21 janeiro 2008

Gregoriano

Por razões realmente aleatórias e em contraponto com o "monte" de livros de novos autores ou de novidades lançadas por autores conhecidos, que juntei para ler, a partir do Natal ou talvez mesmo a partir do dia dos meus anos, esta semana reli JORGE de SENA.Comecei por ler um dos seus Prefácios, onde,desiludido e zangado mesmo,se insurge contra a injusta forma de se tratarem os escritores "sem nome" ou sem "padrinhos" na nossa terra e depois derivei para a poesia que considero um poderosíssimo testemunho da época histórica que teceu e condicionou a vida deste intelectual-sentimental que nunca conseguiu sentir,enquanto exilado, que no seu país havia também quem o amasse.E fui encontrar-me com a sua ARTE DE MÚSICA onde,mesmo usando o seu habitual vocabulário que eu tenho tido sempre vontade de chamar musculado, ele descobre a forma de transmitir-nos as vibrações mais íntimas que a grande música lhe provoca.Por exemplo, sob a inspiração da Cathédrale engloutie de Debussy, diz: Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos, os cânticos e o eco das abóbadas e ver as altas torres sobre que as ondas se espumavam tranquilas. Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam almas penadas, como as do Marão e que eu temia em todos os estalidos e cantos escuros da casa. E de uma peça de Bach : Numa estridência uma alegria vibra?Ou treme uma amargura asfixiante? E ,nestes graves, que ressoa ?a dor ou uma serena e firme complacência ignota?
Leio nestes e noutros "encontros" do poeta a influência que terá tido na sua personalidade o gosto que tinha a sua Mãe em que ele estudasse música, enquanto o Pai queria fazer dele um oficial de Marinha...Que se viu compelido a ser a excelência como Mestre da Literatura do seu país, nos Brasis e nas Américas, sem nunca deixar de testemunhar com vigor o quanto viveu, talvez já "para memória futura", o que até nem seria de estranhar,inclusivamente num homem que foi Pai de nove filhos... E nestas e noutras cogitações me encontro no sábado, na minha Paróquia, com um grupo de senhores espanhois que ao seu grupo deram o nome de IN COENA DOMINI e que, como devem cantar os anjos no Paraíso, nos ofereceram a panorâmica paz de um canto Gregoriano antiquíssimo que ficou a "envolver" todo o nosso fim-de-semana...Música, Senhor, afinal como chegas por ela a tantos de nós e das maneiras mais inesperadas !

13 janeiro 2008

Sinfonia do Novo Mundo

Como a experiência de ir vivendo nos vai revelando a multifacetada criatura que é o HOMEM ! Quando estamos convencidos de que já não vai podendo haver muito mais coisas que, vindas dele, nos possam surpreender, bum! aí está uma nova revelação... Não estava habituada (creio que nenhum português estava) a que os governos "reconsiderassem" sobre posições tomadas com grande empenhamento e muita propaganda... E sempre tive opinião sobre aquele "bombardeamento" com a inevitabilidade da construção de um novo aeroporto na OTA. Terei que me colocar, em data de há precisamente 60 anos atrás. Havia, nesse tempo, uma faceta da Segurança Social que proporcionava o que se chamava Casas de Renda Limitada as quais, pertencendo a empresas, se destinavam a serem arrendadas aos funcionários dessas mesmas empresas seleccionados segundo critérios iguais em todas elas. Claro que eram ponderados salários, idades, estado civil, número de filhos e outras coisas. A partir de certa data, constituiu-se uma Federação dos proprietários destas casas e o "sorteio" dos inquilinos passou a ser abrangente, havendo uma lista única de candidatos inscritos, não mais divididos por profissões ou empresas empregadoras. E assim foi atribuida uma casa no bairro de Alvalade ao casal Beja. Perto, pertíssimo do Aeroporto de Lisboa, do qual o meu querido Sogro era director. Então, todos os amigos e familiares nos diziam : — Como é que vocês aceitam ir viver para perto daquele barulho permanente de aviões mesmo por cima da cabeça ? — E o meu marido e o meu Sogro sorriam e contrapunham: — É por pouco tempo. Dentro de mais ano ,menos ano, já se sabe que o Aeroporto vai ser fora da cidade. — Imagine-se que se pensava então em Rio Frio, é verdade !

