31 agosto 2011

...túnica flutuante de sombras

O MEDO, QUANDO NOS EMPECE, VEM DE LONGE, TRAZ UMA POEIRA DA VIA LÁCTEA,NA TÚNICA FLUTUANTE DE SOMBRAS... - Teixeira de Pascoais.

29 agosto 2011

um jogo?

Não gosto de AGOSTO. Ainda bem que estamos a vermo-nos livres dele pelo menos por um ano.
Para mim não é um mês A gosto. Quando ele se aproxima, já há na minha alma umANTEgosto de coisas que me não são agradáveis. E se me falarem na 5ª feira proxima,verão abrir-se na minha face os risonhos sinais do Após AGOSTO que perdurarão Até Agosto do ano que vem. Com gosto receberei todas as maldades meteorológicas que os outros meses me impuserem, mas sempre foi e há-de ser a Contragosto que receberei este mês petulante e impositivo que, além de nos obrigar a deixar a nossa casa, a nossa cama e o bem-bom que nos conforta, nos dá De(s)gosto(s) de ordem estética ( oh! as gorduras e as magrezas!), de ordem gastronómica( os petiscos e as enterites!), e até intelectuais ( as presunções das leituras !)...Desde agostos,EM gosto eEntregostos vários, Paragostos muito meus reservados ePerantagostos que às vezes até tiveram do bom e do melhor, Semagosto dessorado ou mesmo azedo, Sobragostos me tentei tanta vez encontrar Sobagosto, Trásagostos, que outros fizeram para mim...!
...e dizia um meu aluno, há anos, que "isto das preposições" só se "aproveitavam" duas ou três !

24 agosto 2011

O diabo à solta ?



Aprendi com a gente do mar da praia da minha juventude que, sendo habitualmente este dia exageradamente ventoso, isto era porque em DIA de SÃO BARTOLOMEU anda o diabo á solta. E hoje é dia de São Bartolomeu. Porém, pelo menos em Lisboa, não há o mínimo vento. Apetece-nos pois pensar nesta relação diabo - SãoBartolomeu, e pôr "preto no branco" o que sabemos ou julgamos que sabemos sobre esta estranha associação.
Na História de França, esta relação é um dos seus capítulos negros, uma vez que foi neste dia a grande matança de São Bartolomeu ou matança dos huguenotes.Nada mais, nada menos do que o resultado de pequenas e incessantes desavenças de origem religiosa mas em que nunca deixaram de estar interligados os imensos casos de intriga política que tiveram na sua génese uma Catarina de Médicis, raínha fria e calculista, mãe de dez filhos, principes fracos na saúde e na governação, que se foram sucedendo criados no ódio de sua vigorosa MÃE aos protestantes ( era a plena REFORMA, com Calvino, iniciada por Lutero na Alemanha) . Com o conseguido consentimento do filho Carlos IX, foi dada ordem para um dos mais espantosos e cruéis massacres de toda a História na noite de São Bartolomeu, com vista a exterminar os protestantes franceses. A uma selvajaria destas só podia seguir-se uma série de guerras civis e tanta crueldade marcou fundo o coração do mundo de seiscentos. Daí nasceria a ideia do tal diabo à solta que chega ainda até nós ?
Refrescante é a verdadeira campanha que BentoXVI vem desenvolvendo ( lembro o en contro de Madrid, agora mesmo ) em prol da convivência, da generosa e alegre procura do que pode unir a humanidade e torná-la capaz e digna de olhar o outro se não com complacência, pelo menos com respeito e aceitação...

