenas esta simples coisa : que fossem heróis. Ou talvez semi-deuses...Vi-os, espalhados por vários noticiários, a rir ou a chorar, tensos, gloriosos ou desiludidos e não me foi possível esquecer alguns daqueles esgares, durante muitos dias. O MEU mundo estava realmente a ser confrontado com algo que o abalava !E se eu já tinha convivido com notícias de Olimpíadas ! Com a minha idade...Porém, tinha posto na balança das minhas expectativas aquele meu gostinho curioso pelas coisas orientais, por aquela poesia tão capaz de sintetizar os mais complexos sentimentos em cinco ou seis sílabas das quais nós, ocidentais, ainda não sabemos se entendemos tudo...Pensava na leveza dos desenhos, na frescura dos temas... e tudo me saiu pesado e denso para uma forma agora tão dura e tão nova de se estar em qualquer forma de vida !
Foi por isso pois que quis, ontem, ver uma outra cerimónia.Para me certificar.
Hoje reli alguns dos meus poetas chineses.
Agora só tenho que procurar esquecer o drama que adivinhei através de algumas lágrimas difundidas pelos telejornais. E porque não lembrar mais vezes o sorriso bonito daquele português que nasceu longe e voltou da China, feliz ?
É tudo uma questão de equilíbrio de valores. Ou não?

20 agosto 2008

Regresso


Voltei ! Após quinze dias passados em casa de amigos, onde me sinto tão bem, aqui estou de novo no meu canto que não é mais do que, como dizia RÉGIO, ... aquela casa singela à qual quis ( e quero) como se fora feita pra eu morar nela... Terei muito que contar, do muito que vi e meditei, mas hoje apenas quero marcar presença . E mostrar um pouco do ambiente natural que me envolveu e no qual me apeteceu tantas vezes poder diluir-me...

03 agosto 2008

Do Livro de ISAÍAS, hoje

Porque dais dinheiro por aquilo que não é pão
e o produto das vossas canseiras por aquilo que não sacia ?

02 agosto 2008

Fait-divers

Pela manhã, cedinho, entre o segundo ou terceiro golo de café e a primeira dentada no pãosinho fresco, a bomba : acabam de assaltar o primeiro andar, aqui por baixo de nós...agora, agora mesmo...entraram por esta janela que estava aberta, levaram uma mochila que estava em cima da mesa e o telemóvel que lá estava perto...
Não é fácil de descrever o que se sente numa situação destas. Mas...agora? Aqui, mesmo por baixo da mesma janela que eu também tinha acabado de abrir...Mas como, se estas salas são viradas para os quintais dos prédios que, aqui são mais fundos do que o nível da rua que passa ao lado, se todo o perímetro de quintais está marcado por vedação de redes novas, sem rupturas?... Então só podia ser um ladrão ágil, jovem, leve, porque,`além de pular de alto teve ainda que trepar pelo gradeamento que protege as janelas do rés-do-chão, o que lhe forneceu a base do salto para cima,com que alcançaria a janela aberta do primeiro andar...Atropelam-se as conjunturas, uns vizinhos vêm à escada, fala-se tudo, mas...e os assaltados ? Um jovem casal. Primeiro chamaram a polícia que veio logo,porque a esquadra é pertíssimo, e foi a presença dos polícias na escada que levantou o burburinho... Depois, muito à pressa,já de saída para declarações na esquadra, falaram com alguns de nós enquanto desciam... E ficou a pairar para mim : mas como saíu o ladrão ? Viram-no ? ... Ninguém soube mais nada. E todos ficámos amedrontados, cada qual a pensar nas suas melhores soluções de defesa.
Durante todo o resto do dia se ficou a congeminar no como e quando e porquê e ...e...e...
Era noite quando o casal regressou e, por respeito, ninguém mais os procurou. Sabia-se que eles não tinham outro telefone senão o móvel que lhes fora roubado, por isso, nem telefonar era possível. Não sei também explicar como é que só no terceiro dia depois do assalto conseguimos falar com os assaltados.Já haviam recuperado os seus cartões que iam na mochila e que foram encontrados pela polícia, já tinham conseguido um novo telemóvel ao qual foi atribuido o número do anterior e com imensa calma, mas revelando muita apreensão, explicaram que haviam deixado as janelas abertas, durante a noite,por causa do calor, que dormiam e só foram acordados pelo bater da porta para a escada, por onde afinal o assaltante saíu sem ninguém dar por isso. E ficámos sabendo que o tal "agora", "agora" de cerca das nove da manhã do burburinho, fora provavelmente aí por entre as seis e meia e as sete horas da manhã...
Todos os vizinhos ficaram com esta realidade bem presente: janelas abertas são uma sedução para quem veja que pode entrar por elas, sair de nossas casas sem ninguém se intrometer é também sempre possível mesmo sendo-se ladrão. Vamos acautelar-nos mais. Foi uma grande lição !