Tempo de férias, além de dar umas boas oportunidades a uma certa preguiça, dá espaços alargados para conversas inesperadas com pessoas que, noutra época, vemos pouco. E não é que nos sabem tão bem estes reencontros ? Fala-se de coisas novas e diferentes às quais não nos permitimos aceder quando andamos "programados" para o mais urgente dos nossos trabalhos...
Aconteceu-me agora, ao recordar com uma amiga da minha geração as nossas respectivas professoras e escolas que se chamavam primárias nessa época, relembrarmos como era prática habitual termos que debitar em determinadas aulas, poemas de autores consagrados ao tempo, os quais decorámos tão eficazmente que ainda agora, nestas nossa idades, os conseguimos declamar com muito poucas omissões. De recordação em recordação, fizemos reviver não só A BALADA da NEVE, mas também O PASSEIO de SANTO ANTÓNIO e o extraordinário NOIVADO do SEPULCRO . Mas as nossas memórias perderam-se com ...minha velha ama que me estás escutando canta-me cantigas para me embalar e também com o Amo-te ó cruz no vértice firmada de esplêndidas igrejas e ainda aquela dolorosa Venda dos Bois-:com que então você quer livrar o seu rapaz? e descascava um fruto... Perdemos autores( do que muito me envergonho, devo dizê-lo ) mas não imaginávamos sequer o enorme prazer que nos trouxe aquilo de que nos fomos lembrando ! Até nos vieram à memória alguns fragmentos de músicas com que alguns destes poemas foram mesmo musicados. Usou-se durante muito tempo cantar os bons poetas ao piano, em serões familiares, e aí também as meninas da família recitavam... Constatamos a "espessura", o "peso" dos temas ultra-românticos postos sem nenhum problema na boca das crianças que fomos , e comparamo-los com as infantilidades que se proporcionam às gerações de hoje , mesmo muito para a frente daquilo a que até se deixou de chamar primária.Afinal, tempo de férias pode ser por muitas vias tempo de revisões, de interrogações, de opções e também de decisões...
31 julho 2008
20 julho 2008
Ser REFORMADO, hoje
Quando, em 93, pedi a minha passagem à situação de reformada, embora não tivesse ainda cumprido todo o tempo que institucionalmente era considerado tempo exigível a qualquer funcionário público, nunca se equacionou nos meus planos de vida e nos daqueles que então apoiaram a minha decisão que, anos mais tarde, a existência desta categoria de pessoas pudesse vir a transformar-se num dos maiores,se não o maior problema dentro da situação económica do país. Creio que se esperava que, muito naturalmente, os que se reformavam fossem ordeiramente morrendo para permitirem "espaço" para outros que iam chegando... Creio também que nunca se pensou que o número dos que iam trabalhando não iria crescer na proporção suficiente para garantir o fundo financeiro necessário para assegurar a manutenção económica daquele grupo de pessoas que teimava em não morrer... E assim, enquanto eu e os meus complicativos processos osteoporóticos vivemos alguns anos numa beatífica paz de consciência, sem uma única sombra a perturbar as minhas mais ou menos regulares confissões quaresmais, e enquanto até me sentia um pouco orgulhosa por ter conseguido aprender a governar um bem apertado orçamento mensal e uma certa descida no padrão de vida, enquanto isto, repito, vejo-me de repente transformada na pior das oportunistas, a viver à custa de tanta gente sacrificada, ralada, persistindo em estar aqui, em estar sempre mais carente de cuidados e não produzindo senão mais um algarismo para as estatísticas mal agoiradas do senhor Ministro... Não se pode dizer que seja esta uma forma de viver, já não digo feliz, mas pelo menos desassombrada ! É que não é só a má consciência : há também aquela sombra permanente de uma "espada de Damócles" sobre a minha cabeça...
E como apetece começar a alardear o trabalho que se "deu" !
Mas, não entrando por aí, acontece que, tendo recebido agora de presente um pequeno livrinho de poemas do autor japonês Issa Kobayashi , constituido por um género tradicional do Japão de pequenos tercetos com apenas cinco e sete sílabas,sem rima (haikus), onde um poeta já idoso se não envergonha da sua velhice encantada com a Vida, eu recordei todas aquelas homenagens que me prestaram e são tão habituais a quem "parte" para a Reforma : os jantares, as flores, a placa de prata gravada a elogios, os presentes com assinaturas de toda a gente, directores incluidos, mas com discursos... E, no meu encantamento pelos poetas orientais, o meu próprio discurso foi a leitura de uma adaptação feita por António Cardoso Pinto sobre um poema chinês:
Porque é preciso partir,
a cada momento.Sempre.
Para qualquer lado.
Ir ! Um gesto, um olhar...
Viajantes somos, das coisas,
dos sonhos,
das estrelas,
do tempo !
Ícaros que ensaiam o voo inverso,
agitando a golpes de asas
as paisagens interiores
do nosso imenso universo...
Avalon, Xangri-la,ou Ilha dos Amores,
Viajantes sempre,
e de uma História sem limite
que continuará...
De 93 para cá, eu creio que este vai continuando a ser o meu discurso... Apesar de tudo...
E como apetece começar a alardear o trabalho que se "deu" !
Mas, não entrando por aí, acontece que, tendo recebido agora de presente um pequeno livrinho de poemas do autor japonês Issa Kobayashi , constituido por um género tradicional do Japão de pequenos tercetos com apenas cinco e sete sílabas,sem rima (haikus), onde um poeta já idoso se não envergonha da sua velhice encantada com a Vida, eu recordei todas aquelas homenagens que me prestaram e são tão habituais a quem "parte" para a Reforma : os jantares, as flores, a placa de prata gravada a elogios, os presentes com assinaturas de toda a gente, directores incluidos, mas com discursos... E, no meu encantamento pelos poetas orientais, o meu próprio discurso foi a leitura de uma adaptação feita por António Cardoso Pinto sobre um poema chinês:
Porque é preciso partir,
a cada momento.Sempre.
Para qualquer lado.
Ir ! Um gesto, um olhar...
Viajantes somos, das coisas,
dos sonhos,
das estrelas,
do tempo !
Ícaros que ensaiam o voo inverso,
agitando a golpes de asas
as paisagens interiores
do nosso imenso universo...
Avalon, Xangri-la,ou Ilha dos Amores,
Viajantes sempre,
e de uma História sem limite
que continuará...
De 93 para cá, eu creio que este vai continuando a ser o meu discurso... Apesar de tudo...
13 julho 2008
QUEM TEM OUVIDOS PARA OUVIR...
Estamos em meio do mês de Julho, acabaram-se aulas e exames, as inscrições nas Universidades já passaram aquela fase tormentosa e, sendo assim, muitas famílias puderam ir para férias ,uma vez que os mais velhos haviam preparado os planos de férias nos seus trabalhos de maneira a que coincidissem as liberdades de todos para, juntos, poderem sair, viajar, mudar de clima.
Quando eu fui estudante e ainda não existia a paixão ( e a possibilidade ) das viagens, todos iam para a praia e muito poucos, primeiro para a praia e a seguir para o campo, como diziam os médicos que era perfeito para a saúde. Agora a praia frequenta-se durante quase todo o ano e não admira pois que, nesta altura, configure o escape mais fácil e rápido de obter, ainda que mais lá para a frente possam surgir outras saídas mais sofisticadas... Este é então o fim de semana em que os areais portugueses vão regurgitar... Pela moda, pelo bronze...pela urgência !
Não será não aquela sedução do grande espaço aberto e estranhamente silencioso dos azuis que se confundem na distância e nos levam a sonhar com o infinito.
Curiosamente,São Mateus diz-nos no Evangelho de hoje que Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira-mar. E também uma enorme multidão o rodeou... Sabemos como Jesus sempre procurava zonas solitárias e silenciosas para meditar e estar com Deus, por isso podemos imaginar o que ele desejava, quando se foi sentar á beira-mar... No entanto, os seus pensamentos não deixaram que perdesse esta oportunidade de comunicar, tal era a apetência que via no auditório e provavelmente de tal forma era propícia a beira-mar... E assim, subiu para um barco ali varado, dando-lhe a dignidade do melhor púlpito, e começou a dizer... Como sempre a sua palavra ia direita a uma audiência ávida e seca de expectativas, e era doce e misterioso o que dizia... Foi pois ali, junto do imenso e misterioso mar que disse, não só àquela multidão, mas a todos nós: QUEM TEM OUVIDOS PARA OUVIR, QUE OIÇA !... ...