20 agosto 2011

As mudanças e o verão

Parece que se nos foi embora o verão azul, brilhante e soalheiro com que todos sonham, porque, rodando o vento a sudeste, se atiraram sobre a nossa abóboda ,aos montões, rolos de vários tons e espessuras de cinzento e ,tropeçando uns nos outros ,fizeram uma barulheira infernal, antes de,aqui e além, se desmoronarem em chuva grossa, granizada mesmo em alguns lugares. Mas não! Sem marcar a posição hierárquica que lhe é devida, o verão não saía assim, só por umas mudanças de aragens a cheirar a desertos e a orientes... Ele resolveu que agora sim, agora é que era de afogar-nos no tal calor que é tão seu e este ano parecia não haver de vir ! E cá estamos nós, bichos da Terra tão pequenos, sujeitos aos caprichos dos deuses meteorológicos que andam completamente desatinados com as escandalosas sacudidelas a que estão sujeitos eles também pelas intromissões da ciência e das tecnologias todas novas. Mas não dizia já Camões lá da sua cátedra em grande parte empírica que todo o mundo é composto de mudança ?
Bem sei, bem sei que ele tinha aí na sua cabeça outra espécie de mudança. E nós, não temos também a esquentar-nos o verão e sabe-se lá quantas mais estações, motivos da ordem semelhante ou pior àqueles de que Camões dizia que se "perde a confiança"? O verão meteorológico dos portugueses foi realmente para a gente da sociedade comum composto de mudanças,de várias ordens de influências e alguns houve para os quais a mudamça de vida foi real. Lembro ás vezes o Sermão de Padre António Vieira em que ele constatava as mudanças acontecidas no modo de vida da sociedade portuguesa que se instalara no Brasil e naquele seu jeito adagiário de dizer lembrava quem quer mais do que lhe convém. perde o que quer e o que tem, e então eu pergunto a mim mesma se a ganância economicista que tem estado na base deste nosso verão( e não só) terá alguma vez um bom retorno, depois de ter causado tanto mal...

14 agosto 2011

A Cananeia

Hoje, domingo, Evangelho de São Mateus : a mulher cananeia. Ela suplica, gritando a sua aflição e persegue o grupo que rodeia Jesus, sem parar de implorar.Mas Jesus não acha que deva valer-lhe, ouvi-la, sequer... Não é da sua gente, daquele povo que Ele tem por missão salvar. Foi precisa a intervenção dos discípulos para que Jesus acedesse a ouvi-la. E depois acontece aquele diálogo em que mais uma vez a dureza de Jesus nos é mostrada nos evangelhos. Aquela mulher é comparada a um cão ! ! ! Como é possível aceitarmos esta metáfora ?! Quero crer que o evangelista procura de uma forma violenta fazer-nos ver não só o «a tua fé te salvou», como quão grande pode ser o poder da oração. Temos variadíssimos episódios deste género ao longo de todos os evangelhos e como também aprendemos que o cristão não faz "opção de pessoas" e Jesus não a faria, ficamos hoje, uma vez mais, com a convicção de que vale a pena gritar como "o cego à beira da estrada", implorar como a "cananeia", mesmo que as conveniências circundantes nos mandem calar, porque será pela nossa fé que certamente seremos atendidos.

12 agosto 2011

Regresso



Tempo para partir e tempo para regressar...Parafraseando quem, dos tempos de que dispomos, reuniu pontos e contrapontos, qual metrónomo a marcar os compassos desta sinfonia das nossas vidas, o meu tempo de regressar foi este agora.E sempre regresso com prazer, com tal prazer ,que chego a perguntar-me se terá valido a pena partir...
Claro que sim, que ideia !!! Estou a adivinhar o coro dos meus amigos que sempre me acham exageradamente claustromaníaca. Pois ! Estive nada menos do que 18 dias rodeada de "multidões" de seres que desdobraram à minha frente a mais variada e desconcertante panorâmica humana que eu nunca tinha pensado vir a poder observar, em tão curtos espaços de tempo e de localização. Hospedada onde desde há muitos anos sou confortavelmente recebida em épocas de procura de descanso mais espiritual que físico , percebi agora, passado algum tempo de não frequência, que as potentes agências de viagem deste mundo global que habitamos devem ter descoberto aquele ideal centro de repouso , ou não fosse ele obra final apuradíssima de religiosas atentas e delicadíssimas, e então trazem para ali dezenas, centenas de gentes do mundo, desde o Japão ao Brasil, Colômbia e México, passando pelas Ilhas Maurícias, as da Reunião e Canárias e escoando-se pela Galiza, a deslisar em todo oPortugal nortenho, transmontano ou beirão. Como vêm e permanecem alguns dias, são na sua maioria jovens e alegres e acima de tudo se mostram felizes, facilmente se estabelecem contactos atrás de trocas de sorrisos, nas várias salas de encontros, e de cerimoniosas mesuras da parte dos japoneses que sempre as fazem às pessoas mais velhas, mesmo num rápido cruzamento de corredor. Foi pois um mundo repleto de informações aquilo em que se transformaram o que eu esperava serem as minhas calmas e piedosas férias, e isso fez-me regressar desejando agora poder parar para pôr tudo isto em ordem no meu arquivo de memórias .E que bom vir reencontrar a minha paz tendo agora como acessório o tranquilizante pousar do olhar no sono de total relaxamento do meu gato que, desde que regressei ,não me deixa sózinha nem por um momento!