Contado este "pequeno" pormenor e tendo o meu Sogro sido instrutor de jovens pilotos militares numa Escola de Aviação que existiu em Vila Nova da Raínha(a dois passos da Ota cujas boas e más qualidades ele conhecia de cor,) isto em anos vinte,do século vinte, qualquer pessoa pode calcular o espírito com que eu suportei toda a "excitação" que se gerou em redor da escolha,AGORA, da Ota, por todas as razões e mais uma, como é costume dizer-se... E eis senão quando, o Governo decide não ir para a Ota. E vai para onde ? Logo para ALCOCHETE, uma terra que me encanta,artística, histórica e paisagísticamente falando. Duas admirações de uma só vez ! O Governo ouviu os "barulhos" em seu redor, o Governo decide uma coisa bonita. Sei muito bem que o local onde se fará o aeroporto não é, não poderia ser na localidade chamada Alcochete, mas vai ocupar uma região com carisma e a beleza envolvente vai certamente ter o seu peso.Saudades do Aeroporto barulhento, odorífero e "condenado" há sessenta anos, claro que as vou ter. Quanta recordação, quanta história, quanta VIDA !!! Mas sei que ,enquanto viver, a construção do novo vai permitir-me a companhia do velho.

E só depois, bem depois, haverá alguém a lembrar que, de ALCOCHETE, eu pensava assim:

Há um vazio extenso e aromático
feito de negra vasa
e areia entretecida em limos e algas escuras
e outras daquele verde subaquático
que adquire cambiantes com as marés...
Há um murmúrio puro,de águas rasas,
a embalar conchinhas roçagantes
como sedas carísssimas e ondulantes...
E há a gaivota súbita, a rasgar,
em movimento e som, a paz do amanhecer !
Grito adunco a que respondem mais,
e, em pouco tempo, é de asas
o céu destes sapais...
Longe,lá mais ao fundo,
onde as sombras se acolhem aos pinhais,
espraiam as asas róseas os flamingos
num tremor de pluminhas adejantes...
E é de lá que, rútilo, vem vindo
o clarão da manhã de cada dia...
Lisboa ainda é margem de cinza e esmalte,
envolta em brumas densas de maresia...

Primeiras horas de um fluir fecundo,
primeiros sons a sugerir Dvorak,
e este Tejo todo é um Novo Mundo !...

03 janeiro 2008

Ano Novo

É de prever que, depois de um Natal tão especial, a minha impreparação para festejar a chegada de um Ano Novo ou sequer entusiasmar-me com o fim de um tão" sem graça" Ano Velho, fosse total. E assim, aí estive eu a fazer o que outros faziam, a dizer o que outros diziam, para não "destoar", para ganhar o direito a permanecer integrada...Como somos curiosos animais,peças, de um sempre colectivo !!! Lembrei-me então de ir visitar o meu blog do início do Ano que agora acabou.Lá está um poeminha que escrevi há cinquenta anos. E não é que,lendo bem,lendo bem,afinal ainda me apeteceu tê-lo escrito agora outra vez ? Oh! Que reservas insondáveis permite o Senhor Deus nas nossas almas !!!...

