22 fevereiro 2008

As Palavras

Um dos meus alunos anda ,neste momento, a trabalhar os poemas de Eugénio de Andrade. É um rapaz de quinze anos, apaixonado pelo mar e pelo desporto da Vela, filho de pais divorciados e com uma estuante alegria de viver. O seu professor da Escola tem uma vincada predilecção pela poesia, muito particularmente pela dos poetas modernos. Tenho portanto à minha frente duas linhas de força que devo procurar tornar concorrentes, quando, pelas suas naturais tendências, seriam divergentes,ou, numa hipótese mais optimista, seriam talvez paralelas... E então, tenho também de me defrontar com algumas perplexidades minhas ( não que não esteja já habituada a elas ) perante certas observações de uma juventude "talhada" de maneira bastante peculiar, sempre surpreendente, principalmente por nunca me ter deixado influenciar pelo que dela se diz de desabonatório...Ontem , Eugénio de Andrade dizia-nos aquela sua tristíssima frustração de despedida já gastámos as palavras, meu amor... E salta-me ao caminho esta observação:as palavras existem para não se gastarem.Senão para que servia tudo aquilo que os escritores tentam fazer?Lá veio então a minha quase irritação pelo que já ficou, parece-me, esquecido das nossas "discussões" sobre palavra falada /palavra escrita.Neste tempo de tanto suporte electrónico para a palavra falada, na cabeça de um jovem, formatada nas coisas práticas da vida actual, a perenidade do valor da palavra como tal pode ser ainda um factor de segurança e de estabilidade emocional...Que dirão os linguistas?

18 fevereiro 2008

Monte Tabor -2

Do premente apelo de paz experimentado por Pedro, não chegou a concretizar-se a construção das três tendas. Outras coisas espantosas aconteceram e decididamente não era aquele um lugar para permanecer.Para orar, meditar, interrogar-se e dar louvor a Deus, séculos mais tarde, quem sabe? outros Pedros construiram uma bela catedral...

17 fevereiro 2008

Monte Tabor -1


"Senhor, que bom seria ficarmos aqui !.. ."
.Quantas vezes, em quantos Montes Tabor das nossas vidas, não teremos balbuciado esta frase de Pedro, aquele pescador a quem Jesus ensinava a ser "pescador de homens" e a nada temer ?... Temos o sonho,mas falta-nos a coragem ( ou a pureza das intenções?) .

11 fevereiro 2008

Nossa Senhora de Lourdes


Bernardette de Lourdes !

Rien qu'une fillette
humble,petite et frêle
qui comprenait déjà
d'un monde en larmes sombres
la souffrance et l'amour,
chacun dans un étui
de son coeur tout petit...

La parole de Dieu
lui a appris la Vie
tandis qu'elle n' écoutait
dans la grotte bénie
que la Voix de MARIE !...

10 fevereiro 2008

As Tentações


"Nem só de pão vive o Homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus"
Se, por detrás de cada maçã da bela macieira que está no nosso jardim não estivesse escondida uma serpente, se nós tivéssemos uma tão sólida formação que tornasse mesmo inabaláveis as nossas convicções ( a nossa fé) , então sim, seríamos purificáveis, resistentes ,e capazes de respostas destas, fosse qual fosse o assédio ou a tentação...

06 fevereiro 2008

Padre António Vieira


Quem, dos meus amigos professores não experimentou já aquela alegria enorme, uma espécie de vaidadesinha, quando algum daqueles alunos que chegaram até nós com aquele rótulo: " não gosta de ler , não pega num livro, não quer mesmo ler"lhe aparece a dizer que "achou piada àquela dos peixes voadores..." ? Isto, porque foi para casa ler, por curiosidade, o que ainda faltava ler do Sermão de Santo António aos peixes...Não é para alegrar um professor ? Pois bem, quanto a mim, alegrei-me mas não me envaideci tanto como disse, porque tive a certeza de que o mérito vinha todo da ironia do texto, da sua actualidade, do "luxo" das palavras e das frases tão sugestivamente aplicadas e que durante algumas semanas andámos a "pesquisar"...Os jovens acham divertida aquela construção em forma de estrelas cujas pontas se desmultiplicam noutras tantas estrelas, diverte-os encontrar os conceitos habilmente disfarçados ou não... E a verdade é que se lhes revelou( de forma muito incipiente,bem sei) o tal prazer da leitura em que antes não acreditavam. Não podia deixar de colocar esta nota no dia de hoje, em que felizmente bastante se tem lembrado este HOMEM tão dos nossos dias, mas só com mais quatrocentos anos do que nós e a todos os títulos grande e fascinante.

