28 agosto 2008

Chuva de Verão sob um olhar antigo


Houve um único dia durante as minhas férias no campo que,depois de sempre com sol e quase sempre com vento, amanheceu sombrio e calmo,nuvens baixas sem descontinuidades, todas as cores da paisagem ensombradas por uma espécie de patine poeirenta,ficando o lençol de água do lago com a aparência gelatinosa e grossa de uma qualquer água de valeta... Da beleza que a luz acrescenta às coisas, se dúvidas tinha, ali tinha uma prova que mas tirava. Não tive porém nenhuma dúvida sobre a altíssima tensão a que a Natureza fica sujeita sob uma prolongada sequência de dias não só soalheiros, mas de calores muito intensos. Apesar de descolorida e baça, a vegetação parecia em repouso e no ar espalhou-se mais forte uma mistura de aromas frescos e identificáveis separadamente...Quando, quase a medo,caíram as primeiras gotas muito grossas de uma chuva que viria a tornar-se copiosa, pareceu-me que estava consumado algo como um encontro desejado de longa data...
A ver chover lá fora e com todas estas "impressões" gravadas, não demorou muito que não traduzisse tudo assim :


Hoje, sem ninguém esperar, cobriu-se o céu
e uma poeira ténue, acinzentada,
veio cobrir de manso, como um véu,
a paisagem que há muito era dourada.

Voluptuosa, a Terra estremeceu
sob a carícia meiga e inesperada.
Cheia de sede, sôfrega, bebeu
ébria,fora de si, transfigurada.

Foi distendendo os ramos, saciada,
cada árvore, cada planta, cada flor...
E à noite veio a calma perfumada,

húmida, densa, a recordar calor.
No ar, o aroma da terra molhada
será que entoava uma canção de amor ?...

25 agosto 2008

Jogos Olímpicos na China

Como certamente alguns milhares de portugueses, ontem, porque foi domingo, fim de férias e até fim de muitas outras coisas, sentei-me frente ao televisor SÓ para ver televisão. É muito raro fazer isto. Faz-se sempre qualquer outra coisa, enquanto no televisor escorre também qualquer coisa. Não ! Não pertenço àquele grupo de pessoas que não gostam que os outros saibam que elas vêem televisão. Eu vejo televisão. Quando sei que há para ser vista alguma coisa que me interessa ou me apetece ver. Sem complexos de culpa, sem medos de que me classifiquem de qualquer coisa menos honrosa para as minhas qualificações intelectuais, sociais ou até morais. Mas, como disse atrás, raramente estou sem me ocupar de alguma maneira física, isto também dependendo do valor que atribuo ao que surge para ser visto.
Assim, então, ontem quis ver o encerramento dos Jogos Olímpicos . Porque tinha visto as cerimónias da respectiva abertura, e ficara boquiaberta com tanto dourado, tanto prateado, tantos jogos de luzes, tantos vermelhos, tantos amarelos, tantas pessoas, tantas,tantas... Que cantavam em sons guturais agudíssimos, que dançavam em ritmos envolventes e inesperados ... Tantos, tantos, tantos...E ENTRETANTO tinha-se gerado um verdadeiro mundo quase surreal de vivências desconhecidas para mim, como para tanta outra gente, em que aos personagens se exigia apenas esta simples coisa : que fossem heróis. Ou talvez semi-deuses...Vi-os, espalhados por vários noticiários, a rir ou a chorar, tensos, gloriosos ou desiludidos e não me foi possível esquecer alguns daqueles esgares, durante muitos dias. O MEU mundo estava realmente a ser confrontado com algo que o abalava !E se eu já tinha convivido com notícias de Olimpíadas ! Com a minha idade...Porém, tinha posto na balança das minhas expectativas aquele meu gostinho curioso pelas coisas orientais, por aquela poesia tão capaz de sintetizar os mais complexos sentimentos em cinco ou seis sílabas das quais nós, ocidentais, ainda não sabemos se entendemos tudo...Pensava na leveza dos desenhos, na frescura dos temas... e tudo me saiu pesado e denso para uma forma agora tão dura e tão nova de se estar em qualquer forma de vida !
Foi por isso pois que quis, ontem, ver uma outra cerimónia.Para me certificar.
Hoje reli alguns dos meus poetas chineses.
Agora só tenho que procurar esquecer o drama que adivinhei através de algumas lágrimas difundidas pelos telejornais. E porque não lembrar mais vezes o sorriso bonito daquele português que nasceu longe e voltou da China, feliz ?
É tudo uma questão de equilíbrio de valores. Ou não?

20 agosto 2008

Regresso


Voltei ! Após quinze dias passados em casa de amigos, onde me sinto tão bem, aqui estou de novo no meu canto que não é mais do que, como dizia RÉGIO, ... aquela casa singela à qual quis ( e quero) como se fora feita pra eu morar nela... Terei muito que contar, do muito que vi e meditei, mas hoje apenas quero marcar presença . E mostrar um pouco do ambiente natural que me envolveu e no qual me apeteceu tantas vezes poder diluir-me...

03 agosto 2008

Do Livro de ISAÍAS, hoje

Porque dais dinheiro por aquilo que não é pão
e o produto das vossas canseiras por aquilo que não sacia ?

02 agosto 2008

Fait-divers

Pela manhã, cedinho, entre o segundo ou terceiro golo de café e a primeira dentada no pãosinho fresco, a bomba : acabam de assaltar o primeiro andar, aqui por baixo de nós...agora, agora mesmo...entraram por esta janela que estava aberta, levaram uma mochila que estava em cima da mesa e o telemóvel que lá estava perto...
Não é fácil de descrever o que se sente numa situação destas. Mas...agora? Aqui, mesmo por baixo da mesma janela que eu também tinha acabado de abrir...Mas como, se estas salas são viradas para os quintais dos prédios que, aqui são mais fundos do que o nível da rua que passa ao lado, se todo o perímetro de quintais está marcado por vedação de redes novas, sem rupturas?... Então só podia ser um ladrão ágil, jovem, leve, porque,`além de pular de alto teve ainda que trepar pelo gradeamento que protege as janelas do rés-do-chão, o que lhe forneceu a base do salto para cima,com que alcançaria a janela aberta do primeiro andar...Atropelam-se as conjunturas, uns vizinhos vêm à escada, fala-se tudo, mas...e os assaltados ? Um jovem casal. Primeiro chamaram a polícia que veio logo,porque a esquadra é pertíssimo, e foi a presença dos polícias na escada que levantou o burburinho... Depois, muito à pressa,já de saída para declarações na esquadra, falaram com alguns de nós enquanto desciam... E ficou a pairar para mim : mas como saíu o ladrão ? Viram-no ? ... Ninguém soube mais nada. E todos ficámos amedrontados, cada qual a pensar nas suas melhores soluções de defesa.
Durante todo o resto do dia se ficou a congeminar no como e quando e porquê e ...e...e...
Era noite quando o casal regressou e, por respeito, ninguém mais os procurou. Sabia-se que eles não tinham outro telefone senão o móvel que lhes fora roubado, por isso, nem telefonar era possível. Não sei também explicar como é que só no terceiro dia depois do assalto conseguimos falar com os assaltados.Já haviam recuperado os seus cartões que iam na mochila e que foram encontrados pela polícia, já tinham conseguido um novo telemóvel ao qual foi atribuido o número do anterior e com imensa calma, mas revelando muita apreensão, explicaram que haviam deixado as janelas abertas, durante a noite,por causa do calor, que dormiam e só foram acordados pelo bater da porta para a escada, por onde afinal o assaltante saíu sem ninguém dar por isso. E ficámos sabendo que o tal "agora", "agora" de cerca das nove da manhã do burburinho, fora provavelmente aí por entre as seis e meia e as sete horas da manhã...
Todos os vizinhos ficaram com esta realidade bem presente: janelas abertas são uma sedução para quem veja que pode entrar por elas, sair de nossas casas sem ninguém se intrometer é também sempre possível mesmo sendo-se ladrão. Vamos acautelar-nos mais. Foi uma grande lição !

31 julho 2008

Tempo de revisões

Tempo de férias, além de dar umas boas oportunidades a uma certa preguiça, dá espaços alargados para conversas inesperadas com pessoas que, noutra época, vemos pouco. E não é que nos sabem tão bem estes reencontros ? Fala-se de coisas novas e diferentes às quais não nos permitimos aceder quando andamos "programados" para o mais urgente dos nossos trabalhos...
Aconteceu-me agora, ao recordar com uma amiga da minha geração as nossas respectivas professoras e escolas que se chamavam primárias nessa época, relembrarmos como era prática habitual termos que debitar em determinadas aulas, poemas de autores consagrados ao tempo, os quais decorámos tão eficazmente que ainda agora, nestas nossa idades, os conseguimos declamar com muito poucas omissões. De recordação em recordação, fizemos reviver não só A BALADA da NEVE, mas também O PASSEIO de SANTO ANTÓNIO e o extraordinário NOIVADO do SEPULCRO . Mas as nossas memórias perderam-se com ...minha velha ama que me estás escutando canta-me cantigas para me embalar e também com o Amo-te ó cruz no vértice firmada de esplêndidas igrejas e ainda aquela dolorosa Venda dos Bois-:com que então você quer livrar o seu rapaz? e descascava um fruto... Perdemos autores( do que muito me envergonho, devo dizê-lo ) mas não imaginávamos sequer o enorme prazer que nos trouxe aquilo de que nos fomos lembrando ! Até nos vieram à memória alguns fragmentos de músicas com que alguns destes poemas foram mesmo musicados. Usou-se durante muito tempo cantar os bons poetas ao piano, em serões familiares, e aí também as meninas da família recitavam... Constatamos a "espessura", o "peso" dos temas ultra-românticos postos sem nenhum problema na boca das crianças que fomos , e comparamo-los com as infantilidades que se proporcionam às gerações de hoje , mesmo muito para a frente daquilo a que até se deixou de chamar primária.Afinal, tempo de férias pode ser por muitas vias tempo de revisões, de interrogações, de opções e também de decisões...