02 janeiro 2008

NATAL 2007

"Num banco de jardim, uma velhinha..." Assim começa um fado que, na minha indexação de tipos de fado, eu incluo nos trágicos, representativos de um certo sentimento português que puxa à lágrima lamecha pelos sofredores passivos que em Portugal fenecem nos bancos dos jardins, corroídos pela dor, pelo abandono, pela saudade, por muito mais coisas espirituais que materiais... Não consigo lembrar-me de qual o fadista que o cantava doloridamente, mas sei que era um homem e que rondava por todo o fado uma insinuação de indiferença filial condicionante da solidão e deliquescência da velhinha...Há muitíssimo tempo que não oiço este drama e, subitamente, reanima-se este quadro na minha memória.Porque( tudo tem os seus porquês) ,depois de uma queda aparentemente de pouca importância, o meu corpo e depois o meu espírito, entraram num processo de desencorajamento para a dor, de cansaço para a luta, de desinvestimento na esperança..."no banco do jardim, uma velhinha..."
E foi então que surgiram os AMIGOS. Caloroso, reconfortante, luminoso, envolvente, foi-me proporcionado um "banco de jardim" que me colocou a galáxias de distância da velhinha do fado. Sendo época de Natal, como para um presépio de ESPERANÇA, eles trouxeram-me incenso e mirra mais do que simbólicos: vivos e actuantes na reabilitação das minhas forças ! Com eles e graças a eles tive umas verdadeiras FESTAS de Natal ! Todo o calor do mundo no reavivar de brasas esmorecidas...Cada grande toro de lenha de azinho que punhamos na lareira, cada nova vela que se acendia, cada nova luminária com que se envolvia um novo angulo da casa, era mais um sopro de bem-estar pelo qual eu não podia ter esperado... E houve Missa do Galo( há quantos anos ?), numa igreja envolta em nevoeiro, e houve ceia quentinha, no regresso da missa, e houve prendas...A que me coube é mesmo como o brinquedo, tradução tecnológica daquele que me cabia, era eu menina. Quase outra vez menina, pela força do carinho...
Deixaram de me contentar uns magros seis caracteres para escrever a palavra AMIGOS... E onde irei encontrar as letras suficientes para escrever GRATIDÃO ?

13 dezembro 2007

Passou hoje a haver um Tratado de Lisboa

Lembro TORGA . Hoje a grande notícia não fui eu...
Aqui,neste país e nesta hora.Aqui,junto dos meus, mortos ou vivos...
...ver esta maravilha: meu Pai a erguer uma videira, como uma Mãe que faz a trança à filha...


O que me foi dado ver na televisão, esta manhã, foi uma Lisboa lindíssima,iluminada com a sua mais deslumbrante luz, muito branca nas pedras antiquíssimas debruadas de azul aqui e ali, pela mão de alguém que mais pareceu realmente amar muito esta cidade, tanto, tanto, que só pensou em mostrá-la bonita às visitas que vieram de todas as partes... Vinham pela política, pelas conveniências, pelas "tricas", por tudo, menos pelo Amor, mas era vê-las saírem dos respectivos carros e desanuviarem-se-lhes os semblantes que traziam fechados ou distraídos... Alguém arranjara Lisboa, ali,encostada ao Tejo, "COMO UMA MÃE QUE FAZ A TRANÇA À FILHA" e era ver os sorrisos e os braços abertos, em gesto de abraçar, de toda aquela gente que, de cores transparentes , resplandecentes, apenas sabia de ouvir falar,certamente, através de espessas paredes de cinzento...
Hoje a Lisboa que eu amo estava ali. E a grande notícia foi ela, deixando-se amar...
Quando destas partes se partiu um dia, muita coisa veio a tornar-se diferente "URBI ET ORBI"!

06 dezembro 2007

ISAÍAS

Deixe o ímpio os seus caminhos e o pecador os seus projectos;volte-se para o Senhor,que terá piedade dele,para o nosso Deus que é generoso a perdoar.
"Os meus planos não são os vossos planos,nem os vossos caminhos são os meus caminhos_ diz o Senhor_;quanto os céus estão elevados acima da terra,tanto se acham elevados os meus caminhos acima dos vossos e os meus planos acima dos vossos planos"


Gosto de ficar a pensar quanto sou pretensiosa quando imagino que Deus
está a fazer qualquer tipo de "avaliação" com bitolas iguais às minhas...
O nosso sistema de contas,pesos e medidas criámo-lo nós de acordo com as
nossas dimensões.Não sou capaz de imaginar,à dimensão divina, o quanto,
seja do que for...

