25 abril 2009

25 de ABRIL

Eu vi Abril por fora e Abril pordentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.

Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.

Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.

Abril de Abril vestido ( Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer...

Manuel Alegre

24 abril 2009

24 de ABRIL



Le taparia el tiempo
con rosas, por que no recordara.

Una rosa distinta,
de una imprevista majia,
sobre cada hora solitaria de oro
o sombra,
hueco propício a las memorias trajicas.

Que, como entre divinas y alegres
enredando rosas, granas ,blancas
que no dejarán sítio a lo pasado,
se le enredara,
con el cuerpo,
EL ALMA...


de Juan Ramon Gimenez

18 abril 2009

Prendas

As prendinhas que trocámos com os nossos amigos tiveram sempre um qualquer significado, a menos que não fossem de ou para amigos mesmo, dos verdadeiros.
Com o andar da vida, acabámos por ter,a cada passo,na nossa casa uma presença qualquer daquele ou do outro ,várias vezes multiplicadas...A jarrinha do último natal em que... A moldura daquele dia de anos que... A taça, a caixa,a chávena...Isto para não falar dos utilitários como a máquina de café, a torradeira, o jogo de facas, o espremedor de fruta...E também a coquetterie dos lenços de seda, das caixinhas de comprimidos, do alfinete de pedras...
Bem! Isto tornou-nos possuidores de inúmeras coisas carregadas de significados vários mas que nós, no seu conjunto, acabamos por já nem gozar...
Combinámos então,entre amigos, no alvorecer desta avassaladora idade do consumismo, passarmos a só nos presentearmos com bens perecíveis, como produtos para nos lavarmos, para aperfeiçoar a nossa apresentação física, para comer ou beber, para escrever, e também flores, plantas e livros Tivemos algumas dúvidas sobre a classificação dos dois últimos citados.As plantinhas,se as tratarmos bem, far-nos -ão companhia longo tempo, são mesmo uma companhia com a qual até podemos falar( ! ! !). Sobre a durabilidade válida dos livros é que haverá muito a dizer.Pondo de parte o quanto fisicamente se deterioram, é claro que o seu conteúdo é persistente...quando o é! Porém cada vez estou encontrando mais livros perecíveis. Ninguém certamente está a pensar num CEM ANOS DE SOLIDÃO, nuns LUSÍADAS, num GUERRA E PAZ, numa MADAME BOVARY ou mesmo num MEMORIAL DO CONVENTO.
Mas quanto é publicado apenas arrastado pela esteira dos redemoínhos de uma moda, social, política, moral ou religiosa, ou até de certas inovações puramente literárias, uma vez diluida essa actualidade, passa a ser de facto também um perecível. E,por isso, ´poderá também entrar na categoria das prendinhas de desgaste previsível.E oferecemo-las uns aos outros com essa quase certeza.
Não me querendo deixar entrar pelo campo dos livros em que se estudava e são declarados perecíveis pela via governamental , olho para os livros de agora com uma certa desconfiança quanto à sua utilidade prática.Ocuparão um lugar nas minhas estantes tal como as prendinhas de antes da combinação dos perecíveis.
E não é que agora me vêm oferecer um livro como nunca tive, onde eu própria caibo em duas linhas e cuja classificação só pode ser CURIOSIDADE ?
Com uma admiração toda nova ( onde já vai na minha memória o que me vi obrigada a consultar na antiga Torre do Tombo!), vejo-me com um livro todo dedicado ao estudo da árvore genealógica das famílias que se entrecruzaram até chegar ao mundo a geração do meu marido ! Um dos seus dois laboriosos autores entendeu assim agradecer-me algumas conversas que tive com ele sobre tanta memória, tanta história... E, parafraseando alguém, digo eu ««que farei com este livro?»» Quão estranha profissão a deste simpático autor !
Genealogista! Quem conhece ?
Sempre,cada dia, coisas novas...Até nesta tão bem "arrumada"teoria das prendinhas que desalinho agora, a descobrir avôs e avós insuspeitados a viverem as suas vidinhas lá para trás do sol-posto, sem suspeitarem que de longinquos tempos e espaços alguém os andava a espreitar...