20 julho 2008

Ser REFORMADO, hoje

Quando, em 93, pedi a minha passagem à situação de reformada, embora não tivesse ainda cumprido todo o tempo que institucionalmente era considerado tempo exigível a qualquer funcionário público, nunca se equacionou nos meus planos de vida e nos daqueles que então apoiaram a minha decisão que, anos mais tarde, a existência desta categoria de pessoas pudesse vir a transformar-se num dos maiores,se não o maior problema dentro da situação económica do país. Creio que se esperava que, muito naturalmente, os que se reformavam fossem ordeiramente morrendo para permitirem "espaço" para outros que iam chegando... Creio também que nunca se pensou que o número dos que iam trabalhando não iria crescer na proporção suficiente para garantir o fundo financeiro necessário para assegurar a manutenção económica daquele grupo de pessoas que teimava em não morrer... E assim, enquanto eu e os meus complicativos processos osteoporóticos vivemos alguns anos numa beatífica paz de consciência, sem uma única sombra a perturbar as minhas mais ou menos regulares confissões quaresmais, e enquanto até me sentia um pouco orgulhosa por ter conseguido aprender a governar um bem apertado orçamento mensal e uma certa descida no padrão de vida, enquanto isto, repito, vejo-me de repente transformada na pior das oportunistas, a viver à custa de tanta gente sacrificada, ralada, persistindo em estar aqui, em estar sempre mais carente de cuidados e não produzindo senão mais um algarismo para as estatísticas mal agoiradas do senhor Ministro... Não se pode dizer que seja esta uma forma de viver, já não digo feliz, mas pelo menos desassombrada ! É que não é só a má consciência : há também aquela sombra permanente de uma "espada de Damócles" sobre a minha cabeça...
E como apetece começar a alardear o trabalho que se "deu" !
Mas, não entrando por aí, acontece que, tendo recebido agora de presente um pequeno livrinho de poemas do autor japonês Issa Kobayashi , constituido por um género tradicional do Japão de pequenos tercetos com apenas cinco e sete sílabas,sem rima (haikus), onde um poeta já idoso se não envergonha da sua velhice encantada com a Vida, eu recordei todas aquelas homenagens que me prestaram e são tão habituais a quem "parte" para a Reforma : os jantares, as flores, a placa de prata gravada a elogios, os presentes com assinaturas de toda a gente, directores incluidos, mas com discursos... E, no meu encantamento pelos poetas orientais, o meu próprio discurso foi a leitura de uma adaptação feita por António Cardoso Pinto sobre um poema chinês:

Porque é preciso partir,
a cada momento.Sempre.
Para qualquer lado.
Ir ! Um gesto, um olhar...
Viajantes somos, das coisas,
dos sonhos,
das estrelas,
do tempo !
Ícaros que ensaiam o voo inverso,
agitando a golpes de asas
as paisagens interiores
do nosso imenso universo...
Avalon, Xangri-la,ou Ilha dos Amores,
Viajantes sempre,
e de uma História sem limite
que continuará...

De 93 para cá, eu creio que este vai continuando a ser o meu discurso... Apesar de tudo...

13 julho 2008

QUEM TEM OUVIDOS PARA OUVIR...

Estamos em meio do mês de Julho, acabaram-se aulas e exames, as inscrições nas Universidades já passaram aquela fase tormentosa e, sendo assim, muitas famílias puderam ir para férias ,uma vez que os mais velhos haviam preparado os planos de férias nos seus trabalhos de maneira a que coincidissem as liberdades de todos para, juntos, poderem sair, viajar, mudar de clima.
Quando eu fui estudante e ainda não existia a paixão ( e a possibilidade ) das viagens, todos iam para a praia e muito poucos, primeiro para a praia e a seguir para o campo, como diziam os médicos que era perfeito para a saúde. Agora a praia frequenta-se durante quase todo o ano e não admira pois que, nesta altura, configure o escape mais fácil e rápido de obter, ainda que mais lá para a frente possam surgir outras saídas mais sofisticadas... Este é então o fim de semana em que os areais portugueses vão regurgitar... Pela moda, pelo bronze...pela urgência !
Não será não aquela sedução do grande espaço aberto e estranhamente silencioso dos azuis que se confundem na distância e nos levam a sonhar com o infinito.
Curiosamente,São Mateus diz-nos no Evangelho de hoje que Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira-mar. E também uma enorme multidão o rodeou... Sabemos como Jesus sempre procurava zonas solitárias e silenciosas para meditar e estar com Deus, por isso podemos imaginar o que ele desejava, quando se foi sentar á beira-mar... No entanto, os seus pensamentos não deixaram que perdesse esta oportunidade de comunicar, tal era a apetência que via no auditório e provavelmente de tal forma era propícia a beira-mar... E assim, subiu para um barco ali varado, dando-lhe a dignidade do melhor púlpito, e começou a dizer... Como sempre a sua palavra ia direita a uma audiência ávida e seca de expectativas, e era doce e misterioso o que dizia... Foi pois ali, junto do imenso e misterioso mar que disse, não só àquela multidão, mas a todos nós: QUEM TEM OUVIDOS PARA OUVIR, QUE OIÇA !... ...

08 julho 2008

A Cidade e os Vizinhos

As primeiras notícias que ouvi, consciente, já totalmente fora daquele limbo dos momentos iniciais de cada acordar, foram as de que um devastador incêndio estava ainda a acabar de devorar dois prédios na Avenida da Liberdade, mesmo ali já perto dos Restauradores. Um deles há anos devoluto. Oco. Tanto quanto me lembro, sem grandes sinais exteriores de deterioração, como tantos outros cuja aparência nos confrange, espalhados um pouco por quase todos os bairros mais antigos de Lisboa. E assim foi que todo aquele caudal habitual debitado por todos os fazedores de notícias da manhã de ontem, mesmo não havendo felizmente vítimas ,veio até nós impregnado dos medos, das extrapolações, dos " choradinhos", dos "o que é que sentiu quando..." a que já vamos estando habituados, o que é pena, porque acaba por já quase nos imunizar contra coisas que, na sua genuina tipicidade, são deveras dramáticas e merecedoras de uma nossa muito maior atenção. E até de desgosto, pela verificação da nossa impotência enquanto cidadãos que, amando a nossa cidade, gostariamos de ver nela, sempre, a nossa bonita terra, mais bonita que qualquer outra, isto é, melhor para si e para os que a povoam, velhos, novos, pobres, menos pobres, solitários, filósofos ou poetas... Porque afinal é da sua gente que acaba por também resultar o cariz de uma cidade. Dos desgraçados que acabaram por escolher para morada uma bela casa abandonada que irá diluir-se em chamas ao surgimento da mais ou menos próxima fatalidade, a cidade não pode, não deve alhear-se, mas fica com eles mais triste, menos propícia a uma felicidade que todos merecemos... Por isso a desejava eu fora das parangonas destes noticiários e limpa e livre das ruinas mal disfarçadas, das catástrofes mais ou menos prováveis e das imprevidências mais ou menos impugnáveis...

No turbilhão de pensamentos como estes, em que a minha solidão me leva a desejar tanto sentir-me "parte" de algum "todo", volta a reformular-se-me o problema daqueles que, na nossa cidade, não sendo da nossa família, não sendo amigos de infância ou de desempenho profissional, não sendo nossos companheiros de estudos, são no entanto as pessoas que vivem mais perto de nós, que acompanham voluntária ou involuntariamente cada passo de cada dia das vidas que temos, que vão sabendo das nossas fraquezas e das nossas forças, que se apropriam com ou sem maldade, com ou sem solidariedade, de algumas preocupações e algumas alegrias nossas,que conhecem intimidades , desde hábitos de vida, manias ou manhas, até ao mais secreto das nossas saúdes... Os VIZINHOS... Vivo no mesmo prédio há cinquenta e sete anos. E,durante todo este tempo, só em dois dos andares houve mudança de habitantes. Sendo um prédio de apenas três andares, com direito e esquerdo, somos tão poucos que seria impossível vivermos paredes- meias durante tanto tempo sem que entre nós não tivesse crescido uma relação especial. Mas ( e para mim a pergunta é recorrente )que relação é essa ? Se me reportar a alguns conhecimentos históricos, recordo que nos primordios ainda de uma pré-civilização, o instinto de sobrevivência e de consequente defesa levou os primeiros grupos de seres humanos a juntarem-se, constituindo pequenas células que os sociólogos já consideram com muito interesse enquanto esboços de uma socialização mais ou menos tendente a consolidar-se. Com o progresso da HISTÓRIA assistimos ao nascimento de cidades, onde ,por exemplo, os Romanos já contavam com o aproveitamento do espírito gregário dos vizinhos para formarem as suas civitates. E daí ao aparecimento dos MUNICÍPIOS, nunca o elo de ligação entre vizinhos deixou de constituir uma força socializante. Portanto, não me parece descabido considerar a sério a relação de todos nós, moradores do mesmo prédio, como uma relação sui-generis mas efectiva, real. E nunca de pretender ignorar ou desvalorizar.
Quando existam trinta ou quarenta vizinhos dentro de um só prédio, como nos grandes imóveis destaLisboa séculos XX - XXI, para além de termos que contar com uma maior mobilidade deles ,inerente a muitos novos factores próprios da moderna vida social e económica, percebemos quanto seria difícil uma relação de proximidade entre tanta gente e como é até natural que muitos nem tenham oportunidades para conhecer-se. Aliás,persiste uma espécie de "regra de ouro ", que sempre foi respaldo de gente a viver em proximidade, e que já vigorava nos meus tempos de menina : não devemos intrometer-nos com vizinhos, nem tão pouco permitir que os vizinhos se intrometam connosco.Isto tão só porque pode haver perigos morais ou mesmo materiais numa relação de intimidade com alguém que só se conhece superficialmente. E não será pelo facto de ser vizinho que alguém de mau carácter irá modificar-se... Além de que a"imposição" de uma presença nunca será agradável e será de pequenos contactos atempados e oportunos que se irá tecendo uma boa relação de vizinhança. Mas, em nome de tal precaução ,será possível não se sentir algo de especial por aquelas pessoas que conhecemos jovens, que depois casaram e tiveram filhos, os quais cresceram sob os nossos olhos e vieram a casar também , pessoas que, mais tarde, começaram a ter doenças e vieram a perder maridos, filhos ou pais, e ficaram em solidão, envelheceram, precisando de amparo moral ou físico, mesmo quase debaixo do nosso tecto, só porque entre o nosso e o evoluir das suas vidas há um patamar ou um lanço de escadas ? Sei que sofreria de facto se alguma destas pessoas desaparecesse de ao pé de mim.E sofreria como? Como iria colocá-las dentro da relação daqueles que já perdi? Como simplesmente VIZINHOS !... Não se trata de um parentesco e nem sei se poderá ser sempre uma amizade.
A simples ideia de partilha em situações de mera conjuntura acabou por fazer nascer laços. Como na Pré-História ! ... Dir-me -ão que se tem visto "brotar" e desenvolver ódios ou desamores entre vizinhos quase sem razões .Mas isso mesmo é prova da especificidade deste tipo de relacionamento. Para mim, olhando os noticiários das tragédias urbanas que trazem para a rua , em noites e madrugadas de pavor, todos aqueles vizinhos sofridos, aterrados e irmanados no sofrimento do susto e do medo, fica-me sempre mais intensa a convicção de que é preciso para exprimir tudo isto criar mais do que a palavra que me faltava : vicinidade... um espírito, um sentimento novo, uma vivência à qual não podemos negar um importante lugar nas nossas vidas,Esta casa, este bairro, esta rua, esta CIDADE, teriam sido os mesmos para mim se não tivesse tido estes meus VIZINHOS ?...