02 dezembro 2007

Este mês de Novembro, se algures há um contador do tempo das nossas vidas, devia-me ser descontado nos totais de algum dia, porque na verdade tenho a sensação de que o não vivi, ou de que ele não me permitiu que o vivesse. Passaram os Santos e os Fiéis Defuntos, partiu a Côrte para o Brasil, morreu Fernando Pesssoa, e eu, agarrada a uma tradução que prometi a alguém, fui deixando escorrer os dias a pensar em coisas que nunca tinham entrado na intimidade das minhas ocupações e que, por isso mesmo, chegaram a alienar-me completamente, pela novidade, pela variedade, e pela alteridade...Numa espécie de assombrações do meu mundo a fazer-se presente, surgiam-me, pelas tardes ,Camões a divertir-se em voltas de redondilha menor, D. Manuel deSousa Coutinho a pegar fogo à sua casa, e a Tlebes em toda a sua pujança a radicar-se por entre quase inofensivos grafitti, tão significantes quanto um código o pode ser.
E foi por entre tudo isto que tomei conhecimento daquilo que, de repelão, me fez pôr de novo os pés em terra.E não foi o renascer das quase-cinzas do acordo ortográfico luso-brasileiro...Foi algo que tem a ver com a Língua,sim senhor, a Língua que o Poeta dizia ser a nossa Pátria. Ergue-se BOLONHA,quando muitos de nós andávamos distraídos, e agora os alunos entram nos Mestrados e eis que as aulas são dadas em INGLÊS! E os testes são escritos em inglês. Os comentários preocupadíssimos que tenho ouvido de alunos,por exemplo, de Economia !!! Quase todos sabem algum inglês mas não têm desembaraço naquela área de vocabulário e muito menos escrito... Bem!...Como foi que tudo isto e muito mais foi acontecendo ?
Creio que nunca me pareceu tão bemvindo o DIA da RESTAURAÇÃO da INDEPENDÊNCIA,um 1º de Dezembro cinzento e meio envergonhado,com as pessoas do costume a fazerem e dizerem as coisas do costume, mas comigo a ver as coisas já não com os meus olhos do costume...

24 novembro 2007

Proximo ADVENTO

Eis senão quando...apercebi-me de que o mês de Novembro tinha voado. O domingo do próximo fim-de-semana já será o primeiro domingo do Advento. E,havendo para mim partes do ano em que o gosto de viver se me torna mais intenso, o Advento é uma delas. A primeira. A outra, a segunda, é a que abrange as doçuras dos fins de tarde de Outubro e os nevoeiros sobre os velhos plátanos dourados de Novembro. Não me sinto harmoniosamente viva em mais nenhuma outra época do ano. Todo o ADVENTO me permite ainda hoje esperar. Aquelas brincadeiras de adolescentes dos ela ainda acredita no PAI NATAL ! ,assentar-me-iam como uma luva,porque SIM, acredito no sonho, acredito com toda a força da minha alma nas imensas perspectivas que se abrem para alguma vez...acredito na FÉ( isto é,será?,um pleonasmo). E cheiro, saboreio, quase apalpo este fluido de mistério que a minha sensibilidade capta nesta época.Não tem nada que ver com esse turbilhão das cidades, com essa loucura de trocar presentes ao desafio,com essas ostentações de roupa nova, com essa afronta das comezainas... É tudo entre mim e mim mesma.Será porque tenho de Deus muito, dentro de mim.?E há cânticos e encantamentos inesperados...E os silêncios parece que nos roçam pela pele com farrapos de lembranças...E às vezes surge um amigo que vem dos longes de não nos vermos nunca e iluminam-se uma data de mais esperanças...No friosinho entre murmúrios duma ida à MISSA do GALO começa o fim do encantamento. Quando vem o Dia de Natal é como noutros tempos entrar nos luxos BARROCOS.
Vou então acender as quatro velas, aligeirar tudo o que me é obrigatório,libertar-me para este mistério e vivê-lo com todas as minhas forças !

11 novembro 2007

Guiness book

Hoje foi São Martinho.
Nem castanhas,
Nem vinho,
Nem meia capa do Santo,
Nas formas habituais...
Já não há frio, parece,
porque os verões,agora,
são globais...
Quem lembra essas coisas esquece
e não entra mais
na História..
Lenda mesmo é o meu espanto:
Um São Martinho em GUINESS ? ? ?...

04 novembro 2007

Do jornal agora

Mais uma vez feriados encostados a fins de semana e alongados com "pontes"... Os portugueses, em Portugal, sempre tiveram pouca consciência de que, a produzir, a trabalhar cada um naquilo que melhor sabe fazer, engrandeceriam o seu país sem precisarem de grandes esfalfamentos.O sonho de uma vida de reformados ricos sempre pairou nas ambições de quaisquer trabalhadores que conheci ou de que ouvi falar. A juntar a este sonho, surgiu, creio que por volta dos anos sessenta, a verdadeira fixação dos portugueses pelas idas à praia mais ou menos durante todo o ano, mesmo que faça algum frio e mesmo que "a praia" não exista ali ao virar da esquina. A Serra, o pinhal, o "campo" deixaram de ser atractivos, vá-se lá saber porquê...

