26 outubro 2007

Eugénio de Andrade:
Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar;
– surdo, subterrâneo e impiedoso rio ,
para onde vais sem eu poder ficar ?

Miguel Torga:



1– Remendo o coração, como a andorinha
remenda o ninho aonde foi feliz.
Artes que o instinto sabe ou adivinha...
Mas fico a olhar depois a cicatriz.

2– Na sina que me foi lida,
este dia é sempre assim:
Sol na paisagem da vida,
e sombra dentro de mim.

23 outubro 2007

Fait-divers

Às vezes o dia a dia da vida numa grande cidade traz- nos os chamados faits-divers que nem sempre são trágicos na sua superfície visível e que até nos podem fazer sorrir, por muito desencantados que tenhamos saído nesse dia. Este, que me foi relatado "na hora", até permite construir uma pequena fábula dos tumultuosos tempos que estamos vivendo na cidade.
Sete e meia da manhã, lusco-fusco, e um autocarro cheio com as pessoas de profissões "menores", que são as que se movimentam de autocarro a horas destas. Num dos bancos perto da porta senta-se uma jovem vistosa de roupas , adornos e penteados .Há agora uma espécie de tranças feitas de lã, fininhas e coloridas, que as raparigas introduzem nos penteados como se fossem extensões e as enfeitam, caindo sobre um ou os dois ombros ,ligeiramente mais longas do que o cabelo. Pois a nossa personagem tinha também dessas trancinhas. O autocarro pára e,correndo como loucos, dos bancos lá de trás, saltam dois rapazes para a porta, um deles atira as mãos aos ouros da rapariguinha, ela leva as mãos ao pescoço e grita ... e eles já correm, voando rápido, rua fora...Tudo cronometrado a fracções de segundo...No meio do borborinho dentro do autocarro, " ai o ouro!" "e para que é que trazem aquilo tudo ao pescoço?" "é p'ra aprenderem..." ,ouve-se meio sumida a voz da jovem beleza assaltada: "levaram-me a minha rica trança !"... MUCH A DO FOR NOTHING!!!

20 outubro 2007

Ortega y Gasset-de La Rebelion de las Masas

HABLAR es una operación mucho más ilusoria de lo que suele creerse, por supuesto, como casi todo lo que el hombre hace. Definimos el lenguage como el medio que nos sirve para manifestar nuestros pensamientos... ... Lo de menos es que el lenguage sirve también para ocultar nuestros pensamientos, para mentir. La mentira seria impossible si el hablar primário y normal no fuese sincero. La moneda falsa circula sostenida por la moneda sana. A postre, el engaño resulta ser un humilde parásito de la ingenuidad... ... Sendo al hombre impossible entenderse con sus semejantes, estando condenado a radical soledad, se extende en esfuerzos para llegar al prójimo. De estos esfuerzos es el lenguage quien consigue a veces declarar con mayor aproximación algunas de las cosas que nos pasan dentro. Nada más.

Cuando el hombre se pone a hablar, lo hace porque cree que va a poder decir cuanto piensa. Pues bien: esto es lo ilusorio. El lenguage no da para tanto. Dice poco más o menos una parte de lo que pensamos y pone una valla infranqueable a la transfusion del resto. Sirve bastante bien para enunciados y pruebas matematicas; ya al hablar de física empieza a hacerse equívoco y insuficiente. Pero conforme la conversación se ocupa de temas más importantes que ésos, más humanos, más reales, va aumentando su imprecision, .su torpeza y confusionismo. Dociles al prejuicio inveterado de que hablando nos entendiemos, decimos y escuchamos tan de buena fe, que acabamos muchas veces por malentendernos mucho más que si, mudos, procurásemos adivinarnos... ...En todo decir hay un emisor y un receptor, los cuales no son indiferentes al significado de las palabras y esto varia cuando aquelles varian ( duo si idem dicunt non est idem)... ... Se ha abusado de la palabra y por eso ha caído en desprestígio.... ...hablar a todo el mundo y a nadie... ...yo detesto...y sufro cuando no sé muy concretamente a quién hablo...

