05 novembro 2006

Medo

Será porque envelheci? Será porque estou mais precavida? Será porque me chegam ao ouvido mais histórias ?... Hoje,no meio da gente anónima, de dia ou de noite, em espaços mais ou menos concorridos, mais ou menos iluminados, tenho MEDO, desconfio...Assim, em abstracto...Que saudades de quando tinha por lema "GUARDA:FORSE ACCANTO A TE C'É UN ANGELO !"

02 novembro 2006

CHUVA

Esta chuva não é só mágoa.
É companhia.
Andou comigo hoje, todo o dia,
uniforme, cerrada, obcecante...
Não me deixou sózinha um só instante !
Como um mau pensamento que persiste,
como a dor que nos dói suavemente,
como essa lágrima a que se resiste
inexplicavelmente...

31 outubro 2006

Memória


Usos e costumes dos Estados Unidos que sempre foram suas tradições, têm sido,aos poucos,adoptados por nós, europeus, sempre fascinados pelo que vem de "alhures" ou então farejando negócios e lucros de que não nos podemos descuidar.É assim que eu vejo o aparecimento do Dia dos Namorados( que não existia quando eu namorei),a Noite das Bruxas ou Halloween e até o que já se vai imiscuindo Thanksgiving Day. Certo é que o Halloween parece ter feito a travessia do Atlântico primeiramente de leste para oeste,pois, pela sua origem céltica,teria acompanhado os emigrantes irlandeses do século XlX. Mas porque falo disto hoje? Hoje,Noite das Bruxas? Pelas máscaras, pelas abóboras recortadas,pelas recolhas de doces pelas crianças? Nada disso.
Porque esta "embruxada" data me fere e dói sempre da mesma maneira em cada um de tantos anos de solidão que se vão sempre repetindo...
Era no tempo da Guerra.Creio que pela presença de tantos americanos na Europa,essa festa apareceu entre nós,trazida por eles.Para mim,antes dessa época,era algo que nem existia.
E,coincidência de datas,nesse dia, nessa noite,festejei com alguém,pela primeirs vez,
o seu dia de anos que nunca mais deixaríamos de festejar durante cerca dos trinta
anos seguintes, os anos de todas as minhas memórias felizes...
Embora a nossa festa nunca tivesse tido nenhuma intromissão estrangeira,eu,anos passados, nunca deixo de"ouvir"aquele "...pero que las hay,hay."
Que não me abandone a FÉ e recuperarei àmanhã a alegria que ela me ensinou a retirar,
mesmo das minhas mais saudosas recordações...

29 outubro 2006

26 de outubro

de JUAN RAMON GIMENEZ
Cancion de Otoño

Por un camino de oro van los mirlos... Adonde '?
Por un camino de oro van las rosas... Adonde ?
Por un camino de oro voy...Adonde otoño ?
Adonde pájaros y flores ?...

24 outubro 2006

CATS


Os ingleses trouxeram mais uma vez os seus CATS a Lisboa.A minha paixão pelos gatos não permitiria que agora os perdesse aqui, como já tinha acontecido antes. Vira-os em Londres,haverá aproximadamente uns vinte e tal anos e reencontrei-os agora.
Diferentes como não é de admirar.Menos peles a tornarem os seus corpos roliços e fofos,ausência daqueles telhados velhos e assimétricos,substituidos aqui por enormes pedregulhos constituindo grutas entre si;arrisco-me a dizer que os muitos recursos à modernidade da electrónica não me pareceram trazer muitas melhorias ao trepidante da acção ou ao romântico de certos momentos que os excelentes cantores souberam tão bem transmitir.Na hora do " the time I knew what happiness is " foi realmente uma espécie de magia que se derramou sobre nós todos que éramos muitos naquela enorme plateia do COLISEU...São dois momentos inspiradíssimos que tocam os corações latinos ! E eu, como característico da minha idade,não consegui evitar o assomo da lágrima...Aliás, se virmos bem, toda aquela história vem carregada de coisas que doem aos velhos...Memories...Só mesmo o fofinho dos gatos terá comsigo esta carga ternurenta que nos amima quando já mais ninguém está perto para o fazer.
Não se imagina como se tem saudades daquilo que representa a serenidade do nosso gato enroscado no nosso colo, a dormir...A segurança,a paz...Também magoa, na vida, perder-se o "nosso" gato...Coisas minhas!

