13 junho 2007

Santo ANTÓNIO

Aqueles santos e santas cujos historiais nos são presentes e onde tão edificantes exemplos poderiamos recolher para procurar imitar, sempre representaram para mim qualquer coisa de profundamente misterioso por me ser impossível imaginar em alguém, alguma vez, um estado de perfeita pureza. Mas, admirando-os e considerando-os sem nenhuma espécie de reserva, fico sempre aquém e por fora, mais espectadora do que discípula, tomando-os como referência em tantas circunstâncias da minha vida, embora incapaz de me ver na pele deles a tomar as iniciativas que eles tomaram de despojamento, de humildade, de coragem, de abnegação... E tem-me sido dito por quem sabe que nenhum santo decidiu que o iria ser e que, de nós, entre nós, podemos alguns estar já a percorrer o caminho da santidade porque a génese dessas vrtudes radica tão somente na nossa real capacidade de amar o outro e que só nessa especialíssima forma de amar pode estar a origem de todas as virtudes que algum dia poderão ser reconhecidas.
Seja-me pois permitido confessar que me sinto especialmente enternecida perante este SANTO ANTÓNIO que Lisboa festeja com uma exuberância perfeitamente pagã,pensando nele como um rapazinho da Lisboa do século XII que, esquecido de si, fugindo ao fácil, ao confortável, ao bom para si , amou sem medida, aproximando-se dos simples, sem nunca se furtar ao cumprimento das exigências mais duras. Foi certamente por tudo isso que ele foiadoptado pelo povo que o foi sentindo sempre mais um dos seus , aqui em Portugal ou em Itália, para lhe valer em situações difíceis, fossem elas males de amor ou perdas de qualquer espécie... Até o rei D. João V mandou erigir em sua honra o espantoso Convento de Mafra, porque a ele recorrera, pedindo um filho que tardava em vir ! E não é que o alistaram no exército agradecendo a sua intercessão nas vitórias alcançadas aquando da Restauração da Independência, sendo-lhe até atribuido salário e progresso na carreira militar , o que o levou até ao posto de tenente-coronel, por ordem de mais do que um dos nossos reis ?!
E é a esse inefável místico de cujo quarto irradiou uma noite, já perto da sua morte, uma luminosidade deslumbrante( dito por quem espreitou e viu) porque ele tinha nos braços , vivo, o pequenino Menino Jesus, é a ele que o povo reza o RESPONSO quando perde e quer achar um objecto qualquer e escreve quadras brejeiras por causa dos namorados, e ergue tronos de papelão com manjericos...Quão misteriosa, a santidade ! Se até os peixes alinharam à beirinha da praia para ouvir da sua boca aquilo que os homens não queriam ouvir, como será possível não amá-lo de uma forma diferente e não dizê-lo bem alto, cantando ou mesmo dançando, se nos ultrapassa o mistério que tudo isto encerra ?...

10 junho 2007

Camões e Eu

Eis aqui, quase cume da cabeça
de Europa toda, o Reino Lusitano,
onde a terra se acaba e o mar começa
e onde Febo repousa no Oceano.

ESTA É A DITOSA PÁTRIA MINHA AMADA
à qual, se o Céu me dá que eu, sem perigo,
torne, com esta empresa já acabada,
acabe-se esta luz ali comigo.

06 junho 2007

CRIANÇAS


Creio que já afirmei com muita clareza o quanto aborreço esta cércea que se tornou sintoma de globalidade e que dá pelo nome de "o dia de ". Sem podermos ígnorá-lo, porque a poderosa máquina comercial agita a comunicação social nesse sentido, aí somos nós arrastados na onda das comemorações maiores ou menores, conforme o grau de intensidade desse tsu-nami... Chego a pensar que já ninguém prescinde desses lembretes porque dá outro sossego não ter que carregar com mais aquela preocupação :" não me posso esquecer do dia da Mãe", p. e. . E porque lá passou mais um Dia da Criança que agora, segundo creio, também acumula com mais uma ou duas dedicatórias (Já não vão chegando os dias para serem de dedicação exclusiva!), aconteceu que me afundei em comiseração por aquelas mães que agora, agora mesmo, estão a sofrer daquela espécie de amputação que é volatilizar-se-lhes, como por magia ,aquele filho que elas tinham ali agora mesmo, aquele filho que elas nem sequer puderam ver morrer, se é que morreu( será? )... E multiplicaram- se de repente casos com crianças, todos dolorosíssimos, e reavivaram-se casos de mistérios tão antigos, nunca esclarecidos, e subitamente o Mundo apareceu cheio de crianças que ...Era mesmo oportuno celebrar este tal dia? Em nome de quê ? Da esperança? Ou da desesperança ? Da dor dos pais ou do sofrimento das crianças? Porque , nunca tendo tido a Graça de ser mãe, dei em passar muito tempo a observar, a escalpelizar os procedimentos dos filhos dos outros, daqueles pequenos seres que eu achava mesmo intrigantes, misteriosos até.Percebi que, desde que nascem, as crianças vão adquirindo "humanidade"( não descobri uma palavra melhor), por aquisição de hábitos. Tal como se habituam às horas das mamadas ou das papas, habituam-se a um horário de dormidas ou dos banhinhos e também se habituam às caras, às vozes, aos braços que as envolvem, aos beijos e carinhos dos que lhes são próximos. E nós, adultos, achamos que esse habituar-se é já afecto. Mas quando será que realmente nascem os afectos ? Os afectos puros, aqueles que não advêm do físico, que não podem relacionar-se com qualquer tipo de proveito, poderão acontecer ainda antes daquelas idades em que choram, no silêncio dos seus quartinhos, quando sonham ou imaginam que se separam do Pai ou da Mãe ? O mundo infantil, da pureza sempre ingénua, afectiva, límpida e generosa é pura ficção dos adultos. A única diferença entre, por exemplo, os ressentimentos e aversões infantis e os dos adultos reside no facto de, nas crianças, tudo ser deveras pouco duradouro. No entanto, se solicitadas por causas idênticas, sempre podem repetir-se com igual ou superior intensidade e requinte as suas manifestações negativas. Parece-me que a criança não odeia, não tem capacidade de elaborar uma pulsão de ódio, mas é capaz de persistir numa qualquer rejeição com violenta persistência. E é também capaz de criar e utilizar métodos para imposição da sua vontade, perfeitamente por si mesma catalogados, desde cenas de gritos e lágrimas escandalosas, em público, às manifestações de histeria com repercussões desastrosas para todos os envolvidos. Embora as suas reacções sejam espontâneas, do seu íntimo podem brotar manifestações de um ego interesseiro e calculista que ela sabe manejar com uma mestria insuspeitável . Exibe uns ademanes naturais, uns olhares oblíquos ou velados, uns sorrisos aliciadores, em espantosos joguinhos de sedução que a nós, adultos, ou divertem ou enternecem, levando-nos a pensar mas quem lhe ensinaria isto? Também nos "a propósito" de certas conversas embora saibamos que são puramente imitativos, denunciam as crianças uma espantosa capacidade de associação, muito mais precoce do que nós imaginamos. E , ao vê-las actuar nos primeiríssimos tempos das suas relações em sociedade, damos connosco a pensar como ela é esperta e inteligente! E entramos gostosamente nos seus esquemas carregados de charme mas, misteriosamente, quão cheios já de duplas intenções ! É claro que, pela vida fora, tudo se vai aprimorando pela educação, pelos exemplos próximos , sendo que aquele ronronar que sabem fazer, como os gatinhos satisfeitos, se vai transformando em palavras, e se vai moldando até pelo habitat.
Cabe aos adultos estar atentos, ser hábeis junto das crianças, nunca se permitindo certo tipo de manipulações que as adulterariam e, de genuinas que são, passariam a ser apenas crueis arremedos de gente grande.
Por isto tudo, nesta efeméride deste ano, com os acontecimentos que nos têm horrorizado, eu não poderia deixar de partilhar a amargura sem remédio das pobres mães, mas dos meus pensamentos não consigo afastar a perspectiva de sofrimentos de tantas crianças, por me parecer que sei adivinhar nelas mais essa misteriosa capacidade de sofrer, na sua forma tão peculiar, sendo infantil... Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor ?

04 junho 2007

De Eugénio de Andrade

Apenas um rumor

E no teu rosto aberto sobre o mar
Cada palavra era apenas o rumor
De um bando de gaivotas a passar...


Despedida

Colhe
Todo o oiro do dia
Na haste mais alta
Da melancolia...


Sobre a casa

Não há senão a casa viva do olhar
À beira do crepúsculo.
Não há senão
A vereda quase triste das palavras..


Palavras

Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
De um azul tão apaziguado?

E das consoantes, que lhes dirás,
Ardendo entre o fulgor
Das laranjas e o sol dos cavalos?

Que lhes dirás, quando
Te perguntarem pelas minúsculas
Sementes que te confiaram?