12 abril 2009

Pão Ázimo

Logo de manhã,com cuidado por causa da diferença horária,estive em frente da televisão porque procuro sempre não perder a transmissão das cerimónias no Vaticano que sei que vão dirigir-se urbi et orbi.Está sempre lindíssima a decoração daquela enorme esplanada frente à Basílica,com montões de flores e plantas verdes que a Holanda capricha em oferecer.E depois é todo aquele aparato de solenidade...
Não, não estou a falar de luxo.
Mas do cerimonial com que nesses dias os cristãos enfatizam
aquilo que deu o cariz verdadeiramente extraordinário às razões da sua fé. Claro que além de uma imensidão de público do mais heterogénio (quantos só turistas?) a figura central de tudo o que se ali passa é o Papa. E ouve-se, da sua sabedoria, que cremos divina, aquilo que nem sempre sabemos
interpretar ou por vezes aquilo que estava a faltar-nos como estímulo... Quantas vezes sem mesmo nos termos dado conta disso.
Hoje aprendi.Melhor: percebi.
Comi pela primeira vez PÃO ÁZIMO aquando da minha primeira viagem a Israel. Ao procurar saber como se fazia,explicaram-me que a única diferença para o nosso pão era apenas a de não levar fermento. E entendi porque era baixinho e maciço.Vim depois a comê-lo mais vezes sem nunca mais pensar no como era feito. Nunca tinha pensado que haveria uma relação entre ele e a História da minha fé.Quando oiço da boca do Papa «de tal modo a Páscoa é o partir para uma NOVA VIDA completamente nova, que até se deixou de fazer pão com o fermento, porque este tem que ser retirado de uma massa anterior e, por isso,velha». Não foram estas as palavras textuais, que não fixei. Mas foi esta a "novidade" para mim. Alguém me lembrou que há também uma explicação segundo a qual os judeus, ao fugirem precipitadamente do Egipto,não puderam dar tempo para fermentar ao pão que estavam a fazer...
Não teria nunca sabido isto de outra forma, creio bem.
Que mais coisas novas virão ainda acrescentar o que já sei, depois desta Páscoa da qual apenas esperava reforçar a minha solidez interior??? Banirei o fermento?

10 abril 2009

6ª FEIRA DE PAIXÃO


Deixai, deixai passar o homem forte,
o ungido do Senhor.
Se a cruz que arrasta agora é cruz de morte,
também é cruz de Amor !

Morres tu, mas a ideia que deixáste
não morre, como a luz em fim de dia,
nem o fogo do céu que em ti ardia,

nem o exemplo sublime que legáste !


in A senda do Calvário

ANTERO DE QUENTAL

05 abril 2009

Cerimónias de RAMOS

Este deslizar das semanas durante a Quaresma torna-se-nos mais sensível porque é um caminho que se percorre e no qual se vão eliminando etapes. Chegámos hoje ao domingo de Ramos e, sendo aquele em que começa verdadeiramente a tragédia da morte mais injusta e cruel alguma vez executada sobre um ser humano, as cerimónias de igreja, neste dia, tornam-se alegres e festivas, já pelas cores vermelhas dos paramentos, já pela manipulação dos enormes ramos de folhas de palmeira, tão elegantes, tão graciosos, a ondular ao ritmo de todos aqueles cãnticos entoados em procissão. Imaginar a figura daquele JESUS materializado no filme de Mel Gibson, montado num burrito assustado com a gritaria do povo circundante, a procurar romper pelo meio de uma turba enrodilhada em gritos e palmeiras, em correrias para ver melhor o que parecia festa, imaginar a paciente doçura daquele que se sabia condenado sem crime, fez-me sentir subitamente uma tristeza tão dilacerante que só tinha uma vontade: fugir, sair, procurar outras cores da alegria, arrancar de mim toda a imagem da dor,da dor toda, ou antes, de toda a DOR... (e lá, na ponta de um banco, não é que se senta o que resta, em disformidade, daquela que foi a ninha alegre amiga cujo esgar,como sorriso, ainda veio ter comigo?)

02 abril 2009

Livro infantil - ilustração


Tenho uma sobrinha que faz lindas ilustrações e desenhos em livros infantis e não só... Aqui está uma amostra do que ela fez com uma amiga,quando estiveram em São Tomé integradas nos Leigos para o Desenvolvimento...

