Se os humanos possuissem aquele olho multifacetado das moscas, mesmo assim teriam dificuldade em abarcar a pluralidade de acontecimentos que em seu redor pululam e fabricam, dia a dia,hora a hora, minuto a minuto, o caldo de cultura onde se desenvolvem as suas vidas.Somos , por isso, forçados, em épocas determinadas, a exercer um certo esforço de concentração para banir da nossa limitadíssima órbita tudo o que não converge para um dos temas a que queremos devotar-nos em pleno.Fazemos opções,claro que sim, e o Mundo segue, enquanto nós paramos um tempo, não só para pensar, mas também para agir mais conscientemente, segundo critérios nossos e sem dar lugar a desvios provocados tanta vez pelas solicitaçôes desse Mundo de todos os dias. Foi assim que me aconteceu neste período de Quaresma, Semana Santa e Páscoa. O Mundo foi fazendo de tudo: na área da política nacional ou na da internacional, na área da ciência desmultiplicada nos seus vários pelouros, na área social de todos os pequenos mundos, na área da música de qualquer quadrante, na área das Letras com cada vez mais pessoas a quererem contar ao Mundo as suas coisas ,e por aí fora. O Mundo é quase sempre previsível, se soubermos ir olhando para ele com a atenção que a nossa sabedoria recomenda ou permite, mas nem por isso deixa muitas vezes de nos surpreender quando faz movimentações mais bruscas. Enquanto eu estive toda entregue à minha Fé e às coisas de Deus, longe daqui, alguns devotos de uma outra divindade, calmos e serenos na sua entrega de fé,viram-se subitamente abanados,sacudidos, porque há, ligada às suas práticas religiosas,uma questão territorial que nunca esteve nem parece vir a estar resolvida.E não é que os seus algozes são os demasiado próximos vizinhos chineses? Na verdade, há já bastantes anos que nós temos podido vir a descobrir que há pelo menos dois tipos de chineses :aqueles espantosos filósofos da tranquila serenidade e densa sabedoria e os outros,políticos,estrategas, defensores musculados e vigorosos de uma corrente política que os tem isolado do resto do mundo. E agora? Lá estão os monges tibetanos a ver e a aguentar a dureza das caras feias do mesmo povo que mostra ao Mundo Ocidental um sorriso de orelha a orelha porque vai fazer com esse outro mundo todo o charme que se mostrar necessário para a realjzação dos Jogos Olímpicos em sua casa.Quando "regressei" dos meus recolhimentos e atentei bem no que estava a passar-se, apeteceu-me reler os lindíssimos poetas chineses, os seus pequenos conselhos de sabedoria, a suas irónicas meditações sobre as fraquezas humanas (excelentes traduções,claro, porque não estudei chinês).Não resisto à tentação de aqui transcrever algo que a todos nos deixa mesmo em perplexidade.
MENSAGEM AO REI LI-WANG
Do Sábio SHAO, no ano de 845 AC
Um Imperador sabe governar quando,sob o seu governo, se goza da Liberdade para:
_os poetas fazerem os seus versos
_os historiadores dizerem a verdade
_os ministros o aconselharem sem medo, desassombradamente
_os pobres se queixarem livremente dos impostos
_os estudantes aprenderem todas as lições do mundo e do espírito, com alegria e respeito
_os operários se orgulharemdas suas aptidões e se aplicarem só em trabalhos apropriados
_as pessoas comuns falarem de todos os assuntos sabendo que são ouvidas
_os velhos censurarem tudo o que lhes parece desgovernado,por amarem muito a ordem
Será que em 2008 ainda se lembram do Sábio Shao ?...
30 março 2008
23 março 2008
21 março 2008
Dia Mundial da Poesia
PORQUE NASCES, POESIA, NO MEU PEITO?
ÉS SAUDADE DE VIDAS QUE NÃO TIVE
OU CANSAÇO DA HORA QUE SE VIVE
DENTRO DE UM SÓ VIVER FECHADO E ESTREITO?
ÉS ESTE CONHECER QUASE PERFEITO
DE COISAS QUE A MEMÓRIA NÃO REVIVE?
POESIA, EM QUE MUNDOS É QUE EU ESTIVE?
PORQUÊ SEMPRE ESTE SONHO INSATISFEITO?
TRAZES DENTRO DE MIM, SEMPRE DISPERSOS,
ESTE NÃO ME CHEGAREM OS ESPAÇOS
E ESTE NADA ME SER SUFICIENTE
QUE FAZ COM QUE O ALENTO DOS MEUS BRAÇOS
SEJA O QUERER IR MAIS LONGE QUE OS MEUS PASSOS
E O QUERER SER MAIOR QUE TODA A GENTE...
19 março 2008
17 março 2008
Semana Santa - Domingo de Ramos

Começou pois a Semana Santa à qual também chamamos a Semana da Paixão. Lembro-me de que, quando era muito nova, não queria, não me conformava com o emprego da palavra paixão para designar precisamente uma sequência de dias de tortura aplicada sobre um ser humano ( não esquecendo nunca a natureza também humana de Jesus ) ,de tal forma rebuscada e dilacerante que nunca mais se desvaneceu na memória dos Homens e estou eu, hoje,ano 2008, a falar dela, aqui. Só mesmo quando estudei latim soube de forma convincente que passio,passionis significava sofrimento e também já tinha conhecimentos do Mundo e das coisas que me permitiram ir começando a abarcar toda a latitude humana, social e semântica desta palavra que, antes, para mim, apenas rescendia a amor.Não percebia, em miúda, e ainda hoje só pelo caminho da FÉ consigo crer que percebo a espantosa forma de amar que pode levar alguém a aceitar semelhante Paixão. Digamos que Jesus não aceitou:Jesus procurou-a, em cumprimento da sua missão divina. E vai triunfalmente entrar em Jerusalém rodeado de um povo que o glorifica como sabe,agitando em seu redor ramos "triunfais", enfatizando vistosamente este gesto de alguém que sabia que caminhava para a traição, a tortura e a morte . Segue-se então o torvelinho de horror que marcou para todo o sempre esta série de dias a que também se dá o nome de Semana Maior.Todos os actos de culto que nesta semana vamos celebrar constituem uma progressão em crescendo que humanamente nos comove e espiritualmente nos exalta soltando-se assim, simultaneamente, uma percepção da dor quase real e uma adesão sem reservas a esse Amor que não compreendemos. E se nos perguntam como podemos fazer da Cruz o símbolo que amamos, temos dificuldade em fazermo-nos compreender, de tal maneira é difícil explicar-se o que não se fundamenta apenas na Razão...
14 março 2008
Fazer um Poema
Desde que entrei neste mundo da criação na net a que damos nomes como blogosfera ou seus sinónimos, sempre me moveu o desejo de ganhar interlocutores com os quais se fosse constituindo um espaço de intercomunicação inteligente, interessante, com mais ou menos originalidade e porque não? até com abertura para algumas trocas de conhecimentos ou saberes e de conceitos ou opiniões. Bem. As coisas raramente são como as pensamos e o mais curioso é que qualquer projecto nos foge subitamente das mãos, ganha vida própria e fica"uma coisa" que não é o que nós imagináramos.Que fazer?Há que voltar costas ao novo caminho que se nos abre ou prosseguir aguardando que uma outra inflexão surja também? Estava eu nestas inquietações quando me surge um poeta-aprendiz a, justamente, desejar, de uma forma muito inovadora, criar laços ,creio que de informação, com aquilo que apreendeu do que aqui tem lido. Na sua enorme ambição de ser poeta percebo os fundamentos de todas as iniciativas em que se envolverá... Resolvi,assim, à maneira de conselho, colocar aqui o que escrevi uma vez para circunstâncias quase semelhantes.
Fazer um poema
não é só senti-lo
nem escrevê-lo...
Não é aquilo que pensam
de dizer-se o que nos vai por dentro,
de guardar no papel
um segredo,
se nos falta a coragem pra dizê-lo...
Nem tão pouco é vontade de exibir-se.
na esperança de que alguém,
lendo-o,diga sentir-se
como nosso irmão,
tal a capacidade de comunicação !...
Não ! Fazer um poema
pode até ser "mea culpa"
de muita convulsão de sentimentos
e alguns arrependimentos...
Mas o que é sempre, sim,
é uma imensa volúpia
de agarrar as palavras
e domá-las,
recriá-las,
desdobrá-las,
pô-las contra a parede,
ali ! À prova,
de terem, sim ou não,
força bastante.
música,
mansidão,
rigor ou colorido,
para dizerem só e justamente
aquilo que é de nós parte integrante
sem probabilidades
de outro sentido...
Depois de tudo isto que foi dito,
mística e transcendente,
é a mão que obedece docilmente
no gesto que desliza no papel...
Nasce o poema
e é escrito
misteriosamente...
Fazer um poema
não é só senti-lo
nem escrevê-lo...
Não é aquilo que pensam
de dizer-se o que nos vai por dentro,
de guardar no papel
um segredo,
se nos falta a coragem pra dizê-lo...
Nem tão pouco é vontade de exibir-se.
na esperança de que alguém,
lendo-o,diga sentir-se
como nosso irmão,
tal a capacidade de comunicação !...
Não ! Fazer um poema
pode até ser "mea culpa"
de muita convulsão de sentimentos
e alguns arrependimentos...
Mas o que é sempre, sim,
é uma imensa volúpia
de agarrar as palavras
e domá-las,
recriá-las,
desdobrá-las,
pô-las contra a parede,
ali ! À prova,
de terem, sim ou não,
força bastante.
música,
mansidão,
rigor ou colorido,
para dizerem só e justamente
aquilo que é de nós parte integrante
sem probabilidades
de outro sentido...
Depois de tudo isto que foi dito,
mística e transcendente,
é a mão que obedece docilmente
no gesto que desliza no papel...
Nasce o poema
e é escrito
misteriosamente...
09 março 2008
Lázaro

Aquela exortação de S.Pedro para que os Efésios acordassem, sendo que esse acordar seria como levantarem-se do meio dos mortos , teve o seu corolário hoje, quando Jesus ordenou ao seu amigo Lázaro que saísse do pedregoso túmulo onde jazia,havia já quatro dias. Ao responder a este chamamento, Lázaro traz todas as marcas palpáveis da sua morte verdadeira.As suas irmãs o haviam chorado como perdido e até lhes pareceu que o seu amigo Jesus, embora o chorasse também, não se mostrara apressado em vir juntar-se-lhes naquela ansiedade de poderem ainda salvar uma esperança...E a esperança era afinal tudo o que Jesus trazia para nos ensinar quando,para louvor do Pai, mostrou a todos que, como havia dito a Marta,quem acredita...embora venha a morrer ,viverá. Uma vez mais, a linguagem é misteriosa mas Lázaro morto que ressuscita abre as portas da esperança a todos nós...
02 março 2008
...nada me faltará!

"O Senhor é meu pastor,nada me faltará". Assim reza o salmo 22,cantado no dia de hoje e que é talvez o Salmo que prefiro a todos os outros. A mensagem de paz,de tranquilidade ,de que tanto somos carentes chega-nos quase perfumada e refrescante :fez-me descansar nos prados verdejantes,conduziu-me às fontes mais puras.E segue-se uma panóplia de bens prometidos,consequência do cuidado que o Senhor aqui garante à confiança do salmista e que eu quero muito que também possa ser minha. Enquanto na semana passada ficámos a pensar naquele encontro nunca de esperar, e no diálogo nada provável à luz de uma lógica à nossa medida, entre uma samaritana e um judeu ,pesou sobre nós a importância metafórica de uma tal água que pode matar sedes de espécies tão diversas que, uma vez saciadas, poderão condicionar toda uma mudança de vidas, tivémos, no dia de hoje, uma tão grande intensidade de focagem de uma certa luz sobre os olhos dos cegos( também de diversas espécies) que a sensação da secura e escuridão das nossas vidas tais como somos capazes de levá-las, apenas nos conduz a desejar os prados verdejantes e as fontes puras que o Salmo nos promete. E se ainda tudo isso não chegasse , S.Pedro, na sua epístola aos Efésios quase nos grita"desperta,tu que dormes,levanta-te do meio dos mortos ! " Como não, mais uma vez ,tentar AGORA realmente acordar?
26 fevereiro 2008
Morte
Ronda por aí
à nossa volta
a Morte,
mostrengo hediondo,
uivante,
predador
espectante
das nossas alegrias...
Cada sua passagem
arrebata,
profana,
dilacera
uma teia de vidas
sem viagem,
das que ficam no cais
vendo a outra partir...
Dói fundo a dor
feita de carne,
humana !
E ele fica
a pairar
pelas esquinas dos dias...
à nossa volta
a Morte,
mostrengo hediondo,
uivante,
predador
espectante
das nossas alegrias...
Cada sua passagem
arrebata,
profana,
dilacera
uma teia de vidas
sem viagem,
das que ficam no cais
vendo a outra partir...
Dói fundo a dor
feita de carne,
humana !
E ele fica
a pairar
pelas esquinas dos dias...
23 fevereiro 2008
Aznavour
Esta noite vai haver um espectáculo em Lisboa cujo anúncio, aqui há uns tempos, me deixou entre o admirada , o orgulhosa e o curiosa...AZNAVOUR ,o "guru" da minha juventude apaixonada, o "padroeiro" dos nossos sonhos de amores mais arrebatados, aquele que íamos ver e ouvir em Paris, sempre que foi possível, ou aqui em Lisboa sempre que vinha cá, esse Aznavour da minha idade e que transporta consigo as mais emocionantes recordações certamente não só minhas mas as de toda uma geração que já se foi fragmentando com o multiplicar de todos estes anos, esse Aznavour vem agora aí dizer aos mais novos muitas coisas de nós, algumas,talvez, que nem teremos tido coragem de recordar, quanto mais de lançá-las assim, cantadas aos quatro ventos...Hier encore, j'avais vingt ans...,La bohème... Oh,amigo ,vou adivinhar-te hoje nesse enorme palco e cantarei baixinho aqui, contigo ...Ma vie, j'ai peur que ta jeunesse un matin disparaisse... ...je ne t'ai pas cherchée, c'est toi qui t' es donnée... .o toi la vie, ne mabandonne pas! Tu sais, je crois en toi...