Quando eu fui estudante e ainda não existia a paixão ( e a possibilidade ) das viagens, todos iam para a praia e muito poucos, primeiro para a praia e a seguir para o campo, como diziam os médicos que era perfeito para a saúde. Agora a praia frequenta-se durante quase todo o ano e não admira pois que, nesta altura, configure o escape mais fácil e rápido de obter, ainda que mais lá para a frente possam surgir outras saídas mais sofisticadas... Este é então o fim de semana em que os areais portugueses vão regurgitar... Pela moda, pelo bronze...pela urgência !
Não será não aquela sedução do grande espaço aberto e estranhamente silencioso dos azuis que se confundem na distância e nos levam a sonhar com o infinito.
Curiosamente,São Mateus diz-nos no Evangelho de hoje que Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira-mar. E também uma enorme multidão o rodeou... Sabemos como Jesus sempre procurava zonas solitárias e silenciosas para meditar e estar com Deus, por isso podemos imaginar o que ele desejava, quando se foi sentar á beira-mar... No entanto, os seus pensamentos não deixaram que perdesse esta oportunidade de comunicar, tal era a apetência que via no auditório e provavelmente de tal forma era propícia a beira-mar... E assim, subiu para um barco ali varado, dando-lhe a dignidade do melhor púlpito, e começou a dizer... Como sempre a sua palavra ia direita a uma audiência ávida e seca de expectativas, e era doce e misterioso o que dizia... Foi pois ali, junto do imenso e misterioso mar que disse, não só àquela multidão, mas a todos nós: QUEM TEM OUVIDOS PARA OUVIR, QUE OIÇA !... ...
08 julho 2008
A Cidade e os Vizinhos
As primeiras notícias que ouvi, consciente, já totalmente fora daquele limbo dos momentos iniciais de cada acordar, foram as de que um devastador incêndio estava ainda a acabar de devorar dois prédios na Avenida da Liberdade, mesmo ali já perto dos Restauradores. Um deles há anos devoluto. Oco. Tanto quanto me lembro, sem grandes sinais exteriores de deterioração, como tantos outros cuja aparência nos confrange, espalhados um pouco por quase todos os bairros mais antigos de Lisboa. E assim foi que todo aquele caudal habitual debitado por todos os fazedores de notícias da manhã de ontem, mesmo não havendo felizmente vítimas ,veio até nós impregnado dos medos, das extrapolações, dos " choradinhos", dos "o que é que sentiu quando..." a que já vamos estando habituados, o que é pena, porque acaba por já quase nos imunizar contra coisas que, na sua genuina tipicidade, são deveras dramáticas e merecedoras de uma nossa muito maior atenção. E até de desgosto, pela verificação da nossa impotência enquanto cidadãos que, amando a nossa cidade, gostariamos de ver nela, sempre, a nossa bonita terra, mais bonita que qualquer outra, isto é, melhor para si e para os que a povoam, velhos, novos, pobres, menos pobres, solitários, filósofos ou poetas... Porque afinal é da sua gente que acaba por também resultar o cariz de uma cidade. Dos desgraçados que acabaram por escolher para morada uma bela casa abandonada que irá diluir-se em chamas ao surgimento da mais ou menos próxima fatalidade, a cidade não pode, não deve alhear-se, mas fica com eles mais triste, menos propícia a uma felicidade que todos merecemos... Por isso a desejava eu fora das parangonas destes noticiários e limpa e livre das ruinas mal disfarçadas, das catástrofes mais ou menos prováveis e das imprevidências mais ou menos impugnáveis...
No turbilhão de pensamentos como estes, em que a minha solidão me leva a desejar tanto sentir-me "parte" de algum "todo", volta a reformular-se-me o problema daqueles que, na nossa cidade, não sendo da nossa família, não sendo amigos de infância ou de desempenho profissional, não sendo nossos companheiros de estudos, são no entanto as pessoas que vivem mais perto de nós, que acompanham voluntária ou involuntariamente cada passo de cada dia das vidas que temos, que vão sabendo das nossas fraquezas e das nossas forças, que se apropriam com ou sem maldade, com ou sem solidariedade, de algumas preocupações e algumas alegrias nossas,que conhecem intimidades , desde hábitos de vida, manias ou manhas, até ao mais secreto das nossas saúdes... Os VIZINHOS... Vivo no mesmo prédio há cinquenta e sete anos. E,durante todo este tempo, só em dois dos andares houve mudança de habitantes. Sendo um prédio de apenas três andares, com direito e esquerdo, somos tão poucos que seria impossível vivermos paredes- meias durante tanto tempo sem que entre nós não tivesse crescido uma relação especial. Mas ( e para mim a pergunta é recorrente )que relação é essa ? Se me reportar a alguns conhecimentos históricos, recordo que nos primordios ainda de uma pré-civilização, o instinto de sobrevivência e de consequente defesa levou os primeiros grupos de seres humanos a juntarem-se, constituindo pequenas células que os sociólogos já consideram com muito interesse enquanto esboços de uma socialização mais ou menos tendente a consolidar-se. Com o progresso da HISTÓRIA assistimos ao nascimento de cidades, onde ,por exemplo, os Romanos já contavam com o aproveitamento do espírito gregário dos vizinhos para formarem as suas civitates. E daí ao aparecimento dos MUNICÍPIOS, nunca o elo de ligação entre vizinhos deixou de constituir uma força socializante. Portanto, não me parece descabido considerar a sério a relação de todos nós, moradores do mesmo prédio, como uma relação sui-generis mas efectiva, real. E nunca de pretender ignorar ou desvalorizar.
Quando existam trinta ou quarenta vizinhos dentro de um só prédio, como nos grandes imóveis destaLisboa séculos XX - XXI, para além de termos que contar com uma maior mobilidade deles ,inerente a muitos novos factores próprios da moderna vida social e económica, percebemos quanto seria difícil uma relação de proximidade entre tanta gente e como é até natural que muitos nem tenham oportunidades para conhecer-se. Aliás,persiste uma espécie de "regra de ouro ", que sempre foi respaldo de gente a viver em proximidade, e que já vigorava nos meus tempos de menina : não devemos intrometer-nos com vizinhos, nem tão pouco permitir que os vizinhos se intrometam connosco.Isto tão só porque pode haver perigos morais ou mesmo materiais numa relação de intimidade com alguém que só se conhece superficialmente. E não será pelo facto de ser vizinho que alguém de mau carácter irá modificar-se... Além de que a"imposição" de uma presença nunca será agradável e será de pequenos contactos atempados e oportunos que se irá tecendo uma boa relação de vizinhança. Mas, em nome de tal precaução ,será possível não se sentir algo de especial por aquelas pessoas que conhecemos jovens, que depois casaram e tiveram filhos, os quais cresceram sob os nossos olhos e vieram a casar também , pessoas que, mais tarde, começaram a ter doenças e vieram a perder maridos, filhos ou pais, e ficaram em solidão, envelheceram, precisando de amparo moral ou físico, mesmo quase debaixo do nosso tecto, só porque entre o nosso e o evoluir das suas vidas há um patamar ou um lanço de escadas ? Sei que sofreria de facto se alguma destas pessoas desaparecesse de ao pé de mim.E sofreria como? Como iria colocá-las dentro da relação daqueles que já perdi? Como simplesmente VIZINHOS !... Não se trata de um parentesco e nem sei se poderá ser sempre uma amizade.
A simples ideia de partilha em situações de mera conjuntura acabou por fazer nascer laços. Como na Pré-História ! ... Dir-me -ão que se tem visto "brotar" e desenvolver ódios ou desamores entre vizinhos quase sem razões .Mas isso mesmo é prova da especificidade deste tipo de relacionamento. Para mim, olhando os noticiários das tragédias urbanas que trazem para a rua , em noites e madrugadas de pavor, todos aqueles vizinhos sofridos, aterrados e irmanados no sofrimento do susto e do medo, fica-me sempre mais intensa a convicção de que é preciso para exprimir tudo isto criar mais do que a palavra que me faltava : vicinidade... um espírito, um sentimento novo, uma vivência à qual não podemos negar um importante lugar nas nossas vidas,Esta casa, este bairro, esta rua, esta CIDADE, teriam sido os mesmos para mim se não tivesse tido estes meus VIZINHOS ?...