03 fevereiro 2008

O Monte das Bem-Aventuranças



Bem-aventurados os pobres... início de mais umas quantas coisas desconcertantes que Jesus disse à multidão dos que mais uma vez o seguiam, para o ouvirem, quando, como aqui, parava,se sentava, se recolhia um pouco e depois,duma maneira calma, meio pensativa, começava a falar...Se eu estivesse lá, diria que ele estava a "pensar em voz alta"... Não sei a que horas se terá passado este momento, mas quem já subiu àquele monte e ali teve oportunidade de poder quedar-se em silenciosa meditação, deixando a vista alongar-se pelo tranquilo Tiberíades a seus pés, a quaisquer horas que sejam, compreende bem o peso e o alcance das solicitações que parecem brotar daquele silêncio, daquela vegetação, das flores de trepadeiras que enlaçam os ciprestes a toda a sua altura e da memória de tudo o que naquele local foi dito e é como um eco repercutindo indefinidamente... No entanto, a forma misteriosa, encantatória, metafórica e até por vezes criptográfica, como Jesus expunha o seu pensamento, agravada ainda pela possível multiplicidade de interpretações que cada tradutor lhe podia ir dando, trouxe para todos nós ( e para os senhores padres logo à frente) a tarefa de nos abeirarmos da mensagem de Jesus com todos os nossos conhecimentos de História, de Gramática, de Linguística, de Sociologia, etc, etc.Porque sabemos todos que quando se diz pobres em espírito, pobres pelo espírito,pobres quanto ao espírito, não é bem o mesmo que dizer pobres de espírito e nunca é o mesmo que falar nos pobres de bens materiais. E é às vezes por pormenores deste tipo que tanta gente não entende os cristãos !... E porque à Fé se acede por muitos caminhos, é bom pensar nas palavras e deixar-se "enfeitiçar" pelos lugares que as perpetuam dentro dos nossos sonhos de Paz...

01 fevereiro 2008

Carnaval

Aí estamos nós chegados àquela época do ano em que há ,por tradição ,que cumprir uma série de rituais que , na totalidade e no particular, me desagradam profundamente. Todos os que me conhecem sabem que, em nenhuma época da minha vida, pactuei com qualquer dos tipos de celebração desta exteriorização de liberdades reprimidas e ,por calendário, agora consentidas. Penso que atitudes como esta minha devem principalmente radicar-se na educação que se teve e não posso deixar de recordar como, sempre, os meus Pais me mostraram diversos carnavais,de acordo com as minhas fases de crescimento, como coisa para se ver, mas não como coisa para nela se tomar parte.É certamente assim que se fomentam qualidades críticas e até admito hoje colocar a mim própria questões sobre este modo de educar do qual, aliás, em muitos outros campos das práticas sociais, nunca me senti vítima. Mas se hoje me sinto inclinada a entrar por este domínio da educação para os relacionamentos sociais é porque com uma certa perplexidade vejo alguns dos meus alunos( e não só dos mais novos ) prepararem afanosamente modos de se disfarçarem para a "festa" mascarada do último dia de aulas nas escolas, antes do começo das pequenas férias de Carnaval. E, ouvindo-os, o que querem encarnar ? Não são BELAS, mas sim MONSTROS, não são FADAS, mas são BRUXAS, ou então QUASIMODOS, VAMPIROS, FRANKENSTEINS... E vêm-me à memória aquelas mastronças que têm tanto de DRAG-QUEENS como dos populares CABEÇUDOS e que muito popularmente representam por todo o país o obsceno-inocente. Como realmente as pessoas se cansaram da BELEZA e se comprazem no FEIO ! UMBERTO ECO que , para fazer as suas HISTÓRIAS tanto da BELEZA como do FEIO , com tanto cuidado procurou documentar-se em historiadores, filósofos e artistas, através das várias visões do mundo, ao longo dos séculos, não conseguiu mais do que reconhecer que é nos olhos de quem olha que a beleza e a fealdade se instalam ; e que esses olhos são "enformados" em múltiplas contingências da época das suas vivências. Que pensar pois desta nossa época, em que, desde as crianças pequeninas até aos adultos mais velhos, cada vez mais se desdenha a BELEZA e se entroniza o FEIO ? Que vamos "libertar" neste CARNAVAL ?...
,

