30 março 2008

Nós e o Mundo do sábio Shao

Se os humanos possuissem aquele olho multifacetado das moscas, mesmo assim teriam dificuldade em abarcar a pluralidade de acontecimentos que em seu redor pululam e fabricam, dia a dia,hora a hora, minuto a minuto, o caldo de cultura onde se desenvolvem as suas vidas.Somos , por isso, forçados, em épocas determinadas, a exercer um certo esforço de concentração para banir da nossa limitadíssima órbita tudo o que não converge para um dos temas a que queremos devotar-nos em pleno.Fazemos opções,claro que sim, e o Mundo segue, enquanto nós paramos um tempo, não só para pensar, mas também para agir mais conscientemente, segundo critérios nossos e sem dar lugar a desvios provocados tanta vez pelas solicitaçôes desse Mundo de todos os dias. Foi assim que me aconteceu neste período de Quaresma, Semana Santa e Páscoa. O Mundo foi fazendo de tudo: na área da política nacional ou na da internacional, na área da ciência desmultiplicada nos seus vários pelouros, na área social de todos os pequenos mundos, na área da música de qualquer quadrante, na área das Letras com cada vez mais pessoas a quererem contar ao Mundo as suas coisas ,e por aí fora. O Mundo é quase sempre previsível, se soubermos ir olhando para ele com a atenção que a nossa sabedoria recomenda ou permite, mas nem por isso deixa muitas vezes de nos surpreender quando faz movimentações mais bruscas. Enquanto eu estive toda entregue à minha Fé e às coisas de Deus, longe daqui, alguns devotos de uma outra divindade, calmos e serenos na sua entrega de fé,viram-se subitamente abanados,sacudidos, porque há, ligada às suas práticas religiosas,uma questão territorial que nunca esteve nem parece vir a estar resolvida.E não é que os seus algozes são os demasiado próximos vizinhos chineses? Na verdade, há já bastantes anos que nós temos podido vir a descobrir que há pelo menos dois tipos de chineses :aqueles espantosos filósofos da tranquila serenidade e densa sabedoria e os outros,políticos,estrategas, defensores musculados e vigorosos de uma corrente política que os tem isolado do resto do mundo. E agora? Lá estão os monges tibetanos a ver e a aguentar a dureza das caras feias do mesmo povo que mostra ao Mundo Ocidental um sorriso de orelha a orelha porque vai fazer com esse outro mundo todo o charme que se mostrar necessário para a realjzação dos Jogos Olímpicos em sua casa.Quando "regressei" dos meus recolhimentos e atentei bem no que estava a passar-se, apeteceu-me reler os lindíssimos poetas chineses, os seus pequenos conselhos de sabedoria, a suas irónicas meditações sobre as fraquezas humanas (excelentes traduções,claro, porque não estudei chinês).Não resisto à tentação de aqui transcrever algo que a todos nos deixa mesmo em perplexidade.

MENSAGEM AO REI LI-WANG
Do Sábio SHAO, no ano de 845 AC

Um Imperador sabe governar quando,sob o seu governo, se goza da Liberdade para:
_os poetas fazerem os seus versos
_os historiadores dizerem a verdade
_os ministros o aconselharem sem medo, desassombradamente
_os pobres se queixarem livremente dos impostos
_os estudantes aprenderem todas as lições do mundo e do espírito, com alegria e respeito
_os operários se orgulharemdas suas aptidões e se aplicarem só em trabalhos apropriados
_as pessoas comuns falarem de todos os assuntos sabendo que são ouvidas
_os velhos censurarem tudo o que lhes parece desgovernado,por amarem muito a ordem

Será que em 2008 ainda se lembram do Sábio Shao ?...

23 março 2008

Domingo de Páscoa

DE SANTO AGOSTINHO


VIVE DE TAL MANEIRA QUE,QUANDO MORRERES, NÃO "MORRAS"...

21 março 2008

Dia Mundial da Poesia


PORQUE NASCES, POESIA, NO MEU PEITO?
ÉS SAUDADE DE VIDAS QUE NÃO TIVE
OU CANSAÇO DA HORA QUE SE VIVE
DENTRO DE UM SÓ VIVER FECHADO E ESTREITO?