No turbilhão de pensamentos como estes, em que a minha solidão me leva a desejar tanto sentir-me "parte" de algum "todo", volta a reformular-se-me o problema daqueles que, na nossa cidade, não sendo da nossa família, não sendo amigos de infância ou de desempenho profissional, não sendo nossos companheiros de estudos, são no entanto as pessoas que vivem mais perto de nós, que acompanham voluntária ou involuntariamente cada passo de cada dia das vidas que temos, que vão sabendo das nossas fraquezas e das nossas forças, que se apropriam com ou sem maldade, com ou sem solidariedade, de algumas preocupações e algumas alegrias nossas,que conhecem intimidades , desde hábitos de vida, manias ou manhas, até ao mais secreto das nossas saúdes... Os VIZINHOS... Vivo no mesmo prédio há cinquenta e sete anos. E,durante todo este tempo, só em dois dos andares houve mudança de habitantes. Sendo um prédio de apenas três andares, com direito e esquerdo, somos tão poucos que seria impossível vivermos paredes- meias durante tanto tempo sem que entre nós não tivesse crescido uma relação especial. Mas ( e para mim a pergunta é recorrente )que relação é essa ? Se me reportar a alguns conhecimentos históricos, recordo que nos primordios ainda de uma pré-civilização, o instinto de sobrevivência e de consequente defesa levou os primeiros grupos de seres humanos a juntarem-se, constituindo pequenas células que os sociólogos já consideram com muito interesse enquanto esboços de uma socialização mais ou menos tendente a consolidar-se. Com o progresso da HISTÓRIA assistimos ao nascimento de cidades, onde ,por exemplo, os Romanos já contavam com o aproveitamento do espírito gregário dos vizinhos para formarem as suas civitates. E daí ao aparecimento dos MUNICÍPIOS, nunca o elo de ligação entre vizinhos deixou de constituir uma força socializante. Portanto, não me parece descabido considerar a sério a relação de todos nós, moradores do mesmo prédio, como uma relação sui-generis mas efectiva, real. E nunca de pretender ignorar ou desvalorizar.
Quando existam trinta ou quarenta vizinhos dentro de um só prédio, como nos grandes imóveis destaLisboa séculos XX - XXI, para além de termos que contar com uma maior mobilidade deles ,inerente a muitos novos factores próprios da moderna vida social e económica, percebemos quanto seria difícil uma relação de proximidade entre tanta gente e como é até natural que muitos nem tenham oportunidades para conhecer-se. Aliás,persiste uma espécie de "regra de ouro ", que sempre foi respaldo de gente a viver em proximidade, e que já vigorava nos meus tempos de menina : não devemos intrometer-nos com vizinhos, nem tão pouco permitir que os vizinhos se intrometam connosco.Isto tão só porque pode haver perigos morais ou mesmo materiais numa relação de intimidade com alguém que só se conhece superficialmente. E não será pelo facto de ser vizinho que alguém de mau carácter irá modificar-se... Além de que a"imposição" de uma presença nunca será agradável e será de pequenos contactos atempados e oportunos que se irá tecendo uma boa relação de vizinhança. Mas, em nome de tal precaução ,será possível não se sentir algo de especial por aquelas pessoas que conhecemos jovens, que depois casaram e tiveram filhos, os quais cresceram sob os nossos olhos e vieram a casar também , pessoas que, mais tarde, começaram a ter doenças e vieram a perder maridos, filhos ou pais, e ficaram em solidão, envelheceram, precisando de amparo moral ou físico, mesmo quase debaixo do nosso tecto, só porque entre o nosso e o evoluir das suas vidas há um patamar ou um lanço de escadas ? Sei que sofreria de facto se alguma destas pessoas desaparecesse de ao pé de mim.E sofreria como? Como iria colocá-las dentro da relação daqueles que já perdi? Como simplesmente VIZINHOS !... Não se trata de um parentesco e nem sei se poderá ser sempre uma amizade.
A simples ideia de partilha em situações de mera conjuntura acabou por fazer nascer laços. Como na Pré-História ! ... Dir-me -ão que se tem visto "brotar" e desenvolver ódios ou desamores entre vizinhos quase sem razões .Mas isso mesmo é prova da especificidade deste tipo de relacionamento. Para mim, olhando os noticiários das tragédias urbanas que trazem para a rua , em noites e madrugadas de pavor, todos aqueles vizinhos sofridos, aterrados e irmanados no sofrimento do susto e do medo, fica-me sempre mais intensa a convicção de que é preciso para exprimir tudo isto criar mais do que a palavra que me faltava : vicinidade... um espírito, um sentimento novo, uma vivência à qual não podemos negar um importante lugar nas nossas vidas,Esta casa, este bairro, esta rua, esta CIDADE, teriam sido os mesmos para mim se não tivesse tido estes meus VIZINHOS ?...
25 junho 2008
Lisboa à espera

Lisboa, eu e o seu pequeno-grande mundo de agentes de manutenção temos muitas vezes grandes desaguisados que nunca saem felizmente da minha rebarbativa mas pouco operante capacidade de indignação ou de diversão, muito conforme à gravosidade das ocorrências e ao prisma crítico através do qual eu as olho.Quantas boas gargalhadas tenho rido no silêncio das minhas observaçôes !!! Aconteceu ontem. Estava só, como quase sempre .Amo a avenida onde moro há já mais de meio século. É ampla de tal maneira que, agora que começo a ver pior ao longe, não distingo as feições de quem passa ou vive no outro lado da avenida. E os seus larguíssimos passeios têm abundante vegetação em placas centrais cobertas de relva ( só quem não a tem ou teve ,sabe da dificuldade que é mantê-la) onde estão implantados frondosos arbustos que dão flor em épocas e cores desencontradas e, mais maravilhosos que todo o resto, enormes,majestosos e quase perenes de verdura uns olmeiros que vi crescer e hoje atingem ( ultrapassam? ) a altura dos prédios laterais .Há um deles mesmo em frente da janela do meu quarto que me serve de cortina nas madrugadas de verão e onde vivem famílias de melros cantores que me acordam no lusco-fusco das primeiras horas do dia. Soube sem muita certeza que toda esta parte da avemida terá um meio quilómetro de extensão. E é contra este meio quilómetro que se encarniçam os modernos paisagistas citadinos, sendo sonho e projecto de pequenos autarcas nas várias eleições que aqui vivi,dar uma volta aos passeios,à relva e aos olmeiros para melhoria da vida dos moradores.São precisos espaços para estacionamento dos carros, sim senhor.Pois vai-se aos passeios grandes e...zás ! É verdade que as grossíssimas raízes dos olmeiros chegam a levantar o empedrado dos passeios e até a imiscuir-se em algumas canalizações de esgotos...Vamos aos olmeiros e...zás ! Para mais, alguns envelheceram e deixaram-se já cair, sacudidos por algumas fortes ventanias invernosas. Pior,pior, foi que caíram sobre uns dos tais carros que ali não deveriam estar...Só prejuizos, complicações, que não se compadecem com florsinhas,relvas e passarinhos... Eu entendo,só que tenho pena... Mas o Mundo é perverso e, com eleições ou sem elas, os sonhos ficam engavetados há anos pela falta da chave que os desengavetaria : o dinheiro. E a força da Natureza é de tal forma poderosa que os olmeiros crescem, crescem, em todas as direcções parecendo mesmo um desafio à ira dos prejudicados : começaram a entrar-lhes pelas janelas, pelas varandas, a tapar-lhes o sol, numa pujança linda de ver mas já a tornar-se mesm perigosa . Àlem de tudo o mais, até para a segurança de bens e pessoas aquelas ramadas dentro das varandas começaram a ser ameaça em vez de fruição.
Foi assim que o autarca desta freguesia pensou a solução rápida e possível e, se bem o pensou , melhor o fez. Uma equipa, umas serras e serrotes, um bom desbaste nas partes baixas dos olmeiros. Boa ideia dissemos nós,os fregueses que percebemos o que iria acontecer.