29 março 2009

Parábola da semente-5º domingo

Tenho sempre usado os muitos poderes da minha imaginação para me ver fazendo parte daqueles grupos que seguiam Jesus, curiosos, compreendendo pouco, mas intuindo muito, perfeitamente rendidos ao suave tom da sua fala, parecendo antes a de quem medita em voz alta, mas sendo na verdade ( e podiam tê-lo percebido por vários Sinais ) a de a quem Deus conduz como seu Filho, mesmo nas situações mais sinuosas e difíceis. Hoje, São João conta-nos da curiosidade de uns gregos, em Jerusalém, que queriam conhecer Jesus o que, de certa maneira, não deixou de preocupar os discípulos que temiam por ELE, naquele ambiente meio festivo que já atraía estrangeiros para a Festa próxima.Porém Jesus, serenamente, como se nada passasse por ELE, ensinou-lhes a parábola da semente que, se cair à terra e não morrer, estiolará numa solidão sem horizontes.Mas que,morrendo enquanto semente, poderá multiplicar-se em réplicas ad aeterno... Todos os que o ouviram sabiam,pela prática, que isto era assim, simples de entender e aceitar. Mas aquilo que ouviram a seguir e não foram capazes de perceber se era um trovão, aceitando com naturalidade que poderia ser a fala de um Anjo, nisso é que surgiu o Mistério : o Mistério de um Deus que estava ali, com eles, prestes a deixá-los até à Eternidade, e ninguém foi capaz nunca de compreender...Que era ELE mesmo a tal SEMENTE !

26 março 2009

Parafraseando Natália

«« a poesia é para comer »» dizia a Natália Correia, no seu modo estrepitoso de escandalizar... E eu, sem nenhuma vontade de escandalizar seja quem for, sempre a entendi perfeitamente e, a partir de certa época da minha vida, comecei a ousar aconchegar junto da ideia da Natália a minha de que a VIDA é para se beber... A grandes tragos ou a pequenos goles.
Aquele acontecimento de um amigo que atinge a classificação magna cum l aude na sua prova de doutoramento, ou o de uma amiga que chega de outra terra para vir ficar connosco, partilhando a nossa casa e a nossa vida temporariamente, ou a tomada de decisões práticas na ocorrência de factos imprevisíveis na orientação do condomínio, ou a envolvência carinhosa de alguém de quem não a esperávamos, ou a bonita camélia que,no nosso minúsculo jardim, a cameleira nos ofereceu, ou a senhora da paróquia que vem pedir para os seus missionários protegidos, ou aquela bonita luz difusa que este sol de primavera deixou coar através das cortinas de linho antigo que hoje lavámos, ou a aluna que nos encheu a semana com uma classificação de 19 valores, depois de termos trabalhado tanto...São, gota a gota, aquela bebida que transforma em pequenos oásis certos dias de secura, tonus indispensável para qualquer gosto de viver.A poesia de que a Natália falava ( e comia ), essa acho que é destas múltiplas gotas que acaba por brotar...

22 março 2009

Gaudete ! 4º domingo

««Naqueles dias,todos os chef.es de Judá, os sacerdotes e o povo multiplicaram as suas infidelidades, imitaram as acções abomináveis das nações pagãs e profanaram o Templo que o Senhor tinha consagrado......O Senhor, Deus de seus pais, bem cedo e sem descanso começou a enviar-lhes mensageiros... mas eles escarneciam dos mensageiros de Deus, desprezavam-lhes as palavras e troçavam dos seus profetas a tal ponto que deixou de haver remédio para a crescente indignação do Senhor contra o seu povo...
Isto nos diz o texto exrtraído do Livro das Crónicas para a missa de hoje, o chamado Domingo Gaudete. Claro se torna depois, .no restante das Leituras, que a infinita misericórdia e o grande amor de Deus pelas suas Criaturas o levou a perdoar-lhes, não sem que tivessem antes passado pela deportação e sofrimentos em Babilónia e não sem que lhes fizesse compreender a magnanimidade dessa sua mesma misericórdia que,através de Jesus, queria fazê-las trilhar os caminhos da LUZ e das BOAS OBRAS. E é dessa infinita vontade divina de nos perdoar que retiramos todas as nossas razões da alegria deste 4º domingo da Quaresma de este ano.
Fica-me para meditar,toda a semana, a citação do Livro das Crónicas e a interrogação posta ao meu espírito sobre, quanto tempo, quanta cultura, quanta experiência,quanto progresso humano poderemos medir, contar, desde o que aqui nos é narrado até aos dias que estamos vivendo hoje...