22 fevereiro 2008
As Palavras
Um dos meus alunos anda ,neste momento, a trabalhar os poemas de Eugénio de Andrade. É um rapaz de quinze anos, apaixonado pelo mar e pelo desporto da Vela, filho de pais divorciados e com uma estuante alegria de viver. O seu professor da Escola tem uma vincada predilecção pela poesia, muito particularmente pela dos poetas modernos. Tenho portanto à minha frente duas linhas de força que devo procurar tornar concorrentes, quando, pelas suas naturais tendências, seriam divergentes,ou, numa hipótese mais optimista, seriam talvez paralelas... E então, tenho também de me defrontar com algumas perplexidades minhas ( não que não esteja já habituada a elas ) perante certas observações de uma juventude "talhada" de maneira bastante peculiar, sempre surpreendente, principalmente por nunca me ter deixado influenciar pelo que dela se diz de desabonatório...Ontem , Eugénio de Andrade dizia-nos aquela sua tristíssima frustração de despedida já gastámos as palavras, meu amor... E salta-me ao caminho esta observação:as palavras existem para não se gastarem.Senão para que servia tudo aquilo que os escritores tentam fazer?Lá veio então a minha quase irritação pelo que já ficou, parece-me, esquecido das nossas "discussões" sobre palavra falada /palavra escrita.Neste tempo de tanto suporte electrónico para a palavra falada, na cabeça de um jovem, formatada nas coisas práticas da vida actual, a perenidade do valor da palavra como tal pode ser ainda um factor de segurança e de estabilidade emocional...Que dirão os linguistas?
18 fevereiro 2008
Monte Tabor -2
Do premente apelo de paz experimentado por Pedro, não chegou a concretizar-se a construção das três tendas. Outras coisas espantosas aconteceram e decididamente não era aquele um lugar para permanecer.
Para orar, meditar, interrogar-se e dar louvor a Deus, séculos mais tarde, quem sabe? outros Pedros construiram uma bela catedral...
Para orar, meditar, interrogar-se e dar louvor a Deus, séculos mais tarde, quem sabe? outros Pedros construiram uma bela catedral...
17 fevereiro 2008
Monte Tabor -1
11 fevereiro 2008
Nossa Senhora de Lourdes
10 fevereiro 2008
As Tentações

"Nem só de pão vive o Homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus"
Se, por detrás de cada maçã da bela macieira que está no nosso jardim não estivesse escondida uma serpente, se nós tivéssemos uma tão sólida formação que tornasse mesmo inabaláveis as nossas convicções ( a nossa fé) , então sim, seríamos purificáveis, resistentes ,e capazes de respostas destas, fosse qual fosse o assédio ou a tentação...
Se, por detrás de cada maçã da bela macieira que está no nosso jardim não estivesse escondida uma serpente, se nós tivéssemos uma tão sólida formação que tornasse mesmo inabaláveis as nossas convicções ( a nossa fé) , então sim, seríamos purificáveis, resistentes ,e capazes de respostas destas, fosse qual fosse o assédio ou a tentação...
06 fevereiro 2008
Padre António Vieira

Quem, dos meus amigos professores não experimentou já aquela alegria enorme, uma espécie de vaidadesinha, quando algum daqueles alunos que chegaram até nós com aquele rótulo: " não gosta de ler , não pega num livro, não quer mesmo ler"lhe aparece a dizer que "achou piada àquela dos peixes voadores..." ? Isto, porque foi para casa ler, por curiosidade, o que ainda faltava ler do Sermão de Santo António aos peixes...Não é para alegrar um professor ? Pois bem, quanto a mim, alegrei-me mas não me envaideci tanto como disse, porque tive a certeza de que o mérito vinha todo da ironia do texto, da sua actualidade, do "luxo" das palavras e das frases tão sugestivamente aplicadas e que durante algumas semanas andámos a "pesquisar"...Os jovens acham divertida aquela construção em forma de estrelas cujas pontas se desmultiplicam noutras tantas estrelas, diverte-os encontrar os conceitos habilmente disfarçados ou não... E a verdade é que se lhes revelou( de forma muito incipiente,bem sei) o tal prazer da leitura em que antes não acreditavam. Não podia deixar de colocar esta nota no dia de hoje, em que felizmente bastante se tem lembrado este HOMEM tão dos nossos dias, mas só com mais quatrocentos anos do que nós e a todos os títulos grande e fascinante.
03 fevereiro 2008
O Monte das Bem-Aventuranças

Bem-aventurados os pobres... início de mais umas quantas coisas desconcertantes que Jesus disse à multidão dos que mais uma vez o seguiam, para o ouvirem, quando, como aqui, parava,se sentava, se recolhia um pouco e depois,duma maneira calma, meio pensativa, começava a falar...Se eu estivesse lá, diria que ele estava a "pensar em voz alta"... Não sei a que horas se terá passado este momento, mas quem já subiu àquele monte e ali teve oportunidade de poder quedar-se em silenciosa meditação, deixando a vista alongar-se pelo tranquilo Tiberíades a seus pés, a quaisquer horas que sejam, compreende bem o peso e o alcance das solicitações que parecem brotar daquele silêncio, daquela vegetação, das flores de trepadeiras que enlaçam os ciprestes a toda a sua altura e da memória de tudo o que naquele local foi dito e é como um eco repercutindo indefinidamente... No entanto, a forma misteriosa, encantatória, metafórica e até por vezes criptográfica, como Jesus expunha o seu pensamento, agravada ainda pela possível multiplicidade de interpretações que cada tradutor lhe podia ir dando, trouxe para todos nós ( e para os senhores padres logo à frente) a tarefa de nos abeirarmos da mensagem de Jesus com todos os nossos conhecimentos de História, de Gramática, de Linguística, de Sociologia, etc, etc.Porque sabemos todos que quando se diz pobres em espírito, pobres pelo espírito,pobres quanto ao espírito, não é bem o mesmo que dizer pobres de espírito e nunca é o mesmo que falar nos pobres de bens materiais. E é às vezes por pormenores deste tipo que tanta gente não entende os cristãos !... E porque à Fé se acede por muitos caminhos, é bom pensar nas palavras e deixar-se "enfeitiçar" pelos lugares que as perpetuam dentro dos nossos sonhos de Paz...
01 fevereiro 2008
Carnaval
Aí estamos nós chegados àquela época do ano em que há ,por tradição ,que cumprir uma série de rituais que , na totalidade e no particular, me desagradam profundamente. Todos os que me conhecem sabem que, em nenhuma época da minha vida, pactuei com qualquer dos tipos de celebração desta exteriorização de liberdades reprimidas e ,por calendário, agora consentidas. Penso que atitudes como esta minha devem principalmente radicar-se na educação que se teve e não posso deixar de recordar como, sempre, os meus Pais me mostraram diversos carnavais,de acordo com as minhas fases de crescimento, como coisa para se ver, mas não como coisa para nela se tomar parte.É certamente assim que se fomentam qualidades críticas e até admito hoje colocar a mim própria questões sobre este modo de educar do qual, aliás, em muitos outros campos das práticas sociais, nunca me senti vítima. Mas se hoje me sinto inclinada a entrar por este domínio da educação para os relacionamentos sociais é porque com uma certa perplexidade vejo alguns dos meus alunos( e não só dos mais novos ) prepararem afanosamente modos de se disfarçarem para a "festa" mascarada do último dia de aulas nas escolas, antes do começo das pequenas férias de Carnaval. E, ouvindo-os, o que querem encarnar ? Não são BELAS, mas sim MONSTROS, não são FADAS, mas são BRUXAS, ou então QUASIMODOS, VAMPIROS, FRANKENSTEINS... E vêm-me à memória aquelas mastronças que têm tanto de DRAG-QUEENS como dos populares CABEÇUDOS e que muito popularmente representam por todo o país o obsceno-inocente. Como realmente as pessoas se cansaram da BELEZA e se comprazem no FEIO ! UMBERTO ECO que , para fazer as suas HISTÓRIAS tanto da BELEZA como do FEIO , com tanto cuidado procurou documentar-se em historiadores, filósofos e artistas, através das várias visões do mundo, ao longo dos séculos, não conseguiu mais do que reconhecer que é nos olhos de quem olha que a beleza e a fealdade se instalam ; e que esses olhos são "enformados" em múltiplas contingências da época das suas vivências. Que pensar pois desta nossa época, em que, desde as crianças pequeninas até aos adultos mais velhos, cada vez mais se desdenha a BELEZA e se entroniza o FEIO ? Que vamos "libertar" neste CARNAVAL ?...
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21 janeiro 2008
Gregoriano
Por razões realmente aleatórias e em contraponto com o "monte" de livros de novos autores ou de novidades lançadas por autores conhecidos, que juntei para ler, a partir do Natal ou talvez mesmo a partir do dia dos meus anos, esta semana reli JORGE de SENA.Comecei por ler um dos seus Prefácios, onde,desiludido e zangado mesmo,se insurge contra a injusta forma de se tratarem os escritores "sem nome" ou sem "padrinhos" na nossa terra e depois derivei para a poesia que considero um poderosíssimo testemunho da época histórica que teceu e condicionou a vida deste intelectual-sentimental que nunca conseguiu sentir,enquanto exilado, que no seu país havia também quem o amasse.E fui encontrar-me com a sua ARTE DE MÚSICA onde,mesmo usando o seu habitual vocabulário que eu tenho tido sempre vontade de chamar musculado, ele descobre a forma de transmitir-nos as vibrações mais íntimas que a grande música lhe provoca.Por exemplo, sob a inspiração da Cathédrale engloutie de Debussy, diz: Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos, os cânticos e o eco das abóbadas e ver as altas torres sobre que as ondas se espumavam tranquilas. Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam almas penadas, como as do Marão e que eu temia em todos os estalidos e cantos escuros da casa. E de uma peça de Bach : Numa estridência uma alegria vibra?Ou treme uma amargura asfixiante? E ,nestes graves, que ressoa ?a dor ou uma serena e firme complacência ignota?
Leio nestes e noutros "encontros" do poeta a influência que terá tido na sua personalidade o gosto que tinha a sua Mãe em que ele estudasse música, enquanto o Pai queria fazer dele um oficial de Marinha...Que se viu compelido a ser a excelência como Mestre da Literatura do seu país, nos Brasis e nas Américas, sem nunca deixar de testemunhar com vigor o quanto viveu, talvez já "para memória futura", o que até nem seria de estranhar,inclusivamente num homem que foi Pai de nove filhos... E nestas e noutras cogitações me encontro no sábado, na minha Paróquia, com um grupo de senhores espanhois que ao seu grupo deram o nome de IN COENA DOMINI e que, como devem cantar os anjos no Paraíso, nos ofereceram a panorâmica paz de um canto Gregoriano antiquíssimo que ficou a "envolver" todo o nosso fim-de-semana...Música, Senhor, afinal como chegas por ela a tantos de nós e das maneiras mais inesperadas !
Leio nestes e noutros "encontros" do poeta a influência que terá tido na sua personalidade o gosto que tinha a sua Mãe em que ele estudasse música, enquanto o Pai queria fazer dele um oficial de Marinha...Que se viu compelido a ser a excelência como Mestre da Literatura do seu país, nos Brasis e nas Américas, sem nunca deixar de testemunhar com vigor o quanto viveu, talvez já "para memória futura", o que até nem seria de estranhar,inclusivamente num homem que foi Pai de nove filhos... E nestas e noutras cogitações me encontro no sábado, na minha Paróquia, com um grupo de senhores espanhois que ao seu grupo deram o nome de IN COENA DOMINI e que, como devem cantar os anjos no Paraíso, nos ofereceram a panorâmica paz de um canto Gregoriano antiquíssimo que ficou a "envolver" todo o nosso fim-de-semana...Música, Senhor, afinal como chegas por ela a tantos de nós e das maneiras mais inesperadas !
13 janeiro 2008
Sinfonia do Novo Mundo
Como a experiência de ir vivendo nos vai revelando a multifacetada criatura que é o HOMEM ! Quando estamos convencidos de que já não vai podendo haver muito mais coisas que, vindas dele, nos possam surpreender, bum! aí está uma nova revelação... Não estava habituada (creio que nenhum português estava) a que os governos "reconsiderassem" sobre posições tomadas com grande empenhamento e muita propaganda... E sempre tive opinião sobre aquele "bombardeamento" com a inevitabilidade da construção de um novo aeroporto na OTA. Terei que me colocar, em data de há precisamente 60 anos atrás. Havia, nesse tempo, uma faceta da Segurança Social que proporcionava o que se chamava Casas de Renda Limitada as quais, pertencendo a empresas, se destinavam a serem arrendadas aos funcionários dessas mesmas empresas seleccionados segundo critérios iguais em todas elas. Claro que eram ponderados salários, idades, estado civil, número de filhos e outras coisas. A partir de certa data, constituiu-se uma Federação dos proprietários destas casas e o "sorteio" dos inquilinos passou a ser abrangente, havendo uma lista única de candidatos inscritos, não mais divididos por profissões ou empresas empregadoras. E assim foi atribuida uma casa no bairro de Alvalade ao casal Beja. Perto, pertíssimo do Aeroporto de Lisboa, do qual o meu querido Sogro era director. Então, todos os amigos e familiares nos diziam : — Como é que vocês aceitam ir viver para perto daquele barulho permanente de aviões mesmo por cima da cabeça ? — E o meu marido e o meu Sogro sorriam e contrapunham: — É por pouco tempo. Dentro de mais ano ,menos ano, já se sabe que o Aeroporto vai ser fora da cidade. — Imagine-se que se pensava então em Rio Frio, é verdade !
Contado este "pequeno" pormenor e tendo o meu Sogro sido instrutor de jovens pilotos militares numa Escola de Aviação que existiu em Vila Nova da Raínha(a dois passos da Ota cujas boas e más qualidades ele conhecia de cor,) isto em anos vinte,do século vinte, qualquer pessoa pode calcular o espírito com que eu suportei toda a "excitação" que se gerou em redor da escolha,AGORA, da Ota, por todas as razões e mais uma, como é costume dizer-se... E eis senão quando, o Governo decide não ir para a Ota. E vai para onde ? Logo para ALCOCHETE, uma terra que me encanta,artística, histórica e paisagísticamente falando. Duas admirações de uma só vez ! O Governo ouviu os "barulhos" em seu redor, o Governo decide uma coisa bonita. Sei muito bem que o local onde se fará o aeroporto não é, não poderia ser na localidade chamada Alcochete, mas vai ocupar uma região com carisma e a beleza envolvente vai certamente ter o seu peso.Saudades do Aeroporto barulhento, odorífero e "condenado" há sessenta anos, claro que as vou ter. Quanta recordação, quanta história, quanta VIDA !!! Mas sei que ,enquanto viver, a construção do novo vai permitir-me a companhia do velho.