ÉS ESTE CONHECER QUASE PERFEITO
DE COISAS QUE A MEMÓRIA NÃO REVIVE?
POESIA, EM QUE MUNDOS É QUE EU ESTIVE?
PORQUÊ SEMPRE ESTE SONHO INSATISFEITO?

TRAZES DENTRO DE MIM, SEMPRE DISPERSOS,
ESTE NÃO ME CHEGAREM OS ESPAÇOS
E ESTE NADA ME SER SUFICIENTE

QUE FAZ COM QUE O ALENTO DOS MEUS BRAÇOS
SEJA O QUERER IR MAIS LONGE QUE OS MEUS PASSOS
E O QUERER SER MAIOR QUE TODA A GENTE...

17 março 2008

Semana Santa - Domingo de Ramos


Começou pois a Semana Santa à qual também chamamos a Semana da Paixão. Lembro-me de que, quando era muito nova, não queria, não me conformava com o emprego da palavra paixão para designar precisamente uma sequência de dias de tortura aplicada sobre um ser humano ( não esquecendo nunca a natureza também humana de Jesus ) ,de tal forma rebuscada e dilacerante que nunca mais se desvaneceu na memória dos Homens e estou eu, hoje,ano 2008, a falar dela, aqui. Só mesmo quando estudei latim soube de forma convincente que passio,passionis significava sofrimento e também já tinha conhecimentos do Mundo e das coisas que me permitiram ir começando a abarcar toda a latitude humana, social e semântica desta palavra que, antes, para mim, apenas rescendia a amor.Não percebia, em miúda, e ainda hoje só pelo caminho da FÉ consigo crer que percebo a espantosa forma de amar que pode levar alguém a aceitar semelhante Paixão. Digamos que Jesus não aceitou:Jesus procurou-a, em cumprimento da sua missão divina. E vai triunfalmente entrar em Jerusalém rodeado de um povo que o glorifica como sabe,agitando em seu redor ramos "triunfais", enfatizando vistosamente este gesto de alguém que sabia que caminhava para a traição, a tortura e a morte . Segue-se então o torvelinho de horror que marcou para todo o sempre esta série de dias a que também se dá o nome de Semana Maior.Todos os actos de culto que nesta semana vamos celebrar constituem uma progressão em crescendo que humanamente nos comove e espiritualmente nos exalta soltando-se assim, simultaneamente, uma percepção da dor quase real e uma adesão sem reservas a esse Amor que não compreendemos. E se nos perguntam como podemos fazer da Cruz o símbolo que amamos, temos dificuldade em fazermo-nos compreender, de tal maneira é difícil explicar-se o que não se fundamenta apenas na Razão...

14 março 2008

Fazer um Poema

Desde que entrei neste mundo da criação na net a que damos nomes como blogosfera ou seus sinónimos, sempre me moveu o desejo de ganhar interlocutores com os quais se fosse constituindo um espaço de intercomunicação inteligente, interessante, com mais ou menos originalidade e porque não? até com abertura para algumas trocas de conhecimentos ou saberes e de conceitos ou opiniões. Bem. As coisas raramente são como as pensamos e o mais curioso é que qualquer projecto nos foge subitamente das mãos, ganha vida própria e fica"uma coisa" que não é o que nós imagináramos.Que fazer?Há que voltar costas ao novo caminho que se nos abre ou prosseguir aguardando que uma outra inflexão surja também? Estava eu nestas inquietações quando me surge um poeta-aprendiz a, justamente, desejar, de uma forma muito inovadora, criar laços ,creio que de informação, com aquilo que apreendeu do que aqui tem lido. Na sua enorme ambição de ser poeta percebo os fundamentos de todas as iniciativas em que se envolverá... Resolvi,assim, à maneira de conselho, colocar aqui o que escrevi uma vez para circunstâncias quase semelhantes.