18 outubro 2006

Do LIVRO da MINHA SABEDORIA

Não ! Não quero que venham nunca mais,
com ar de quem dá esmola,
dar-me a mão.
Eu não sou a que pede,
a que suplica,
e a minha fome nada significa
no vosso dicionário de ideais.


Por que estranhos caminhos sinuosos
andam essas esmolas que me dais ?


Conheço bem palavras e sorrisos
com que,nas minhas costas, me matais...

( hipocrisia? ou só irreflexão ?)


...Quero enterrar meus dentes noutro pão
que me saiba às certezas que ignorais...

13 outubro 2006

Fátima

Hoje, Fátima.
Nunca fui a Fátima a pé. Nunca tomei parte em peregrinações organizadas.
Mas vivi em Fátima,por minha vontade, em vários períodos da minha vida. Em férias, por um mês, mais de uma vez. Em Natais e Fins de Ano. Em verões. Pela época de Todos ds Santos . Pelo meu aniversário.Sempre que posso...
Em menina,íamos de charrette,ao trote de uns cavalos elegantes que nos levavam com toda a comodidade; e era uma alegria de viagem por entre pinhais muito aromáticos e húmidos. Ás vezes acontecia chover e tudo se tornava mais difícil. Houve mesmo, de uma das vezes, um terrível problema: as elegantes rodas da charrette atolaram-se na lama até metade, o que significa que só se desatolariam puxadas e sem passageiros a fazerem-lhes peso. Lá foi preciso virem "salvar-nos", com grandes ralações para a minha Mãe e com grandes ataques de riso para mim e para as primas que iam connosco. Fátima era então um local lamacento com acessos por estradas poeirentas,se era verão, e cheias de poças de água e pedregulhos, quando a chuva não era tanta que criasse o tal lamaçal...
Quando agora me acolho em estalagens confortáveis ou nas CASAS das Religiosas que nos recebem com todos os saberes da hotelaria moderna, lembro-me das noites enrolada numa manta, com aquele friosinho da madrugada do alto da serra, encolhida contra o muro da Capelinha... Era bom ! Sempre senti, e continua a acontecer-me, que se respira leve em Fátima.
Que se medita com suavidade. Que é outro aquele mundo de perfume de estevas e alvoradas arroxeadas em céus por onde reboam os sinos , como voos de ave...A experiência de ver chegar o dia naquele espaço aberto, quase só nosso, quando não há senão a sugestão de um infinito puro
e o ressoar longinquo de pequenos ruidos a lembrar-nos o mundo, é inigualável, única...
Quero muito acreditar que, por se ter tornado "altar do mundo",não se tenham perdido as marcas dos meus pés que deixei na antiga e humilde lama, hoje tapada com o asfalto, porque esses eram os pés da minha ingénua e incipiente convicção de que a SENHORA me inspiraria para vir a ser uma grande mulher, no meu país ,que era então o meu único mundo.
Hoje, que sei o tamanho do mundo, sei também que sou apenas aquela mulher que continua a ser a dona desses pés...