21 janeiro 2008

Gregoriano

Por razões realmente aleatórias e em contraponto com o "monte" de livros de novos autores ou de novidades lançadas por autores conhecidos, que juntei para ler, a partir do Natal ou talvez mesmo a partir do dia dos meus anos, esta semana reli JORGE de SENA.Comecei por ler um dos seus Prefácios, onde,desiludido e zangado mesmo,se insurge contra a injusta forma de se tratarem os escritores "sem nome" ou sem "padrinhos" na nossa terra e depois derivei para a poesia que considero um poderosíssimo testemunho da época histórica que teceu e condicionou a vida deste intelectual-sentimental que nunca conseguiu sentir,enquanto exilado, que no seu país havia também quem o amasse.E fui encontrar-me com a sua ARTE DE MÚSICA onde,mesmo usando o seu habitual vocabulário que eu tenho tido sempre vontade de chamar musculado, ele descobre a forma de transmitir-nos as vibrações mais íntimas que a grande música lhe provoca.Por exemplo, sob a inspiração da Cathédrale engloutie de Debussy, diz: Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos, os cânticos e o eco das abóbadas e ver as altas torres sobre que as ondas se espumavam tranquilas. Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam almas penadas, como as do Marão e que eu temia em todos os estalidos e cantos escuros da casa. E de uma peça de Bach : Numa estridência uma alegria vibra?Ou treme uma amargura asfixiante? E ,nestes graves, que ressoa ?a dor ou uma serena e firme complacência ignota?
Leio nestes e noutros "encontros" do poeta a influência que terá tido na sua personalidade o gosto que tinha a sua Mãe em que ele estudasse música, enquanto o Pai queria fazer dele um oficial de Marinha...Que se viu compelido a ser a excelência como Mestre da Literatura do seu país, nos Brasis e nas Américas, sem nunca deixar de testemunhar com vigor o quanto viveu, talvez já "para memória futura", o que até nem seria de estranhar,inclusivamente num homem que foi Pai de nove filhos... E nestas e noutras cogitações me encontro no sábado, na minha Paróquia, com um grupo de senhores espanhois que ao seu grupo deram o nome de IN COENA DOMINI e que, como devem cantar os anjos no Paraíso, nos ofereceram a panorâmica paz de um canto Gregoriano antiquíssimo que ficou a "envolver" todo o nosso fim-de-semana...Música, Senhor, afinal como chegas por ela a tantos de nós e das maneiras mais inesperadas !