E só depois, bem depois, haverá alguém a lembrar que, de ALCOCHETE, eu pensava assim:
Há um vazio extenso e aromático
feito de negra vasa
e areia entretecida em limos e algas escuras
e outras daquele verde subaquático
que adquire cambiantes com as marés...
Há um murmúrio puro,de águas rasas,
a embalar conchinhas roçagantes
como sedas carísssimas e ondulantes...
E há a gaivota súbita, a rasgar,
em movimento e som, a paz do amanhecer !
Grito adunco a que respondem mais,
e, em pouco tempo, é de asas
o céu destes sapais...
Longe,lá mais ao fundo,
onde as sombras se acolhem aos pinhais,
espraiam as asas róseas os flamingos
num tremor de pluminhas adejantes...
E é de lá que, rútilo, vem vindo
o clarão da manhã de cada dia...
Lisboa ainda é margem de cinza e esmalte,
envolta em brumas densas de maresia...
Primeiras horas de um fluir fecundo,
primeiros sons a sugerir Dvorak,
e este Tejo todo é um Novo Mundo !...
Contado este "pequeno" pormenor e tendo o meu Sogro sido instrutor de jovens pilotos militares numa Escola de Aviação que existiu em Vila Nova da Raínha(a dois passos da Ota cujas boas e más qualidades ele conhecia de cor,) isto em anos vinte,do século vinte, qualquer pessoa pode calcular o espírito com que eu suportei toda a "excitação" que se gerou em redor da escolha,AGORA, da Ota, por todas as razões e mais uma, como é costume dizer-se... E eis senão quando, o Governo decide não ir para a Ota. E vai para onde ? Logo para ALCOCHETE, uma terra que me encanta,artística, histórica e paisagísticamente falando. Duas admirações de uma só vez ! O Governo ouviu os "barulhos" em seu redor, o Governo decide uma coisa bonita. Sei muito bem que o local onde se fará o aeroporto não é, não poderia ser na localidade chamada Alcochete, mas vai ocupar uma região com carisma e a beleza envolvente vai certamente ter o seu peso.Saudades do Aeroporto barulhento, odorífero e "condenado" há sessenta anos, claro que as vou ter. Quanta recordação, quanta história, quanta VIDA !!! Mas sei que ,enquanto viver, a construção do novo vai permitir-me a companhia do velho.
E só depois, bem depois, haverá alguém a lembrar que, de ALCOCHETE, eu pensava assim:
Há um vazio extenso e aromático
feito de negra vasa
e areia entretecida em limos e algas escuras
e outras daquele verde subaquático
que adquire cambiantes com as marés...
Há um murmúrio puro,de águas rasas,
a embalar conchinhas roçagantes
como sedas carísssimas e ondulantes...
E há a gaivota súbita, a rasgar,
em movimento e som, a paz do amanhecer !
Grito adunco a que respondem mais,
e, em pouco tempo, é de asas
o céu destes sapais...
Longe,lá mais ao fundo,
onde as sombras se acolhem aos pinhais,
espraiam as asas róseas os flamingos
num tremor de pluminhas adejantes...
E é de lá que, rútilo, vem vindo
o clarão da manhã de cada dia...
Lisboa ainda é margem de cinza e esmalte,
envolta em brumas densas de maresia...
Primeiras horas de um fluir fecundo,
primeiros sons a sugerir Dvorak,
e este Tejo todo é um Novo Mundo !...
03 janeiro 2008
Ano Novo
É de prever que, depois de um Natal tão especial, a minha impreparação para festejar a chegada de um Ano Novo ou sequer entusiasmar-me com o fim de um tão" sem graça" Ano Velho, fosse total. E assim, aí estive eu a fazer o que outros faziam, a dizer o que outros diziam, para não "destoar", para ganhar o direito a permanecer integrada...Como somos curiosos animais,peças, de um sempre colectivo !!! Lembrei-me então de ir visitar o meu blog do início do Ano que agora acabou.Lá está um poeminha que escrevi há cinquenta anos. E não é que,lendo bem,lendo bem,afinal ainda me apeteceu tê-lo escrito agora outra vez ? Oh! Que reservas insondáveis permite o Senhor Deus nas nossas almas !!!...
02 janeiro 2008
NATAL 2007
"Num banco de jardim, uma velhinha..." Assim começa um fado que, na minha indexação de tipos de fado, eu incluo nos trágicos, representativos de um certo sentimento português que puxa à lágrima lamecha pelos sofredores passivos que em Portugal fenecem nos bancos dos jardins, corroídos pela dor, pelo abandono, pela saudade, por muito mais coisas espirituais que materiais... Não consigo lembrar-me de qual o fadista que o cantava doloridamente, mas sei que era um homem e que rondava por todo o fado uma insinuação de indiferença filial condicionante da solidão e deliquescência da velhinha...Há muitíssimo tempo que não oiço este drama e, subitamente, reanima-se este quadro na minha memória.Porque( tudo tem os seus porquês) ,depois de uma queda aparentemente de pouca importância, o meu corpo e depois o meu espírito, entraram num processo de desencorajamento para a dor, de cansaço para a luta, de desinvestimento na esperança..."no banco do jardim, uma velhinha..."
E foi então que surgiram os AMIGOS. Caloroso, reconfortante, luminoso, envolvente, foi-me proporcionado um "banco de jardim" que me colocou a galáxias de distância da velhinha do fado. Sendo época de Natal, como para um presépio de ESPERANÇA, eles trouxeram-me incenso e mirra mais do que simbólicos: vivos e actuantes na reabilitação das minhas forças ! Com eles e graças a eles tive umas verdadeiras FESTAS de Natal ! Todo o calor do mundo no reavivar de brasas esmorecidas...Cada grande toro de lenha de azinho que punhamos na lareira, cada nova vela que se acendia, cada nova luminária com que se envolvia um novo angulo da casa, era mais um sopro de bem-estar pelo qual eu não podia ter esperado... E houve Missa do Galo( há quantos anos ?), numa igreja envolta em nevoeiro, e houve ceia quentinha, no regresso da missa, e houve prendas...A que me coube é mesmo como o brinquedo, tradução tecnológica daquele que me cabia, era eu menina. Quase outra vez menina, pela força do carinho...
Deixaram de me contentar uns magros seis caracteres para escrever a palavra AMIGOS... E onde irei encontrar as letras suficientes para escrever GRATIDÃO ?
E foi então que surgiram os AMIGOS. Caloroso, reconfortante, luminoso, envolvente, foi-me proporcionado um "banco de jardim" que me colocou a galáxias de distância da velhinha do fado. Sendo época de Natal, como para um presépio de ESPERANÇA, eles trouxeram-me incenso e mirra mais do que simbólicos: vivos e actuantes na reabilitação das minhas forças ! Com eles e graças a eles tive umas verdadeiras FESTAS de Natal ! Todo o calor do mundo no reavivar de brasas esmorecidas...Cada grande toro de lenha de azinho que punhamos na lareira, cada nova vela que se acendia, cada nova luminária com que se envolvia um novo angulo da casa, era mais um sopro de bem-estar pelo qual eu não podia ter esperado... E houve Missa do Galo( há quantos anos ?), numa igreja envolta em nevoeiro, e houve ceia quentinha, no regresso da missa, e houve prendas...A que me coube é mesmo como o brinquedo, tradução tecnológica daquele que me cabia, era eu menina. Quase outra vez menina, pela força do carinho...
Deixaram de me contentar uns magros seis caracteres para escrever a palavra AMIGOS... E onde irei encontrar as letras suficientes para escrever GRATIDÃO ?
13 dezembro 2007
Passou hoje a haver um Tratado de Lisboa
Lembro TORGA . Hoje a grande notícia não fui eu...
Aqui,neste país e nesta hora.Aqui,junto dos meus, mortos ou vivos...
...ver esta maravilha: meu Pai a erguer uma videira, como uma Mãe que faz a trança à filha...
O que me foi dado ver na televisão, esta manhã, foi uma Lisboa lindíssima,iluminada com a sua mais deslumbrante luz, muito branca nas pedras antiquíssimas debruadas de azul aqui e ali, pela mão de alguém que mais pareceu realmente amar muito esta cidade, tanto, tanto, que só pensou em mostrá-la bonita às visitas que vieram de todas as partes... Vinham pela política, pelas conveniências, pelas "tricas", por tudo, menos pelo Amor, mas era vê-las saírem dos respectivos carros e desanuviarem-se-lhes os semblantes que traziam fechados ou distraídos... Alguém arranjara Lisboa, ali,encostada ao Tejo, "COMO UMA MÃE QUE FAZ A TRANÇA À FILHA" e era ver os sorrisos e os braços abertos, em gesto de abraçar, de toda aquela gente que, de cores transparentes , resplandecentes, apenas sabia de ouvir falar,certamente, através de espessas paredes de cinzento...
Hoje a Lisboa que eu amo estava ali. E a grande notícia foi ela, deixando-se amar...
Quando destas partes se partiu um dia, muita coisa veio a tornar-se diferente "URBI ET ORBI"!
Aqui,neste país e nesta hora.Aqui,junto dos meus, mortos ou vivos...
...ver esta maravilha: meu Pai a erguer uma videira, como uma Mãe que faz a trança à filha...
O que me foi dado ver na televisão, esta manhã, foi uma Lisboa lindíssima,iluminada com a sua mais deslumbrante luz, muito branca nas pedras antiquíssimas debruadas de azul aqui e ali, pela mão de alguém que mais pareceu realmente amar muito esta cidade, tanto, tanto, que só pensou em mostrá-la bonita às visitas que vieram de todas as partes... Vinham pela política, pelas conveniências, pelas "tricas", por tudo, menos pelo Amor, mas era vê-las saírem dos respectivos carros e desanuviarem-se-lhes os semblantes que traziam fechados ou distraídos... Alguém arranjara Lisboa, ali,encostada ao Tejo, "COMO UMA MÃE QUE FAZ A TRANÇA À FILHA" e era ver os sorrisos e os braços abertos, em gesto de abraçar, de toda aquela gente que, de cores transparentes , resplandecentes, apenas sabia de ouvir falar,certamente, através de espessas paredes de cinzento...
Hoje a Lisboa que eu amo estava ali. E a grande notícia foi ela, deixando-se amar...
Quando destas partes se partiu um dia, muita coisa veio a tornar-se diferente "URBI ET ORBI"!
06 dezembro 2007
ISAÍAS
Deixe o ímpio os seus caminhos e o pecador os seus projectos;volte-se para o Senhor,que terá piedade dele,para o nosso Deus que é generoso a perdoar.
"Os meus planos não são os vossos planos,nem os vossos caminhos são os meus caminhos_ diz o Senhor_;quanto os céus estão elevados acima da terra,tanto se acham elevados os meus caminhos acima dos vossos e os meus planos acima dos vossos planos"
Gosto de ficar a pensar quanto sou pretensiosa quando imagino que Deus
está a fazer qualquer tipo de "avaliação" com bitolas iguais às minhas...
O nosso sistema de contas,pesos e medidas criámo-lo nós de acordo com as
nossas dimensões.Não sou capaz de imaginar,à dimensão divina, o quanto,
seja do que for...
"Os meus planos não são os vossos planos,nem os vossos caminhos são os meus caminhos_ diz o Senhor_;quanto os céus estão elevados acima da terra,tanto se acham elevados os meus caminhos acima dos vossos e os meus planos acima dos vossos planos"
Gosto de ficar a pensar quanto sou pretensiosa quando imagino que Deus
está a fazer qualquer tipo de "avaliação" com bitolas iguais às minhas...
O nosso sistema de contas,pesos e medidas criámo-lo nós de acordo com as
nossas dimensões.Não sou capaz de imaginar,à dimensão divina, o quanto,
seja do que for...
02 dezembro 2007
Este mês de Novembro, se algures há um contador do tempo das nossas vidas, devia-me ser descontado nos totais de algum dia, porque na verdade tenho a sensação de que o não vivi, ou de que ele não me permitiu que o vivesse. Passaram os Santos e os Fiéis Defuntos, partiu a Côrte para o Brasil, morreu Fernando Pesssoa, e eu, agarrada a uma tradução que prometi a alguém, fui deixando escorrer os dias a pensar em coisas que nunca tinham entrado na intimidade das minhas ocupações e que, por isso mesmo, chegaram a alienar-me completamente, pela novidade, pela variedade, e pela alteridade...Numa espécie de assombrações do meu mundo a fazer-se presente, surgiam-me, pelas tardes ,Camões a divertir-se em voltas de redondilha menor, D. Manuel deSousa Coutinho a pegar fogo à sua casa, e a Tlebes em toda a sua pujança a radicar-se por entre quase inofensivos grafitti, tão significantes quanto um código o pode ser.
E foi por entre tudo isto que tomei conhecimento daquilo que, de repelão, me fez pôr de novo os pés em terra.E não foi o renascer das quase-cinzas do acordo ortográfico luso-brasileiro...Foi algo que tem a ver com a Língua,sim senhor, a Língua que o Poeta dizia ser a nossa Pátria. Ergue-se BOLONHA,quando muitos de nós andávamos distraídos, e agora os alunos entram nos Mestrados e eis que as aulas são dadas em INGLÊS! E os testes são escritos em inglês. Os comentários preocupadíssimos que tenho ouvido de alunos,por exemplo, de Economia !!! Quase todos sabem algum inglês mas não têm desembaraço naquela área de vocabulário e muito menos escrito... Bem!...Como foi que tudo isto e muito mais foi acontecendo ?
Creio que nunca me pareceu tão bemvindo o DIA da RESTAURAÇÃO da INDEPENDÊNCIA,um 1º de Dezembro cinzento e meio envergonhado,com as pessoas do costume a fazerem e dizerem as coisas do costume, mas comigo a ver as coisas já não com os meus olhos do costume...