Fazer um poema
não é só senti-lo
nem escrevê-lo...
Não é aquilo que pensam
de dizer-se o que nos vai por dentro,
de guardar no papel
um segredo,
se nos falta a coragem pra dizê-lo...
Nem tão pouco é vontade de exibir-se.
na esperança de que alguém,
lendo-o,diga sentir-se
como nosso irmão,
tal a capacidade de comunicação !...
Não ! Fazer um poema
pode até ser "mea culpa"
de muita convulsão de sentimentos
e alguns arrependimentos...

Mas o que é sempre, sim,
é uma imensa volúpia
de agarrar as palavras
e domá-las,
recriá-las,
desdobrá-las,
pô-las contra a parede,
ali ! À prova,
de terem, sim ou não,
força bastante.
música,
mansidão,
rigor ou colorido,
para dizerem só e justamente
aquilo que é de nós parte integrante
sem probabilidades
de outro sentido...

Depois de tudo isto que foi dito,
mística e transcendente,
é a mão que obedece docilmente
no gesto que desliza no papel...


Nasce o poema
e é escrito
misteriosamente...

09 março 2008

Lázaro


Aquela exortação de S.Pedro para que os Efésios acordassem, sendo que esse acordar seria como levantarem-se do meio dos mortos , teve o seu corolário hoje, quando Jesus ordenou ao seu amigo Lázaro que saísse do pedregoso túmulo onde jazia,havia já quatro dias. Ao responder a este chamamento, Lázaro traz todas as marcas palpáveis da sua morte verdadeira.As suas irmãs o haviam chorado como perdido e até lhes pareceu que o seu amigo Jesus, embora o chorasse também, não se mostrara apressado em vir juntar-se-lhes naquela ansiedade de poderem ainda salvar uma esperança...E a esperança era afinal tudo o que Jesus trazia para nos ensinar quando,para louvor do Pai, mostrou a todos que, como havia dito a Marta,quem acredita...embora venha a morrer ,viverá. Uma vez mais, a linguagem é misteriosa mas Lázaro morto que ressuscita abre as portas da esperança a todos nós...

02 março 2008

...nada me faltará!


"O Senhor é meu pastor,nada me faltará". Assim reza o salmo 22,cantado no dia de hoje e que é talvez o Salmo que prefiro a todos os outros. A mensagem de paz,de tranquilidade ,de que tanto somos carentes chega-nos quase perfumada e refrescante :fez-me descansar nos prados verdejantes,conduziu-me às fontes mais puras.E segue-se uma panóplia de bens prometidos,consequência do cuidado que o Senhor aqui garante à confiança do salmista e que eu quero muito que também possa ser minha. Enquanto na semana passada ficámos a pensar naquele encontro nunca de esperar, e no diálogo nada provável à luz de uma lógica à nossa medida, entre uma samaritana e um judeu ,pesou sobre nós a importância metafórica de uma tal água que pode matar sedes de espécies tão diversas que, uma vez saciadas, poderão condicionar toda uma mudança de vidas, tivémos, no dia de hoje, uma tão grande intensidade de focagem de uma certa luz sobre os olhos dos cegos( também de diversas espécies) que a sensação da secura e escuridão das nossas vidas tais como somos capazes de levá-las, apenas nos conduz a desejar os prados verdejantes e as fontes puras que o Salmo nos promete. E se ainda tudo isso não chegasse , S.Pedro, na sua epístola aos Efésios quase nos grita"desperta,tu que dormes,levanta-te do meio dos mortos ! " Como não, mais uma vez ,tentar AGORA realmente acordar?

26 fevereiro 2008

Morte

Ronda por aí
à nossa volta
a Morte,
mostrengo hediondo,
uivante,
predador
espectante
das nossas alegrias...

Cada sua passagem
arrebata,
profana,
dilacera
uma teia de vidas
sem viagem,
das que ficam no cais
vendo a outra partir...

Dói fundo a dor
feita de carne,
humana !
E ele fica
a pairar
pelas esquinas dos dias...