18 outubro 2007

A Palavra

Fazer um poema
não é só escrevê-lo
nem senti-lo.
Não é aquilo que pensam
de dizer-se o que nos vai por dentro,
de guardar no papel
um segredo
se não temos coragem de guardá-lo.

Nem tão pouco é vontade de exibir-se
na esperança de que alguém,
lendo-o, diga sentir-se
como nosso irmão,
tal a capacidade de comunicação !


Não ! Fazer um poema
pode ser mea culpa,
às vezes convulsão de sentimentos
entre alegrias e penas
e alguns arrependimentos...


Mas sempre, sim,principalmente,
uma imensa volúpia
de agarrar as palavras
e domá-las,
desdobrá-las
recriá-las,
pô-las contra a parede
ali , à prova,
de terem, sim ou não,
força bastante,
música,
mansidão,
rigor ou colorido
para dizerem, só e justamente,
aquilo que é de nós parte integrante,
sem probabilidades
de outro sentido...



Mística e transcendente, à palavra
é a mão que obedece docilmente
e o gesto que desliza no papel...


e ,se nasce o poema,
é misteriosamente,
e misteriosamente...

14 outubro 2007

Chorar em Fátima

Não é a mesma lágrima
de sempre !
Não é o mesmo sal,
a espessura, e o gosto...
Brota silenciosa,
devagar,
e começa a escorrer
por dentro da emoção,
a inundar-nos não o peito : a alma !

Não é a mesma lágrima.
isso não !
É um grito calado
a morrer-nos na boca...
E o amargo sabor
das dores do Mundo, todas...
Ali e só ali é que entendemos:
somos mesmo pequenos
e sem espaço
para um pequeno grão
sequer
de santidade...







!

09 outubro 2007

CARDAL _ a ponte

É sempre bom a mão amiga que se nos estende. Às vezes precisamos dela deseperadamente .
Nisto do dar e precisar, diz-se que quem precisa, precisa sempre e quem dá, não pode dar sempre. Se esta tão sábia sentença é verdadeira em termos de bens materiais,já não é tanto assim em termos da amizade, com o seu caudal de bens inerentes ( previsão,subtileza, desprendimento, paciência, aceitação, etc.,etc.) Sei, por experiência própria, que a mão amiga, a amiga mesmo, está sempre lá, onde eu a sei.Não pode,é claro, adivinhar as minhas situações de carência-desespero, mas algumas vezes houve já em que as previu e se me estendeu tão oportunamente que eu pensei que havia ali "feitiço"...
Estamos pois num aproveitamento de três dias de férias numa daquelas pontes que reis e santos tanta vez oferecem ao povo quando a data da sua celebração vai cair a jeito de desdobrar os dias chamados inúteis da semana. Desta vez, por acaso, até se celebrava o desaparecimento dos reis, precedido de acções nada dignas de se celebrar. Bem; mas foi feriado bom, brilhante, morno, sem vento, lindo ! E a casa da Teresa e do João estava lá, de braços abertos, à nossa espera, assim uma espécie de ilha de bem-estar e paz no meio de um mundo ruidoso e agressivo de que,na ocasião, estávamos cansados.Janelas abertas sobre o vale em cuja concha cintila o límpido azul das águas da albufeira fragmentada em vários braços reentrantes , envolvência de verdes em plena pujança, mesmo sendo outono, pios, grasnados, latidos longínquos, a enrolarem-se no marulho das ramagens,descida lenta do sol a desdobrar-se em incontáveis tons de rosa e lilás...e, da nossa parte, uma tão premente vontade de não mexer nem as pálpebras, não vá quebrar-se o encanto ! Uma premente necessidade de agradecer a Deus esta oferta inesperada de um mundo límpido que podemos guardar na alma...
Esperar silenciosamente
pelas coisas
sossegadamente...
Sabe de outra maneira
e é diferente
aquele acontecer
que não nos chega
atabalhoadamente...
E sentir que afinal algo espera por nós indefinidamente, indefinidamente...

08 outubro 2007

Dia de S. Francisco de Assis

IL POVERELLO !!!