E foi por entre tudo isto que tomei conhecimento daquilo que, de repelão, me fez pôr de novo os pés em terra.E não foi o renascer das quase-cinzas do acordo ortográfico luso-brasileiro...Foi algo que tem a ver com a Língua,sim senhor, a Língua que o Poeta dizia ser a nossa Pátria. Ergue-se BOLONHA,quando muitos de nós andávamos distraídos, e agora os alunos entram nos Mestrados e eis que as aulas são dadas em INGLÊS! E os testes são escritos em inglês. Os comentários preocupadíssimos que tenho ouvido de alunos,por exemplo, de Economia !!! Quase todos sabem algum inglês mas não têm desembaraço naquela área de vocabulário e muito menos escrito... Bem!...Como foi que tudo isto e muito mais foi acontecendo ?
Creio que nunca me pareceu tão bemvindo o DIA da RESTAURAÇÃO da INDEPENDÊNCIA,um 1º de Dezembro cinzento e meio envergonhado,com as pessoas do costume a fazerem e dizerem as coisas do costume, mas comigo a ver as coisas já não com os meus olhos do costume...
24 novembro 2007
Proximo ADVENTO
Eis senão quando...apercebi-me de que o mês de Novembro tinha voado. O domingo do próximo fim-de-semana já será o primeiro domingo do Advento. E,havendo para mim partes do ano em que o gosto de viver se me torna mais intenso, o Advento é uma delas. A primeira. A outra, a segunda, é a que abrange as doçuras dos fins de tarde de Outubro e os nevoeiros sobre os velhos plátanos dourados de Novembro. Não me sinto harmoniosamente viva em mais nenhuma outra época do ano. Todo o ADVENTO me permite ainda hoje esperar. Aquelas brincadeiras de adolescentes dos ela ainda acredita no PAI NATAL ! ,assentar-me-iam como uma luva,porque SIM, acredito no sonho, acredito com toda a força da minha alma nas imensas perspectivas que se abrem para alguma vez...acredito na FÉ( isto é,será?,um pleonasmo). E cheiro, saboreio, quase apalpo este fluido de mistério que a minha sensibilidade capta nesta época.Não tem nada que ver com esse turbilhão das cidades, com essa loucura de trocar presentes ao desafio,com essas ostentações de roupa nova, com essa afronta das comezainas... É tudo entre mim e mim mesma.Será porque tenho de Deus muito, dentro de mim.?E há cânticos e encantamentos inesperados...E os silêncios parece que nos roçam pela pele com farrapos de lembranças...E às vezes surge um amigo que vem dos longes de não nos vermos nunca e iluminam-se uma data de mais esperanças...No friosinho entre murmúrios duma ida à MISSA do GALO começa o fim do encantamento. Quando vem o Dia de Natal é como noutros tempos entrar nos luxos BARROCOS.
Vou então acender as quatro velas, aligeirar tudo o que me é obrigatório,libertar-me para este mistério e vivê-lo com todas as minhas forças !
Vou então acender as quatro velas, aligeirar tudo o que me é obrigatório,libertar-me para este mistério e vivê-lo com todas as minhas forças !
11 novembro 2007
Guiness book
Hoje foi São Martinho.
Nem castanhas,
Nem vinho,
Nem meia capa do Santo,
Nas formas habituais...
Já não há frio, parece,
porque os verões,agora,
são globais...
Quem lembra essas coisas esquece
e não entra mais
na História..
Lenda mesmo é o meu espanto:
Um São Martinho em GUINESS ? ? ?...
Nem castanhas,
Nem vinho,
Nem meia capa do Santo,
Nas formas habituais...
Já não há frio, parece,
porque os verões,agora,
são globais...
Quem lembra essas coisas esquece
e não entra mais
na História..
Lenda mesmo é o meu espanto:
Um São Martinho em GUINESS ? ? ?...
04 novembro 2007
Do jornal agora
Mais uma vez feriados encostados a fins de semana e alongados com "pontes"... Os portugueses, em Portugal, sempre tiveram pouca consciência de que, a produzir, a trabalhar cada um naquilo que melhor sabe fazer, engrandeceriam o seu país sem precisarem de grandes esfalfamentos.O sonho de uma vida de reformados ricos sempre pairou nas ambições de quaisquer trabalhadores que conheci ou de que ouvi falar. A juntar a este sonho, surgiu, creio que por volta dos anos sessenta, a verdadeira fixação dos portugueses pelas idas à praia mais ou menos durante todo o ano, mesmo que faça algum frio e mesmo que "a praia" não exista ali ao virar da esquina. A Serra, o pinhal, o "campo" deixaram de ser atractivos, vá-se lá saber porquê...
E esta atracção por tais padrões de vida, não fazendo muito alarido, acabou por influenciar um sem número de coisas da nossa vida quotidiana, descaracterizando um modo português de viver, tornando-o híbrido, imitativo e despesista.
Tudo isto me ocorreu a partir desta extraordinária maratona que consiste em ler os jornais de fim de semana. São quilos e quilos de papel, repositórios de um sem número de separatas, umas mais publicitárias que outras, tentando todas captivar a atenção do leitor que, provavelmente, já não se sentirá tão atraído pelas notícias, uma vez que elas já nem sequer desenvolvem as que a TV vai debitando durante a semana, provenientes que são, todas das mesmas agências noticiosas . No meio de cada feriado e ponte que proliferam na nossa terra, é sem dúvida uma árdua tarefa esta de ler os jornais. E o tempo escorre veloz, mesmo que só façamos leituras oblíquas para "escolher" o que ali vem que nos interessa ou convem ler. Lá se vão algumas páginas de um bom livro que teríamos podido estar a ler, não fosse o desejarmos ficar ao corrente do que de mais actual vai por aí, pelos arredores das nossas frustrações.
E como parece que o que vem nos jornais é que importa, "pensaram"as cabeças pensantes( que decidem o que, de futuro, todo o português deve saber), que há que dar lições de jornalismo aos jovens que, na escola, ainda mal sabem distinguir a prosa da poesia...
Ensina-se-lhes o quê,como,onde e porquê e depois dá-se-lhes, como trabalhos de casa ou testes para nota, a fabricação de notícias com obediência a todas as regras adjacentes.
...
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E esta atracção por tais padrões de vida, não fazendo muito alarido, acabou por influenciar um sem número de coisas da nossa vida quotidiana, descaracterizando um modo português de viver, tornando-o híbrido, imitativo e despesista.
Tudo isto me ocorreu a partir desta extraordinária maratona que consiste em ler os jornais de fim de semana. São quilos e quilos de papel, repositórios de um sem número de separatas, umas mais publicitárias que outras, tentando todas captivar a atenção do leitor que, provavelmente, já não se sentirá tão atraído pelas notícias, uma vez que elas já nem sequer desenvolvem as que a TV vai debitando durante a semana, provenientes que são, todas das mesmas agências noticiosas . No meio de cada feriado e ponte que proliferam na nossa terra, é sem dúvida uma árdua tarefa esta de ler os jornais. E o tempo escorre veloz, mesmo que só façamos leituras oblíquas para "escolher" o que ali vem que nos interessa ou convem ler. Lá se vão algumas páginas de um bom livro que teríamos podido estar a ler, não fosse o desejarmos ficar ao corrente do que de mais actual vai por aí, pelos arredores das nossas frustrações.
E como parece que o que vem nos jornais é que importa, "pensaram"as cabeças pensantes( que decidem o que, de futuro, todo o português deve saber), que há que dar lições de jornalismo aos jovens que, na escola, ainda mal sabem distinguir a prosa da poesia...
Ensina-se-lhes o quê,como,onde e porquê e depois dá-se-lhes, como trabalhos de casa ou testes para nota, a fabricação de notícias com obediência a todas as regras adjacentes.
É conhecida a relutância que os nossos rapazes e raparigas têm pela leitura de qualquer livro e então estimulam-se na exploração da literatura jornalística. Daqui a distinguirem um "Editorial" de uma "Crónica" e a analisarem uma" Entrevista"vai toda uma panóplia de conhecimentos que eu não sei quantos deles irão mais tarde sequer recordar, quanto mais utilizar...
E não posso deixar de perguntar-me : Que haverá de inconveniente nos nossos maravilhosos escritores? Esta cultura de feriados e pontes estará também a roubar-nos o tempo para eles até que os vamos deixando cair?...
...
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02 novembro 2007
01 novembro 2007
26 outubro 2007
23 outubro 2007
Fait-divers
Às vezes o dia a dia da vida numa grande cidade traz- nos os chamados faits-divers que nem sempre são trágicos na sua superfície visível e que até nos podem fazer sorrir, por muito desencantados que tenhamos saído nesse dia. Este, que me foi relatado "na hora", até permite construir uma pequena fábula dos tumultuosos tempos que estamos vivendo na cidade.
Sete e meia da manhã, lusco-fusco, e um autocarro cheio com as pessoas de profissões "menores", que são as que se movimentam de autocarro a horas destas. Num dos bancos perto da porta senta-se uma jovem vistosa de roupas , adornos e penteados .Há agora uma espécie de tranças feitas de lã, fininhas e coloridas, que as raparigas introduzem nos penteados como se fossem extensões e as enfeitam, caindo sobre um ou os dois ombros ,ligeiramente mais longas do que o cabelo. Pois a nossa personagem tinha também dessas trancinhas. O autocarro pára e,correndo como loucos, dos bancos lá de trás, saltam dois rapazes para a porta, um deles atira as mãos aos ouros da rapariguinha, ela leva as mãos ao pescoço e grita ... e eles já correm, voando rápido, rua fora...Tudo cronometrado a fracções de segundo...No meio do borborinho dentro do autocarro, " ai o ouro!" "e para que é que trazem aquilo tudo ao pescoço?" "é p'ra aprenderem..." ,ouve-se meio sumida a voz da jovem beleza assaltada: "levaram-me a minha rica trança !"... MUCH A DO FOR NOTHING!!!
Sete e meia da manhã, lusco-fusco, e um autocarro cheio com as pessoas de profissões "menores", que são as que se movimentam de autocarro a horas destas. Num dos bancos perto da porta senta-se uma jovem vistosa de roupas , adornos e penteados .Há agora uma espécie de tranças feitas de lã, fininhas e coloridas, que as raparigas introduzem nos penteados como se fossem extensões e as enfeitam, caindo sobre um ou os dois ombros ,ligeiramente mais longas do que o cabelo. Pois a nossa personagem tinha também dessas trancinhas. O autocarro pára e,correndo como loucos, dos bancos lá de trás, saltam dois rapazes para a porta, um deles atira as mãos aos ouros da rapariguinha, ela leva as mãos ao pescoço e grita ... e eles já correm, voando rápido, rua fora...Tudo cronometrado a fracções de segundo...No meio do borborinho dentro do autocarro, " ai o ouro!" "e para que é que trazem aquilo tudo ao pescoço?" "é p'ra aprenderem..." ,ouve-se meio sumida a voz da jovem beleza assaltada: "levaram-me a minha rica trança !"... MUCH A DO FOR NOTHING!!!
20 outubro 2007
Ortega y Gasset-de La Rebelion de las Masas
HABLAR es una operación mucho más ilusoria de lo que suele creerse, por supuesto, como casi todo lo que el hombre hace. Definimos el lenguage como el medio que nos sirve para manifestar nuestros pensamientos... ... Lo de menos es que el lenguage sirve también para ocultar nuestros pensamientos, para mentir. La mentira seria impossible si el hablar primário y normal no fuese sincero. La moneda falsa circula sostenida por la moneda sana. A postre, el engaño resulta ser un humilde parásito de la ingenuidad... ... Sendo al hombre impossible entenderse con sus semejantes, estando condenado a radical soledad, se extende en esfuerzos para llegar al prójimo. De estos esfuerzos es el lenguage quien consigue a veces declarar con mayor aproximación algunas de las cosas que nos pasan dentro. Nada más.
Cuando el hombre se pone a hablar, lo hace porque cree que va a poder decir cuanto piensa. Pues bien: esto es lo ilusorio. El lenguage no da para tanto. Dice poco más o menos una parte de lo que pensamos y pone una valla infranqueable a la transfusion del resto. Sirve bastante bien para enunciados y pruebas matematicas; ya al hablar de física empieza a hacerse equívoco y insuficiente. Pero conforme la conversación se ocupa de temas más importantes que ésos, más humanos, más reales, va aumentando su imprecision, .su torpeza y confusionismo. Dociles al prejuicio inveterado de que hablando nos entendiemos, decimos y escuchamos tan de buena fe, que acabamos muchas veces por malentendernos mucho más que si, mudos, procurásemos adivinarnos... ...En todo decir hay un emisor y un receptor, los cuales no son indiferentes al significado de las palabras y esto varia cuando aquelles varian ( duo si idem dicunt non est idem)... ... Se ha abusado de la palabra y por eso ha caído en desprestígio.... ...hablar a todo el mundo y a nadie... ...yo detesto...y sufro cuando no sé muy concretamente a quién hablo...
Cuando el hombre se pone a hablar, lo hace porque cree que va a poder decir cuanto piensa. Pues bien: esto es lo ilusorio. El lenguage no da para tanto. Dice poco más o menos una parte de lo que pensamos y pone una valla infranqueable a la transfusion del resto. Sirve bastante bien para enunciados y pruebas matematicas; ya al hablar de física empieza a hacerse equívoco y insuficiente. Pero conforme la conversación se ocupa de temas más importantes que ésos, más humanos, más reales, va aumentando su imprecision, .su torpeza y confusionismo. Dociles al prejuicio inveterado de que hablando nos entendiemos, decimos y escuchamos tan de buena fe, que acabamos muchas veces por malentendernos mucho más que si, mudos, procurásemos adivinarnos... ...En todo decir hay un emisor y un receptor, los cuales no son indiferentes al significado de las palabras y esto varia cuando aquelles varian ( duo si idem dicunt non est idem)... ... Se ha abusado de la palabra y por eso ha caído en desprestígio.... ...hablar a todo el mundo y a nadie... ...yo detesto...y sufro cuando no sé muy concretamente a quién hablo...
18 outubro 2007
A Palavra
Fazer um poema
não é só escrevê-lo
nem senti-lo.
Não é aquilo que pensam
de dizer-se o que nos vai por dentro,
de guardar no papel
um segredo
se não temos coragem de guardá-lo.
Nem tão pouco é vontade de exibir-se
na esperança de que alguém,
lendo-o, diga sentir-se
como nosso irmão,
tal a capacidade de comunicação !
Não ! Fazer um poema
pode ser mea culpa,
às vezes convulsão de sentimentos
entre alegrias e penas
e alguns arrependimentos...