02 junho 2007

Seriam sessenta anos

Há sessenta anos contados hora a hora, era também, como hoje, uma bela manhã de sol. Em casa, todos nos levantámos cedo
A nossa casa, Avenidas Novas, fins dos anos trinta, era grande,com quartos e salas espaçosos acompanhados pelo longo corredor,cozinha ao fundo, casa de jantar à direita, guarda- vento
de vidro craquelé com batentes de mola a resguardar a zona da entrada e das salas"de receber".
Mas existia apenas uma única casa de banho. Havia quarto de "criadas" mas não era hábito fazer-se mais do que uma casa de banho...
Dizia eu que, naquele dia ,todos em casa começámos a movimentarmo-nos cedo, segundo um horário fixado no sentido de a casa de banho ficar absolutamente livre a partir das onze horas.
E porquê? Porque era essa a hora em que alguém viria armar sobre os meus fartos cabelos o
vaporoso e simbólico véu de noiva cingido pelo seu diadema de flores e botões de laranjeira...
Sim ! Era o dia do meu casamento !
Um pouco antes das onze horas, já vestira a saia do meu lindíssimo vestido, composto de duas peças em seda moirée,quase branca, quase pérola. A saia, direita à frente, abria atrás,sobre a cintura, aquilo que, em linguagem de costura, se chama um "macho"e que depois ia abrindo em
múltiplas pregas que davam roda à saia e formavam,por fim, a cauda.Sobre isto, havia o casaquinho, muito justo,todo ele abotoado,até ao remate do pescoço, desde a cintura, por dezenas de pequeníssimos botões, tal como as mangas, com botõesinhos desde a mão até ao cotovelo.Foi um trabalhão para abotoar tanto botão, mas era uma coisa muito vieux-style que
eu adorava,tal como o enorme laço que ,na aba do casaquinho,atrás, dava a ideia de que as pregas que iam formar a cauda se despenhavam dali, como se de uma cascata se tratasse...
Mas ,a estas horas, já a casa começara a encher-se de amigos e pessoas de família, uns que nos acompanhariam à Igreja, outros que vinham só para ver "a menina",tais como todas as vendedeiras "freguesas"( naquele tempo iam vender-nos tudo a casa, desde o peixe à fruta), as criadas já reformadas e as empregaditas das lojinhas próximas. Havia entretanto um crescendo de enormes arranjos de flores,por todos os cantos.Como era moda da época,fazia-se a exposição dos presentes recebidos: eram as "corbeilles".Para isso se destinava uma das salas devidamente decorada e fora preciso estudar e criar espaços de circulação tal como também na sala de jantar,porque os chamados "copos de água"nessa época, eram servidos e feitos em casa.Essa também uma razão para a mistura de cheiros e perfumes que se esgueirava por todos os cantos da casa, juntamente com pessoas em corridinhas que abriam e fechavam portas...
Estava programado que eu sairia para a Igreja ao meio dia e quarenta e cinco e,ao meio dia certo, chegou o meu ramo de noiva, um bouquet de açucenas fresquíssimas que pareciam acabadas de colher. A minha Mãe apareceu deslumbrante num vestido preto,longo e muito drapeado, e com uma capeline preta guarnecida de plumas de vários tons de verde-água,muito esvoaçantes. E lá veio o meu Pai, lindo na sua farda de gala,com espada e tudo...
Como não se sabia sequer que um dia viria a existir uma coisa chamada telemóvel, não houve comunicações nervosas entre famílias de noiva e noivo .Tudo havia sido combinado, programado e rigorosamente cumprido.Alguém me disse a certa altura que o CARLOS ´já chegara à Igreja. .As nossas casas,de ambos, eram a meia dúzia de metros da Igreja de Nossa Senhora de Fátima.
Cheguei e,ao sair do carro, apercebi-me de que fazia um vento desalmado;segurei o toucado com a mão disponível, porque a outra ia agarrada ao braço do meu Pai.E, frente às escadas que tinham sido cobertas por uma passadeira vermelha,tivemos a surpresa de que o vento,incidindo de lado, enfunava cada degrau como se fosse um pequeno balão.Rapidamente a espada do meu Pai deixou de ser apenas decorativa e os dois,de braço dado ,fomos subindo degrau a degrau , tendo o meu Pai previamente aplanado com a espada cada espaço onde eu devia poisar o pé... Lá dentro, ninguém percebia porque levávamos tanto tempo a subir uma talvez dezena de degraus
O meu NOIVO ! Esguio,elegante,a envolver-me toda com o olhar e o sorriso que só eu lhe conhecia...O altar, os genufluxórios, NÓS. À nossa frente o senhor padre Augusto, franciscanonosso conselheiro,confessor e amigo;à minha esquerda os meus Pais e agora Padrinhos;à direita do noivo, o seu irmão e aVera sua mulher, seus Padrinhos.Recebemo-nos nas bençãos de Deus,no amor de Jesus,"até que a morte nos separe"...Olho,por acaso,para a esquerda e vejo escorrerem pelas faces do meuPai lágrimas grossas,silenciosas,que caíam sobre as medalhas e o azul da sua linda farda...Foi como um sinal de partida para o meu choro,soluçado, nada silencioso,que pôs o meu noivo na mais dilacerante aflição:" não estás feliz?"perguntava. E eu estava,sim,muitíssimo feliz, mas com uma nova realidade para o resto da vida:o peito manchado de lágrimas de um Pai ,elas só memória e presença de quanta pequena ou enorme coisa só por nós dois vivida na outra vida que tiveramos com AQUELA que fora o seu primeiro amor e minha MÃE,tão nova nos deixando sendo eu quase ainda bébé!Eram lágrimas só nossas, de um amor que ali mais ninguém recordaria.
Terminada a cerimónia,foi a festa,os votos dos amigos,as brincadeiras,as fotos...Sei que nada comi embora me aparecessem nas mãos vários pratos com coisas moito apetitosas que várias pessoas vinham generosamente trazer-me. Tinha sim aquilo a que se chama um nó na garganta, de felicidade, de emoção,de coração a transbordar de amores diversos...
Saímos,por fim.Ia começar finalmente a "nossa" vida !
Do "Ficarmos sós", claro que não se conta, porque é o secreto património de encantamento a que na vida todos temos direito.

30 maio 2007

50 anos de Televisão

A nossa televisão oficial fez,a seu tempo, uma enorme comemoração pelos seus cinquenta anos de existência e, quase de forma institiva, nós, os que a vimos nascer, os que esperámos por ela com um certo entusiasmo e muita expectativa, comemorámos com ela muita coisa que, nas nossas vidas, começou logo, logo, a estar-lhe relacionado, quer por coincidência de datas, quer por aquisição de novos hábitos, quer por, preto no branco, nos aparecerem ali visíveis, quase palpáveis, coisas por nós sonhadas, imaginadas, ambicionadas e, pensávamos nós ,ínalcançáveis.
Mas alegrava-nos, em todas as suas revelações, às vezes trazia-nos mesmo coisas para fazer rir, muito ingénuas , óbvias, simplórias até, algumas vezes brejeiras, sem grandes pretensões, segundo creio.Era a televisão das famílias simples. E tinha publicidade, pois tinha, com slogans musicais que mais ou menos todos iamos cantarolando de cor : "candeeiros bem bonitos, cheios de cor e de brilho, só os vendem com certeza os Duartes pai e filho". Até ouvi uma vez o meu Pai a trautear isto, ele que nunca cantava ! "O senhor está constipado e ficou mal de repente, porque não teve cuidado, porque foi imprevidente..." e anunciava-se uma coisa simples, para a garganta, creio eu... Ora aí é que começa o que me leva hoje a só abrir a televisão para programas que escolho de antemão, para ver noticiários em épocas que os justificam ou para ver primeiras apresentações de novelas portuguesas para "sopesar" o seu valor ou interesse que possam justificar o continuar a vê-las ou não.A nossa televisão dos dias de hoje, ATERRORIZA-NOS .vive a meter-nos medo de quase tudo. Do conhecido e do desconhecido, do suspeitado, do provável e do improvável.No que se come, no que se bebe, no sol,na chuva, no calor e no frio, no que se anda e no que não se anda, no que se ouve, no que se olha, em tudo isto se vão descobrir perigos de aquisição de terríveis doenças, de epidemias, de alterações de ADN ,de desmultiplicações moleculares, de morte mais ou menos anunciada à la longue...No nosso país ou no fim do mundo, se alguém tiver dor de cabeça, é porque já aí vem uma endemia, uma pandemia, e vão moorrer os velhos, logo à cabeça, e os bébés talvez...E depois isto é dito e redito a todas as horas e a todos os propósitos e despropósitos, assim como uma lavagem ao cérebro...Tiram-nos a alegria de VIVER,com tais e tantas previsões e prevenções, com constantes deambulações por HOSPITAIS, com câmaras e microfones em cima de doentes vários e a escutar médicos mais ou menos insignes que só nos aconselham a ir a outros tantos médicos para ver se... Isto é um verdadeiro cerco, um ataque à nossa paz de espírito, um aliciamento à insegurança e ao medo. Que saudades daquela televisão que nos permitia chegar a casa, caír no maple preferido,`as vezes tirar os sapatos e fazer uns grunhidinhos de satisfação, esticando o corpo, alargando o sorriso e ver no écran falar da chuva ou do bom tempo, sem dramas, porque cansados de dramas já a vida de cada dia nos traz e de que maneira !
Creio que há uma ideia de que a cabeça de cada um de nós ficará leve se nos derem um binómio
de assuntos que vai desde palhaçadas sem classificação a casos de justiça puros e duros,aparentemente sem solução.E nessa convicção entram então,em vez dos hospitais, os tribunais.E lá vêm os dramas contados e recontados, e lá vem a frase "tenho comigo o sr. X que
assistiu..." E o encavacado sr.X a dizer que não era bem assim...e por aí fora. Creio que esta incidência nos casos de tribunal será para nos obrigarem a fazer exercícios de lógica, como acontecia nuns antigos programas do INSPECTOR VARATOJO...
Não há mesmo dúvida nenhuma de que estes cinquenta anos nos mudaram muito.Nós, o Mundo, a Vida... Mas, se há também coisas boas, o que me parece é que, mesmo essas, são um bocadinho menos doces...direi mesmo, mais amargas...

28 maio 2007

Se se atender às datas verificar-se-á que fiz aqui um intervalo maior do que o que é habitual nas minhas" considerações registadas".E embora os intervalos nem sempre signifiquem mudanças. este corresponde mesmo a mudanças. Decidira não continuar a pertencer àquela geração a que certa publicidade se refere dizendo que está ou quer "assapar" até por me parecer que isso não é coisa para a minha idade, e mudei para uma empresa que alia o telefone fixo de casa ao nosso computador e me parece ser uma coisa mais "à séria", como também agora se diz. E, mais económica também, o que náo é despiciendo. Só que as alterações cumpriram certas fases e depois a minha saúde resolveu também fazer pausa e pôs-me a pouco mais que pão e água por alguns dias. E, num regime desses, nem sei se se pensa, quanto mais se se escreve...
Que dá para deitar contas à vida, isso dá. E acendem-se projectores mais ou menos potentes sobre zonas também mais ou menos escuras que, no nosso ritmo diário normal de "passar por", não chegamos a encarar. É bom. Fica muita coisa muito evidente. E uma certa irritação por não termos sidos atentos, na hora certa...

19 maio 2007

Superstição?

