...e quando foi manhã
tinhas partido.
Eu era
o destroço
sobrado
de uma luta sem glória...
Quantas manhãs depois
vieram recordar-me
as investidas feitas,
sempre, por nós os dois !
Contra a vileza
e a subtil maldade,
contra a hipocrisia
e a mediocridade,
contra o lugar-comum,
a dença e a má sorte
e contra o déjá-vu
e os assédios da morte...
A recordar-te assim,
foi-me o tempo passando
e esqueci-me de mim...
Só quando fui capaz
de, um dia, separar
o meu do teu viver,
reparei no que andara,
...e estava a entardecer !
24 abril 2007
20 abril 2007
MIA COUTO
"Instantaneando" a minha reacção quando soube da atribuição do PRÉMIO UNIÃO LATINA DE LITERATURAS ROMÂNICAS ao meu apreciadíssimo MIA COUTO,aqui estou, a apetecer-me imenso ser capaz do seu "FALINVENTAR" para dizer do enorme prazer que experimento ao lê-lo.Será mesmo lê-lo? É que ,pelas suas páginas, parece que reboa uma sonoridade toda nova e pode ouvir-se "nhenhenhar" o motor do velho automóvel,"cambalhotar" o mar,"bazarinhar" a "gentania"...E depois há como que uma certa mestiçagem da idade da inocência com os "satanhocos" de "carantonheação" que faz "minguar o coração" e esta mistura traz uma tal pureza que nos refresca como uma boa sombra, quando há muito calor.MIA COUTO diz que tem uma paixão por gatos e por isso mesmo adoptou aquele nome que o seu irmão pequeno lhe chamava.Será essa uma afinidade entre nós de que só tenho que orgulhar-me porque não é "um quem" qualquer que entende de gatos...Nem tão pouco é um qualquer que recebe este prémio atribuido por um júri representativo de trinta e tal países e que já premiou José Cardoso Pires, Agustina Bessa Luis e António Lobo Antunes.
17 abril 2007
EVIDÊNCIAS
EVIDÊNCIAS
Perdida um pouco a noção do tempo em que tive a sorte de ir contando com ela, hoje calculo em mais de vinte e cinco anos o período da minha vida durante o qual, regularmente, às quintas feiras, ela vinha passar o dia em minha casa unicamente para fazer costura.
Baixinha, muito magra, feições regulares, cabelo cuidadosamente lavado e curto, ela falava num tom suave, ligeiramente marcado pela toada alentejana, musicalidade que guardara da sua origem e de uma meninice vivida no seu Alentejo, servindo em casas senhoriais, ainda quase menina. Dizia que dessa época da sua vida trouxera o saber lidar com as coisas bonitas e boas das boas casas, o saber cuidá-las, o dar-lhes valor. E também o saber conviver com as “senhoras”, o estimá-las, o compreender quando e quanto a estimavam também.
E das costuras saltava muita vez, por gosto, para as compotas e marmeladas, no outono, para as filhós e as rabanadas, no Natal. E, muitas vezes, passava à tábua de engomar, para contornar com a ponta do ferro, com enorme mestria, os bordados difíceis e as rendas delicadas. Toalhas, naperons, lençois do meu enxoval à moda antiga, saíam das suas mãos mais tesos e com mais relevo do que em novos!
Mas a sua verdadeira opção profissional era a costura. Aprendera apenas os rudimentos. No resto era autodidacta.
Se acaso no seu percurso de costureira “ a dias” encontrava senhoras que sabiam e aplicavam técnicas da “arte”, ela aprendia com elas tudo o que achasse que valorizaria o seu trabalho.
E foi assim que se fez uma excelente executante de qualquer modelo que se lhe mostrasse, em figurino ou do qual simplesmente se lhe desse uma descrição. Porém, com a simplicidade que era sua natureza, nunca arvorou pretenciosismos de nenhuma espécie. E isso o provava, sendo igualmente aplicada e diligente a passajar um rasgão em qualquer pano de cozinha, como a fazer aproveitamento de retalhos com alguma criatividade em sacas ou pegas para tachos ou a pregar molas e botões onde fossem precisos. Daí passava, com a maior naturalidade, ao corte de um brocado ou de um veludo, para uma toilette minha.
Em tantos anos de convívio, pudemos falar das nossas vidas uma à outra. Éramos amigas!
E houve pormenores de profunda e dolorosa intimidade criada nem sequer através de confidências: apenas na presença de evidências!
Um dia, chegou a minha casa alquebrada, lívida e tarde, o que não era sua prática habitual. Acerquei-me dela um pouco mais e vi manchas vermelhas e arranhões profundos no seu pescoço, nos braços e nas pernas.
Chorou nos meus braços.
Acarinhei-a como foi possível. Limpei-lhe as feridas, untei-a com pomadas balsâmicas, a minha empregada preparou-lhe um chá calmante.
Ninguém fez perguntas. Apenas lhe pedi que não trabalhasse. E deixámo-la em silêncio.
Eu sabia (já ela mo havia contado) que o marido – um carpinteiro bêbado, jogador e pouco amigo de trabalhar – tinha saído de casa havia algum tempo, após vários e violentos desacatos em casa, quase sempre por não se querer levantar manhã, à hora a que se levanta quem trabalha. Choravam os filhos por um lado, desesperava a mulher por outro; todos eram maltratados .
Pois, neste dia, esperara-a, e ali mesmo, na paragem do autocarro, sovara-a até que alguns transeuntes lhe acudiram. E assim a tivemos em casa, sofrendo física e moralmente, na mais profunda das profundas humilhações que pode sofrer uma mulher, ainda por cima amiga do que é belo, organizado e pacífico... Dizia-se (na terra dela, e também na minha, havia esse conceito) uma “mulher de vergonha”, o que encerra uma enorme abrangência psicológica e moral, mas nem por isso separada do físico.
Quantas mais situações dolorosas e ofensivas deste seu conceito ela não teve que suportar!
Depois, foi o criar os filhos, sozinha.
O vê-los revelarem-se à medida que cresciam... O filho, cada ano com mais semelhanças com o caracter do pai. Das filhas só uma foi ficando empreendedora, diligente, perfeccionista, como a mãe. A outra herdou, do pai, a preguiça, mas desenvolveu sozinha uma imensa ambição que a levou a um casamento e depois a algumas relações reveladoras da sua voracidade pelo “ter” e da sua impreparação para “manter”. De tudo isto, trouxe dois filhos, de dois pais. Para a avó, vencidos os desgostos, foram estes as suas alegrias que até já nem ousava esperar.
E passou a trazer-nos retratos dos netos, a contar as suas graças, primeiro, os seus êxitos, depois.
Andava um pouco mais feliz quando o filho, feito o serviço militar, resolveu casar-se e ir viver a sua vida. Em boa hora, porque de novo, em casa, começara a haver alguém que não queria levantar-se, de manhã...
Veio então uma nora sui-generis, “mulher de cafés”, no dizer da sogra.
De trabalho, na casa do filho, falava-se com uma noção diferente, com conotações diferentes das que eram suas conhecidas. Eram folgas, turnos, serões, compensações, o “desemprego”...
Que fazia a nora? Fumava. Fumava muito. E bebia cervejas. Saía de casa só para ir beber uma “cervejinha”...
E o filho, que fazia? Andava de emprego em emprego. Era serralheiro.
Aprendera na “tropa”, mas, no seu entender, ninguém lhe pagava quanto merecia.
Destes dois nasceu um filho. Outro neto. Outra alegria para a avó.
E os cafés da mãe ? E os empregos do pai? Disse-lhe alguém que o neto-bébé ficava horas e horas sozinho em casa.
Novos sofrimentos. Novas confrontações. Mas agora com uma nora. Das difíceis lutas de mulheres, por um homem, por uma criança, que sabia esta avó, mansa e doce, tão sofrida e tão pouco “urbana”, por comparação com esta nora, assim diferente?