08 outubro 2006

Do Livro do Génesis

«Não convém que o Homem esteja só» disse o Senhor Deus depois de o ter criado.
Entra-se assim nas Leituras próprias da missa do dia de hoje,a partir do Livro do Génesis. E depois o Senhor Deus trouxe várias possíveis companhias às quais o Homem foi atribuindo nomes para depois as conhecer,animais de toda a espécie...Só que a nenhum o Senhor Deus deu a capacidade de ser semelhante à sua primeira criatura num total de corpo e espírito que permitisse "entenderem-se" completando-se. E então criou a Mulher, do mesmo "material" de que era feito o Homem.E perceberam que eram de tal forma feitos um para o outro que passariam a ser um só, deixando mesmo Pai e Mãe para se unirem indestrutivelmente.
Já no Evangelho,da autoria de São Marcos, é Jesus quem explica aos fariseus que só a "dureza"dos corações deles os levara a admitir e permitir a separação daqueles que o Senhor Deus fizera "carne da mesma carne".
Sei que não é tempo, agora, de sequer se lançar qualquer discussão sobre a indissolubilidade do casamento cristão.Quanta água correu sob quantas pontes !!!
Mas encanta-me a singeleza, a pureza, a ingenuidade do GÉNESIS...
O Senhor Deus sabia quanto pode ser perniciosa a solidão. E tudo fez para desqualificá-la, considerando, isso sim, que é "conveniente" a companhia.
Mais uma vez me comovo por saber que, por aí, Deus também pensou em mim !...

01 outubro 2006

Por causa da TLEBS

...E agora vamos dizer aos rapazes e`as raparigas que "o poeta é um fingidor..." que "tudo vale a pena se...", mas que "têm que passar além do Bojador" para "passar além da dor"... É assim que tudo começa,mas servido com a especialmente recomendada TLEBS. Tenho uma certa desconfiança de que vai ser este o BOJADOR e não me parece que alguém vá "fingir que é dor" a primeira abordagem a este cabo... Quero,com muita força, que os que agora começam não se desencorajem nem se desencantem da belíssima realidade que é a poesia escrita nesta nossa tão musical e sussurrante língua portuguesa.Quero tanto que a amem que até tenho medo de não ser capaz de lhes mostrar o caminho desse amor... Creio que cada vez mais( mas desde sempre ) o ser humano precisa de uma relação apaziguadora com o mundo, com o cosmos, com o desconhecido, e essa relação só lhe será possibilitada através da beleza...Porque não da beleza de uma língua que a poesia pode tão bem modelar ?
E agora, se continuássemos, daqui a pouco aparecia-nos por aqui Platão ou Aristóteles...

23 setembro 2006

OUTONAL



Entro dentro do outono
pela floresta
que se enrola na bruma
e, túmida de vida,
vai macerando musgos e bolores
opaca, mansa
e quase adormecida...
Pelo chão,as velhas folhas desmaiadas...
E,ao passo dos meus passos silenciosos,
escuto estalidos breves
e crispados
de coisas que não esperam ser pisadas.
Bagas vermelhas, cachos. entre espinhos
flamejam, capciosos, defensivos,
a proteger as sebes e os espaços...
Mas são os cogumelos insidiosos
quem se esconde pelos cantos mais discretos !
Os tons do verde todos se matizam
sob a abóbada fulva, acobreada,
dos plátanos antigos
quase catedrais !
Adormece a floresta a aquietar-se
pra espessas, longas noites invernais...
Cumprem-se os ritos místico, secretos.
de donzela a guardar-se
para as festivas bodas estivais !...

17 setembro 2006

Abertura do novo ano lectivo

Esta sensação de estar no limiar de um qualquer acontecimento pelo qual se esperou, mesmo sem impaciência, mesmo sem curiosidade, nunca deixa de produzir uma certa turbulência na nossa alma...E O que é que estarão a sentir algumas centenas de professores novinhos "em folha" neste fim de semana que os separa do começo das actividades de um novo ano lectivo ?
Há , este ano, uma espécie de efervescência borbulhante em redor deste evento como nunca conheci, em tantos e tantos anos lectivos que iniciei ao longo da minha vida. Tantas vezes se ajustaram programas, tantas vezes se seccionaram de formas novas as fases da aprendizagem, tantas vezes se ensaiaram novas pedagogias, mas o núcleo duro dos professores mais experientes e a tímida turma dos que iam começar estiveram sempre lá,prontos a arregaçar as mangas e seguir...Não que não houvesse discordâncias com algumas inovações, mas mesmo com elas, fazíamos força para dar-lhes o nosso jeito...Queríamos ser capazes...
Tudo o que estou aqui a recordar, não é por nenhum daqueles "no meu tempo..." que são mais vezes ridículos do que úteis. É sim porque percebo que talvez agora ,tal como adivinho ou oiço,não vai poder haver tanta alegria como gostaria que houvesse nesta coisa lindíssima que é o encontro de gerações para uma espécie de passagem do facho...
Há projectos novos , mas há tanta perplexidade que tudo fica um bocado inquinado para apetecer... É difícil, está difícil... Materialmente,enleiam-se distâncias com pedagogias, casas com programas, livros com dinheiro, conceitos com práticas... Se ensinarmos agora aquilo que só se pode compreender mais tarde já é por si só uma desmotivação, o que não será juntar a isto, tudo o que não é "juntável" de que falei há pouco ?
Estamos pois no limiar de qualquer coisa que fervilha nas nossa cabeças, sem nos permitir aquela perspectiva que sonhávamos... Ao menos que não nos falte a esperança !...