28 julho 2011

As férias por aí...

E então, pronto , estamos em férias ! Porque falo no plural ? É que isto de férias ( feria romana, feira medieval ) adquiriu um tal valor social, um tal valor simbólico, um tal chic, que é mesmo quase uma camuflagem falar-se em merecido descanso,quando ele só o é para uma mínima parcela daqueles que realmente se dão ao luxo de as desfrutarem...E então, como expressão social que as férias são ( especialmente estas de verão ), mal ficaria que não fosse todo o agregado familiar mostrar-se«ó pra nós em férias», parafraseando aquele cómico que tão bem apanha os ridículos todos de todos... Pois no meu micro-agregado familiar até o gato foi de férias e não foi lá qualquer Punta Cana ou Ibiza, não senhor, que o acolheu.Posso dizer que voou mais alto e foi-lhe dado abeirar-se das mais altas figuras da governação , enquanto que a sua humilde dona teve que contentar-se com modestos ambientes de meditação espiritual, longe das tentações de patuscadas ou compras...Assim vai o mundo, esta feira de vaidades que até ,daquilo que pode ser um são retempero de forças ou ânimos exaustos ,faz uma exposição de exibicionismos que,na dura época em que vivemos, não abona muito quem se exibe...

20 julho 2011

Hoje e a Lua



Quem dos meus amigos pensou em mim hoje,DIA DO AMIGO ?
Em 1969, num 20 de Julho assim, foi a minha maior madrugada, como nunca fizera alguma, nem voltei mais a fazer... Apenas e só para ter aquela emoção, às lágrimas ( acredite quem ler) de ver a espantosa primeira pégada, e a segunda, e a terceira, e por aí fora... ...do ser humano na LUA !Todos vestidos de branco, a saltitarem , leves de Gravidade, e auréolados por uma poeirinha branca ou muito clara, aqueles homens poderiam ser os anjos da nossa modernidade, dos sonhos da nossa universalidade, das imaginadas hipóteses de uma aproximação ao Deus da nossa fé... Tão lindo ! ! ! Mais tarde, como sempre acontece, sei-o agora, desmoronam-se os sonhos, ou melhor, as hipóteses dos sonhos... Alguém se lembrou, talvez para que se não perca tudo, de marcar este dia duma certa cor de humanidade e assim se criou o DIA DO AMIGO. Sabiam ?
É HOJE !

10 julho 2011

LIXO

Tenho um velho vício e dele não me envergonho! Quem, dos meus amigos, sabe da sua existência chama-lhe "chucha para os ouvidos"...Como já se percebeu, durmo com uma pequena telefonia sempre ligada, junto à almofada de cabeceira. Por isso, oiço coisas interessantíssimas a qualquer hora da noite e acordo de manhã a ouvir as vozes habituais e as músicas habituais, antes ou depois ou de mistura com notícias fresquinhas, conselhos de bem-viver, coisas da minha fé e religião e meteorologia para utilizar no dia que começa. Eu disse oiço mas às vezes já apenas adivinho pelos sons iniciais aquela música que fica a repercutir-se na minha cadeça e muitas vezes a dar-me uma espécie de incentivo para o dia, muito conforme as coordenadas do meu acordar... Hoje lá apareceu pela enésima vez o Louis Armstrong com o maravilhoso What a beautiful world... Estava ainda um lusco-fusco muito das minhas deshoras matinais e eu fui até à janela que a essas horas tem o concerto privado de uma boa dezena de melros irrequietos por entre a ramaria do álamo que ali vive comigo há cerca de cinquenta anos... What a beautiful world ! ! ! Porque seria que, quando voltei para a cama ,estava irritada, e a congeminar mil maneiras de obrigar certas pessoas a explicarem-se sobre a irresponsabilidade de colocarem no LIXO deles, feito das mais repugnantes imundicies materiais, o nome de um pequeno país onde na Grande Cidade ainda cantam pássaros e se pode ouvir o Armstrong achando que ele tem razão ?
What a beautiful Portugal ! ! !