Foi nisto tudo que se foi fazendo velha.
Mais velha do que a própria idade.
Chorou tanto, coseu tanto que os seus olhos começaram a dar sinais de cansaço.
O que ela mais receava era não poder continuar a coser.
Da sua casa, onde acabara por ficar sozinha, onde conhecia de cor as esquinas, os cantos, as pregas dos tapetes, a altura dos degraus, vieram dizer-lhe, um dia, que iria ser demolida, como as outras por ali perto, porque iria ser construída naquele local uma nova e espampanante urbanização.
Não quis acreditar. Esperou.
Mas não deixou de chorar.
Até que a operaram aos dois olhos.
Já entretanto tivera que deixar as casas onde sempre trabalhara, porque não via para coser.
Tornou-se evidente que, em casa, não poderia mais bastar-se a si mesma. E foi nessa altura que reapareceu a questão da casa, do bairro, da demolição. Era agora, sim, que a Câmara se propunha a realojar as famílias, desafectar as casa.
Foi o golpe da misericórdia!
Encontraram-lhe um Lar!
Felizmente um bom Lar. Criado e mantido por uma organização religiosa católica. Ela aí se instalou, perfeitamente compreensiva da situação, conformada, quase contente por ir passar a sentir-se como que protegida.
Como se movimenta bem, como sempre esteve no hábito de contar só consigo, no lar, ao seu jeito educado, quase cerimonioso, procura não incomodar ninguém, basta-se a si mesma, em tudo o que é possível. Às vezes sai, desde que seja para fazer percursos que já conheça muito bem. Faz umas pequenas compras pessoais, umas visitas...
È que a operação aos olhos não foi muito bem sucedida. Surgiram complicações que nunca permitiram que recuperasse completamente a visão.
Como a minha casa é relativamente próxima do lar e ela conhece de cor estas redondezas, assim me vem visitar, nunca esquecendo datas de aniversários ou de outros quaisquer acontecimentos que marcaram a minha vida.
Traz-me sempre uma flor, um presente.
Hoje, quis demorar-se. Almoçar.
Percebi que precisava de que a ouvissem e facilitei a conversa.
Falou muito do lar.
E de súbito brotou da sua boca catadupa de palavras, de queixas.
Não do lar. Não das religiosas. Não das actividades: - “imagine a senhora que até me puseram a representar teatro!...” – e ria, maravilhada com o que conseguira fazer.
O que a desespera, o que a põe fora de si é a convivência com as outras habitantes do lar. Falsidades, invejas, ciúmes mesquinhos, maldadesinhas industriosas, implicações miudinhas, desconfianças, intrigas...
A narração das pequenas histórias exemplificativas de tudo isto, histórias que se desenvolvem no dia-a-dia, na hora-a-hora daquela convivência não desejada, mal suportada, durou uma tarde inteira, com avanços e recuos, com repetições enfatizantes, pormenores rebuscados...
Quando, por fim, se despediu, agradeceu, agradeceu. E porquê? Se eu, desta vez, entontecida pelas histórias, até me esqueci dos habituais presentinhos de marmelada, um bolinho, uma compota...
Penso que o tê-la ouvido, o tê-la deixado aliviar-se daquele saco de mágoas, o tê-la deixado sentir-se mais próxima do seu antigo clima de confiança, do seu antigo mundo de relações, o tê-la deixado reviver a sua mais-valia individual, fora daquele mundo de comunidade forçada onde agora se move, penso que, neste dia, foi o melhor presente que podia ter-lhe dado.
Saiu, sabendo eu e ela, que iria voltar de outras vezes, sabendo que aqui poderia, uma vez mais, encontrar o alívio para uma nova espécie de mágoas...
E foi então que se me instalou um nó na garganta, porque acabara de se me tornar evidente a inevitabilidade de uma espécie de divisória que, a certa altura de todas as vidas, se ergue, barrando um percurso, obrigando a outro.
Basta, para isso, que qualquer parte do nosso mecanismo físico claudique, umas vezes apenas porque simplesmente envelheceu, outras vezes, porque os insidiosos disparos das doenças podem colher-nos à queima-roupa ou, tendo corroído de mansinho, resolveu eclodir num certo dia, como a lava de um vulcão adormecido...
De repente, para todos nós, num certo dia, tornar-se-á evidente que é forçoso passar para o outro lado da divisória.
Adeus independência, adeus escolhas próprias, mesmo até: adeus solidão!
Doce e reconfortante solidão que nos permite sermos donos de nós mesmos, das nossas memórias até às nossas manias.
Doce e reconfortante solidão!
Doces sinais de vida, ainda!...
Perdida um pouco a noção do tempo em que tive a sorte de ir contando com ela, hoje calculo em mais de vinte e cinco anos o período da minha vida durante o qual, regularmente, às quintas feiras, ela vinha passar o dia em minha casa unicamente para fazer costura.
Baixinha, muito magra, feições regulares, cabelo cuidadosamente lavado e curto, ela falava num tom suave, ligeiramente marcado pela toada alentejana, musicalidade que guardara da sua origem e de uma meninice vivida no seu Alentejo, servindo em casas senhoriais, ainda quase menina. Dizia que dessa época da sua vida trouxera o saber lidar com as coisas bonitas e boas das boas casas, o saber cuidá-las, o dar-lhes valor. E também o saber conviver com as “senhoras”, o estimá-las, o compreender quando e quanto a estimavam também.
E das costuras saltava muita vez, por gosto, para as compotas e marmeladas, no outono, para as filhós e as rabanadas, no Natal. E, muitas vezes, passava à tábua de engomar, para contornar com a ponta do ferro, com enorme mestria, os bordados difíceis e as rendas delicadas. Toalhas, naperons, lençois do meu enxoval à moda antiga, saíam das suas mãos mais tesos e com mais relevo do que em novos!
Mas a sua verdadeira opção profissional era a costura. Aprendera apenas os rudimentos. No resto era autodidacta.
Se acaso no seu percurso de costureira “ a dias” encontrava senhoras que sabiam e aplicavam técnicas da “arte”, ela aprendia com elas tudo o que achasse que valorizaria o seu trabalho.
E foi assim que se fez uma excelente executante de qualquer modelo que se lhe mostrasse, em figurino ou do qual simplesmente se lhe desse uma descrição. Porém, com a simplicidade que era sua natureza, nunca arvorou pretenciosismos de nenhuma espécie. E isso o provava, sendo igualmente aplicada e diligente a passajar um rasgão em qualquer pano de cozinha, como a fazer aproveitamento de retalhos com alguma criatividade em sacas ou pegas para tachos ou a pregar molas e botões onde fossem precisos. Daí passava, com a maior naturalidade, ao corte de um brocado ou de um veludo, para uma toilette minha.
Em tantos anos de convívio, pudemos falar das nossas vidas uma à outra. Éramos amigas!
E houve pormenores de profunda e dolorosa intimidade criada nem sequer através de confidências: apenas na presença de evidências!
Um dia, chegou a minha casa alquebrada, lívida e tarde, o que não era sua prática habitual. Acerquei-me dela um pouco mais e vi manchas vermelhas e arranhões profundos no seu pescoço, nos braços e nas pernas.
Chorou nos meus braços.
Acarinhei-a como foi possível. Limpei-lhe as feridas, untei-a com pomadas balsâmicas, a minha empregada preparou-lhe um chá calmante.
Ninguém fez perguntas. Apenas lhe pedi que não trabalhasse. E deixámo-la em silêncio.
Eu sabia (já ela mo havia contado) que o marido – um carpinteiro bêbado, jogador e pouco amigo de trabalhar – tinha saído de casa havia algum tempo, após vários e violentos desacatos em casa, quase sempre por não se querer levantar manhã, à hora a que se levanta quem trabalha. Choravam os filhos por um lado, desesperava a mulher por outro; todos eram maltratados .