21 março 2009

Poesia

como meter o mundo
num poema? traduzir-lhe
a áspera realidade, a doçura
intranquila ?

como meter o trabalho
dos homens, os seus dias,
nessas escassas linhas,
seus ócios, seus espelhos,

seus desvarios, suas
catástrofes de amor ?
como meter a morte
nas palavras ?

só que uma coisa bela
é para sempre uma alegria inquieta.

Vasco Graça Moura

19 março 2009

PAI

São apenas uns flashes guardados na minha memória, com amor. Por isso duram.
1º- O meu Pai é um homem alto e eu, nos seus braços, quase desapareço. Ele usa uma farda acinzentada e está de pé, muito direito, aperta-me com muita força e...soluça.Algumas das suas lágrimas caem sobre o meu cabelo.Dão-nos uma flor que ele põe na minha mão e inclina-se...É a minha mãosita que vai pousar aquela flor sobre um montão de tule branco sob o qual a minha Mãe parece ter adormecido...
2º-O meu Pai espera-me, cá fora, à porta da Faculdade. Eu não me apercebera de que ele estivera lá. Abraçamo-nos, na minha surpresa do encontro. Alguém diz a "graça" do momento: «Aqui temos a nossa doutora!» O meu Pai põe as suas grandes e tranquilizantes mãos sobre os meus dois ombros, olha-me bem de frente e diz, quase para ser só eu a ouvir : «doutora sim,filha, mas nunca esqueças que, primeiro que tudo, és UMA SENHORA »...
3º-Estamos frente ao altar-mor da Igreja. Eu, noiva dos pés à cabeça, por dentro e por fora, toda feliz.Á minha esquerda o meu Pai ,brilhante, na sua farda azul com lindas medalhas no peito, a seu lado a minha Mãe com uma lindíssima capeline preta enfeitada de plumas verdes. Do meu lado direito, o meu adorado noivo, todo nervoso dentro de um fraque que nunca gostou de vestir, e à direita dele o seu irmão e cunhada.Portanto, tudo nos seus lugares para começar a celebração do meu casamento. Era um dia de Junho,muito ventoso e, para subirmos a escada da Igreja, o vento levantava a passadeira que deviamos pisar e o meu Pai ia aplanando degrau a degrau com a sua espada numa das mãos enquanto com a outra me segurava braço para que não me desiquilibrasse...A cerimónia, as orações, a alocução para os noivos pelo Sr. Padre Augusto, tudo uma beleza. Lembro-me de olhar para o meu Pai...O peito da sua bonita farda azul, por entre as tais medalhas, parecia cheio de nódoas. Pela sua cara deslisavam ,silenciosas e grossas, lágrimas que me destroçaram, fazendo-me chorar também...

A saudade de um Pai é tecida de malhas muito miudinhas que nunca perdem o seu significado ao longo de qualquer vida, mesmo longa...

15 março 2009

Depois da tempestade a bonança possível...