"Onde houver ódio, que eu leve o AMOR
Onde houver ofensa, que eu leve o PERDÃO
Onde houver discórdia, que eu leve a UNIÃO
Onde houver dúvida, que eu leve a FÉ
Onde houver erro, que eu leve a VERDADE
Onde houver desespero, que eu leve a ESPERANÇA
Onde houver tristeza, que eu leve a ALEGRIA
Onde houver trevas, que eu leve a LUZ ."

"Fazei, Senhor, que eu procure mais consolar do que ser consolado, compreender do que ser compreendido, amar do que ser amado!"

01 outubro 2007

O Dia da Música

De la musique avant toute chose...É celebrado hoje o DIA daMÚSICA e logo no primeiro dia do mês no qual eu encontro todas as conexões com suavidade,doçura,apaziguamento, serenidade !
Nada daqueles entorpecimentos da geração que VERLAINE marcou com esta sua lei primeira da arte poética, mas um "estar bem" no mundo agora malgré tout... Parece-me de total inutilidade explicar aqui qual é a minha música uma vez que a incluo neste panorama do meu Outubro. Tive a sorte de me terem oferecido agora dois CDs de géneros bem distintos mas perfeitamente enquadráveis nesta tessitura das minhas horas de silêncios vitais : 14 valsas de Chopin interpretadas pela Mª João Pires e a Sinfonia nº 2 de Rachmaninov numa interpretação do maestro Temirkanov que faz com a Royal Philharmonic Orchestra absolutamente um festival. Já quase tanto, direi, como o Karajan quando pegava fosse em que orquestra fosse. Não se admirará ninguém de que uma pessoa com a minha idade não se entusiasme com os be- bop e todas as qualidades de pop com cujos barulhos a gente nova se embala, ou antes, se sacode. É a energia estuante que encerram nos seus corpos que precisa daquela válvula de escape . Por isso também hoje devem os jovens festejar a sua música. Lá chegará um dia em que também festejarão a minha...E como me irão então compreender!!!

28 setembro 2007

Passagem de Modelos

Chega o Inverno
e acolho-me no quente
das lãs
que quero fofas, levezinhas...
Sob os calores do Verão
é nas sedas, nos linhos
deslizantes
que a minha pele
encontra o arrepio
que a brisa empresta
às manhãs refrescantes...
Na minha Moda
o que é mais importante
é toda a contextura dos tecidos
e não a arquitectura dos vestidos !
É orgânico, é físico,
é carne e é sentidos !...
Frivolidade apenas aparente
na Moda, o inquietante
é que nos cobre o nu
mas ficamos despidos ...

20 setembro 2007

LEITURA

Uma das realidades com que se batem os pr ofessores de Português neste tempo em que vivemos é que os alunos não gostam, não querem,não se fixam a LER.
Portanto, para eles, ler um livro completo é algo de impensável. Claro que estou cansada de procurar fazer um levantamento das razões por que tal fenómeno se gerou e se fixou, mas o conhecê-las não me ajudou em nada para a descoberta da melhor maneira de as combater. E então o que me espanta é a ingenuidade ( ou será apenas hipocrisia ? ) com que nos programas oficiais surge uma “coisa” chamada CONTRATO DE LEITURA pela qual os professores vão procurar comprometer os seus alunos a lerem, ao longo de um prazo de tempo contratado , um ou mais livros que ou eles próprios indicam, ou vêm já sugeridos no manual. Será uma tentativa e até podia vir a colher alguns frutos...Mas, para meu grande pasmo, os livros sugeridos são muitos de autores estrangeiros nem sempre representativos de alguma coisa útil e com traduções nem sempre exemplares. Há sugestões, por exemplo, para HARRY POTTER...
E é perante um panorama destes que, quase em simultâneo, nos aparecem duas notícias felizes no âmbito da Literatura Portuguesa..No meu tempo de escola lia-se AQUILINO RIBEIRO e na obra vastíssima os romances prendiam , da primeira à última página. Era eu que já gostava ou seria mesmo o seu modelo que também me estimulava para a utilização de uma língua escrita especial e diferente da de todos os outros escritores que eu conhecia ? Bem, com uma enorme polémica à mistura, as ossadas de Aquilino vieram agora tomar lugar no Panteão Nacional. Temos motivo para nos orgulharmos porque estão pensando em gloriar um expoente da língua nossa tão amada trabalhada com tal mérito que até não teria sido demais se o seu autor tivesse recebido um Prémio Nobel.
A outra notícia vem da Alemanha onde ANTÓNIO LOBO ANTUNES esteve presente num Festival de Literatura em Berlim onde foi apresentado como “ o maior escritor português da actualidade “ e foi longamente aplaudido por uma enorme assistência. Num post que escrevi quando lhe foi atribuido o Prémio Camões, no mês de Março, podem ler-se as razões do meu contentamento por esta notícia de agora.
É minha obrigação falar de tudo isto aos meus alunos. Conseguirei que desistam de ir procurar onde se vendem os famosos resumos que proliferam como cogumelos nas sombras das grandes árvores ?