E esta atracção por tais padrões de vida, não fazendo muito alarido, acabou por influenciar um sem número de coisas da nossa vida quotidiana, descaracterizando um modo português de viver, tornando-o híbrido, imitativo e despesista.

Tudo isto me ocorreu a partir desta extraordinária maratona que consiste em ler os jornais de fim de semana. São quilos e quilos de papel, repositórios de um sem número de separatas, umas mais publicitárias que outras, tentando todas captivar a atenção do leitor que, provavelmente, já não se sentirá tão atraído pelas notícias, uma vez que elas já nem sequer desenvolvem as que a TV vai debitando durante a semana, provenientes que são, todas das mesmas agências noticiosas . No meio de cada feriado e ponte que proliferam na nossa terra, é sem dúvida uma árdua tarefa esta de ler os jornais. E o tempo escorre veloz, mesmo que só façamos leituras oblíquas para "escolher" o que ali vem que nos interessa ou convem ler. Lá se vão algumas páginas de um bom livro que teríamos podido estar a ler, não fosse o desejarmos ficar ao corrente do que de mais actual vai por aí, pelos arredores das nossas frustrações.

E como parece que o que vem nos jornais é que importa, "pensaram"as cabeças pensantes( que decidem o que, de futuro, todo o português deve saber), que há que dar lições de jornalismo aos jovens que, na escola, ainda mal sabem distinguir a prosa da poesia...
Ensina-se-lhes o quê,como,onde e porquê e depois dá-se-lhes, como trabalhos de casa ou testes para nota, a fabricação de notícias com obediência a todas as regras adjacentes.

É conhecida a relutância que os nossos rapazes e raparigas têm pela leitura de qualquer livro e então estimulam-se na exploração da literatura jornalística. Daqui a distinguirem um "Editorial" de uma "Crónica" e a analisarem uma" Entrevista"vai toda uma panóplia de conhecimentos que eu não sei quantos deles irão mais tarde sequer recordar, quanto mais utilizar...

E não posso deixar de perguntar-me : Que haverá de inconveniente nos nossos maravilhosos escritores? Esta cultura de feriados e pontes estará também a roubar-nos o tempo para eles até que os vamos deixando cair?...



...

.

02 novembro 2007

O dia de todas as memórias


FLORES para todos os que amei e hei-de amar...

E agora sei que está nesse amor a eternidade...

01 novembro 2007

Dia de todos os santos

"Felizes os obreiros da paz, porque hão-de chamar-se filhos de Deus "

26 outubro 2007

Eugénio de Andrade:
Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar;
– surdo, subterrâneo e impiedoso rio ,
para onde vais sem eu poder ficar ?

Miguel Torga:



1– Remendo o coração, como a andorinha
remenda o ninho aonde foi feliz.
Artes que o instinto sabe ou adivinha...
Mas fico a olhar depois a cicatriz.

2– Na sina que me foi lida,
este dia é sempre assim:
Sol na paisagem da vida,
e sombra dentro de mim.

23 outubro 2007

Fait-divers

Às vezes o dia a dia da vida numa grande cidade traz- nos os chamados faits-divers que nem sempre são trágicos na sua superfície visível e que até nos podem fazer sorrir, por muito desencantados que tenhamos saído nesse dia. Este, que me foi relatado "na hora", até permite construir uma pequena fábula dos tumultuosos tempos que estamos vivendo na cidade.
Sete e meia da manhã, lusco-fusco, e um autocarro cheio com as pessoas de profissões "menores", que são as que se movimentam de autocarro a horas destas. Num dos bancos perto da porta senta-se uma jovem vistosa de roupas , adornos e penteados .Há agora uma espécie de tranças feitas de lã, fininhas e coloridas, que as raparigas introduzem nos penteados como se fossem extensões e as enfeitam, caindo sobre um ou os dois ombros ,ligeiramente mais longas do que o cabelo. Pois a nossa personagem tinha também dessas trancinhas. O autocarro pára e,correndo como loucos, dos bancos lá de trás, saltam dois rapazes para a porta, um deles atira as mãos aos ouros da rapariguinha, ela leva as mãos ao pescoço e grita ... e eles já correm, voando rápido, rua fora...Tudo cronometrado a fracções de segundo...No meio do borborinho dentro do autocarro, " ai o ouro!" "e para que é que trazem aquilo tudo ao pescoço?" "é p'ra aprenderem..." ,ouve-se meio sumida a voz da jovem beleza assaltada: "levaram-me a minha rica trança !"... MUCH A DO FOR NOTHING!!!