Mas sempre, sim,principalmente,
uma imensa volúpia
de agarrar as palavras
e domá-las,
desdobrá-las
recriá-las,
pô-las contra a parede
ali , à prova,
de terem, sim ou não,
força bastante,
música,
mansidão,
rigor ou colorido
para dizerem, só e justamente,
aquilo que é de nós parte integrante,
sem probabilidades
de outro sentido...
Mística e transcendente, à palavra
é a mão que obedece docilmente
e o gesto que desliza no papel...
e ,se nasce o poema,
é misteriosamente,
e misteriosamente...
não é só escrevê-lo
nem senti-lo.
Não é aquilo que pensam
de dizer-se o que nos vai por dentro,
de guardar no papel
um segredo
se não temos coragem de guardá-lo.
Nem tão pouco é vontade de exibir-se
na esperança de que alguém,
lendo-o, diga sentir-se
como nosso irmão,
tal a capacidade de comunicação !
Não ! Fazer um poema
pode ser mea culpa,
às vezes convulsão de sentimentos
entre alegrias e penas
e alguns arrependimentos...
Mas sempre, sim,principalmente,
uma imensa volúpia
de agarrar as palavras
e domá-las,
desdobrá-las
recriá-las,
pô-las contra a parede
ali , à prova,
de terem, sim ou não,
força bastante,
música,
mansidão,
rigor ou colorido
para dizerem, só e justamente,
aquilo que é de nós parte integrante,
sem probabilidades
de outro sentido...
Mística e transcendente, à palavra
é a mão que obedece docilmente
e o gesto que desliza no papel...
e ,se nasce o poema,
é misteriosamente,
e misteriosamente...
14 outubro 2007
Chorar em Fátima
Não é a mesma lágrima
de sempre !
Não é o mesmo sal,
a espessura, e o gosto...
Brota silenciosa,
devagar,
e começa a escorrer
por dentro da emoção,
a inundar-nos não o peito : a alma !
Não é a mesma lágrima.
isso não !
É um grito calado
a morrer-nos na boca...
E o amargo sabor
das dores do Mundo, todas...
Ali e só ali é que entendemos:
somos mesmo pequenos
e sem espaço
para um pequeno grão
sequer
de santidade...
!
de sempre !
Não é o mesmo sal,
a espessura, e o gosto...
Brota silenciosa,
devagar,
e começa a escorrer
por dentro da emoção,
a inundar-nos não o peito : a alma !
Não é a mesma lágrima.
isso não !
É um grito calado
a morrer-nos na boca...
E o amargo sabor
das dores do Mundo, todas...
Ali e só ali é que entendemos:
somos mesmo pequenos
e sem espaço
para um pequeno grão
sequer
de santidade...
!
09 outubro 2007
CARDAL _ a ponte
É sempre bom a mão amiga que se nos estende. Às vezes precisamos dela deseperadamente .
Nisto do dar e precisar, diz-se que quem precisa, precisa sempre e quem dá, não pode dar sempre. Se esta tão sábia sentença é verdadeira em termos de bens materiais,já não é tanto assim em termos da amizade, com o seu caudal de bens inerentes ( previsão,subtileza, desprendimento, paciência, aceitação, etc.,etc.) Sei, por experiência própria, que a mão amiga, a amiga mesmo, está sempre lá, onde eu a sei.Não pode,é claro, adivinhar as minhas situações de carência-desespero, mas algumas vezes houve já em que as previu e se me estendeu tão oportunamente que eu pensei que havia ali "feitiço"...
Estamos pois num aproveitamento de três dias de férias numa daquelas pontes que reis e santos tanta vez oferecem ao povo quando a data da sua celebração vai cair a jeito de desdobrar os dias chamados inúteis da semana. Desta vez, por acaso, até se celebrava o desaparecimento dos reis, precedido de acções nada dignas de se celebrar. Bem; mas foi feriado bom, brilhante, morno, sem vento, lindo ! E a casa da Teresa e do João estava lá, de braços abertos, à nossa espera, assim uma espécie de ilha de bem-estar e paz no meio de um mundo ruidoso e agressivo de que,na ocasião, estávamos cansados.Janelas abertas sobre o vale em cuja concha cintila o límpido azul das águas da albufeira fragmentada em vários braços reentrantes , envolvência de verdes em plena pujança, mesmo sendo outono, pios, grasnados, latidos longínquos, a enrolarem-se no marulho das ramagens,descida lenta do sol a desdobrar-se em incontáveis tons de rosa e lilás...e, da nossa parte, uma tão premente vontade de não mexer nem as pálpebras, não vá quebrar-se o encanto ! Uma premente necessidade de agradecer a Deus esta oferta inesperada de um mundo límpido que podemos guardar na alma...
Esperar silenciosamente
pelas coisas
sossegadamente...
Sabe de outra maneira
e é diferente
aquele acontecer
que não nos chega
atabalhoadamente...
E sentir que afinal algo espera por nós indefinidamente, indefinidamente...
Nisto do dar e precisar, diz-se que quem precisa, precisa sempre e quem dá, não pode dar sempre. Se esta tão sábia sentença é verdadeira em termos de bens materiais,já não é tanto assim em termos da amizade, com o seu caudal de bens inerentes ( previsão,subtileza, desprendimento, paciência, aceitação, etc.,etc.) Sei, por experiência própria, que a mão amiga, a amiga mesmo, está sempre lá, onde eu a sei.Não pode,é claro, adivinhar as minhas situações de carência-desespero, mas algumas vezes houve já em que as previu e se me estendeu tão oportunamente que eu pensei que havia ali "feitiço"...
Estamos pois num aproveitamento de três dias de férias numa daquelas pontes que reis e santos tanta vez oferecem ao povo quando a data da sua celebração vai cair a jeito de desdobrar os dias chamados inúteis da semana. Desta vez, por acaso, até se celebrava o desaparecimento dos reis, precedido de acções nada dignas de se celebrar. Bem; mas foi feriado bom, brilhante, morno, sem vento, lindo ! E a casa da Teresa e do João estava lá, de braços abertos, à nossa espera, assim uma espécie de ilha de bem-estar e paz no meio de um mundo ruidoso e agressivo de que,na ocasião, estávamos cansados.Janelas abertas sobre o vale em cuja concha cintila o límpido azul das águas da albufeira fragmentada em vários braços reentrantes , envolvência de verdes em plena pujança, mesmo sendo outono, pios, grasnados, latidos longínquos, a enrolarem-se no marulho das ramagens,descida lenta do sol a desdobrar-se em incontáveis tons de rosa e lilás...e, da nossa parte, uma tão premente vontade de não mexer nem as pálpebras, não vá quebrar-se o encanto ! Uma premente necessidade de agradecer a Deus esta oferta inesperada de um mundo límpido que podemos guardar na alma...
Esperar silenciosamente
pelas coisas
sossegadamente...
Sabe de outra maneira
e é diferente
aquele acontecer
que não nos chega
atabalhoadamente...
E sentir que afinal algo espera por nós indefinidamente, indefinidamente...
08 outubro 2007
Dia de S. Francisco de Assis
IL POVERELLO !!!
"Onde houver ódio, que eu leve o AMOR
Onde houver ofensa, que eu leve o PERDÃO
Onde houver discórdia, que eu leve a UNIÃO
Onde houver dúvida, que eu leve a FÉ
Onde houver erro, que eu leve a VERDADE
Onde houver desespero, que eu leve a ESPERANÇA
Onde houver tristeza, que eu leve a ALEGRIA
Onde houver trevas, que eu leve a LUZ ."
"Fazei, Senhor, que eu procure mais consolar do que ser consolado, compreender do que ser compreendido, amar do que ser amado!"
"Onde houver ódio, que eu leve o AMOR
Onde houver ofensa, que eu leve o PERDÃO
Onde houver discórdia, que eu leve a UNIÃO
Onde houver dúvida, que eu leve a FÉ
Onde houver erro, que eu leve a VERDADE
Onde houver desespero, que eu leve a ESPERANÇA
Onde houver tristeza, que eu leve a ALEGRIA
Onde houver trevas, que eu leve a LUZ ."
"Fazei, Senhor, que eu procure mais consolar do que ser consolado, compreender do que ser compreendido, amar do que ser amado!"
01 outubro 2007
O Dia da Música
De la musique avant toute chose...É celebrado hoje o DIA daMÚSICA e logo no primeiro dia do mês no qual eu encontro todas as conexões com suavidade,doçura,apaziguamento, serenidade !
Nada daqueles entorpecimentos da geração que VERLAINE marcou com esta sua lei primeira da arte poética, mas um "estar bem" no mundo agora malgré tout... Parece-me de total inutilidade explicar aqui qual é a minha música uma vez que a incluo neste panorama do meu Outubro. Tive a sorte de me terem oferecido agora dois CDs de géneros bem distintos mas perfeitamente enquadráveis nesta tessitura das minhas horas de silêncios vitais : 14 valsas de Chopin interpretadas pela Mª João Pires
e a Sinfonia nº 2 de Rachmaninov numa interpretação do maestro Temirkanov que faz com a Royal Philharmonic Orchestra absolutamente um festival. Já quase tanto, direi, como o Karajan quando pegava fosse em que orquestra fosse. Não se admirará ninguém de que uma pessoa com a minha idade não se entusiasme com os be- bop e todas as qualidades de pop com cujos barulhos a gente nova se embala, ou antes, se sacode. É a energia estuante que encerram nos seus corpos que precisa daquela válvula de escape . Por isso também hoje devem os jovens festejar a sua música. Lá chegará um dia em que também festejarão a minha...E como me irão então compreender!!!
Nada daqueles entorpecimentos da geração que VERLAINE marcou com esta sua lei primeira da arte poética, mas um "estar bem" no mundo agora malgré tout... Parece-me de total inutilidade explicar aqui qual é a minha música uma vez que a incluo neste panorama do meu Outubro. Tive a sorte de me terem oferecido agora dois CDs de géneros bem distintos mas perfeitamente enquadráveis nesta tessitura das minhas horas de silêncios vitais : 14 valsas de Chopin interpretadas pela Mª João Pires
e a Sinfonia nº 2 de Rachmaninov numa interpretação do maestro Temirkanov que faz com a Royal Philharmonic Orchestra absolutamente um festival. Já quase tanto, direi, como o Karajan quando pegava fosse em que orquestra fosse. Não se admirará ninguém de que uma pessoa com a minha idade não se entusiasme com os be- bop e todas as qualidades de pop com cujos barulhos a gente nova se embala, ou antes, se sacode. É a energia estuante que encerram nos seus corpos que precisa daquela válvula de escape . Por isso também hoje devem os jovens festejar a sua música. Lá chegará um dia em que também festejarão a minha...E como me irão então compreender!!!28 setembro 2007
Passagem de Modelos
Chega o Inverno
e acolho-me no quente
das lãs
que quero fofas, levezinhas...
Sob os calores do Verão
é nas sedas, nos linhos
deslizantes
que a minha pele
encontra o arrepio
que a brisa empresta
às manhãs refrescantes...
Na minha Moda
o que é mais importante
é toda a contextura dos tecidos
e não a arquitectura dos vestidos !
É orgânico, é físico,
é carne e é sentidos !...
Frivolidade apenas aparente
na Moda, o inquietante
é que nos cobre o nu
mas ficamos despidos ...
e acolho-me no quente
das lãs
que quero fofas, levezinhas...
Sob os calores do Verão
é nas sedas, nos linhos
deslizantes
que a minha pele
encontra o arrepio
que a brisa empresta
às manhãs refrescantes...
Na minha Moda
o que é mais importante
é toda a contextura dos tecidos
e não a arquitectura dos vestidos !
É orgânico, é físico,
é carne e é sentidos !...
Frivolidade apenas aparente
na Moda, o inquietante
é que nos cobre o nu
mas ficamos despidos ...
20 setembro 2007
LEITURA
Uma das realidades com que se batem os pr ofessores de Português neste tempo em que vivemos é que os alunos não gostam, não querem,não se fixam a LER.
Portanto, para eles, ler um livro completo é algo de impensável. Claro que estou cansada de procurar fazer um levantamento das razões por que tal fenómeno se gerou e se fixou, mas o conhecê-las não me ajudou em nada para a descoberta da melhor maneira de as combater. E então o que me espanta é a ingenuidade ( ou será apenas hipocrisia ? ) com que nos programas oficiais surge uma “coisa” chamada CONTRATO DE LEITURA pela qual os professores vão procurar comprometer os seus alunos a lerem, ao longo de um prazo de tempo contratado , um ou mais livros que ou eles próprios indicam, ou vêm já sugeridos no manual. Será uma tentativa e até podia vir a colher alguns frutos...Mas, para meu grande pasmo, os livros sugeridos são muitos de autores estrangeiros nem sempre representativos de alguma coisa útil e com traduções nem sempre exemplares. Há sugestões, por exemplo, para HARRY POTTER...
E é perante um panorama destes que, quase em simultâneo, nos aparecem duas notícias felizes no âmbito da Literatura Portuguesa..No meu tempo de escola lia-se AQUILINO RIBEIRO e na obra vastíssima os romances prendiam , da primeira à última página. Era eu que já gostava ou seria mesmo o seu modelo que também me estimulava para a utilização de uma língua escrita especial e diferente da de todos os outros escritores que eu conhecia ? Bem, com uma enorme polémica à mistura, as ossadas de Aquilino vieram agora tomar lugar no Panteão Nacional. Temos motivo para nos orgulharmos porque estão pensando em gloriar um expoente da língua nossa tão amada trabalhada com tal mérito que até não teria sido demais se o seu autor tivesse recebido um Prémio Nobel.
A outra notícia vem da Alemanha onde ANTÓNIO LOBO ANTUNES esteve presente num Festival de Literatura em Berlim onde foi apresentado como “ o maior escritor português da actualidade “ e foi longamente aplaudido por uma enorme assistência. Num post que escrevi quando lhe foi atribuido o Prémio Camões, no mês de Março, podem ler-se as razões do meu contentamento por esta notícia de agora.
É minha obrigação falar de tudo isto aos meus alunos. Conseguirei que desistam de ir procurar onde se vendem os famosos resumos que proliferam como cogumelos nas sombras das grandes árvores ?