25 junho 2008

Lisboa à espera


Lisboa, eu e o seu pequeno-grande mundo de agentes de manutenção temos muitas vezes grandes desaguisados que nunca saem felizmente da minha rebarbativa mas pouco operante capacidade de indignação ou de diversão, muito conforme à gravosidade das ocorrências e ao prisma crítico através do qual eu as olho.Quantas boas gargalhadas tenho rido no silêncio das minhas observaçôes !!! Aconteceu ontem. Estava só, como quase sempre .Amo a avenida onde moro há já mais de meio século. É ampla de tal maneira que, agora que começo a ver pior ao longe, não distingo as feições de quem passa ou vive no outro lado da avenida. E os seus larguíssimos passeios têm abundante vegetação em placas centrais cobertas de relva ( só quem não a tem ou teve ,sabe da dificuldade que é mantê-la) onde estão implantados frondosos arbustos que dão flor em épocas e cores desencontradas e, mais maravilhosos que todo o resto, enormes,majestosos e quase perenes de verdura uns olmeiros que vi crescer e hoje atingem ( ultrapassam? ) a altura dos prédios laterais .Há um deles mesmo em frente da janela do meu quarto que me serve de cortina nas madrugadas de verão e onde vivem famílias de melros cantores que me acordam no lusco-fusco das primeiras horas do dia. Soube sem muita certeza que toda esta parte da avemida terá um meio quilómetro de extensão. E é contra este meio quilómetro que se encarniçam os modernos paisagistas citadinos, sendo sonho e projecto de pequenos autarcas nas várias eleições que aqui vivi,dar uma volta aos passeios,à relva e aos olmeiros para melhoria da vida dos moradores.São precisos espaços para estacionamento dos carros, sim senhor.Pois vai-se aos passeios grandes e...zás ! É verdade que as grossíssimas raízes dos olmeiros chegam a levantar o empedrado dos passeios e até a imiscuir-se em algumas canalizações de esgotos...Vamos aos olmeiros e...zás ! Para mais, alguns envelheceram e deixaram-se já cair, sacudidos por algumas fortes ventanias invernosas. Pior,pior, foi que caíram sobre uns dos tais carros que ali não deveriam estar...Só prejuizos, complicações, que não se compadecem com florsinhas,relvas e passarinhos... Eu entendo,só que tenho pena... Mas o Mundo é perverso e, com eleições ou sem elas, os sonhos ficam engavetados há anos pela falta da chave que os desengavetaria : o dinheiro. E a força da Natureza é de tal forma poderosa que os olmeiros crescem, crescem, em todas as direcções parecendo mesmo um desafio à ira dos prejudicados : começaram a entrar-lhes pelas janelas, pelas varandas, a tapar-lhes o sol, numa pujança linda de ver mas já a tornar-se mesm perigosa . Àlem de tudo o mais, até para a segurança de bens e pessoas aquelas ramadas dentro das varandas começaram a ser ameaça em vez de fruição.
Foi assim que o autarca desta freguesia pensou a solução rápida e possível e, se bem o pensou , melhor o fez. Uma equipa, umas serras e serrotes, um bom desbaste nas partes baixas dos olmeiros. Boa ideia dissemos nós,os fregueses que percebemos o que iria acontecer.
Começou a operação, com respaldo da Polícia Municipal, aí pelas oito horas da manhã. O povo ia passando e olhando de lado para umas fitas demarcadoras de áreas e uns polícias por ali passeando. Nada mais. O POVO mostrava-se agastado por não o deixarem passar pelos trilhos que estava habituado a percorrer todos os dias; não lhe ocorria que se estava a começar a cuidar de algo que só iria reverter em seu favor. O POVO sempre desconfia, se lhe tocam na rotina... Velhas memórias ? Preguiça ?... Seriam umas nove e tal, chegou a "equipa" : um senhor de calça cinzenta e camisa branca, impecáveis, começou a tentar pôr em acção uma pequena serra mecânica daquelas em que é preciso puxar com energia um fio que lhe"estimula" o movimento. Havia um outro homem de camisola larga e coçada e um rapaz,talvez caboverdiano. A serra não pegava e todos se mostravam pesarosos, parados, olhando sem esperança para o insucesso da operação. Até que o homem mais bem vestido usou o telemóvel. Entretanto apareceu ainda uma outra pessoa de cor, vestida de azul vivo. A EQUIPA parecia completa.Aparentemente em socorro da serra que não pegava,veio uma bela carrinha que trazia ainda uma escada de alumínio parecida com uma que eu tive mas esta era de aumentar, quase como as dos bombeiros. Muito mais tarde no dia, voltei a pensar nos bombeiros. Não seria esta uma tarefa que eles fariam rápida e profissionalmente ? Claro que nós os urbanos não sabemos nada das profundidades políticas desta coisa, mas a operação deu para que durante todo o dia, os homens da equipa fossem atirando por terra os grandes ramos incómodos, encarrapitados uns na escada mais ou menos extendida, outros em baixo a ampará-la, usando serrotes e, muito esporadicamente, a tal serra caprichosa que só pegava às vezes. Andei de janela em janela a assistir ao mais flagrante desconhecimento de como se trabalha em equipa, de como se programa e distribue qualquer tarefa e de como se pode depois alardear que se fez um trabalho importante, quando tudo aquilo era tão ridiculamente simples, como, por exemplo o acomodar da enorme ramagem caída sem usar o processo de um só homem a transportar às costas ,ramo a ramo, para um contentor previamente colocado na esquina da rua diametralmente oposta ao local da operação.Houve situações assim tão cómicas que não foi possível deixar de me rir. Para o não fazer sózinha, telefonei a uma amiga que mora na"outra margem" da avenida e a quem "pertence" a árvore intervencionada. Como eu, ela estava perplexa com o que via...Em conclusão : foi todo um dia de trabalho de talvez técnicos e ajudantes mas a casa da minha amiga ficou de janelas iluminadas pelo sol de um fim de dia de verão, coisa que ela já nem sabia o que era. O olmeiro está lá, despido das ramagens indesejadas, em perfeito traje de verão... A equipa desapareceu á hora própria... Lisboa continuará deste modo... à espera de muita coisa ! E o "meu" olmeiro,esguio e bem comportado continuará a albergar a família de melros cantores,meus companheiros...

22 junho 2008

Os cento e vinte anos de Pessoa

...e então não é que, no fascínio das férias, me encontrei, como em pequena, a situar-me tão longe daquilo que considero trabalho que até perdi o conto aos anos do Fernando Pessoa embora o recordasse no dia de Santo António, nem eu sei bem porquê... Isto que vou escrever é mesmo um mea culpa de professora ( nem sei se de portuguesa ou se de pessoa de LETRAS ) , mas nunca fui admiradora senão da Mensagem de PESSOA. Trabalhei sempre muito cada heterónimo, desde os de sempre até cada um dos que nos têm vindo a aparecer abundantemente...E digo trabalhei porque àquilo a que não me entrego com entusiasmo e até paixão, se acaso tem a forma de um dever ou de uma necessidade, procuro sempre compensá-lo com trabalho, já que não posso abordá-lo de outra forma. Isto explica então que os cento e vinte anos do poeta se tivessem diluido na minha euforia do "não pensar, não lembrar,não rebuscar".
Viessem falar-me sim da revigorante "juventude" do meu CAMÕES de que felizmente se não alhearam os construtores das provas de exame deste final de ano lectivo ! Foi sempre da sua transbordante capacidade de amar o país, as terras, os deuses, as gentes,os mares e as mulheres que recolhi uma lição de resistência, como parte que eu sei que sou neste Mundo.Neste Mundo que ainda não me deu motivos para o tédio desmultiplicador e sempre mais entorpecente de Pessoa...

20 junho 2008

Férias

É muito interessante saber-se que férias e feira são palavras filhas da mesma mãe latina e que, por conseguinte, nas duas subjaz a mesma ideia de pausa e liberdade e festa, que é como quem diz o soltar-se, o descobrir~se, o expor-se, o mostrar um outro lado de si mesmo que tantos imponderáveis obrigam a fechar por vezes "a sete chaves" dentro de nós mesmos. E é realmente uma alegria, uma festa, quando a "feira" dos nossos sentimentos, dos nossos gostos, dos nossos pensamentos e opiniões encontra o espaço para abrir-se e mostrar( ou propor ) o que tem de mais genuino "em stock"... Foi assim agora. E porque feira é troca, trouxe comigo um sem-fim de coisas novas, montes e vales a reverdecer,onde há poucos anos foram brasa ou labareda, pequenos rios represados a espaços criando praiínhas onde retoiçam crianças e jovens, cidades que conheci vilas e hoje se envaidecem de avenidas, rotundas, parques de estacionamento cronometrados e despropositados gigantes ,já não só super, mas hiper, locais de tudo vender... Um país novo a crescer sobre a raíz já exangue do outro que eu conhecera !
Mas há também as pessoas e as coisas novas que elas fazem, e as libertam para podermos falar de coisas boas e novas... E como é possível rodear-se a gente de uma tecnologia sem a qual já não se pode viver, já ninguém sabe viver...Rega-se a horta ou enche-se a piscina a horas impecavelmente certas sem ser preciso ir lá,estar por perto...As flores abrem na mesma mas maiores,mais coloridas, os morangais desdobram-se a dar frutos óptimos e rescendem por todo o lado os cheirinhos de cozinhar sempre húmidos e frescos...Aprendi a, pela noite, pelas longas conversas sob as estrelas, ouvir subitamente um eclodir de águas, sem ver chuva...Era uma espécie de "fantasma" zelador de hortas e jardins que chega sempre a horas e traz consigo o perfume da terra a envolver esta nova noção de liberdade...
PORÉM, numa outra latitude ,sem retornos mas interesses, sem o abraço da TERRA, sem o carinho de AMIGOS , coincidiu haver FEIRA, mas sem FESTA em liberdade, como é devido .As gentes da nossa Terra desejavam e mereciam trocar com " os rapazes da bola" as suas vis tristezas agora habituais, pelo voo libertador de uma límpida vitória que eles não puderam dar-lhes. Também trouxe "isto" das férias.Também isto é o Mundo Novo ! Continuaremos a ter que O aprender...

02 junho 2008

Canção do tempo fugaz/ 2-6

A água corre,jamais regressa
à nascente da montanha.
A flor cai,jamais regressa
ao ramo que a sustentou.
Fugidio relâmpago a Vida !
Apenas o sentir do seu passar...
Imutáveis Céu e Terra.
Tão rápida a mudança no meu rosto !