10 setembro 2006

O PAPA

Quando em Lisboa se realizou o grande encontro de Tai-Zé, recebi em minha casa três estudantes polacos: duas raparigas e um rapaz, todos universitários, estando uma delas já aestagiar como professora. Só falavam bem o polaco.O inglês era uma ponte muito exígua por onde conseguíamos tentar algumas travessias de entendimento.Mas acabou por ser tudo muito bom o que foi acontecendo. Ficámos amigos. Houve até lágrimas à despedida.
Curiosamente, só o rapaz é que tem mantido contacto comjgo, escrevendo-me em bom inglês a que eu sempre respondo. Foi assim que, quando perdemos João Paulo ll , o Mariusz me escreveu a dizer que o mundo ficava um pouco mais triste...
A vinda de um papa alemão que quase todos os católicos conheciam como muito rigoroso e até algo duro,foi um sobressalto. E temos andado quase todos, mais ou menos a medo, a tentar conhecê-lo mediante o que ele vai fazendo que nós possamos "ver", sejam ele aparecimentos em público, sejam ele declarações ocasionais, sejam ele documentos de doutrina ou simples afirmações, publicações avulsas ou o que quer que seja...
E não é que ele se vai "deixando amar", cada dia um pouquinho mais ?
Hoje, em Munique,uma esplendorosa missa campal. Algumas pessoas minhas amigas vieram falar-me dos olhos do Papa.___Tu viste como o olhar dele se ria e se tornava tão enternecido com as crianças?___Bem, toda aquela envolvência da multidão que aplaudia, do desempenho fantástico da orquestra, da limpidez dos cânticos daquele imenso coral juvenil juntando-se inesperadamente a uma enorme pureza na simplicidade da celebração, tinham forçosamente que se traduzir na singeleza carinhosa da homilia e, consequentemente, no enternecimento do olhar do Papa. Para com todos, não só para as crianças.
Tudo o que se passou não foi mais do que um abraço que o Papa foi dar à sua Baviera. E esse abraço ajudou decerto a que o olhássemos também nós com um olhar mais terno.
É isto o que eu vou dizer ao Mariusz, quando brevemente lhe escrever.
Um pouquinho mais de amor, sempre, de cada vez...

05 setembro 2006

Fernão Capelo Gaivota — Ericeira

Todo este Agosto de Lisboa foi uma insistente provocação à nossa capacidade física de resistir... Cada vez me convenço mais de que nós, portugueses, somos gente do mar, dos nevoeiros do largo, dos ventos a saber a sal, excepção feita, está claro, para as gentes do Alentejo que devem ter guardado genes dos mouros ou para os transmontanos a quem as "TERRAS do DEMO" apetrecharam para os conhecidos "nove meses de inverno,três meses de inferno"...Nós, os outros, vencemos os quilómetros que forem necessários só para fugir, fugir, das securas e ardências mais ou menos violentas que nos sugam a energia (e a alegria), nas cidades.
Então, foi por isso que também eu tive a sorte de, uma bela manhã (sempre as manhãs !) abrir aquela janelinha de uma casa empinada sobre a falésia e ver, lá em baixo, o areal molhado pela maré que já recuara...Fugira de Lisboa para a casa de amigos que, ali, convivem com o mar como se fosse um dos "da casa". E então? Pois, não foi só o areal que me deixou colada à janela àquela hora...Fernão Capelo Gaivota estava lá em baixo !"...the gulls that were not night-flying stood together on the sand, thinking" — Certamente RICHARD BACH viu-as assim, como eu nunca as tinha visto. Eram algumas centenas, todas iguais, cobrindo o areal molhado, todas voltadas de frente para o ventinho norte e tão paradas, tão imóveis que se diria tratar-se de algum ritual ou então, como diz BACH estariam "pensando"... Só levantaram voo,todas em simultâneo, e passada uma larga meia hora. Para onde foram, decerto levavam algum daqueles sonhos do Jonathan Livingston Seagull...