14 setembro 2007

Um novo ano lectivo

...e aí estão eles ! Já vieram, como as andorinhas vêm anunciar a chegada da Primavera.Uns telefonam primeiro, outros vêm de surpresa, com um sorriso maroto e com o ar de quem vem apanhar-me em qualquer actividade misteriosa; mas há os que vêm com a Mãe ou porque vêm pela primeira vez, ou porque as Mães são senhoras simpáticas que passam todo o ano lectivo a falar-me pelo telefone( sempre na hora de jantar e sempre um pouco a correr) e aproveitam esta abertura para virem estar um pouco comigo. E trazem-me chocolates, flores, livros, perfumes, écharpes... Isto tudo acompanhado de uns olhares ansiosos fixados na minha cara, atentos à minha mínima reacção, porque eles sabem que eu reclamo sempre com este assunto dos presentes e, acham eles que, vindo das Mães, eu talvez me comporte... Claro que os adoro. Estes meninos ou rapazes e raparigas são o estímulo que à minha idade ainda vai sendo permitido. De muitos deles, já fui professora da Mãe e até da Avó...Mas vêm os da Paróquia ou outros a quem falaram de mim...São todos os meus meninos, mesmo quando já estão com um pé nas Faculdades. Luto ao lado deles uma luta cujas armas eu vou tendo que adaptar ou mesmo criar, consequente das suas fraquezas ,das suas capacidades e das peculiaridades dos professores que cada um tem, nas respectivas escolas. Usei a palavra "luto" porque, na verdade, a sequência escolar, nestas épocas de instabilidades várias, como ultimamente vem sendo, toma proporções de um verdadeiro combate no qual os jóvens se podem perder sem mesmo disso se darem conta. Para isso, eles sabem que contam comigo. Ensinar a amar é qualquer coisa que tem que ver com a alquimia ou então com o Divino.E eu pretendo ensiná-los a amar : a sua língua, a sua História, a sua literatura, os seus escritores...e todo aquele todo que é afinal a ALMA da sua Pátria. Assim Deus me ajude ! VAMOS COMEÇAR !

09 setembro 2007

Porquê um blog ?