Li Bai, poeta chinês ( anos 701-762)

01 junho 2008

Pobreza

Nesta época terrível que já estamos a viver, coisa que em toda a minha vida nunca me foi dado ver, nem mesmo durante os ,grandes racionamentos do tempo da segunda Guerra Mundial, há pessoas de um estrato social ao qual nunca atribuiramos a qualificação de pobres-pobresinhos de pedir, que estão agora a recorrer a práticas de sobrevivência que eu julgaria impensáveis para qualquer pessoa, mesmo sabendo que para os tais pobresinhos elas existiam e me confrangiam dolorosamente. Na fase inicial do grande afluxo de imigrantes provenientes do leste europeu, foi-nos mostrado nos noticiários televisivos o degradante espectáculo de filas mais ou menos ordeiras à espera, pela noite, dos caixotes de lixo postos na rua junto às portas traseiras dos grandes supermercados, para neles recolherem tudo o que pudesse servir-lhes para matar a sua fome ou a das suas famílias. Mas eu própria os vi remexendo os pequenos receptáculos para lixo suspensos nos candeeiros de rua e nos caixotes de lixo doméstico . Foram criadas várias instituições de caridade originárias, algumas, de igrejas de religiões não católicas, e outras de simples associações de solidariedade e começou-se a falar muito abertamente dos sem abrigo para os quais estas instituições criaram uma forma de assistência por meio de carrinhas que, pelas noites e madrugadas, se espalham pelas cidades fornecendo comida e há mesmo algumas que funcionam como posto médico rudimentar.E nós, os que não sabiamos como acudir àquelas pessoas, passámos a ter uma forma de o fazer,por interpostas associações. Mas, resultado do nosso cada vez maior conhecimento dos hábitos de outros países da Europa, da nossa cada vez maior europeização, começámos a usar aquele processo de nos vermos livres dos grandes"monos", lixos incómodos, colocando-os em certas zonas da rua demarcadas para esse fim. E é para lá que vão mobiliário, electrodomésticos, plantas secas retiradas de jardins, livros e tapetes velhos ou inúteis e roupas,domésticas ou de vestir. Há entretanto uns dias certos em que a Câmara manda proceder à recolha de tudo isto mas, nos espaços entre estas recolhas, aparece quem venha procurar aqui o que pode aproveitar para si. Já me aconteceu perder algum tempo a observar da minha varanda as aproximações de pessoas a esta livre oferta que se lhes depara inesperadamente quando passam por um destes depósitos de inutilidades. Quando, há poucos anos, esta prática começou a existir, a atitude primeira de incredulidade juntava-se aos olhares perscrutadores em redor e depois a uma avançada rápida e uma retirada ainda mais rápida com qualquer coisa arrebatada do monte,parecia-me, quase sem escolha. Contudo a habituação tem permitido aos aproveitadores um à-vontade sempre crescente nos seus abastecimentos deste tipo. Quando vi que ,vendo o que há, se parte e volta mais tarde com um carro para poder carregar o que se escolheu, deixou de divertir-me como sempre, esta observação, até ao dia,há pouco mais de dois a três meses, em que tive a certeza de que já não era o mesmo "tipo" de pessoas que andava por ali a tentar guardar em sacos que trazia, roupas de criança, malhas e sapatos e até uma ampla toalha que me pareceu de banho...Dizem-me que isto pode ser indicador de mais coisas que não da pobreza envergonhada, mas, quanto a mim, será sempre indicador de uma certa pobreza( talvez moral? ) para acudir à qual eu ainda não sei de nenhuma associação de caridade...

25 maio 2008

Nós e os lírios do campo

Nós, seres humanos, somos tão astutos que, se quisermos, podemos sim senhor "servir a dois senhores" e até a mais que dois, se isso se proporcionar. O único impedimento para tal reside muito simplesmente no carácter, na formação moral, na educação de cada um.
Hoje penso em quantos senhores servirá aquela Junta Militar que manda em Myanmar. Não tem ela servido as suas espantosas ambições políticas e privadas, fingindo que ajuda e serve aquele seu povo sofredor que afinal vem morrendo aos poucos, de abandono, por crueza e desumanidade de quem devia, pelo menos, consentir na ajuda oferecida pelo resto do Mundo ?
Fingir foi o verbo que usei, pois será ele sempre a imiscuir-se nas atitudes dos que sabem como servir a dois senhores sendo que, de um lado, está sempre o mesmo tirano ( ou sedutor )-o dinheiro, que sabe apresentar-se com múltiplos disfarces, e do outro lado está sempre também a fragilidade do Homem que tem todas as dificuldades em apenas se pautar por olhar os lírios do campo...

24 maio 2008

As Amigas

Esta semana, como acontece em muitas outras, sem convites, sem olhar a alternâncias, partindo da iniciativa que a amizade dita e permite, elas vieram.Cada uma, é assim: A primeira,
entra, tira o casaco, larga sobre os sofás da sala o que traz nas mãos e vai dizendo desculpas se chega mais tarde do que o previsto ou contando peripécias da arrumação do carro ou do percurso até cá e,logo a seguir, vai à casa de banho refrescar-se...está em casa ! Irradia energia ,optimismo, companheirismo... A minha casa fica logo cheia mal ela entra.

Diferente, é a que vem tarde, muito tarde, quase hora de jantar, explicando suavemente porque queria não deixar de vir, dizendo que vai estar só uns minutos, sentando-se quase à beira da cadeira e quase sussurrando saudades, lembranças, porque agora vive longe e já não podem ter lugar aquelas intermináveis conversas...Com o passar dos tais minutos, vai-se acomodando, conta, sublinha quase tudo com um sorriso ou mesmo uma risada feliz...Afinal passam horas. Estamos tão em sintonia que não queremos quebrar este circulo de relatos e confidências que, de uma para a outra, se não interrompe mais...Quando sai deixa-me a casa impregnada de solidariedade.

Mal contenho a sensação de plenitude que se expande no meu peito, por tê-las como amigas,tão sólidas, tão dentro da minha vida, tão sabendo de mim tanto! Isto chamo eu de alegria.

Era mais velha do que eu, julgava eu que mesmo bastante mais. Soube agora que não era tanta a diferença quanto parecia. Vieram dizer-me que morrera pouco tempo antes da notícia que me traziam.Serenamente, no meio dos seus arranjos matinais. Era alegre e quando aqui chegava sempre tinha uma forma engraçada de maldizer a minha escada.Sentava-se fundo no sofá, tomava o fôlego que perdera a subir a escada e tratava-me por um diminutivo que ela própria criara, " e a tua vida, como vai?"...Assim começava uma lenta tarde de conversa, porque ela não tinha pressa, nem eu tão pouco. Interessava-a saber fosse o que fosse que a deixasse "avaliar", "perceber" qual era realmente o meu estado físico e espiritual... Não vou aqui falar, não quero, da
falta, do vazio, a seguir ao choque da notícia dada à queima-roupa...Não presença.Ausência.
Experiência já vivida com vários graus de angústia e desamparo, pareceria que podia estar imunizada... Mas não. Não se está nunca, para grau nenhum.

Três amigas.E esta classificação está gasta e não me é suficiente.A tristeza que me deixa a que já partiu, sei bem que as duas outras tão mais novas vão ajudar a dulcificar...

Costumo rezar uma oração que diz " meu Deus, faz do meu lar o teu santuário". E tomo como resposta a este pedido cada vinda inesperada destas pessoas que têm parte comigo como dizia Jesus...

17 maio 2008

Família

Não sei como, não me lembro de, em outros anos, se ter comemorado o Dia da Família. Para mim, o dia da Família foi sempre um dos complementos bonitos do dia de Natal. Mas, entendendo bem o alcance político - social de governos actuais, face ao envelhecimento das populações e entendendo ainda melhor a acção da Igreja face à ignorância propositada de valores que hoje é incutida nas práticas sociais, resolvi fixar-me um pouco sobre tudo isto. E aconteceu que dei comigo a recordar quem? Pois a minha sogra. Francesa de Paris, inteligente e trocista, espirituosa e mordaz, tinha aquele jeito parisiense que era capaz ou de nos cativar ou de nos gelar, com a mesma graça de um sorriso sempre a propósito. Foi ela que um dia me ensinou este provérbio francês que eu não sei se tem um português correspondente:
Les amis on les choisit; la famille on la subit.
E ficaram por aqui as minhas meditações sobre esse tal dia...
Não sobre a família !

11 maio 2008

Pentecostes/ Espírito Santo

· FORTALEZA · CIÊNCIA · PIEDADE · CONSELHO · SABEDORIA · HUMILDADE · ALEGRIA ·
Tivesse eu sido dotada com estes sete dons essenciais, que ser humano não seria !!!

10 maio 2008

Reparo que o meu blog se vem mostrando cada vez mais como um memorial de datas memorializáveis o que o está transformando num ramal para onde se esgueirou a minha ideia- tronco inicial, que seria a de um registar das minhas "circunstâncias"( Gasset ), meditando sobre elas e o que delas advem, sempre que isso me fosse possível.E, corolário indispensável quanto a mim, seduzir leitores que eu queria interlocutores. Quantas vezes tenho lido a afirmação de alguns escritores de ficção de que, estando a escrever um romance, o personagem começa a ganhar vida própria e o primitivo corpus da história entra numa deriva que o autor não procurara !
Pois bem! A superabundância de dias votivos tanto ao amor,como à água, como à fome, como à família, como a todas as doenças( uma de cada vez), ou a todos os padroeiros de qualquer coisa( santos ou não), ou à mulher (mas não ao homem),ou à música, ou `a poesia...Às coisas mais contraditórias, desde que possam ilusoriamente sobrelevar a ideia de uma união global dos sentimentos do Homem sobre qualquer tema escolhido, esta falsíssima aposta numa pseudo-união de vontades celebrativas, acabou por me enrodilhar os meus dias de celebrar realidades ou memórias com os outros, os globais( quando não aconteceu a sorte da coincidência ). Entretanto passaram por mim e eu vivi coisas mais ou menos interessantes, admiráveis, repugnantes, esperançosas, decepcionantes, das quais não ficou no meu blog o mais ligeiro rasto. E, no entanto, todas elas foram deixando marcas nesta cera moldável que é a cave onde repousam as várias castas-reserva especial das memórias da minha vida.
Ninguém espera certamente que uma mulher de mais de oitenta anos tenha actualmente uma dinâmica de vida recheada de actividades em que predomine a motricidade física, mas espero que quem não sabe acredite que a motricidade espiritual, sentimental e até intelectual mais se apura quanto mais se degrada a agilidade do corpo. Pode assim acontecer que, como nos bons velhos vinhos-reserva, as qualidades se sublimem e de repente (?) os nossos olhos passem a ver o que antes não viam, o nosso entendimento se torne mais perspicaz... Por vezes eu chego a ter medo do que estou sendo capaz de compreender agora em situações, pessoas ou coisas que acreditava já conhecer há muito...
Mas afinal seria mesmo daquilo que não está cá que deveria ter sido feito, até agora, este blog?
É, sem dúvida, um caso a repensar. E os prós ? E os contras ?