13 janeiro 2008

Sinfonia do Novo Mundo

Como a experiência de ir vivendo nos vai revelando a multifacetada criatura que é o HOMEM ! Quando estamos convencidos de que já não vai podendo haver muito mais coisas que, vindas dele, nos possam surpreender, bum! aí está uma nova revelação... Não estava habituada (creio que nenhum português estava) a que os governos "reconsiderassem" sobre posições tomadas com grande empenhamento e muita propaganda... E sempre tive opinião sobre aquele "bombardeamento" com a inevitabilidade da construção de um novo aeroporto na OTA. Terei que me colocar, em data de há precisamente 60 anos atrás. Havia, nesse tempo, uma faceta da Segurança Social que proporcionava o que se chamava Casas de Renda Limitada as quais, pertencendo a empresas, se destinavam a serem arrendadas aos funcionários dessas mesmas empresas seleccionados segundo critérios iguais em todas elas. Claro que eram ponderados salários, idades, estado civil, número de filhos e outras coisas. A partir de certa data, constituiu-se uma Federação dos proprietários destas casas e o "sorteio" dos inquilinos passou a ser abrangente, havendo uma lista única de candidatos inscritos, não mais divididos por profissões ou empresas empregadoras. E assim foi atribuida uma casa no bairro de Alvalade ao casal Beja. Perto, pertíssimo do Aeroporto de Lisboa, do qual o meu querido Sogro era director. Então, todos os amigos e familiares nos diziam : — Como é que vocês aceitam ir viver para perto daquele barulho permanente de aviões mesmo por cima da cabeça ? — E o meu marido e o meu Sogro sorriam e contrapunham: — É por pouco tempo. Dentro de mais ano ,menos ano, já se sabe que o Aeroporto vai ser fora da cidade. — Imagine-se que se pensava então em Rio Frio, é verdade !

Contado este "pequeno" pormenor e tendo o meu Sogro sido instrutor de jovens pilotos militares numa Escola de Aviação que existiu em Vila Nova da Raínha(a dois passos da Ota cujas boas e más qualidades ele conhecia de cor,) isto em anos vinte,do século vinte, qualquer pessoa pode calcular o espírito com que eu suportei toda a "excitação" que se gerou em redor da escolha,AGORA, da Ota, por todas as razões e mais uma, como é costume dizer-se... E eis senão quando, o Governo decide não ir para a Ota. E vai para onde ? Logo para ALCOCHETE, uma terra que me encanta,artística, histórica e paisagísticamente falando. Duas admirações de uma só vez ! O Governo ouviu os "barulhos" em seu redor, o Governo decide uma coisa bonita. Sei muito bem que o local onde se fará o aeroporto não é, não poderia ser na localidade chamada Alcochete, mas vai ocupar uma região com carisma e a beleza envolvente vai certamente ter o seu peso.Saudades do Aeroporto barulhento, odorífero e "condenado" há sessenta anos, claro que as vou ter. Quanta recordação, quanta história, quanta VIDA !!! Mas sei que ,enquanto viver, a construção do novo vai permitir-me a companhia do velho.

E só depois, bem depois, haverá alguém a lembrar que, de ALCOCHETE, eu pensava assim:

Há um vazio extenso e aromático
feito de negra vasa
e areia entretecida em limos e algas escuras
e outras daquele verde subaquático
que adquire cambiantes com as marés...
Há um murmúrio puro,de águas rasas,
a embalar conchinhas roçagantes
como sedas carísssimas e ondulantes...
E há a gaivota súbita, a rasgar,
em movimento e som, a paz do amanhecer !
Grito adunco a que respondem mais,
e, em pouco tempo, é de asas
o céu destes sapais...
Longe,lá mais ao fundo,
onde as sombras se acolhem aos pinhais,
espraiam as asas róseas os flamingos
num tremor de pluminhas adejantes...
E é de lá que, rútilo, vem vindo
o clarão da manhã de cada dia...
Lisboa ainda é margem de cinza e esmalte,
envolta em brumas densas de maresia...

Primeiras horas de um fluir fecundo,
primeiros sons a sugerir Dvorak,
e este Tejo todo é um Novo Mundo !...

03 janeiro 2008

Ano Novo

É de prever que, depois de um Natal tão especial, a minha impreparação para festejar a chegada de um Ano Novo ou sequer entusiasmar-me com o fim de um tão" sem graça" Ano Velho, fosse total. E assim, aí estive eu a fazer o que outros faziam, a dizer o que outros diziam, para não "destoar", para ganhar o direito a permanecer integrada...Como somos curiosos animais,peças, de um sempre colectivo !!! Lembrei-me então de ir visitar o meu blog do início do Ano que agora acabou.Lá está um poeminha que escrevi há cinquenta anos. E não é que,lendo bem,lendo bem,afinal ainda me apeteceu tê-lo escrito agora outra vez ? Oh! Que reservas insondáveis permite o Senhor Deus nas nossas almas !!!...