20 outubro 2007

Ortega y Gasset-de La Rebelion de las Masas

HABLAR es una operación mucho más ilusoria de lo que suele creerse, por supuesto, como casi todo lo que el hombre hace. Definimos el lenguage como el medio que nos sirve para manifestar nuestros pensamientos... ... Lo de menos es que el lenguage sirve también para ocultar nuestros pensamientos, para mentir. La mentira seria impossible si el hablar primário y normal no fuese sincero. La moneda falsa circula sostenida por la moneda sana. A postre, el engaño resulta ser un humilde parásito de la ingenuidad... ... Sendo al hombre impossible entenderse con sus semejantes, estando condenado a radical soledad, se extende en esfuerzos para llegar al prójimo. De estos esfuerzos es el lenguage quien consigue a veces declarar con mayor aproximación algunas de las cosas que nos pasan dentro. Nada más.

Cuando el hombre se pone a hablar, lo hace porque cree que va a poder decir cuanto piensa. Pues bien: esto es lo ilusorio. El lenguage no da para tanto. Dice poco más o menos una parte de lo que pensamos y pone una valla infranqueable a la transfusion del resto. Sirve bastante bien para enunciados y pruebas matematicas; ya al hablar de física empieza a hacerse equívoco y insuficiente. Pero conforme la conversación se ocupa de temas más importantes que ésos, más humanos, más reales, va aumentando su imprecision, .su torpeza y confusionismo. Dociles al prejuicio inveterado de que hablando nos entendiemos, decimos y escuchamos tan de buena fe, que acabamos muchas veces por malentendernos mucho más que si, mudos, procurásemos adivinarnos... ...En todo decir hay un emisor y un receptor, los cuales no son indiferentes al significado de las palabras y esto varia cuando aquelles varian ( duo si idem dicunt non est idem)... ... Se ha abusado de la palabra y por eso ha caído en desprestígio.... ...hablar a todo el mundo y a nadie... ...yo detesto...y sufro cuando no sé muy concretamente a quién hablo...

18 outubro 2007

A Palavra

Fazer um poema
não é só escrevê-lo
nem senti-lo.
Não é aquilo que pensam
de dizer-se o que nos vai por dentro,
de guardar no papel
um segredo
se não temos coragem de guardá-lo.

Nem tão pouco é vontade de exibir-se
na esperança de que alguém,
lendo-o, diga sentir-se
como nosso irmão,
tal a capacidade de comunicação !


Não ! Fazer um poema
pode ser mea culpa,
às vezes convulsão de sentimentos
entre alegrias e penas
e alguns arrependimentos...


Mas sempre, sim,principalmente,
uma imensa volúpia
de agarrar as palavras
e domá-las,
desdobrá-las
recriá-las,
pô-las contra a parede
ali , à prova,
de terem, sim ou não,
força bastante,
música,
mansidão,
rigor ou colorido
para dizerem, só e justamente,
aquilo que é de nós parte integrante,
sem probabilidades
de outro sentido...



Mística e transcendente, à palavra
é a mão que obedece docilmente
e o gesto que desliza no papel...


e ,se nasce o poema,
é misteriosamente,
e misteriosamente...

14 outubro 2007

Chorar em Fátima

Não é a mesma lágrima
de sempre !
Não é o mesmo sal,
a espessura, e o gosto...
Brota silenciosa,
devagar,
e começa a escorrer
por dentro da emoção,
a inundar-nos não o peito : a alma !

Não é a mesma lágrima.
isso não !
É um grito calado
a morrer-nos na boca...
E o amargo sabor
das dores do Mundo, todas...
Ali e só ali é que entendemos:
somos mesmo pequenos
e sem espaço
para um pequeno grão
sequer
de santidade...







!