01 maio 2008

Dia da Espiga

Um ramo de símbolos, uma tradição:a papoila é a alusão a uma saúde vibrante que permitirá receber todos os estímulos, a espiga não poderia ser senão o PÃO nosso de cada dia. o raminho de oliveira é o precioso oiro líquido,talvez relacionado com os sagrados óleos que ungem os homens nos grandes momentos da vida-a entrada e a saída-princípio e fim, o malmequer amarelo, na sua simplicidade, está conotado com o oiro/dinheiro e talvez seja uma mensagem para que compreendamos o seu quanto baste sem ostentações, e por fim uma alusão ao vinho, tido religiosamente como o sangue que nos corre nas veias enquanto garante de vida.
Uma aliança entre a pujança da natureza e os grandes trabalhos do Homem, e assim, uma síntese a lembrar-nos que, pelas coisas simples, manteremos a nossa dignidade de seres humanos.

25 abril 2008

25 de Abril

Sempre com a mesma emoção, a amálgama de recordações. A espaços, uma ou outra lágrima...
Tudo o que escrevi há um ano, tornaria a escrevê-lo hoje. Esta Lisboa que parece gente, às vezes, põs-se bonita de sol, de azul, de luz, para que as pessoas possam "ir para a rua gritar"não de raiva, mas ou de esperanças ou de memórias, o que as torna diferentes do cinzentismo de todos os dias... Vamos reler este blog, no meu post do ano passado?
Por todo o serão deste dia e entrando pela madrugada, a nossa televisão ofereceu-nos um completíssimo rememorar das Canções de ABRIL... "Uma gaivota voava, voava..." "pergunto ao vento que passa, notícias do meu país", "venham mais cinco..." e muitas, desde "Grândola vila morena", um nunca acabar ! E a "Pedra Filosofal" ? Vieram cantá-las todos os seus intérpretes de há trinta e muitos anos, alguns cantautores, todos os que estão vivos e com saúde... Claro que, no remanso do meu solitário serão, cantei com eles, tendo embora esquecido muitos pedaços das letras que quase todas eram poemas de autores consagrados. Foi tão bonito ! O público maciço que fazia regurgitar o Coliseu, cantava também e quase se podia palpar uma nuvem de emoção a pairar por cima de todas aquelas cabeças... Os temas, as toadas e principalmente os cantores ! Comovia-nos a todos, o vê-los assim, naturalmente envelhecidos e a tornarem-nos tão presentes, com o seu fogo, com o seu entusiasmo, aqueles tempos em que todos sonhávamos, podendo ou não dizê-lo, mas vendo os nossos sonhos materializarem-se pelas bocas deles... Emoções, emoções, umas sobre outras , e saudades de tanta, tanta coisa, na hora de encerrar este dia tão "grávido" de esperanças, como os olhos da "Amélia dos olhos doces"...

24 abril 2008

24 de ABRIL


De Miguel Torga :


Falta a luz dos teus olhos na paisagem:
O oiro dos restolhos não fulgura.
Os caminhos tropeçam à procura
Da recta claridade dos teus passos.
Os horizontes, baços,
Muram a tua ausência.
Sem transparência,
O mesmo rio que te reflectiu
Afoga, agora, o teu perfil perdido.
Por te não ver, a vida anoiteceu
À hora em que teria amanhecido...

13 abril 2008

Dia do Bom Pastor


SALMO 22

O Senhor é meu pastor: nada me faltará

O Senhor é meu pastor, nada me falta.
Fez-me descansar nos prados verdejantes,
conduziu-me às fontes mais puras
e lá restaurou as minhas forças.


Ele me guia pelo caminho mais seguro
para glória do seu nome.
Passarei ravinas tenebrosas e não temerei:
Vós estais comigo, o vosso cajado me tranquiliza.

Aos olhos dos meus inimigos
me preparastes a mesa da abundância
e corre sobre a minha cabeça o perfume da unção.
Está repleta a minha taça !

A vossa bondade e misericórdia me acompanham
no caminhar da minha vida.
Habitarei na casa do Senhor
ao longo de todos os meus dias...


Eu sou o Bom Pastor. Conheço as minhas ovelhas e elas conhecem-me.
Escutam a minha voz e seguem-me porque a reconhecem...
Evs. de S. João

06 abril 2008

Recordações versus Mobilidade

Estamos a atravessar uma época da vida do nosso país em que, por causa da implementação de várias reformas promovidas pelo governo em praticamente todas as áreas das nossas actividades cívicas ou sociais, somos levados a estabelecer comparações, a formular processos de aceitação ou de recusa muito pessoais, e a, quase sem darmos por isso, sermos inflamados pelas mais ou menos ruidosas manifestações de rua de que tomamos conhecimento pela comunicação social e que já se vão tornando habituais, visto que de todas as áreas surgem os que queriam outra coisa e não a que lhes é dada.A verdade é que o viver neste nosso país deixou de ser igual àquele a que estávamos habituados. Por muitas e muitas razões que não caberia aqui dissecar.E que dizer então das diferenças que vêm ao encontro das pessoas da minha geração? Nós, aqueles que vivemos a segunda Guerra Mundial, estremecemos com a novidade do poder atómico, conhecemos o fazer e depois o desfazer do Muro de Berlim, e que das guerras desconcertantes já haviamos conhecido a Civil de Espanha e viemos a suportar em nova angústia a Guerra do Ultramar, nós os que ,cansados de quase tudo, nos deslumbrámos com a Revolução dos Cravos e começámos a sonhar com o tal país que sabíamos ser possível, nós os que haviamos trazido para este país novo uma pequena trouxa com os tesouros que achávamos que devíamos guardar (tradições, educação, memórias, crenças, verdades, História, solidariedades...), nós os que, amando todos com amor-verdade a velha Europa, ainda não tinhamos percebido( e creio que ainda não percebemos)como seria difícil acertar o passo com ela,para uma vida em comum, com um dinheiro em comum... ... Sim, somos nós os que nos sentimos agora mais estranhos no meio de estranhos ...
E há dias soube que só mesmo no fim deste ano de 2008 poderá aceder a uma nova consulta alguém que anda a coxear há meio ano porque há meio ano lhe foi diagnosticado um pequeno quisto por detrás de uma rótula, com o aviso de que seria bom que o seu volume não aumentasse para não prejudicar o andar e de que,se isso se desse,deveria ser operado como é óbvio.
Comecei então a recordar aquele tempo em que não havia o hábito de se ir aos hospitais senão quando era recomendado por aquele médico já nosso amigo que nos tratava os sarampos, as "bexigas" e as diarreias e nos auscultava, carregava na barriga e dizia de que estávamos padecendo.E vinha a nossa casa sempre que era preciso.Hoje,ninguém vive sem frequentar um qualquer hospital.As pessoas queixam-se, mas, sem esse ponto de convergência dos sofrimentos, ninguém se sente gente. É também por isso que deixou de se nascer em casa e praticamente também deixou de se morrer em casa. Parece até que a casa não é mais do que um usufruto a que se tem acesso mas não é já um local de raíz, um vínculo a uma terra, a um "clã", a uma qualquer associação de bairro...É um local efémero para onde entramos ao colo de alguém,visto termos nascido na maternidade,e de onde sairemos um dia levados pelos gatos-pingados ou pelos bombeiros ou maqueiros,no caso de nela morrermos ou de sairmos para ir morrer no tal hospital... Pujantes, em pleno gozo de todas as nossas faculdades,tornámo-nos pouco afeiçoados á casa.Também é verdade que as tais reformas governamentais parecem induzir-nos a essa forma de vida, uma vez que predomina pela Europa uma moda que eu reputo de trovadoresca :a da mobilidade.Mas ,consumistas como se espera de nós, vamos enchendo a casa, marcando-a, impregnando-a de coisas que muito falam de nós, de como somos família, de como nos entrecruzamos dentro dela, até que um dia ela regurgita de sombras, de silêncios, de ecos, qual película impressionada por flashes mais ou menos rápidos, projectados sobre as nossas presenças, mesmo fugazes. É assim que eu descubro uma razão para a existência de "casas assombradas"... Quantas vezes nos parece possível termos ouvido a voz de alguém que já partiu?
E vermos a sombra de alguém que já é apenas sombra? E ouvirmos o abrir da porta como só alguém fazia? E cheirarmos um cigarro há muito apagado para sempre?E até o guizinho da coleira do gato que também partiu... Sei que da efemeridade das presenças,resta a perenidade de todas as "marcas".Contra isto não há "mobilidade" que tenha poder.
Nada tem poder contra o charme indelével das nossas recordações !...

30 março 2008

Nós e o Mundo do sábio Shao

Se os humanos possuissem aquele olho multifacetado das moscas, mesmo assim teriam dificuldade em abarcar a pluralidade de acontecimentos que em seu redor pululam e fabricam, dia a dia,hora a hora, minuto a minuto, o caldo de cultura onde se desenvolvem as suas vidas.Somos , por isso, forçados, em épocas determinadas, a exercer um certo esforço de concentração para banir da nossa limitadíssima órbita tudo o que não converge para um dos temas a que queremos devotar-nos em pleno.Fazemos opções,claro que sim, e o Mundo segue, enquanto nós paramos um tempo, não só para pensar, mas também para agir mais conscientemente, segundo critérios nossos e sem dar lugar a desvios provocados tanta vez pelas solicitaçôes desse Mundo de todos os dias. Foi assim que me aconteceu neste período de Quaresma, Semana Santa e Páscoa. O Mundo foi fazendo de tudo: na área da política nacional ou na da internacional, na área da ciência desmultiplicada nos seus vários pelouros, na área social de todos os pequenos mundos, na área da música de qualquer quadrante, na área das Letras com cada vez mais pessoas a quererem contar ao Mundo as suas coisas ,e por aí fora. O Mundo é quase sempre previsível, se soubermos ir olhando para ele com a atenção que a nossa sabedoria recomenda ou permite, mas nem por isso deixa muitas vezes de nos surpreender quando faz movimentações mais bruscas. Enquanto eu estive toda entregue à minha Fé e às coisas de Deus, longe daqui, alguns devotos de uma outra divindade, calmos e serenos na sua entrega de fé,viram-se subitamente abanados,sacudidos, porque há, ligada às suas práticas religiosas,uma questão territorial que nunca esteve nem parece vir a estar resolvida.E não é que os seus algozes são os demasiado próximos vizinhos chineses? Na verdade, há já bastantes anos que nós temos podido vir a descobrir que há pelo menos dois tipos de chineses :aqueles espantosos filósofos da tranquila serenidade e densa sabedoria e os outros,políticos,estrategas, defensores musculados e vigorosos de uma corrente política que os tem isolado do resto do mundo. E agora? Lá estão os monges tibetanos a ver e a aguentar a dureza das caras feias do mesmo povo que mostra ao Mundo Ocidental um sorriso de orelha a orelha porque vai fazer com esse outro mundo todo o charme que se mostrar necessário para a realjzação dos Jogos Olímpicos em sua casa.Quando "regressei" dos meus recolhimentos e atentei bem no que estava a passar-se, apeteceu-me reler os lindíssimos poetas chineses, os seus pequenos conselhos de sabedoria, a suas irónicas meditações sobre as fraquezas humanas (excelentes traduções,claro, porque não estudei chinês).Não resisto à tentação de aqui transcrever algo que a todos nos deixa mesmo em perplexidade.