Pois, neste dia, esperara-a, e ali mesmo, na paragem do autocarro, sovara-a até que alguns transeuntes lhe acudiram. E assim a tivemos em casa, sofrendo física e moralmente, na mais profunda das profundas humilhações que pode sofrer uma mulher, ainda por cima amiga do que é belo, organizado e pacífico... Dizia-se (na terra dela, e também na minha, havia esse conceito) uma “mulher de vergonha”, o que encerra uma enorme abrangência psicológica e moral, mas nem por isso separada do físico.
Quantas mais situações dolorosas e ofensivas deste seu conceito ela não teve que suportar!
Depois, foi o criar os filhos, sozinha.
O vê-los revelarem-se à medida que cresciam... O filho, cada ano com mais semelhanças com o caracter do pai. Das filhas só uma foi ficando empreendedora, diligente, perfeccionista, como a mãe. A outra herdou, do pai, a preguiça, mas desenvolveu sozinha uma imensa ambição que a levou a um casamento e depois a algumas relações reveladoras da sua voracidade pelo “ter” e da sua impreparação para “manter”. De tudo isto, trouxe dois filhos, de dois pais. Para a avó, vencidos os desgostos, foram estes as suas alegrias que até já nem ousava esperar.
E passou a trazer-nos retratos dos netos, a contar as suas graças, primeiro, os seus êxitos, depois.
Andava um pouco mais feliz quando o filho, feito o serviço militar, resolveu casar-se e ir viver a sua vida. Em boa hora, porque de novo, em casa, começara a haver alguém que não queria levantar-se, de manhã...
Veio então uma nora sui-generis, “mulher de cafés”, no dizer da sogra.
De trabalho, na casa do filho, falava-se com uma noção diferente, com conotações diferentes das que eram suas conhecidas. Eram folgas, turnos, serões, compensações, o “desemprego”...
Que fazia a nora? Fumava. Fumava muito. E bebia cervejas. Saía de casa só para ir beber uma “cervejinha”...
E o filho, que fazia? Andava de emprego em emprego. Era serralheiro.
Aprendera na “tropa”, mas, no seu entender, ninguém lhe pagava quanto merecia.
Destes dois nasceu um filho. Outro neto. Outra alegria para a avó.
E os cafés da mãe ? E os empregos do pai? Disse-lhe alguém que o neto-bébé ficava horas e horas sozinho em casa.
Novos sofrimentos. Novas confrontações. Mas agora com uma nora. Das difíceis lutas de mulheres, por um homem, por uma criança, que sabia esta avó, mansa e doce, tão sofrida e tão pouco “urbana”, por comparação com esta nora, assim diferente?
Foi nisto tudo que se foi fazendo velha.
Mais velha do que a própria idade.
Chorou tanto, coseu tanto que os seus olhos começaram a dar sinais de cansaço.
O que ela mais receava era não poder continuar a coser.
Da sua casa, onde acabara por ficar sozinha, onde conhecia de cor as esquinas, os cantos, as pregas dos tapetes, a altura dos degraus, vieram dizer-lhe, um dia, que iria ser demolida, como as outras por ali perto, porque iria ser construída naquele local uma nova e espampanante urbanização.
Não quis acreditar. Esperou.
Mas não deixou de chorar.
Até que a operaram aos dois olhos.
Já entretanto tivera que deixar as casas onde sempre trabalhara, porque não via para coser.
Tornou-se evidente que, em casa, não poderia mais bastar-se a si mesma. E foi nessa altura que reapareceu a questão da casa, do bairro, da demolição. Era agora, sim, que a Câmara se propunha a realojar as famílias, desafectar as casa.
Foi o golpe da misericórdia!
Encontraram-lhe um Lar!
Felizmente um bom Lar. Criado e mantido por uma organização religiosa católica. Ela aí se instalou, perfeitamente compreensiva da situação, conformada, quase contente por ir passar a sentir-se como que protegida.
Como se movimenta bem, como sempre esteve no hábito de contar só consigo, no lar, ao seu jeito educado, quase cerimonioso, procura não incomodar ninguém, basta-se a si mesma, em tudo o que é possível. Às vezes sai, desde que seja para fazer percursos que já conheça muito bem. Faz umas pequenas compras pessoais, umas visitas...
È que a operação aos olhos não foi muito bem sucedida. Surgiram complicações que nunca permitiram que recuperasse completamente a visão.
Como a minha casa é relativamente próxima do lar e ela conhece de cor estas redondezas, assim me vem visitar, nunca esquecendo datas de aniversários ou de outros quaisquer acontecimentos que marcaram a minha vida.
Traz-me sempre uma flor, um presente.
Hoje, quis demorar-se. Almoçar.
Percebi que precisava de que a ouvissem e facilitei a conversa.
Falou muito do lar.
E de súbito brotou da sua boca catadupa de palavras, de queixas.
Não do lar. Não das religiosas. Não das actividades: - “imagine a senhora que até me puseram a representar teatro!...” – e ria, maravilhada com o que conseguira fazer.
O que a desespera, o que a põe fora de si é a convivência com as outras habitantes do lar. Falsidades, invejas, ciúmes mesquinhos, maldadesinhas industriosas, implicações miudinhas, desconfianças, intrigas...
A narração das pequenas histórias exemplificativas de tudo isto, histórias que se desenvolvem no dia-a-dia, na hora-a-hora daquela convivência não desejada, mal suportada, durou uma tarde inteira, com avanços e recuos, com repetições enfatizantes, pormenores rebuscados...
Quando, por fim, se despediu, agradeceu, agradeceu. E porquê? Se eu, desta vez, entontecida pelas histórias, até me esqueci dos habituais presentinhos de marmelada, um bolinho, uma compota...
Penso que o tê-la ouvido, o tê-la deixado aliviar-se daquele saco de mágoas, o tê-la deixado sentir-se mais próxima do seu antigo clima de confiança, do seu antigo mundo de relações, o tê-la deixado reviver a sua mais-valia individual, fora daquele mundo de comunidade forçada onde agora se move, penso que, neste dia, foi o melhor presente que podia ter-lhe dado.
Saiu, sabendo eu e ela, que iria voltar de outras vezes, sabendo que aqui poderia, uma vez mais, encontrar o alívio para uma nova espécie de mágoas...
E foi então que se me instalou um nó na garganta, porque acabara de se me tornar evidente a inevitabilidade de uma espécie de divisória que, a certa altura de todas as vidas, se ergue, barrando um percurso, obrigando a outro.
Basta, para isso, que qualquer parte do nosso mecanismo físico claudique, umas vezes apenas porque simplesmente envelheceu, outras vezes, porque os insidiosos disparos das doenças podem colher-nos à queima-roupa ou, tendo corroído de mansinho, resolveu eclodir num certo dia, como a lava de um vulcão adormecido...
De repente, para todos nós, num certo dia, tornar-se-á evidente que é forçoso passar para o outro lado da divisória.
Adeus independência, adeus escolhas próprias, mesmo até: adeus solidão!
Doce e reconfortante solidão que nos permite sermos donos de nós mesmos, das nossas memórias até às nossas manias.
Doce e reconfortante solidão!
Doces sinais de vida, ainda!...