03 julho 2011

Fim de festas

Há uma cantiguinha muito popular SANTO ANTÓNIO já se acabou/ e o SÃO PEDRO vai-se acabar/ SÃO JOÃO,SÃO JOÃO, SÃOJOÃO, dá cá um balão para eu brincar...E assim a cantar ou a acompanhar em pensamento os que cantavam lá atravessámos aquela maré cheia de festividades de todo o país, pois nem o respeitabilíssimo São Pedro, quase sempre acompanhado do seu incansável amigo São Paulo, deixa de ser festejado, com menores exuberâncias é certo, mas em demonstrações de devoção igualmente populares. Agora que se acabaram as festas, reencontramo-nos todos de novo mais ou menos cabisbaixos a ser levados pelas exigências pagãs de incensar aquela que se arvorou na nossa deusa universal, a ECONOMIA !
Quem diria que nós, o povo português, crente e devoto aDeus, ao Deus das nossas origens e tradições, iria um dia afligir-se tanto por uma questão que ele nunca se havia lembrado de considerar primordial para a sua vida ?
Imersa então nestes pensamentos e seus correlativos inevitáveis, encontrei-me hoje no Evangelho de São Mateus ( 11, 25-30) com esta frase de Jesus «vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, que eu, que sou manso e humilde de coração, vos aliviarei»

Já esta frase me estava a "convidar" quando o celebrante da missa entra na sua homilía e ás tantas nos diz mais ou menos isto : Todos nós, quando chegamos a um ponto de extremo cansaço, desgosto ou aflição ,temos tendência ou para procurar um divertimento, uma distração,ou um repouso físico e a verdade é que aquilo que deu origem ao nosso mal-estar acaba por sempre ficar ,embora abafado,soterrado, e, na primeira oportunidade, volta a "atacar".Quantos de nós, no entanto, não sentimos um enorme alívio quando desabafamos com um amigo que nos ouve com atenção e carinho ?Não é uma sensação repousante e às vezes até proporcionadora do encontro de uma solução ? É nisto que devemos pensar ao ler esta frase de Jesus que aqui se nos oferece como o melhor dos amigos .Foi mesmo o que guardei para mim no dia de hoje.E o que ponho em prática e sei de como é absolutamente verdadeiro.Por isso aqui registo este "pormenor" deste meu dia, com um enorme desejo de que haja quem me leia e siga este conselho.Agora, que há tanta aflição por aí...


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25 junho 2011

Serão na noite de São João

Na passada segunda-feira respirei, ao serão, finalmente, o ar livre daquelas inquietações que nunca consigo deixar de sentir quando os meus meninos vão fazer os seus exames finais. Agora os exames estão feitos e eu ...em férias. Tive este ano pela primeira vez na minha história de professora uma aluna classificada com 20 valores na minha Literatura ! Isto não é vulgar e merece ser explicado. Ela foi,desde sempre, uma aluna brilhante do Colégio Alemão. Nunca precisou de explicações, mas estudou segundo os programas daquele Colégio que, segundo agora soube, não integram Literatura portuguesa. Mas, ao chegarem ao final dos finais, têm que fazer uma prova ORAL dessa matéria, o que no meu entendimento será como uma conexão ao país onde o curso foi desenvolvido. E assim ela veio pedir-me a ajuda necessária para, nesse finalizar de um brilhante percurso, não fazer má figura. Trabalhámos muito,sendo ela realmente alguém com quem dá prazer trabalhar, pela aplicação, pelo afinco, pelo discernimento, pela curiosidade, pelo interesse...Enfim, os JURADOS entenderam dar-lhe 20 valores e eu sei bem que ela os mereceu. Em final de história, vale a pena notar que o Colégio a classificou depois no total do 12º ano também com vinte valores e ainda lhe ofereceu como prémio uma bolsa de estudo que a vai levar agora por um ano para a Alemanha.