02 janeiro 2008

NATAL 2007

"Num banco de jardim, uma velhinha..." Assim começa um fado que, na minha indexação de tipos de fado, eu incluo nos trágicos, representativos de um certo sentimento português que puxa à lágrima lamecha pelos sofredores passivos que em Portugal fenecem nos bancos dos jardins, corroídos pela dor, pelo abandono, pela saudade, por muito mais coisas espirituais que materiais... Não consigo lembrar-me de qual o fadista que o cantava doloridamente, mas sei que era um homem e que rondava por todo o fado uma insinuação de indiferença filial condicionante da solidão e deliquescência da velhinha...Há muitíssimo tempo que não oiço este drama e, subitamente, reanima-se este quadro na minha memória.Porque( tudo tem os seus porquês) ,depois de uma queda aparentemente de pouca importância, o meu corpo e depois o meu espírito, entraram num processo de desencorajamento para a dor, de cansaço para a luta, de desinvestimento na esperança..."no banco do jardim, uma velhinha..."
E foi então que surgiram os AMIGOS. Caloroso, reconfortante, luminoso, envolvente, foi-me proporcionado um "banco de jardim" que me colocou a galáxias de distância da velhinha do fado. Sendo época de Natal, como para um presépio de ESPERANÇA, eles trouxeram-me incenso e mirra mais do que simbólicos: vivos e actuantes na reabilitação das minhas forças ! Com eles e graças a eles tive umas verdadeiras FESTAS de Natal ! Todo o calor do mundo no reavivar de brasas esmorecidas...Cada grande toro de lenha de azinho que punhamos na lareira, cada nova vela que se acendia, cada nova luminária com que se envolvia um novo angulo da casa, era mais um sopro de bem-estar pelo qual eu não podia ter esperado... E houve Missa do Galo( há quantos anos ?), numa igreja envolta em nevoeiro, e houve ceia quentinha, no regresso da missa, e houve prendas...A que me coube é mesmo como o brinquedo, tradução tecnológica daquele que me cabia, era eu menina. Quase outra vez menina, pela força do carinho...
Deixaram de me contentar uns magros seis caracteres para escrever a palavra AMIGOS... E onde irei encontrar as letras suficientes para escrever GRATIDÃO ?

13 dezembro 2007

Passou hoje a haver um Tratado de Lisboa

Lembro TORGA . Hoje a grande notícia não fui eu...
Aqui,neste país e nesta hora.Aqui,junto dos meus, mortos ou vivos...
...ver esta maravilha: meu Pai a erguer uma videira, como uma Mãe que faz a trança à filha...


O que me foi dado ver na televisão, esta manhã, foi uma Lisboa lindíssima,iluminada com a sua mais deslumbrante luz, muito branca nas pedras antiquíssimas debruadas de azul aqui e ali, pela mão de alguém que mais pareceu realmente amar muito esta cidade, tanto, tanto, que só pensou em mostrá-la bonita às visitas que vieram de todas as partes... Vinham pela política, pelas conveniências, pelas "tricas", por tudo, menos pelo Amor, mas era vê-las saírem dos respectivos carros e desanuviarem-se-lhes os semblantes que traziam fechados ou distraídos... Alguém arranjara Lisboa, ali,encostada ao Tejo, "COMO UMA MÃE QUE FAZ A TRANÇA À FILHA" e era ver os sorrisos e os braços abertos, em gesto de abraçar, de toda aquela gente que, de cores transparentes , resplandecentes, apenas sabia de ouvir falar,certamente, através de espessas paredes de cinzento...
Hoje a Lisboa que eu amo estava ali. E a grande notícia foi ela, deixando-se amar...
Quando destas partes se partiu um dia, muita coisa veio a tornar-se diferente "URBI ET ORBI"!