09 abril 2007
07 abril 2007
Tríduo Pascal
Como eu gostava de que todos os meus amigos que, quase orgulhosamente, se dizem ateus compreendessem que a FÉ não é uma coisa que se aprenda, que se estude, que se imite, que se deduza... Tenho suportado alguns afrontamentos mais ou menos subtis, não directamente por causa da minha FÉ, mas por causa da prática do culto que a ela corresponde. Chegaram já a questionar-me pela incoerência,(quanto a eles) entre as minhas práticas de culto e a minha inteligência. Supor, calcular, depreender sobre exigências ou reacções da sensibildade do "outro" é sempre falível e os meus amigos ainda não entenderam isso. Até porque, com um conhecimento superficial e primário da História da religião que professo,é claro que não podem compreender o que significa, por exemplo, ouvirem-se determinadas partes das LEITURAS e da própria MISSA, umas vezes de pé, outras não. Este seria um tema que me faria alongar muito, o de explicar o que já desisti de explicar-lhes, quando o que eu queria era mesmo falar destas celebrações do TRÍDUO PASCAL nas quais venho tomando parte ao longo da minha vida, sempre com igual sensação de pobríssimo acto de contrição e simultânea declaração pública da minha indefectível dedicação a esse JESUS que, esse sim, me foi "APRESENTADO", logo que nasci, por uns PAIS que eu fui vendo adorarem-no enquanto eu fui crescendo e aprendendo o Mundo... Quanto a actos de culto, tenho presenciado como é fácil aos Homens praticarem-nos por causas que nada têm que ver com aquela fundíssima dignidade que pode fazer de um de nós uma criatura sublime... E que eu creio que é a nossa parcela DIVINA!
Estivemos pois a rememorar aquela extraordinária ceia da qual emanaram todas as lições de humildade, de comunidade, de amor total, de paciência, de comprensão e,depois, estivemos postos em presença da CRUZ. Foi notável, como nos é tão preciso o silêncio para melhor "ver". No dia seguinte ao do movimentado Lava-Pés, foi uma longa e silenciosa fila de adoradores da CRUZ que nos permitiu pensar como CAMIILO PESSANHA "Oh quem pudesse deslizar sem ruido//no chão sumir-se como faz um verme..." Perfilou-se perante nós e a nossa pequenez a imensa solidão daquele CRISTO injustiçado, injuriado, torturado, só porque acreditou que nós o mereciamos...
E revivemos as grandes figurações das procissões que nessas horas o povo acompanha pelas ruas
Estivemos pois a rememorar aquela extraordinária ceia da qual emanaram todas as lições de humildade, de comunidade, de amor total, de paciência, de comprensão e,depois, estivemos postos em presença da CRUZ. Foi notável, como nos é tão preciso o silêncio para melhor "ver". No dia seguinte ao do movimentado Lava-Pés, foi uma longa e silenciosa fila de adoradores da CRUZ que nos permitiu pensar como CAMIILO PESSANHA "Oh quem pudesse deslizar sem ruido//no chão sumir-se como faz um verme..." Perfilou-se perante nós e a nossa pequenez a imensa solidão daquele CRISTO injustiçado, injuriado, torturado, só porque acreditou que nós o mereciamos...
E revivemos as grandes figurações das procissões que nessas horas o povo acompanha pelas ruas
O CRISTO, AO ALTO, ALONGA OS MAGROS BRAÇOS NUS
[...]
PENDENTE DA CRUZ NEGRA, ENVOLTO EM LUAR FRIO
PENDENTE DA CRUZ NEGRA, ENVOLTO EM LUAR FRIO
[...]
E O CRISTO AVANÇA, Á LUA, ESPLÊNDIDO E CHAGADO
E O CRISTO AVANÇA, Á LUA, ESPLÊNDIDO E CHAGADO
(José Régio)
A fortíssima marca que nos encharca a alma irá, como é costume, aligeirar-se com o festivo tilintar dos sinos da noite da nunca compreendida RESSURREIÇÃO...
É matéria de alma e disso os meus amigos nunca saberão nada !
É matéria de alma e disso os meus amigos nunca saberão nada !
29 março 2007
SOLIDÃO
De JOSÉ GOMES FERREIRA
Nunca mais
deixes sangrar no coração
esse violino de punhais
a que chamam solidão.
Transforma-o noutro violino de astro fundo
para que a tua canção
chegue à nossa pele
e aqueça o mundo
( embora te gele )...
27 março 2007
Luxo Asiático

Uma pessoa amiga enviou-me um e-mail com um verdadeiramente admirável documentário sobre esta deslumbrante obra no DUBAI. Trata-se do único ( ? ) hotel de 7 estrelas do mundo e se acaso por lá "passarmos", só para o visitar, teremos que pagar 60 euros... O resto é o chamado luxo oriental.As salas, salões e salinhas, os quartos, as suites, os bares ,as piscinas... É tudo para os gostos de pessoas que certamente condizem com aquilo, em género e número.
E, nem eu sei porquê, veio-me à memória uma pequena mas atribulada viagem das que fiz ,em serviço, ao LUXEMBURGO. O meu voo ia a FRANKFURT e lá apanhava a ligação para o Luxemburgo. Tudo estava calculado ao minuto para que chegasse ao hotel à hora certa de,arranjada e perfumada, me incluir no grupo que acompanharia o nosso ministro, que chegara de manhã ao hotel, para irmos a um importante jantar na nossa embaixada. Aconteceu que, de pequenos atrasos em pequenos atrasos, cheguei a Frankfurt quando o meu avião para o Luxemburgo, estando ainda na pista, já tinha fechado as portas e se preperava para começar a rolar ...Originou-se um espantoso movimento em todos aqueles serviços, porque era uma pessoa e a sua bagagem que era forçoso meter naquele avião.Tudo em movimento, de mim só se exigia que corresse desde o balcão da chegada, até à porta daquela saída...Era uma lonjura ! E eu corri. Creio que corri ali tudo o que tinha que correr para o resto da minha vida ! Mas ( e aqui me surge o Hotel do DUBAI ) o que vou encontrar numa zona daquela minha pista de corrida ? Talvez umas duas dezenas de cidadãos árabes, alguns agarrados às suas contas de rezar, com as suas características roupas claras e turbantes,dormindo profundamente,espalhados por todo aquele chão !!! Era, para quem queria passar, um verdadeiro campo de obstáculos, só se podendo avançar saltando por cima de um e outro e outro corpo...E foi o que eu fiz, meu Deus, tão aflita ! Convém que diga que cheguei ao jantar importante já sózinha porque,é claro, o senhor ministro não iria chegar atrasado por causa de um dos seus elementos de équipe, que não fui lá muito perfumada, que não usei o vestido que levara para aquele fim, mas que ainda cheguei a tempo de tomar um qualquer aperitivo antes de irmos todos para a mesa...! Sonhei depois que o ministro e o embaixador estavam a dormir no chão da embaixada e todos à volta, vestidos de árabes, falavam baixinho uns com os outros...Penso que ,no meu sonho , eu já nem existia...
25 março 2007
UNIÃO EUROPEIA
Muitas coisas verdadeiramente grandes da História foram acontecendo ao longo da minha vida e em algumas até tive uma fímbria de intervenção. Mas que a existência da União Europeia ,que nós começámos por baptisar de CEE, já tenha 50 anos, isto até me parece mentira ! Um dia em que tive a sorte (digo-o porque ele sempre foi alguém interessante, não por fascínio de colecção de vips) de tomar café com o senhor DELORS, no tranquilo salão do Hotel Ritz, ele disse-me: Não se esqueça !Virá tempo em que vamos pensar em tudo "isto" como tendo sempre feito parte das nossas vidas! ISTO era precisamente, durante outra presidência portuguesa, em que os trabalhos a decorrer, às vezes causavam alguns sobresaltos momentâneos. E lá foram 50 anos em que o Mundo virou os pés pela cabeça e eu para aqui a envelhecer e a transformar-me num baú de recordações !Mas oiço o Hino à Alegria com um certo frisson...Sempre é verdade que já está fazendo parte da minha vida. E o corpo é uma harpa de repente.Animal de Deus, eu.Uma ferida.(Herberto Helder)
22 março 2007
MIGUEL TORGA
Hoje é preciso ler Torga !
INVENTÁRIO
E,apesar de tudo, sou ainda o Homem!
Um bípede com fala e sentimentos,
ao cabo de misérias e tormentos,
continua
a ser a minha imagem que flutua
na podridão dos charcos luarentos.
Sou eu ainda a grande maravilha
que se mostra no mundo.