Portanto, para eles, ler um livro completo é algo de impensável. Claro que estou cansada de procurar fazer um levantamento das razões por que tal fenómeno se gerou e se fixou, mas o conhecê-las não me ajudou em nada para a descoberta da melhor maneira de as combater. E então o que me espanta é a ingenuidade ( ou será apenas hipocrisia ? ) com que nos programas oficiais surge uma “coisa” chamada CONTRATO DE LEITURA pela qual os professores vão procurar comprometer os seus alunos a lerem, ao longo de um prazo de tempo contratado , um ou mais livros que ou eles próprios indicam, ou vêm já sugeridos no manual. Será uma tentativa e até podia vir a colher alguns frutos...Mas, para meu grande pasmo, os livros sugeridos são muitos de autores estrangeiros nem sempre representativos de alguma coisa útil e com traduções nem sempre exemplares. Há sugestões, por exemplo, para HARRY POTTER...
E é perante um panorama destes que, quase em simultâneo, nos aparecem duas notícias felizes no âmbito da Literatura Portuguesa..No meu tempo de escola lia-se AQUILINO RIBEIRO e na obra vastíssima os romances prendiam , da primeira à última página. Era eu que já gostava ou seria mesmo o seu modelo que também me estimulava para a utilização de uma língua escrita especial e diferente da de todos os outros escritores que eu conhecia ? Bem, com uma enorme polémica à mistura, as ossadas de Aquilino vieram agora tomar lugar no Panteão Nacional. Temos motivo para nos orgulharmos porque estão pensando em gloriar um expoente da língua nossa tão amada trabalhada com tal mérito que até não teria sido demais se o seu autor tivesse recebido um Prémio Nobel.
A outra notícia vem da Alemanha onde ANTÓNIO LOBO ANTUNES esteve presente num Festival de Literatura em Berlim onde foi apresentado como “ o maior escritor português da actualidade “ e foi longamente aplaudido por uma enorme assistência. Num post que escrevi quando lhe foi atribuido o Prémio Camões, no mês de Março, podem ler-se as razões do meu contentamento por esta notícia de agora.
É minha obrigação falar de tudo isto aos meus alunos. Conseguirei que desistam de ir procurar onde se vendem os famosos resumos que proliferam como cogumelos nas sombras das grandes árvores ?
14 setembro 2007
Um novo ano lectivo
...e aí estão eles ! Já vieram, como as andorinhas vêm anunciar a chegada da Primavera.Uns telefonam primeiro, outros vêm de surpresa, com um sorriso maroto e com o ar de quem vem apanhar-me em qualquer actividade misteriosa; mas há os que vêm com a Mãe ou porque vêm pela primeira vez, ou porque as Mães são senhoras simpáticas que passam todo o ano lectivo a falar-me pelo telefone( sempre na hora de jantar e sempre um pouco a correr) e aproveitam esta abertura para virem estar um pouco comigo. E trazem-me chocolates, flores, livros, perfumes, écharpes... Isto tudo acompanhado de uns olhares ansiosos fixados na minha cara, atentos à minha mínima reacção, porque eles sabem que eu reclamo sempre com este assunto dos presentes e, acham eles que, vindo das Mães, eu talvez me comporte... Claro que os adoro. Estes meninos ou rapazes e raparigas são o estímulo que à minha idade ainda vai sendo permitido. De muitos deles, já fui professora da Mãe e até da Avó...Mas vêm os da Paróquia ou outros a quem falaram de mim...São todos os meus meninos, mesmo quando já estão com um pé nas Faculdades. Luto ao lado deles uma luta cujas armas eu vou tendo que adaptar ou mesmo criar, consequente das suas fraquezas ,das suas capacidades e das peculiaridades dos professores que cada um tem, nas respectivas escolas. Usei a palavra "luto" porque, na verdade, a sequência escolar, nestas épocas de instabilidades várias, como ultimamente vem sendo, toma proporções de um verdadeiro combate no qual os jóvens se podem perder sem mesmo disso se darem conta. Para isso, eles sabem que contam comigo. Ensinar a amar é qualquer coisa que tem que ver com a alquimia ou então com o Divino.E eu pretendo ensiná-los a amar : a sua língua, a sua História, a sua literatura, os seus escritores...e todo aquele todo que é afinal a ALMA da sua Pátria. Assim Deus me ajude ! VAMOS COMEÇAR !
09 setembro 2007
Porquê um blog ?
Que quero eu com este blog ?É apenas um exercício de escrita? Pressupõe este um arrumar de ideias? Ou é antes um arrecadar de ideias, através de um exercício de escrita? Não será antes um substituto daquele interlocutor ou daquela companheira “de route” que tanta vez me falta para só falar, falar para dizer coisas, falar para me ouvir sobre coisas...?
Fui educada em discrição, poucas palavras, ausência de palavras “pequeninas”, que é o nome que eu dou às palavras mimosas, de mimo mesmo. Trouxe portanto para a vida prática um vocabulário seco, estrito que depois fui aprendendo a enriquecer com as belas adjectivações , metáforas e ironias dos meus autores estudados, preferidos, alguns. E , nesta espécie de autodidatismo, comecei, muito novinha a impressionar-me muito , nas leituras do Novo Testamento, com a dureza das falas de JESUS. Há certas pasagens em que,à luz da educação que recebi, Ele chega a tocar as raias da má educação, na forma como fala à MÃE ou aos Pais. E como isso contrasta com os diminutivos amorosos que utilizam os autores das variadas Epístolas para se dirigirem aos pagãos que queriam cativar ! Creio que as contingências da maioria das traduções que nos vieram ter às mãos têm muito a ver com isso, mas será impossível, no entanto, deixarmos de ouvir Jesus dirigir-se à MÃE usando o vocativo “mulher”, tal como o usa para chamar a prostituta prestes a ser lapidada, ou a pobre doente que o persegue para que a cure.Diz-nos o Evangelho que Nossa Senhora via crescer o filho “em graça e sabedoria” e “Tudo guardava no seu coração”. Também ensinou assim as mulheres a erguerem nos seus corações os mais secretos templos de amor não exteriorizado...
E por aqui comecei hoje, na sequência das leituras da missa em que, por muito que as homilías quisessem adoçar, para nós ficou nitidamente claro que Jesus nos exige ,muito
concretamente, o abandono radical de toda e qualquer fraqueza humana de coração, para podermos segui-lo.DIFÍCIL !!!
Tanto mais difícil para mim esta semana PORQUE : 1- recebi visitas e recados com provas de tanto gostarem de mim, que foi inevitável aquele calorzinho no peito, que vem do orgulho; 2 - vi um filme na TV ( coisa que não é de meus hábitos) de que muito gostei porque me veio fornecer provas de coisas que eu sozinha tinha equacionado e além disso era um notável trabalho de actores; 3- tendo recebido a notícia da morte do “GRANDE” Pavarotti não me foi possível furtar-me a um reviver de muitas coisas lindas a ele ligadas pela sua espantosa voz e evitar uma ou duas lagrimitas, talvez piegas, talvez! ; 4- dona de casa à maneira de minha Mãe, ainda organizo, com a insubstituível Valentina, umas limpezas anuais à minha casa, às quais eu chamo “grandes manobras” e que me permitem ,em cada ano, verificar de quanta coisa inútil estamos nós rodeados, ao fim de tantos anos de vida nossa e de perda de vidas queridas , das quais as pequenas e grandes inutilidades envolventes acabaram vindo “desaguar” na minha envolvência ,fazendo da minha casa uma enorme acumulação de “teres” dos quais é preciso cuidar ,Deus sabe com quanta canseira...
Como ,com tudo isto, obter o tal abandono radical que certamente faria de mim uma pessoa infinitamente livre?
Então assaltou-me a ideia do blog, com que comecei. Será também para isso um blog...Um pouco como o canavial das canas do conto do Principe com Orelhas de Burro...
Fui educada em discrição, poucas palavras, ausência de palavras “pequeninas”, que é o nome que eu dou às palavras mimosas, de mimo mesmo. Trouxe portanto para a vida prática um vocabulário seco, estrito que depois fui aprendendo a enriquecer com as belas adjectivações , metáforas e ironias dos meus autores estudados, preferidos, alguns. E , nesta espécie de autodidatismo, comecei, muito novinha a impressionar-me muito , nas leituras do Novo Testamento, com a dureza das falas de JESUS. Há certas pasagens em que,à luz da educação que recebi, Ele chega a tocar as raias da má educação, na forma como fala à MÃE ou aos Pais. E como isso contrasta com os diminutivos amorosos que utilizam os autores das variadas Epístolas para se dirigirem aos pagãos que queriam cativar ! Creio que as contingências da maioria das traduções que nos vieram ter às mãos têm muito a ver com isso, mas será impossível, no entanto, deixarmos de ouvir Jesus dirigir-se à MÃE usando o vocativo “mulher”, tal como o usa para chamar a prostituta prestes a ser lapidada, ou a pobre doente que o persegue para que a cure.Diz-nos o Evangelho que Nossa Senhora via crescer o filho “em graça e sabedoria” e “Tudo guardava no seu coração”. Também ensinou assim as mulheres a erguerem nos seus corações os mais secretos templos de amor não exteriorizado...
E por aqui comecei hoje, na sequência das leituras da missa em que, por muito que as homilías quisessem adoçar, para nós ficou nitidamente claro que Jesus nos exige ,muito
concretamente, o abandono radical de toda e qualquer fraqueza humana de coração, para podermos segui-lo.DIFÍCIL !!!
Tanto mais difícil para mim esta semana PORQUE : 1- recebi visitas e recados com provas de tanto gostarem de mim, que foi inevitável aquele calorzinho no peito, que vem do orgulho; 2 - vi um filme na TV ( coisa que não é de meus hábitos) de que muito gostei porque me veio fornecer provas de coisas que eu sozinha tinha equacionado e além disso era um notável trabalho de actores; 3- tendo recebido a notícia da morte do “GRANDE” Pavarotti não me foi possível furtar-me a um reviver de muitas coisas lindas a ele ligadas pela sua espantosa voz e evitar uma ou duas lagrimitas, talvez piegas, talvez! ; 4- dona de casa à maneira de minha Mãe, ainda organizo, com a insubstituível Valentina, umas limpezas anuais à minha casa, às quais eu chamo “grandes manobras” e que me permitem ,em cada ano, verificar de quanta coisa inútil estamos nós rodeados, ao fim de tantos anos de vida nossa e de perda de vidas queridas , das quais as pequenas e grandes inutilidades envolventes acabaram vindo “desaguar” na minha envolvência ,fazendo da minha casa uma enorme acumulação de “teres” dos quais é preciso cuidar ,Deus sabe com quanta canseira...
Como ,com tudo isto, obter o tal abandono radical que certamente faria de mim uma pessoa infinitamente livre?
Então assaltou-me a ideia do blog, com que comecei. Será também para isso um blog...Um pouco como o canavial das canas do conto do Principe com Orelhas de Burro...
02 setembro 2007
É SETEMBRO
Extracto de Enfants de Septembre
de Patrice de la Tour du Pin
....je suis un enfant de Septembre,
moi-même, par le coeur, la fièvre et l'esprit,
et la brûlante volupté de tous mes membres,
et le désir que j'ai de courir dans la nuit
sauvage, ayant quitté l'étouffement des chambres...
Mais les bois étaient recouverts de brumes basses
et le vent commençait à remonter au nord,
abandonnant tous ceux dont les ailes sont lasses,
tous ceux qui sont perdus et tous ceux qui sont morts,
qui vont par d'autres voies en de mêmes espaces...
De Salvatore Quasimodo, traduzido por Ernesto Sampaio
E DE REPENTE É NOITE

Cada um está só, sobre o coração da terra
trespassado por um raio de sol:
e de repente é noite !
de Patrice de la Tour du Pin
....je suis un enfant de Septembre,
moi-même, par le coeur, la fièvre et l'esprit,
et la brûlante volupté de tous mes membres,
et le désir que j'ai de courir dans la nuit
sauvage, ayant quitté l'étouffement des chambres...
Mais les bois étaient recouverts de brumes basses
et le vent commençait à remonter au nord,
abandonnant tous ceux dont les ailes sont lasses,
tous ceux qui sont perdus et tous ceux qui sont morts,
qui vont par d'autres voies en de mêmes espaces...
De Salvatore Quasimodo, traduzido por Ernesto Sampaio
E DE REPENTE É NOITE

Cada um está só, sobre o coração da terra
trespassado por um raio de sol:
e de repente é noite !
28 agosto 2007
DORNES

...E quando eu já vinha toda cheia de lirismo acolchoado em todos os prazeres daquele impres-
sionismo que tem sempre as minhas preferências tanto na pintura, como na música, como nos Cesários pelos quais me apaixonei, acontece o tristíssimo episódio do falecimento do EPC que desviou do meu espírito toda a capacidade de encantamento com que Deus me dotou. E é aqui que entra algo que eu reputo de extraordinário e me é dado, assim, de bandeja, como soe dizer-se, pela net. Sento-me em frente do meu computador, completamente vazia, posso dizê-lo. E, recordando os meus passeios em férias, lembrei-me de que talvez a net me pudesse dar alguma informação histórica e sociológica sobre a vila de DORNES que, para mim fora já uma descoberta noutras férias e agora revisitara com um ainda maior enamoramento. De busca em busca, apresenta-se-me então, nem mais, nem menos do que um BLOG elaborado por apaixonados dornenses reunidos em torno de uma acesa disputa sobre a categoria autárquica da sua lindíssima terra.
E lá estava tudo e ainda mais , daquilo que eu procurava, um pouco por desfastio, naquela ocasião.Não resisti a apropriar-me de uma ou duas belas fotos sabendo como dificilmente obtemos bons angulos numa terra muito recortada como é Dornes.Vou tentar mostrá-las aqui,recomendando, no entanto, o Blog SALVEM A VILA DE DORNES.
sionismo que tem sempre as minhas preferências tanto na pintura, como na música, como nos Cesários pelos quais me apaixonei, acontece o tristíssimo episódio do falecimento do EPC que desviou do meu espírito toda a capacidade de encantamento com que Deus me dotou. E é aqui que entra algo que eu reputo de extraordinário e me é dado, assim, de bandeja, como soe dizer-se, pela net. Sento-me em frente do meu computador, completamente vazia, posso dizê-lo. E, recordando os meus passeios em férias, lembrei-me de que talvez a net me pudesse dar alguma informação histórica e sociológica sobre a vila de DORNES que, para mim fora já uma descoberta noutras férias e agora revisitara com um ainda maior enamoramento. De busca em busca, apresenta-se-me então, nem mais, nem menos do que um BLOG elaborado por apaixonados dornenses reunidos em torno de uma acesa disputa sobre a categoria autárquica da sua lindíssima terra.