Que quero eu com este blog ?É apenas um exercício de escrita? Pressupõe este um arrumar de ideias? Ou é antes um arrecadar de ideias, através de um exercício de escrita? Não será antes um substituto daquele interlocutor ou daquela companheira “de route” que tanta vez me falta para só falar, falar para dizer coisas, falar para me ouvir sobre coisas...?
Fui educada em discrição, poucas palavras, ausência de palavras “pequeninas”, que é o nome que eu dou às palavras mimosas, de mimo mesmo. Trouxe portanto para a vida prática um vocabulário seco, estrito que depois fui aprendendo a enriquecer com as belas adjectivações , metáforas e ironias dos meus autores estudados, preferidos, alguns. E , nesta espécie de autodidatismo, comecei, muito novinha a impressionar-me muito , nas leituras do Novo Testamento, com a dureza das falas de JESUS. Há certas pasagens em que,à luz da educação que recebi, Ele chega a tocar as raias da má educação, na forma como fala à MÃE ou aos Pais. E como isso contrasta com os diminutivos amorosos que utilizam os autores das variadas Epístolas para se dirigirem aos pagãos que queriam cativar ! Creio que as contingências da maioria das traduções que nos vieram ter às mãos têm muito a ver com isso, mas será impossível, no entanto, deixarmos de ouvir Jesus dirigir-se à MÃE usando o vocativo “mulher”, tal como o usa para chamar a prostituta prestes a ser lapidada, ou a pobre doente que o persegue para que a cure.Diz-nos o Evangelho que Nossa Senhora via crescer o filho “em graça e sabedoria” e “Tudo guardava no seu coração”. Também ensinou assim as mulheres a erguerem nos seus corações os mais secretos templos de amor não exteriorizado...
E por aqui comecei hoje, na sequência das leituras da missa em que, por muito que as homilías quisessem adoçar, para nós ficou nitidamente claro que Jesus nos exige ,muito
concretamente, o abandono radical de toda e qualquer fraqueza humana de coração, para podermos segui-lo.DIFÍCIL !!!
Tanto mais difícil para mim esta semana PORQUE : 1- recebi visitas e recados com provas de tanto gostarem de mim, que foi inevitável aquele calorzinho no peito, que vem do orgulho; 2 - vi um filme na TV ( coisa que não é de meus hábitos) de que muito gostei porque me veio fornecer provas de coisas que eu sozinha tinha equacionado e além disso era um notável trabalho de actores; 3- tendo recebido a notícia da morte do “GRANDE” Pavarotti não me foi possível furtar-me a um reviver de muitas coisas lindas a ele ligadas pela sua espantosa voz e evitar uma ou duas lagrimitas, talvez piegas, talvez! ; 4- dona de casa à maneira de minha Mãe, ainda organizo, com a insubstituível Valentina, umas limpezas anuais à minha casa, às quais eu chamo “grandes manobras” e que me permitem ,em cada ano, verificar de quanta coisa inútil estamos nós rodeados, ao fim de tantos anos de vida nossa e de perda de vidas queridas , das quais as pequenas e grandes inutilidades envolventes acabaram vindo “desaguar” na minha envolvência ,fazendo da minha casa uma enorme acumulação de “teres” dos quais é preciso cuidar ,Deus sabe com quanta canseira...
Como ,com tudo isto, obter o tal abandono radical que certamente faria de mim uma pessoa infinitamente livre?
Então assaltou-me a ideia do blog, com que comecei. Será também para isso um blog...Um pouco como o canavial das canas do conto do Principe com Orelhas de Burro...

02 setembro 2007

É SETEMBRO

Extracto de Enfants de Septembre
de Patrice de la Tour du Pin

....je suis un enfant de Septembre,
moi-même, par le coeur, la fièvre et l'esprit,
et la brûlante volupté de tous mes membres,
et le désir que j'ai de courir dans la nuit
sauvage, ayant quitté l'étouffement des chambres...

Mais les bois étaient recouverts de brumes basses
et le vent commençait à remonter au nord,
abandonnant tous ceux dont les ailes sont lasses,
tous ceux qui sont perdus et tous ceux qui sont morts,
qui vont par d'autres voies en de mêmes espaces...


De Salvatore Quasimodo, traduzido por Ernesto Sampaio

E DE REPENTE É NOITE

Cada um está só, sobre o coração da terra
trespassado por um raio de sol:
e de repente é noite !

28 agosto 2007

DORNES


...E quando eu já vinha toda cheia de lirismo acolchoado em todos os prazeres daquele impres-
sionismo que tem sempre as minhas preferências tanto na pintura, como na música, como nos Cesários pelos quais me apaixonei, acontece o tristíssimo episódio do falecimento do EPC que desviou do meu espírito toda a capacidade de encantamento com que Deus me dotou. E é aqui que entra algo que eu reputo de extraordinário e me é dado, assim, de bandeja, como soe dizer-se, pela net. Sento-me em frente do meu computador, completamente vazia, posso dizê-lo. E, recordando os meus passeios em férias, lembrei-me de que talvez a net me pudesse dar alguma informação histórica e sociológica sobre a vila de DORNES que, para mim fora já uma descoberta noutras férias e agora revisitara com um ainda maior enamoramento. De busca em busca, apresenta-se-me então, nem mais, nem menos do que um BLOG elaborado por apaixonados dornenses reunidos em torno de uma acesa disputa sobre a categoria autárquica da sua lindíssima terra.
E lá estava tudo e ainda mais , daquilo que eu procurava, um pouco por desfastio, naquela ocasião.Não resisti a apropriar-me de uma ou duas belas fotos sabendo como dificilmente obtemos bons angulos numa terra muito recortada como é Dornes.Vou tentar mostrá-las aqui,recomendando, no entanto, o Blog SALVEM A VILA DE DORNES.