09 outubro 2007

CARDAL _ a ponte

É sempre bom a mão amiga que se nos estende. Às vezes precisamos dela deseperadamente .
Nisto do dar e precisar, diz-se que quem precisa, precisa sempre e quem dá, não pode dar sempre. Se esta tão sábia sentença é verdadeira em termos de bens materiais,já não é tanto assim em termos da amizade, com o seu caudal de bens inerentes ( previsão,subtileza, desprendimento, paciência, aceitação, etc.,etc.) Sei, por experiência própria, que a mão amiga, a amiga mesmo, está sempre lá, onde eu a sei.Não pode,é claro, adivinhar as minhas situações de carência-desespero, mas algumas vezes houve já em que as previu e se me estendeu tão oportunamente que eu pensei que havia ali "feitiço"...
Estamos pois num aproveitamento de três dias de férias numa daquelas pontes que reis e santos tanta vez oferecem ao povo quando a data da sua celebração vai cair a jeito de desdobrar os dias chamados inúteis da semana. Desta vez, por acaso, até se celebrava o desaparecimento dos reis, precedido de acções nada dignas de se celebrar. Bem; mas foi feriado bom, brilhante, morno, sem vento, lindo ! E a casa da Teresa e do João estava lá, de braços abertos, à nossa espera, assim uma espécie de ilha de bem-estar e paz no meio de um mundo ruidoso e agressivo de que,na ocasião, estávamos cansados.Janelas abertas sobre o vale em cuja concha cintila o límpido azul das águas da albufeira fragmentada em vários braços reentrantes , envolvência de verdes em plena pujança, mesmo sendo outono, pios, grasnados, latidos longínquos, a enrolarem-se no marulho das ramagens,descida lenta do sol a desdobrar-se em incontáveis tons de rosa e lilás...e, da nossa parte, uma tão premente vontade de não mexer nem as pálpebras, não vá quebrar-se o encanto ! Uma premente necessidade de agradecer a Deus esta oferta inesperada de um mundo límpido que podemos guardar na alma...
Esperar silenciosamente
pelas coisas
sossegadamente...
Sabe de outra maneira
e é diferente
aquele acontecer
que não nos chega
atabalhoadamente...
E sentir que afinal algo espera por nós indefinidamente, indefinidamente...

08 outubro 2007

Dia de S. Francisco de Assis

IL POVERELLO !!!

"Onde houver ódio, que eu leve o AMOR
Onde houver ofensa, que eu leve o PERDÃO
Onde houver discórdia, que eu leve a UNIÃO
Onde houver dúvida, que eu leve a FÉ
Onde houver erro, que eu leve a VERDADE
Onde houver desespero, que eu leve a ESPERANÇA
Onde houver tristeza, que eu leve a ALEGRIA
Onde houver trevas, que eu leve a LUZ ."

"Fazei, Senhor, que eu procure mais consolar do que ser consolado, compreender do que ser compreendido, amar do que ser amado!"

01 outubro 2007

O Dia da Música

De la musique avant toute chose...É celebrado hoje o DIA daMÚSICA e logo no primeiro dia do mês no qual eu encontro todas as conexões com suavidade,doçura,apaziguamento, serenidade !
Nada daqueles entorpecimentos da geração que VERLAINE marcou com esta sua lei primeira da arte poética, mas um "estar bem" no mundo agora malgré tout... Parece-me de total inutilidade explicar aqui qual é a minha música uma vez que a incluo neste panorama do meu Outubro. Tive a sorte de me terem oferecido agora dois CDs de géneros bem distintos mas perfeitamente enquadráveis nesta tessitura das minhas horas de silêncios vitais : 14 valsas de Chopin interpretadas pela Mª João Pires e a Sinfonia nº 2 de Rachmaninov numa interpretação do maestro Temirkanov que faz com a Royal Philharmonic Orchestra absolutamente um festival. Já quase tanto, direi, como o Karajan quando pegava fosse em que orquestra fosse. Não se admirará ninguém de que uma pessoa com a minha idade não se entusiasme com os be- bop e todas as qualidades de pop com cujos barulhos a gente nova se embala, ou antes, se sacode. É a energia estuante que encerram nos seus corpos que precisa daquela válvula de escape . Por isso também hoje devem os jovens festejar a sua música. Lá chegará um dia em que também festejarão a minha...E como me irão então compreender!!!