23 fevereiro 2008

Aznavour

Esta noite vai haver um espectáculo em Lisboa cujo anúncio, aqui há uns tempos, me deixou entre o admirada , o orgulhosa e o curiosa...AZNAVOUR ,o "guru" da minha juventude apaixonada, o "padroeiro" dos nossos sonhos de amores mais arrebatados, aquele que íamos ver e ouvir em Paris, sempre que foi possível, ou aqui em Lisboa sempre que vinha cá, esse Aznavour da minha idade e que transporta consigo as mais emocionantes recordações certamente não só minhas mas as de toda uma geração que já se foi fragmentando com o multiplicar de todos estes anos, esse Aznavour vem agora aí dizer aos mais novos muitas coisas de nós, algumas,talvez, que nem teremos tido coragem de recordar, quanto mais de lançá-las assim, cantadas aos quatro ventos...Hier encore, j'avais vingt ans...,La bohème... Oh,amigo ,vou adivinhar-te hoje nesse enorme palco e cantarei baixinho aqui, contigo ...Ma vie, j'ai peur que ta jeunesse un matin disparaisse... ...je ne t'ai pas cherchée, c'est toi qui t' es donnée... .o toi la vie, ne mabandonne pas! Tu sais, je crois en toi...

22 fevereiro 2008

As Palavras

Um dos meus alunos anda ,neste momento, a trabalhar os poemas de Eugénio de Andrade. É um rapaz de quinze anos, apaixonado pelo mar e pelo desporto da Vela, filho de pais divorciados e com uma estuante alegria de viver. O seu professor da Escola tem uma vincada predilecção pela poesia, muito particularmente pela dos poetas modernos. Tenho portanto à minha frente duas linhas de força que devo procurar tornar concorrentes, quando, pelas suas naturais tendências, seriam divergentes,ou, numa hipótese mais optimista, seriam talvez paralelas... E então, tenho também de me defrontar com algumas perplexidades minhas ( não que não esteja já habituada a elas ) perante certas observações de uma juventude "talhada" de maneira bastante peculiar, sempre surpreendente, principalmente por nunca me ter deixado influenciar pelo que dela se diz de desabonatório...Ontem , Eugénio de Andrade dizia-nos aquela sua tristíssima frustração de despedida já gastámos as palavras, meu amor... E salta-me ao caminho esta observação:as palavras existem para não se gastarem.Senão para que servia tudo aquilo que os escritores tentam fazer?Lá veio então a minha quase irritação pelo que já ficou, parece-me, esquecido das nossas "discussões" sobre palavra falada /palavra escrita.Neste tempo de tanto suporte electrónico para a palavra falada, na cabeça de um jovem, formatada nas coisas práticas da vida actual, a perenidade do valor da palavra como tal pode ser ainda um factor de segurança e de estabilidade emocional...Que dirão os linguistas?

18 fevereiro 2008

Monte Tabor -2

Do premente apelo de paz experimentado por Pedro, não chegou a concretizar-se a construção das três tendas. Outras coisas espantosas aconteceram e decididamente não era aquele um lugar para permanecer.Para orar, meditar, interrogar-se e dar louvor a Deus, séculos mais tarde, quem sabe? outros Pedros construiram uma bela catedral...

17 fevereiro 2008

Monte Tabor -1


"Senhor, que bom seria ficarmos aqui !.. ."
.Quantas vezes, em quantos Montes Tabor das nossas vidas, não teremos balbuciado esta frase de Pedro, aquele pescador a quem Jesus ensinava a ser "pescador de homens" e a nada temer ?... Temos o sonho,mas falta-nos a coragem ( ou a pureza das intenções?) .

11 fevereiro 2008

Nossa Senhora de Lourdes


Bernardette de Lourdes !

Rien qu'une fillette
humble,petite et frêle
qui comprenait déjà
d'un monde en larmes sombres
la souffrance et l'amour,
chacun dans un étui
de son coeur tout petit...

La parole de Dieu
lui a appris la Vie
tandis qu'elle n' écoutait
dans la grotte bénie
que la Voix de MARIE !...

10 fevereiro 2008

As Tentações


"Nem só de pão vive o Homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus"
Se, por detrás de cada maçã da bela macieira que está no nosso jardim não estivesse escondida uma serpente, se nós tivéssemos uma tão sólida formação que tornasse mesmo inabaláveis as nossas convicções ( a nossa fé) , então sim, seríamos purificáveis, resistentes ,e capazes de respostas destas, fosse qual fosse o assédio ou a tentação...