25 agosto 2007

De vez em quando somos apanhados numa curva do caminho pacato que iamos percorrendo e desaba sobre nós, amarga, aquela imprevisibilidade, aquela instabilidade que, a toda a força, passamos a vida a querer esquecer ou disfarçar para podermos dar à nossa vida alguma alegria, algum estímulo.´Cristãos e Católicos temos o dever de não esquecer que o Filho do Homem virá na hora em que menos pensardes e que, como às jovens esposas da parábola, nos é recomendado :vigiai pois, porque não sabeis o dia nem a hora ( Evangelho de São Mateus,24 e 25). Somos porém pouco dados a estas meditações, mesmo sabendo-as tão verdadeiras como mais nada neste mundo ! Ora estava eu há uns dias bastante irritada com o que o Eduardo Prado Coelho tinha publicado na altura do centenário de Miguel Torga, apetecendo-me discutir com uma certa ironia as opiniões por ele expostas,e estava ele já tão doente, tão doente, que hoje veio a falecer...A notícia da sua morte caiu no final do meu almoço. como bomba arremessada pelo jornalista da televisão. Conheci os pais do Eduardo,foram meus colegas, assisti ao namoro, depois ao progresso rápido do Jacinto que,mais antigo e já assistente, chegou a dar-me aulas, soube do casamento e depois do nascimento do bébé...Nunca perdi de vista a carreira do Eduardo. Uma vez encontrámo-nos em Sintra, ambos na recepção de um hotel onde iamos estar uns dias.Falámos um pouco de tudo e, nessa altura, ele já estava em Paris e estava casado,claro. Era um rapaz simpático, muito gordo, a resplandecer bem-estar consigo próprio. Era,pelo menos, tão inteligente como os Pais. Viamo-nos por aí,às vezes, em eventos do nosso interesse comum: livros e Letras. Fiquei muito chocada por os meus mais próximos últimos pensamentos para ele serem da natureza que foram. Mas creio na compreensão algures...

24 agosto 2007

Regresso

Como é que, na minha idade , ainda se regressa de férias(mesmo que pequeninas) com tanto entusiasmo renovador para banir alguns hábitos, para encetar outras formas de fazer ou dizer, para começar mesmo qualquer coisa não tentada antes, para largar uma pele, qual crisálida boasinha ou serpente traiçoeira ? Lembro-me perfeitamente de voltar de São Pedro de Moel, no tempo em que férias eram enormes espaços entre anos lectivos, com a cabeça a fervilhar de projectos, com um arrebatamento mal contido para contar como fora e como iria passar a ser tudo aquilo que o estimulante ar do mar e do pinhal me tinha levado a planear...Diga-se , em abono da verdade, que as companhias, a convivência descomprometida, o deixar abrir em leque tudo o que podia dissecar sobre fosse o que fosse , com outros que não eram “os de todos os dias”, me abria as portas todas, por onde a minha jovem curiosidade desejava entrar...E parece-me que é por aí que ainda germina o que, nesta idade, me traz de volta para casa com uma vigorosa sensação de poder renovar, de ser capaz... Isto, para dizer quão feliz me torna a convivência com os meus amigos que me recebem em sua casa, como se não “recebessem”, fazendo-me sentir “de lá”. É que assim se abre um enorme hiato entre o que eu estou cansada de ser e aquilo que, com eles, me parece que sou... E então quero “ser” essa que afinal tem uma casa onde se sente tão bem, que fica só, mas não é mau porque dá para pensar, que se acolhe dentro das suas rotinas como quem retorna ao útero materno...Estranhíssima maneira de tudo mudar, deixando tudo na mesma, não é ? Espantoso efeito destas deliciosas férias ! ! !