Imaginemos que saio desta espécie de túnel negro por onde me têm trazido esta semana as dores nunca antes experimentadas de uma inflamação nas espondilíticas cervicais, que resolveram envolver-me desde os mais recônditos locais da minha cabeça ( nem eu sabia que haveria por ali tanto cantinho para doer ! ) Imaginemos que já estou outra vez de bem com o meu computador e que a minha cabeça já se vai aguentando na posição que ele lhe exige..
Então aqui vou eu pensar ( será que não vai doer? ) neste 3º domingo de quaresma, tão especialmente cheio de interpelações, que chego a crer vir também ele pleno da especial atenção com que o Senhor este ano me atribuiu a minha penitência quaresmal.
Em primeiro lugar, vemo-nos como que acareados com"três" interlocutores diferentes. Muito diferentes mesmoNo Livro do Êxodo, é o Senhor Deus que fala àquela turba humana que acabara de salvar de uma humilhante escravidão e que, vencidos tantos obstáculos só superáveis porque existiu a Sua ajuda,iria agora, eufórica, entregue a si mesma fazer o quê ? Sem "rei nem lei",como se diz, e sem a mínima noção de como se é povo, sem vícios ou fraquezas humanas ( não cobiçarás a casa, nem o boi, nem o criado, nem a mulher do teu vizinho..! ) Bem, o Senhor Deus acaba mesmo criando um código e é com uma certa dureza que tudo faz para que entendam a importância de observá-lo EU SOU UM DEUS CIOSO. castigo a ofensa dos pais nos filhos,netos e bisnetos daqueles que me detestem, mas sou benevolente com os que me amam e guardam os meus mandamentos. E assim aquela massa humana seguiu na procura de um entendimento nada fácil, então. NUNCA, tenho vontade de o dizer agora. Todo este ideal seria realmente uma loucura de Deus ? Surge-nos então o segundo interlocutor, o "apaixonado" São Paulo a lembrar-nos aquela pertinente noção das distâncias que vão de homem para Deus e que estamos constantemente a esquecer.: « o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqeza de Deus é mais forte...»» Por isso mesmo é que tanto se fala naquela " fúria" de Jesus ( o nosso terceiro interlocutor de hoje ) ,quando,suponho que gritando e esbracejando correu com os vendilhões do Templo. Foi isto uma sua fraqueza ou uma sua força ? Na linha de quanto há dois mil anos era necessário fazer para ser compreendido,terá sido uma força. Para que o"fraco" HOMEM não precisasse, dois mil anos depois ,ainda , de ser lembrado daquilo que todos sabemos lhe falta: a noção de que, cobiçar o boi ou o criado do seu semelhante e ver neles apenas o chorudo possível negócio, fará de si mesmo um " vendilhão" sem alma, sem Amor, que Jesus voltará a expulsar do TEMPLO.E de que a pertença a um povo, e para mais "de Deus",lhe exige discernimento para uma solidariedade / caridade que não se coadunam com qualquer "banca" de vendas no átrio de qualquer templo...

10 março 2009

SE..

Se...Vou iniciar este meu post por um SE... Foi o2º domingo da quaresma .Quanto me seria grato ter mais uma vez subido ao Monte Tabor e naquela amplidão de vista, naquela leveza de respiração, ter podido ficar à espera de ouvir e ver este é o meu filho muito amado... Mais uma vez não consegui armar a minha tenda. Por isso digo SE. Se Deus quer realmente alguma coisa de mim, estou a ser posta à prova como poucas vezes o tenho sido. No meu físico, muito. No meu espiritual, imenso.
Até aconteceu naquele mais um dia das coisas todas que há, ser o Dia da Mulher.Não tenho muita simpatia por estes dias que separam grupos .Porém este 8 de Março... Fez agora, nesse dia, 32 anos que eu entrei definitivamente na Função Pública voltando costas ás escolas,ao ensino oficial. Comissão Instaladora de algo de onde só viria a sair já reformada... Era de celebrar. Neste dia que me traz um cacho de recordações espantosas, apenas quis o Senhor meu Deus que conseguisse uma lágrima ...ou mais... Se com o Amor as entendeu decerto as aceitou, preito de coisas que só NÓS sabemos...

01 março 2009

1º Domingo de Quaresma

«Naquele tempo o ESPÍRITO SANTO impeliu Jesus para o deserto » Começamos assim o nosso primeiro Evangelho da Quaresma deste ano. Deste ano tão particularmente comprometido pela mão do Homem, tão desprotegido materialmente, tão desertificado espiritualmente. Creio firmemente que, tal como o fez com o Filho de Deus/ filho do Homem, o Espírito Santo nos está impelindo para o deserto, a nós Homens com quem, até há algum tempo, procurou estabelecer um Arco-Iris, sinal de aliança , como prometeu na hora do Génesis... Resta agora para nós discernir se as tentações a que Jesus esteve sujeito e foi vencendo durante apenas aqueles quarenta dias, tal como o próprio deserto, de que nos conta São Marcos , não serão reduções exponenciais e exemplificativas daquilo para que , vista a quase imperdoabilidade do nosso caso, o Espírito Santo nos esteja a impelir. Será então de pensarmos no que poderemos ainda fazer, nós Homens, para, reaprendida a disciplina moral, penitentes ainda, mas de cara levantada, sairmos por aí a dizer « arrependei-vos e acreditai...» Teremos ainda Coração e Amor bastantes para curar tantas situações de sofrimento ?...