O negro abismo que tem lá no fundo
um regato a correr,
uma risca de céu e de frescura
que murmura
a ver se alguma boca a quer beber
!
19 março 2007
DIA DO PAI — DIA de S.JOSÉ

Ao meu Pai que se chamava José.
Primeiro, a mão pequenina
aprende os gestos em cruz
e a boquita já murmura
"Em nome do Pai...", que era
Pai do Menino Jesus...
Junto à cama, pela manhã,
e à noite, à cabeceira,
aprende-se a ajoelhar
pra falar com o Pai do Céu...
Mas ao da Terra, esse Pai
que pousa em nossas cabeças
a mão quente, a abençoar,
e nos acolhe nos braços
quando nos fazem chorar,
aprendemos a amar....
Era uma outra maneira...
Ligavam-nos outros laços...
Crescemos, vamos partindo
e muita coisa aprendendo
mas tanta não entendendo,
que os Pais ( da Terra e do Céu)
nos parecem estar fugindo...
Difícil, esse ABRAÃO que o seu filho mataria!...
E mesmo o Pai de DAVID, que do Senhor o escondia...
Juntámos, sempe com dor,
às imagens mais sofridas
a aprendizagem cristã
de pecar, mas ser amado
por esse Pai que de nós
em caso algum desistia...
E foi que então descobrimos
que éramos nós, de joelhos,
e o nosso Pai que acolhia,
nessa tela de REMBRANDT...
17 março 2007
ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Desde que, em 1979 , me deparei com a MEMÓRIA DE ELEFANTE, nunca mais deixei de estar atenta ao que iria sair da pena daquele "construtor" novo na literatura portuguesa. À medida que foi produzindo, o fui eu apreciando mais e mais, não já tanto pelos temas que desenvolvia, mas pela originalidade formal, pelo gozo que lhe adivinhava na experimentação de certas construções, na novíssima adequação de certas palavras, no "labor" da execução. De tal forma isto era para mim fascinante que adquiri um hábito de o ler à maneira do que dizia Napoleão d'abord je m'engage, puis j'y pense . Não que a forma prejudique o conteudo ! De modo nenhum; antes lhe dá uma certa "efervescência"( como eu receio ser aqui mal interpretada!) que eu acho muito inovadora na textura da prosa portuguesa. E assim foi que me senti premiada quando agora foi atribuido um prémio dos maiores a este meu sempre "escolhido" Lobo Antunes...Li algures que este prémio pretende consagrar quem tenha contribuido para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa. De todos os que até agora receberam o PRÉMIO CAMÕES para a Literatura, haverá algum que mais o tenha merecido ? E não terá ele merecido mesmo outros reconhecimentos oficiais das suas tão específicas qualidades ?
08 março 2007
Dia da Mulher / 8 de Março
Dizer de ser Mulher
será preciso?
Umas das outras, nós sabemos tudo.
E a forma como damos a saber
a força imensa
da nossa fraqueza
é sendo mães, amando,
fazendo do trabalho uma alegria
e dando tanto a todos, em beleza,
quanto nos dá o pão de cada dia...
Dizer de ser Mulher
é dizer companheira,
se ter um companheiro for destino...
Dizer de ser Mulher
é dizer ser presença, ser esteio,
sendo a parte mais frágil do cristal
num mundo muito pouco cristalino...
Dizer de ser Mulher, será preciso ?
Arriscámos um dia o Paraíso
por uma convicção bem definida:
ser MULHER
era só , afinal,
ser a fonte da VIDA !...
06 março 2007
É possível"conversar"ou só "falar"?
O sábio fala para dizer "ALGUMA COISA".
O néscio diz "QUALQUER COISA " só para falar.
Platão
01 março 2007
KAROL-um homem que se tornou Papa
Escrevo hoje ainda sob a fortíssima emoção que me provocou o visionamento de um DVD que me foi oferecido por uma amiga "porque sabia que eu ia gostar".
Trata-se de um conjunto de dois discos realizado por Giacomo Battiano, com banda sonora da autoria de Ennio Morricone, e com o título KAROL_ O homem que se tornou Papa.
Claro que, como a minha amiga previra, gostei.Gostei muito. Mas sofri muito. Posso dizê-lo, mesmo correndo o risco de que quem acaso ler estas notas possa achar o emprego aqui do verbo sofrer,não só um exagero, mas também um lugar-comum.
A verdade é que eu não esperava ser assim subitamente posta em presença viva, real, do drama, da tragédia, que se abateu sobre a Europa da minha juventude e da qual nós, em Portugal , mal tacteámos apenas as franjas, mal nos démos conta de dores remanescentes de cada dor maior que se ia sucedendo a outra, e a outra,e a outra...
Na pátria de KAROL WOJTYLA ,aquele desprezo pelo ser humano, que foi manifestado desde o tirar a vida, até, em gradação regressiva, tirar as casas, as escolas,as igrejas, as cidades, e os alimentos, e os hospitais, e tudo, tudo, foi a manifestação mais repugnante que eu já esquecera de quanto o ser humano é também capaz de descer tão demoníacamente fundo...
Porque eu conheci gente "da guerra". Estudei com alguns que chegaram até à minha Faculdade, então ali a SÃO BENTO.Vi,passadas por baixo das mesas, as primeiras fotografias dos campos de concentração, tão inimagináveis que parecia que nos queimavam as mãos. Fui despedir-me de alguns que partiram para alistar-se nos seus países depois de deixarem aqui a família a salvo.
Logo que foi possível, já casada, fui a PARIS conhecer uma irmã da minha sogra que não arredara pé da sua casa em Montmartre, com ocupação, sem ocupação, agarrada àquele então lendário desamor de franceses por alemães.Levámo-la a jantar fora. Ainda não estavam reabertos muitos restaurantes, mas queriamos mimá-la, passeá-la...E no primeiro jantar surpreendi-a a,surrateiramente, meter na sua carteira os pedaços de pão que restavam na mesa. Como era possível ?...Depois de uma conversa carinhosa percebemos o seu " terror" doentio de ficar sem pão... E já não havia guerra! E havia muito mais terrores de que, como graça de DEUS ,nos fomos esquecendo...Isto é : pensamos que nos fomos esquecendo. O "meu"Saint Exupéry dizia depois de uma passagem por Lisboa, nessa época, que "Lisbonne en fête défiait l'Europe".Fazíamos a Exposição do Mundo Português e era mesmo uma festa. Mas não foi suficiente para apagarmos as nossas memórias dolorosas. Veja-se : basta que nos salte ao caminho um DVD e eis que tudo reaparece a parecer-nos que foi um mau sonho !
Pobre,sofredor, perseverante,não seria mesmo este o caminho da santidade de KAROL WOJTYLA ?
Trata-se de um conjunto de dois discos realizado por Giacomo Battiano, com banda sonora da autoria de Ennio Morricone, e com o título KAROL_ O homem que se tornou Papa.
Claro que, como a minha amiga previra, gostei.Gostei muito. Mas sofri muito. Posso dizê-lo, mesmo correndo o risco de que quem acaso ler estas notas possa achar o emprego aqui do verbo sofrer,não só um exagero, mas também um lugar-comum.
A verdade é que eu não esperava ser assim subitamente posta em presença viva, real, do drama, da tragédia, que se abateu sobre a Europa da minha juventude e da qual nós, em Portugal , mal tacteámos apenas as franjas, mal nos démos conta de dores remanescentes de cada dor maior que se ia sucedendo a outra, e a outra,e a outra...
Na pátria de KAROL WOJTYLA ,aquele desprezo pelo ser humano, que foi manifestado desde o tirar a vida, até, em gradação regressiva, tirar as casas, as escolas,as igrejas, as cidades, e os alimentos, e os hospitais, e tudo, tudo, foi a manifestação mais repugnante que eu já esquecera de quanto o ser humano é também capaz de descer tão demoníacamente fundo...