Serei mesmo supersticiosa ? Não devo sê-lo. Não quero sê-lo. Mas ... suspeito que, mascarada com aquele apego ao que é tradicional, está mesmo a superstição,em práticas inocentes que, se as não concretizo, me deixam, no mínimo, incomodada.
Aconteceu agora, na quinta feira da Ascensão.
Todos os meus amigos conhecem já a Valentina. É mais do que aquela pessoa a quem chamamos uma empregada. É uma amiga.Toma conta de tudo aquilo que eu, a pouco e pouco, vou deixando de poder fazer e também de tudo aquilo que ela entende que me é útil, agradável, consolador, e por aí fora. É alegre, disponível, sempre atenta,porque, quando não está na minha casa, telefona, quer saber se "já não me dói", se "não quero que venha cá" etc.,etc.. Ora no Dia da Espiga,durante a manhã em que ela esteve cá em casa, nem eu, nem ela nos lembrámos desse velhíssimo "hábito" de adquirirmos um bonito ramo cheio de simbolismos, nesse dia. Quando eu mais tarde me apercebi da falta, fiquei incomodada. Mas já não podia fazer nada. Os tais raminhos, vendem-se pela manhã nas paragens de autocarro e pouco mais. Uma estranha
sensação de perda não me largava...
E não é que, às oito e tal da noite me aparece a Valentina, toda risos e divertimento, empunhando um belo ramo de Espiga e brincando comigo, como faz muitas vezes ,"desta vez a Senhora esqueceu-se mesmo !..."
Deste tão encantador gesto e da minha tão reconhecida alegria naquele momento, nasceram vastíssimos planos de interrogações que se estão ainda prolongando e me fazem reconhecer quanta coisa há para destrinçar nos nossos comportamentos afinal tão misteriosos...

15 maio 2007

Para não esquecer o meu latim

CREDO
Credo in Deum, patrem omnipotentem,creatorem caeli et terra. Et in Jesum Christum filium ejus unicum,Dominum nostrum, qui conceptus est de Spirito Sancto, natus ex Maria Virginis, passus sub Pontio Pilato,crucifixus,mortus et sepultus est; descendit ad inferos,tertia die ressurrexit a mortuis, ascendit ad caelos, sedet ad dexteram Dei Patris omnipotentis, inde venturus est judicare vivos et mortuos. Credo in Spiritum Sanctum,sanctam ecclesiam catholicam, sanctorum communionem, remissionem peccatorum, carnis ressurrectionem, vitam aeternam.Amen

13 maio 2007

Fátima

Milhares de luzes. Milhares de lenços brancos.
Cada um não podia aperceber-se da grandiosidade do conjunto.Era UM, no meio de muitos mil...
Por isso o culto da nossa religião se presta em comunidade. Por isso o nosso aprendizado fundamental é o da humildade. Por isso o nosso comportamento social é o da solidariedade.
Porque em cada UM, quanta dignidade!...

09 maio 2007

Robert Schuman e Jean Monnet

Seria uma coisa de estranhar que, havendo actualmente dias votivos para tudo, não houvesse um para celebrar esta realidade chamada EUROPA e cuja definição me parece tão difícil de elaborar. Pois é hoje, o tal DIA da EUROPA. Ouvi no noticiário da Rádio.Nunca me esqueci, nem esquecerei daquela figura carismática,sempre vestida de escuro,esguia,calva e de nariz agudo que anunciou a constituição da Comunidade do Carvão e do Aço em 1950, o senhor Robert Schuman. A Guerra ainda nos estava tão próxima, eu tinha acabado de vir de Londres onde ainda havia tantos daqueles tapumes que cercavam a enorme cratera que fora um bairro inteiro, e uns senhores chamados Schuman e Jean Monnet estavam a preocupar-se em arranjar mecanismos para fortalecimento de uma Europa onde não voltasse a ser possível acontecer tamanha calamidade.Jean Monnet congeminou mesmo a ideia de uns Estados Unidos da Europa, sendo Schuman partidário de uma política inspirada na Doutrina Social da Igreja, e Monnet o economista por excelência. Dos trabalhos de ambos foram nascendo esboços e aparecendo projectos que entusiasmaram muitos europeus. Parecia-nos que a tal realidade Europa seria a garantia da concretização de muitos sonhos. Caberá aqui falar em UTOPIA?.
Foi então no dia 9 de Maio que Schuman nos apresentou um primeiro modelo de UNIÃO,cujo texto inicial havia sido redigido por Monnet. E esta Europa que hoje temos começou por aí.
De 1950 a 2007, seria exequível manter os pressupostos de então ?

06 maio 2007

Dia da Mãe

Mãe de todas as Mães,
Nossa Senhora !

Não que para falar~te
haja um dia, uma hora,
mas hoje apenas vim para acolher-me
ás dobras do teu manto,
na dor de recordar
as Mães que não perdemos
pela saudade,
e As outras, As de agora,
deste inquietante mundo
de filhos tão dispersos
tão diversos,
( tantos cuidados, dor,
inquietações ou lágrimas de glória )
mas Filhos muito amados
teus, também...

Só por laços de amor
vim suplicar-te agora,
Mãe de todas as Mães,
Nossa Senhora !...

01 maio 2007

1º de MAIO

Veio o primeiro 1º de Maio, depois da revolução.
Uma mole imensa de povo veio para a rua, nesse dia !

Todos se falavam, muitos se abraçavam, mesmo sem nunca se terem conhecido
E riam alto, e cantavam, formando rapidamente grupos espontâneos . Surgiam de todas as direcções, sendo, no entanto, o estádio da avenida Rio de Janeiro o grande polo de atracção porque era aí que estava programada a enorme concentração, em que os dirigentes dos partidos dos “trabalhadores” iriam aparecer juntos e em pessoa para falarem àqueles cujo DIA se festejava...No entanto, era tal a multidão que, às tantas, já se não conseguia entrar sequer no estádio. E então, como lava escorrente de qualquer cratera, deslizava pelas ruas...Atravessou Lisboa, em cortejo, uma faixa da largura das avenidas, apenas com a palavra LIBERDADE preenchendo toda a sua área. Era de tal forma majestática e conduzida com tal andamento de pompa, que não havia quem não experimentasse uma certa forma de emoção, vendo-a passar.
Não houve uma briga, um desacordo, em todo aquele dia. Lágrimas sim ! Viam-se muitas em rostos de pele seca com olhos pisados e expressões tensas ; deslizavam sem controlo possível, tal como aquela LIBERDADE que parecia escorrer e ia vindo ao encontro de todos nós...

Era uma enorme emoção colectiva !
Por isso se gritavam slogans copiados de revoluções estrangeiras, na convicção de que o povo seria quem iria passar a ordenar.
O certo é que, nesse dia, ninguém pensava que, conquistada a possibilidade de se viver em democracia, os homens da Revolução , e os outros, iriam mostrar quão difícil é aprendê-la.

25 abril 2007

25 de ABRIL

...um dia, Portugal não mais aguentou e amanheceu num Abril como nunca ninguém tinha visto antes.
Quanto a mim, foi realmente uma coisa feliz, o facto de a chamada REVOLUÇÃO dos CRAVOS ter eclodido numa manhã, quando o grosso dos lisboetas se preparava já para sair de casa, para iniciar mais um dia de trabalho. Não sei como, em que altura do dia, aconteceram tantas outras revoluções no nosso país ou nos países estrangeiros, mas parece-me singularmente acertado que esta, deste nosso Abril, nos entrasse pelos quartos e pelas casas de banho, graças àquele Radio Clube Português mais uma vez metido nestas coisas de actuar sobre o acordar de uma população meio adormecida...É que, por esta circunstância, ficámos para sempre a poder falar de Abril em lindíssimas metáforas todas reportadas a esse acordar, alvorecer, nascer, começar e todos os seus sinónimos que expressassem a vontade de “partir para outra”, porque o regime já exaurira todas as capacidades de entusiasmo que, mesmo que tentássemos, já não conseguíamos de modo nenhum reactivar.

Houve então um turbilhão de coisas bonitas, a seguir a estas horas de acordar! Lisboa, a medo, apesar dos pedidos emitidos pelo Rádio Clube, foi saindo para a rua...Sabia-se que lá para a Baixa é que estava a “tropa”. Os dos bairros mais populares mais próximos pensaram logo que os soldados (“coitadinhos”!) deviam ter fome, ou não tivessem eles passado a noite em viagens...E lá foram prontamente aparecendo braços estendidos com púcaros de café a fumegar, em direcção aos soldados acastelados nos seus “chaimites”. De quem seria a ideia do que veio logo a seguir ? Teria mesmo sido a da pragmática Celeste Caeiro que, no Rossio, deu um cravo vermelho a um dos soldados que lhe pedira um cigarro que ela não tinha ?
Um cravo mais para aquele outro soldado, “ outro para si, senhor alferes!”, outro para o marinheiro, no Chiado ... e foi um mar de cravos encarnados, uma onda crescente e multiplicadora, que viria a dar um nome a esta revolução!
Iamos já nas margens do meio dia e já era por todo o lado o alarido –
Afinal era no Carmo, o centro de tudo. Lá é que estava o Salgueiro Maia (alguém também lhe dera um cravo) a confirmar-se como esteio da nossa confiança. Equilibrando-se em cima de uma árvore, o velho Sousa Tavares descobria o ponto estratégico para captar a sua reportagem tal como dezenas de outros mais novos infiltrando-se por todos os lados. Depois, a televisão veio a mostrar-nos tudo...Mas quem lá podia estar via primeiro, estava LÁ. !

Olha, olha, o Spínola entrou agora no Carmo !!!
Foi chocante, quando saiu Marcelo Caetano. Mas aí já se cantava em toda a Lisboa “Grândola vila morena, o povo é quem mais ordena " As movimentações no Terreiro do Paço e suas redondezas já chegavam ao resto da cidade como um ecoar de trovoada que se afasta...O dia foi chegando à acalmia da noite. Mas o que nunca ninguém vai poder roubar-nos é a beleza daquela manhã de sorrisos e cravos, de emoções tão novas e estimulantes. E " depois do adeus ", cantado como senha, primeiro, e depois como romântica lembrança pelo tão jovem Paulo de Carvalho, depois de "ficarmos sós", cada um em suas casas com a sua memória da Revolução, realizámos quanto agora teríamos que dar denós a este jovem país.

24 abril 2007

SAUDADE

...e quando foi manhã
tinhas partido.
Eu era
o destroço
sobrado
de uma luta sem glória...

Quantas manhãs depois
vieram recordar-me
as investidas feitas,
sempre, por nós os dois !


Contra a vileza
e a subtil maldade,
contra a hipocrisia
e a mediocridade,
contra o lugar-comum,
a dença e a má sorte
e contra o déjá-vu
e os assédios da morte...


A recordar-te assim,
foi-me o tempo passando
e esqueci-me de mim...
Só quando fui capaz
de, um dia, separar
o meu do teu viver,
reparei no que andara,
...e estava a entardecer !