Começou a operação, com respaldo da Polícia Municipal, aí pelas oito horas da manhã. O povo ia passando e olhando de lado para umas fitas demarcadoras de áreas e uns polícias por ali passeando. Nada mais. O POVO mostrava-se agastado por não o deixarem passar pelos trilhos que estava habituado a percorrer todos os dias; não lhe ocorria que se estava a começar a cuidar de algo que só iria reverter em seu favor. O POVO sempre desconfia, se lhe tocam na rotina... Velhas memórias ? Preguiça ?... Seriam umas nove e tal, chegou a "equipa" : um senhor de calça cinzenta e camisa branca, impecáveis, começou a tentar pôr em acção uma pequena serra mecânica daquelas em que é preciso puxar com energia um fio que lhe"estimula" o movimento. Havia um outro homem de camisola larga e coçada e um rapaz,talvez caboverdiano. A serra não pegava e todos se mostravam pesarosos, parados, olhando sem esperança para o insucesso da operação. Até que o homem mais bem vestido usou o telemóvel. Entretanto apareceu ainda uma outra pessoa de cor, vestida de azul vivo. A EQUIPA parecia completa.Aparentemente em socorro da serra que não pegava,veio uma bela carrinha que trazia ainda uma escada de alumínio parecida com uma que eu tive mas esta era de aumentar, quase como as dos bombeiros. Muito mais tarde no dia, voltei a pensar nos bombeiros. Não seria esta uma tarefa que eles fariam rápida e profissionalmente ? Claro que nós os urbanos não sabemos nada das profundidades políticas desta coisa, mas a operação deu para que durante todo o dia, os homens da equipa fossem atirando por terra os grandes ramos incómodos, encarrapitados uns na escada mais ou menos extendida, outros em baixo a ampará-la, usando serrotes e, muito esporadicamente, a tal serra caprichosa que só pegava às vezes. Andei de janela em janela a assistir ao mais flagrante desconhecimento de como se trabalha em equipa, de como se programa e distribue qualquer tarefa e de como se pode depois alardear que se fez um trabalho importante, quando tudo aquilo era tão ridiculamente simples, como, por exemplo o acomodar da enorme ramagem caída sem usar o processo de um só homem a transportar às costas ,ramo a ramo, para um contentor previamente colocado na esquina da rua diametralmente oposta ao local da operação.Houve situações assim tão cómicas que não foi possível deixar de me rir. Para o não fazer sózinha, telefonei a uma amiga que mora na"outra margem" da avenida e a quem "pertence" a árvore intervencionada. Como eu, ela estava perplexa com o que via...Em conclusão : foi todo um dia de trabalho de talvez técnicos e ajudantes mas a casa da minha amiga ficou de janelas iluminadas pelo sol de um fim de dia de verão, coisa que ela já nem sabia o que era. O olmeiro está lá, despido das ramagens indesejadas, em perfeito traje de verão... A equipa desapareceu á hora própria... Lisboa continuará deste modo... à espera de muita coisa ! E o "meu" olmeiro,esguio e bem comportado continuará a albergar a família de melros cantores,meus companheiros...
Foi assim que o autarca desta freguesia pensou a solução rápida e possível e, se bem o pensou , melhor o fez. Uma equipa, umas serras e serrotes, um bom desbaste nas partes baixas dos olmeiros. Boa ideia dissemos nós,os fregueses que percebemos o que iria acontecer.
Começou a operação, com respaldo da Polícia Municipal, aí pelas oito horas da manhã. O povo ia passando e olhando de lado para umas fitas demarcadoras de áreas e uns polícias por ali passeando. Nada mais. O POVO mostrava-se agastado por não o deixarem passar pelos trilhos que estava habituado a percorrer todos os dias; não lhe ocorria que se estava a começar a cuidar de algo que só iria reverter em seu favor. O POVO sempre desconfia, se lhe tocam na rotina... Velhas memórias ? Preguiça ?... Seriam umas nove e tal, chegou a "equipa" : um senhor de calça cinzenta e camisa branca, impecáveis, começou a tentar pôr em acção uma pequena serra mecânica daquelas em que é preciso puxar com energia um fio que lhe"estimula" o movimento. Havia um outro homem de camisola larga e coçada e um rapaz,talvez caboverdiano. A serra não pegava e todos se mostravam pesarosos, parados, olhando sem esperança para o insucesso da operação. Até que o homem mais bem vestido usou o telemóvel. Entretanto apareceu ainda uma outra pessoa de cor, vestida de azul vivo. A EQUIPA parecia completa.Aparentemente em socorro da serra que não pegava,veio uma bela carrinha que trazia ainda uma escada de alumínio parecida com uma que eu tive mas esta era de aumentar, quase como as dos bombeiros. Muito mais tarde no dia, voltei a pensar nos bombeiros. Não seria esta uma tarefa que eles fariam rápida e profissionalmente ? Claro que nós os urbanos não sabemos nada das profundidades políticas desta coisa, mas a operação deu para que durante todo o dia, os homens da equipa fossem atirando por terra os grandes ramos incómodos, encarrapitados uns na escada mais ou menos extendida, outros em baixo a ampará-la, usando serrotes e, muito esporadicamente, a tal serra caprichosa que só pegava às vezes. Andei de janela em janela a assistir ao mais flagrante desconhecimento de como se trabalha em equipa, de como se programa e distribue qualquer tarefa e de como se pode depois alardear que se fez um trabalho importante, quando tudo aquilo era tão ridiculamente simples, como, por exemplo o acomodar da enorme ramagem caída sem usar o processo de um só homem a transportar às costas ,ramo a ramo, para um contentor previamente colocado na esquina da rua diametralmente oposta ao local da operação.Houve situações assim tão cómicas que não foi possível deixar de me rir. Para o não fazer sózinha, telefonei a uma amiga que mora na"outra margem" da avenida e a quem "pertence" a árvore intervencionada. Como eu, ela estava perplexa com o que via...Em conclusão : foi todo um dia de trabalho de talvez técnicos e ajudantes mas a casa da minha amiga ficou de janelas iluminadas pelo sol de um fim de dia de verão, coisa que ela já nem sabia o que era. O olmeiro está lá, despido das ramagens indesejadas, em perfeito traje de verão... A equipa desapareceu á hora própria... Lisboa continuará deste modo... à espera de muita coisa ! E o "meu" olmeiro,esguio e bem comportado continuará a albergar a família de melros cantores,meus companheiros...
22 junho 2008
Os cento e vinte anos de Pessoa
...e então não é que, no fascínio das férias, me encontrei, como em pequena, a situar-me tão longe daquilo que considero trabalho que até perdi o conto aos anos do Fernando Pessoa embora o recordasse no dia de Santo António, nem eu sei bem porquê... Isto que vou escrever é mesmo um mea culpa de professora ( nem sei se de portuguesa ou se de pessoa de LETRAS ) , mas nunca fui admiradora senão da Mensagem de PESSOA. Trabalhei sempre muito cada heterónimo, desde os de sempre até cada um dos que nos têm vindo a aparecer abundantemente...E digo trabalhei porque àquilo a que não me entrego com entusiasmo e até paixão, se acaso tem a forma de um dever ou de uma necessidade, procuro sempre compensá-lo com trabalho, já que não posso abordá-lo de outra forma. Isto explica então que os cento e vinte anos do poeta se tivessem diluido na minha euforia do "não pensar, não lembrar,não rebuscar".
Viessem falar-me sim da revigorante "juventude" do meu CAMÕES de que felizmente se não alhearam os construtores das provas de exame deste final de ano lectivo ! Foi sempre da sua transbordante capacidade de amar o país, as terras, os deuses, as gentes,os mares e as mulheres que recolhi uma lição de resistência, como parte que eu sei que sou neste Mundo.Neste Mundo que ainda não me deu motivos para o tédio desmultiplicador e sempre mais entorpecente de Pessoa...
Viessem falar-me sim da revigorante "juventude" do meu CAMÕES de que felizmente se não alhearam os construtores das provas de exame deste final de ano lectivo ! Foi sempre da sua transbordante capacidade de amar o país, as terras, os deuses, as gentes,os mares e as mulheres que recolhi uma lição de resistência, como parte que eu sei que sou neste Mundo.Neste Mundo que ainda não me deu motivos para o tédio desmultiplicador e sempre mais entorpecente de Pessoa...
20 junho 2008
Férias
É muito interessante saber-se que férias e feira são palavras filhas da mesma mãe latina e que, por conseguinte, nas duas subjaz a mesma ideia de pausa e liberdade e festa, que é como quem diz o soltar-se, o descobrir~se, o expor-se, o mostrar um outro lado de si mesmo que tantos imponderáveis obrigam a fechar por vezes "a sete chaves" dentro de nós mesmos. E é realmente uma alegria, uma festa, quando a "feira" dos nossos sentimentos, dos nossos gostos, dos nossos pensamentos e opiniões encontra o espaço para abrir-se e mostrar( ou propor ) o que tem de mais genuino "em stock"... Foi assim agora. E porque feira é troca, trouxe comigo um sem-fim de coisas novas, montes e vales a reverdecer,onde há poucos anos foram brasa ou labareda, pequenos rios represados a espaços criando praiínhas onde retoiçam crianças e jovens, cidades que conheci vilas e hoje se envaidecem de avenidas, rotundas, parques de estacionamento cronometrados e despropositados gigantes ,já não só super, mas hiper, locais de tudo vender... Um país novo a crescer sobre a raíz já exangue do outro que eu conhecera !