14 agosto 2007

Férias

Chegou hoje o dia de abandonar as minhas viciantes rotinas para ir passar uns dias em casa dos meus amigos Teresa e João que fazem questão de oferecer-me ...hospitalidade na sua belíssima casa, plantada entre pinhais, numa vertente que escorre para um dos braços reentrantes em que se desmultiplica a enorme albufeira do Castelo de Bode.É uma paisagem de paz que contagia todos os habitantes da casa onde parece que é proibido inquietarmo-nos uns aos outros...Quem quer e pode, além de dormir,"retoiça" na piscina, estira-se na relva ou faz umas incursões exploratórias até à água da barragem. Sem falar no enorme prazer das longuíssimas conversas, moles, sem pressas, que podem ocorrer a qualquer momento do dia ou da noite, acontecidas a talhe de foice do que diz qualquer dos amigos presentes...Férias mesmo !E lá vou eu...

13 agosto 2007

Baptizado

Não posso, não quero, passar por cima do registo daquilo que foi a coisa mais enternecedora, mais engraçada, e, ao mesmo tempo, mais cansativa de tudo o que podia ter-me acontecido neste mês de Agosto. No dia 11, data marcada com antecedência de meses, foi a baptizar na igreja da minha paróquia do Campo Grande a primeira neta da minha empregada Valentina. Este baptizado foi projectado e programado até ao mais insignificante pormenor pelos pais da criança, emigrados no Luxemburgo, e por toda a família de cá, da parte do pai e da mãe da baptizada; e o espírito da festa foi alastrando como uma onda espraiada por toda uma família em diáspora por essa Europa fora...Claro que,para a "minha" Valentina, era impensável que eu não tomasse parte naquela que foi certamente a festa da vida dela. E eu não tinha olhos , nem sorrisos, nem emoção que bastassem para me maravilhar, naquele dia, com o que pode ser o verdadeiro amor de família, o espírito de comunidade de famílias de sete e onze filhos, todos dispersos, a acorrerem a um toque a reunir emanado de um país distante, porque um deles está feliz e quer que todos partilhem da sua felicidade!A cerimónia na igreja foi seguida com todo o respeito e cumpriram-se todos os actos tradicionais que acompanham a chegada de mais um cristão à casa do PAI.Quando, porém o senhor padre António sugeriu que se festejasse com um bonito coral de "parabéns" e muitas palmas esta chegada da ALÍCIA a mais esta enorme família cristã, foi uma explosão de alegria geral que só deixava prever como a alegria iria reinar daí para a frente. E foi. Nem quero falar na festa-banquete. Tudo o que é especialidade caboverdeana,tudo o que nos vários países onde vivem uns e outros foram aprendendo. tudo o que de Portugal já entrou nas tradições daquele povo, nada faltou.Foi uma orgia gastronómica! Num espaço amplo,cercado de jardins, cerca de trezentos parentes estiveram comendo e bebendo longamente,alegremente, e não vi um único deslize, algum abuso de bebida,alguma perda de compostura. Precisavam certamente de expandir as emoções dos encontros ? Pois foi assim que se entrou na dança e daí para a frente foi soberbo! Só quem já viu o povo caboverdeano dançar as suas próprias músicas,sabe da beleza de um tal espectáculo.A música parece que encarna naqueles corpos elegantíssimos de raparigas e rapazes e há uma mistura de movimentos e sons envolvente, inebriante... A vê-los, acabei por ficar tão cansada como se estivesse no centro daquela espécie de vórtice.Foram emoções a mais para quem, como eu, tem uma rotina serena e quase sem novidades. Mas um dia inesquecível com imensas lições que não podia supor ir ali receber.Estou mais uma vez grata à "minha" Valentina !