MENSAGEM AO REI LI-WANG
Do Sábio SHAO, no ano de 845 AC

Um Imperador sabe governar quando,sob o seu governo, se goza da Liberdade para:
_os poetas fazerem os seus versos
_os historiadores dizerem a verdade
_os ministros o aconselharem sem medo, desassombradamente
_os pobres se queixarem livremente dos impostos
_os estudantes aprenderem todas as lições do mundo e do espírito, com alegria e respeito
_os operários se orgulharemdas suas aptidões e se aplicarem só em trabalhos apropriados
_as pessoas comuns falarem de todos os assuntos sabendo que são ouvidas
_os velhos censurarem tudo o que lhes parece desgovernado,por amarem muito a ordem

Será que em 2008 ainda se lembram do Sábio Shao ?...

23 março 2008

Domingo de Páscoa

DE SANTO AGOSTINHO


VIVE DE TAL MANEIRA QUE,QUANDO MORRERES, NÃO "MORRAS"...

21 março 2008

Dia Mundial da Poesia


PORQUE NASCES, POESIA, NO MEU PEITO?
ÉS SAUDADE DE VIDAS QUE NÃO TIVE
OU CANSAÇO DA HORA QUE SE VIVE
DENTRO DE UM SÓ VIVER FECHADO E ESTREITO?

ÉS ESTE CONHECER QUASE PERFEITO
DE COISAS QUE A MEMÓRIA NÃO REVIVE?
POESIA, EM QUE MUNDOS É QUE EU ESTIVE?
PORQUÊ SEMPRE ESTE SONHO INSATISFEITO?

TRAZES DENTRO DE MIM, SEMPRE DISPERSOS,
ESTE NÃO ME CHEGAREM OS ESPAÇOS
E ESTE NADA ME SER SUFICIENTE

QUE FAZ COM QUE O ALENTO DOS MEUS BRAÇOS
SEJA O QUERER IR MAIS LONGE QUE OS MEUS PASSOS
E O QUERER SER MAIOR QUE TODA A GENTE...

17 março 2008

Semana Santa - Domingo de Ramos


Começou pois a Semana Santa à qual também chamamos a Semana da Paixão. Lembro-me de que, quando era muito nova, não queria, não me conformava com o emprego da palavra paixão para designar precisamente uma sequência de dias de tortura aplicada sobre um ser humano ( não esquecendo nunca a natureza também humana de Jesus ) ,de tal forma rebuscada e dilacerante que nunca mais se desvaneceu na memória dos Homens e estou eu, hoje,ano 2008, a falar dela, aqui. Só mesmo quando estudei latim soube de forma convincente que passio,passionis significava sofrimento e também já tinha conhecimentos do Mundo e das coisas que me permitiram ir começando a abarcar toda a latitude humana, social e semântica desta palavra que, antes, para mim, apenas rescendia a amor.Não percebia, em miúda, e ainda hoje só pelo caminho da FÉ consigo crer que percebo a espantosa forma de amar que pode levar alguém a aceitar semelhante Paixão. Digamos que Jesus não aceitou:Jesus procurou-a, em cumprimento da sua missão divina. E vai triunfalmente entrar em Jerusalém rodeado de um povo que o glorifica como sabe,agitando em seu redor ramos "triunfais", enfatizando vistosamente este gesto de alguém que sabia que caminhava para a traição, a tortura e a morte . Segue-se então o torvelinho de horror que marcou para todo o sempre esta série de dias a que também se dá o nome de Semana Maior.Todos os actos de culto que nesta semana vamos celebrar constituem uma progressão em crescendo que humanamente nos comove e espiritualmente nos exalta soltando-se assim, simultaneamente, uma percepção da dor quase real e uma adesão sem reservas a esse Amor que não compreendemos. E se nos perguntam como podemos fazer da Cruz o símbolo que amamos, temos dificuldade em fazermo-nos compreender, de tal maneira é difícil explicar-se o que não se fundamenta apenas na Razão...

14 março 2008

Fazer um Poema

Desde que entrei neste mundo da criação na net a que damos nomes como blogosfera ou seus sinónimos, sempre me moveu o desejo de ganhar interlocutores com os quais se fosse constituindo um espaço de intercomunicação inteligente, interessante, com mais ou menos originalidade e porque não? até com abertura para algumas trocas de conhecimentos ou saberes e de conceitos ou opiniões. Bem. As coisas raramente são como as pensamos e o mais curioso é que qualquer projecto nos foge subitamente das mãos, ganha vida própria e fica"uma coisa" que não é o que nós imagináramos.Que fazer?Há que voltar costas ao novo caminho que se nos abre ou prosseguir aguardando que uma outra inflexão surja também? Estava eu nestas inquietações quando me surge um poeta-aprendiz a, justamente, desejar, de uma forma muito inovadora, criar laços ,creio que de informação, com aquilo que apreendeu do que aqui tem lido. Na sua enorme ambição de ser poeta percebo os fundamentos de todas as iniciativas em que se envolverá... Resolvi,assim, à maneira de conselho, colocar aqui o que escrevi uma vez para circunstâncias quase semelhantes.

Fazer um poema
não é só senti-lo
nem escrevê-lo...
Não é aquilo que pensam
de dizer-se o que nos vai por dentro,
de guardar no papel
um segredo,
se nos falta a coragem pra dizê-lo...
Nem tão pouco é vontade de exibir-se.
na esperança de que alguém,
lendo-o,diga sentir-se
como nosso irmão,
tal a capacidade de comunicação !...
Não ! Fazer um poema
pode até ser "mea culpa"
de muita convulsão de sentimentos
e alguns arrependimentos...

Mas o que é sempre, sim,
é uma imensa volúpia
de agarrar as palavras
e domá-las,
recriá-las,
desdobrá-las,
pô-las contra a parede,
ali ! À prova,
de terem, sim ou não,
força bastante.
música,
mansidão,
rigor ou colorido,
para dizerem só e justamente
aquilo que é de nós parte integrante
sem probabilidades
de outro sentido...

Depois de tudo isto que foi dito,
mística e transcendente,
é a mão que obedece docilmente
no gesto que desliza no papel...


Nasce o poema
e é escrito
misteriosamente...

09 março 2008

Lázaro


Aquela exortação de S.Pedro para que os Efésios acordassem, sendo que esse acordar seria como levantarem-se do meio dos mortos , teve o seu corolário hoje, quando Jesus ordenou ao seu amigo Lázaro que saísse do pedregoso túmulo onde jazia,havia já quatro dias. Ao responder a este chamamento, Lázaro traz todas as marcas palpáveis da sua morte verdadeira.As suas irmãs o haviam chorado como perdido e até lhes pareceu que o seu amigo Jesus, embora o chorasse também, não se mostrara apressado em vir juntar-se-lhes naquela ansiedade de poderem ainda salvar uma esperança...E a esperança era afinal tudo o que Jesus trazia para nos ensinar quando,para louvor do Pai, mostrou a todos que, como havia dito a Marta,quem acredita...embora venha a morrer ,viverá. Uma vez mais, a linguagem é misteriosa mas Lázaro morto que ressuscita abre as portas da esperança a todos nós...

02 março 2008

...nada me faltará!


"O Senhor é meu pastor,nada me faltará". Assim reza o salmo 22,cantado no dia de hoje e que é talvez o Salmo que prefiro a todos os outros. A mensagem de paz,de tranquilidade ,de que tanto somos carentes chega-nos quase perfumada e refrescante :fez-me descansar nos prados verdejantes,conduziu-me às fontes mais puras.E segue-se uma panóplia de bens prometidos,consequência do cuidado que o Senhor aqui garante à confiança do salmista e que eu quero muito que também possa ser minha. Enquanto na semana passada ficámos a pensar naquele encontro nunca de esperar, e no diálogo nada provável à luz de uma lógica à nossa medida, entre uma samaritana e um judeu ,pesou sobre nós a importância metafórica de uma tal água que pode matar sedes de espécies tão diversas que, uma vez saciadas, poderão condicionar toda uma mudança de vidas, tivémos, no dia de hoje, uma tão grande intensidade de focagem de uma certa luz sobre os olhos dos cegos( também de diversas espécies) que a sensação da secura e escuridão das nossas vidas tais como somos capazes de levá-las, apenas nos conduz a desejar os prados verdejantes e as fontes puras que o Salmo nos promete. E se ainda tudo isso não chegasse , S.Pedro, na sua epístola aos Efésios quase nos grita"desperta,tu que dormes,levanta-te do meio dos mortos ! " Como não, mais uma vez ,tentar AGORA realmente acordar?

26 fevereiro 2008

Morte

Ronda por aí
à nossa volta
a Morte,
mostrengo hediondo,
uivante,
predador
espectante
das nossas alegrias...

Cada sua passagem
arrebata,
profana,
dilacera
uma teia de vidas
sem viagem,
das que ficam no cais
vendo a outra partir...

Dói fundo a dor
feita de carne,
humana !
E ele fica
a pairar
pelas esquinas dos dias...

23 fevereiro 2008

Aznavour

Esta noite vai haver um espectáculo em Lisboa cujo anúncio, aqui há uns tempos, me deixou entre o admirada , o orgulhosa e o curiosa...AZNAVOUR ,o "guru" da minha juventude apaixonada, o "padroeiro" dos nossos sonhos de amores mais arrebatados, aquele que íamos ver e ouvir em Paris, sempre que foi possível, ou aqui em Lisboa sempre que vinha cá, esse Aznavour da minha idade e que transporta consigo as mais emocionantes recordações certamente não só minhas mas as de toda uma geração que já se foi fragmentando com o multiplicar de todos estes anos, esse Aznavour vem agora aí dizer aos mais novos muitas coisas de nós, algumas,talvez, que nem teremos tido coragem de recordar, quanto mais de lançá-las assim, cantadas aos quatro ventos...Hier encore, j'avais vingt ans...,La bohème... Oh,amigo ,vou adivinhar-te hoje nesse enorme palco e cantarei baixinho aqui, contigo ...Ma vie, j'ai peur que ta jeunesse un matin disparaisse... ...je ne t'ai pas cherchée, c'est toi qui t' es donnée... .o toi la vie, ne mabandonne pas! Tu sais, je crois en toi...