06 fevereiro 2008

Padre António Vieira


Quem, dos meus amigos professores não experimentou já aquela alegria enorme, uma espécie de vaidadesinha, quando algum daqueles alunos que chegaram até nós com aquele rótulo: " não gosta de ler , não pega num livro, não quer mesmo ler"lhe aparece a dizer que "achou piada àquela dos peixes voadores..." ? Isto, porque foi para casa ler, por curiosidade, o que ainda faltava ler do Sermão de Santo António aos peixes...Não é para alegrar um professor ? Pois bem, quanto a mim, alegrei-me mas não me envaideci tanto como disse, porque tive a certeza de que o mérito vinha todo da ironia do texto, da sua actualidade, do "luxo" das palavras e das frases tão sugestivamente aplicadas e que durante algumas semanas andámos a "pesquisar"...Os jovens acham divertida aquela construção em forma de estrelas cujas pontas se desmultiplicam noutras tantas estrelas, diverte-os encontrar os conceitos habilmente disfarçados ou não... E a verdade é que se lhes revelou( de forma muito incipiente,bem sei) o tal prazer da leitura em que antes não acreditavam. Não podia deixar de colocar esta nota no dia de hoje, em que felizmente bastante se tem lembrado este HOMEM tão dos nossos dias, mas só com mais quatrocentos anos do que nós e a todos os títulos grande e fascinante.

03 fevereiro 2008

O Monte das Bem-Aventuranças



Bem-aventurados os pobres... início de mais umas quantas coisas desconcertantes que Jesus disse à multidão dos que mais uma vez o seguiam, para o ouvirem, quando, como aqui, parava,se sentava, se recolhia um pouco e depois,duma maneira calma, meio pensativa, começava a falar...Se eu estivesse lá, diria que ele estava a "pensar em voz alta"... Não sei a que horas se terá passado este momento, mas quem já subiu àquele monte e ali teve oportunidade de poder quedar-se em silenciosa meditação, deixando a vista alongar-se pelo tranquilo Tiberíades a seus pés, a quaisquer horas que sejam, compreende bem o peso e o alcance das solicitações que parecem brotar daquele silêncio, daquela vegetação, das flores de trepadeiras que enlaçam os ciprestes a toda a sua altura e da memória de tudo o que naquele local foi dito e é como um eco repercutindo indefinidamente... No entanto, a forma misteriosa, encantatória, metafórica e até por vezes criptográfica, como Jesus expunha o seu pensamento, agravada ainda pela possível multiplicidade de interpretações que cada tradutor lhe podia ir dando, trouxe para todos nós ( e para os senhores padres logo à frente) a tarefa de nos abeirarmos da mensagem de Jesus com todos os nossos conhecimentos de História, de Gramática, de Linguística, de Sociologia, etc, etc.Porque sabemos todos que quando se diz pobres em espírito, pobres pelo espírito,pobres quanto ao espírito, não é bem o mesmo que dizer pobres de espírito e nunca é o mesmo que falar nos pobres de bens materiais. E é às vezes por pormenores deste tipo que tanta gente não entende os cristãos !... E porque à Fé se acede por muitos caminhos, é bom pensar nas palavras e deixar-se "enfeitiçar" pelos lugares que as perpetuam dentro dos nossos sonhos de Paz...