20 abril 2007

MIA COUTO

"Instantaneando" a minha reacção quando soube da atribuição do PRÉMIO UNIÃO LATINA DE LITERATURAS ROMÂNICAS ao meu apreciadíssimo MIA COUTO,aqui estou, a apetecer-me imenso ser capaz do seu "FALINVENTAR" para dizer do enorme prazer que experimento ao lê-lo.Será mesmo lê-lo? É que ,pelas suas páginas, parece que reboa uma sonoridade toda nova e pode ouvir-se "nhenhenhar" o motor do velho automóvel,"cambalhotar" o mar,"bazarinhar" a "gentania"...E depois há como que uma certa mestiçagem da idade da inocência com os "satanhocos" de "carantonheação" que faz "minguar o coração" e esta mistura traz uma tal pureza que nos refresca como uma boa sombra, quando há muito calor.MIA COUTO diz que tem uma paixão por gatos e por isso mesmo adoptou aquele nome que o seu irmão pequeno lhe chamava.Será essa uma afinidade entre nós de que só tenho que orgulhar-me porque não é "um quem" qualquer que entende de gatos...Nem tão pouco é um qualquer que recebe este prémio atribuido por um júri representativo de trinta e tal países e que já premiou José Cardoso Pires, Agustina Bessa Luis e António Lobo Antunes.

17 abril 2007

EVIDÊNCIAS

EVIDÊNCIAS


Perdida um pouco a noção do tempo em que tive a sorte de ir contando com ela, hoje calculo em mais de vinte e cinco anos o período da minha vida durante o qual, regularmente, às quintas feiras, ela vinha passar o dia em minha casa unicamente para fazer costura.
Baixinha, muito magra, feições regulares, cabelo cuidadosamente lavado e curto, ela falava num tom suave, ligeiramente marcado pela toada alentejana, musicalidade que guardara da sua origem e de uma meninice vivida no seu Alentejo, servindo em casas senhoriais, ainda quase menina. Dizia que dessa época da sua vida trouxera o saber lidar com as coisas bonitas e boas das boas casas, o saber cuidá-las, o dar-lhes valor. E também o saber conviver com as “senhoras”, o estimá-las, o compreender quando e quanto a estimavam também.
E das costuras saltava muita vez, por gosto, para as compotas e marmeladas, no outono, para as filhós e as rabanadas, no Natal. E, muitas vezes, passava à tábua de engomar, para contornar com a ponta do ferro, com enorme mestria, os bordados difíceis e as rendas delicadas. Toalhas, naperons, lençois do meu enxoval à moda antiga, saíam das suas mãos mais tesos e com mais relevo do que em novos!
Mas a sua verdadeira opção profissional era a costura. Aprendera apenas os rudimentos. No resto era autodidacta.
Se acaso no seu percurso de costureira “ a dias” encontrava senhoras que sabiam e aplicavam técnicas da “arte”, ela aprendia com elas tudo o que achasse que valorizaria o seu trabalho.
E foi assim que se fez uma excelente executante de qualquer modelo que se lhe mostrasse, em figurino ou do qual simplesmente se lhe desse uma descrição. Porém, com a simplicidade que era sua natureza, nunca arvorou pretenciosismos de nenhuma espécie. E isso o provava, sendo igualmente aplicada e diligente a passajar um rasgão em qualquer pano de cozinha, como a fazer aproveitamento de retalhos com alguma criatividade em sacas ou pegas para tachos ou a pregar molas e botões onde fossem precisos. Daí passava, com a maior naturalidade, ao corte de um brocado ou de um veludo, para uma toilette minha.
Em tantos anos de convívio, pudemos falar das nossas vidas uma à outra. Éramos amigas!
E houve pormenores de profunda e dolorosa intimidade criada nem sequer através de confidências: apenas na presença de evidências!
Um dia, chegou a minha casa alquebrada, lívida e tarde, o que não era sua prática habitual. Acerquei-me dela um pouco mais e vi manchas vermelhas e arranhões profundos no seu pescoço, nos braços e nas pernas.
Chorou nos meus braços.
Acarinhei-a como foi possível. Limpei-lhe as feridas, untei-a com pomadas balsâmicas, a minha empregada preparou-lhe um chá calmante.
Ninguém fez perguntas. Apenas lhe pedi que não trabalhasse. E deixámo-la em silêncio.
Eu sabia (já ela mo havia contado) que o marido – um carpinteiro bêbado, jogador e pouco amigo de trabalhar – tinha saído de casa havia algum tempo, após vários e violentos desacatos em casa, quase sempre por não se querer levantar manhã, à hora a que se levanta quem trabalha. Choravam os filhos por um lado, desesperava a mulher por outro; todos eram maltratados .
Pois, neste dia, esperara-a, e ali mesmo, na paragem do autocarro, sovara-a até que alguns transeuntes lhe acudiram. E assim a tivemos em casa, sofrendo física e moralmente, na mais profunda das profundas humilhações que pode sofrer uma mulher, ainda por cima amiga do que é belo, organizado e pacífico... Dizia-se (na terra dela, e também na minha, havia esse conceito) uma “mulher de vergonha”, o que encerra uma enorme abrangência psicológica e moral, mas nem por isso separada do físico.
Quantas mais situações dolorosas e ofensivas deste seu conceito ela não teve que suportar!
Depois, foi o criar os filhos, sozinha.
O vê-los revelarem-se à medida que cresciam... O filho, cada ano com mais semelhanças com o caracter do pai. Das filhas só uma foi ficando empreendedora, diligente, perfeccionista, como a mãe. A outra herdou, do pai, a preguiça, mas desenvolveu sozinha uma imensa ambição que a levou a um casamento e depois a algumas relações reveladoras da sua voracidade pelo “ter” e da sua impreparação para “manter”. De tudo isto, trouxe dois filhos, de dois pais. Para a avó, vencidos os desgostos, foram estes as suas alegrias que até já nem ousava esperar.
E passou a trazer-nos retratos dos netos, a contar as suas graças, primeiro, os seus êxitos, depois.
Andava um pouco mais feliz quando o filho, feito o serviço militar, resolveu casar-se e ir viver a sua vida. Em boa hora, porque de novo, em casa, começara a haver alguém que não queria levantar-se, de manhã...
Veio então uma nora sui-generis, “mulher de cafés”, no dizer da sogra.
De trabalho, na casa do filho, falava-se com uma noção diferente, com conotações diferentes das que eram suas conhecidas. Eram folgas, turnos, serões, compensações, o “desemprego”...
Que fazia a nora? Fumava. Fumava muito. E bebia cervejas. Saía de casa só para ir beber uma “cervejinha”...
E o filho, que fazia? Andava de emprego em emprego. Era serralheiro.
Aprendera na “tropa”, mas, no seu entender, ninguém lhe pagava quanto merecia.
Destes dois nasceu um filho. Outro neto. Outra alegria para a avó.
E os cafés da mãe ? E os empregos do pai? Disse-lhe alguém que o neto-bébé ficava horas e horas sozinho em casa.
Novos sofrimentos. Novas confrontações. Mas agora com uma nora. Das difíceis lutas de mulheres, por um homem, por uma criança, que sabia esta avó, mansa e doce, tão sofrida e tão pouco “urbana”, por comparação com esta nora, assim diferente?
Foi nisto tudo que se foi fazendo velha.
Mais velha do que a própria idade.
Chorou tanto, coseu tanto que os seus olhos começaram a dar sinais de cansaço.
O que ela mais receava era não poder continuar a coser.
Da sua casa, onde acabara por ficar sozinha, onde conhecia de cor as esquinas, os cantos, as pregas dos tapetes, a altura dos degraus, vieram dizer-lhe, um dia, que iria ser demolida, como as outras por ali perto, porque iria ser construída naquele local uma nova e espampanante urbanização.
Não quis acreditar. Esperou.
Mas não deixou de chorar.
Até que a operaram aos dois olhos.
Já entretanto tivera que deixar as casas onde sempre trabalhara, porque não via para coser.
Tornou-se evidente que, em casa, não poderia mais bastar-se a si mesma. E foi nessa altura que reapareceu a questão da casa, do bairro, da demolição. Era agora, sim, que a Câmara se propunha a realojar as famílias, desafectar as casa.
Foi o golpe da misericórdia!
Encontraram-lhe um Lar!
Felizmente um bom Lar. Criado e mantido por uma organização religiosa católica. Ela aí se instalou, perfeitamente compreensiva da situação, conformada, quase contente por ir passar a sentir-se como que protegida.
Como se movimenta bem, como sempre esteve no hábito de contar só consigo, no lar, ao seu jeito educado, quase cerimonioso, procura não incomodar ninguém, basta-se a si mesma, em tudo o que é possível. Às vezes sai, desde que seja para fazer percursos que já conheça muito bem. Faz umas pequenas compras pessoais, umas visitas...
È que a operação aos olhos não foi muito bem sucedida. Surgiram complicações que nunca permitiram que recuperasse completamente a visão.
Como a minha casa é relativamente próxima do lar e ela conhece de cor estas redondezas, assim me vem visitar, nunca esquecendo datas de aniversários ou de outros quaisquer acontecimentos que marcaram a minha vida.
Traz-me sempre uma flor, um presente.
Hoje, quis demorar-se. Almoçar.
Percebi que precisava de que a ouvissem e facilitei a conversa.
Falou muito do lar.
E de súbito brotou da sua boca catadupa de palavras, de queixas.
Não do lar. Não das religiosas. Não das actividades: - “imagine a senhora que até me puseram a representar teatro!...” – e ria, maravilhada com o que conseguira fazer.
O que a desespera, o que a põe fora de si é a convivência com as outras habitantes do lar. Falsidades, invejas, ciúmes mesquinhos, maldadesinhas industriosas, implicações miudinhas, desconfianças, intrigas...
A narração das pequenas histórias exemplificativas de tudo isto, histórias que se desenvolvem no dia-a-dia, na hora-a-hora daquela convivência não desejada, mal suportada, durou uma tarde inteira, com avanços e recuos, com repetições enfatizantes, pormenores rebuscados...
Quando, por fim, se despediu, agradeceu, agradeceu. E porquê? Se eu, desta vez, entontecida pelas histórias, até me esqueci dos habituais presentinhos de marmelada, um bolinho, uma compota...
Penso que o tê-la ouvido, o tê-la deixado aliviar-se daquele saco de mágoas, o tê-la deixado sentir-se mais próxima do seu antigo clima de confiança, do seu antigo mundo de relações, o tê-la deixado reviver a sua mais-valia individual, fora daquele mundo de comunidade forçada onde agora se move, penso que, neste dia, foi o melhor presente que podia ter-lhe dado.
Saiu, sabendo eu e ela, que iria voltar de outras vezes, sabendo que aqui poderia, uma vez mais, encontrar o alívio para uma nova espécie de mágoas...