Porque eu conheci gente "da guerra". Estudei com alguns que chegaram até à minha Faculdade, então ali a SÃO BENTO.Vi,passadas por baixo das mesas, as primeiras fotografias dos campos de concentração, tão inimagináveis que parecia que nos queimavam as mãos. Fui despedir-me de alguns que partiram para alistar-se nos seus países depois de deixarem aqui a família a salvo.
Logo que foi possível, já casada, fui a PARIS conhecer uma irmã da minha sogra que não arredara pé da sua casa em Montmartre, com ocupação, sem ocupação, agarrada àquele então lendário desamor de franceses por alemães.Levámo-la a jantar fora. Ainda não estavam reabertos muitos restaurantes, mas queriamos mimá-la, passeá-la...E no primeiro jantar surpreendi-a a,surrateiramente, meter na sua carteira os pedaços de pão que restavam na mesa. Como era possível ?...Depois de uma conversa carinhosa percebemos o seu " terror" doentio de ficar sem pão... E já não havia guerra! E havia muito mais terrores de que, como graça de DEUS ,nos fomos esquecendo...Isto é : pensamos que nos fomos esquecendo. O "meu"Saint Exupéry dizia depois de uma passagem por Lisboa, nessa época, que "Lisbonne en fête défiait l'Europe".Fazíamos a Exposição do Mundo Português e era mesmo uma festa. Mas não foi suficiente para apagarmos as nossas memórias dolorosas. Veja-se : basta que nos salte ao caminho um DVD e eis que tudo reaparece a parecer-nos que foi um mau sonho !
Pobre,sofredor, perseverante,não seria mesmo este o caminho da santidade de KAROL WOJTYLA ?
24 fevereiro 2007
JULGAMENTO
Se para preencheres a solidão
precisares de trair
ou renegar os códigos sensatos
aceites de antemão,
não serei eu, irmão,
que virarei pra baixo o meu polegar
na hora dos juízes que hão-de vir
ler-te acordãos pra penas e pecados,
imponentes no seu poder juigar...
Não estarei eu, irmão,
nessa denúncia do segredo antigo,
nessa vileza de chamar traição
ao desamparo que,por um amigo,
te fez de instintos,
mais que de razão...
21 fevereiro 2007
CINZAS
Nos primeiros tempos do cristianismo, os cristãos que considerassem ter prejudicado ou ofendido alguém, pecando e reconhecendo-o em sua consciência, dirigiam-se à sua Igreja no primeiro dia da quadragesima, após o período mais ou menos orgíaco do carnem vale, e recebiam, sobre as suas cabeças, cinzas abundantes com que os sacerdotes os aspergiam antes de os conduzirem à porta do templo para que, a partir dessa ocasião, e para verdadeira expiação não voltassem a entrar lá,não podendo passar do átrio exterior,durante os quarenta dias que iam seguir-se,não lhes sendo portanto permitido tomar parte ou simplesmente assistir às cerimónias próprias desta época.
As cinzas de que eram cobertos simbolizavam a precaridade da vida em pecado__LEMBRA-TE DE QUE ÉS PÓ__ mas, ao mesmo tempo, a expiação oferecia ao penitente a possibilidade de se afirmar na sua confiança na MISERICÓRDIA DE DEUS, pois sabia que, cumprida a penitência com real humildade e arrependimento, voltaria a ser recebido na Casa de Deus.
Como máxima manifestação de humildade e desapego das venalidades, os penitentes substituiam as suas roupas habituais por uns toscos sacos de serapilheira com apenas umas aberturas para a cabeça e braços e com isto vestido passavam toda a quadragesima.
Longe deste rigor, vamos nós hoje receber ,do nosso sacerdote, um sinal de cruz feito pelos seus dedos previamente mergulhados em cinzas, sinal que as nossas testas guardarão exteriormente por alguns segundos, porque o pó é pó .E a precaridade desta duração também nos pode dar muitos tópicos de meditação. Do que fica no interior das nossas cabeças, há outro registo que aqui não vem ao caso. Mas destes sinais exteriores,pergunto-me : há uma outra cinza, vivo sob outra espécie de vento, ou sou eu que perdi demais a minha capacidade de ser PÓ ?...
As cinzas de que eram cobertos simbolizavam a precaridade da vida em pecado__LEMBRA-TE DE QUE ÉS PÓ__ mas, ao mesmo tempo, a expiação oferecia ao penitente a possibilidade de se afirmar na sua confiança na MISERICÓRDIA DE DEUS, pois sabia que, cumprida a penitência com real humildade e arrependimento, voltaria a ser recebido na Casa de Deus.
Como máxima manifestação de humildade e desapego das venalidades, os penitentes substituiam as suas roupas habituais por uns toscos sacos de serapilheira com apenas umas aberturas para a cabeça e braços e com isto vestido passavam toda a quadragesima.
Longe deste rigor, vamos nós hoje receber ,do nosso sacerdote, um sinal de cruz feito pelos seus dedos previamente mergulhados em cinzas, sinal que as nossas testas guardarão exteriormente por alguns segundos, porque o pó é pó .E a precaridade desta duração também nos pode dar muitos tópicos de meditação. Do que fica no interior das nossas cabeças, há outro registo que aqui não vem ao caso. Mas destes sinais exteriores,pergunto-me : há uma outra cinza, vivo sob outra espécie de vento, ou sou eu que perdi demais a minha capacidade de ser PÓ ?...
18 fevereiro 2007
Domingo de CARNAVAL
Estamos em pleno período de Carnaval .Lisboa está a disfrutar os seus dias de pacatez e certamente isso acontece por esse país além, em todas as cidades e vilas e lugares que não se sentiram vocacionados para o gozo e divertimento públicos em data e hora marcadas pelos calendários internacionalizados.Se olharmos esta época como uma boa oportunidade de pausa para tarefas que mais ou menos a justifiquem,ela é pura e simplesmente deliciosa...Recordo as minhas fériasinhas em Saint Cergue e no Tirol, aquelas escapadelas de um só dia às concorridíssimas pistas de neve cujos nomes só recordo quando há transmissões de corridas pela TV...
Mas isso não é aquilo a que vulgarmente se chama CARNAVAL. Esta festividade,como quase todas as que entraram na tradição popular, com mais ou menos legitimidade, vai radicar~se em tão antigas como deturpadas origens.
A degradação social e moral que veio acontecendo progressivamente antes da chegada de CÉSAR ao poder,em ROMA, acrescida da quase total aceitação pelos Romanos dos nomes dos deuses gregos em substituição dos dos seus próprios deuses, tornou como que mais liberal e depois mesmo libertina a relação dos homens com os deuses, visto que os deuses gregos tinham características menos míticas e qualidades mais humanas do que os deuses romanos. E assim as inúmeras festas que eram feitas em suas homenagens foram adquirindo configurações especialíssimas consoante fosse a "esfera de acção" do deus celebrado. Foi assim que, em 186 AC, as Bacanais levaram à prisão e execução inúmeras pessoas que tomavam parte nas festas.Baco era o nome que os Romanos haviam retirado de uns gritos de euforia produzidos pelos gregos nas festas de DIONISOS, deus do vinho e dos prazeres.
A isto e muito mais se deve o CARNEM VALE que apareceu não logo, logo,como a medieval tradução literal do"adeus à carne", mas ainda como aquela festa em que nada parece mal, como ficou registada no adagiário português.
Ignoro como o Mundo girou para que o grande Carnaval das loucuras fosse acontecer noBRASIL,ou como, no séculoXVIII, em Veneza, requintadas damas e viciosos Casanovas criaram a sua lindíssima tradição carnavalesca. Porém intuo que os rebolados nus brasileiros devem ter muito que ver com o clima e quedo-me perplexa ao ver em Portugal, agora , despirem-se com estes frios, ao sabor da imitação mais descabida...