28 fevereiro 2009

Granada e Córdova

Qué hermosa esta granada, Platero! me la ha mandado Aguedilla, escogida de lo mejor de su arroyo de las Monjas. Ninguna fruta me hace passar, como esta, en la frescura del agua que la nutre. Estalla de salud fresca y fuerte. Vamos a comernosla?
Platero, qué grato gusto amargo y seco el de la dificil piel, dura y agarrada como una raiz a la tierra! Ahora el primer dulzor, aurora hecha breve rubí, de los granos que se vienen pegados a la piel. Ahora, Platero, el núcleo apretado, sano, completo, con unos vuelos finos, el esquisito tesoro de amatistas comestibles, jugosas y fuertes, como el corazón de no sé qué reina joven. Que llena está, Platero! Ten, come. Qué rica! Con qué fruicion se pierden los dientes en la abundante sazón alegre y rija! Espera qué no puedo hablar. Da al gusto una sensación como la del ojo perdido en el laberinto de colores inquietas de un calidoscopio. Se acabó!
[...]
Yo ya no tengo granados, Platero.
[...]
Caía el sol y los granados se incendiaban como ricos tesoros, junto al pozo en sombra que desbarataba la higuera llena de salamanquesas...
[...]
Granada, fruta de Moguer, gala de su escudo! Granadas abiertas al sol grana del ocaso !...

Juan Ramon Jimenez — Platero y yo


A verdade é que não sabia muito bem como começar este meu post. Estive sim quatro dias divididos entre duas belíssimas cidades da Andaluzia, dividida também eu entre o suave estremecimento das recordações avivadas e uma espécie de revolta pelo que o desenvolvimento, o progresso, a modernidade, fizeram ás minhas recordações. Isto é para ser dito e não escrito, e, mesmo dito, deveria ser segredado. Não terei o direito de ser tão egoísta que pretendesse que o mundo parasse para perservar as minhas recordações... Mas se, no local onde, sob as pequenas laranjeiras carregadas de frutos a ponto de perfumarem alguns metros em redor, onde, repito, aí se trocaram ternas promessas de vida a dois e, agora, se lá vai encontrar um novelo de estradas entrecruzadas com um estonteante movimento de carros, fica-se com pena de que o jardim de laranjeiras não possa mais ser uma marca do amor no mundo... Claro que há outros e muitos e mais ainda... As cidades crescem, como as crianças... Estamos um tempo sem vê-las e, quase sem sabermos como, já estão para casar...
Por pensar em crianças, noutra cidade, não na das laranjeiras, lembrei-me de que alguém de quem me enamorei há largos anos tinha nascido quase lá. Esta é a cidade das romãs. E o meu poeta nasceu em Moguer onde, criança mesmo possuia um burrito, seu companheiro e amigo. Daqueles amigos especiais que apenas as crianças têm. Juan Ramon foi muito depois Prémio Nobel de literatura e creio que o seu burrinho prateado, as brisas já mediterrânicas de Moguer e as preciosas romãs terão sido a base sólida do esplendoroso lirismo do seu testemunho de vida. Por isso iniciei com ele este meu post, repassado de Sol andaluz, de perfumes andaluzes, todo ele em clima e alma aquilo que passou por mim como um sopro benfazejo com que, pela mão dos humanos, Deus me quis presentear...