E foi então que se me instalou um nó na garganta, porque acabara de se me tornar evidente a inevitabilidade de uma espécie de divisória que, a certa altura de todas as vidas, se ergue, barrando um percurso, obrigando a outro.
Basta, para isso, que qualquer parte do nosso mecanismo físico claudique, umas vezes apenas porque simplesmente envelheceu, outras vezes, porque os insidiosos disparos das doenças podem colher-nos à queima-roupa ou, tendo corroído de mansinho, resolveu eclodir num certo dia, como a lava de um vulcão adormecido...
De repente, para todos nós, num certo dia, tornar-se-á evidente que é forçoso passar para o outro lado da divisória.
Adeus independência, adeus escolhas próprias, mesmo até: adeus solidão!
Doce e reconfortante solidão que nos permite sermos donos de nós mesmos, das nossas memórias até às nossas manias.
Doce e reconfortante solidão!
Doces sinais de vida, ainda!...

09 abril 2007

07 abril 2007

Tríduo Pascal

Como eu gostava de que todos os meus amigos que, quase orgulhosamente, se dizem ateus compreendessem que a FÉ não é uma coisa que se aprenda, que se estude, que se imite, que se deduza... Tenho suportado alguns afrontamentos mais ou menos subtis, não directamente por causa da minha FÉ, mas por causa da prática do culto que a ela corresponde. Chegaram já a questionar-me pela incoerência,(quanto a eles) entre as minhas práticas de culto e a minha inteligência. Supor, calcular, depreender sobre exigências ou reacções da sensibildade do "outro" é sempre falível e os meus amigos ainda não entenderam isso. Até porque, com um conhecimento superficial e primário da História da religião que professo,é claro que não podem compreender o que significa, por exemplo, ouvirem-se determinadas partes das LEITURAS e da própria MISSA, umas vezes de pé, outras não. Este seria um tema que me faria alongar muito, o de explicar o que já desisti de explicar-lhes, quando o que eu queria era mesmo falar destas celebrações do TRÍDUO PASCAL nas quais venho tomando parte ao longo da minha vida, sempre com igual sensação de pobríssimo acto de contrição e simultânea declaração pública da minha indefectível dedicação a esse JESUS que, esse sim, me foi "APRESENTADO", logo que nasci, por uns PAIS que eu fui vendo adorarem-no enquanto eu fui crescendo e aprendendo o Mundo... Quanto a actos de culto, tenho presenciado como é fácil aos Homens praticarem-nos por causas que nada têm que ver com aquela fundíssima dignidade que pode fazer de um de nós uma criatura sublime... E que eu creio que é a nossa parcela DIVINA!
Estivemos pois a rememorar aquela extraordinária ceia da qual emanaram todas as lições de humildade, de comunidade, de amor total, de paciência, de comprensão e,depois, estivemos postos em presença da CRUZ. Foi notável, como nos é tão preciso o silêncio para melhor "ver". No dia seguinte ao do movimentado Lava-Pés, foi uma longa e silenciosa fila de adoradores da CRUZ que nos permitiu pensar como CAMIILO PESSANHA "Oh quem pudesse deslizar sem ruido//no chão sumir-se como faz um verme..." Perfilou-se perante nós e a nossa pequenez a imensa solidão daquele CRISTO injustiçado, injuriado, torturado, só porque acreditou que nós o mereciamos...
E revivemos as grandes figurações das procissões que nessas horas o povo acompanha pelas ruas

O CRISTO, AO ALTO, ALONGA OS MAGROS BRAÇOS NUS
[...]
PENDENTE DA CRUZ NEGRA, ENVOLTO EM LUAR FRIO
[...]
E O CRISTO AVANÇA, Á LUA, ESPLÊNDIDO E CHAGADO

(José Régio)

A fortíssima marca que nos encharca a alma irá, como é costume, aligeirar-se com o festivo tilintar dos sinos da noite da nunca compreendida RESSURREIÇÃO...
É matéria de alma e disso os meus amigos nunca saberão nada !

29 março 2007

SOLIDÃO

De JOSÉ GOMES FERREIRA
Nunca mais
deixes sangrar no coração
esse violino de punhais
a que chamam solidão.
Transforma-o noutro violino de astro fundo
para que a tua canção
chegue à nossa pele
e aqueça o mundo
( embora te gele )...

27 março 2007

Luxo Asiático









Uma pessoa amiga enviou-me um e-mail com um verdadeiramente admirável documentário sobre esta deslumbrante obra no DUBAI. Trata-se do único ( ? ) hotel de 7 estrelas do mundo e se acaso por lá "passarmos", só para o visitar, teremos que pagar 60 euros... O resto é o chamado luxo oriental.As salas, salões e salinhas, os quartos, as suites, os bares ,as piscinas... É tudo para os gostos de pessoas que certamente condizem com aquilo, em género e número.
E, nem eu sei porquê, veio-me à memória uma pequena mas atribulada viagem das que fiz ,em serviço, ao LUXEMBURGO. O meu voo ia a FRANKFURT e lá apanhava a ligação para o Luxemburgo. Tudo estava calculado ao minuto para que chegasse ao hotel à hora certa de,arranjada e perfumada, me incluir no grupo que acompanharia o nosso ministro, que chegara de manhã ao hotel, para irmos a um importante jantar na nossa embaixada. Aconteceu que, de pequenos atrasos em pequenos atrasos, cheguei a Frankfurt quando o meu avião para o Luxemburgo, estando ainda na pista, já tinha fechado as portas e se preperava para começar a rolar ...Originou-se um espantoso movimento em todos aqueles serviços, porque era uma pessoa e a sua bagagem que era forçoso meter naquele avião.Tudo em movimento, de mim só se exigia que corresse desde o balcão da chegada, até à porta daquela saída...Era uma lonjura ! E eu corri. Creio que corri ali tudo o que tinha que correr para o resto da minha vida ! Mas ( e aqui me surge o Hotel do DUBAI ) o que vou encontrar numa zona daquela minha pista de corrida ? Talvez umas duas dezenas de cidadãos árabes, alguns agarrados às suas contas de rezar, com as suas características roupas claras e turbantes,dormindo profundamente,espalhados por todo aquele chão !!! Era, para quem queria passar, um verdadeiro campo de obstáculos, só se podendo avançar saltando por cima de um e outro e outro corpo...E foi o que eu fiz, meu Deus, tão aflita ! Convém que diga que cheguei ao jantar importante já sózinha porque,é claro, o senhor ministro não iria chegar atrasado por causa de um dos seus elementos de équipe, que não fui lá muito perfumada, que não usei o vestido que levara para aquele fim, mas que ainda cheguei a tempo de tomar um qualquer aperitivo antes de irmos todos para a mesa...! Sonhei depois que o ministro e o embaixador estavam a dormir no chão da embaixada e todos à volta, vestidos de árabes, falavam baixinho uns com os outros...Penso que ,no meu sonho , eu já nem existia...







25 março 2007

UNIÃO EUROPEIA

Muitas coisas verdadeiramente grandes da História foram acontecendo ao longo da minha vida e em algumas até tive uma fímbria de intervenção. Mas que a existência da União Europeia ,que nós começámos por baptisar de CEE, já tenha 50 anos, isto até me parece mentira ! Um dia em que tive a sorte (digo-o porque ele sempre foi alguém interessante, não por fascínio de colecção de vips) de tomar café com o senhor DELORS, no tranquilo salão do Hotel Ritz, ele disse-me: Não se esqueça !Virá tempo em que vamos pensar em tudo "isto" como tendo sempre feito parte das nossas vidas! ISTO era precisamente, durante outra presidência portuguesa, em que os trabalhos a decorrer, às vezes causavam alguns sobresaltos momentâneos. E lá foram 50 anos em que o Mundo virou os pés pela cabeça e eu para aqui a envelhecer e a transformar-me num baú de recordações !Mas oiço o Hino à Alegria com um certo frisson...Sempre é verdade que já está fazendo parte da minha vida. E o corpo é uma harpa de repente.Animal de Deus, eu.Uma ferida.(Herberto Helder)

22 março 2007

MIGUEL TORGA

Hoje é preciso ler Torga !

INVENTÁRIO

E,apesar de tudo, sou ainda o Homem!

Um bípede com fala e sentimentos,

ao cabo de misérias e tormentos,

continua

a ser a minha imagem que flutua

na podridão dos charcos luarentos.

Sou eu ainda a grande maravilha

que se mostra no mundo.

O negro abismo que tem lá no fundo

um regato a correr,

uma risca de céu e de frescura

que murmura

a ver se alguma boca a quer beber

!

19 março 2007

DIA DO PAI — DIA de S.JOSÉ


Ao meu Pai que se chamava José.


Primeiro, a mão pequenina
aprende os gestos em cruz
e a boquita já murmura
"Em nome do Pai...", que era
Pai do Menino Jesus...

Junto à cama, pela manhã,
e à noite, à cabeceira,
aprende-se a ajoelhar
pra falar com o Pai do Céu...

Mas ao da Terra, esse Pai
que pousa em nossas cabeças
a mão quente, a abençoar,
e nos acolhe nos braços
quando nos fazem chorar,
aprendemos a amar....
Era uma outra maneira...
Ligavam-nos outros laços...

Crescemos, vamos partindo
e muita coisa aprendendo
mas tanta não entendendo,
que os Pais ( da Terra e do Céu)
nos parecem estar fugindo...

Difícil, esse ABRAÃO que o seu filho mataria!...
E mesmo o Pai de DAVID, que do Senhor o escondia...

Juntámos, sempe com dor,
às imagens mais sofridas
a aprendizagem cristã
de pecar, mas ser amado
por esse Pai que de nós
em caso algum desistia...

E foi que então descobrimos
que éramos nós, de joelhos,
e o nosso Pai que acolhia,
nessa tela de REMBRANDT...