E todo este registo aqui surgiu quando eu me abeirei deste teclado na disposição única de falar de São João, por ter visto no principio do meu serão uns delirantes festejos em honra do santo, transmitidos do Porto pela televisão. Como é realmente verdade que a escrita toma conta de nõs e nos dá o rumo, quando menos esperamos ! Mas assalta-me uma espécie de "vergonha" por me ter acontecido tal coisa logo com São João que gritava no deserto que deviamos abandonar as nossas fraquezas, concentrar-nos na certeza de que Deus estava a chegar,sendo humildes e devotos... Vejo-o um quase gigante, imbuído daquilo que profetizava e realmente tão pouco ouvido então . Como agora em tais festanças ! Que derivas se têm dado nas nossas cabeças para não pensarmos nos gafanhotos que ele comia no deserto, quando abancamos a beber vinho e a comer sardinhas em sua honra ?

19 junho 2011

CASAMENTO

Naqueles dias Moisés levantou-se muito cedo e, conforme o Senhor lhe ordenara, subiu ao monte SINAI levando nas mãos duas placas de pedra...( Livro do Êxodo) Estou a ver-me, amiga das madrugadas cedinho, sem barulhos e ainda pardacentas, subrepticiamente a esgueirar-me atrás de Moisés,«o que iria ele fazer ?» e depois aquela nuvem, aquela conversa... Estou a ver-me,... Quem dera ! Subi sim já tão dentro da protecção da Santíssima Trindade, tão grata ao "meu" Espírito Santo, subi ontem a longa nave central do Mosteiro dos Jerónimos engalanada de flores brancas e frescas, e assisti, testemunhei, a união pelo casamento de dois jovens que do seu amor quiseram isso mesmo: que muitos amigos testemunhassem e com eles invocassem as bençãos da Santíssima Trindade para a sua vida a dois, a partir dali... Quão felizes todos ! Mães, Pais, Avós, Amigos... E a vaga dos cânticos soleníssimos a envolver-nos numa espécie de mágica que brotava das gargantas do Choir Voces Celestes transportava-nos por vezes aos tais altos montes - quem sabe? - dos que subia Moisés naquela mesma manhãsinha, ficando ao cuidado dos altos sacerdotes celebrantes o recordar-nos de quanto teremos que subir ainda e mesmo sempre...

13 junho 2011





Santo António de Lisboa
Era um grande pregador,
Mas é por ser SANTO ANTÓNIO
que as moças lhe têm amor.

De FERNANDO PESSOA



Imagem digitalizada retirada do Album comemorativo do 750º aniversário da morte do Santo,publicado em 1982.

12 junho 2011

Pentecostes

«Partos, Medos, Elamitas, habitantes da Mesopotâmia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto...»(Actos 2,1). A minha língua é a minha pátria...(FPessoa) O silêncio é de ouro mas a palavra é de prata - provérbio chinês.
Desde que o mundo é mundo, é oferecida ao Homem a espantosa capacidade de comunicar o que lhe vai na alma, desde os quatro cantos do mundo, em todas as latitudes, desçam-lhe ou não sobre a cabeça umas invisíveis línguas de fogo. O espírito de Deus pairava sobre as águas como nos lembramos, do Génesis, e depois tudo foi tomando forma de irmos sendo criaturas a sabermos coabitar... Pois no que diz respeito à mais completa capacidade de coabitação que é a expressão sonora do que em nós é imaterial, viu Deus que isso teria que ser uma vez mais obra do seu Espírito e o fez pairar sobre nossas cabeças com os atributos que a cada um ajudariam de forma adequada. Para mim tenho que não é só uma a descida do Espírito Santo para este fim e que vai havendo um Pentecostes para cada um de nós... Por isso é que procurei pôr os meus "talentos" a funcionar nesta área dos entendimentos com o meu semelhante...

10 junho 2011

10 de Junho

Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de PORTUGAL !...
Não, não vou por aí...

O PORTUGAL futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos `a raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e a avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas no relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

De RUY BELO - O Portugal futuro

08 junho 2011

Diário versus Blog ?