22 fevereiro 2008

As Palavras

Um dos meus alunos anda ,neste momento, a trabalhar os poemas de Eugénio de Andrade. É um rapaz de quinze anos, apaixonado pelo mar e pelo desporto da Vela, filho de pais divorciados e com uma estuante alegria de viver. O seu professor da Escola tem uma vincada predilecção pela poesia, muito particularmente pela dos poetas modernos. Tenho portanto à minha frente duas linhas de força que devo procurar tornar concorrentes, quando, pelas suas naturais tendências, seriam divergentes,ou, numa hipótese mais optimista, seriam talvez paralelas... E então, tenho também de me defrontar com algumas perplexidades minhas ( não que não esteja já habituada a elas ) perante certas observações de uma juventude "talhada" de maneira bastante peculiar, sempre surpreendente, principalmente por nunca me ter deixado influenciar pelo que dela se diz de desabonatório...Ontem , Eugénio de Andrade dizia-nos aquela sua tristíssima frustração de despedida já gastámos as palavras, meu amor... E salta-me ao caminho esta observação:as palavras existem para não se gastarem.Senão para que servia tudo aquilo que os escritores tentam fazer?Lá veio então a minha quase irritação pelo que já ficou, parece-me, esquecido das nossas "discussões" sobre palavra falada /palavra escrita.Neste tempo de tanto suporte electrónico para a palavra falada, na cabeça de um jovem, formatada nas coisas práticas da vida actual, a perenidade do valor da palavra como tal pode ser ainda um factor de segurança e de estabilidade emocional...Que dirão os linguistas?

18 fevereiro 2008

Monte Tabor -2

Do premente apelo de paz experimentado por Pedro, não chegou a concretizar-se a construção das três tendas. Outras coisas espantosas aconteceram e decididamente não era aquele um lugar para permanecer.Para orar, meditar, interrogar-se e dar louvor a Deus, séculos mais tarde, quem sabe? outros Pedros construiram uma bela catedral...

17 fevereiro 2008

Monte Tabor -1


"Senhor, que bom seria ficarmos aqui !.. ."
.Quantas vezes, em quantos Montes Tabor das nossas vidas, não teremos balbuciado esta frase de Pedro, aquele pescador a quem Jesus ensinava a ser "pescador de homens" e a nada temer ?... Temos o sonho,mas falta-nos a coragem ( ou a pureza das intenções?) .

11 fevereiro 2008

Nossa Senhora de Lourdes


Bernardette de Lourdes !

Rien qu'une fillette
humble,petite et frêle
qui comprenait déjà
d'un monde en larmes sombres
la souffrance et l'amour,
chacun dans un étui
de son coeur tout petit...

La parole de Dieu
lui a appris la Vie
tandis qu'elle n' écoutait
dans la grotte bénie
que la Voix de MARIE !...

10 fevereiro 2008

As Tentações


"Nem só de pão vive o Homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus"
Se, por detrás de cada maçã da bela macieira que está no nosso jardim não estivesse escondida uma serpente, se nós tivéssemos uma tão sólida formação que tornasse mesmo inabaláveis as nossas convicções ( a nossa fé) , então sim, seríamos purificáveis, resistentes ,e capazes de respostas destas, fosse qual fosse o assédio ou a tentação...

06 fevereiro 2008

Padre António Vieira


Quem, dos meus amigos professores não experimentou já aquela alegria enorme, uma espécie de vaidadesinha, quando algum daqueles alunos que chegaram até nós com aquele rótulo: " não gosta de ler , não pega num livro, não quer mesmo ler"lhe aparece a dizer que "achou piada àquela dos peixes voadores..." ? Isto, porque foi para casa ler, por curiosidade, o que ainda faltava ler do Sermão de Santo António aos peixes...Não é para alegrar um professor ? Pois bem, quanto a mim, alegrei-me mas não me envaideci tanto como disse, porque tive a certeza de que o mérito vinha todo da ironia do texto, da sua actualidade, do "luxo" das palavras e das frases tão sugestivamente aplicadas e que durante algumas semanas andámos a "pesquisar"...Os jovens acham divertida aquela construção em forma de estrelas cujas pontas se desmultiplicam noutras tantas estrelas, diverte-os encontrar os conceitos habilmente disfarçados ou não... E a verdade é que se lhes revelou( de forma muito incipiente,bem sei) o tal prazer da leitura em que antes não acreditavam. Não podia deixar de colocar esta nota no dia de hoje, em que felizmente bastante se tem lembrado este HOMEM tão dos nossos dias, mas só com mais quatrocentos anos do que nós e a todos os títulos grande e fascinante.

03 fevereiro 2008

O Monte das Bem-Aventuranças



Bem-aventurados os pobres... início de mais umas quantas coisas desconcertantes que Jesus disse à multidão dos que mais uma vez o seguiam, para o ouvirem, quando, como aqui, parava,se sentava, se recolhia um pouco e depois,duma maneira calma, meio pensativa, começava a falar...Se eu estivesse lá, diria que ele estava a "pensar em voz alta"... Não sei a que horas se terá passado este momento, mas quem já subiu àquele monte e ali teve oportunidade de poder quedar-se em silenciosa meditação, deixando a vista alongar-se pelo tranquilo Tiberíades a seus pés, a quaisquer horas que sejam, compreende bem o peso e o alcance das solicitações que parecem brotar daquele silêncio, daquela vegetação, das flores de trepadeiras que enlaçam os ciprestes a toda a sua altura e da memória de tudo o que naquele local foi dito e é como um eco repercutindo indefinidamente... No entanto, a forma misteriosa, encantatória, metafórica e até por vezes criptográfica, como Jesus expunha o seu pensamento, agravada ainda pela possível multiplicidade de interpretações que cada tradutor lhe podia ir dando, trouxe para todos nós ( e para os senhores padres logo à frente) a tarefa de nos abeirarmos da mensagem de Jesus com todos os nossos conhecimentos de História, de Gramática, de Linguística, de Sociologia, etc, etc.Porque sabemos todos que quando se diz pobres em espírito, pobres pelo espírito,pobres quanto ao espírito, não é bem o mesmo que dizer pobres de espírito e nunca é o mesmo que falar nos pobres de bens materiais. E é às vezes por pormenores deste tipo que tanta gente não entende os cristãos !... E porque à Fé se acede por muitos caminhos, é bom pensar nas palavras e deixar-se "enfeitiçar" pelos lugares que as perpetuam dentro dos nossos sonhos de Paz...

01 fevereiro 2008

Carnaval

Aí estamos nós chegados àquela época do ano em que há ,por tradição ,que cumprir uma série de rituais que , na totalidade e no particular, me desagradam profundamente. Todos os que me conhecem sabem que, em nenhuma época da minha vida, pactuei com qualquer dos tipos de celebração desta exteriorização de liberdades reprimidas e ,por calendário, agora consentidas. Penso que atitudes como esta minha devem principalmente radicar-se na educação que se teve e não posso deixar de recordar como, sempre, os meus Pais me mostraram diversos carnavais,de acordo com as minhas fases de crescimento, como coisa para se ver, mas não como coisa para nela se tomar parte.É certamente assim que se fomentam qualidades críticas e até admito hoje colocar a mim própria questões sobre este modo de educar do qual, aliás, em muitos outros campos das práticas sociais, nunca me senti vítima. Mas se hoje me sinto inclinada a entrar por este domínio da educação para os relacionamentos sociais é porque com uma certa perplexidade vejo alguns dos meus alunos( e não só dos mais novos ) prepararem afanosamente modos de se disfarçarem para a "festa" mascarada do último dia de aulas nas escolas, antes do começo das pequenas férias de Carnaval. E, ouvindo-os, o que querem encarnar ? Não são BELAS, mas sim MONSTROS, não são FADAS, mas são BRUXAS, ou então QUASIMODOS, VAMPIROS, FRANKENSTEINS... E vêm-me à memória aquelas mastronças que têm tanto de DRAG-QUEENS como dos populares CABEÇUDOS e que muito popularmente representam por todo o país o obsceno-inocente. Como realmente as pessoas se cansaram da BELEZA e se comprazem no FEIO ! UMBERTO ECO que , para fazer as suas HISTÓRIAS tanto da BELEZA como do FEIO , com tanto cuidado procurou documentar-se em historiadores, filósofos e artistas, através das várias visões do mundo, ao longo dos séculos, não conseguiu mais do que reconhecer que é nos olhos de quem olha que a beleza e a fealdade se instalam ; e que esses olhos são "enformados" em múltiplas contingências da época das suas vivências. Que pensar pois desta nossa época, em que, desde as crianças pequeninas até aos adultos mais velhos, cada vez mais se desdenha a BELEZA e se entroniza o FEIO ? Que vamos "libertar" neste CARNAVAL ?...
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21 janeiro 2008

Gregoriano

Por razões realmente aleatórias e em contraponto com o "monte" de livros de novos autores ou de novidades lançadas por autores conhecidos, que juntei para ler, a partir do Natal ou talvez mesmo a partir do dia dos meus anos, esta semana reli JORGE de SENA.Comecei por ler um dos seus Prefácios, onde,desiludido e zangado mesmo,se insurge contra a injusta forma de se tratarem os escritores "sem nome" ou sem "padrinhos" na nossa terra e depois derivei para a poesia que considero um poderosíssimo testemunho da época histórica que teceu e condicionou a vida deste intelectual-sentimental que nunca conseguiu sentir,enquanto exilado, que no seu país havia também quem o amasse.E fui encontrar-me com a sua ARTE DE MÚSICA onde,mesmo usando o seu habitual vocabulário que eu tenho tido sempre vontade de chamar musculado, ele descobre a forma de transmitir-nos as vibrações mais íntimas que a grande música lhe provoca.Por exemplo, sob a inspiração da Cathédrale engloutie de Debussy, diz: Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos, os cânticos e o eco das abóbadas e ver as altas torres sobre que as ondas se espumavam tranquilas. Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam almas penadas, como as do Marão e que eu temia em todos os estalidos e cantos escuros da casa. E de uma peça de Bach : Numa estridência uma alegria vibra?Ou treme uma amargura asfixiante? E ,nestes graves, que ressoa ?a dor ou uma serena e firme complacência ignota?
Leio nestes e noutros "encontros" do poeta a influência que terá tido na sua personalidade o gosto que tinha a sua Mãe em que ele estudasse música, enquanto o Pai queria fazer dele um oficial de Marinha...Que se viu compelido a ser a excelência como Mestre da Literatura do seu país, nos Brasis e nas Américas, sem nunca deixar de testemunhar com vigor o quanto viveu, talvez já "para memória futura", o que até nem seria de estranhar,inclusivamente num homem que foi Pai de nove filhos... E nestas e noutras cogitações me encontro no sábado, na minha Paróquia, com um grupo de senhores espanhois que ao seu grupo deram o nome de IN COENA DOMINI e que, como devem cantar os anjos no Paraíso, nos ofereceram a panorâmica paz de um canto Gregoriano antiquíssimo que ficou a "envolver" todo o nosso fim-de-semana...Música, Senhor, afinal como chegas por ela a tantos de nós e das maneiras mais inesperadas !