30 agosto 2006

Quando o verão era "TODO" verde


Fui menina, rapariga e senhora num tempo em que a Terra não ardia e os verões eram pujantes e prometedores.E agora,procuro fazer recuar a minha memória até ao dia em que houve um primeiro sinal de uma coisa que afinal podia acontecer, mas na qual nós nunca tinhamos pensado...Sei que, como de costume, as minhas coordenadas eram entre pinhais e o mar. E,ao cair da noite,viemos muitos para a rua, todos os que eramos vizinhos, e faláva
mos uns com os outros, porque a televisão ( já havia televisão ) noticiara um enorme fogo num pinhal...Não! Não era ali, mas com tanto calor, quem sabe?...E cada um, seu pormenor, seu medo ...__A partir dessa noite, dese dia, nunca mais houve verões iguais aos de antes ! Calmos,de dias e noites longuíssimos, cheios de vagares e de pequenos prazeres,de pasmaceira...Instalou-se aquele "poder ser"...
E os confrangimentos dos porquês e das culpas...E as dores das dores daqueles que quase ardem com os seus pobres haveres a fundirem-se em cinza...E o pânico dos animais acossados que, a fugir, levam em si o fogo para mais lugares...E o ir para a frente dos que lá vão para salvar e às vezes não conseguem salvar-se a si próprios...E, e, e...Um sem fim torturante que nos marca os verões que, agora, não são mais pujantes e prometedores. Só mesmo quem atravessar as paisagens negras a perder de vista, com um ou outro tronco retorcido como um pedaço de carvão de pé, pode entender a mágoa desta saudade que é afinal aquilo de que falo hoje...

24 agosto 2006

CARDAL


Lembro-me de que abria a janela de par em par e me entrava pelo quarto dentro o perfume das folhas das figueiras. Era um perfume acre e denso, trazido pela humidade do riacho de águas saltitantes e geladas àquela hora e à beira do qual se alinhavam duas ou três enormes figueiras.
Isto, era ainda lusco-fusco, acinzentado, da manhã que lá vinha.
Mais tarde, eu descia e "ia aos figos"...Já eram outros os cheiros e tudo, na manhã que aquecia, me convidava ou desafiava...
Tudo isto me vem invariavelmente à memória agora, quando, pela manhãsinha, abro as portadas para o terraço e, mais do que pela majestade do lago, lá em baixo, ainda pouco verde, meio lilás e embrumado, me sinto enfeitiçada por aquele perfume vegetal, mal definido, com cambiantes que vão das plantas de jardim aos arvoredos e às ervas bravas...Náo deixo de sorrir ao pensar na luta "ingente" em que se empenham agora os meus amigos contra uma nada pacífica invasão de toupeiras.Isto não é de amigo, mas eu entendo tão bem a volúpia dos animaisinhos a saborearem a frescura e os perfumes destas terras tão mimadas pelos donos.tão macias, tão convidativas !...Das gotículas frescas que o sol vai fazendo brilhar sobre cada planta, parece evolar-se uma humidade límpida e cheirosa e longe, lá muito longe dali, há gente que queima a lenha do primeiro forno, do primeiro pão do dia...
Já não tenho há muito aquela idade de"ir aos figos", mas fico-me a "saborear" todos estes desafios do dia que começa e eu tenho a Graça de poder viver...