Foto retirada da Revista brasileira Manchete que publicou em vasta reportagem as primeiras eleições realizadas em Portugal depois do 25 de Abril, para a eleição da Assembleia Constituinte, em Maio de 1975.



Quando era rapariga, daquela idade em que certos romances e filmes mostram ou deixam supôr meninas sentadas, provavelmente a horas certas de cada dia, a escrever «meu querido diário...», eu tive sempre a desconfiança de que esses pontos de partida ou mananciais de "emocionantes acontecimentos", correspondessem a uma qualquer realidade. É verdade que uma adolescente tem naturalmente uma intensa chama deVida sempre a crepitar dentro de si, ateada pelas novidades, as surpresas, os sonhos e as respectivas decepções ou materializações, e quantas vezes tudo isto é caldeado em descobertas inconfessáveis a exigirem um ou uma confidente... sendo então o«meu querido diário...»o único possível. Mas não é menos verdade que o tempo, o recato, a tranquilidade, que certamente eram o que eram, na vida de uma menina dos séculos das minhas avós e dos romancistas em que estou a pensar, não foram mais da mesma forma desde o alvorecer do século XX. Eu desconfiava, como disse, porque, na minha organizção de vida, nunca me vi com espaço (tempo?) para me dedicar a esse exercício sentimento-mental-digestivo-depurativo. Talvez por causa disso virei, nesta idade terceira, em sõfrega degustadora dos silêncios e dos papéis...
Quando, eis senão quando, explode, na minha própria casa, mesmo na minha mesa de trabalho,esta coisa espantosa e absorvente chamada COMPUTADOR ! Com todo o seu séquito de coisas novas com nomes novos, com uma cartilha nova, até com uma ética nova...
Curiosamente,começamos com ele e relativamente à função social do Diário que era intimista e secreto, a inverter todo esse tipo de qualidades, pois o computador como que nos atira para o meio da multidão e o que nele escrevermos pode chegar a todo o Mundo.Mas há a enorme sedução de que, por ele, todo o Mundo passou a poder entrar na nossa intimidade e por ele podemos saber muito mais de tudo, de tudo mesmo, e então ganhamos a apetência de crescer, de ir tão longe quanto possível, de correr atrás do possível leitor, porque começamos a perceber, por comparação, quanto temos para dizer, pessoas do Mundo, já não só eu, esta aqui, no cantinho destas coordenadas...
E falo de mim ou do meu país ou do meu Deus. Falo sim. E às vezes é mesmo um Diário Que eu sei estar a ser lido algures onde eu-pessoa nunca chegarei...
Aquele lindo casamento de amigos ,numa igreja de fulgurante Barroco,a abrir-se, numa tarde doirada, sobre uma panorãmica Lisboa a escorrer para o Tejo, quem iria falar dele senão eu que era certamente a pessoa com menos tarefas a cumprir naquelas ocasiões? E há uma tia no Brasil e um irmão na Polónia que vão poder ler isto que fala dos seus, tão longe !
Haverá muitas vezes um ecoar distante de coisas repetidas, como por exemplo o que se pode dizer de umas renhidas eleições que fazem mudar completamente o cariz das regras que nos vão conduzir e que tão gravosas se nos apresentam, desde o último domingo em que fomos todos marcar com um pequeno signo aquilo que gostaríamos talvez de não ter que marcar.Se faço esta observação é apenas porque o ter que nos dá uma marca de obrigação a que ,tantos anos passados sobre as primeiras eleições por mim vividas quase em festa, não desejaría ninguém ver-se compelido .
Isto tudo faz parte desta nova maneira de ter um «meu querido diário...» Só que estamos no Mundo e é século XXI ... Alguém reconheceria na foto de 1975 (cabelos tornados pretos pela idade do papel da Revista recortada) a cabeça que, desde então, continua sonhando sonhos do tempo dessa iniciação cívico-política, se não existisse este moderno repositório de memórias?