Mas há também as pessoas e as coisas novas que elas fazem, e as libertam para podermos falar de coisas boas e novas... E como é possível rodear-se a gente de uma tecnologia sem a qual já não se pode viver, já ninguém sabe viver...Rega-se a horta ou enche-se a piscina a horas impecavelmente certas sem ser preciso ir lá,estar por perto...As flores abrem na mesma mas maiores,mais coloridas, os morangais desdobram-se a dar frutos óptimos e rescendem por todo o lado os cheirinhos de cozinhar sempre húmidos e frescos...Aprendi a, pela noite, pelas longas conversas sob as estrelas, ouvir subitamente um eclodir de águas, sem ver chuva...Era uma espécie de "fantasma" zelador de hortas e jardins que chega sempre a horas e traz consigo o perfume da terra a envolver esta nova noção de liberdade...
PORÉM, numa outra latitude ,sem retornos mas interesses, sem o abraço da TERRA, sem o carinho de AMIGOS , coincidiu haver FEIRA, mas sem FESTA em liberdade, como é devido .As gentes da nossa Terra desejavam e mereciam trocar com " os rapazes da bola" as suas vis tristezas agora habituais, pelo voo libertador de uma límpida vitória que eles não puderam dar-lhes. Também trouxe "isto" das férias.Também isto é o Mundo Novo ! Continuaremos a ter que O aprender...
Mas há também as pessoas e as coisas novas que elas fazem, e as libertam para podermos falar de coisas boas e novas... E como é possível rodear-se a gente de uma tecnologia sem a qual já não se pode viver, já ninguém sabe viver...Rega-se a horta ou enche-se a piscina a horas impecavelmente certas sem ser preciso ir lá,estar por perto...As flores abrem na mesma mas maiores,mais coloridas, os morangais desdobram-se a dar frutos óptimos e rescendem por todo o lado os cheirinhos de cozinhar sempre húmidos e frescos...Aprendi a, pela noite, pelas longas conversas sob as estrelas, ouvir subitamente um eclodir de águas, sem ver chuva...Era uma espécie de "fantasma" zelador de hortas e jardins que chega sempre a horas e traz consigo o perfume da terra a envolver esta nova noção de liberdade...
PORÉM, numa outra latitude ,sem retornos mas interesses, sem o abraço da TERRA, sem o carinho de AMIGOS , coincidiu haver FEIRA, mas sem FESTA em liberdade, como é devido .As gentes da nossa Terra desejavam e mereciam trocar com " os rapazes da bola" as suas vis tristezas agora habituais, pelo voo libertador de uma límpida vitória que eles não puderam dar-lhes. Também trouxe "isto" das férias.Também isto é o Mundo Novo ! Continuaremos a ter que O aprender...
02 junho 2008
Canção do tempo fugaz/ 2-6
A água corre,jamais regressa
à nascente da montanha.
A flor cai,jamais regressa
ao ramo que a sustentou.
Fugidio relâmpago a Vida !
Apenas o sentir do seu passar...
Imutáveis Céu e Terra.
Tão rápida a mudança no meu rosto !
Li Bai, poeta chinês ( anos 701-762)
à nascente da montanha.
A flor cai,jamais regressa
ao ramo que a sustentou.
Fugidio relâmpago a Vida !
Apenas o sentir do seu passar...
Imutáveis Céu e Terra.
Tão rápida a mudança no meu rosto !
Li Bai, poeta chinês ( anos 701-762)
01 junho 2008
Pobreza
Nesta época terrível que já estamos a viver, coisa que em toda a minha vida nunca me foi dado ver, nem mesmo durante os ,grandes racionamentos do tempo da segunda Guerra Mundial, há pessoas de um estrato social ao qual nunca atribuiramos a qualificação de pobres-pobresinhos de pedir, que estão agora a recorrer a práticas de sobrevivência que eu julgaria impensáveis para qualquer pessoa, mesmo sabendo que para os tais pobresinhos elas existiam e me confrangiam dolorosamente. Na fase inicial do grande afluxo de imigrantes provenientes do leste europeu, foi-nos mostrado nos noticiários televisivos o degradante espectáculo de filas mais ou menos ordeiras à espera, pela noite, dos caixotes de lixo postos na rua junto às portas traseiras dos grandes supermercados, para neles recolherem tudo o que pudesse servir-lhes para matar a sua fome ou a das suas famílias. Mas eu própria os vi remexendo os pequenos receptáculos para lixo suspensos nos candeeiros de rua e nos caixotes de lixo doméstico . Foram criadas várias instituições de caridade originárias, algumas, de igrejas de religiões não católicas, e outras de simples associações de solidariedade e começou-se a falar muito abertamente dos sem abrigo para os quais estas instituições criaram uma forma de assistência por meio de carrinhas que, pelas noites e madrugadas, se espalham pelas cidades fornecendo comida e há mesmo algumas que funcionam como posto médico rudimentar.E nós, os que não sabiamos como acudir àquelas pessoas, passámos a ter uma forma de o fazer,por interpostas associações. Mas, resultado do nosso cada vez maior conhecimento dos hábitos de outros países da Europa, da nossa cada vez maior europeização, começámos a usar aquele processo de nos vermos livres dos grandes"monos", lixos incómodos, colocando-os em certas zonas da rua demarcadas para esse fim. E é para lá que vão mobiliário, electrodomésticos, plantas secas retiradas de jardins, livros e tapetes velhos ou inúteis e roupas,domésticas ou de vestir. Há entretanto uns dias certos em que a Câmara manda proceder à recolha de tudo isto mas, nos espaços entre estas recolhas, aparece quem venha procurar aqui o que pode aproveitar para si. Já me aconteceu perder algum tempo a observar da minha varanda as aproximações de pessoas a esta livre oferta que se lhes depara inesperadamente quando passam por um destes depósitos de inutilidades. Quando, há poucos anos, esta prática começou a existir, a atitude primeira de incredulidade juntava-se aos olhares perscrutadores em redor e depois a uma avançada rápida e uma retirada ainda mais rápida com qualquer coisa arrebatada do monte,parecia-me, quase sem escolha. Contudo a habituação tem permitido aos aproveitadores um à-vontade sempre crescente nos seus abastecimentos deste tipo. Quando vi que ,vendo o que há, se parte e volta mais tarde com um carro para poder carregar o que se escolheu, deixou de divertir-me como sempre, esta observação, até ao dia,há pouco mais de dois a três meses, em que tive a certeza de que já não era o mesmo "tipo" de pessoas que andava por ali a tentar guardar em sacos que trazia, roupas de criança, malhas e sapatos e até uma ampla toalha que me pareceu de banho...Dizem-me que isto pode ser indicador de mais coisas que não da pobreza envergonhada, mas, quanto a mim, será sempre indicador de uma certa pobreza( talvez moral? ) para acudir à qual eu ainda não sei de nenhuma associação de caridade...
25 maio 2008
Nós e os lírios do campo
Nós, seres humanos, somos tão astutos que, se quisermos, podemos sim senhor "servir a dois senhores" e até a mais que dois, se isso se proporcionar. O único impedimento para tal reside muito simplesmente no carácter, na formação moral, na educação de cada um.
Hoje penso em quantos senhores servirá aquela Junta Militar que manda em Myanmar. Não tem ela servido as suas espantosas ambições políticas e privadas, fingindo que ajuda e serve aquele seu povo sofredor que afinal vem morrendo aos poucos, de abandono, por crueza e desumanidade de quem devia, pelo menos, consentir na ajuda oferecida pelo resto do Mundo ?
Fingir foi o verbo que usei, pois será ele sempre a imiscuir-se nas atitudes dos que sabem como servir a dois senhores sendo que, de um lado, está sempre o mesmo tirano ( ou sedutor )-o dinheiro, que sabe apresentar-se com múltiplos disfarces, e do outro lado está sempre também a fragilidade do Homem que tem todas as dificuldades em apenas se pautar por olhar os lírios do campo...