17 março 2007

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Desde que, em 1979 , me deparei com a MEMÓRIA DE ELEFANTE, nunca mais deixei de estar atenta ao que iria sair da pena daquele "construtor" novo na literatura portuguesa. À medida que foi produzindo, o fui eu apreciando mais e mais, não já tanto pelos temas que desenvolvia, mas pela originalidade formal, pelo gozo que lhe adivinhava na experimentação de certas construções, na novíssima adequação de certas palavras, no "labor" da execução. De tal forma isto era para mim fascinante que adquiri um hábito de o ler à maneira do que dizia Napoleão d'abord je m'engage, puis j'y pense . Não que a forma prejudique o conteudo ! De modo nenhum; antes lhe dá uma certa "efervescência"( como eu receio ser aqui mal interpretada!) que eu acho muito inovadora na textura da prosa portuguesa. E assim foi que me senti premiada quando agora foi atribuido um prémio dos maiores a este meu sempre "escolhido" Lobo Antunes...Li algures que este prémio pretende consagrar quem tenha contribuido para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa. De todos os que até agora receberam o PRÉMIO CAMÕES para a Literatura, haverá algum que mais o tenha merecido ? E não terá ele merecido mesmo outros reconhecimentos oficiais das suas tão específicas qualidades ?

08 março 2007

Dia da Mulher / 8 de Março

Dizer de ser Mulher
será preciso?
Umas das outras, nós sabemos tudo.
E a forma como damos a saber
a força imensa
da nossa fraqueza
é sendo mães, amando,
fazendo do trabalho uma alegria
e dando tanto a todos, em beleza,
quanto nos dá o pão de cada dia...
Dizer de ser Mulher
é dizer companheira,
se ter um companheiro for destino...
Dizer de ser Mulher
é dizer ser presença, ser esteio,
sendo a parte mais frágil do cristal
num mundo muito pouco cristalino...
Dizer de ser Mulher, será preciso ?
Arriscámos um dia o Paraíso
por uma convicção bem definida:
ser MULHER
era só , afinal,
ser a fonte da VIDA !...

06 março 2007

É possível"conversar"ou só "falar"?

O sábio fala para dizer "ALGUMA COISA".
O néscio diz "QUALQUER COISA " só para falar.
Platão

01 março 2007

KAROL-um homem que se tornou Papa

Escrevo hoje ainda sob a fortíssima emoção que me provocou o visionamento de um DVD que me foi oferecido por uma amiga "porque sabia que eu ia gostar".
Trata-se de um conjunto de dois discos realizado por Giacomo Battiano, com banda sonora da autoria de Ennio Morricone, e com o título KAROL_ O homem que se tornou Papa.
Claro que, como a minha amiga previra, gostei.Gostei muito. Mas sofri muito. Posso dizê-lo, mesmo correndo o risco de que quem acaso ler estas notas possa achar o emprego aqui do verbo sofrer,não só um exagero, mas também um lugar-comum.
A verdade é que eu não esperava ser assim subitamente posta em presença viva, real, do drama, da tragédia, que se abateu sobre a Europa da minha juventude e da qual nós, em Portugal , mal tacteámos apenas as franjas, mal nos démos conta de dores remanescentes de cada dor maior que se ia sucedendo a outra, e a outra,e a outra...
Na pátria de KAROL WOJTYLA ,aquele desprezo pelo ser humano, que foi manifestado desde o tirar a vida, até, em gradação regressiva, tirar as casas, as escolas,as igrejas, as cidades, e os alimentos, e os hospitais, e tudo, tudo, foi a manifestação mais repugnante que eu já esquecera de quanto o ser humano é também capaz de descer tão demoníacamente fundo...
Porque eu conheci gente "da guerra". Estudei com alguns que chegaram até à minha Faculdade, então ali a SÃO BENTO.Vi,passadas por baixo das mesas, as primeiras fotografias dos campos de concentração, tão inimagináveis que parecia que nos queimavam as mãos. Fui despedir-me de alguns que partiram para alistar-se nos seus países depois de deixarem aqui a família a salvo.
Logo que foi possível, já casada, fui a PARIS conhecer uma irmã da minha sogra que não arredara pé da sua casa em Montmartre, com ocupação, sem ocupação, agarrada àquele então lendário desamor de franceses por alemães.Levámo-la a jantar fora. Ainda não estavam reabertos muitos restaurantes, mas queriamos mimá-la, passeá-la...E no primeiro jantar surpreendi-a a,surrateiramente, meter na sua carteira os pedaços de pão que restavam na mesa. Como era possível ?...Depois de uma conversa carinhosa percebemos o seu " terror" doentio de ficar sem pão... E já não havia guerra! E havia muito mais terrores de que, como graça de DEUS ,nos fomos esquecendo...Isto é : pensamos que nos fomos esquecendo. O "meu"Saint Exupéry dizia depois de uma passagem por Lisboa, nessa época, que "Lisbonne en fête défiait l'Europe".Fazíamos a Exposição do Mundo Português e era mesmo uma festa. Mas não foi suficiente para apagarmos as nossas memórias dolorosas. Veja-se : basta que nos salte ao caminho um DVD e eis que tudo reaparece a parecer-nos que foi um mau sonho !
Pobre,sofredor, perseverante,não seria mesmo este o caminho da santidade de KAROL WOJTYLA ?

24 fevereiro 2007

JULGAMENTO

Se para preencheres a solidão
precisares de trair
ou renegar os códigos sensatos
aceites de antemão,
não serei eu, irmão,
que virarei pra baixo o meu polegar
na hora dos juízes que hão-de vir
ler-te acordãos pra penas e pecados,
imponentes no seu poder juigar...
Não estarei eu, irmão,
nessa denúncia do segredo antigo,
nessa vileza de chamar traição
ao desamparo que,por um amigo,
te fez de instintos,
mais que de razão...

21 fevereiro 2007

CINZAS

Nos primeiros tempos do cristianismo, os cristãos que considerassem ter prejudicado ou ofendido alguém, pecando e reconhecendo-o em sua consciência, dirigiam-se à sua Igreja no primeiro dia da quadragesima, após o período mais ou menos orgíaco do carnem vale, e recebiam, sobre as suas cabeças, cinzas abundantes com que os sacerdotes os aspergiam antes de os conduzirem à porta do templo para que, a partir dessa ocasião, e para verdadeira expiação não voltassem a entrar lá,não podendo passar do átrio exterior,durante os quarenta dias que iam seguir-se,não lhes sendo portanto permitido tomar parte ou simplesmente assistir às cerimónias próprias desta época.
As cinzas de que eram cobertos simbolizavam a precaridade da vida em pecado__LEMBRA-TE DE QUE ÉS PÓ__ mas, ao mesmo tempo, a expiação oferecia ao penitente a possibilidade de se afirmar na sua confiança na MISERICÓRDIA DE DEUS, pois sabia que, cumprida a penitência com real humildade e arrependimento, voltaria a ser recebido na Casa de Deus.
Como máxima manifestação de humildade e desapego das venalidades, os penitentes substituiam as suas roupas habituais por uns toscos sacos de serapilheira com apenas umas aberturas para a cabeça e braços e com isto vestido passavam toda a quadragesima.
Longe deste rigor, vamos nós hoje receber ,do nosso sacerdote, um sinal de cruz feito pelos seus dedos previamente mergulhados em cinzas, sinal que as nossas testas guardarão exteriormente por alguns segundos, porque o pó é pó .E a precaridade desta duração também nos pode dar muitos tópicos de meditação. Do que fica no interior das nossas cabeças, há outro registo que aqui não vem ao caso. Mas destes sinais exteriores,pergunto-me : há uma outra cinza, vivo sob outra espécie de vento, ou sou eu que perdi demais a minha capacidade de ser PÓ ?...


18 fevereiro 2007

Domingo de CARNAVAL

Estamos em pleno período de Carnaval .Lisboa está a disfrutar os seus dias de pacatez e certamente isso acontece por esse país além, em todas as cidades e vilas e lugares que não se sentiram vocacionados para o gozo e divertimento públicos em data e hora marcadas pelos calendários internacionalizados.Se olharmos esta época como uma boa oportunidade de pausa para tarefas que mais ou menos a justifiquem,ela é pura e simplesmente deliciosa...Recordo as minhas fériasinhas em Saint Cergue e no Tirol, aquelas escapadelas de um só dia às concorridíssimas pistas de neve cujos nomes só recordo quando há transmissões de corridas pela TV...
Mas isso não é aquilo a que vulgarmente se chama CARNAVAL. Esta festividade,como quase todas as que entraram na tradição popular, com mais ou menos legitimidade, vai radicar~se em tão antigas como deturpadas origens.
A degradação social e moral que veio acontecendo progressivamente antes da chegada de CÉSAR ao poder,em ROMA, acrescida da quase total aceitação pelos Romanos dos nomes dos deuses gregos em substituição dos dos seus próprios deuses, tornou como que mais liberal e depois mesmo libertina a relação dos homens com os deuses, visto que os deuses gregos tinham características menos míticas e qualidades mais humanas do que os deuses romanos. E assim as inúmeras festas que eram feitas em suas homenagens foram adquirindo configurações especialíssimas consoante fosse a "esfera de acção" do deus celebrado. Foi assim que, em 186 AC, as Bacanais levaram à prisão e execução inúmeras pessoas que tomavam parte nas festas.Baco era o nome que os Romanos haviam retirado de uns gritos de euforia produzidos pelos gregos nas festas de DIONISOS, deus do vinho e dos prazeres.
A isto e muito mais se deve o CARNEM VALE que apareceu não logo, logo,como a medieval tradução literal do"adeus à carne", mas ainda como aquela festa em que nada parece mal, como ficou registada no adagiário português.
Ignoro como o Mundo girou para que o grande Carnaval das loucuras fosse acontecer noBRASIL,ou como, no séculoXVIII, em Veneza, requintadas damas e viciosos Casanovas criaram a sua lindíssima tradição carnavalesca. Porém intuo que os rebolados nus brasileiros devem ter muito que ver com o clima e quedo-me perplexa ao ver em Portugal, agora , despirem-se com estes frios, ao sabor da imitação mais descabida...
A tradição portuguesa nunca foi de nus. Estou a pensar em como se estragava a roupa, nos anos trinta ( séc.XX), quando grupos de foliões, ao virar de uma esquina, nos esborrachavam ovos e pastéis e outras coisas pastosas, sobre os fatos e os cabelos. O que eu própria sofri sendo atacada à saída do colégio , com bisnagas esguichando líquidos de que eu tinha verdadeiro terror.E as pancadas secas de uns certos saquinhos jogados com mestria para se esvaziarem de areia sobre as nossas cabeças e roupas. Mas, agora mesmo, os executantes da Dança dos Cuzes, em Cabanas de Viriato, estão vestidos da cabeça aos pés...Tudo isto nos fala de um carnaval de rua. Mas as mais lindas versões de Carnavais de Salão, bem portugueses ,de princípios do século XX,são as que me foram contadas _vividas_ pelos meus Pais.No Porto e em Beja.
No Porto,uma das noites de Carnaval era de ida a um dos teatros da cidade, todos vestidos rigorosamente de gala,senhoras e senhores. E então,"jogava-se" ,em troca das serpentinas das actrizes, atirando para o palco caixas com joias verdadeiras...Em Beja, havia, no Clube, três bailes de gala ( um por cada noite), onde as ceias eram volantes.Na hora própria, entravam no salão de baile pequenos carrinhos puxados por carneiros de pêlo alvíssimo decorado com laços de fitas de cores,carrinhos esses que vinham "carregados" com as mais variadas iguarias armadas artística e tentadoramente.Os carrinhos iam circulando e todos se iam locupletando a gosto...
A que distância de tudo isto fica a actual passagem de cortejos onde se mostra uma preferência nítida pela perversão na confusão dos sexos ou pelas piadas pesadas sobre política ou sobre factos sociais,tudo muito nu e...ao frio
Aproxima-se então uma outra época em que todos vamos saber porque dizemos CARNEM VALE...