01 fevereiro 2008

Carnaval

Aí estamos nós chegados àquela época do ano em que há ,por tradição ,que cumprir uma série de rituais que , na totalidade e no particular, me desagradam profundamente. Todos os que me conhecem sabem que, em nenhuma época da minha vida, pactuei com qualquer dos tipos de celebração desta exteriorização de liberdades reprimidas e ,por calendário, agora consentidas. Penso que atitudes como esta minha devem principalmente radicar-se na educação que se teve e não posso deixar de recordar como, sempre, os meus Pais me mostraram diversos carnavais,de acordo com as minhas fases de crescimento, como coisa para se ver, mas não como coisa para nela se tomar parte.É certamente assim que se fomentam qualidades críticas e até admito hoje colocar a mim própria questões sobre este modo de educar do qual, aliás, em muitos outros campos das práticas sociais, nunca me senti vítima. Mas se hoje me sinto inclinada a entrar por este domínio da educação para os relacionamentos sociais é porque com uma certa perplexidade vejo alguns dos meus alunos( e não só dos mais novos ) prepararem afanosamente modos de se disfarçarem para a "festa" mascarada do último dia de aulas nas escolas, antes do começo das pequenas férias de Carnaval. E, ouvindo-os, o que querem encarnar ? Não são BELAS, mas sim MONSTROS, não são FADAS, mas são BRUXAS, ou então QUASIMODOS, VAMPIROS, FRANKENSTEINS... E vêm-me à memória aquelas mastronças que têm tanto de DRAG-QUEENS como dos populares CABEÇUDOS e que muito popularmente representam por todo o país o obsceno-inocente. Como realmente as pessoas se cansaram da BELEZA e se comprazem no FEIO ! UMBERTO ECO que , para fazer as suas HISTÓRIAS tanto da BELEZA como do FEIO , com tanto cuidado procurou documentar-se em historiadores, filósofos e artistas, através das várias visões do mundo, ao longo dos séculos, não conseguiu mais do que reconhecer que é nos olhos de quem olha que a beleza e a fealdade se instalam ; e que esses olhos são "enformados" em múltiplas contingências da época das suas vivências. Que pensar pois desta nossa época, em que, desde as crianças pequeninas até aos adultos mais velhos, cada vez mais se desdenha a BELEZA e se entroniza o FEIO ? Que vamos "libertar" neste CARNAVAL ?...
,

21 janeiro 2008

Gregoriano

Por razões realmente aleatórias e em contraponto com o "monte" de livros de novos autores ou de novidades lançadas por autores conhecidos, que juntei para ler, a partir do Natal ou talvez mesmo a partir do dia dos meus anos, esta semana reli JORGE de SENA.Comecei por ler um dos seus Prefácios, onde,desiludido e zangado mesmo,se insurge contra a injusta forma de se tratarem os escritores "sem nome" ou sem "padrinhos" na nossa terra e depois derivei para a poesia que considero um poderosíssimo testemunho da época histórica que teceu e condicionou a vida deste intelectual-sentimental que nunca conseguiu sentir,enquanto exilado, que no seu país havia também quem o amasse.E fui encontrar-me com a sua ARTE DE MÚSICA onde,mesmo usando o seu habitual vocabulário que eu tenho tido sempre vontade de chamar musculado, ele descobre a forma de transmitir-nos as vibrações mais íntimas que a grande música lhe provoca.Por exemplo, sob a inspiração da Cathédrale engloutie de Debussy, diz: Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos, os cânticos e o eco das abóbadas e ver as altas torres sobre que as ondas se espumavam tranquilas. Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam almas penadas, como as do Marão e que eu temia em todos os estalidos e cantos escuros da casa. E de uma peça de Bach : Numa estridência uma alegria vibra?Ou treme uma amargura asfixiante? E ,nestes graves, que ressoa ?a dor ou uma serena e firme complacência ignota?
Leio nestes e noutros "encontros" do poeta a influência que terá tido na sua personalidade o gosto que tinha a sua Mãe em que ele estudasse música, enquanto o Pai queria fazer dele um oficial de Marinha...Que se viu compelido a ser a excelência como Mestre da Literatura do seu país, nos Brasis e nas Américas, sem nunca deixar de testemunhar com vigor o quanto viveu, talvez já "para memória futura", o que até nem seria de estranhar,inclusivamente num homem que foi Pai de nove filhos... E nestas e noutras cogitações me encontro no sábado, na minha Paróquia, com um grupo de senhores espanhois que ao seu grupo deram o nome de IN COENA DOMINI e que, como devem cantar os anjos no Paraíso, nos ofereceram a panorâmica paz de um canto Gregoriano antiquíssimo que ficou a "envolver" todo o nosso fim-de-semana...Música, Senhor, afinal como chegas por ela a tantos de nós e das maneiras mais inesperadas !