Hoje penso em quantos senhores servirá aquela Junta Militar que manda em Myanmar. Não tem ela servido as suas espantosas ambições políticas e privadas, fingindo que ajuda e serve aquele seu povo sofredor que afinal vem morrendo aos poucos, de abandono, por crueza e desumanidade de quem devia, pelo menos, consentir na ajuda oferecida pelo resto do Mundo ?
Fingir foi o verbo que usei, pois será ele sempre a imiscuir-se nas atitudes dos que sabem como servir a dois senhores sendo que, de um lado, está sempre o mesmo tirano ( ou sedutor )-o dinheiro, que sabe apresentar-se com múltiplos disfarces, e do outro lado está sempre também a fragilidade do Homem que tem todas as dificuldades em apenas se pautar por olhar os lírios do campo...
24 maio 2008
As Amigas
Esta semana, como acontece em muitas outras, sem convites, sem olhar a alternâncias, partindo da iniciativa que a amizade dita e permite, elas vieram.Cada uma, é assim: A primeira,
entra, tira o casaco, larga sobre os sofás da sala o que traz nas mãos e vai dizendo desculpas se chega mais tarde do que o previsto ou contando peripécias da arrumação do carro ou do percurso até cá e,logo a seguir, vai à casa de banho refrescar-se...está em casa ! Irradia energia ,optimismo, companheirismo... A minha casa fica logo cheia mal ela entra.
Diferente, é a que vem tarde, muito tarde, quase hora de jantar, explicando suavemente porque queria não deixar de vir, dizendo que vai estar só uns minutos, sentando-se quase à beira da cadeira e quase sussurrando saudades, lembranças, porque agora vive longe e já não podem ter lugar aquelas intermináveis conversas...Com o passar dos tais minutos, vai-se acomodando, conta, sublinha quase tudo com um sorriso ou mesmo uma risada feliz...Afinal passam horas. Estamos tão em sintonia que não queremos quebrar este circulo de relatos e confidências que, de uma para a outra, se não interrompe mais...Quando sai deixa-me a casa impregnada de solidariedade.
Mal contenho a sensação de plenitude que se expande no meu peito, por tê-las como amigas,tão sólidas, tão dentro da minha vida, tão sabendo de mim tanto! Isto chamo eu de alegria.
Era mais velha do que eu, julgava eu que mesmo bastante mais. Soube agora que não era tanta a diferença quanto parecia. Vieram dizer-me que morrera pouco tempo antes da notícia que me traziam.Serenamente, no meio dos seus arranjos matinais. Era alegre e quando aqui chegava sempre tinha uma forma engraçada de maldizer a minha escada.Sentava-se fundo no sofá, tomava o fôlego que perdera a subir a escada e tratava-me por um diminutivo que ela própria criara, " e a tua vida, como vai?"...Assim começava uma lenta tarde de conversa, porque ela não tinha pressa, nem eu tão pouco. Interessava-a saber fosse o que fosse que a deixasse "avaliar", "perceber" qual era realmente o meu estado físico e espiritual... Não vou aqui falar, não quero, da
falta, do vazio, a seguir ao choque da notícia dada à queima-roupa...Não presença.Ausência.
Experiência já vivida com vários graus de angústia e desamparo, pareceria que podia estar imunizada... Mas não. Não se está nunca, para grau nenhum.
Três amigas.E esta classificação está gasta e não me é suficiente.A tristeza que me deixa a que já partiu, sei bem que as duas outras tão mais novas vão ajudar a dulcificar...
Costumo rezar uma oração que diz " meu Deus, faz do meu lar o teu santuário". E tomo como resposta a este pedido cada vinda inesperada destas pessoas que têm parte comigo como dizia Jesus...
entra, tira o casaco, larga sobre os sofás da sala o que traz nas mãos e vai dizendo desculpas se chega mais tarde do que o previsto ou contando peripécias da arrumação do carro ou do percurso até cá e,logo a seguir, vai à casa de banho refrescar-se...está em casa ! Irradia energia ,optimismo, companheirismo... A minha casa fica logo cheia mal ela entra.
Diferente, é a que vem tarde, muito tarde, quase hora de jantar, explicando suavemente porque queria não deixar de vir, dizendo que vai estar só uns minutos, sentando-se quase à beira da cadeira e quase sussurrando saudades, lembranças, porque agora vive longe e já não podem ter lugar aquelas intermináveis conversas...Com o passar dos tais minutos, vai-se acomodando, conta, sublinha quase tudo com um sorriso ou mesmo uma risada feliz...Afinal passam horas. Estamos tão em sintonia que não queremos quebrar este circulo de relatos e confidências que, de uma para a outra, se não interrompe mais...Quando sai deixa-me a casa impregnada de solidariedade.
Mal contenho a sensação de plenitude que se expande no meu peito, por tê-las como amigas,tão sólidas, tão dentro da minha vida, tão sabendo de mim tanto! Isto chamo eu de alegria.
Era mais velha do que eu, julgava eu que mesmo bastante mais. Soube agora que não era tanta a diferença quanto parecia. Vieram dizer-me que morrera pouco tempo antes da notícia que me traziam.Serenamente, no meio dos seus arranjos matinais. Era alegre e quando aqui chegava sempre tinha uma forma engraçada de maldizer a minha escada.Sentava-se fundo no sofá, tomava o fôlego que perdera a subir a escada e tratava-me por um diminutivo que ela própria criara, " e a tua vida, como vai?"...Assim começava uma lenta tarde de conversa, porque ela não tinha pressa, nem eu tão pouco. Interessava-a saber fosse o que fosse que a deixasse "avaliar", "perceber" qual era realmente o meu estado físico e espiritual... Não vou aqui falar, não quero, da
falta, do vazio, a seguir ao choque da notícia dada à queima-roupa...Não presença.Ausência.
Experiência já vivida com vários graus de angústia e desamparo, pareceria que podia estar imunizada... Mas não. Não se está nunca, para grau nenhum.
Três amigas.E esta classificação está gasta e não me é suficiente.A tristeza que me deixa a que já partiu, sei bem que as duas outras tão mais novas vão ajudar a dulcificar...
Costumo rezar uma oração que diz " meu Deus, faz do meu lar o teu santuário". E tomo como resposta a este pedido cada vinda inesperada destas pessoas que têm parte comigo como dizia Jesus...
17 maio 2008
Família
Não sei como, não me lembro de, em outros anos, se ter comemorado o Dia da Família. Para mim, o dia da Família foi sempre um dos complementos bonitos do dia de Natal. Mas, entendendo bem o alcance político - social de governos actuais, face ao envelhecimento das populações e entendendo ainda melhor a acção da Igreja face à ignorância propositada de valores que hoje é incutida nas práticas sociais, resolvi fixar-me um pouco sobre tudo isto. E aconteceu que dei comigo a recordar quem? Pois a minha sogra. Francesa de Paris, inteligente e trocista, espirituosa e mordaz, tinha aquele jeito parisiense que era capaz ou de nos cativar ou de nos gelar, com a mesma graça de um sorriso sempre a propósito. Foi ela que um dia me ensinou este provérbio francês que eu não sei se tem um português correspondente:
Les amis on les choisit; la famille on la subit.
E ficaram por aqui as minhas meditações sobre esse tal dia...
Não sobre a família !
Les amis on les choisit; la famille on la subit.
E ficaram por aqui as minhas meditações sobre esse tal dia...
Não sobre a família !
11 maio 2008
Pentecostes/ Espírito Santo
10 maio 2008
Reparo que o meu blog se vem mostrando cada vez mais como um memorial de datas memorializáveis o que o está transformando num ramal para onde se esgueirou a minha ideia- tronco inicial, que seria a de um registar das minhas "circunstâncias"( Gasset ), meditando sobre elas e o que delas advem, sempre que isso me fosse possível.E, corolário indispensável quanto a mim, seduzir leitores que eu queria interlocutores. Quantas vezes tenho lido a afirmação de alguns escritores de ficção de que, estando a escrever um romance, o personagem começa a ganhar vida própria e o primitivo corpus da história entra numa deriva que o autor não procurara !