A tradição portuguesa nunca foi de nus. Estou a pensar em como se estragava a roupa, nos anos trinta ( séc.XX), quando grupos de foliões, ao virar de uma esquina, nos esborrachavam ovos e pastéis e outras coisas pastosas, sobre os fatos e os cabelos. O que eu própria sofri sendo atacada à saída do colégio , com bisnagas esguichando líquidos de que eu tinha verdadeiro terror.E as pancadas secas de uns certos saquinhos jogados com mestria para se esvaziarem de areia sobre as nossas cabeças e roupas. Mas, agora mesmo, os executantes da Dança dos Cuzes, em Cabanas de Viriato, estão vestidos da cabeça aos pés...Tudo isto nos fala de um carnaval de rua. Mas as mais lindas versões de Carnavais de Salão, bem portugueses ,de princípios do século XX,são as que me foram contadas _vividas_ pelos meus Pais.No Porto e em Beja.
No Porto,uma das noites de Carnaval era de ida a um dos teatros da cidade, todos vestidos rigorosamente de gala,senhoras e senhores. E então,"jogava-se" ,em troca das serpentinas das actrizes, atirando para o palco caixas com joias verdadeiras...Em Beja, havia, no Clube, três bailes de gala ( um por cada noite), onde as ceias eram volantes.Na hora própria, entravam no salão de baile pequenos carrinhos puxados por carneiros de pêlo alvíssimo decorado com laços de fitas de cores,carrinhos esses que vinham "carregados" com as mais variadas iguarias armadas artística e tentadoramente.Os carrinhos iam circulando e todos se iam locupletando a gosto...
A que distância de tudo isto fica a actual passagem de cortejos onde se mostra uma preferência nítida pela perversão na confusão dos sexos ou pelas piadas pesadas sobre política ou sobre factos sociais,tudo muito nu e...ao frio
Aproxima-se então uma outra época em que todos vamos saber porque dizemos CARNEM VALE...
Mas isso não é aquilo a que vulgarmente se chama CARNAVAL. Esta festividade,como quase todas as que entraram na tradição popular, com mais ou menos legitimidade, vai radicar~se em tão antigas como deturpadas origens.
A degradação social e moral que veio acontecendo progressivamente antes da chegada de CÉSAR ao poder,em ROMA, acrescida da quase total aceitação pelos Romanos dos nomes dos deuses gregos em substituição dos dos seus próprios deuses, tornou como que mais liberal e depois mesmo libertina a relação dos homens com os deuses, visto que os deuses gregos tinham características menos míticas e qualidades mais humanas do que os deuses romanos. E assim as inúmeras festas que eram feitas em suas homenagens foram adquirindo configurações especialíssimas consoante fosse a "esfera de acção" do deus celebrado. Foi assim que, em 186 AC, as Bacanais levaram à prisão e execução inúmeras pessoas que tomavam parte nas festas.Baco era o nome que os Romanos haviam retirado de uns gritos de euforia produzidos pelos gregos nas festas de DIONISOS, deus do vinho e dos prazeres.
A isto e muito mais se deve o CARNEM VALE que apareceu não logo, logo,como a medieval tradução literal do"adeus à carne", mas ainda como aquela festa em que nada parece mal, como ficou registada no adagiário português.
Ignoro como o Mundo girou para que o grande Carnaval das loucuras fosse acontecer noBRASIL,ou como, no séculoXVIII, em Veneza, requintadas damas e viciosos Casanovas criaram a sua lindíssima tradição carnavalesca. Porém intuo que os rebolados nus brasileiros devem ter muito que ver com o clima e quedo-me perplexa ao ver em Portugal, agora , despirem-se com estes frios, ao sabor da imitação mais descabida...
A tradição portuguesa nunca foi de nus. Estou a pensar em como se estragava a roupa, nos anos trinta ( séc.XX), quando grupos de foliões, ao virar de uma esquina, nos esborrachavam ovos e pastéis e outras coisas pastosas, sobre os fatos e os cabelos. O que eu própria sofri sendo atacada à saída do colégio , com bisnagas esguichando líquidos de que eu tinha verdadeiro terror.E as pancadas secas de uns certos saquinhos jogados com mestria para se esvaziarem de areia sobre as nossas cabeças e roupas. Mas, agora mesmo, os executantes da Dança dos Cuzes, em Cabanas de Viriato, estão vestidos da cabeça aos pés...Tudo isto nos fala de um carnaval de rua. Mas as mais lindas versões de Carnavais de Salão, bem portugueses ,de princípios do século XX,são as que me foram contadas _vividas_ pelos meus Pais.No Porto e em Beja.
No Porto,uma das noites de Carnaval era de ida a um dos teatros da cidade, todos vestidos rigorosamente de gala,senhoras e senhores. E então,"jogava-se" ,em troca das serpentinas das actrizes, atirando para o palco caixas com joias verdadeiras...Em Beja, havia, no Clube, três bailes de gala ( um por cada noite), onde as ceias eram volantes.Na hora própria, entravam no salão de baile pequenos carrinhos puxados por carneiros de pêlo alvíssimo decorado com laços de fitas de cores,carrinhos esses que vinham "carregados" com as mais variadas iguarias armadas artística e tentadoramente.Os carrinhos iam circulando e todos se iam locupletando a gosto...
A que distância de tudo isto fica a actual passagem de cortejos onde se mostra uma preferência nítida pela perversão na confusão dos sexos ou pelas piadas pesadas sobre política ou sobre factos sociais,tudo muito nu e...ao frio
Aproxima-se então uma outra época em que todos vamos saber porque dizemos CARNEM VALE...
14 fevereiro 2007
Dia dos Namorados
E não é que hoje é outra vez "dia de" ?
Dia dos Namorados. De São Valentim. Um São Valentim que até pode ser um de dois visto que , do século lll até hoje, não se adquiriu a certeza sobre qual deles era o que, bondoso e apiedado, casava às escondidas os soldados romanos aos quais uma disciplina rigorosa proibia o casamento.
Mas em Portugal sempre tivemos um único querido e popular santo casamenteiro que foi o nosso Santo António. Sabemos bem que nas primeiras idades do Cristianismo houve muita vez um aproveitamento de festividades ainda pagãs, ligadas quase sempre aos ciclos da Natureza, adaptando-as habilmente a celebrações novas que o povo continuaria a memorizar, ainda que fosse por outras causas. Assim estes São Valentins, que viajaram por outras paragens sem se tornarem necessários a Portugal porque os nossos NAMORADOS, sempre que precisaram de ajuda, tiveram o seu SANTO ANTÓNIO. Ligados a ele,quantas trovas populares, mais ou menos citadinas, mais ou menos de ambiente rural, quantos manjericos lisboetas, quantos bailaricos, quantas fogueiras para saltar e quantas lendas ! Não resisto à tentação de deixar aqui registado este "mimoso" poema de AUGUSTO GIL onde a candura da história não deixa de aflorar pontos-chave da vida do Santo.
Dia dos Namorados. De São Valentim. Um São Valentim que até pode ser um de dois visto que , do século lll até hoje, não se adquiriu a certeza sobre qual deles era o que, bondoso e apiedado, casava às escondidas os soldados romanos aos quais uma disciplina rigorosa proibia o casamento.
Mas em Portugal sempre tivemos um único querido e popular santo casamenteiro que foi o nosso Santo António. Sabemos bem que nas primeiras idades do Cristianismo houve muita vez um aproveitamento de festividades ainda pagãs, ligadas quase sempre aos ciclos da Natureza, adaptando-as habilmente a celebrações novas que o povo continuaria a memorizar, ainda que fosse por outras causas. Assim estes São Valentins, que viajaram por outras paragens sem se tornarem necessários a Portugal porque os nossos NAMORADOS, sempre que precisaram de ajuda, tiveram o seu SANTO ANTÓNIO. Ligados a ele,quantas trovas populares, mais ou menos citadinas, mais ou menos de ambiente rural, quantos manjericos lisboetas, quantos bailaricos, quantas fogueiras para saltar e quantas lendas ! Não resisto à tentação de deixar aqui registado este "mimoso" poema de AUGUSTO GIL onde a candura da história não deixa de aflorar pontos-chave da vida do Santo.