22 agosto 2006

Revisitar o passado

Vou de encontro às paredes
como um cego
que viu e sabe que era ali...
Eu conheço a cidade !
Vivi cá !...
Contornava-se a Praça
e indo em frente...
...não!...Acho que não era por aqui...
Talvez na outra esquina. mais para lá...
Mas era a casa grande,logo em frente...
...e o Mosteiro...
Não me parece estarem como dantes...
E o Convento?
E o rio? Que eu sabia de cor
nas curvas e corredores de cada um?...
Sou como um cego:
Estendo a minha mão
e não encontro o sítio de apoiar-me
que eu julgava inserido na recordação
e possuia como certo...

Tudo agora está aberto
mas é da multidão...

14 agosto 2006

Férias

Um telefonema, à noite : Vamos buscá-la àmanhã...
Estes são aqueles amigos a quem Jesus nada teria que ensinar, quando lhes lavasse os pés!
Então, após uma correria de preparar os necessários, lá vou partilhar todo aquele conforto de franca convivência, sem ideias preconcebidas, e cheio de mostras de carinho... e a casa, e a paisagem, e os longos serões a contar as estrelas, e o espelho das águas, lá ao fundo...
Quando voltar, falarei das madrugadas enroladas na bruma que sobe da água e do friosinho dessa hora, só dessa hora... E talvez das longas conversas em redor da mesa, depois do jantar, sem pressas...

11 agosto 2006

Alcochete

Alcochete

Aconteceu-me uma vez uma manhã, manhãzinha, quase outonal, mas ainda morna, a permitir sentir todos os cheiros, ouvir todos os sons de vários tons, debruçando-me longamente sobre a margem quase deserta de um Alcochete ainda meio adormecido.
Era um mundo... De pureza, de “ab initio”, de paz !

Ontem, pleno Agosto, sol de fundir metais, a mesma margem, mas abeira-se o meio-dia...O mesmo Tejo ? Não. Está inchado, pela maré... E pela gente ! O povo tem calor, muito calor...e rebenta nas roupas reduzidas, nas dilatadas curvas indecentes que a cerveja gelada ajudou a impar... Rebola-se na areia meia seca e entra pela
Água como se fosse sua, a espadanar...
Não há aves marinhas pelo ar, nem a água murmura como da outra vez...Nem Lisboa tem bruma...E há apenas barulho a vozear ..

Pensei em ORTEGA Y GASSET...
O Homem e a sua circunstância.

06 agosto 2006

SOLIDÃO

Sofrer ou rir com os outros não chega nunca a projectar-me para lá da solidão . É um acto de vontade e às vezes é até o decalque de situações já vividas, aderência ocasional, fortuita, mas sempre comprovadamente impotente para me fazer sair abertamente de mim para o"outro", ou para trazer o"outro", em toda a sua verdade, até mim... Houve tempo ( mesmo "esse"tempo ) em que me julgava acompanhada, mas sei hoje que isso era uma ilusão, por pura imaturidade.
Compreendi depois que era demasiado ambicioso o crer-me em total sintonia e sincronia com as misteriosas cidadelas de silêncio de cada um dos "outros" e fui-me apercebendo dos imensos desfasamentos que iam construindo a minha solidão. Por acaso, vi uma vez que OCTÁVIO PAZ fala do"labirinto da solidão" como uma das causas primeiras da ausência de solidariedade.
Labirinto é de facto a palavra certa para traduzir esta espiral, com ilusórias possibilidades de saídas, em que nos vamos enrolando de tal maneira que já nem sabemos muito bem se sim ou não temos vontade de sair dela.
É que,às tantas, o estar-se ou o ser-se só passa a ser um pouco viciante... e cómodo !...

01 agosto 2006

AGOSTO E MIGUEL TORGA

Neste Agosto a começar e que durante toda a minha vida ( mesmo ainda menininha) tem sido sempre o condensado de todas as espécies de solidões, lembrei-me do meu querido TORGA que,por tantas vezes me pareceu "roubar-me" os sentimentos ...e as palavras !


Aqui,neste país e nesta hora,
Aqui, junto dos meus
Mortos ou vivos,
Aqui, de pés atados,
Mas livre, como os balões cativos
que pairam...ancorados.