Pois bem! A superabundância de dias votivos tanto ao amor,como à água, como à fome, como à família, como a todas as doenças( uma de cada vez), ou a todos os padroeiros de qualquer coisa( santos ou não), ou à mulher (mas não ao homem),ou à música, ou `a poesia...Às coisas mais contraditórias, desde que possam ilusoriamente sobrelevar a ideia de uma união global dos sentimentos do Homem sobre qualquer tema escolhido, esta falsíssima aposta numa pseudo-união de vontades celebrativas, acabou por me enrodilhar os meus dias de celebrar realidades ou memórias com os outros, os globais( quando não aconteceu a sorte da coincidência ). Entretanto passaram por mim e eu vivi coisas mais ou menos interessantes, admiráveis, repugnantes, esperançosas, decepcionantes, das quais não ficou no meu blog o mais ligeiro rasto. E, no entanto, todas elas foram deixando marcas nesta cera moldável que é a cave onde repousam as várias castas-reserva especial das memórias da minha vida.
Ninguém espera certamente que uma mulher de mais de oitenta anos tenha actualmente uma dinâmica de vida recheada de actividades em que predomine a motricidade física, mas espero que quem não sabe acredite que a motricidade espiritual, sentimental e até intelectual mais se apura quanto mais se degrada a agilidade do corpo. Pode assim acontecer que, como nos bons velhos vinhos-reserva, as qualidades se sublimem e de repente (?) os nossos olhos passem a ver o que antes não viam, o nosso entendimento se torne mais perspicaz... Por vezes eu chego a ter medo do que estou sendo capaz de compreender agora em situações, pessoas ou coisas que acreditava já conhecer há muito...
Mas afinal seria mesmo daquilo que não está cá que deveria ter sido feito, até agora, este blog?
É, sem dúvida, um caso a repensar. E os prós ? E os contras ?
Pois bem! A superabundância de dias votivos tanto ao amor,como à água, como à fome, como à família, como a todas as doenças( uma de cada vez), ou a todos os padroeiros de qualquer coisa( santos ou não), ou à mulher (mas não ao homem),ou à música, ou `a poesia...Às coisas mais contraditórias, desde que possam ilusoriamente sobrelevar a ideia de uma união global dos sentimentos do Homem sobre qualquer tema escolhido, esta falsíssima aposta numa pseudo-união de vontades celebrativas, acabou por me enrodilhar os meus dias de celebrar realidades ou memórias com os outros, os globais( quando não aconteceu a sorte da coincidência ). Entretanto passaram por mim e eu vivi coisas mais ou menos interessantes, admiráveis, repugnantes, esperançosas, decepcionantes, das quais não ficou no meu blog o mais ligeiro rasto. E, no entanto, todas elas foram deixando marcas nesta cera moldável que é a cave onde repousam as várias castas-reserva especial das memórias da minha vida.
Ninguém espera certamente que uma mulher de mais de oitenta anos tenha actualmente uma dinâmica de vida recheada de actividades em que predomine a motricidade física, mas espero que quem não sabe acredite que a motricidade espiritual, sentimental e até intelectual mais se apura quanto mais se degrada a agilidade do corpo. Pode assim acontecer que, como nos bons velhos vinhos-reserva, as qualidades se sublimem e de repente (?) os nossos olhos passem a ver o que antes não viam, o nosso entendimento se torne mais perspicaz... Por vezes eu chego a ter medo do que estou sendo capaz de compreender agora em situações, pessoas ou coisas que acreditava já conhecer há muito...
Mas afinal seria mesmo daquilo que não está cá que deveria ter sido feito, até agora, este blog?
É, sem dúvida, um caso a repensar. E os prós ? E os contras ?
04 maio 2008
01 maio 2008
Dia da Espiga
Um ramo de símbolos, uma tradição:a papoila é a alusão a uma saúde vibrante que permitirá receber todos os estímulos, a espiga não poderia ser senão o PÃO nosso de cada dia. o raminho de oliveira é o precioso oiro líquido,talvez relacionado com os sagrados óleos que ungem os homens nos grandes momentos da vida-a entrada e a saída-princípio e fim, o malmequer amarelo, na sua simplicidade, está conotado com o oiro/dinheiro e talvez seja uma mensagem para que compreendamos o seu quanto baste sem ostentações, e por fim uma alusão ao vinho, tido religiosamente como o sangue que nos corre nas veias enquanto garante de vida. Uma aliança entre a pujança da natureza e os grandes trabalhos do Homem, e assim, uma síntese a lembrar-nos que, pelas coisas simples, manteremos a nossa dignidade de seres humanos.
25 abril 2008
25 de Abril
Sempre com a mesma emoção, a amálgama de recordações. A espaços, uma ou outra lágrima...
Tudo o que escrevi há um ano, tornaria a escrevê-lo hoje. Esta Lisboa que parece gente, às vezes, põs-se bonita de sol, de azul, de luz, para que as pessoas possam "ir para a rua gritar"não de raiva, mas ou de esperanças ou de memórias, o que as torna diferentes do cinzentismo de todos os dias... Vamos reler este blog, no meu post do ano passado?
Por todo o serão deste dia e entrando pela madrugada, a nossa televisão ofereceu-nos um completíssimo rememorar das Canções de ABRIL... "Uma gaivota voava, voava..." "pergunto ao vento que passa, notícias do meu país", "venham mais cinco..." e muitas, desde "Grândola vila morena", um nunca acabar ! E a "Pedra Filosofal" ? Vieram cantá-las todos os seus intérpretes de há trinta e muitos anos, alguns cantautores, todos os que estão vivos e com saúde... Claro que, no remanso do meu solitário serão, cantei com eles, tendo embora esquecido muitos pedaços das letras que quase todas eram poemas de autores consagrados. Foi tão bonito ! O público maciço que fazia regurgitar o Coliseu, cantava também e quase se podia palpar uma nuvem de emoção a pairar por cima de todas aquelas cabeças... Os temas, as toadas e principalmente os cantores ! Comovia-nos a todos, o vê-los assim, naturalmente envelhecidos e a tornarem-nos tão presentes, com o seu fogo, com o seu entusiasmo, aqueles tempos em que todos sonhávamos, podendo ou não dizê-lo, mas vendo os nossos sonhos materializarem-se pelas bocas deles... Emoções, emoções, umas sobre outras , e saudades de tanta, tanta coisa, na hora de encerrar este dia tão "grávido" de esperanças, como os olhos da "Amélia dos olhos doces"...
Tudo o que escrevi há um ano, tornaria a escrevê-lo hoje. Esta Lisboa que parece gente, às vezes, põs-se bonita de sol, de azul, de luz, para que as pessoas possam "ir para a rua gritar"não de raiva, mas ou de esperanças ou de memórias, o que as torna diferentes do cinzentismo de todos os dias... Vamos reler este blog, no meu post do ano passado?Por todo o serão deste dia e entrando pela madrugada, a nossa televisão ofereceu-nos um completíssimo rememorar das Canções de ABRIL... "Uma gaivota voava, voava..." "pergunto ao vento que passa, notícias do meu país", "venham mais cinco..." e muitas, desde "Grândola vila morena", um nunca acabar ! E a "Pedra Filosofal" ? Vieram cantá-las todos os seus intérpretes de há trinta e muitos anos, alguns cantautores, todos os que estão vivos e com saúde... Claro que, no remanso do meu solitário serão, cantei com eles, tendo embora esquecido muitos pedaços das letras que quase todas eram poemas de autores consagrados. Foi tão bonito ! O público maciço que fazia regurgitar o Coliseu, cantava também e quase se podia palpar uma nuvem de emoção a pairar por cima de todas aquelas cabeças... Os temas, as toadas e principalmente os cantores ! Comovia-nos a todos, o vê-los assim, naturalmente envelhecidos e a tornarem-nos tão presentes, com o seu fogo, com o seu entusiasmo, aqueles tempos em que todos sonhávamos, podendo ou não dizê-lo, mas vendo os nossos sonhos materializarem-se pelas bocas deles... Emoções, emoções, umas sobre outras , e saudades de tanta, tanta coisa, na hora de encerrar este dia tão "grávido" de esperanças, como os olhos da "Amélia dos olhos doces"...
24 abril 2008
24 de ABRIL

De Miguel Torga :
Falta a luz dos teus olhos na paisagem:
O oiro dos restolhos não fulgura.
Os caminhos tropeçam à procura
Da recta claridade dos teus passos.
Os horizontes, baços,
Muram a tua ausência.
Sem transparência,
O mesmo rio que te reflectiu
Afoga, agora, o teu perfil perdido.
Por te não ver, a vida anoiteceu
À hora em que teria amanhecido...
Falta a luz dos teus olhos na paisagem:
O oiro dos restolhos não fulgura.