13 janeiro 2008

Sinfonia do Novo Mundo

Como a experiência de ir vivendo nos vai revelando a multifacetada criatura que é o HOMEM ! Quando estamos convencidos de que já não vai podendo haver muito mais coisas que, vindas dele, nos possam surpreender, bum! aí está uma nova revelação... Não estava habituada (creio que nenhum português estava) a que os governos "reconsiderassem" sobre posições tomadas com grande empenhamento e muita propaganda... E sempre tive opinião sobre aquele "bombardeamento" com a inevitabilidade da construção de um novo aeroporto na OTA. Terei que me colocar, em data de há precisamente 60 anos atrás. Havia, nesse tempo, uma faceta da Segurança Social que proporcionava o que se chamava Casas de Renda Limitada as quais, pertencendo a empresas, se destinavam a serem arrendadas aos funcionários dessas mesmas empresas seleccionados segundo critérios iguais em todas elas. Claro que eram ponderados salários, idades, estado civil, número de filhos e outras coisas. A partir de certa data, constituiu-se uma Federação dos proprietários destas casas e o "sorteio" dos inquilinos passou a ser abrangente, havendo uma lista única de candidatos inscritos, não mais divididos por profissões ou empresas empregadoras. E assim foi atribuida uma casa no bairro de Alvalade ao casal Beja. Perto, pertíssimo do Aeroporto de Lisboa, do qual o meu querido Sogro era director. Então, todos os amigos e familiares nos diziam : — Como é que vocês aceitam ir viver para perto daquele barulho permanente de aviões mesmo por cima da cabeça ? — E o meu marido e o meu Sogro sorriam e contrapunham: — É por pouco tempo. Dentro de mais ano ,menos ano, já se sabe que o Aeroporto vai ser fora da cidade. — Imagine-se que se pensava então em Rio Frio, é verdade !

Contado este "pequeno" pormenor e tendo o meu Sogro sido instrutor de jovens pilotos militares numa Escola de Aviação que existiu em Vila Nova da Raínha(a dois passos da Ota cujas boas e más qualidades ele conhecia de cor,) isto em anos vinte,do século vinte, qualquer pessoa pode calcular o espírito com que eu suportei toda a "excitação" que se gerou em redor da escolha,AGORA, da Ota, por todas as razões e mais uma, como é costume dizer-se... E eis senão quando, o Governo decide não ir para a Ota. E vai para onde ? Logo para ALCOCHETE, uma terra que me encanta,artística, histórica e paisagísticamente falando. Duas admirações de uma só vez ! O Governo ouviu os "barulhos" em seu redor, o Governo decide uma coisa bonita. Sei muito bem que o local onde se fará o aeroporto não é, não poderia ser na localidade chamada Alcochete, mas vai ocupar uma região com carisma e a beleza envolvente vai certamente ter o seu peso.Saudades do Aeroporto barulhento, odorífero e "condenado" há sessenta anos, claro que as vou ter. Quanta recordação, quanta história, quanta VIDA !!! Mas sei que ,enquanto viver, a construção do novo vai permitir-me a companhia do velho.

E só depois, bem depois, haverá alguém a lembrar que, de ALCOCHETE, eu pensava assim:

Há um vazio extenso e aromático
feito de negra vasa
e areia entretecida em limos e algas escuras
e outras daquele verde subaquático
que adquire cambiantes com as marés...
Há um murmúrio puro,de águas rasas,
a embalar conchinhas roçagantes
como sedas carísssimas e ondulantes...
E há a gaivota súbita, a rasgar,
em movimento e som, a paz do amanhecer !
Grito adunco a que respondem mais,
e, em pouco tempo, é de asas
o céu destes sapais...
Longe,lá mais ao fundo,
onde as sombras se acolhem aos pinhais,
espraiam as asas róseas os flamingos
num tremor de pluminhas adejantes...
E é de lá que, rútilo, vem vindo
o clarão da manhã de cada dia...
Lisboa ainda é margem de cinza e esmalte,
envolta em brumas densas de maresia...

Primeiras horas de um fluir fecundo,
primeiros sons a sugerir Dvorak,
e este Tejo todo é um Novo Mundo !...

03 janeiro 2008

Ano Novo

É de prever que, depois de um Natal tão especial, a minha impreparação para festejar a chegada de um Ano Novo ou sequer entusiasmar-me com o fim de um tão" sem graça" Ano Velho, fosse total. E assim, aí estive eu a fazer o que outros faziam, a dizer o que outros diziam, para não "destoar", para ganhar o direito a permanecer integrada...Como somos curiosos animais,peças, de um sempre colectivo !!! Lembrei-me então de ir visitar o meu blog do início do Ano que agora acabou.Lá está um poeminha que escrevi há cinquenta anos. E não é que,lendo bem,lendo bem,afinal ainda me apeteceu tê-lo escrito agora outra vez ? Oh! Que reservas insondáveis permite o Senhor Deus nas nossas almas !!!...

02 janeiro 2008

NATAL 2007

"Num banco de jardim, uma velhinha..." Assim começa um fado que, na minha indexação de tipos de fado, eu incluo nos trágicos, representativos de um certo sentimento português que puxa à lágrima lamecha pelos sofredores passivos que em Portugal fenecem nos bancos dos jardins, corroídos pela dor, pelo abandono, pela saudade, por muito mais coisas espirituais que materiais... Não consigo lembrar-me de qual o fadista que o cantava doloridamente, mas sei que era um homem e que rondava por todo o fado uma insinuação de indiferença filial condicionante da solidão e deliquescência da velhinha...Há muitíssimo tempo que não oiço este drama e, subitamente, reanima-se este quadro na minha memória.Porque( tudo tem os seus porquês) ,depois de uma queda aparentemente de pouca importância, o meu corpo e depois o meu espírito, entraram num processo de desencorajamento para a dor, de cansaço para a luta, de desinvestimento na esperança..."no banco do jardim, uma velhinha..."
E foi então que surgiram os AMIGOS. Caloroso, reconfortante, luminoso, envolvente, foi-me proporcionado um "banco de jardim" que me colocou a galáxias de distância da velhinha do fado. Sendo época de Natal, como para um presépio de ESPERANÇA, eles trouxeram-me incenso e mirra mais do que simbólicos: vivos e actuantes na reabilitação das minhas forças ! Com eles e graças a eles tive umas verdadeiras FESTAS de Natal ! Todo o calor do mundo no reavivar de brasas esmorecidas...Cada grande toro de lenha de azinho que punhamos na lareira, cada nova vela que se acendia, cada nova luminária com que se envolvia um novo angulo da casa, era mais um sopro de bem-estar pelo qual eu não podia ter esperado... E houve Missa do Galo( há quantos anos ?), numa igreja envolta em nevoeiro, e houve ceia quentinha, no regresso da missa, e houve prendas...A que me coube é mesmo como o brinquedo, tradução tecnológica daquele que me cabia, era eu menina. Quase outra vez menina, pela força do carinho...
Deixaram de me contentar uns magros seis caracteres para escrever a palavra AMIGOS... E onde irei encontrar as letras suficientes para escrever GRATIDÃO ?

13 dezembro 2007

Passou hoje a haver um Tratado de Lisboa

Lembro TORGA . Hoje a grande notícia não fui eu...
Aqui,neste país e nesta hora.Aqui,junto dos meus, mortos ou vivos...
...ver esta maravilha: meu Pai a erguer uma videira, como uma Mãe que faz a trança à filha...


O que me foi dado ver na televisão, esta manhã, foi uma Lisboa lindíssima,iluminada com a sua mais deslumbrante luz, muito branca nas pedras antiquíssimas debruadas de azul aqui e ali, pela mão de alguém que mais pareceu realmente amar muito esta cidade, tanto, tanto, que só pensou em mostrá-la bonita às visitas que vieram de todas as partes... Vinham pela política, pelas conveniências, pelas "tricas", por tudo, menos pelo Amor, mas era vê-las saírem dos respectivos carros e desanuviarem-se-lhes os semblantes que traziam fechados ou distraídos... Alguém arranjara Lisboa, ali,encostada ao Tejo, "COMO UMA MÃE QUE FAZ A TRANÇA À FILHA" e era ver os sorrisos e os braços abertos, em gesto de abraçar, de toda aquela gente que, de cores transparentes , resplandecentes, apenas sabia de ouvir falar,certamente, através de espessas paredes de cinzento...
Hoje a Lisboa que eu amo estava ali. E a grande notícia foi ela, deixando-se amar...
Quando destas partes se partiu um dia, muita coisa veio a tornar-se diferente "URBI ET ORBI"!

06 dezembro 2007

ISAÍAS

Deixe o ímpio os seus caminhos e o pecador os seus projectos;volte-se para o Senhor,que terá piedade dele,para o nosso Deus que é generoso a perdoar.
"Os meus planos não são os vossos planos,nem os vossos caminhos são os meus caminhos_ diz o Senhor_;quanto os céus estão elevados acima da terra,tanto se acham elevados os meus caminhos acima dos vossos e os meus planos acima dos vossos planos"


Gosto de ficar a pensar quanto sou pretensiosa quando imagino que Deus
está a fazer qualquer tipo de "avaliação" com bitolas iguais às minhas...
O nosso sistema de contas,pesos e medidas criámo-lo nós de acordo com as
nossas dimensões.Não sou capaz de imaginar,à dimensão divina, o quanto,
seja do que for...

02 dezembro 2007

Este mês de Novembro, se algures há um contador do tempo das nossas vidas, devia-me ser descontado nos totais de algum dia, porque na verdade tenho a sensação de que o não vivi, ou de que ele não me permitiu que o vivesse. Passaram os Santos e os Fiéis Defuntos, partiu a Côrte para o Brasil, morreu Fernando Pesssoa, e eu, agarrada a uma tradução que prometi a alguém, fui deixando escorrer os dias a pensar em coisas que nunca tinham entrado na intimidade das minhas ocupações e que, por isso mesmo, chegaram a alienar-me completamente, pela novidade, pela variedade, e pela alteridade...Numa espécie de assombrações do meu mundo a fazer-se presente, surgiam-me, pelas tardes ,Camões a divertir-se em voltas de redondilha menor, D. Manuel deSousa Coutinho a pegar fogo à sua casa, e a Tlebes em toda a sua pujança a radicar-se por entre quase inofensivos grafitti, tão significantes quanto um código o pode ser.
E foi por entre tudo isto que tomei conhecimento daquilo que, de repelão, me fez pôr de novo os pés em terra.E não foi o renascer das quase-cinzas do acordo ortográfico luso-brasileiro...Foi algo que tem a ver com a Língua,sim senhor, a Língua que o Poeta dizia ser a nossa Pátria. Ergue-se BOLONHA,quando muitos de nós andávamos distraídos, e agora os alunos entram nos Mestrados e eis que as aulas são dadas em INGLÊS! E os testes são escritos em inglês. Os comentários preocupadíssimos que tenho ouvido de alunos,por exemplo, de Economia !!! Quase todos sabem algum inglês mas não têm desembaraço naquela área de vocabulário e muito menos escrito... Bem!...Como foi que tudo isto e muito mais foi acontecendo ?
Creio que nunca me pareceu tão bemvindo o DIA da RESTAURAÇÃO da INDEPENDÊNCIA,um 1º de Dezembro cinzento e meio envergonhado,com as pessoas do costume a fazerem e dizerem as coisas do costume, mas comigo a ver as coisas já não com os meus olhos do costume...