14 fevereiro 2007

Dia dos Namorados

E não é que hoje é outra vez "dia de" ?
Dia dos Namorados. De São Valentim. Um São Valentim que até pode ser um de dois visto que , do século lll até hoje, não se adquiriu a certeza sobre qual deles era o que, bondoso e apiedado, casava às escondidas os soldados romanos aos quais uma disciplina rigorosa proibia o casamento.
Mas em Portugal sempre tivemos um único querido e popular santo casamenteiro que foi o nosso Santo António. Sabemos bem que nas primeiras idades do Cristianismo houve muita vez um aproveitamento de festividades ainda pagãs, ligadas quase sempre aos ciclos da Natureza, adaptando-as habilmente a celebrações novas que o povo continuaria a memorizar, ainda que fosse por outras causas. Assim estes São Valentins, que viajaram por outras paragens sem se tornarem necessários a Portugal porque os nossos NAMORADOS, sempre que precisaram de ajuda, tiveram o seu SANTO ANTÓNIO. Ligados a ele,quantas trovas populares, mais ou menos citadinas, mais ou menos de ambiente rural, quantos manjericos lisboetas, quantos bailaricos, quantas fogueiras para saltar e quantas lendas ! Não resisto à tentação de deixar aqui registado este "mimoso" poema de AUGUSTO GIL onde a candura da história não deixa de aflorar pontos-chave da vida do Santo.

O PASSEIO DE SANTO ANTÓNIO
Saíra Santo António do convento
a dar o seu passeio costumado
e a decorar num tom rezado e lento
um cândido sermão sobre o pecado.
Andando,andando sempre, repetia
o divino sermão piedoso e brando
e nem notou que a tarde esmorecia,
que vinha a noite plácida baixando...
................................................................
O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
o Menino Jesus baixou do céu,
...............................................................
Perto, uma bica de água murmurante
juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.
De braço dado para a fonte vinha
um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
ele trazia o coração no peito !
Sem suspeitarem de que alguém os visse,
trocaram beijos, ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
_ Ó Frei António, o que foi aquilo?
O Santo, erguendo a manga do burel
para tapar o noivo e a namorada,
mentiu com a voz doce como omel:
_ Não sei que fosse.Eu cá não ouvi nada...
Uma risada límpida e sonora
vibrou, em notas de oiro pelo caminho.
_ Ouviste ,Frei António ? Ouviste agora?
_Ouvi,Senhor,ouvi.É um passarinho...
_ Tu não estás com a cabeça boa!
Um passarinho a cantar assim?
E o pobre Santo António de Lisboa
calou~se, embaraçado, mas por fim.
corado, como as vestes dos cardeais,
achou esta saída redentora :
Se o Menino Jesus pergunta mais,
queixo-me a sua Mãe, Nossa Senhora !
......................................................................
Pegou-lhe ao colo e acrescentou: _Jesus,
são horas. E abalaram pró convento.
´
Foi nestes namorados que hoje me apeteceu pensar.Sem presentes do estilo shoping-center, sem jantares com menus afrodisíacos, sem ramos de muitas dezenas de rosas... Apenas com beijos ,se possível, ao luar, com alegria transbordante e... com um suavíssimo Santo António a
pactuar com a beleza de um amor assim...

11 fevereiro 2007

Dia de...NOSSA SENHORA DE LOURDES

"Hoje é o dia de ser bom" diz António Gedeão numa das suas mais amargas ironias, esta sobre o dia de Natal em casa de uma família de classe média- alta do seu, do meu, do nosso tempo.Dia de ser bom tão contemporâneo e contraditório que o menino-herói dessa família exulta de felicidade a utilizar em delírio os presentes que recebera, alvejando ruidosamente toda a gente da casa que, colaborante, simula alegremente morrer,atirando-se para o chão depois de " ferida" pela bela arma-presente de Natal que o menino mostra saber manejar eficazmente...
Queria, com muita vontade, afastar de mim os pensamentos que, nem só por causa de Gedeão,me assaltam nestes "dias de" que a nossa sociedade global nos prodigaliza agora, a todos os pretextos, com verdadeiros "lembretes" para que aquilo que simbolizam não deixe de interpelar todo o Mundo. Mas, para meu desgosto, uma espécie de grande tsu-nami comercial invadiu todas as praias das nossas mais afectuosas memórias e os "dias de"são muitas vezes um enorme carnaval ou um festival de aparências"que é de bom tom "manter.
Culpas? De quê ? De quem ?
Mas hoje eu só tenho que cantar hossanas,porque tenho o meu "dia de": 11 de Fevereiro.Nossa Senhora de Lourdes. Parafraseando o meu amigo Sebastião da Gama, pela FÉ é que vou. Foi este o nome que me deram e que uso como quem usa um brazão de fidalguia porque ele é o que me resta como herança espiritual de uma Fé talvez ingénua que deu a este meu nome uma categoria de mensagem que eu sempre receio não ter sabido interpretar.
Mas é esta a herança que recebi de alguém de quem mais nada pude guardar...
E não é que, por causa da irradiação espiritual de tudo o que os simples humanos têm experimentado em redor daquela gruta perto dos Pirinéus, pela fervorosa devoção a Nossa Senhora, se decidiu fazer do seu dia o DIA MUNDIAL DO DOENTE ?´
É pois mais um "dia de" no dia de hoje . Mas ,se entre os dois anteriores existe uma forte e séria razão de conexão, eis que nos surge anexo um outro "dia de" que aqui caiu apenas por razões de conveniências várias dos senhores políticos. É dia de votações para um REFERENDO, apanágio democrático de que o povo não deve prescindir, de vez em quando.
É muita coisa grave para um só dia!!!
Vota-se, opinando sobre a Vida ou Morte, tentando desembaraçarmo-nos da teia de sentimentos, conceitos e preconceitos que as nossas formações morais e sociais enredaram à nossa volta. Mas, a par,vamos ter que pensar mais na morte do que na vida, se queremos ajudar outros( ou que nos ajudem a nós) a pacificar a aproximação dessa meta inevitável...
Não é natural que espere que NOSSA SENHORA DE LOURDES me indique o melhor caminho?

04 fevereiro 2007

Um lapso fugidio


Um relance,
um lapso fugidio
e um PASSADO, todo,
irrompe
como a torrente de um rio
ou bicho desgovernado...


Desses anos anulados
restavam só horas mortas
e a poeira a cair...


Dos castelos que, depois, iriam vir
ficaram vultos loucos e alados,
nas nuvens que se vêem
ao poente...


Era a esses que, então,
chamávamos PRESENTE...


Tecido terso,
rara tessitura
de estuantes cordões umbilicais !


Farrapos
longos haustos,
simples ais,
cada fase na outra se entretece.


Nenhuma, cada uma será p'ra nunca mais?

30 janeiro 2007

NEVE ?

Foi no domingo. Manhãsinha, o frio era "de rachar".Às sete da manhã ouvi dizer no rádio "quatro graus". Imediatamente saltei da cama e fui ver o céu, de que eu gosto sempre, por aquelas horas. E vi : estava a clarear o céu das neves das europas onde já "gelei". E fiquei à espera da neve... Só que ela faltou ao rendez-vous aqui pelas avenidas demasiado urbanas e aquecidas,para seu gosto. Foi deixar-se cair lá para as periferias e para os arrabaldes mais distantes, tímida,esfarrapadinha e para mais com o assédio de um chuvinha irritante que achou por bem vir estragar-nos a festa a todos... Foi tudo pouco, menos o frio que atacou a cidade, mas foi notícia !...
E então Lisboa resolveu aquecer-se. Ligou tudo o que tinha à mão para dar calor. E agora, que já somos todos muito civilizados, temos tudo eléctrico : é a embriaguês dos electro-domésticos ! É a cozinha, é para o banho, é para as limpezas, é para a barba e cabelo e principalmente para os ares condicionados e os outros quentinhos e não condicionados... Em suma : a grande fornecedora dos nossos confortos, aquela a quem todos pagamos para nos acalentar com todos estes mimos, ao alvorecer do dia seguinte de toda esta orgia de calores ,REBENTOU.
PRONTO! agora,não vai haver mais nada de comodidades !Arranjem-se como puderem! E os lisboetas tiveram uma amarga segunda-feira que se arrastou aos saltos de vem e vai electricidade até perto das onze da noite. Isto no meu bairro...Onde, em cúmulo, mesmo em frente de minha casa, deflagrou um incêndio num último andar habitado por uma senhora que vive só, isto na mesma hora em que tinhamos constatado que a energia eléctrica nos tinha abandonado.Toda a parafernália dos bombeiros e polícia provocou os normais ajuntamentos de grupinhos comentadores e suspeitosos , todos esfregando as mãos e batendo com um pé no outro ou no chão, o que sempre foi a melhor maneira de se sacudir um tal frio e a tal hora...Felizmente. para alegria geral, o incêndio foi rapidamente dominado e a senhora foi levada ao hospital apenas por causa da inalação do fumo. Excesso de frio ou de calor ?
Lisboa não tem vocação para os INVERNOS. Que fazer ?...