14 fevereiro 2009

´Camões




...e como duram as velhas paixões!
Parecerá que estou a escrever isto hoje porque a ganância comercial, a certa altura, percebeu que seria proveitoso ir buscar o costume estrangeiro de celebrar um dia dos namorados, na data de hoje. Mas não. Até porque há já alguns dias que ando neste enlevo de reviver uma antiga paixão. Deverei dizer melhor :um velho amor. Porque de paixão a amor vai uma grande diferença, como se sabe. E quem é o eleito, quem será? É CAMÕES.Não sei bem se os LUSÍADAS. Talvez os dois, pois não há um sem o outro. E não é mesmo a LÍRICA que consegue arrebatar-me.
É preciso chegar ao décimo segundo ano do Secundário para que os alunos portugueses retomem o contacto, este já interessado e consciente ,com o maior poeta da sua terra, com o mais belo poema dedicado àqueles que esta terra fizeram SUA. E é preciso, para que isto aconteça, que se veja( o que está entrando pelos olhos ) que a MENSAGEM de Fernando Pessoa é filha de sentimentos paralelos, nunca concorrentes, por estar grávida de intenções intencionalmente e completamente distintas das de Camões ( perdoe-se o "intencional " pleonasmo)Mas os doutos programadores das coisas que os jovens portugueses devem conhecer para cultura futura pensaram ( e bem ) que, nesta étapa dos seus estudos, PESSOA devesse chamar Camões a terreiro... Para amá-lo ? Seria bom, porque quando se ouve pessoas responsáveis reduzirem as suas memórias dos Lusíadas a um "pacote" de enfadonhas "orações", como eu já tenho ouvido, há a obrigação de responder a tal enormidade :«...o coração sujeito e dado ao vício mole se faz e fraco e bem parece que um BAIXO AMOR OS FORTES ENFRAQUECE» sendo que se a «pátria está metida no gosto da cobiça e da RUDEZA» ela não sairá mais de «hua austera, apagada e vil tristeza »
É pois agora a minha oportunidade de tornar conhecido aquele inabalável amor à ditosa pátria, aqui, quase cume da cabeça de Europa toda, e aquele enorme orgulho em pertencer-lhe que faz Camões colocar na boca de outro o seu desejo de voltar de onde estiver, para nela acabar os seus dias. A intensidade de sentimentos, a arte no domínio da língua e, com esta, da frase que estrondeia com a "trombeta castelhana" e estremece de suavidade junto da "formosíssima Maria" ou da "mísera e mesquinha", a abundância da informação científica e de conhecimentos práticos e técnicos, a perspicácia na interpretação das lendas, dos mitos e da História , tudo são
razões para uma admiração tão apaixonada que os portugueses não têm sabido cultivar.
Pudessem os meus alunos veícular este amor até novas gerações e essas a outras e assim por diante !... Porque dura, dura mesmo, esta paixão, quando começa...

11 fevereiro 2009

Nossa Senhora de Lourdes

Avé Maria pequenina

Salvé Maria menina !
Salvé Maria tão pequenina
que mal ouso aconchegar-me
no teu regaço de luz !
Salvé Maria que Deus chamou
de entre as meninas de Nazaré !
Avé Maria silenciosa,
mesmo naquele SIM da tua fé !
Avé Maria que hás-de guardar-me
agora e sempre
e até naquela hora
em que, contigo, hei-de encontrar JESUS !...

07 fevereiro 2009

...também a surpresa.

Ki no Tsurayuki

Poeta japonês, morto em 945- Seculo IX - um dos grandes autores de tanka ( poema de não mais que cinco versos,de uma extrema capacidade de síntese e de uma profunda densidade de expressão dos sentimentos ).
Adaptação de uma tradução francesa de G. Renondeau

On sait bien que du lendemain
Nul d'entre nous n'est sûr,
Mais ce fut avant le soir
Aujourd'hui même qu'une amie
Nous donna tant de chagrin...

02 fevereiro 2009

Senhora das Candeias

...Se chora, está o Inverno fora; se rir, está para vir.
Esta sabedoria meteorológica de que dependem quase sempre as várias étapas das tarefas rurais, é uma das fontes tradicionais que mais prazer me dá consultar e...usar !
Dia da Senhora das Candeias... Como é que um rasto de luz, tão belo na sua simbologia cristã, chegou até à convicção popular de que a fertilidade da terra se acertaria com as bençãos desta sua presença ou ausência...? « Eu sou a Luz do Mundo »... Somos um povo que o sabe.