05 junho 2011

Ascenção

... elevou-se à vista deles e uma nuvem escondeu-O a seus olhos.( Actos dos Apóstolos)
Tão simples quanto isto !
E cá ficámos nós a imaginar pela enésima vez a situação. o acontecimento, tentando sem sucesso entender, porque não é alcançável pelo nosso entendimento, pelo menos enquanto estivermos aqui, fora da tal nuvem ...
Dos mistérios da minha religião, este é um dos mais belos, o mais artisticamente depurado, o mais suave, o que nos abre caminhos para Cima, para uma outra Luz.. Talvez o que torna mais autêntico tudo o que quer dizer a palavra ESPERANÇA...
(excerto do meu livro como não tendes Fé?)

03 junho 2011

ONTEM

Foi ontem o Dia da Espiga. Da alegria pagã sobre a fertilidade dos campos até à colagem cristã pela alegria com a maturação da crença na presença de Deus entre os homens, na pessoa de Jesus, porque neste dia os discípulos bem O viram elevar-se e desaparecer no céu, como fruto já suficientemente amadurecido neste território, destas alegrias se gerou a alegria da ASCENÇÃO. O povo entronizou a espiga como simbolo da sua sustentação em pão, mas não deixou de reconhecer em cada oferta da Terra, mesmo nas mais humildes florinhas, um valor simbólico desta alegria de estar vivo, sendo povo desse Deus que com ele até conviveu...
E assim na 5ª feira da Ascenção ia-se dantes colher no campo o raminho de símbolos coloridos e alegres; e como predominavam as espigas, aí nasceu o nome comum dado a este dia.
Se se chegaria a estas colheitas com grandes canseiras,( hoje, nas cidades, compra-se tudo já pronto), se era com sacrificio físico que se encontrava cada símbolo, não sei de história que o conte e não o sei de experiência. Mas não sei e não soube responder a alguém que me perguntou« porque é que "espiga" é sinónimo de coisa enfadonha ou difícil de suportar ?»
Não encontrei documentação que explique esta deriva semântica, mas vou continuar procurando e também deduzindo... Por agora, mantendo a tradição tenho na minha frente o colorido raminho.Também simbolicamente desejo para o povo de Deus, nesta situação tão preocupante deste ano, a verdadeira, sólida, espiga que aqui deixo...

02 junho 2011

2-6-1947



Era ! Era de açucenas brancas o meu ramo de casar. Dezenas delas.

Recordo os riscos amarelos que os seus estames traçavam nas roupas de quem quer que viesse abraçar-me... E um perfumesinho irrepetível...

Ficaram lá, aos pés da imagem de Nossa Senhora. Uma fé, uma acção de graças, uma promessa,tantas esperanças !

Ficaram.

Foi há 64 anos .

28 maio 2011

Que bonito!

Às vezes tenho saudades daquele tempo em que ainda não me tinham ensinado a razão das coisas em si mesmas e a razão pela qual elas vinham até mim daquela forma e não de outra.
Saudades de ser criança, será? De gostar de uma musiquinha e cantá-la (que eu sempre fui muito afinada,diziam-me), de ouvir uma jovem tia dizer versos e chorar se a toada era triste, de ter medo do mar e correr para ele mal chegava à praia, de achar linda a minha professora, e... e...e até começar a ler romances e chorar ás escondidas com as infelicidades das heroínas...
Tudo perdeu esse encanto à medida que estudei e me ensinaram a LER, a ouvir música e a OLHAR para a Natureza, para os Pintores, para os Poetas. Coube-me depois ter de ensinar e jurei a mim mesma não roubar a ninguém aquela inicial pureza de "gostar porque sim" ou "não gostar porque não", antes de escolas, regras, leis...( ou até pretensiosismos de moda) . Ser-se corpo com a emoção é bom Deixemos lá os filósofos e os mestres, e os" que até sabem falar inglês", e os campeões da erudição... Pega-se num jornal e bum!

LÍRIOS

um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada

outras mãos que não as minhas haverá para o recolher

outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar depois a ausência.

Depois nem isso.

Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos

como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos.Esse dia virá.

Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento.

Ou quase assim.


Dispo agora toda esta roupa e escrevo

sem frio nem perda nem desastre.

A partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

lírios crescem no acaso vivo da relva

uma leve poeira se acrescenta ao ar que não respiro.


Chama-se Rosa Maria Martelo e eu não a conhecia!