E lá estava tudo e ainda mais , daquilo que eu procurava, um pouco por desfastio, naquela ocasião.Não resisti a apropriar-me de uma ou duas belas fotos sabendo como dificilmente obtemos bons angulos numa terra muito recortada como é Dornes.Vou tentar mostrá-las aqui,recomendando, no entanto, o Blog SALVEM A VILA DE DORNES.
25 agosto 2007
De vez em quando somos apanhados numa curva do caminho pacato que iamos percorrendo e desaba sobre nós, amarga, aquela imprevisibilidade, aquela instabilidade que, a toda a força, passamos a vida a querer esquecer ou disfarçar para podermos dar à nossa vida alguma alegria, algum estímulo.´Cristãos e Católicos temos o dever de não esquecer que o Filho do Homem virá na hora em que menos pensardes e que, como às jovens esposas da parábola, nos é recomendado :vigiai pois, porque não sabeis o dia nem a hora ( Evangelho de São Mateus,24 e 25). Somos porém pouco dados a estas meditações, mesmo sabendo-as tão verdadeiras como mais nada neste mundo ! Ora estava eu há uns dias bastante irritada com o que o Eduardo Prado Coelho tinha publicado na altura do centenário de Miguel Torga, apetecendo-me discutir com uma certa ironia as opiniões por ele expostas,e estava ele já tão doente, tão doente, que hoje veio a falecer...A notícia da sua morte caiu no final do meu almoço. como bomba arremessada pelo jornalista da televisão. Conheci os pais do Eduardo,foram meus colegas, assisti ao namoro, depois ao progresso rápido do Jacinto que,mais antigo e já assistente, chegou a dar-me aulas, soube do casamento e depois do nascimento do bébé...Nunca perdi de vista a carreira do Eduardo. Uma vez encontrámo-nos em Sintra, ambos na recepção de um hotel onde iamos estar uns dias.Falámos um pouco de tudo e, nessa altura, ele já estava em Paris e estava casado,claro. Era um rapaz simpático, muito gordo, a resplandecer bem-estar consigo próprio. Era,pelo menos, tão inteligente como os Pais. Viamo-nos por aí,às vezes, em eventos do nosso interesse comum: livros e Letras. Fiquei muito chocada por os meus mais próximos últimos pensamentos para ele serem da natureza que foram. Mas creio na compreensão algures...
24 agosto 2007
Regresso
Como é que, na minha idade , ainda se regressa de férias(mesmo que pequeninas) com tanto entusiasmo renovador para banir alguns hábitos, para encetar outras formas de fazer ou dizer, para começar mesmo qualquer coisa não tentada antes, para largar uma pele, qual crisálida boasinha ou serpente traiçoeira ? Lembro-me perfeitamente de voltar de São Pedro de Moel, no tempo em que férias eram enormes espaços entre anos lectivos, com a cabeça a fervilhar de projectos, com um arrebatamento mal contido para contar como fora e como iria passar a ser tudo aquilo que o estimulante ar do mar e do pinhal me tinha levado a planear...Diga-se , em abono da verdade, que as companhias, a convivência descomprometida, o deixar abrir em leque tudo o que podia dissecar sobre fosse o que fosse , com outros que não eram “os de todos os dias”, me abria as portas todas, por onde a minha jovem curiosidade desejava entrar...E parece-me que é por aí que ainda germina o que, nesta idade, me traz de volta para casa com uma vigorosa sensação de poder renovar, de ser capaz... Isto, para dizer quão feliz me torna a convivência com os meus amigos que me recebem em sua casa, como se não “recebessem”, fazendo-me sentir “de lá”. É que assim se abre um enorme hiato entre o que eu estou cansada de ser e aquilo que, com eles, me parece que sou... E então quero “ser” essa que afinal tem uma casa onde se sente tão bem, que fica só, mas não é mau porque dá para pensar, que se acolhe dentro das suas rotinas como quem retorna ao útero materno...Estranhíssima maneira de tudo mudar, deixando tudo na mesma, não é ? Espantoso efeito destas deliciosas férias ! ! !
14 agosto 2007
Férias
Chegou hoje o dia de abandonar as minhas viciantes rotinas para ir passar uns dias em casa dos meus amigos Teresa e João que fazem questão de oferecer-me ...hospitalidade na sua belíssima casa, plantada entre pinhais, numa vertente que escorre para um dos braços reentrantes em que se desmultiplica a enorme albufeira do Castelo de Bode.É uma paisagem de paz que contagia todos os habitantes da casa onde parece que é proibido inquietarmo-nos uns aos outros...Quem quer e pode, além de dormir,"retoiça" na piscina, estira-se na relva ou faz umas incursões exploratórias até à água da barragem. Sem falar no enorme prazer das longuíssimas conversas, moles, sem pressas, que podem ocorrer a qualquer momento do dia ou da noite, acontecidas a talhe de foice do que diz qualquer dos amigos presentes...Férias mesmo !E lá vou eu...
13 agosto 2007
Baptizado
Não posso, não quero, passar por cima do registo daquilo que foi a coisa mais enternecedora, mais engraçada, e, ao mesmo tempo, mais cansativa de tudo o que podia ter-me acontecido neste mês de Agosto. No dia 11, data marcada com antecedência de meses, foi a baptizar na igreja da minha paróquia do Campo Grande a primeira neta da minha empregada Valentina. Este baptizado foi projectado e programado até ao mais insignificante pormenor pelos pais da criança, emigrados no Luxemburgo, e por toda a família de cá, da parte do pai e da mãe da baptizada; e o espírito da festa foi alastrando como uma onda espraiada por toda uma família em diáspora por essa Europa fora...Claro que,para a "minha" Valentina, era impensável que eu não tomasse parte naquela que foi certamente a festa da vida dela. E eu não tinha olhos , nem sorrisos, nem emoção que bastassem para me maravilhar, naquele dia, com o que pode ser o verdadeiro amor de família, o espírito de comunidade de famílias de sete e onze filhos, todos dispersos, a acorrerem a um toque a reunir emanado de um país distante, porque um deles está feliz e quer que todos partilhem da sua felicidade!A cerimónia na igreja foi seguida com todo o respeito e cumpriram-se todos os actos tradicionais que acompanham a chegada de mais um cristão à casa do PAI.Quando, porém o senhor padre António sugeriu que se festejasse com um bonito coral de "parabéns" e muitas palmas esta chegada da ALÍCIA a mais esta enorme família cristã, foi uma explosão de alegria geral que só deixava prever como a alegria iria reinar daí para a frente. E foi. Nem quero falar na festa-banquete. Tudo o que é especialidade caboverdeana,tudo o que nos vários países onde vivem uns e outros foram aprendendo. tudo o que de Portugal já entrou nas tradições daquele povo, nada faltou.Foi uma orgia gastronómica! Num espaço amplo,cercado de jardins, cerca de trezentos parentes estiveram comendo e bebendo longamente,alegremente, e não vi um único deslize, algum abuso de bebida,alguma perda de compostura. Precisavam certamente de expandir as emoções dos encontros ? Pois foi assim que se entrou na dança e daí para a frente foi soberbo! Só quem já viu o povo caboverdeano dançar as suas próprias músicas,sabe da beleza de um tal espectáculo.A música parece que encarna naqueles corpos elegantíssimos de raparigas e rapazes e há uma mistura de movimentos e sons envolvente, inebriante... A vê-los, acabei por ficar tão cansada como se estivesse no centro daquela espécie de vórtice.Foram emoções a mais para quem, como eu, tem uma rotina serena e quase sem novidades. Mas um dia inesquecível com imensas lições que não podia supor ir ali receber.Estou mais uma vez grata à "minha" Valentina !
12 agosto 2007
Miguel Torga__100 anos
A minha ligação familiar com Joaquim Guilherme Gomes Coelho(Júlio Dinis) nunca me fez experimentar uma proximidade tão afectiva como a que sempre me prendeu a Miguel Torga a quem apenas me ligaram umas dúzias de palavras escritas e trocadas numa sempre cerimoniosa cordialidade.Foi ele quem indicou a meu PAI,numa conversa de amigos comuns dos dois, em COIMBRA, uma editora que ele acreditava que aceitaria de bom grado publicar a minha primeira meia dúzia de sonetos que eu ensopara da influência de Florbela e achava bons para mostrar.Foi ele quem, uma vez publicados os tais sonetos, teve a paciência de me escrever umas palavras de estímulo e alguns conselhos sobre as vicissitudes a que fica sujeito quem alguma vez decide editar. Tantos anos passados,tenho verificado que,nos compêndios dos meus alunos, Torga é sempre atirado para um muito recôndito plano, como se não valesse muito a pena sequer lê-lo, quanto mais estudá-lo. E qual não é o meu espanto quando há dias leio um artiguinho de Eduardo Prado C oelho no qual, aliviando a consciência a dizer bonitas coisas sobre o cidadão irrepreensível,corajoso , intransigente, e digno,se permite dizer que"por motivos que não serão fáceis de explicar, a obra poética de Torga nada tem a ver com a poesia que hoje se escreve em Portugal". .Diz mais "os seus versos deixam-me quase sempre num estado de indiferemça e nunca me dão o prazer da leitura..."Como assinante do Jornal de Letras, fiquei feliz ao verificar que este jornal dedicou a Torga e ao seu centenário quase todo o número de 1 de Agosto,mas Prado Coelho,sob a diplomática capa de achar isto justo em termos de história literária, não resiste a dizer que"num contexto intelectual não muito estimulante, o aparecimento das obras de Torga e até de Régio foram uma novidade tão retumbante que .em termos só de história literária ,valia a pena o relevo dado pelo Jornal de Letras.E pronto ! Fiquei então agora mesmo a saber que a intelectualidade estimulada não gosta de Torga e o considera um poeta( ? ) de 2ª que ficou a dever alguma notoriedade principalmente à época política em que apareceu tão corajoso e digno a dizer algumas coisas que mais ninguém dizia. Bem, isto daria para armarmos uma interessante polémica, se , em vez do filho se tratasse do pai Prado Coelho de quem fui aluna e que recordo com respeito. Por agora quero apenas afirmar com toda a força que amo oTorga a ponto de ter a ousadia de sonhar seguir o seu modelo. Realmente a poesia que hoje se faz em Portugal,marca uma época nova, mas não vamos desgostar-nos de Camões só porque tivemos a graça de encontrar Sophia... E, do tempo dos sonetos, quero mesmo deixar aqui o que se segue:
A MIGUEL TORGA
Homem inteiro és.Na tua fé
a mesma seiva pura que há na terra.
Quando, junto de ti, a Vida erra,
sofres por ela ser tal como é.
Sofres.Descrês.E blasfemas até.
É o não poderes nada que te aterra.
Mas na crença no Mundo que te encerra
é que tu, naufragado, encontras pé.
Irmão de homens e plantas e animais,
podes ,nos teus penhascos ver ainda
promessas novas de que esperas mais...
E todas as verdades principais
hão-de vir-te ao caminho.E a sua vinda
é que te abre os caminhos por onde vais.
A MIGUEL TORGA
Homem inteiro és.Na tua fé
a mesma seiva pura que há na terra.
Quando, junto de ti, a Vida erra,
sofres por ela ser tal como é.
Sofres.Descrês.E blasfemas até.
É o não poderes nada que te aterra.
Mas na crença no Mundo que te encerra
é que tu, naufragado, encontras pé.
Irmão de homens e plantas e animais,
podes ,nos teus penhascos ver ainda
promessas novas de que esperas mais...
E todas as verdades principais
hão-de vir-te ao caminho.E a sua vinda
é que te abre os caminhos por onde vais.
08 agosto 2007
Uma data,uma memória
Dos amigos que fomos perdendo ficaram-nos sempre alguns instantes,quase sempre fugazes, que temos a sensação de ter roubado da esteira das suas vidas e que adquiriram para nós o valor de um pequeno tesouro que, de maneira quase avarenta, vamos revisitando, recontando, para nos certificarmos de que não nos estará faltando alguma peça. Na bolsa das recordações, a morte é sempre uma mais valia ! Como me surpreendo hoje a compreender tão bem e até a corroborar opinões, conceitos e exigências daqueles que, em sua vida, julguei com dureza( ás vezes com raiva) e até combati !... Saudade,gosto amargo de infelizes... como diz o poeta.Não há datas marcadas na nossa forma de ser amigo, ou filho ,ou viuvo, mas as datas,recorrentes, quando vêm ao nosso encontro, põem-nos esse tal gosto amargo,não na boca, mas na alma. É por isso que´são bons os tais instantes roubados, flashes que dão uma luminosidade única à nossa mais tímida recordação...
04 agosto 2007
Crepúsculo
Afinal há mais abordagens e outras juventudes...E eu nunca deixo de ter novas coisas a aprender!...
1-Do poeta grego AGELLOS SIKELLIANÓS
E eu tinha os olhos cheios
mas tão cheios de luz,
que,se fechasse as pálpebras,
ela jorraria como pranto,
como pranto- abrindo-se
em flores orvalhadas.
A luz cavava sulcos
em meu cérebro,aligeirando-o
como à árvore o vento
que lhe atira os frutos
ao chão,e aí,
libertas,as folhas
frondejam nas alturas
com um novo frémito.
A luz cavava sulcos
em meu cérebro e corria-me
pelas veias,lenta,calma...
2-DO POETA JAPONÊS FUJIWARA TEIKA
Por cobertura,
quando o vento do outono entardece
na noite que espera,
a dama da Ponte da Saudade
estende o luar...
Tradutores: 1-José Paulo Paes
2-Stephen Reckert
1-Do poeta grego AGELLOS SIKELLIANÓS
E eu tinha os olhos cheios
mas tão cheios de luz,
que,se fechasse as pálpebras,
ela jorraria como pranto,
como pranto- abrindo-se
em flores orvalhadas.
A luz cavava sulcos
em meu cérebro,aligeirando-o
como à árvore o vento
que lhe atira os frutos
ao chão,e aí,
libertas,as folhas
frondejam nas alturas
com um novo frémito.
A luz cavava sulcos
em meu cérebro e corria-me
pelas veias,lenta,calma...
2-DO POETA JAPONÊS FUJIWARA TEIKA
Por cobertura,
quando o vento do outono entardece
na noite que espera,
a dama da Ponte da Saudade
estende o luar...