06 dezembro 2007

ISAÍAS

Deixe o ímpio os seus caminhos e o pecador os seus projectos;volte-se para o Senhor,que terá piedade dele,para o nosso Deus que é generoso a perdoar.
"Os meus planos não são os vossos planos,nem os vossos caminhos são os meus caminhos_ diz o Senhor_;quanto os céus estão elevados acima da terra,tanto se acham elevados os meus caminhos acima dos vossos e os meus planos acima dos vossos planos"


Gosto de ficar a pensar quanto sou pretensiosa quando imagino que Deus
está a fazer qualquer tipo de "avaliação" com bitolas iguais às minhas...
O nosso sistema de contas,pesos e medidas criámo-lo nós de acordo com as
nossas dimensões.Não sou capaz de imaginar,à dimensão divina, o quanto,
seja do que for...

02 dezembro 2007

Este mês de Novembro, se algures há um contador do tempo das nossas vidas, devia-me ser descontado nos totais de algum dia, porque na verdade tenho a sensação de que o não vivi, ou de que ele não me permitiu que o vivesse. Passaram os Santos e os Fiéis Defuntos, partiu a Côrte para o Brasil, morreu Fernando Pesssoa, e eu, agarrada a uma tradução que prometi a alguém, fui deixando escorrer os dias a pensar em coisas que nunca tinham entrado na intimidade das minhas ocupações e que, por isso mesmo, chegaram a alienar-me completamente, pela novidade, pela variedade, e pela alteridade...Numa espécie de assombrações do meu mundo a fazer-se presente, surgiam-me, pelas tardes ,Camões a divertir-se em voltas de redondilha menor, D. Manuel deSousa Coutinho a pegar fogo à sua casa, e a Tlebes em toda a sua pujança a radicar-se por entre quase inofensivos grafitti, tão significantes quanto um código o pode ser.
E foi por entre tudo isto que tomei conhecimento daquilo que, de repelão, me fez pôr de novo os pés em terra.E não foi o renascer das quase-cinzas do acordo ortográfico luso-brasileiro...Foi algo que tem a ver com a Língua,sim senhor, a Língua que o Poeta dizia ser a nossa Pátria. Ergue-se BOLONHA,quando muitos de nós andávamos distraídos, e agora os alunos entram nos Mestrados e eis que as aulas são dadas em INGLÊS! E os testes são escritos em inglês. Os comentários preocupadíssimos que tenho ouvido de alunos,por exemplo, de Economia !!! Quase todos sabem algum inglês mas não têm desembaraço naquela área de vocabulário e muito menos escrito... Bem!...Como foi que tudo isto e muito mais foi acontecendo ?
Creio que nunca me pareceu tão bemvindo o DIA da RESTAURAÇÃO da INDEPENDÊNCIA,um 1º de Dezembro cinzento e meio envergonhado,com as pessoas do costume a fazerem e dizerem as coisas do costume, mas comigo a ver as coisas já não com os meus olhos do costume...

24 novembro 2007

Proximo ADVENTO

Eis senão quando...apercebi-me de que o mês de Novembro tinha voado. O domingo do próximo fim-de-semana já será o primeiro domingo do Advento. E,havendo para mim partes do ano em que o gosto de viver se me torna mais intenso, o Advento é uma delas. A primeira. A outra, a segunda, é a que abrange as doçuras dos fins de tarde de Outubro e os nevoeiros sobre os velhos plátanos dourados de Novembro. Não me sinto harmoniosamente viva em mais nenhuma outra época do ano. Todo o ADVENTO me permite ainda hoje esperar. Aquelas brincadeiras de adolescentes dos ela ainda acredita no PAI NATAL ! ,assentar-me-iam como uma luva,porque SIM, acredito no sonho, acredito com toda a força da minha alma nas imensas perspectivas que se abrem para alguma vez...acredito na FÉ( isto é,será?,um pleonasmo). E cheiro, saboreio, quase apalpo este fluido de mistério que a minha sensibilidade capta nesta época.Não tem nada que ver com esse turbilhão das cidades, com essa loucura de trocar presentes ao desafio,com essas ostentações de roupa nova, com essa afronta das comezainas... É tudo entre mim e mim mesma.Será porque tenho de Deus muito, dentro de mim.?E há cânticos e encantamentos inesperados...E os silêncios parece que nos roçam pela pele com farrapos de lembranças...E às vezes surge um amigo que vem dos longes de não nos vermos nunca e iluminam-se uma data de mais esperanças...No friosinho entre murmúrios duma ida à MISSA do GALO começa o fim do encantamento. Quando vem o Dia de Natal é como noutros tempos entrar nos luxos BARROCOS.
Vou então acender as quatro velas, aligeirar tudo o que me é obrigatório,libertar-me para este mistério e vivê-lo com todas as minhas forças !