O PASSEIO DE SANTO ANTÓNIO
Saíra Santo António do convento
a dar o seu passeio costumado
e a decorar num tom rezado e lento
um cândido sermão sobre o pecado.
Andando,andando sempre, repetia
o divino sermão piedoso e brando
e nem notou que a tarde esmorecia,
que vinha a noite plácida baixando...
................................................................
O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
o Menino Jesus baixou do céu,
...............................................................
Perto, uma bica de água murmurante
juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.
De braço dado para a fonte vinha
um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
ele trazia o coração no peito !
Sem suspeitarem de que alguém os visse,
trocaram beijos, ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
_ Ó Frei António, o que foi aquilo?
O Santo, erguendo a manga do burel
para tapar o noivo e a namorada,
mentiu com a voz doce como omel:
_ Não sei que fosse.Eu cá não ouvi nada...
Uma risada límpida e sonora
vibrou, em notas de oiro pelo caminho.
_ Ouviste ,Frei António ? Ouviste agora?
_Ouvi,Senhor,ouvi.É um passarinho...
_ Tu não estás com a cabeça boa!
Um passarinho a cantar assim?
E o pobre Santo António de Lisboa
calou~se, embaraçado, mas por fim.
corado, como as vestes dos cardeais,
achou esta saída redentora :
Se o Menino Jesus pergunta mais,
queixo-me a sua Mãe, Nossa Senhora !
......................................................................
Pegou-lhe ao colo e acrescentou: _Jesus,
são horas. E abalaram pró convento.
´
Foi nestes namorados que hoje me apeteceu pensar.Sem presentes do estilo shoping-center, sem jantares com menus afrodisíacos, sem ramos de muitas dezenas de rosas... Apenas com beijos ,se possível, ao luar, com alegria transbordante e... com um suavíssimo Santo António a
pactuar com a beleza de um amor assim...
11 fevereiro 2007
Dia de...NOSSA SENHORA DE LOURDES
"Hoje é o dia de ser bom" diz António Gedeão numa das suas mais amargas ironias, esta sobre o dia de Natal em casa de uma família de classe média- alta do seu, do meu, do nosso tempo.Dia de ser bom tão contemporâneo e contraditório que o menino-herói dessa família exulta de felicidade a utilizar em delírio os presentes que recebera, alvejando ruidosamente toda a gente da casa que, colaborante, simula alegremente morrer,atirando-se para o chão depois de " ferida" pela bela arma-presente de Natal que o menino mostra saber manejar eficazmente...
Queria, com muita vontade, afastar de mim os pensamentos que, nem só por causa de Gedeão,me assaltam nestes "dias de" que a nossa sociedade global nos prodigaliza agora, a todos os pretextos, com verdadeiros "lembretes" para que aquilo que simbolizam não deixe de interpelar todo o Mundo. Mas, para meu desgosto, uma espécie de grande tsu-nami comercial invadiu todas as praias das nossas mais afectuosas memórias e os "dias de"são muitas vezes um enorme carnaval ou um festival de aparências"que é de bom tom "manter.
Culpas? De quê ? De quem ?
Mas hoje eu só tenho que cantar hossanas,porque tenho o meu "dia de": 11 de Fevereiro.Nossa Senhora de Lourdes. Parafraseando o meu amigo Sebastião da Gama, pela FÉ é que vou. Foi este o nome que me deram e que uso como quem usa um brazão de fidalguia porque ele é o que me resta como herança espiritual de uma Fé talvez ingénua que deu a este meu nome uma categoria de mensagem que eu sempre receio não ter sabido interpretar.
Mas é esta a herança que recebi de alguém de quem mais nada pude guardar...
E não é que, por causa da irradiação espiritual de tudo o que os simples humanos têm experimentado em redor daquela gruta perto dos Pirinéus, pela fervorosa devoção a Nossa Senhora, se decidiu fazer do seu dia o DIA MUNDIAL DO DOENTE ?´
É pois mais um "dia de" no dia de hoje . Mas ,se entre os dois anteriores existe uma forte e séria razão de conexão, eis que nos surge anexo um outro "dia de" que aqui caiu apenas por razões de conveniências várias dos senhores políticos. É dia de votações para um REFERENDO, apanágio democrático de que o povo não deve prescindir, de vez em quando.
É muita coisa grave para um só dia!!!
Vota-se, opinando sobre a Vida ou Morte, tentando desembaraçarmo-nos da teia de sentimentos, conceitos e preconceitos que as nossas formações morais e sociais enredaram à nossa volta. Mas, a par,vamos ter que pensar mais na morte do que na vida, se queremos ajudar outros( ou que nos ajudem a nós) a pacificar a aproximação dessa meta inevitável...
Não é natural que espere que NOSSA SENHORA DE LOURDES me indique o melhor caminho?
Queria, com muita vontade, afastar de mim os pensamentos que, nem só por causa de Gedeão,me assaltam nestes "dias de" que a nossa sociedade global nos prodigaliza agora, a todos os pretextos, com verdadeiros "lembretes" para que aquilo que simbolizam não deixe de interpelar todo o Mundo. Mas, para meu desgosto, uma espécie de grande tsu-nami comercial invadiu todas as praias das nossas mais afectuosas memórias e os "dias de"são muitas vezes um enorme carnaval ou um festival de aparências"que é de bom tom "manter.
Culpas? De quê ? De quem ?
Mas hoje eu só tenho que cantar hossanas,porque tenho o meu "dia de": 11 de Fevereiro.Nossa Senhora de Lourdes. Parafraseando o meu amigo Sebastião da Gama, pela FÉ é que vou. Foi este o nome que me deram e que uso como quem usa um brazão de fidalguia porque ele é o que me resta como herança espiritual de uma Fé talvez ingénua que deu a este meu nome uma categoria de mensagem que eu sempre receio não ter sabido interpretar.
Mas é esta a herança que recebi de alguém de quem mais nada pude guardar...
E não é que, por causa da irradiação espiritual de tudo o que os simples humanos têm experimentado em redor daquela gruta perto dos Pirinéus, pela fervorosa devoção a Nossa Senhora, se decidiu fazer do seu dia o DIA MUNDIAL DO DOENTE ?´
É pois mais um "dia de" no dia de hoje . Mas ,se entre os dois anteriores existe uma forte e séria razão de conexão, eis que nos surge anexo um outro "dia de" que aqui caiu apenas por razões de conveniências várias dos senhores políticos. É dia de votações para um REFERENDO, apanágio democrático de que o povo não deve prescindir, de vez em quando.
É muita coisa grave para um só dia!!!
Vota-se, opinando sobre a Vida ou Morte, tentando desembaraçarmo-nos da teia de sentimentos, conceitos e preconceitos que as nossas formações morais e sociais enredaram à nossa volta. Mas, a par,vamos ter que pensar mais na morte do que na vida, se queremos ajudar outros( ou que nos ajudem a nós) a pacificar a aproximação dessa meta inevitável...
Não é natural que espere que NOSSA SENHORA DE LOURDES me indique o melhor caminho?
04 fevereiro 2007
Um lapso fugidio

Um relance,
um lapso fugidio
e um PASSADO, todo,
irrompe
como a torrente de um rio
ou bicho desgovernado...
Desses anos anulados
restavam só horas mortas
e a poeira a cair...
Dos castelos que, depois, iriam vir
ficaram vultos loucos e alados,
nas nuvens que se vêem
ao poente...
Era a esses que, então,
chamávamos PRESENTE...
Tecido terso,
rara tessitura
de estuantes cordões umbilicais !
Farrapos
longos haustos,
simples ais,
cada fase na outra se entretece.
Nenhuma, cada uma será p'ra nunca mais?
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