Tradutores: 1-José Paulo Paes
2-Stephen Reckert
29 julho 2007
Reflexões sobre as leituras da liturgia de hoje
Os três textos encerram lições que sempre têm “mexido” comigo de uma maneira muito peculiar, cada um por uma razão distinta. O problema da justiça nas repreensões ou mesmo punições a dar àqueles que prevaricam, podendo essa punição vir a projectar-se no todo de que o prevaricador é parte, é de facto um grande embaraço para quem se vê na contingência de ter que castigar. Na verdade, assalta-me a grande dúvida sobre apenas um conceito: a Justiça. A preocupação de Abraão quando se atreve a insistir, e insistir, e insistir, junto de Deus, sobre as hipóteses possíveis nas cidades do pecado, não é outra senão a preocupação sobre a justiça, mesmo sendo Deus a entender aplicá-la. E afinal o que aprendemos nós com a atitude de Deus? Que o que prevalece são os critérios de misericórdia e de perdão, visionando nós, como pano de fundo, os méritos da solidariedade. A possibilidade da nova oportunidade não é sequer aflorada neste episódio do Génesis mas Jesus permite-a mais tarde . “ Vai e não voltes a pecar”, além de ser uma enorme caridade é uma extraordinária prova de confiança que eu creio que ninguém teria jamais coragem de trair...E é dentro desse espírito de perdão e confiança que São Paulo vem depois dizer que nós somos todos já” ressuscitados”, considerando metaforicamente que os nossos pecados, pelos quais Jesus se deixou morrer, eram a nossa morte, antes de tão espantosa purificação. Aprendemos pois a contar com todas as benevolências divinas de tal modo que perdemos todo o pudor face ao nosso Deus e quase deixámos de saber falar-lhe porque em permanência e quase exclusivamente temos coisas a “PEDIR”.São Lucas reporta que JESUS terá estimulado os discípulos a pedir “Pedi e dar-se-vos-á” mas antes ensinou-lhes como e O que pedir, Aqui nasce a nossa oração de acesso ao Pai que nós já banalizámos tanto que quase já nos sai mais dos lábios do que do coração. Pensar, de vez em quando, em cada uma das frases do PAI-NOSSO é pois necessário ...e urgente. Porque seremos ouvidos; mas irá junta alguma parcela também do nosso Amor...
25 julho 2007
Fátima 3
Não foi nenhuma peregrinação de data, comemoração ou comunidade instituidas. Fui ontem a Fátima, primeiro porque sentia saudades de respirar o que lá se respira, depois porque me pareceu particularmente apropriado levar lá, convidadas por mim, umas pessoas especiais. Individualizando :uma amiga que me cumula de "miminhos" quase diários, formatados em bolos, bolinhos e doces e cuja viuvez recente ainda não lhe ensinou tanto quanto a minha; uma jovem mãe com a sua filha de onze anos, residentes no Rio de Janeiro há muitos anos, mas de nacionalidade portuguesa, e agora de visita à família e seus amigos, em clima de matar saudades , a mais velha, e de afivelar laços a este país tão seu quanto desconhecido, a mais nova.Para melhor dizer, esta nasceu mesmo no Rio e, tendo mantido a nacionalidade portuguesa, só agora começa a aperceber-se do que é ter uma pátria do outro lado do mar e tem curiosidades inerentes a essa realidade.Sou( o que se pode dizer com propriedade) uma velha amiga desta família, amizade que nasceu nas aulas que dei à sua terceira geração, contando desta brasileirinha para trás. Por isso, sei o quanto e o como da irreliogiosidade dos que viveram sempre aqui e maravilho-me perante a Graça de Deus que fez cristãs, crentes e praticantes, as que espiritualmente se fizeram pessoas no Brasil. E porque esta diferença existe, nunca haveria alguém da família que pensasse em avivar ou revelar locais, usos e tradições religiosos tão nossos, a estas duas portuguesinhas em visita que, por ser curta, já tinha uma programação repleta de lindas coisas,preparadas com muito amor mas onde ninguém se lembra de que a Fé é também cordão umbilical. E lá fomos nós a Fátima. O dia esteve glorioso, sem frio nem calor,sem vento e duma limpidez transparente como eu só conheço naquelas serras. Por isso mesmo, pudemos ir visitar o Calvário dos Hungaros que é o meu local preferido, fora do Santuário. Será escusado pormenorizar todo aquele dia de isto é porque... ali diz-se que...imagina que...aqui costuma ser...Percebi um enorme impacto provocado pelo conjunto de factos presenciados com o ambiente, a luz, o reboar dos sinos, a atitude das pessoas também em visita...Algo de novo surgiu aos olhos da menina e gravou naquele coraçãozinho o que a levou a dizer-me em certo momento:"Estou tão feliz !"com aquele adocicado do falar brasileiro.Nunca esteve nos meus planos fazer qualquer espécie de proselitismo de trazer por casa mas quem ficou muito feliz fui mesmo eu, porque, ao regressarmos a Lisboa, todas traziam no rosto um brilho feliz que é mais eloquente do que muitas palavras. Até a minha amiga mais velha vinha descontraída e leve. Como eu !... E para o Brasil vão voar, daqui a dias, uma, duas ou três dezenas de fotografias que mãe e filha tiraram para mostrar ao pai que não veio e não viu, ele sim brasileiro, católico, praticante, na Fé que é também Amor...
21 julho 2007
10 julho 2007
LISBOA
Lisboa à beira da barra,
Lisboa à beira de mim,
Meu rio, barco e amarra,
Ida e volta, meu sem-fim...
Minha Lisboa ! Nunca assim falei da cidade que é minha mesmo, como é convencional dizer.se da terra onde se nasceu. A minha terra é Leiria.Esta é uma realidade que endossei mas que não sinto correr.me nas veias. Pelo afecto essencial, pela aderência física, pela génese das memórias, pela imanência espiritual, pelas cumplicidades culturais, eu tenho aquela terra que me tem, plena e despreconceituosamente, e essa terra é Lisboa. Nela fui menina e mulher, nela amei, nela sofri, com ela aprendi códigos e tradições, Nela FUI.Nela ESTOU SENDO. E estou tentando acompanhá-la nas vicissitudes do seu desenvolvimento, ou, melhor dizendo, do seu crescimento. Porque Lisboa mais tem crescido,em comprimento, largura e altura, não sendo bem a isto que se chama desenvolvimento. Passando por muitas mãos executoras das ideias, opiniões, credos políticos, ou mesmo convicções de muitas cabeças pensantes, Lisboa arruinou-se, remendou-se, engalanou-se, endividou-se e continua linda a seduzir-nos com as suas claridades e os seus lusco-fuscos, com os seus altos e baixos, praças largas ou recantos esconsos, modernices ou antiguidades... Suponho que é por estas razões todas que se encarniçam os políticos quando,democraticamente, vai a votos a governação desta linda cidade-mulher( como diz aquele fado ) . Desta vez há nada menos do que doze candidatos pretendendo governá-la, cada qual acreditando que conhece o segredo de a tornar melhor, mais europeia, mais rica...diferente. Estive a ouvi-los e ficou.me um travo na garganta, uma inquietação mal definida... Que Lisboa, senhores, que LISBOA será essa, senhores, que nos querem dar, a nós que amamos esta tanto ?...
Lisboa à beira da barra,
Lisboa à beira de mim,
Meu rio, barco e amarra,
Ida e volta, meu sem-fim...
Minha Lisboa ! Nunca assim falei da cidade que é minha mesmo, como é convencional dizer.se da terra onde se nasceu. A minha terra é Leiria.Esta é uma realidade que endossei mas que não sinto correr.me nas veias. Pelo afecto essencial, pela aderência física, pela génese das memórias, pela imanência espiritual, pelas cumplicidades culturais, eu tenho aquela terra que me tem, plena e despreconceituosamente, e essa terra é Lisboa. Nela fui menina e mulher, nela amei, nela sofri, com ela aprendi códigos e tradições, Nela FUI.Nela ESTOU SENDO. E estou tentando acompanhá-la nas vicissitudes do seu desenvolvimento, ou, melhor dizendo, do seu crescimento. Porque Lisboa mais tem crescido,em comprimento, largura e altura, não sendo bem a isto que se chama desenvolvimento. Passando por muitas mãos executoras das ideias, opiniões, credos políticos, ou mesmo convicções de muitas cabeças pensantes, Lisboa arruinou-se, remendou-se, engalanou-se, endividou-se e continua linda a seduzir-nos com as suas claridades e os seus lusco-fuscos, com os seus altos e baixos, praças largas ou recantos esconsos, modernices ou antiguidades... Suponho que é por estas razões todas que se encarniçam os políticos quando,democraticamente, vai a votos a governação desta linda cidade-mulher( como diz aquele fado ) . Desta vez há nada menos do que doze candidatos pretendendo governá-la, cada qual acreditando que conhece o segredo de a tornar melhor, mais europeia, mais rica...diferente. Estive a ouvi-los e ficou.me um travo na garganta, uma inquietação mal definida... Que Lisboa, senhores, que LISBOA será essa, senhores, que nos querem dar, a nós que amamos esta tanto ?...
08 julho 2007
7-07-2007
É curioso como nós sentimos que, quanto mais vamos avançando na idade, menos os outros nos vão conhecendo, mas também menos nós vamos tendo necessidade de nos darmos a conhecer.
Confesso que é até um certo prazerzinho perverso o apercebermo-nos de quanto se estão a enganar a nosso respeito ao atribuirem-nos gostos, qualidades, defeitos, manias, que já poderão ter-nos qualificado alguma vez, numa vida que ficou para trás, mas que, no momento actual, tiveram a sua deriva natural e são já outros... É que se vai perdendo tanta coisa com o andar da vida, que é com uma espécie de avareza que nos resguardamos e guardamos só para nós este tesouro de, afinal, não sermos bem aquilo que eles pensam saber de nós...
Tudo isto me ocorreu agora, justamente pela contrária! Houve quem se lembrasse do meu fascínio pelos veleiros que é de sempre e, este, perdura. Levaram-me pois a vê-los, agora que se está a realizar o Campeonato do Mundo dos barcos que irão depois às Olimpíadas. Naquele mais mar que rio e ainda rio a encontrar o mar, de Cascais para o Guincho, é deslumbrante a presença das velas, a sua leveza e a sua capacidade de tornear os ventos, uns ventos ferozes, desabridos que podem ser desafio mas que também lhes podem ser indispensáveis... Todo este encantamento puramente estético da minha parte tem que ver com uma nunca satisfeia ambição de espaço aberto, de liberdade que não significa isso de que se fala e que eu creio que só quem anda no mar é que conhece.
E porque o vento era um excesso, e porque tivemos que estar sempre dentro e por detrás de vidros embaciados de sal, regressámos a outros confortos.
Tinhamos todos na cabeça a data de 7-7-2007. Uma incessante campanha produziu os seus efeitos e ninguém podia deixar de estar curioso pelo resultado de duas auscultações, uma só aos portugueses, outra a todos, de todo o Mundo, para que, sob um colossal consenso, o Mundo e o nosso país passassem a ter os seus Colossos de Rodes ou os seus Jardins suspensos de Babilónia... Uma estação de televisão fez a festa estrondosa e conheceu-se resultados no meio de muita música, muita luz, muita cor... Por acaso(seria?) uma outra estação de televisão fazia-se eco das enormes preocupações ambientais que, ameaçadoras, nos aconselham comedimento e engenho para poupar. POUPAR tudo, senão... Assim, encantada com o que me pareceu um bom prenúncio de possibilidades de entendimentos mundiais, desde que o que suscita esse entendimento seja reconhecidamente uma mais-valia para a Humanidade, não consegui contudo libertar-me da angústia de compreender que o ESPAÇO de cada um de nós está, minuto a minuto, a ficar mais restrito, sem que muitos de nós nos apercebamos disso...
Confesso que é até um certo prazerzinho perverso o apercebermo-nos de quanto se estão a enganar a nosso respeito ao atribuirem-nos gostos, qualidades, defeitos, manias, que já poderão ter-nos qualificado alguma vez, numa vida que ficou para trás, mas que, no momento actual, tiveram a sua deriva natural e são já outros... É que se vai perdendo tanta coisa com o andar da vida, que é com uma espécie de avareza que nos resguardamos e guardamos só para nós este tesouro de, afinal, não sermos bem aquilo que eles pensam saber de nós...
Tudo isto me ocorreu agora, justamente pela contrária! Houve quem se lembrasse do meu fascínio pelos veleiros que é de sempre e, este, perdura. Levaram-me pois a vê-los, agora que se está a realizar o Campeonato do Mundo dos barcos que irão depois às Olimpíadas. Naquele mais mar que rio e ainda rio a encontrar o mar, de Cascais para o Guincho, é deslumbrante a presença das velas, a sua leveza e a sua capacidade de tornear os ventos, uns ventos ferozes, desabridos que podem ser desafio mas que também lhes podem ser indispensáveis... Todo este encantamento puramente estético da minha parte tem que ver com uma nunca satisfeia ambição de espaço aberto, de liberdade que não significa isso de que se fala e que eu creio que só quem anda no mar é que conhece.
E porque o vento era um excesso, e porque tivemos que estar sempre dentro e por detrás de vidros embaciados de sal, regressámos a outros confortos.
Tinhamos todos na cabeça a data de 7-7-2007. Uma incessante campanha produziu os seus efeitos e ninguém podia deixar de estar curioso pelo resultado de duas auscultações, uma só aos portugueses, outra a todos, de todo o Mundo, para que, sob um colossal consenso, o Mundo e o nosso país passassem a ter os seus Colossos de Rodes ou os seus Jardins suspensos de Babilónia... Uma estação de televisão fez a festa estrondosa e conheceu-se resultados no meio de muita música, muita luz, muita cor... Por acaso(seria?) uma outra estação de televisão fazia-se eco das enormes preocupações ambientais que, ameaçadoras, nos aconselham comedimento e engenho para poupar. POUPAR tudo, senão... Assim, encantada com o que me pareceu um bom prenúncio de possibilidades de entendimentos mundiais, desde que o que suscita esse entendimento seja reconhecidamente uma mais-valia para a Humanidade, não consegui contudo libertar-me da angústia de compreender que o ESPAÇO de cada um de nós está, minuto a minuto, a ficar mais restrito, sem que muitos de nós nos apercebamos disso...
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