13 janeiro 2008

Sinfonia do Novo Mundo

Como a experiência de ir vivendo nos vai revelando a multifacetada criatura que é o HOMEM ! Quando estamos convencidos de que já não vai podendo haver muito mais coisas que, vindas dele, nos possam surpreender, bum! aí está uma nova revelação... Não estava habituada (creio que nenhum português estava) a que os governos "reconsiderassem" sobre posições tomadas com grande empenhamento e muita propaganda... E sempre tive opinião sobre aquele "bombardeamento" com a inevitabilidade da construção de um novo aeroporto na OTA. Terei que me colocar, em data de há precisamente 60 anos atrás. Havia, nesse tempo, uma faceta da Segurança Social que proporcionava o que se chamava Casas de Renda Limitada as quais, pertencendo a empresas, se destinavam a serem arrendadas aos funcionários dessas mesmas empresas seleccionados segundo critérios iguais em todas elas. Claro que eram ponderados salários, idades, estado civil, número de filhos e outras coisas. A partir de certa data, constituiu-se uma Federação dos proprietários destas casas e o "sorteio" dos inquilinos passou a ser abrangente, havendo uma lista única de candidatos inscritos, não mais divididos por profissões ou empresas empregadoras. E assim foi atribuida uma casa no bairro de Alvalade ao casal Beja. Perto, pertíssimo do Aeroporto de Lisboa, do qual o meu querido Sogro era director. Então, todos os amigos e familiares nos diziam : — Como é que vocês aceitam ir viver para perto daquele barulho permanente de aviões mesmo por cima da cabeça ? — E o meu marido e o meu Sogro sorriam e contrapunham: — É por pouco tempo. Dentro de mais ano ,menos ano, já se sabe que o Aeroporto vai ser fora da cidade. — Imagine-se que se pensava então em Rio Frio, é verdade !

Contado este "pequeno" pormenor e tendo o meu Sogro sido instrutor de jovens pilotos militares numa Escola de Aviação que existiu em Vila Nova da Raínha(a dois passos da Ota cujas boas e más qualidades ele conhecia de cor,) isto em anos vinte,do século vinte, qualquer pessoa pode calcular o espírito com que eu suportei toda a "excitação" que se gerou em redor da escolha,AGORA, da Ota, por todas as razões e mais uma, como é costume dizer-se... E eis senão quando, o Governo decide não ir para a Ota. E vai para onde ? Logo para ALCOCHETE, uma terra que me encanta,artística, histórica e paisagísticamente falando. Duas admirações de uma só vez ! O Governo ouviu os "barulhos" em seu redor, o Governo decide uma coisa bonita. Sei muito bem que o local onde se fará o aeroporto não é, não poderia ser na localidade chamada Alcochete, mas vai ocupar uma região com carisma e a beleza envolvente vai certamente ter o seu peso.Saudades do Aeroporto barulhento, odorífero e "condenado" há sessenta anos, claro que as vou ter. Quanta recordação, quanta história, quanta VIDA !!! Mas sei que ,enquanto viver, a construção do novo vai permitir-me a companhia do velho.

E só depois, bem depois, haverá alguém a lembrar que, de ALCOCHETE, eu pensava assim:

Há um vazio extenso e aromático
feito de negra vasa
e areia entretecida em limos e algas escuras
e outras daquele verde subaquático
que adquire cambiantes com as marés...
Há um murmúrio puro,de águas rasas,
a embalar conchinhas roçagantes
como sedas carísssimas e ondulantes...
E há a gaivota súbita, a rasgar,
em movimento e som, a paz do amanhecer !
Grito adunco a que respondem mais,
e, em pouco tempo, é de asas
o céu destes sapais...
Longe,lá mais ao fundo,
onde as sombras se acolhem aos pinhais,
espraiam as asas róseas os flamingos
num tremor de pluminhas adejantes...
E é de lá que, rútilo, vem vindo
o clarão da manhã de cada dia...
Lisboa ainda é margem de cinza e esmalte,
envolta em brumas densas de maresia...

Primeiras horas de um fluir fecundo,
primeiros sons a sugerir Dvorak,
e este Tejo todo é um Novo Mundo !...