23 janeiro 2007

O mundo ficou mais triste

Creio que todas as pessoas que têm convivido comigo desde sempre( ainda vivem algumas do tempo da meninice) se lembrarão de me ouvir afirmar que me não assustava a situação de envelhecer, mas que me assustava e muito pensar que certamente teria que ir vendo envelhecerem, perderem qualidades e, enfim, desaparecerem as pessoas que me eram queridas nessa época de juventude: os pais, os amigos muito mais velhos que sempre tive, os professores e as figuras públicas que admirava nessa idade.O que eu faria, se tivesse poderes mágicos, seria conservá-los todos, jovens, bonitos, admiráveis...
Mas a Vida foi-se encarregando de me confrontar com essas perdas que eu tanto receava.
Foram decaindo primeiro e desaparecendo depois, os mais velhos e também alguns da minha geração, para minha grande dor/surpresa/revolta, sem remédio...
Hoje, para me enganar a mim própria, brinco com a evidência do que me espera para àmanhã(?) ou depois de àmanhã(?)...E vou dizendo que, em cada hora, estou mais um lugar à frente naquela fila que todos conhecemos... Mas vou chegando a essa posição porque vão desaparecendo aqueles a quem Deus já abriu a porta...
Há uma semana foi aquele Prior da minha paróquia que se perdera há dez anos nas espirais da Alzheimer. Num post deste meu blog,em outubro do ano passado, referi que um meu amigo polaco me escreveu quando da morte de João Paulo ll, dizendo que o mundo ficara mais triste por isso ter acontecido. Foi o que imediatamente me ocorreu quando soube do desaparecimento daquele Padre Armindo que, em certa época da minha vida, foi mais do que um esteio, um recobro, para todas as minhas inseguranças, todos os meus desânimos.
Tal como noutras ocasiões, os católicos temos tido ultimamente perdas cujo vazio não estará tão cedo ao nosso alcance preencher. Estou a pensar no Irmão Roger de Taizé e, hoje mesmo, no Abbé Pierre dos Emauz. O Padre Armindo, era, como eles, generoso,despojado, atento aos infelizes e necessitados, com um coração maior que o que é apenas humano...
Não há dúvida de que, sem eles, o mundo está mesmo a ficar mais triste!...

16 janeiro 2007

Os nevoeiros,de SINTRA ao GUINCHO


Eu vi o nevoeiro vir do mar.
Era como um regaço que se abria
afofando, envolvendo devagar.
De tão salgado e denso de maresia,


espalhava um gosto de algas pelo ar!
Tão estranho ficou tudo, que parecia
a paisagem dos sonhos, sem lugar,
imaterial,mal definida e fria.


Jardins suspensos na bruma coalhada
ruas, praias cinzentas onde havia
vultos sem voz, com gestos de veludo...


Na paz da hora única,embruxada,
real era-me apenas a poesia
que eu quase via evolar-se de tudo !...

09 janeiro 2007

O Prazer do recomeço

Terminada em definitivo esta época de férias, lá me apareceram hoje de novo as companhias dos meus velhos GIL VICENTE, CAMÕES,JUAN ROIZ DE CASTELO BRANCO, com os seus cortejos de Indias, Galizas, frades jerónimos, flamejantes e manuelinos e ,a pairar( até por cima do meu velho Platão) sobre tudo isto, o extraordinário brilho dos meus poetas, a graciosidade que se foi beber ao galaico-português, o"polposo" que se apanhou de PETRARCA, por Sá de Miranda, tudo graças a uma língua musical e dúctil, colorida e viva,já naquelas idades... E o prazer imenso de "ver"nascer,crescer,desabrochar, nas raparigas e nos rapazes, a curiosidade e já o quase amor pelas coisas tão bonitas que estão a descobrir como suas também...
É bom recomeçar !

07 janeiro 2007

Dia de Reis

Este sobressalto de estarmos em festa quase permanente,em festa muito pagã, muito de comeres e beberes, muito de" comprares",muito de esperarem que demos, muito de decepções nos "receber", muito de quase desejarmos que se esqueçam de nós e de,paradoxalmente,nos ofendermos se acaso nos esquecem,esta festa " porque é costume", felizmente está hoje a chegar ao fim... Estou feliz,no rescaldo de uma gripe com todos os seus requesitos próprios que habitualmente me deixam um rasto de desânimo e falta de paciência, mas que, desta vez, pela coincidência de datas,me estão a estimular para "mesmo" vida nova.E é bom.
Os Reis Magos (padroeiros da minha Paróquia),depois de terem visto e adorado aquela tão estranha novidade de um menino ser DEUS, OU FILHO DE DEUS, o que vinha a dar no mesmo,partiram dali por outros caminhos,não só para evitarem encontrar Herodes, mas também porque eles intuiram que dali para a frente havia que enveredar por outros caminhos e não cair na limitação de repetir o já visto e sabido...É por isso que,cansada de repetir mil vezes o déjà vu destas Festas que têm que ser BOAS.eu me sinto hoje particularmente feliz...Recebi de um jovem sacerdote moçambicano um pequeno presépio que cabe na concha das nossas duas mãos e é constituido por um casal negro sentado sobre as suas pernas dobradas,tendo a figura feminina ,embrulhado nos seus panos,tão coloridos como os das roupas dos pais,um minúsculo bébé muito negrinho,tudo numa atitude tão simples e tão cheia de expressão, que me inspira uma enorme ternura...Há sempre caminhos novos a descobrir!

01 janeiro 2007

ANO NOVO

Em 1957 publiquei um pequeno livrinho de poesia e nele incluí,inspirada na entrada de um novo ano :


São sempre as mesmas doze badaladas
e é sempre a mesma a minha comoção !
Do Ano Novo espero as alvoradas
de manhãs que até hoje esperei em vão...

Enfeito a alma de flores encarnadas
e ateio fogueiras de São João
onde arremesso as decepções passadas
e onde aqueço de novo o coração...

E a vertigem da esperança recomeça
mais intensa,mais doce e tentadora,
a prometer-me tudo o que eu quiser...



E eu de novo bendigo essa promessa
que torna cada vez mais sedutora
esta vida que tenho p'ra viver !

O que verifico é que,passada tanta coisa que, naturalmente fui queimando na fogueira, ainda me apetece subscrever este soneto,sem lhe fazer nenhuma alteração.

25 dezembro 2006

NATAL

de António Gedeão :
H OJE É DIA DE SER BOM...

A época das BOAS FESTAS

Foram passos, pelo saibro
que rangia...
Em revoada,
as aves levantaram.
Voaram soltas.
loucas
e,indecisas,
pairaram...
Até parecia
não lhes apetecer mais liberdade !
E, a pouco e pouco
o bando regressava
à suave penumbra que acolhia...
NATAL !
Pousa os teus passos devagar!
A indecisa revoada louca
das coisas que já foram, algum dia,
fica à solta, a pairar,
e o seu retorno
às veredas reais,
em cada ano
vai doendo mais...

24 dezembro 2006

Oração no Presépio

Faça-se em mim, Senhor,
como em MARIA,
esse terreiro aberto,
aceitação
da palavra de um Anjo
que anuncia...
Para que "tudo guarde"
e a semente germine
no cálido interior do coração,
p'ra que a Tua Vontade
seja a minha também
como em MARIA,
eis-me aqui debruçada,
incenso e mirra,
tentando partilhar as dores de Tua Mãe...
Cântico e oração,
quero o fluir fecundo
da minha voz. agora,
p'ra levar-te, meu Deus,por aí fora
e anunciar ao mundo
que eu também
tive um filho em Belém...

17 dezembro 2006

Domingo "GAUDETE"

Da carta de S.Paulo aos Filipenses

Alegrai-vos !O Senhor está próximo.Não tenhais qualquer preocupação! E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos...

16 dezembro 2006

Meditações de Advento


Depois de Isaías nos anunciar que"assim como a terra faz brotar os germes e o jardim faz germinar as sementes, assim o Senhor Deus fará brotar a justiça e o louvor diante de todas as nações", lemos também em Samuel que "já David morava em sua casa e o Senhor lhe concedera estar tranquilo diante de todos os seus inimigos", quando foi o próprio David que chamou a atenção para a desigualdade que havia entre a sua "casa de cedro" e a" tenda" onde tinha sido colocada a ARCA DO SENHOR. Por isso mesmo ,DEUS anuncia então ser sua própria atribuição estabelecer um lugar para o seu povo se fixar e, com ele,David na casa que o Senhor fará para ele como para um rei desse povo. É daí que irá brotar o verdadeiro TEMPLO onde o Senhor habitará...
E fica-se a pensar como eram( são) grandiosos os planos de Deus para nós,homens, na medida em que, tendo sido criados como filhos de Deus e irmãos de Jesus,somos aqui e agora esse templo vivo destinado à eternidade. E também à TRANQUILA CONVIVÊNCIA, enquanto portadores das sementes de justiça que o Senhor quer que germinem em nós...

10 dezembro 2006

Iluminações de Natal em LISBOA


Lisboa adormeceu, já se acenderam mil velas... Era assim que começava e começa uma daquelas ondulantes e saltitantes marchas que reproduzem o espírito popular e boémio desta cidade pelos "Santo António's", nas ruas e, em qualquer época, nos palcos do Parque Mayer, quando ele era uma realidade e não um simples "vestígio", como agora é. Tenho a certeza de ter ouvido lá, pela primeira vez, este retrato cantado da noite farrista e poética mas já me não lembro muito bem onde é que se acendiam as mil velas: ou era nos altares das capelinhas ou nos das colinas... Isso agora saltou na minha memória por causa das espampanantes iluminações que contornam, sublinham, recobrem ou simplesmente invadem ruas, praças, largos, escadinhas, recantos, tanto na Baixa como nos bairros mais periféricos... É de facto uma féerie onde há coisas muito bonitas e imaginativas e outras de relativo mau gosto. Jogar com design, alegorias, cores e luzes não deve ser para as capacidades de qualquer um... Por exemplo, na Avenida da Liberdade foi usada uma cor azul que, junta com o prateado, resulta fúnebre... Mas depois há uma enorme, enormíssima árvore no Terreiro do Paço, isto é, um gigante cónico sempre a mudar de efeitos tanto em cor como em motivos da época, e que enche a praça de luz. E de povo! Lisboa gosta de "música e fardamentos novos", como se diz por graça, mas é verdade. Lisboa vem "ver", quando há qualquer coisa diferente e, meu DEUS, agora é festa ! Também eu fui "ver" e gostei de ter ido...

05 dezembro 2006

Advento


Senhor! Estás chegando ?
Dizem-me que virás
e alvoroça-me a espera...
Quando, quando será?
Por agora, só sei
Que virás como um Rei
A transformar as dores em alegrias
E a colocar a Paz
aonde há guerras...
Disse-mo um Isaías
Que em teu nome nos diz
o que dirias
se o teu reino de Amor
fosse na Terra já...
SENHOR!
Quando, quando será ?