Os caminhos tropeçam à procura
Da recta claridade dos teus passos.
Os horizontes, baços,
Muram a tua ausência.
Sem transparência,
O mesmo rio que te reflectiu
Afoga, agora, o teu perfil perdido.
Por te não ver, a vida anoiteceu
À hora em que teria amanhecido...
13 abril 2008
Dia do Bom Pastor

SALMO 22
O Senhor é meu pastor: nada me faltará
O Senhor é meu pastor, nada me falta.
Fez-me descansar nos prados verdejantes,
conduziu-me às fontes mais puras
e lá restaurou as minhas forças.
O Senhor é meu pastor: nada me faltará
O Senhor é meu pastor, nada me falta.
Fez-me descansar nos prados verdejantes,
conduziu-me às fontes mais puras
e lá restaurou as minhas forças.
Ele me guia pelo caminho mais seguro
para glória do seu nome.
Passarei ravinas tenebrosas e não temerei:
Vós estais comigo, o vosso cajado me tranquiliza.
Aos olhos dos meus inimigos
me preparastes a mesa da abundância
e corre sobre a minha cabeça o perfume da unção.
Está repleta a minha taça !
A vossa bondade e misericórdia me acompanham
no caminhar da minha vida.
Habitarei na casa do Senhor
ao longo de todos os meus dias...
Eu sou o Bom Pastor. Conheço as minhas ovelhas e elas conhecem-me.
Escutam a minha voz e seguem-me porque a reconhecem...
Evs. de S. João
06 abril 2008
Recordações versus Mobilidade
Estamos a atravessar uma época da vida do nosso país em que, por causa da implementação de várias reformas promovidas pelo governo em praticamente todas as áreas das nossas actividades cívicas ou sociais, somos levados a estabelecer comparações, a formular processos de aceitação ou de recusa muito pessoais, e a, quase sem darmos por isso, sermos inflamados pelas mais ou menos ruidosas manifestações de rua de que tomamos conhecimento pela comunicação social e que já se vão tornando habituais, visto que de todas as áreas surgem os que queriam outra coisa e não a que lhes é dada.A verdade é que o viver neste nosso país deixou de ser igual àquele a que estávamos habituados. Por muitas e muitas razões que não caberia aqui dissecar.E que dizer então das diferenças que vêm ao encontro das pessoas da minha geração? Nós, aqueles que vivemos a segunda Guerra Mundial, estremecemos com a novidade do poder atómico, conhecemos o fazer e depois o desfazer do Muro de Berlim, e que das guerras desconcertantes já haviamos conhecido a Civil de Espanha e viemos a suportar em nova angústia a Guerra do Ultramar, nós os que ,cansados de quase tudo, nos deslumbrámos com a Revolução dos Cravos e começámos a sonhar com o tal país que sabíamos ser possível, nós os que haviamos trazido para este país novo uma pequena trouxa com os tesouros que achávamos que devíamos guardar (tradições, educação, memórias, crenças, verdades, História, solidariedades...), nós os que, amando todos com amor-verdade a velha Europa, ainda não tinhamos percebido( e creio que ainda não percebemos)como seria difícil acertar o passo com ela,para uma vida em comum, com um dinheiro em comum... ... Sim, somos nós os que nos sentimos agora mais estranhos no meio de estranhos ...
E há dias soube que só mesmo no fim deste ano de 2008 poderá aceder a uma nova consulta alguém que anda a coxear há meio ano porque há meio ano lhe foi diagnosticado um pequeno quisto por detrás de uma rótula, com o aviso de que seria bom que o seu volume não aumentasse para não prejudicar o andar e de que,se isso se desse,deveria ser operado como é óbvio.
Comecei então a recordar aquele tempo em que não havia o hábito de se ir aos hospitais senão quando era recomendado por aquele médico já nosso amigo que nos tratava os sarampos, as "bexigas" e as diarreias e nos auscultava, carregava na barriga e dizia de que estávamos padecendo.E vinha a nossa casa sempre que era preciso.Hoje,ninguém vive sem frequentar um qualquer hospital.As pessoas queixam-se, mas, sem esse ponto de convergência dos sofrimentos, ninguém se sente gente. É também por isso que deixou de se nascer em casa e praticamente também deixou de se morrer em casa. Parece até que a casa não é mais do que um usufruto a que se tem acesso mas não é já um local de raíz, um vínculo a uma terra, a um "clã", a uma qualquer associação de bairro...É um local efémero para onde entramos ao colo de alguém,visto termos nascido na maternidade,e de onde sairemos um dia levados pelos gatos-pingados ou pelos bombeiros ou maqueiros,no caso de nela morrermos ou de sairmos para ir morrer no tal hospital... Pujantes, em pleno gozo de todas as nossas faculdades,tornámo-nos pouco afeiçoados á casa.Também é verdade que as tais reformas governamentais parecem induzir-nos a essa forma de vida, uma vez que predomina pela Europa uma moda que eu reputo de trovadoresca :a da mobilidade.Mas ,consumistas como se espera de nós, vamos enchendo a casa, marcando-a, impregnando-a de coisas que muito falam de nós, de como somos família, de como nos entrecruzamos dentro dela, até que um dia ela regurgita de sombras, de silêncios, de ecos, qual película impressionada por flashes mais ou menos rápidos, projectados sobre as nossas presenças, mesmo fugazes. É assim que eu descubro uma razão para a existência de "casas assombradas"... Quantas vezes nos parece possível termos ouvido a voz de alguém que já partiu?
E vermos a sombra de alguém que já é apenas sombra? E ouvirmos o abrir da porta como só alguém fazia? E cheirarmos um cigarro há muito apagado para sempre?E até o guizinho da coleira do gato que também partiu... Sei que da efemeridade das presenças,resta a perenidade de todas as "marcas".Contra isto não há "mobilidade" que tenha poder.
Nada tem poder contra o charme indelével das nossas recordações !...
E há dias soube que só mesmo no fim deste ano de 2008 poderá aceder a uma nova consulta alguém que anda a coxear há meio ano porque há meio ano lhe foi diagnosticado um pequeno quisto por detrás de uma rótula, com o aviso de que seria bom que o seu volume não aumentasse para não prejudicar o andar e de que,se isso se desse,deveria ser operado como é óbvio.
Comecei então a recordar aquele tempo em que não havia o hábito de se ir aos hospitais senão quando era recomendado por aquele médico já nosso amigo que nos tratava os sarampos, as "bexigas" e as diarreias e nos auscultava, carregava na barriga e dizia de que estávamos padecendo.E vinha a nossa casa sempre que era preciso.Hoje,ninguém vive sem frequentar um qualquer hospital.As pessoas queixam-se, mas, sem esse ponto de convergência dos sofrimentos, ninguém se sente gente. É também por isso que deixou de se nascer em casa e praticamente também deixou de se morrer em casa. Parece até que a casa não é mais do que um usufruto a que se tem acesso mas não é já um local de raíz, um vínculo a uma terra, a um "clã", a uma qualquer associação de bairro...É um local efémero para onde entramos ao colo de alguém,visto termos nascido na maternidade,e de onde sairemos um dia levados pelos gatos-pingados ou pelos bombeiros ou maqueiros,no caso de nela morrermos ou de sairmos para ir morrer no tal hospital... Pujantes, em pleno gozo de todas as nossas faculdades,tornámo-nos pouco afeiçoados á casa.Também é verdade que as tais reformas governamentais parecem induzir-nos a essa forma de vida, uma vez que predomina pela Europa uma moda que eu reputo de trovadoresca :a da mobilidade.Mas ,consumistas como se espera de nós, vamos enchendo a casa, marcando-a, impregnando-a de coisas que muito falam de nós, de como somos família, de como nos entrecruzamos dentro dela, até que um dia ela regurgita de sombras, de silêncios, de ecos, qual película impressionada por flashes mais ou menos rápidos, projectados sobre as nossas presenças, mesmo fugazes. É assim que eu descubro uma razão para a existência de "casas assombradas"... Quantas vezes nos parece possível termos ouvido a voz de alguém que já partiu?
E vermos a sombra de alguém que já é apenas sombra? E ouvirmos o abrir da porta como só alguém fazia? E cheirarmos um cigarro há muito apagado para sempre?E até o guizinho da coleira do gato que também partiu... Sei que da efemeridade das presenças,resta a perenidade de todas as "marcas".Contra isto não há "mobilidade" que tenha poder.
Nada tem poder contra o charme indelével das nossas recordações !...
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