12 agosto 2007

Miguel Torga__100 anos

A minha ligação familiar com Joaquim Guilherme Gomes Coelho(Júlio Dinis) nunca me fez experimentar uma proximidade tão afectiva como a que sempre me prendeu a Miguel Torga a quem apenas me ligaram umas dúzias de palavras escritas e trocadas numa sempre cerimoniosa cordialidade.Foi ele quem indicou a meu PAI,numa conversa de amigos comuns dos dois, em COIMBRA, uma editora que ele acreditava que aceitaria de bom grado publicar a minha primeira meia dúzia de sonetos que eu ensopara da influência de Florbela e achava bons para mostrar.Foi ele quem, uma vez publicados os tais sonetos, teve a paciência de me escrever umas palavras de estímulo e alguns conselhos sobre as vicissitudes a que fica sujeito quem alguma vez decide editar. Tantos anos passados,tenho verificado que,nos compêndios dos meus alunos, Torga é sempre atirado para um muito recôndito plano, como se não valesse muito a pena sequer lê-lo, quanto mais estudá-lo. E qual não é o meu espanto quando há dias leio um artiguinho de Eduardo Prado C oelho no qual, aliviando a consciência a dizer bonitas coisas sobre o cidadão irrepreensível,corajoso , intransigente, e digno,se permite dizer que"por motivos que não serão fáceis de explicar, a obra poética de Torga nada tem a ver com a poesia que hoje se escreve em Portugal". .Diz mais "os seus versos deixam-me quase sempre num estado de indiferemça e nunca me dão o prazer da leitura..."Como assinante do Jornal de Letras, fiquei feliz ao verificar que este jornal dedicou a Torga e ao seu centenário quase todo o número de 1 de Agosto,mas Prado Coelho,sob a diplomática capa de achar isto justo em termos de história literária, não resiste a dizer que"num contexto intelectual não muito estimulante, o aparecimento das obras de Torga e até de Régio foram uma novidade tão retumbante que .em termos só de história literária ,valia a pena o relevo dado pelo Jornal de Letras.E pronto ! Fiquei então agora mesmo a saber que a intelectualidade estimulada não gosta de Torga e o considera um poeta( ? ) de 2ª que ficou a dever alguma notoriedade principalmente à época política em que apareceu tão corajoso e digno a dizer algumas coisas que mais ninguém dizia. Bem, isto daria para armarmos uma interessante polémica, se , em vez do filho se tratasse do pai Prado Coelho de quem fui aluna e que recordo com respeito. Por agora quero apenas afirmar com toda a força que amo oTorga a ponto de ter a ousadia de sonhar seguir o seu modelo. Realmente a poesia que hoje se faz em Portugal,marca uma época nova, mas não vamos desgostar-nos de Camões só porque tivemos a graça de encontrar Sophia... E, do tempo dos sonetos, quero mesmo deixar aqui o que se segue:
A MIGUEL TORGA

Homem inteiro és.Na tua fé
a mesma seiva pura que há na terra.
Quando, junto de ti, a Vida erra,
sofres por ela ser tal como é.

Sofres.Descrês.E blasfemas até.
É o não poderes nada que te aterra.
Mas na crença no Mundo que te encerra
é que tu, naufragado, encontras pé.

Irmão de homens e plantas e animais,
podes ,nos teus penhascos ver ainda
promessas novas de que esperas mais...

E todas as verdades principais
hão-de vir-te ao caminho.E a sua vinda
é que te abre os caminhos por onde vais.

08 agosto 2007

Uma data,uma memória

Dos amigos que fomos perdendo ficaram-nos sempre alguns instantes,quase sempre fugazes, que temos a sensação de ter roubado da esteira das suas vidas e que adquiriram para nós o valor de um pequeno tesouro que, de maneira quase avarenta, vamos revisitando, recontando, para nos certificarmos de que não nos estará faltando alguma peça. Na bolsa das recordações, a morte é sempre uma mais valia ! Como me surpreendo hoje a compreender tão bem e até a corroborar opinões, conceitos e exigências daqueles que, em sua vida, julguei com dureza( ás vezes com raiva) e até combati !... Saudade,gosto amargo de infelizes... como diz o poeta.Não há datas marcadas na nossa forma de ser amigo, ou filho ,ou viuvo, mas as datas,recorrentes, quando vêm ao nosso encontro, põem-nos esse tal gosto amargo,não na boca, mas na alma. É por isso que´são bons os tais instantes roubados, flashes que dão uma luminosidade única à nossa mais tímida recordação...