11 novembro 2007

Guiness book

Hoje foi São Martinho.
Nem castanhas,
Nem vinho,
Nem meia capa do Santo,
Nas formas habituais...
Já não há frio, parece,
porque os verões,agora,
são globais...
Quem lembra essas coisas esquece
e não entra mais
na História..
Lenda mesmo é o meu espanto:
Um São Martinho em GUINESS ? ? ?...

04 novembro 2007

Do jornal agora

Mais uma vez feriados encostados a fins de semana e alongados com "pontes"... Os portugueses, em Portugal, sempre tiveram pouca consciência de que, a produzir, a trabalhar cada um naquilo que melhor sabe fazer, engrandeceriam o seu país sem precisarem de grandes esfalfamentos.O sonho de uma vida de reformados ricos sempre pairou nas ambições de quaisquer trabalhadores que conheci ou de que ouvi falar. A juntar a este sonho, surgiu, creio que por volta dos anos sessenta, a verdadeira fixação dos portugueses pelas idas à praia mais ou menos durante todo o ano, mesmo que faça algum frio e mesmo que "a praia" não exista ali ao virar da esquina. A Serra, o pinhal, o "campo" deixaram de ser atractivos, vá-se lá saber porquê...

E esta atracção por tais padrões de vida, não fazendo muito alarido, acabou por influenciar um sem número de coisas da nossa vida quotidiana, descaracterizando um modo português de viver, tornando-o híbrido, imitativo e despesista.

Tudo isto me ocorreu a partir desta extraordinária maratona que consiste em ler os jornais de fim de semana. São quilos e quilos de papel, repositórios de um sem número de separatas, umas mais publicitárias que outras, tentando todas captivar a atenção do leitor que, provavelmente, já não se sentirá tão atraído pelas notícias, uma vez que elas já nem sequer desenvolvem as que a TV vai debitando durante a semana, provenientes que são, todas das mesmas agências noticiosas . No meio de cada feriado e ponte que proliferam na nossa terra, é sem dúvida uma árdua tarefa esta de ler os jornais. E o tempo escorre veloz, mesmo que só façamos leituras oblíquas para "escolher" o que ali vem que nos interessa ou convem ler. Lá se vão algumas páginas de um bom livro que teríamos podido estar a ler, não fosse o desejarmos ficar ao corrente do que de mais actual vai por aí, pelos arredores das nossas frustrações.

E como parece que o que vem nos jornais é que importa, "pensaram"as cabeças pensantes( que decidem o que, de futuro, todo o português deve saber), que há que dar lições de jornalismo aos jovens que, na escola, ainda mal sabem distinguir a prosa da poesia...
Ensina-se-lhes o quê,como,onde e porquê e depois dá-se-lhes, como trabalhos de casa ou testes para nota, a fabricação de notícias com obediência a todas as regras adjacentes.

É conhecida a relutância que os nossos rapazes e raparigas têm pela leitura de qualquer livro e então estimulam-se na exploração da literatura jornalística. Daqui a distinguirem um "Editorial" de uma "Crónica" e a analisarem uma" Entrevista"vai toda uma panóplia de conhecimentos que eu não sei quantos deles irão mais tarde sequer recordar, quanto mais utilizar...

E não posso deixar de perguntar-me : Que haverá de inconveniente nos nossos maravilhosos escritores? Esta cultura de feriados e pontes estará também a roubar-nos o tempo para eles até que os vamos deixando cair?...



...

.

02 novembro 2007

O dia de todas as memórias


FLORES para todos os que amei e hei-de amar...

E agora sei que está nesse amor a eternidade...

01 novembro 2007

Dia de todos os santos

"Felizes os obreiros da paz, porque hão-de chamar-se filhos de Deus "